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Crises e síndromes epilépticas 2a Edição Cr is es e s ín dr om es e pi lé pt ic as - 2a E di çã o Elza Márcia Targas Yacubian Silvia Kochen Apoio: METABÓLICA ESTRUTURAL GENÉTICA IMUNE INFECCIOSA DESCONHECIDA ETIOLOGIA COMORBIDADES TIPOS DE CRISES SÍNDROMES EPILÉPTICAS TIPOS DE EPILEPSIAS Elza Márcia Targas Yacubian Silvia Kochen Crises e síndromes epilépticas 2a Edição Crises e síndromes epilépticas Copyright © 2023 – Elza Márcia Targas Yacubian e Silvia Kochen Proibida a reprodução total ou parcial desta obra, por qualquer meio ou sistema, sem prévio consentimento da editora, ficando os infratores sujeitos às penas previstas em lei. Todos os direitos desta edição reservados a: Leitura Médica Ltda. Projeto Gráfico e Arte: Almir Roberto Av. Brigadeiro Luís Antônio, 1.700 Bela Vista – São Paulo, SP CEP 01318-002 – Telefax: (11) 3151-2144 E-mail: contato@lmedica.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Yacubian, Elza Márcia Targas. Kochen, Silvia. Crises e síndromes epilépticas / Elza Márcia Targas Yacubian, Silvia Kochen. – São Paulo : Leitura Médica Ltda., 2023. ISBN 978-85-61125-46-2 Bibliografia 1. Epilepsia 2. Sintomatologia I. Yacubian, Elza Márcia Targas II. Kochen, Silvia. III. Título Índice para catálogo sistemático: 1. Crises epilépticas : Semiologia : Neurologia : Medicina Impresso no Brasil 2023 Profa. Dra. Elza Márcia Targas Yacubian Unidade de Pesquisa e Tratamento das Epilepsias, Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo, Brasil. Profa. Dra. Silvia Kochen Centro de Epilepsia, Divisão de Neurologia do Hospital R. Mejia do Instituto de Biologia Celular e Neurociências da Universidade de Buenos Aires, Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica. Buenos Aires, Argentina. Crises e síndromes epilépticas As últimas décadas testemunharam avanço considerável nos conhecimentos das crises epi- lépticas e das epilepsias mediante a contribuição da videoeletroencefalografia, dos estudos estruturais e funcionais do sistema nervoso, como ressonância magnética, tomografia por emissão de fóton único, tomografia por emissão de pósitrons e aplicação de técnicas gené- ticas. A classificação do(s) tipo(s) de crise(s) epiléptica(s) e das epilepsias é o passo inicial e fundamental na avaliação de eventos de natureza epiléptica. Em 2017 foram publicadas oficialmente pela International League Against Epilepsy (ILAE) a Classificação das Crises Epilépticas e a Classificação das Epilepsias e, em 2022, a Classificação e Definição das Síndromes Epilépticas. A proposta deste texto é atualizar os conhecimentos dos estudantes, residentes e profissio- nais interessados na área de Classificação das Crises Epilépticas e das Epilepsias, estágio fundamental para a programação de exames complementares e instituição terapêutica. Na nossa forma de entender, embora existam propostas para a classificação das crises epi- lépticas com base na fenomenologia comportamental, acreditamos que o EEG representa um instrumento importante e, algumas vezes, fundamental para estabelecer o diagnóstico correto. Assim, na presente abordagem não poderíamos nos restringir puramente à análise semiológica dos eventos críticos e optamos por utilizar, sempre que necessário, o conceito clássico de correlação eletroclínica. Em um futuro próximo, é possível que tenhamos a nova ou as novas classificações oficiais da ILAE. Estão sendo discutidos formatos modulares de classificação para vários propósi- tos, como ensino, ensaios clínicos, estudos epidemiológicos e tratamento cirúrgico. Muito provavelmente tais esquemas exigirão tempo considerável até que sejam testados e aceitos internacionalmente. Elza Márcia Yacubian e Silvia Kochen Janeiro de 2023 Índice Seção 1 - Classificação das crises epilépticas ............................................................................. 9 Zona epileptogênica ............................................................................................................................12 Seção 2 - Semiologia das crises focais ...................................................................................... 17 Crises de início focal perceptivas não motoras ...............................................................................19 Crises focais com manifestações motoras ......................................................................................26 Crises focais especiais .........................................................................................................................33 Crises epilépticas com fenômenos negativos ..................................................................................33 A semiologia dos lobos cerebrais .........................................................................................................36 1. Crises epilépticas frontais ..........................................................................................................36 Crises pré-centrais ..................................................................................................................38 Crises pré-motoras ...................................................................................................................38 Crises pré-frontais ....................................................................................................................39 Crises pré-frontais dorsolaterais ........................................................................................39 Crises pré-frontais mesioventrais ........................................................................................40 2. Crises epilépticas temporais ............................................................................................................40 Epilepsia mesial do lobo temporal com esclerose hipocampal .......................................................40 Definição ............................................................................................................................40 Semiologia clínica ..............................................................................................................44 Epilepsias da região perissilviana ..................................................................................................46 1. Crises que se originam na região perissilviana temporal anterior ...................................46 2. Crises que se originam na região perissilviana temporal medial ....................................47 3. Crises que se originam na região perissilviana lateral .....................................................48 4. Crises que se originam na região perissilviana posterior .................................................48 3. Crises epilépticas do córtex posterior ............................................................................48 Crises epilépticas do lobo occipital ................................................................................................48 Crises com manifestações visuais simples e complexas .....................................................49 Manifestações visuais positivas ..........................................................................................49 Manifestações visuais negativas .........................................................................................50 Outros sinais ......................................................................................................................50 Crises epilépticas do lobo parietal .................................................................................................52 Crises focais não motoras sensoriais ........................................................................................52 Fenômenos positivos .........................................................................................................52 Fenômenos negativos .........................................................................................................52durante a crise indica a região do córtex motor que tem repre- sentação somatotópica, permitindo distinguir as crises originadas na região dorsal daquelas da região pré-central medial. Outra forma de epilepsia que se origina nessa área e na região pós-central parietal é a epi- lepsia reflexa. É um fenômeno crítico raro, que corresponde a cerca de 1% das epilepsias focais, caracterizada por crises desencadeadas por estímulos cutâneos ou por movimentos de uma parte do corpo. Manifesta-se por posturas tônicas, frequentemente assimétricas, e por abalos clônicos. A etiologia está relacionada à hiperexcitabilidade do córtex rolândico sensitivo-motor. Outro tipo de crise que pode se originar dessa área é a epilepsia parcial contínua. Nela, as crises permanecem por horas, dias, semanas ou meses. O processo subjacente a essa forma de epilepsia é um processo autoimune, denominado encefalite de Rasmussen, ou lesões vasculares, malformativas e/ou tumorais. Crises pré-motoras As crises que se originam na AMS são caracterizadas por sinais posturais tônicos, com pre- domínio proximal, em geral bilaterais e assimétricos. Os membros superiores são frequente- 39 Semiologia das crises focais mente envolvidos, sendo observada a clássica “postura de esgrimista” ou uma variedade de posturas tônicas. Há versão (desvio) da cabeça e dos olhos (pelo envolvimento da área frontal dos olhos). O desvio pode ser ipsilateral ou contralateral à ZE. A interrupção da linguagem, ou ‘speech arrest’ ou a vocalização (característica da palilalia), também pode ocorrer quando há envolvimento da área de linguagem opercular. Se a descarga se propaga à área opercular e à região central baixa, podem se observar contrações clônicas faciais e salivação. Ulterior- mente podem ocorrer movimentos complexos dos quatro membros. Sensações subjetivas ou auras são pouco frequentes nesse tipo de crises, mas alguns pacientes descrevem sintomas sensoriais, como sensação de sentir-se enfermo, sensação de opressão ou formigamento, po- dendo ser generalizados ou localizados.43 Crises pré-frontais A semiologia das crises pré-frontais é variável e ainda necessita de caracterização com- pleta. É possível distinguir as crises originadas em nível dorsal das originadas em nível ventral.11,41 Crises pré-frontais dorsolaterais Frequentemente há desvio tônico ocular que antecede o desvio da cabeça, acompanhado de automatismos gestuais dirigidos para onde ocorre o desvio dos olhos. Esses movimentos podem parecer propositais, quando, por exemplo, o paciente parece buscar algo no campo visual para onde dirige o desvio dos olhos. São observados também movimentos distais da mão e palmar, que parecem compulsivos, denominados “atitudes forçadas” ou condutas pseudocompulsivas. Podem ser associados a posturas tônicas ou distônicas assimétricas dos membros superiores ou inferiores. Podem ocorrer automatismos não verbais, como vocalização ou ecolalia, ou verbais, como palilalias, uso de jargão, canto (especialmente no hemisfério direito). Alucinações visuais foram também descritas nas crises dessa região que, em geral, caracterizam-se por visão difusa ou borrada e, mais raramente, alucinações reais. Ainda pode haver “pensamento forçado”, que consiste em pensamento recorrente intrusivo ou sob a forma de impulso de realizar uma determinada ação, como abrir os olhos ou apanhar um objeto. Existe um tipo de crise originada nessa zona, associada no EEG a paroxismos de ponta-on- da, que se apresenta como “ausência” com interrupção da atividade.39 Esse tipo de crise é similar às ausências incluídas entre as epilepsias generalizadas. No entanto, as “ausências” da ELF têm tendência a apresentar uma expressão clínica mais variável, duração maior e costumam se associar a automatismos. 40 Crises epilépticas Crises pré-frontais mesioventrais Conduta motora hipercinética, movimentos proximais, comportamento complexo, com atividade gesticular aparentemente proposital, como pontapés ou murros, movimentos de pedalar ou parecendo que o paciente está tentando escapar. Estes episódios frequentemente violentos foram denominados “crises hipermotoras”. Algumas crises se iniciam com rea- ção dramática de medo, acompanhada de expressão de terror, emissão de gritos e agitação. Essa conduta de medo é diferente da observada nas epilepsias temporais nas quais a sensa- ção de medo é subjetiva. A observação de sinais autonômicos como midríase, taquicardia e enrubescimento facial, bem como relaxamento do esfíncter urinário, é comum. Em al- gumas crises originadas na região anterior do giro cingular, é possível observar atividades motoras estereotipadas associadas a modificações emocionais.44 2. Crises epilépticas temporais Epilepsia mesial do lobo temporal com esclerose hipocampal Definição Em junho de 2004 foram publicadas as conclusões de um consenso de especialistas que, pela primeira vez em tempos atuais, caracterizaram a síndrome constituída pelo conjunto de características clínicas, eletrofisiológicas, anatomopatológicas e imagenológicas que definem a epilepsia temporal mesial com esclerose hipocampal.45 Em 2022 a síndrome foi incluída na nosologia das Síndromes Epilépticas com Idades de Início Variáveis.46 Foi descrita a presença de crises de inicio focal não motoras com sintomas característicos (mal-estar epigástrico ascendente, medo, sensação cefálica, sintomas experienciais e neu- rovegetativos) seguidos por imobilidade à qual se sucedem automatismos simples.47 Esses fenômenos consistem em condutas motoras involuntárias coordenadas e adaptadas que ocorrem durante uma crise e se acompanham de comprometimento da percepção. Tais características clínicas se associam a alterações eletroencefalográficas frequentes (alente- cimento temporal, ondas agudas localizadas na região frontotemporal e, especificamente, na imagem de RM, a presença de atrofia do hipocampo uni ou bilateral).48 O diagnóstico de atrofia do hipocampo ou esclerose hipocampal (mais precisamente esclerose mesial temporal) na RM se baseia na presença de alterações de sinal, redução do tamanho e desorganização da estrutura interna no hipocampo e outras estruturas mesiais da região temporal mesial.49 41 Semiologia das crises focais A epilepsia do lobo temporal (ELT) constitui 65% das epilepsias focais.50 As crises se ori- ginam em uma ou em várias estruturas anatômicas do lobo temporal e se propagam dentro e/ou fora desse lobo, através de redes neuronais interconectadas. Podem se manifestar como crises focais perceptivas, crises focais disperceptivas, crises focais perceptivas evoluindo para crises focais disperceptivas e cerca de 60% dos pacientes também apresentam crises tônico-clônicas bilaterais. A ELT é classificada em dois subtipos principais:9 epilepsia temporal mesial e epilepsia temporal lateral ou neocortical. Na epilepsia temporal mesial, as crises focais não motoras autonômicas e/ou cognitivas são associadas ou não a fenômenos sensoriais (incluindo ilusões). A presença de sensação epigástrica ascendente é frequente. As crises focais disperceptivas têm início usualmente com interrupção da atividade motora seguida de automatismos oroalimentares. Outros automatismos podem seguir-se a estes. A duração da crise é de cerca de um minuto. Há frequentemente confusão pós-ictal seguida de amnésia; a recuperação é progressiva. Na epilepsia temporal lateral ou neocortical, há crises focais perceptivas que se manifes- tam por ilusões ou alucinações auditivas, estados de sonho, ilusões visuais ou comprome- timento da linguagem se a ZE está situada no hemisfério dominante. Secundariamente, podem transformar-se em crises focais disperceptivas, quando há propagação a estruturas temporais mesiais contralaterais ou extratemporais. Bartolomei et al.51 classificaram as redes epileptogênicas da ELT em quatro subtipos: me- sial; mesio-lateral; latero-mesial e lateral. Nas últimas décadas, os subtipos temporo-po- lar e temporal plus foram agregadosaos quatro reconhecidos inicialmente52 (Figura 15). Nos subtipos mesio-lateral e latero-mesial, as estruturas mesiais e o neocórtex temporal anterior são coativados no início das crises. Wieser53 realizou uma análise dos sintomas e da sequência de apresentação de 213 crises focais disperceptivas, identificando cinco subtipos segundo o início e a propagação das descargas elétricas registradas com eletrodos de profundidade inseridos nos lobos frontal e temporal. Estes foram definidos como crises com início: temporo basal límbico, amigda- liana ou temporal polar, frontobasal cingular, opercular e temporal posterior neocortical.53 A epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose do hipocampo é a forma mesial da ELT e envolve redes epileptogênicas localizadas nas estruturas mediais e basais (daí a denomi- nação mesiais) do lobo temporal, sendo representada pelos subtipos temporobasal límbico e amigdaliano ou temporal polar (Quadro 7). 