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TEORIA GERAL DO PROCESSO PROF. DANIEL ROXO DE PAULA CHIESSE Aula 01 OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: O presente material é apenas um guia, uma orientação de estudos. Apesar de conter trechos de livros de doutrinadores, NÃO SUBSTITUI A LEITURA das obras indicadas pela Instituição de Ensino, as quais deverão ser lidas. Este material é apenas um complemento. SOCIEDADE E DIREITO O homem é um animal social. Não consegue sobreviver sozinho, precisa dos demais. Une-se aos outros de forma livre e consciente, com a finalidade de consecução do bem comum. A essa união do homem, de forma a proteger-se mutuamente, de forma a atingir o bem comum, chamamos de sociedade. As relações humanas para que seja ordenadas para o BEM COMUM, submetem-se a uma PROPORÇÃO. Essa proporção justa nas relações humanas é o que entendemos como direito. O direito, é, pois, a expressão do justo, ou o objeto da justiça. Essa é a primeira noção do direito – VONTADE CONSTANTE E PERPÉTUA DE DAR A CADA UM O QUE SEU (Ulpiano). Mas existem diversas outras acepções do que vem a ser direito. Para a ciência do processo, concebe-se o DIREITO como FATO SOCIAL, ou seja, o complexo de regras da convivência humana, estabelecido por normas escritas ou oriundas do costume, sempre, porém, tendo como objeto o justo. DIREITO NATURAL A lei confere o direito ou a lei reconhece o direito? Quem vem primeiro, a lei ou o direito? Em verdade, o direito antecede à lei. O direito natural deve ser o fundamento do direito constituído. A lei que desatende o direito natural é mero produto do arbítrio legislativo. DIREITO POSITIVO Embora fundamento do Direito, o direito natural não se impõe por si próprio. Para completar a sua obrigatoriedade e fazer efetivos os seus comandos é que existe o direito positivo, o qual se resume no direito sancionado pela autoridade social. O ordenamento jurídico, ou direito objetivo, se compõe das leis promulgadas pelo poder competente. São os textos legais, a Constituição, as normas infra-legais, os regulamentos administrativos.... LIDE – PRETENSÃO RESISTIDA A convivência social entre os homens não é pacífica, ao contrário, o concurso, a disputa, ainda que leal e não traumática, caracteriza a tendência dos indivíduos. Todavia, diante da realidade que os bens existem em número finito, e já os interesses dos homens sobre esses mesmos bens finitos são infinitos, momentos há em que os conflitos de interesses não se resolvem pacificamente. O QUE SE BUSCA – SOLUÇÃO DOS CONFLITOS, DOS LITÍGIOS. Retomando... O homem é um ser social. Vive em comunidade. E em virtude dessa necessidade de viver em comunidade surge a necessidade de organização. “Um agrupamento social, ainda que rudimentar, somente pode ser entendido como um mínimo de organização, pois comunidade sem organização é algo inadmissível, como também não se concebe organização sem direito.” Contudo, ao se analisar um agrupamento social, podemos verificar que nele, os homens apresentam vontades próprias, interesses particulares, com necessidades distintas, surgindo daí pretensões e conflitos entre as pessoas. Carreira Alvim destaca alguns elementos que merecem atenção. Necessidade – traduz-se numa situação de carência ou desequilíbrio biológico ou psíquico. É uma relação de dependência do homem para com algum elemento que serve para que o homem sobreviva ou que se aperfeiçoe social, política e culturalmente. A necessidade é satisfeita mediante determinados elementos, quais sejam, os bens. Bens (ou bens da vida) – Bem é tudo aquilo que é apto para satisfazer ou que satisfaz a uma necessidade. Tanto podem ser os bens materiais (água, alimento, vestuário, …) como os bens imateriais (paz, liberdade, honra…). Utilidade – é a capacidade ou aptidão de um bem para satisfazer a uma necessidade. DE UM LADO TEMOS OS HOMENS COM SUAS NECESSIDADES E, DE OUTRO, OS BENS COM SUA UTILIDADE. A necessidade e a utilidade despertam o interesse do homem pelo gozo dos bens da vida. Interesse – é a posição que existe entre uma necessidade e um bem. “Se o homem tem fome e tem alimento à sua disposição, está numa posição de interesse; se, porém, não tem fome, mas tem o alimento, não está numa posição de interesse.” Distingue-se o interesse em imediato e mediato. Interesse imediato é quando uma situação se presta diretamente à satisfação de uma necessidade. (assim, a situação de quem possui o alimento presta-se diretamente à satisfação da necessidade de alimentar-se). Interesse mediato é quando a situação apenas indiretamente presta-se à satisfação