42 Crises epilépticas Subtipo temporal plus Subtipo lateral Subtipo mesio-lateralSubtipo temporopolar Subtipo mesial Figura 15. Subtipos de redes epileptogênicas da epilepsia do lobo temporal com esclerose do hipocampo (modificado de Kahane e Bartolomei).52 CA4 CA4 CA3 CA3 CA2 CA2 CA1 CA1 Quadro 7. História e possíveis hipóteses fisiopatogênicas da esclerose hipocampal. Região do corno de Amon (CA). Hipocampo normal e patológico. Observe a perda de neurônios em quantidade variável com preservação relativa dos neurônios do setor CA2. 43 Semiologia das crises focais Embora existam relatos desde o início da medicina sobre a existência de um tipo de epilepsia não convulsiva caracterizada pela presença de manifestações psicossen- soriais e automatismos autonômicos e somáticos, o primeiro a sugerir que tais cri- ses tinham origem em neurônios localizados nos lobos temporais foi John Hughlings Jackson (1835-1911). Em 1875, Jackson denominou automatismos mentais os “trans- tornos mentais temporários que seguem os paroxismos epilépticos”. Erroneamen- te, pensou que esses automatismos seriam sempre pós-ictais, consequência de uma “paralisia dos centros mentais superiores”. Sua descrição incluiu uma forma de epi- lepsia que denominou “estado de sonho” caracterizado pela presença de ilusões e alucinações as quais eram frequentemente acompanhadas de automatismos motores, sendo precedidas por sensações olfatórias.54 Ainda mais, essa variedade de epilepsia apresentava o que Jackson denominou “auras intelectuais”, que, algumas vezes, se assemelhavam “àquela sensação de reminiscência experimentada por muitas pessoas saudáveis” (déjà vu) e sensações intensas no epigástrio. Outra de suas descrições ini- ciais da epilepsia do lobo temporal incluiu as auras experimentadas por seus pacientes como “sintomas digestivos”, olfatórios, epigástricos ou gustatórios, acompanhados de automatismos mastigatórios. Em 1937, Gibbs denominou essa variedade de epilepsia de crises psicomotoras. Em 1941, Penfield e Erickson preferiram utilizar o termo de automatismos ictais. Deve-se ressaltar ainda que tais investigadores localizaram a origem desse tipo particular de crises nas porções anteriores do lobo temporal, graças a suas observações cirúrgicas e eletrofisiológicas. Desta maneira, na metade do século XX foi reconhecido que as crises epilépticas mais prevalentes em adultos tinham origem nas estruturas do lobo temporal, especialmente nas suas porções mais profundas. Por último, é preciso reco- nhecer a importância que exerceu nessa definição o desenvolvimento das imagens por ressonância magnética no diagnóstico e na investigação clínica dessa síndrome. Finalmente, a epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal foi incluí- da na classificação da ILAE de 19899,45 e em 2022, na Classificação e Definição das Síndromes Epilépticas da ILAE.46 Há diferentes hipóteses para explicar a esclerose hipocampal: a) um transtorno do desenvolvimento tornaria o indivíduo suscetível a apresentar crises em idade precoce ante uma injúria ambiental, como a representada pelas crises febris; b) esse fator preci- pitante inicial perpetuaria e magnificaria os mecanismos fisiopatogênicos envolvidos no transtorno de desenvolvimento subjacente; c) durante o período “latente”, ocor- reriam alterações progressivas na estrutura e conectividade do hipocampo, as quais facilitariam o surgimento de redes neuronais epileptogênicas e alterações histopato- lógicas e de RM da esclerose hipocampal; d) ao longo de vários anos seria alcançado um limiar que se manifestaria clinicamente como crises temporais mesiais recorrentes que constituem o diagnóstico clínico da epilepsia temporal mesial; e) os fenômenos iniciados com o fator precipitante inicial progrediriam lentamente durante toda a vida do indivíduo, manifestando-se como alterações clínicas progressivas e da memória (frequência de crises, resposta ao tratamento); f) uma suscetibilidade genética influen- ciaria tanto o desenvolvimento da potencial malformação de desenvolvimento subja- cente como a resposta patogênica ao fator precipitante inicial e a modulação do curso progressivo e clínico da patologia. 44 Crises epilépticas Semiologia clínica Os sintomas mais frequentemente observados são sensação epigástrica ascendente, autonô- micos e cognitivos. Algumas crises usualmente começam com ruptura de contato, automa- tismos oromastigatórios (sucção, mastigação) e posturas distônicas assimétricas. Frequen- temente, há desorientação e amnésia do episódio no período pós-ictal. Tais crises podem ser precedidas por sintomas típicos, referidos como “sensação retroes- ternal ascendente” até a faringe. Este tipo de aura pode também ser observada quan- do há comprometimento insular. Quando há comprometimento da amígdala e do giro para-hipocampal, ocorrem sentimentos de despersonalização, medo e pânico. A aura pode se apresentar de forma isolada ou transformar-se em crise focal disperceptiva após 5 a 30 segundos. Em caso de progressão, há ausência de resposta ao meio, olhar fixo, condutas au- tomáticas (simples ou complexas), como mastigação, movimentos da língua e outros mais complexos, como esfregar as mãos, manusear as roupas, despir-se, caminhar, roçar o nariz com a mão ipsilateral à ZE etc. Os eventos clínicos que seguem esse quadro inicial são de- pendentes das estruturas envolvidas na propagação das descargas. No caso de propagação ao giro cíngulo, haverá movimentos de pedalar. A postura distônica da mão contralateral à ZE indica a participação dos gânglios da base ipsilaterais.55 Pode haver emissão de palavras inteligíveis (fala ictal) que leva à suposição de envolvimento do hemisfério não dominante. A ocorrência de disfasia pós-ictal sugere envolvimento do lobo temporal dominante. Se, em sua propagação, ocorrer envolvimento de estruturas suprasilvianas alcançando o lobo frontal, o paciente apresentará desvios cefálico e ocular forçados contralateralmente ao foco que descarrega. Em resumo, uma crise que tem início com sensação epigástrica, au- tomatismos, postura distônica e desvio ocular forçado presupõe origem no lobo temporal; contrariamente, se já no início há desvio cefálico contralateral, é provável que a crise se inicie no lobo frontal. Ulteriormente pode culminar com uma crise tônico-clônica bilateral. Há confusão pós-ictal (pós-crítica) que dura minutos e pode haver afasia por pelos menos cerca de 30 minutos se o lobo temporal dominante é primariamente envolvido. Às vezes, há predomínio de sintomas psiquiátricos no período pós-ictal como ansiedade, irritabilidade, depressão, imediatamente ou em até 72 horas após uma crise.56 De acordo com o trabalho realizado por Giagante et al.,57 80% dos pacientes apresenta- ram auras (Quadro 8). Os sintomas mais frequentes e com maior valor preditivo positivo (ppor 54,3% dos casos com a mão ipsilateral à ZE; 2. vocalização ictal compreensível e linguisti- camente correta, observada em 35,8% dos pacientes. Esse sintoma lateralizou frequentemente 45 Semiologia das crises focais para o hemisfério cerebral direito; 3. roçar o nariz durante o período ictal ou pós-ictal com a mão ipsilateral à ZE por 32% dos casos; postura distônica unilateral, em 29,6% dos casos, com o membro superior contralateral à ZE; 4. afasia pós-ictal, observada em 27% dos casos, localizou a ZE no hemisfério esquerdo; 5. desvio cefálico não forçado precoce (durante os primeiros dez segundos da crise) foi observado em 23,4% dos casos e a orientação do desvio cefálico foi feita ipsilateralmente à ZE; 6. apresentação de forma simultânea de postura distônica de um membro superior com automatismos manuais realizados com o outro membro superior foi observada em 18,5% das crises (a postura distônica do membro superior foi contralateral à ZE e os automatis- mos foram realizados com a mão ipsilateral à ZE); 7. clonias hemicorporais foram observadas em 16% e em todos os casos o hemicorpo comprometido foi o contralateral à ZE; 8. presença de automatismos orais ou manuais, realizados com preservação da consciência, foi observada em 13,5%. Na maioria dos casos, a ZE estava localizada no hemisfério cerebral direito. Quadro 8. Manifestações clínicas, frequência e lateralização hemisférica em pacientes com epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal.57 Manifestação clínica Frequência n (%) Valor preditivo (lateralidade em relação à ZE) P Automatismos do MS unilateral 44 (54,3) Ipsilateral à ZE (88%) 0,04 Aura 41 (50,6) Hemisfério direito (67%) 0,05 Desvio cefálico não forçado tardio 30 (37) Ipsilateral à ZE (66%) N/S Imediata recuperação pós-ictal 30 (37) Hemisfério direito (75%) 0,05 Vocalização ictal compreensível 29 (35,8) Hemisfério direito (80%) 0,00 Roçar o nariz (ictal ou pós-ictal) 27 (32) Ipsilateral à ZE (95%) 0,00 Afasia pós-ictal 22 (27,1) Hemisfério esquerdo (91%) 0,00 Postura distônica unilateral 24 (29,6) Contralateral à ZE (87%) 0,05 Desvio ocular não forçado precoce 21 (25,9) Ipsilateral à ZE (62%) N/S Desvio cefálico não forçado precoce 19 (23,4) Ipsilateral à ZE (95%) 0,00 Automatismos do MS ipsilateral e postura distônica contralateral 15 (18,5) Ipsilateral e contralateral à ZE, respectivamente (93%) 0,00 Clonias hemicorporais 13 (16) Contralateral à ZE (100%) 0,00 Automatismos com preservação da consciência 11 (13,5) Hemisfério direito (90%) 0,05 Desvio ocular forçado antes da CTCB 7 (8,6) Contralateral à ZE (100%) 0,00 Desvio cefálico forçado antes da CTCB 5(6,1) Contralateral à ZE (100%) N/S Urgência miccional 4(4,8) Hemisfério direito (100%) N/S Ruptura de contato 76 (93,8) Não lateralizatório - Automatismos mastigatórios e de deglutição 50 (61,7) Não lateralizatório - Fixação do olhar 15 (18,5) Não lateralizatório - Alteração da expressão facial 10 (12,3) Não lateralizatório - ZE: zona epileptogênica; MS: membro superior; N/S: não significativo; CTCB: crise tônico- clônica bilateral. 46 Crises epilépticas Neste trabalho, foi possível reconhecer a existência de um padrão eletroclínico nas epi- lepsias temporais. Quanto à semiologia ictal, foram caracterizados em ordem de maior frequência: automatismos oro-alimentares, 68%; automatismos manuais unilaterais, 65%; imobilidade, 39%; olhares ao redor, 35%; olhar fixo, 25%. Em relação ao EEG ictal, na maioria das crises se observou atividade rítmica a 5 a 9 Hz localizada no lobo temporal.57 Epilepsias da região perissilviana Entre os pacientes candidatos à cirurgia de epilepsia, há um grupo que apresenta um desafio particular para o estabelecimento da ZE. Trata-se dos pacientes com epilepsias localizadas na região perissilviana58 ou também chamadas de epilepsias fronto-temporais,35 ou crises parciais complexas tipo II,60 ou crises psicomotoras59 ou crises do córtex insular.61,62 Há uma estreita relação entre a ELT e a região perissilviana e a epileptogênese da ELT envol- ve todo o sistema, e ainda a amígdala e o polo temporal (rede insulo-órbito-polar), além de conexões com o córtex auditivo e as áreas operculares na organização das crises dessa região. As características da semiologia ictal muitas vezes não a distinguem das crises originárias de estruturas do lobo temporal mesial, que, se não esclarecidas, podem causar erros no diagnóstico da ZE, levando a maus resultados com o tratamento cirúrgico da epilepsia. Os sinais e sintomas mais frequentemente observados e as estruturas envolvidas nesses pacientes com epilepsia podem ser divididos em quatro grupos: 1. crises da região peris- silviana temporal anterior. 2. crises da região perissilviana temporal medial; 3. crises da região perissilviana lateral; 4. crises da região perissilviana posterior. 1. Crises que se originam na região perissilviana temporal anterior As crises que se originam na região perissilviana anterior são caracterizadas por alterações da perceptividade, desde o início, gritos, expressão motora de medo, sem assimetria facial, hiper- cinesia importante e taquicardia, midríase e relaxamento do esfíncter urinário. Os sintomas mais característicos são auras abdominais e medo ictal. Uma sensação crescente abdominal ou abaixo do esterno, associada a um sentimento de medo ou ansiedade, automatismos oro-ali- mentares, vocalização ou choro, sem hipercinesias e sinais autonômicos, tem sido observados. A consciência está preservada, dependendo da frequência dos paroxismos epileptiformes. Podem ser originadas nas estruturas temporais mesiais e se propagar rápida ou lentamente para a região perissilviana anterior, ou ser originadas diretamente nessa área. Bartolomei et al.58 descreveram o comprometimento de áreas anatômicas descritas a seguir, a partir da esti- mulação cortical ou do registro intracerebral: estruturas mesiais temporais límbicas (amígdala, hipocampo, giro para-hipocampal), polo temporal, córtex insular e córtex pré-frontal mesial. A figura 16 mostra a propagação das descargas nas crises perissilvianas temporais anteriores. 47 Semiologia das crises focais Perissilviana temporal anterior Perissilviana temporal medial Perissilviana lateral Perissilviana posterior Figura 16. Subtipos de crises perissilvianas. 2. Crises que se originam na região perissilviana temporal medial As estruturas envolvidas são o polo temporal, o giro temporal superior, a região anterior da ínsula, o opérculo frontal, o córtex orbitofrontal e a região pré-cingular ou o cíngulo ante- rior. A crise se inicia na região temporal e se propaga para a região frontal ou vice-versa, ou pode ocorrer simultaneamente em ambas as áreas. 