de uma necessidade, vez que pode derivar de uma outra situação. (assim, a situação de quem possui apenas o dinheiro para adquirir o alimento). O interesse ainda pode dividir-se em individual e coletivo; primário e secundário. Como os bens são limitados, ao contrário das necessidades humanas que são ilimitadas, surge entre os homens, relativamente a determinados bens, choques de forças que caracterizam o conflito de interesses, e os conflitos são invitáveis no meio social. Ocorre conflito entre dois interesses, quando a situação favorável à satisfação de uma necessidade exclui, ou limita, a situação favorável à satisfação de outra necessidade. Exemplo. Uma pessoa possui a necessidade de alimentar-se e de vestir-se, contudo, possui dinheiro apenas para uma dessas necessidades. A situação favorável de satisfazer a necessidade de alimentar-se exclui (ou limita) a situação favorável da outra necessidade que é vestir-se. Nesse caso temos um conflito subjetivo (conflito “dentro” da mesma pessoa). Esse conflito se resolve com facilidade com o sacrifício do interesse menor em favor do interesse maior Interessa mais ao direito quando o conflito ocorre entre duas pessoas. Tem particular importância ao Estado na medida em que pode ocorrer um tentativa de solução a esse conflito de forma violenta, quando ambos os interessados recorrem à força, para fazer com que seu interesse prevaleça sobre o interesse do outro. Esse conflito de interesses tende-se a diluir-se no meio social, mas, se isso não acontece, levando os contendores a disputar efetivamente o bem da vida, para satisfação de suas necessidades, delineia-se aí uma PRETENSÃO. PRETENSÃO – Vontade de um dos sujeitos concretizada na “exigência de subordinação do interesse alheio ao seu interesse próprio”. Quando aquele cujo interesse deveria ser subordinado não concorda com essa subordinação, ele opõe, então, RESISTÊNCIA à pretensão. A resistência é a oposição a uma pretensão. Quando à pretensão do titular de um dos interesses em conflito, opõe o outro resistência, o conflito assume feições de uma verdadeira LIDE, ou litígio. LIDE – CONFLITO DE INTERESSES QUALIFICADO PELA PRETENSÃO RESISTIDA OU INSATISFEITA. (CARNELUTTI) O conflito de interesses é uma lide, enquanto uma das pessoas formula, contra a outra, uma pretensão e esta outra opõe-lhe uma resistência. A lide precisa ser solucionada, para que não seja comprometida a paz social e a própria estrutura do Estado, pois o conflito de interesses é o germe da desagregação da sociedade. NOÇÕES PRÉVIAS DE JURISDIÇÃO, AÇÃO E PROCESSO Jurisdição. A sociedade juridicamente organizada atribui à autoridade por ela constituída o poder de dirimir controvérsias, ou, dito de uma outra maneira, o Estado regularmente constituído avocou para si o poder dever de dirimir as controvérsias. Jurisdição vem de ius dicere – dizer o direito. É a tarefa do Estado em dizer o direito. Diz-se que o Estado monopolizou a jurisdição, impedindo a justiça privada. Hoje o ius dicere é função estatal. Ação. Tendo o Estado avocado a jurisdição, quando as partes necessitam dirimir qualquer conflito em que se acham envolvidos, exercem o direito de ação, buscando a tutela jurídica. O acesso à justiça tem esse primeiro e formal conceito de invocação do Poder Judiciário. Processo. O instrumento de que se utiliza o Estado para desenvolver a sua atividade jurisdicional na solução de cada litígio é o processo. Direito Processual Civil. A ciência que estuda a jurisdição, seus caracteres e omodo de sua atuação, bem como o conjunto de normas e princípios que disciplinamo direito de agir e a atividade do juiz (não Penal) e das partes no processo (não Penal), constitui o direito processual civil. Procedimento. O exercício do direito de ação desencadeia a atuação jurisdicional e instaura o processo, que se desenvolve por uma sucessão de atos subordinada a regras e princípios, cujo método de trabalho se denomina procedimento. As atividades de jurisdição podem ser: a) De cognição (conhecimento); b) De execução; c) Cautelar. TEORIA GERAL DO PROCESSO A jurisdição é UNA no sentido de que dizer o direito é a mesma atividade, seja para dirimir conflito na esfera penal, civil ou trabalhista. Cândido Rangel Dinamarco justifica a existência de uma teoria geral do processo pela “condensação científica de caráter metodológico”, porque existe muito em comum entre os vários ramos processuais, não sendo suficientes as peculiaridades de cada uma “a impedir ou a tornar menos frutífero o exame global dos grandes princípios, dos institutos fundamentais e do método comum”. image1.png