48 Crises epilépticas A semiologia ictal é caracterizada por alterações de comportamento manifestadas por gri- tos, e para o observador, o paciente adota uma postura semelhante à de uma atitude “defen- siva de um animal”. Geralmente, o paciente descreve a sensação como se estivesse sendo “ameaçado” ou no “fim do mundo”. Às vezes, esses pacientes costumam apresentar nas fases interictais comportamentos impulsivos, violência verbal e de ansiedade generalizada. Höistad & Barbas63 propuseram um modelo para explicar o substrato anatômico das “emo- ções” durante as crises observadas nessa população de pacientes e postularam o compro- metimento de uma rede com ligações específicas entre a amígdala, áreas temporais e insu- lares, e o córtex orbitofrontal posterior (Figura 16). 3. Crises que se originam na região perissilviana lateral Nelas estão envolvidas as seguintes estruturas: polo temporal, giro temporal superior, ante- rior, giro frontal inferior, opérculo frontal e ínsula anterior (Figura 16). 4. Crises que se originam na região perissilviana posterior Em geral, iniciam-se nas estruturas temporais mesiais e, então, propagam-se rápida ou lentamente para a região perissilviana posterior; podem, por vezes, originar-se na região perissilviana posterior. Adescarga se organiza envolvendo as seguintes estruturas: giro temporal superior, opérculos temporal e parietal e regiões anterior e posterior da ínsula. Podem se apresentar com alucinações auditivas, crises somatomotoras tônicas ou clônicas da face, formigamento na face, língua e garganta, além de sinais e sintomas autonômicos. Nas crises originadas na região temporal perissilviana posterior podem ser observados mo- dificação da expressão facial, geralmente assimétrica, com característica de desgosto, inter- rupção da linguagem, mais frequente no hemisfério dominante ou mudanças na entonação da palavra (prosódia), alteração da consciência, dependendo da frequência das descargas, movimentos clônicos da hemiface seguidos de crise tônico-clônica bilateral. Pode haver dor no estômago, de caráter não ascendente, alterações nos batimentos cardíacos ou res- piratórias, hipersalivação, alucinações gustativas, soluços, náuseas, vômitos, hipotonia ou hipercinesia e, em fase pós-ictal, tosse (Figura 16). 3. Crises epilépticas do córtex posterior Crises epilépticas do lobo occipital Os sintomas fundamentais das crises occipitais são visuais e oculomotores. Os sintomas vi- suais incluem alucinações visuais simples e complexas, cegueira, ilusões visuais e palinopsia. Os sintomas oculomotores incluem desvio tônico dos olhos, desvio oculoclônico, nistagmo 49 Semiologia das crises focais e piscamento repetitivo ou clonias palpebrais. Vômito ictal e cefaleia ictal ou pós-ictal são frequentemente associados a crises occipitais. Crises com manifestações visuais simples e complexas Crises visuais foram descritas por William Richard Gowers (1845-1915) (Quadro 9). Quadro 9. Caracterização das crises occipitais segundo William Richard Gowers.64 Gowers64 referiu que de 1.000 pacientes com epilepsia, 119 tinham “aura sensorial especial”, dentre os quais em 81 envolvia o “sentido da visão”. Ele dividiu os pacientes com sinais oculares e visuais naqueles com: 1. sensação no próprio globo ocular; 2. diplopia; 3. au- mento ou diminuição do tamanho dos objetos; 4. perda da visão; 5. sensações visuais distintas. A perda da visão precedia a perda de consciência em 26 pacientes, um dos quais ficou cego por uma hora. Luzes, cores, uma bola de luz, um lampejo ou um clarão foram referidos por 46 pacientes. Em um deles, as cri- ses começaram com estrelas vermelhas e brancas que o encantavam e progrediram para a visão de uma mulher idosa. Outro paciente viu luzes coloridas brilhantes se- guidas da imagem de uma menina. Gowers relatou ainda a primeira evidência científica da epilepsia fotossensível ao referir crises occipitais induzidas por luz brilhante. Este paciente era um homem que referia que a sensação de “luzes azuis brilhantes, como se fossem estrelas, sempre as mesmas” precediam crises tônico-clônicas bilaterais que ocorriam “a qualquer momento quando olhava uma luz brilhante, até mesmo o fogo”. A relação era compreensível, pois as des- cargas aparentemente começavam no centro visual. Manifestações visuais positivas Os fenômenos visuais amorfos constituem a manifestação mais comum da epilepsia occipital e surgem como faíscas, luzes piscando ou brilhantes, cores, estrelas, rodas, discos coloridos, luzes em círculos, manchas radiadas acinzentadas, linhas e sombras. Esses objetos podem permanecer estacionários ou mover-se em qualquer direção, centrípeta ou centrifugamente. Fenômenos unilaterais são descritos pelo paciente como ocorrendo apenas em um olho. Os pacientes comumente referem borramento visual como sintoma único sugestivo de crise occi- pital. Podem ainda ocorrer ilusões perceptivas sob a forma de objetos distorcidos. Macropsia, micropsia, inclinação e distorção dos objetos, alteração na forma dos objetos (metamorfop- sia), perseveração, persistência ou recorrência de uma imagem visual após remoção do ob- 50 Crises epilépticas jeto real (palinopsia) podem ainda ser verificadas, bem como alucinações complexas, como animais, pessoas ou cores, estacionárias ou móveis. Esses fenômenos visuais são seguidos de contraversão tônica ou clônica dos olhos, embora ipsiversão tenha sido relatada na minoria dos pacientes descritos por Williamson et al.65 A versão dos olhos constitui o sintoma não visual mais comum nas epilepsias do lobo occipital. As pálpebras podem ser também acome- tidas de abalos palpebrais e fechamento forçado. Pode ocorrer sensação de encantamento ou sensações de movimentos oculares, sem que sejam detectados movimentos. Manifestações visuais negativas Escotoma, hemianopsia e amaurose podem ocorrer separadamente ou associados a sin- tomas positivos. Turvamento visual ou amaurose ictal é considerado o segundo sintoma visual mais comum nas crises occipitais. Fenômenos unilaterais são descritos pelo paciente como ocorrendo em apenas um olho, embora possam ocupar todo o campo desde o início pela propagação por meio das abundantes conexões inter-hemisféricas. Outros sinais Aos sinais de envolvimento do córtex occipital seguem hemiconvulsão ou sinais de en- volvimento das estruturas do lobo temporal. Cefaleia com caráter pulsátil, algumas vezes indistinguível da verificada na migrânea, pode ser verificada após crises do lobo occipital. A diferenciação entre auras da migrânea e das crises epilépticas occipitais é mostrada no Quadro 10 e na Figura 17. Quadro 10. Diferenças entre os sintomas visuais occipitais em crises epilépticas e na migrânea. Crises occipitais Migrânea Padrão circular, colorido, usualmente multicolorido Duração: longa, acima de 4 minutos até 30 minutos Vermelho brilhante, amarelo, azul, verde Linear – espectro de fortificação, teicoscopia (teico: muralha de uma cidade + psia: visão; zigue-zague) Círculos, formas circulares, bolas pequenas, pontos Localização: centro do campo visual Duração: curta; segundos, raramente 1-3 minutos, diários Padrões acromáticos ou preto e branco Localização contralateral; campo temporal Amaurose: propagação bi-occipital? Cegueira branca Dor orbital durante a fase ictal e vômito ictal- lobo temporal não dominante e ínsula Cefaleia pós-ictal: uni ou bilateral, geralmente contralateral ao lado da alucinação visual- mecanismo trigêmino-vascular ou do tronco encefálico- 3-15 minutos (intervalo assintomático)- mecanismo serotonérgico? 51 Semiologia das crises focais Figura 17. Representações de alucinações visuais elementares realizadas por pacientes com epilepsia occipital (A) e migrânea com aura (B). A B 52 Crises epilépticas Nas crises occipitais, o paciente pode apresentar sintomas visuais caracterizados por padrão circular, geralmente multicolorido, vermelho brilhante, amarelo, azul e verde, com formatos circulares pequenos ou pontos. Duram segundos, raramente de um a três minutos, e se loca- lizam contralateralmente à ZE. Pode ocorrer amaurose ou cegueira branca por propagação bioccipital. Dor orbitária e vômito podem estar presentes durante a crise, especialmente pela propagação para o lobo temporal não dominante e ínsula. Pode ocorrer cefaleia pós-ictal, uni ou bilateral, em geral contralateral à alucinação visual por mecanismo trigêmino-vascular ou do tronco encefálico, com 3 a 15 minutos de duração, com intervalo assintomático, por pos- sível mecanismo serotonérgico. Na migrânea, o paciente refere sintomas visuais com padrão linear chamados espectro de fortificação ou teicopsia (teico: muralhas de uma cidade + psia: visão, zigue-zague), com duração mais prolongada, de 4 a 30 minutos. A localização é referida no centro do campo visual e tais alucinações são acromáticas ou brancas e pretas. Crises epilépticas do lobo parietal Crises focais não motoras sensoriais Fenômenos positivos Consistem em parestesias ou sensação de eletricidade restritas a um membro ou com mar- cha “jacksoniana”. Em geral, esses fenômenos sensitivos envolvem as áreas de maior re- presentação cortical (mão, face ou braço). Sugerem ainda ZE parietal, o desejo de mover uma parte do corpo ou sensaçãode que está sendo movida; rigidez ou resfriamento da lín- gua e alucinações gustativas que constituem sinais do envolvimento do opérculo parietal, bem como rotação do corpo (crises giratórias). Reynolds e Gowers64 reconheceram a dor como um fenômeno ictal subjetivo. Disestesia com caráter de queimação de extremidades, dor abdominal e dor cefálica são modalidades de dor como manifestação crítica do lobo pa- rietal. Trata-se de fenômeno facial bilateral com sensação intra-abdominal. Metamorfopsia, distorção e asomatognosia indicam envolvimento do lobo parietal não dominante. Alucina- ções visuais elementares ou amaurose ictal representam manifestação da propagação para o córtex occipital a partir do lobo parietal posterior. Fenômenos negativos Enfraquecimento, sensação de ausência de parte do corpo (asomatognosia), intensa vertigem ou desorientação espacial podem ser indicativos de crises do lobo parietal inferior. Crises do lobo parietal dominante resultam em vários distúrbios de linguagem de recepção ou condução. Outros sinais Como as crises do lobo occipital, as do lobo parietal também apresentam propagação para o córtex frontal ou temporal, promovendo sintomas relacionados a essas áreas. 53 Seção 3 Semiologia das crises de início generalizado 54 Crises epilépticas As manifestações clínicas das crises generalizadas, como mencionado anteriormente, são indicativas do envolvimento de ambos os hemisférios cerebrais. Crises generalizadas são aquelas que se originam em algum ponto da rede neural e rapidamente envolvem e se distribuem por redes neuronais distribuídas bilateralmente. Essas redes bilaterais podem incluir estruturas corticais e subcorticais, mas não necessariamente incluem todo o cór- tex. Apesar de algumas crises parecerem localizadas quando analisadas individualmente, a lateralização não é consistente de uma crise para outra. Crises generalizadas podem ser assimétricas.12,14 A consciência é geralmente prejudicada, exceto nas crises mioclônicas, que são eventos epilépticos muito breves, que duram alguns segundos, e a consciência durante esses perío- dos geralmente é preservada. A seguir, será descrita a semiologia dos diferentes tipos de crises generalizadas, de acordo com a proposta da Comissão de Classificação da ILAE de 2017.12,13 Nos registros eletroencefalográficos, descargas interictais geralmente são obser- vadas de forma bilateral. Crises tônico-clônicas generalizadas As crises tônico-clônicas generalizadas (TCG) (também chamadas crises de “grande mal”) constituem a forma mais comum dentre todas as outras crises epilépticas. Em um estudo epidemiológico, Hauser e Kurland mostraram que mais de 50% de todas as pessoas com epilepsia tiveram uma ou mais crises tônico-clônicas,66 as quais são ca- racterizadas por perda abrupta da consciência, contração tônica e, em seguida, clônica dos quatro membros, apneia, liberação esfincteriana, sialorreia e mordedura de língua, com duração de aproxima damente um minuto. As crises TCG são aquelas primariamente generalizadas, uma vez que as que resultam da propagação das crises focais são deno- minadas crises tônico-clônicas bilaterais, as quais, em adultos, constituem a maioria das crises tônico-clônicas. As crises TCG não são comuns antes dos 3 anos de idade e nem ocorrem em lactentes com menos de 6 meses, possivelmente em razão da imaturidade neuronal e da mielinização in- completa das fibras nervosas e comissuras, incluindo o corpo caloso.67 Descrição clínica As manifestações clínicas das crises TCG podem ser divididas em cinco fases: 1) sinais e sintomas premonitórios; 2) fase pré-ictal imediata; 3) fase ictal; 4) fase pós-ictal imediata; 5) período de recuperação pós-ictal. Há variações entre diferentes indivíduos quanto à du- ração das diversas fases, as quais podem também variar em um mesmo indivíduo. Gastaut 55 Semiologia das crises generalizadas e Broughton68 forneceram descrições detalhadas da fenomenologia crítica, ao estudarem crises TCGs em pacientes curarizados, que permitiram a elaboração do esquema a seguir, no qual será baseada a descrição da fenomenologia das crises TCG. Sintomas premonitórios Sintomas e sinais premonitórios podem anteceder crises TCG por horas ou dias e incluem cefaleia, alterações do humor, instabilidade emocional, ansiedade, irritabilidade, letargia, dificuldade de concentração, distúrbio de sono, alteração do apetite, mioclonias e tontu- ras.69 Em 2022, foram definidos como uma constelação de sintomas subjetivos de `avisos’ não específicos e de amplo espectro (como sensações mal localizadas ou agitação) que anunciam uma crise epiléptica mas não fazem parte dela. A duração é acima de 30-60 mi- nutos e persistem até por vários dias antes do início de uma crise epiléptica.6 Fase pré-ictal imediata Crises TCG em epilepsias generalizadas genéticas podem surgir de crises de ausência, crises mioclônicas, clônicas ou tônicas. Sucessão de abalos mioclônicos constitui a mani- festação mais comum sendo acompanhados por surtos de polispícula no EEG (constituem as crises mioclônico-tônico-clônicas). Fase ictal A fase ictal é constituída por dois períodos distintos: a fase tônica, com duração de cerca de 10 a 20 segundos, e a fase clônica, de aproximadamente 40 segundos. Fase tônica Há contração tônica da musculatura axial, acompanhada de desvio ocular para cima (sur- sum vergens) e dilatação pupilar. A contração dos músculos mastigatórios, responsáveis pela elevação e depressão da mandíbula, faz com que a boca permaneça rígida e entrea- berta. A contração muscular tônica estende-se para a raiz dos membros superiores, que são elevados e abduzidos; os cotovelos são semifletidos, com flexão dos punhos e pro- nação das mãos. Os membros inferiores assumem simultaneamente a posição de flexão, abdução e rotação externa. Esse espasmo flexor breve (fase de emprostótono) (Figura 18) é seguido por um período mais prolongado de extensão tônica (fase de opistótono), caracterizado por fechamento forçado da boca, o qual pode produzir traumatismos orais. A contração da musculatura torácica força o ar pela glote fechada, o que resulta no “grito epiléptico”. 56 Crises epilépticas Figura 18. Crise tônico-clônica generalizada. Fase de emprostótono. Figura 19. Crise tônico-clônica generalizada. Fase de opistótono. Os membros superiores tornam-se, então, semifletidos e abduzidos com os antebraços par- cialmente cruzados em frente ao tórax, enquanto os membros inferiores permanecem adu- zidos, estendidos e fixos em rotação externa, com extensão dos pés e artelhos. Seguem-se extensão dos antebraços e pronação dos cotovelos com as mãos fechadas e o punho em extensão ou em flexão e com os dedos estendidos (mão de parteira) (Figura 19). Como se pode verificar na figura 20, a fase tônica é acompanhada de uma “tempestade neurovegetativa”, caracterizada por duplicação da frequência cardíaca e da pressão arterial, enquanto a pressão intravesical ascende para cinco vezes o valor habitual. Há apneia, muito provavelmente central, durante toda a fase tônica, e ainda sudorese, a qual ocasiona queda na resistência cutânea. 57 Semiologia das crises generalizadas Fase clônica A transição para a fase clônica é gradual e anunciada pelo “período vibratório interme- diário”, um tremor difuso a 8 Hz, que gradualmente diminui para 4 Hz. Ocorrem, então, espasmos flexores violentos, seguidos de atonia, o que caracteriza a fase clônica. Os pe- ríodos de atonia tornam-se progressivamente mais prolongados e irregulares até o último espasmo flexor. Movimentos clônicos ocorrem geralmente (mas nem sempre) em fase, em ambos os lados do corpo, no início da fase clônica, e fora de fase, próximo do final do evento, quando, ocasionalmente, os pacientes exibirão desvios ipsilaterais da cabeça e dos olhos. Há redução gradativa da frequência cardíaca, pressão arterial e vesical, embora a apneia seja mantida durante toda a fase clônica. As pupilas, midriáticas na fase tônica,são agora acometidas por hippus, enquanto a contração dos músculos esfincterianos impede a enurese até o final da fase clônica. Pupilas Tempo Pré- ictal Ictal PV FC PAR R FC TA PI (Minutos) Extinção pós-ictal Recuperação Enurese Figura 20. Variações do EEG, atividade eletromiográfica, tamanho pupilar, resistência cu- tânea, pressão intravesical (PV), frequência cardíaca (FC), respiração (R) e pressão arte- rial sistólica (PA). Todas as variações autonômicas, com exceção da apneia, alcançam seu máximo no final da fase tônica e, então, apresentam atenuação progressiva. EDG indica o eletrodermograma.68 58 Crises epilépticas Fase pós-ictal imediata Após o último abalo clônico, há restabelecimento da respiração e, em decorrência da extinção eletrográfica cortical, a qual permite a liberação das estruturas tonígenas do tronco encefálico, ocorre novamente espasmo extensor semelhante à rigidez descerebrada com opistótono e tris- mo, o qual pode, novamente, promover laceração da língua. Sinal de Babinski pode ocorrer e, nas crises focais evoluindo para tônico-clônicas bilaterais, de forma contralateral à ZE. Fase de recuperação pós-ictal O término da crise é marcado pelo sono pós-ictal ou despertar com confusão mental, com- portamento automático acompanhado de cansaço, dores musculares e cefaleia. Podem ser observadas petéquias. Há aumento dos níveis de prolactina, que alcança seu valor máximo em 20 minutos e continua elevado por até uma hora. Esse parâmetro, presente em mais de 90% das crises TCG, pode ser utilizado na certificação da natureza epiléptica de eventos paroxísticos. Nessa situação, a dosagem de prolactina deve ser realizada em até uma hora após a crise e repetida em 24 horas.70 Complicações Após o término de uma crise TCG deve-se atentar para a ocorrência de possíveis com- plicações, como traumatismos cranianos, laceração da língua, fraturas (mais comuns em vértebras torácicas), luxação ao nível dos ombros e do quadril e pneumonia aspirativa. Fraturas de vértebra em crises TCG foram encontradas em 5% a 15% dos pacientes não- -selecionados,71 e tendem a ocorrer na região torácica média, em contraste com as fraturas vertebrais causadas por trauma externo, que geralmente ocorrem na junção toracolombar. Embora seja preconizado que durante uma crise TCG o paciente deve ser posi cionado em decúbito lateral esquerdo para evitar aspiração, alguns estudos mostram que não é comum a ocorrência de pneumonia aspirativa em adultos com crises TCG.72 Na fase inicial da crise TCG, não há aumento de secreção orotraqueal nem salivação, as quais se intensificam na fase final ou no período pós-ictal. Entretanto, 0,6% dos pacientes apresenta deslocamento do ombro esquerdo quando posicionados em decúbito lateral es- querdo durante a fase de movimentos. O deslocamento do ombro pode ser muito incapa- citante e recorrente, sendo necessária fixação cirúrgica do tendão subescapular quando a tentativa de redução fechada não resulta em resposta satisfatória.73,74,75 Como o risco de aspiração é baixo se comparado à lesão da articulação do ombro, propõe- -se que o mais adequado seria o posicionamento do paciente em decúbito lateral esquerdo apenas após a fase em que os movimentos tiverem cessado.72 59 Semiologia das crises generalizadas Edema pulmonar e arritmia cardíaca também ocorrem ocasionalmente e foram implicados como possíveis mecanismos de morte súbita em pacientes com epilepsia. Crises TCG geralmente produzem lacerações orais envolvendo a língua, os lábios e a mu- cosa oral. O estudo de Kotagal70 demonstrou que 7,5% dos pacientes com crise tônico- -clônica apresentaram laceração da língua, em geral ipsilateral à ZE naquelas bilaterais. O mecanismo proposto é a contração do músculo genioglosso, que provoca seu deslocamento contralateral, resultando em laceração ipsilateral. Embora preconizada, não há estudos que demonstrem a eficiência da oxigenação durante uma crise epiléptica. Descrição eletroencefalográfica A análise do EEG mostra início focal, regional ou lateralizado nas crises tônico-clônicas bilaterais, enquanto nas crises TCG os achados ictais do EEG são generalizados desde o início (Figura 21). Figura 21. Crise tônico-clônica generalizada. A fase tônica se inicia depois da salva de mioclo- nias representada no EEG por descargas de polispícula-onda. O ritmo ictal de baixa amplitude é obscurecido por artefatos da contração muscular. Início clínico Fase tônica 1 s 60 Crises epilépticas O início eletroencefalográfico da crise TCG é marcado por atenuação difusa da amplitu- de (dessincronização) e pelo registro de ritmo de baixa voltagem, também difuso, com frequência de 20 a 40 Hz. Este é seguido por atividade sincronizada, monorrítmica, que aumenta progressivamente em amplitude e diminui em frequência até aproxi madamente 10 Hz, chamada por Gastaut e Fischer-Williams76 de ritmo recrutante epiléptico, por sua semelhança ao ritmo recrutante talâmico descrito por Dempsey e Morison77 em 1942. Após cerca de dez segundos, um ritmo mais lento, de frequência inicial de 8 Hz, progressivamen- te reduzida até 1 Hz, mistura-se ao ritmo recrutante. Há interposição de ondas lentas com fragmentos de ritmo recrutante e espículas de amplitude elevada, constituindo complexos de polispícula-onda que alentecem até 1 Hz, coincidindo com a fase clônica.78 Ao final da fase clônica, o EEG pode mostrar-se isoelétrico (fase de extinção eletrográfica cortical) ou conter somente atividade delta de baixa amplitude (e a descarga epiléptica (Figura 22). Figura 22. Fase clônica de uma crise tônico-clônica generalizada. Os paroxismos de polispícu- la ocorrem simultaneamente a espasmos flexores, enquanto as ondas lentas coincidem com a fase de atonia. Os períodos de atonia vão se tornando progressivamente mais prolongados. 1 s 62 Crises epilépticas Crises tônicas As crises tônicas generalizadas são frequentemente encontradas nas epilepsias generaliza- das de etiologia estrutural, nas quais se apresentam em número variável de 1 até 50 crises por dia.86 São comuns na síndrome de Lennox-Gastaut, predominando durante o sono. Descrição clínica As crises tônicas podem começar abrupta ou gradualmente.68 Dependendo da rapidez do início, o episódio pode ser um movimento gradual ou um abalo mioclônico maciço bilate- ral, seguido por contração tônica residual. Em geral, essas crises duram de 10 a 15 segun- dos, mas podem persistir por até um minuto. A perda da consciência ocorre frequentemente e sua recuperação coincide com o final da descarga eletrográfica. Ao contrário da crise TCG, o período de confusão pós-ictal é muito curto.87 O grau do comprometimento motor na crise tônica é variável e em um mesmo paciente podem ser verificadas crises com diferentes intensidades. Conforme os grupos muscula- res envolvidos, as crises tônicas são classificadas em axiais, axorrizomélicas e globais.68 A crise tônica axial envolve a musculatura axial, particularmente o grupo dos flexores do pescoço e os músculos faciais, incluindo os mastigatórios. O envolvimento da mus- culatura respiratória e/ou abdominal é associado à alteração respiratória breve e, algu- mas vezes, há emissão de um som alto, parecido com choro. Essas crises são variáveis quanto à intensidade e, em geral, são clinicamente discretas, limitadas a pequeno grau de abertura palpebral e desvio ocular para cima. Quando ocorrem com o paciente em pé, podem promover queda para frente ou para trás. A crise tônica axorrizomélica inicia-se como um episódio tônico axial, mas evolui com contração dos músculos da cintura es- capular e, ocasionalmente, da pélvica. A crise tônica com duração superior a 20 segundos é acompanhada de componente vibratório, caracterizado por abalos clônicos discretos e breves até seu término (crise tônica vibratória). Esses episódios são facilmente confun- didos com crises TCG, mas podem ser diferenciados e reconhecidos pela abdução inicial dos membros superiores no início da crise tônica. Na crise tônica global, as alterações anteriores se acompanham de extensão da contração aos segmentos mais distais das ex- tremidades.68 Descrição eletroencefalográfica Crises tônicas podem ser associadas a vários padrões ictais:88 1. Atenuação acentuada (dessincronização) da atividade de base, ou seja, padrão eletrode- cremental. Tayrine da Siva Gonçalves Crises tônicas: padrões ictais Tayrine da Siva Gonçalves Outra duração para crise tônica: 10-15s (até 1 min) Tayrine da Siva Gonçalves Crise tônica vibratória - duração > 20s 63 Semiologia das crises generalizadas 2. Atividade rítmica a 10 a 25 Hz, generalizada, bilateral e síncrona, inicialmente de baixa am- plitude, com aumento progressivo, chegando a 50 a 100 µV. As descargas são mais proemi- nentes nas regiões anteriores, e assimetrias discretas podem ser observadas.89 Descargas de onda aguda–onda lenta e de polispícula e ondas lentas podem preceder e seguir a atividade de 10 a 25 Hz, especialmente no final da infância, na adolescência ou na fase jovem adulta.90 3. Atividade rítmica de 10 a 13 Hz de amplitude elevada desde o início. 4. Atividades teta ou delta difusas, as quais são observadas, usualmente, durante estado de mal do tipo tônico.86 O padrão ictal 1 pode evoluir para o 2 e este, para o 3 (Figura 23), mas evolução na ordem inversa ainda não foi verificada.68 Durante o sono, paroxismos de um a dois segundos de duração, bilaterais e síncronos, compostos de polispícula, podem preceder o padrão ictal.91 Figura 23. Crise tônica. Ritmo ictal de 10 Hz de projeção generalizada, amplitude elevada e predomínio frontal precedido por período curto de atenuação da atividade de base. 1 s Crises tônicas associadas a automatismos são caracterizadas por atividade rítmica de 15 a 25 Hz de amplitude elevada durante a fase tônica e padrão onda aguda–onda lenta na fase dos automatismos.88 64 Crises epilépticas Crises de ausências típicas De acordo com Temkin (1971), a primeira descrição de crises de ausência foi feita por Poupart, em 1705. A crise de ausência típica (“ausências de petit mal”) é a forma de crise mais extensivamente estudada na literatura e caracteriza-se pela presença de paroxis- mos de espícula-onda ritmados a 3/s. Em contraposição, sua associação com paroxismos generalizados ritmados a 2 a 2,5/s de variante de pequeno mal (ausências atípicas) foi reconhecida desde o início da eletroencefalografia. A manifestação clínica estereotipada, a ocorrência frequente, a facilidade de registro em laboratório e a expressão eletrográfica consistente possibilitaram estudos clínicos e eletroencefalográficos detalhados.92 As crises de ausência típica geralmente se manifestam na infância, embora possa haver persistência destas até a vida adulta. Ocorrem em síndromes epilépticas da infância, como na epilepsia ausência infantil e em outras epilepsias generalizadas idiopáticas, como a epi- lepsia ausência juvenil e a epilepsia mioclônica juvenil. Consistem em breves episódios de comprometimento de consciência, de início e término abruptos, acompanhados por manifestações motoras muito discretas, como automatismos orais e manuais, piscamento, aumento ou diminuição do tônus muscular e sinais autonômicos. As crises de ausên- cia típica normalmente duram em torno de dez segundos, embora variem entre 4 e 20 segundos.92 Sete subtipos de crises de ausência típica são reconhecidos pela Classificação de Crises Epilépticas da ILAE de 1981:15 1. Ausência com comprometimento da consciência. Há interrupção abrupta da atividade, o olhar mantém-se fixo e os olhos podem direcionar-se rapidamente para cima. O paciente não tem ciência do episódio, embora perceba a passagem do tempo quando do seu término abrupto. 2. Ausência com componentes clônicos discretos. Atividade clônica sutil, usualmente a 3/s, envolvendo pálpebras, rima bucal e, algumas vezes, membros superiores. 3. Ausência com componente atônico. Hipotonia súbita pode levar a cabeça ou o tronco para frente e os objetos podem cair das mãos. Queda ao solo é rara durante essas crises. 4. Ausência com componente tônico. Há, nesta forma, aumento do tônus, em músculos flexores ou extensores, simétrica ou assimetricamente. A contração dos extensores pode provocar hiperextensão do segmento cefálico e arqueamento do tronco (“ausência retro- pulsiva”); o aumento assimétrico do tônus pode ainda provocar desvio da cabeça ou do tronco para um dos lados. O componente tônico é sempre menos intenso e não deve ser confundido com crises tônicas generalizadas. 5. Ausência com automatismos. Quando uma crise de ausência é relativamente prolon- gada, movimentos quase intencionais podem ser semelhantes aos de uma crise focal 65 Semiologia das crises generalizadas disperceptiva. Podem evoluir no sentido craniocaudal com elevação das pálpebras, mo- vimentos de deglutição e roçar os lábios, além de movimentos manuais. 6. Ausência com fenômenos autonômicos. Palidez perioral, dilatação pupilar, rubor, ta- quicardia, piloereção, salivação ou incontinência urinária podem ocorrer concomitante- mente com a crise de ausência. 7. Formas mistas. Várias combinações dos tipos anteriormente descritos. As ausências que cursam apenas com comprometimento da consciência e aquelas com dis- cretos componentes clônicos são as mais frequentes, seguidas pelas ausências com automa- tismos e aquelas com diminuição do tônus postural. Estudos usando vídeo-EEG mostram maior incidência das formas menos frequentes e mistas; obviamente,a frequência de cada um dos tipos depende da observação cuidadosa dos fenômenos clínicos.93 As ausências típicas são desencadeadas por hiperventilação em praticamente todos os pa- cientes não tratados. A ativação é de tal forma importante que a não observação da crise clás- sica durante a hiperventilação por três a cinco minutos deve colocar em dúvida o diagnósti- co. Variações do ritmo circadiano (despertar ou início do sono) podem desencadear as crises. Descrição eletroencefalográfica A atividade de base é quase sempre normal, mas algumas crianças podem exibir ritmo delta sobre as áreas occipitais e parieto-occipitais, usualmente sob a forma de longos surtos de amplitude elevada, sinusoidais, frequência em torno de 3 Hz, simétricos ou, mais frequen- temente, assimétricos. Estas são as OIRDA (ondas delta rítmicas intermitentes occipitais). Esse ritmo lento é bloqueado pela abertura ocular, aumenta com a hiperventilação e persiste mesmo após o desapare cimento das crises de ausência. O EEG ictal revela paroxismos generalizados sob a forma de complexos de espícula-onda ritmados a 3/s, geralmente com predomínio nas regiões frontais, associados a sinais clíni- cos de ausência (Figura 24). Como regra, o início e o final são abruptos. Em ausências mais prolongadas, os com- plexos de espícula-onda podem se tornar mais lentos ao final da crise.94 Quando as ausências persistem até a vida adulta, as descargas podem eventualmente se tornar mais irregulares. Em epilepsias generalizadas idiopáticas da adolescência, os complexos de espícula-onda são mais rápidos do que 3/s (3,5 a 4/s) e mais irregulares. Frequentemente, a onda lenta é precedida por duas ou três espículas (Figura 25). As descargas são facilmente precipitadas por privação de sono e hiperventilação. 66 Crises epilépticas 1 s Figura 24. Crise de ausência na epilepsia ausência da infância. Complexos de espícula-onda de projeção generalizada, ritmados a 3/s, ocorrem concomitantes a comprometimento da consciência. 1 s Figura 25. Crise de ausência na epilepsia ausência juvenil. Complexos de espícula-onda rit- mados a 4/s de projeção generalizada. Observe a ocorrência de polispícula. 67 Semiologia das crises generalizadas 1 s Crises de ausências atípicas Essas crises não têm sido tão extensivamente estudadas como as de ausência típica. Como nelas o início e o término são graduais, pode haver dificuldade na sua identificação. O comprometimento da consciência pode ser total ou parcial, assumindo a forma de estado confusional, com manutenção da atividade em curso de forma automática. Mioclonias fa- ciais, principalmente periorais, podem acompanhar os episódios. A duração quase sempre excede dez segundos e, em algumas situações, pode se prolongar por mais de 20 segundos. São frequentemente associadas à perda do tônus muscular, restrita à musculatura da face e do pescoço ou generalizada, resultando em queda progressiva. Pela hipotonia da muscula- tura facial, a boca mantém-se entreaberta com sialorreia pela incapacidade de deglutição. A maior parte dos pacientes apresenta deficiência intelectual, o que dificulta ainda mais a percepção das crises de ausência, mas uma análise cuidadosa mostra mudança no com- portamento ao término da crise. Diferentemente das crises de ausência típica, as atípicas usualmente não são precipitadas por hiperventilação ou fotoestimulação intermitente.95 No EEG, ocorrem surtos generalizados e prolongados de complexos de onda aguda–onda lenta, geralmente menos regulares em morfologia e de menor amplitude, com frequência de aproximadamente 1,5/s (entre 0,5 e 2,5/s) (Figura 26). Figura 26. Crise de ausência atípica na síndrome de Lennox-Gastaut. Complexos de onda aguda-onda lenta, de projeção difusa e bilateral com frequência entre 1,5 e 2 Hz. 68 Crises epilépticas Mioclonias palpebrais com e sem ausência Alguns pacientes com ausência e fotossensibilidade apresentam também contrações rápidas das pálpebras ao fechamento dos olhos, o que ocasiona piscamento rápido, acompanhado de desvio dos globos oculares para cima. Jeavons reconheceu essas crises como um tipo es- pecial, denominando-as “ausências com mioclonias palpebrais”.96 Para Panayiotopoulos97 estas se manifestam como crises frequentes de ausência típica, com início mais precoce do que o da epilepsia de ausência da infância, entre dois e cinco anos. As ausências são breves, com duração de três a seis segundos, e ocorrem ao fechamento dos olhos, sendo sempre associadas a mioclonias palpebrais rítmicas, acentuadas e frequentes. Caracterizam-se por contrações palpebrais rápidas associadas à retropulsão do globo ocular, com componente tônico dos músculos envolvidos (Figura 27). 1 s Figura 27. Retropulsão ocular e mioclonias palpebrais ao fechamento dos olhos. 69 Semiologia das crises generalizadas Este tipo de crises de ausências foi reconhecido pela Comissão de Classificação da ILAE12,13 e as mioclonias palpebrais dessa síndrome devem ser distinguidas daquelas de outras crises de ausên- cia, sendo as mioclonias aleatórias e raras, com movimentos menos rítmicos e sustentados. Por outro lado, a perda da consciência é sutil e menos acentuada do que em outras ausências típicas. Alguns autores98 acreditam que essas crises possam ser autoinduzidas por piscamento pal- pebral vigoroso, voluntário ou subconsciente, uma vez que esses pacientes apresentam fotossensibilidade. Caracteristicamente, o fechamento ocular voluntário é seguido por mo- vimento lento dos olhos para cima e flutter palpebral. Alguns pacientes continuarão a exibir mioclonias palpebrais sem perda da consciência, mesmo quando as descargas epileptifor- mes já foram suprimidas pelos fármacos anticrises. Dessa forma, a manutenção das mio- clonias palpebrais não deve ser interpretada como evidência de ausências não controladas sem que seja realizada análise mais detalhada do quadro clínico. No EEG, registram-se surtos de três a cinco espículas associadas a ondas lentas que são facilmente induzidas pelo fechamento dos olhos em uma sala iluminada (a escuridão total suprime as anormalidades evocadas pelo fechamento ocular) (Figura 27). Esta síndrome foi reconhecida pela ILAE em 2022 entre as epilepsias generalizadas genéticas como Epilepsia com Mioclonias Palpebrais.99 Crises de ausências mioclônicas As primeiras descrições dessa síndrome foram realizadas por Tassinari et al.100,101 A epilepsia com crises de ausências mioclônicas é um tipo raro de epilepsia generalizada, com incidência de 0,5% a 1%. A idade de início é em torno de 7 anos e 20% dos casos apresentam história familiar de epilepsia. O grau de comprometimento da cons ciência é variável, desde perda completa até discreta ruptura do contato.102 Geralmente as mioclonias, exuberantes nessa síndrome, constrangem o paciente e não é incomum observá-lo tentando se segurar, pois, assim, tem a impressão de estar controlando a intensidade dos abalos. As mioclonias, que constituem sinal característico e constante da síndrome, são comumente associadas a maior ou menor grau de contração tônica dos mús- culos dos ombros, membros superiores e inferiores. Os músculos faciais são menos afeta- dos, e quando o são, é mais evidente o envolvimento da região perioral, enquanto as pálpe- bras, tipicamente, não são envolvidas. Devido à contração tônica concomitante, os abalos dos membros superiores são acompanhados por progressiva elevação destes, o que confere o aspecto típico dessas crises. Se o paciente estiver em pé, normalmente cai, embora possa apresentar simplesmente oscilação para trás ou para frente. Desvio da cabeça e do tronco (sem conco mitante desvio ocular ou oculoclônico) pode ser observado em alguns casos. 70 Crises epilépticas Ocasionalmente pode haver mudança no padrão respiratório, pausa respiratória ou libera- ção do esfíncter urinário. As crises podem ter início e término abruptos e duração entre 10 e 60 segundos. A frequência é elevada, podendo se repetir váriasou até dezenas de vezes ao dia. Podem ser provocadas por hiperventilação ou despertar e, em 14% dos casos, pela fotoestimulação intermitente. Podem também ocorrer durante o sono leve, promo vendo o des pertar. Esta síndrome foi reconhecida pela ILAE em 2022 entre as epilepsias generalizadas gené- ticas como Epilepsia com Ausências Mioclônicas.99 Espasmos epilépticos Os espasmos epilépticos são caracteristicamente, mas não exclusivamente, encontrados na síndrome dos Espasmos Epilépticos Infantis, constitui a causa mais comum de deterioração psicomotora na infância. Esta síndrome inicia-se entre 1-24 meses, mas o tipo de crise de espasmos epilépticos pode ocorrer desde o nascimento até a idade de 5 ou mais anos. Dete- rioração psicomotora, manifestando-se como perda do contato visual, e hipotonia axial ou outros tipos de crises podem preceder os espasmos. Também deno minados espasmos epi- lépticos, consistem em movimentos agrupados e sustentados da musculatura axial, sendo caracterizados por movimentos axiais breves que duram de 0,2 a 2 segundos, em flexão ou extensão, embora as formas em flexão ou mistas sejam as mais frequentes. Os espasmos epilépticos em flexão consistem em flexão súbita do pescoço e dos quatro membros, com adução dos membros superiores semelhante ao movimento de um abraço. Os espasmos epilépticos em extensão provocam estiramento abrupto do pescoço e dos membros inferiores, com extensão e abdução dos membros superiores simulando o reflexo de Moro. A frequência desses dois tipos de espasmo é de cerca de 40% para a variedade em flexão e 20% para o tipo extensor.103 Estudos eletromiográficos mostram que os músculos axiais flexores e extensores são envolvidos simultaneamente. Cerca de 40% dos pacientes exibem espasmos epilépticos mistos, nos quais há flexão do pescoço, tronco e membros superiores e extensão dos inferiores. Os espasmos epilépticos geralmente ocorrem em salvas em 90% dos pacientes.104 A inten- sidade de cada espasmo é variável, inclusive na mesma salva. Podem envolver o pescoço, com movimento leve de aceno, ou provocar elevação dos ombros; por vezes, podem ser extremamente sutis, sendo caracterizados por breve desvio ocular para cima. Clini camente, a contração é súbita e, frequentemente, seguida por choro; raramente pode ser seguida por riso. Em espasmos tônicos, uma contração tônica sucede a contração axial súbita inicial, estendendo a duração por até dez segundos. Tayrine da Siva Gonçalves Espasmos tônicos 71 Semiologia das crises generalizadas A intensidade tem pouco significado prognóstico. No início do quadro clínico, os espasmos geralmente são leves e, com o decorrer dos dias, acometem grande parte da musculatura. Com o tratamento, diminuem em intensidade, tornando difícil seu reconhe cimento sem o registro eletroencefalográfico. Espasmos epilépticos assimétricos ou unilaterais são incomuns. O achado semiológico mais comum durante a monitorização por vídeo-EEG é a presença de desvio ocular e, al- gumas vezes, da cabeça.105 Movimentos oculares mais complexos, como rotação dos olhos ou movimentos nistagmoides, flutter palpebral ou fenômenos autonômicos podem ocorrer, especialmente se os espasmos forem decorrentes de lesões focais ou multifocais.106 O número de espasmos epilépticos por salva varia de alguns a mais que 100 (em média, entre 20 e 40). Recorrem a intervalos de 5 a 30 segundos e tipicamente diminuem em fre- quência e intensidade conforme o número progride.104 Em geral, há ocorrência de uma a mais de dez salvas ao dia, as quais não são precipi tadas por estímulos externos, com exceção de sonolência, toque, alimentação ou febre. Raramen- te ocorrem durante sono, embora sejam comuns ao despertar. A monitoração por vídeo-EEG de pacientes não tratados mostrou que 60% dos eventos ictais ocorreram no início da sonolência, 27% durante sono não REM e 13% ao despertar, porém nenhum evento foi registrado durante sono REM.105 Diferentes comportamentos podem ocorrer durante salvas de espasmos. A criança pode permanecer quieta ou apresentar agitação e choro, que cessam durante a ocorrência dos espasmos. Após uma salva, pode haver sonolência ou aumento do estado de alerta com melhora da atividade de base do EEG.103 A principal característica eletroencefalográfica da síndrome dos Espasmos Epilépticos In- fantis é a hipsarritmia, termo derivado da palavra grega hupselos, que significa “elevado”. No registro eletroencefalográfico, há predominância de surtos de ondas lentas, de amplitu- des maiores que 200 µV, que ocorrem de forma irregular, exibindo graus variáveis de sin- cronia entre os dois hemisférios cerebrais. Longos períodos de ondas lentas são registrados entre espículas e ondas agudas, que podem ocorrer isoladas ou em breves sequências de polispícula, estas de amplitudes menores. Esses surtos de espículas quase sempre apresen- tam acentuação posterior, mas variam de momento a momento em localização e duração. Às vezes podem parecer focais e segundos depois parecem ter origem em múltiplas áreas, e, se em projeção difusa, nunca terão padrão organizado e repetitivo. O período mais pro- pício para o registro da hipsarritmia é o início do sono não REM. O sono tende a aumentar a sincronia entre os hemisférios, podendo haver, nesta fase, trechos curtos de atenuação do 72 Crises epilépticas registro, que interrompem a continuidade da hipsarritmia, constituindo o padrão de hipsar- ritmia fragmentada (Figura 28). 1 s Figura 28. Registro em sono com descargas irregulares de polispícula, ondas lentas e ondas agudas de projeção generalizada caracterizando hipsarritmia fragmentada. Durante o sono REM ocorre atenuação acentuada (ou mesmo desaparecimento) da hipsar- ritmia, e o traçado pode ser quase normal. Existem variações da descrição do protótipo da hipsarritmia, coletivamente denominadas “hipsarritmia modificada”. Hrachovy et al.106 descreveram cinco variedades de hipsarritmia modificada: 1. Hipsarritmia com aumento da sincronização inter-hemisférica (Figura 29). O aumento da sincronização e da simetria pode ser evidenciado como surtos de atividade de espí- cula-onda generalizada ou aumento da sincronização da atividade de base (presença de atividade rítmica nas frequências teta e alfa). 2. Hipsarritmia assimétrica. Refere-se a padrões em que há assimetria persistente de vol- tagem entre os dois lados, que pode ser regional ou unilateral (Figura 30). 3. Hipsarritmia com anormalidade focal consistente. Hipsarritmia associada a um campo de descarga de espícula-onda ou onda aguda consistente, claramente distin guível das descargas multifocais (Figura 31). 73 Semiologia das crises generalizadas Figura 29. Hipsarritmia com aumento da sincronização inter-hemisférica.106 1 s Figura 30. Hipsarritmia assimétrica. 74 Crises epilépticas 4. Hipsarritmia com episódios de atenuação de voltagem generalizada, regional ou locali- zada. Neste grupo há atenuação de voltagem durante dois a dez segundos (Figura 32). Figura 31. Hipsarritmia com anormalidade focal consistente.106 Figura 32. Hipsarritmia generalizada com períodos de atenuação de voltagem.106 75 Semiologia das crises generalizadas 5. Hipsarritmia com atividade lenta de amplitude elevada, bilateral e assíncrona. Neste tipo predominam as ondas lentas de amplitude elevada, com poucas descargas de espí- culas ou ondas agudas. A variante rápida da hipsarritmia compreende atividade de amplitude elevada associada a paroxismos difusos e rápidos.109 Espasmos epilépticos são associados a vários padrões ictais, os quais podem ocorrer isola- dos ou em combinação: ondas lentas generalizadas de amplitude elevada, atenuação difusa, atividade rápida e rítmica chamada spindle-like, devido a sua semelhança com os fusos de sono e complexos de espícula-onda. Na prática, durante o espasmo epiléptico, pode ser difícil distinguir a atividade cerebral do artefato de movimento, embora no início e final das salvas de espamos a natureza cerebralda onda lenta seja usualmente clara.107 Fusco e Vigevano108 descreveram um detalhe interessante de correlação entre clínica e os padrões eletroencefalográficos. O padrão do EEG que mais consistentemente está relacionado aos espasmos clínicos é a ocorrência de uma onda lenta inaugurando-os. Surtos de atividade rápida rítmica tendem a ocorrer próximos ao início ou final de uma salva de espasmos. No grupo de pacientes com epilepsia sintomática, os espasmos fo- ram assimétricos em 40% dos casos. Desvio da cabeça e dos olhos foram mais frequen- temente associados aos espasmos assimétricos, mas também ocorreram nos simétricos. Sinais focais ou espasmos assimétricos, ou ambos, foram observados em 63% dos casos desta série. Nos casos sintomáticos, a atividade ictal também pode ser assimé trica ou assíncrona. Crises mioclônicas A palavra myoclonus deriva do grego myo (músculo) e clonus (perturbação, inquietação). Crises mioclônicas são contrações musculares breves, súbitas, semelhantes a choques. Padrões eletromiográficos A figura 33 ilustra os padrões eletromiográficos em três diferentes situações clínicas: mioclonia, contração tônica e atonia. A mioclonia é caracterizada por um potencial de curta duração, amplo e fásico, seguido por silêncio muscular com duração de até 200 milissegundos, chamado silêncio pós-mioclônico. Nela, há associação de dois elementos opostos: um positivo (ativação hipersíncrona) e outro negativo (inibição pós-mioclônica).110 Tayrine da Siva Gonçalves Espasmos - correlato EEG ictal Tayrine da Siva Gonçalves Mioclonia - EMG 76 Crises epilépticas Os abalos musculares podem ser generalizados ou focais, envolvendo músculos ou grupos musculares. As mioclonias podem ocorrer de forma isolada ou em salvas, de caráter rítmico ou não. A amplitude dos abalos é variável, podendo ser observadas pequenas contrações que não são capazes de provocar um movimento visível ou contrações intensas que movem os membros, a cabeça ou o tronco. Podem ainda ocorrer de forma bilateral ou unilateral, simétrica ou assimétrica. O EEG é indispensável para a avaliação das mioclonias. Naquelas de origem epiléptica, re- gistram-se descargas epileptiformes associadas à contração mioclônica. Entretanto, a sim- ples presença de mioclonias e de alterações epileptiformes nem sempre significa epilepsia, podendo ocorrer, por exemplo, associadas a ondas agudas periódicas a 1/s na doença de Creutzfeldt-Jakob, na qual o abalo muscular pode coincidir com a onda aguda, embora esses pacientes raramente apresentem crises epilépticas e nem sempre se beneficiem do tratamento com fármacos anticrises. As mioclonias epilépticas podem ser subdividas em cortical reflexa, reticular reflexa e em mioclonia epiléptica generalizada primária (Hallet et al., 1979). Mioclonia cortical reflexa. É considerada um “fragmento” de epilepsia focal. O abalo mioclônico pode ser espontâneo, induzido por movimentos voluntários (mioclonia de ação) ou por estímulo somatossensitivo (mioclonia reflexa). O abalo mioclônico é decorrente da Mioclonia Contração tônica Atonia A B C Figura 33. Representação gráfica do padrão eletromiográfico em mioclonia, contração tônica e atonia. A. Mioclonia: potencial amplo e bifásico seguido por silêncio pós-mioclônico. B. Contração tônica: aumento progressivo e recrutante da atividade muscular de duração mais prolongada. C. Atonia: súbita depressão da atividade muscular. Tayrine da Siva Gonçalves Padrões eletromiográficos - mioclonia, contração tônica e atonia 77 Semiologia das crises generalizadas hiperexcitabilidade do córtex sensório-motor e cada abalo é consequência de uma descarga proveniente de pequena área cortical envolvendo alguns poucos músculos contíguos. Alte- ração eletroencefalográfica precede o abalo mioclônico. Potenciais evocados somatossen- sitivos gigantes podem ser encontrados com a estimulação do nervo mediano. Mioclonia reticular reflexa. É considerada um “fragmento” de uma das formas de epilepsia generalizada sintomática e decorre de hiperxcitabilidade da formação reticu- lar do tronco encefálico de onde partem impulsos que se propagam até os músculos. Descarga epileptiforme de espícula ou polispícula frequentemente é associada ao aba- lo, embora não relacionada temporalmente a ele. Na verdade, ocorre após o registro eletromiográfico da mioclonia, o que sugere sua projeção a partir do tronco encefálico. O potencial evocado somatossensitivo não está aumentado, o que indica ausência de hiperexcitabilidade cortical. Mioclonia epiléptica generalizada primária. É um “fragmento” de epilepsia genera- lizada primária. As mioclonias, discretas ou maciças, são originadas difusamente no córtex de onde se propagam pelo tronco encefálico, induzindo contrações musculares bilaterais e síncronas. Os abalos mioclônicos são associados a descargas de polispícu- la difusas ou complexos de espícula-onda ou polispícula-onda, os quais precedem as mioclonias. Foi sugerida uma classificação das síndromes e doenças que cursam com mioclonias, uti- lizando a mesma dicotomia de classificação das crises epilépticas, ou seja, considerou os grupos de síndromes mioclônicas focais e o das generalizadas (Quadro 11).111 Quadro 11. Classificação das síndromes epilépticas e doenças mioclônicas.111 Focal Indeterminada Generalizada Epilepsia partialis contínua Epilepsias mioclônicas progressivas Encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento infantil precoce Encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento com ativação de espícula-onda no sono Síndrome de Lance- Adams Epilepsia mioclônica do lactente Síndrome de Lennox-Gastaut Epilepsia com crises mioclônico- atônicas Epilepsia ausência mioclônica Epilepsia mioclônica juvenil Tayrine da Siva Gonçalves Mioclonia EEG 78 Crises epilépticas Entre as síndromes que cursam com mioclonias epilépticas focais estão a epilepsia par- tialis continua e a encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento com ativação de espícu- la-onda no sono. No grupo das generalizadas estão muitas encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento e as epilepsias generalizadas idiopáticas. Doenças específicas, como as epilepsias mioclônicas progressivas e a síndrome de Lance-Adams, as quais tipicamente promovem mioclonias multifocais, fragmentadas e generalizadas, ocupam posição inter- mediária entre as focais e as generalizadas. Mioclonias maciças e bilaterais em diferentes formas de epilepsias generalizadas idiopáti- cas são acompanhadas por surtos de complexos de polispícula-onda generalizados. A pre- sença de múltiplas espículas, certo grau de assimetria ou multifocalidade não é incomum. Pode haver ainda a presença de descargas que não são acompanhadas clini camente por mioclonias. Em geral, as associadas a mioclonias são as de múltiplas espículas, de maior amplitude e duração (Figura 34). Figura 34. Registro de polispícula de projeção generalizada durante uma crise mioclônica. Mioclonia 1 s Tayrine da Siva Gonçalves Mioclonia EEG 79 Semiologia das crises generalizadas Uma modalidade de crise generalizada mioclônica reconhecida pela ILAE em 2017 é a de crise mioclônica-tônico-clônica.12,13 Estas crises começam com poucos abalos mioclônicos os quais são seguidos por atividade tônico-clônica. São comumente vistas em pacientes com epilepsia mioclônica juvenil e ocasionalmente em outras epilepsias generalizadas. Pode-se discutir se os abalos iniciais são mioclônicos ou clônicos, mas raramente eles são suficientemente mantidos para ser considerados clônicos. Crises mioclônico-atônicas Encontradas principalmente em epilepsias da infância, essas crises são caracte rizadas por abalos mioclônicos nos membros superiores, geralmente em flexão, seguidos de perda do tônus muscular com queda da cabeça e flexão dos joelhos. Previamente chamadas crises mioclônico-astáticas, estas crises tiveram esta denominação abandonada porque o ‘drop attack epiléptico’ se refere simplesmente à perda da postura ereta. A queda nãoOutros sinais ......................................................................................................................52 8 Seção 3 - Semiologia das crises de início generalizado ............................................................. 53 Crises tônico-clônicas generalizadas ..............................................................................................54 Descrição clínica ................................................................................................................54 Sintomas premonitórios .....................................................................................................55 Fase pré-ictal imediata ......................................................................................................55 Fase ictal ...........................................................................................................................55 Fase tônica.........................................................................................................................55 Fase clônica .......................................................................................................................57 Fase pós-ictal imediata ......................................................................................................58 Fase de recuperação pós-ictal ...........................................................................................58 Descrição eletroencefalográfica .........................................................................................59 Crises clônicas ...............................................................................................................................60 Crises tônicas ...............................................................................................................................62 Descrição clínica ................................................................................................................62 Descrição eletroencefalográfica .........................................................................................62 Crises de ausências típicas ............................................................................................................64 Descrição eletroencefalográfica .........................................................................................65 Crises de ausências atípicas ..........................................................................................................67 Mioclonias palpebrais com e sem ausência ..................................................................................68 Crises de ausências mioclônicas ...................................................................................................69 Espasmos epilépticos ....................................................................................................................70 Crises mioclônicas ........................................................................................................................75 Padrões eletromiográficos ..................................................................................................75 Crises mioclônico-atônicas ...........................................................................................................79 Mioclonias negativas......................................................................................................................79 Crises atônicas .............................................................................................................................80 Crises reflexas ................................................................................................................................81 Seção 4 - Epilepsias e síndromes epilépticas ............................................................................. 83 Seção 5 - Síndromes epilépticas com início em neonatos e lactentes ......................................... 87 Seção 6 - Síndromes epilépticas com início na infância ........................................................... 105 Seção 7 - Síndromes epilépticas com início em idades variáveis ............................................... 119 Seção 8 - Síndromes epilépticas generalizadas idiopáticas ....................................................... 129 Referências bibliográficas ...................................................................................................... 135 Seção 1 Classificação das crises epilépticas 10 Crises epilépticas Crise epiléptica é definida como a ocorrência transitória de sinais e/ou sintomas decor- rentes de atividade neuronal síncrona ou excessiva no cérebro.1 Esses sinais ou sintomas incluem fenômenos anormais súbitos e transitórios, como alterações da consciência, ou eventos motores, sensitivos/sensoriais, autonômicos ou psíquicos involuntários percebidos pelo paciente ou por um observador.2 Epilepsia é a predisposição persistente do cérebro para gerar crises epilépticas recorrentes. Tradicionalmente, epilepsia é definida pela ocorrência de duas crises epilépticas não pro- vocadas, separadas por um intervalo de mais de 24 horas. Quando essas crises recorrem dentro deste tempo, mesmo que assumam a forma de crises subentrantes ou estado de mal epiléptico, não são suficientes para o diagnóstico de epilepsia.3 A ocorrência de duas crises epilépticas não provocadas autorizaria o médico a propor o início do tratamento da epilepsia. Atualmente, a International League Against Epilepsy (ILAE) preconiza duas definições de epilepsia: uma definição conceitual (científica) e outra operacional (prática).4 Em 2005, um grupo de trabalho da ILAE propôs uma definição conceitual (científica) de epilepsia como um distúrbio cerebral caracterizado pela predisposição persistente do cére- bro para gerar crises epilépticas e pelas consequências neurobiológicas, cognitivas, psico- lógicas e sociais dessa condição. Segundo essa proposição, a definição de epilepsia requer a ocorrência de pelo menos uma crise epiléptica desde que seja demonstrada uma condição que predisponha o cérebro a gerar crises, como uma anormalidade eletroencefalográfica ou uma lesão cerebral às quais a ocorrência da crise possa ser atribuída.1 Em 2014, a ILAE propôs uma definição operacional (prática) de epilepsia como uma doen- ça do cérebro caracterizada por uma das seguintes condições:4 • Pelo menos duas crises não provocadas (ou duas crises reflexas) ocorrendo em um intervalo superior a 24 horas. • Uma crise não provocada (ou uma crise reflexa) e chance de ocorrência de uma nova crise estimada em pelo menos 60%. • Diagnóstico de uma síndrome epiléptica.4 A compreensão dessa definição requer a clarificação de vários termos nela utilizados. Epilepsia como doença: tradicionalmente referida como um distúrbio cerebral funcional, em 2014 epilepsia foi definida como doença. Esse termo implica que há uma desestruturação du- radoura da função cerebral normal. Como o câncer, condição reconhecidamente aceita como doença, a qual se manifesta sob várias formas e exige múltiplas modalidades terapêuticas cursando com prognósticos variados, a epilepsia também deve ser considerada uma doença.4 11 Classificação das crises epilépticas Crises reflexas: uma crise é denominada reflexa quando sua ocorrência está claramente relacionada a um estímulo externo ou a uma atividade do indivíduo. O estímulo precipi- tante pode ser simples (lampejos luminosos, por exemplo) ou elaborado (uma música, por exemplo). Da mesma forma, a atividade também pode ser simples (um movimento, por exemplo), elaborada (ler, jogar xadrez, por exemplo) ou ambas (ler em voz alta, por exem- plo).5 É importante distinguir fatores facilitadores de crises, que são elementos endógenos (como privação de sono) e exógenos (como uso de cocaína) capazes de provocar crises em pessoas com epilepsia crônica ou evocar crises em indivíduos susceptíveisidentifica o mecanismo subjacente a ela (atônico, mioclônico ou tônico) e, em geral, não pode ser definido na ausência de registro poligráfico. Clinicamente, a fase mioclônica é breve, podendo ser generalizada, isolada ou repetida em curtas séries de dois ou três eventos. Os músculos proximais são os mais envolvidos, pro- duzindo flexão súbita da cabeça e do tronco com queda ao solo.112 A duração desses episó- dios é muito breve (0,3 a 1 segundo). A queda pode ser consequência do abalo mioclônico maciço ou resultado do período silente pós-mioclônico, o qual pode ser muito proeminen- te.113 Traumatismos, frequentemente observados nesse tipo de crise, podem ocorrer pela natureza muito rápida dos eventos ou em razão de alteração discreta de consciência. O registro eletroencefalográfico é caracterizado por complexos de poliponta-onda ritmados de 2 a 3 Hz, usualmente de morfologia irregular e, em geral, agrupados em sequências rít- micas regu lares, interrom pidas por ondas lentas de amplitude elevada. Mioclonias negativas Mioclonias negativas, também chamadas de atonias focais breves,112 consistem em in- terrupção breve da atividade tônica muscular, acarretando perda momentânea de tônus causada por mecanismo epiléptico. Mioclonias negativas, também chamadas de atonias focais breves, consistem em interrupção breve da atividade tônica muscular acarretando perda momentânea de tônus causada por mecanismo epiléptico. A distinção entre a na- tureza epiléptica e não epiléptica dependerá do contexto clínico. Deve-se, por exemplo, verificar se a mioclonia negativa é ou não parte de uma síndrome epiléptica, uma vez que clinicamente não há diferença entre ambas as formas. 80 Crises epilépticas As mioclonias negativas epilépticas podem ser encontradas em vários tipos de epilep- sia. Clinicamente se manifestam por perda breve de tônus, que interfere na coordenação e no controle postural. Podem ser notadas apenas quando o paciente exerce uma ativi- dade tônica da parte do corpo afetada pela mioclonia e pode ser uni ou bilateral e ainda com prometer os músculos distais, proximais ou axiais como os cervicais e os cefálicos. A manifestação clínica pode ser muito discreta, sob a forma de leve instabilidade, mas quando da realização de alguns movimentos, poderá haver queda da cabeça ou de objetos mantidos nas mãos. A frequência também é variável, ocorrendo quase continua- mente, durante dias ou semanas, ocasionando acentuado comprome timento motor.115 As mioclonias negativas podem inaugurar uma síndrome epiléptica ou, ainda, mais comu- mente, surgir mais tarde, após já se ter iniciado outro tipo de crise, como crises clônicas focais da face ou hemicorporais, crises generalizadas atônicas ou tônico-clônicas ou crises de ausência. As mioclonias negativas não são específicas de nenhuma síndrome. Entretanto, há três principais categorias de síndromes epilépticas em que são descritas mais frequentemente: 1) epilepsias focais idiopáticas; 2) focais sintomáticas; 3) nas síndromes generalizadas sin- tomáticas. O EEG durante o fenômeno pode ser focal ou generalizado. Crises atônicas As crises atônicas são encontradas em epilepsias generalizadas sintomáticas, mas também podem ocorrer em epilepsias generalizadas idiopáticas.116 As crises atônicas nas epilepsias generalizadas sintomáticas são caracterizadas por perda do tônus da musculatura postural de forma súbita e intensa e podem ser precedidas por um ou mais abalos mioclônicos.68 Estes usualmente duram um a dois segundos e podem variar quanto à intensidade, desde discreta queda da cabeça (como um aceno) até queda súbita ao solo. As crises atônicas podem ser de difícil reconhecimento clínico se o paciente estiver sentado ou deitado. Durante a crise, há perda de consciência breve, mas confusão pós-ictal é rara.117 O fato de as crises atônicas serem muito breves dificulta a observação detalhada. Estudos nos quais não são realizados vídeo-EEG nem registros poligráficos são de valor limitado. Estes demonstram que as crises de queda são, em geral, tônicas, sendo as atônicas relativa- mente incomuns, que as crises atônicas puras são raras e que muitas crises com componen- te atônico são associadas a abalos mioclônicos.118 Perda de tônus também pode ser obser- vada em pacientes com crises de ausência, especialmente naqueles com ausências atípicas. 81 Semiologia das crises generalizadas Gastaut e Régis119 distinguiram as ausências com componente atônico das crises atôni- cas, as quais foram chamadas de drop attacks para enfatizar sua duração curta. Esses autores definiram as crises atônicas como um evento em que há redução ou ausência do tônus postural, de duração muito curta, podendo envolver todos os músculos pos- turais (o que ocasiona queda ao solo) ou somente a musculatura cervical (com queda da cabeça). As crises atônicas foram ainda estudadas do ponto de vista eletroclínico, sendo verificada associação usual de crises atônicas e crises mioclônico-atônicas no mesmo paciente.120 O EEG ictal em crises atônicas breves pode demonstrar descargas do tipo polispícula-onda ou, menos frequentemente, um ou mais surtos de descargas generalizadas de espícula-on- da, que podem ser associados a abalos mioclônicos.68 Essas descargas são rapidamente seguidas por ondas lentas generalizadas difusas, máximas na região central e no vértex, as quais, clinicamente e nos registros eletromiográficos, são acompanhadas por hipotonia intensa e generalizada. Durante uma crise atônica prolongada, o EEG mostra ondas lentas bilaterais e difusas inter- caladas a ondas agudas repetitivas a 10 Hz, bilaterais, síncronas e simétricas.68 Crises reflexas Como nas crises focais, estímulos elementares e complexos podem atuar como desenca- deantes de crises reflexas generalizadas. 83 Seção 4 Epilepsias e síndromes epilépticas 84 Crises epilépticas A Classificação das Epilepsias de 2017 (Figura 35), oferece a possibilidade de diagnóstico em múltiplos níveis, dependendo da informação e dos recursos disponíveis.122 O primeiro passo (Nível 1) consiste em estabelecer se um determinado evento paroxístico é uma crise epiléptica. Uma vez que este diagnóstico tenha sido estabelecido clinicamente (ou através de exames auxiliares, como EEG, vídeo-EEG ou ambos), o próximo passo será classificar o(s) tipo(s) de crise(s). Algumas vezes o diagnóstico precisará ser interrompido a este nível, pois em determinadas situações, como quando estamos diante de uma primeira crise epiléptica, não será possível prosseguir para os próximos níveis.122 O Nível 2, considera a epilepsia com base no(s) tipo(s) de crise(s). Neste, as epilepsias de- verão ser classificadas como focais, generalizadas, focais e generalizadas (quando ambos os tipos de crises estiverem presentes) ou desconhecidas (quando for impossível classificar as crises como focais ou generalizadas).122 O Nível 3 estabelece o diagnóstico de uma síndrome epiléptica. Uma síndrome epiléptica é um conjunto de características clínicas, eletroencefalográficas, imagenológicas e etiológicas. Este diagnóstico terá muita importância para o tratamento e o estabelecimento do prognós- tico. Embora o Esquema Diagnóstico enfatize em todos os seus três níveis que é fundamen- Figura 35. Esquema diagnóstico de 2017 da Classificação da ILAE das Epilepsias.122 Genética Focais Generalizadas Generalizadas e focais Desconhecidas Estrutural Metabólica Imune Infecciosa Desconhecida 2. Epilepsias classificadas de acordo com o(s) tipo(s) de crise(s) 1. Tipos de crises 3. Síndromes epilépticas 4. Epilepsia com etiologia C om or bi da de s ETIOLOGIA 85 tal estabelecer a etiologia das epilepsias observando-se inclusive, uma barra vertical à di- reita, listando os seis grupos etiológicos, é o quarto nível (Nível 4) que define o diagnóstico da epilepsia e sua etiologia. Em algumas circunstâncias, mesmo sem o reconhecimento da síndrome epiléptica, é possível estabelecer o diagnóstico etiológico. Um exemplode uma destas condições é a definição de que a etiologia da epilepsia de um determinado paciente é uma mutação na subunidade alfa 1 do canal de sódio (SCN1A), a qual é encontrada em um espectro de manifestações clínicas, de gravidade crescente, desde crises febris simples até a síndrome de Dravet, no extremo mais grave deste espectro.122 Embora em todos os níveis nossa atenção deva estar voltada para o estabelecimento da etiologia da epilepsia, infelizmente, em vários deles, esta não poderá ser definida a des- peito de todos os esforços. Em outros casos, pode haver mais de uma etiologia para uma mesma epilepsia. Assim, a epilepsia pode ter duas etiologias, por exemplo, uma estrutural e outra genética, como ocorre na esclerose tuberosa. Finalmente, encerrando o Esquema Diagnóstico, pacientes com epilepsia podem apresentar uma gama ampla de comorbida- des (representadas à esquerda), as quais podem ser encontradas em qualquer forma das doenças epilépticas e também podem contribuir para o diagnóstico etiológico. Assim, por exemplo, meninas com mutações no gene PCDH-19 que produz a proteína protocaderina 19 (PCDH-19) apresentam alterações comportamentais com características do espectro au- tista e episódios de terror os quais são, de longe, mais graves do que as crises epilépticas.122 Para a melhor compreensão da terminologia utilizada neste Esquema Diagnóstico, foram ainda definidos alguns termos importantes nele utilizados ou frequentemente empregados na caracterização das epilepsias, como: Encefalopatias epilépticas e/ou do desenvolvimento: Epilepsia associada com comprome- timento no desenvolvimento que deve estar relacionado à etiologia de base (encefalopatia do desenvolvimento) e/ou à atividade epileptiforme (encefalopatia epiléptica). 122 Epilepsias autolimitadas, implicando que elas se resolvem com o tempo e nem sempre são benignas, uma vez que podem acarretar comorbidades variadas.122 Considera epilepsias generalizadas idiopáticas um subgrupo com herança complexa entre as epilepsias generalizadas genéticas.122 Finalmente, algumas epilepsias configuram síndromes epilépticas, definidas simplesmente como “um grupo característico de manifestações clínicas e eletroencefalográficas, frequen- temente suportadas por achados etiológicos específicos (estruturais, genéticos, metabóli- cos, imunes e infecciosos"). O diagnóstico de uma síndrome em um paciente com epilepsia tem implicações terapêuticas e prognósticas.8 86 Crises epilépticas Como as síndromes epilépticas frequentemente têm apresentações dependentes da idade e típicas, elas foram consideradas pela Comissão de Terminología da ILAE em quatro grupos:8 1. A classificação e definição de síndromes epilépticas com início neonatal e em lactentes 123; 2. A classificação e definição de síndromes epilépticas com início na infância 99; 3. A classificação e definição de síndromes epilépticas com início em idades variáveis, que inclui as epilepsias generalizadas idiopáticas 46; 4. As epilepsias generalizadas idiopáticas, cujas quatro síndromes mereceram uma análise específica.124 Os critérios diagnósticos essenciais para cada uma das 39 síndromes reconhecidas pela ILAE são expostos em grupos. Critérios mandatórios devem estar presentes para diagnos- ticar a síndrome. Se um critério mandatório não está presente, a síndrome não pode ser diagnosticada. Critérios de exclusão devem estar ausentes para o diagnóstico da síndrome. Se um critério de exclusão está presente, a síndrome não pode ser diagnosticada. Finalmen- te, os critérios de alerta estão ausentes na maioria dos pacientes que têm a síndrome, mas podem ser encontrados raramente. Alertas apenas não excluem a síndrome, mas devem fa- zer com que o clínico reconsidere o diagnóstico e utilize outras investigações para descartar outras condições. Quanto maior o número de alertas, menor a possibilidade diagnóstica de uma síndrome específica.8 87 Seção 5 Síndromes epilépticas com início em neonatos e lactentes 88 Crises epilépticas Figura 36. As síndromes epilépticas com início em neonatos e lactentes. A maioria delas cursa com tipos de crises multiformes e constituem epilepsias graves de diagnóstico difícil, muitas vezes dependentes de estudos genéticos.123 Síndromes Epilépticas com Início em Neonatos e Lactentes Início das crises até 2 anos de idade Epilepsias autolimitadas Epilepsia autolimitada do recém-nascido (familial) Epilepsia autolimitada do recém-nascido e lactente (familial) Epilepsia autolimitada do lactente (familial) Espectro da epilepsia genética com crises febris plus (GEFS+) Epilepsia mioclônica do lactente Encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento EED precoce do lactente Síndrome dos espasmos epilépticos infantis Epilepsia do lactente com crises focais migratórias Síndrome de Dravet Síndromes com fenótipos eletroclínicos homogêneos etiologia- -específicas • EED- KCNQ2 • EED dependente de piridoxina/piridoxal fosfato • EED- CDKL5 • Epilepsia em salvas PCDH19 • Síndrome da deficiência do transportador de glicose 1 (GLUT 1) • Síndrome de Sturge-Weber • Crises gelásticas com hamartoma hipotalâmico Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97. 89 Síndromes epilépticas com início em neonatos e lactentes Tabela 1. Epilepsias autolimitadas - Epilepsia autolimitada do recém-nascido (familial) Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises são caracterizadas por manifestações tônicas focais no início, afetando a cabeça, face e membros. Crises focais clônicas ou tônicas podem alternar de lado de uma crise à outra e podem evoluir para tônicas bilaterais ou clônicas bilaterais História clínica sugestiva de crises in utero Espasmos epilépticos Crises mioclônicas Crises tônicas generalizadas Crises tônico-clônicas generalizadas EEG Interictal: Discreto alentecimento da atividade de base Interictal: Alentecimento focal persistente ou alentecimento moderado ou acentuado não limitado ao período pós-ictal Padrão surto-supressão Hipsarritmia Ictal: Falta de correlato no EEG com os sintomas clínicos Idade de início Início após o 1o mês de idade Desenvolvimento no início Qualquer grau de encefalopatia Exame neurológico Anormalidades significantes no exame neurológico, excluindo achados incidentais Imagem Neuroimagem documentando lesão causal para as crises Outros estudos - genética, etc. Falta de variante patogênica nos genes associados a esta síndrome, mais comumente KCNQ2 ou KCNQ3 OU Falta de história familiar sugestiva de herança autossômica dominante com penetrância incompleta Outras causas de crises sintomáticas agudas incluindo infecção intracraniana, acidente vascular isquêmico ou hemorrágico, lesão cerebral hipóxico-isquêmica, distúrbios metabólicos significantes Curso da doença Discreto atraso no neurodesenvolvimento a longo prazo Falta de remissão da epilepsia após 6 meses de idade Epilepsia fármacorresistente Atraso no neurodesenvolvimento moderado a grave RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não lesional é necessária para diagnóstico EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Epilepsia Autolimitada do Recém-nascido (Familial) pode ser diagnosticada sem EEG e RM em um neonato com história familiar sugestiva desta síndrome que preencha todos os critérios clínicos mandatórios e de exclusão e não os de alerta. Contudo, a história clínica de familiares afetados deve ser consistente com o curso esperado desta síndrome e o seguimento cuidadoso do paciente é necessário para certificação de que o curso é também consistente com o desta síndrome Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 90 Crises epilépticas Tabela 2. Epilepsias autolimitadas - Epilepsia autolimitada do recém-nascido e lactente (familial) Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises tônicasfocais com desvio da cabeça e dos olhos seguido por manifestações tônicas ou clônicas que podem evoluir para tônico- clônicas bilaterais Crises sequenciais Espasmos epilépticos Crises mioclônicas EEG Interictal: Discreto alentecimento da atividade de base Interictal: Alentecimento focal persistente ou alentecimento moderado ou acentuado não limitado ao período pós-ictal Padrão surto-supressão Hipsarritmia Ictal: Falta de correlato no EEG com os sintomas clínicos Idade de início 1 dia a 23 meses Desenvolvimento no início História anterior de crises sintomáticas agudas incluindo infecção intracraniana, acidentes isquêmicos ou hemorrágicos, injúria cerebral hipóxico-isquêmica, distúrbios metabólicos significantes Encefalopatia Exame neurológico Anormalidades significantes no exame neurológico, excluindo achados incidentais Imagem Neuroimagem documentando lesão causal para as crises Outros estudos - genética, etc. Falta de variante patogênica em genes associados a esta síndrome (usualmente SCN2A) Curso da doença Discreto atraso no neurodesenvolvimento a longo prazo Falta de remissão da epilepsia até 2 anos de idade Epilepsia fármacorresistente Atraso no neurodesenvolvimento moderado a grave RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não lesional é necessária para diagnóstico desta síndrome EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Epilepsia Autolimitada do Recém-Nascido e Lactente (Familial) pode ser diagnosticada sem EEG e RM em um neonato com história familiar sugestiva desta síndrome que preencha todos os critérios clínicos mandatórios e de exclusão e não os de alerta. Contudo, a história clínica de familiares afetados deve ser consistente com o curso esperado desta síndrome e o seguimento cuidadoso do paciente é necessário para certificação que o curso é também consistente com o desta síndrome Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 91 Síndromes epilépticas com início em neonatos e lactentes Tabela 3. Epilepsias autolimitadas - Epilepsia autolimitada do lactente (familial) Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises focais com parada comportamental, automatismos, comprometimento da percepção, versão cabeça/ olhos, e movimentos clônicos (frequentemente alternantes de um lado a outro, progredindo para crises hemiclônicas ou focais evoluindo para tônico-clônicas bilaterais). Crises usualmente breves (10 min) Espasmos epilépticos Crises mioclônicas Crises sequenciais Crises tônicas EEG Interictal: Discreto alentecimento da atividade de base Interictal: Alentecimento focal persistente ou alentecimento moderado ou acentuado não limitado ao período pós-ictal Padrão surto-supressão Hipsarritmia Idade de início Início 18-36 meses de idade Idade de início 36 meses Desenvolvimento no início Discreto atraso no desenvolvimento Atraso moderado a profundo Regressão neurocognitiva Exame neurológico Anormalidades significantes no exame neurológico, excluindo achados incidentais Imagem Neuroimagem documentando lesão causal para as crises Outros estudos - genética, etc. Falta de variantes patogênicas como PRRT2, SCN2A, KCNQ2 ou KCNQ3 OU Falta de história familiar sugerindo herança autossômica dominante com penetrância incompleta Curso da doença Falta de remissão até a infância tardia Regressão neurocognitiva com crises mioclônicas, ataxia, espasticidade RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não lesional é necessária para diagnóstico desta síndrome EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Epilepsia Autolimitada do Lactente (Familial) pode ser diagnosticada sem EEG e RM em um lactente com história familiar sugestiva desta síndrome que preencha todos os critérios clínicos mandatórios e de exclusão e não os de alerta. Contudo, a história clínica de familiares afetados deve ser consistente com o curso esperado desta síndrome e o seguimento cuidadoso do paciente é necessário para certificação que o curso é também consistente com o desta síndrome Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 92 Crises epilépticas Tabela 4. Epilepsias autolimitadas - Espectro da epilepsia genética com crises febris plus (GEFS+)* Crises epilépticas Espectro de diferentes fenótipos de epilepsias familiares Fenótipo mais comum: crises febris generalizadas ou focais que continuam além dos 6 anos de idade Outros tipos de crises generalizadas e focais afebris Fenótipos familiares heterogêneos: epilepsia com crises mioclônico-atônicas, síndrome de Dravet, síndromes epilépticas generalizadas genéticas, incluindo epilepsias generalizadas idiopáticas e epilepsias focais Contexto clínico Nas famílias afetadas as crises febris podem se iniciar antes dos 6 meses de idade e persistir após os 6 anos Crises febris plus (CF+) é um termo usado para descrever crises febris que persistem após 6 anos de idade e/ou evoluem para crises afebris Outros tipos de crises afebris podem se desenvolver em idades variadas Exame neurológico e cognição Normais Imagem Usualmente normal Outros estudos - genética, etc. Cerca de 10% das famílias GEFS+: variantes patogênicas SCN1A Outras variantes genéticas: SCN1B e variantes patogênicas em canais de sódio, cálcio, potássio e subunidades do receptor colinérgico nicotínico e GABA A, STX1B Curso da doença As crises tipicamente respondem aos FACs e nem todos os pacientes requerem tratamento profilático Pacientes com CF+ usualmente têm uma epilepsia autolimitada com resolução das crises até a puberdade O curso da doença nos indivíduos que apresentam outros tipos de epilepsia ou síndromes epilépticas dentro do espectro da GEFS+ depende do tipo de epilepsia ou síndrome * Os critérios diagnósticos foram compilados do texto, pois o quadro alistando-os não foi inserido em Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97. 93 Síndromes epilépticas com início em neonatos e lactentes Tabela 5. Epilepsias autolimitadas - Epilepsia mioclônica do lactente Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises mioclônicas Crises tônico-clônicas generalizadas afebris ou clônicas generalizadas no início da epilepsia Qualquer dos seguintes tipos de crises: • Crises de ausência • Crises atônicas • Espasmos epilépticos • Crises focais disperceptivas • Crises focais clônicas (hemiclônicas) • Crises de ausências mioclônicas • Crises tônicas EEG Atividade de base normal Interictal: Falta de complexos de espícula-onda durante sono Resposta fotoparoxística com estimulação a baixa frequência (sugere ceroide CLN2) Ictal: registro de evento mioclônico sem correlato EEG Interictal: Hipsarritmia Espícula-onda lenta generalizada ( 3 anos Desenvolvimento no início Atraso de fala ao diagnóstico Deficiência intelectual moderada a profunda Exame neurológico Anormalidades significantes no exame neurológico, excluindo achados incidentais Dismorfismos ou outras anomalias congênitas (sugere cromossomopatias) Imagem Anormalidades significantes na neuroimagem Outros estudos - genética, etc. Glicose baixa no LCR ou variantes patogênicas SLC2A1 (deficiência do transportador 1 de glicose) Curso da doença Regressão neurocognitiva RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não lesional é necessária para diagnóstico desta síndrome EEG ictal não é necessário para diagnóstico, mas deve ser fortemente considerado se o registro de sono interictal não mostra complexos de espícula-onda generalizados para confirmação de que as mioclonias são epilépticas Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, para diagnóstico da Epilepsia Mioclônica do Lactente é necessário no mínimo um EEG em sono mostrando complexos de espícula-onda generalizadosZuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 94 Crises epilépticas Tabela 6. Encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento - Encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento infantil precoce Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises tônicas e/ou mioclônicas EEG Interictal: Padrão de surto-supressão ou descargas multifocais Alentecimento difuso Idade de início Nascimento até 3 meses (ajustada para prematuridade) Desenvolvimento no início Desenvolvimento normal no início, embora seja um desafio acessar acuradamente na história Exame neurológico no início Exame neurológico normal, embora seja um desafio acessar acuradamente na história ou em lactentes com crises muito frequentes e/ou sob efeito de muitos FACs que possam alterar o exame Comorbidades precoces Comprometimento do desenvolvimento está presente antes ou logo após o início das crises Curso da doença Neurodesenvolvimento anormal, incluindo deficiência intelectual RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico, mas é fortemente recomendada para excluir causas estruturais EEG ictal não é necessário para diagnóstico em um lactente com as características clínicas nos quais o EEG interictal mostra padrão de surto-supressão, descargas multifocais com alentecimento difuso Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, esta síndrome não pode ser diagnosticada sem um EEG interictal Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 95 Síndromes epilépticas com início em neonatos e lactentes Tabela 7. Encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento - Síndrome da epilepsia do lactente com crises focais migratórias Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises focais/multifocais tônicas ou clônicas, com ou sem parada comportamental sutil ou características autonômicas proeminentes Crises migram de um hemisfério ou de um lobo para outro clinicamente A frequência das crises aumenta rapidamente nas primeiras semanas ou meses, frequentemente progredindo para status epilepticus Crises mioclônicas EEG Registro ictal mostra um padrão migratório (este pode ser perdido se um vídeo-EEG prolongado não for realizado) EEG: Interictal: Padrão surto-supressão antes da medicação Foco epiléptico único persistente Hipsarritmia Idade de início 10 minutos) Falta de sensibilidade a febre como fator precipitante de crises Espasmos epilépticos Encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento infantil precoce SCN1A EEG Atividade de fundo normal sem descargas interictais após 2 anos Idade de início 1-20 meses Idade de início: 1-2 meses ou 15-20 meses Desenvolvimento no início Atraso no desenvolvimento no início das crises Exame neurológico Achados neurológicos focais (outros que paralisia de Todd) Imagem RM mostrando uma lesão focal causal Outros testes, como genética Falta de SCN1A patogênica ou outra variante causal Curso da doença Epilepsia fármacorresistente Deficiência intelectual Boa eficácia com FACs bloqueadores de canais de sódio, incluindo carbamazepina, oxcarbazepina e fenitoína RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico, mas é fortemente recomendada para excluir outras causas EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome possivelmente em evolução: em uma criançaepiléptica e do desenvolvimento KCNQ2 Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises tônicas, mioclônicas e/ou focais EEG Padrão surto-supressão ou descargas multifocais; alentecimento difuso Idade de início 3 anos (há formas raras de dependência à piridoxina de início tardio) Exame neurológico Falta de encefalopatia e irritabilidade Outros estudos - genética, etc. Testes de laboratório que confirmam o diagnóstico podem incluir: 1. Características metabólicas: aumento do semialdeído α-aminoadípico e/ou ácido pipecólico na urina, plasma, e/ou LCR (EED dependente de piridoxina) ou baixa piridoxal-5-fosfatase no LCR (EED piridoxamina 5’-fosfato) OU 2. Características genéticas: variantes patogênicas nos genes ALDH7A1 ou PLBP (EED dependente de piridoxina) ou PNPO (EED piridoxamina 5’-fosfato) Curso da doença Crises que mostram marcada redução ou desaparecimento com o uso de piridoxina ou piridoxal-fosfato por toda a vida Neurodesenvolvimento normal na evolução RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico mas é fortemente recomendada para excluir outras causas EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, a Encefalopatia Epiléptica e do Desenvolvimento Dependente de Piridoxina ou Piridoxal-fosfato pode ser diagnosticada em crianças sem alertas, que preenchem todos os outros critérios clínicos mandatórios e de exclusão, cujas crises desaparecem com a suplementação de piridoxina ou piridoxal fosfato, recorrem quando a suplementação é interrompida, e cessam novamente com a reintrodução da suplementação Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 100 Crises epilépticas Tabela 12. Síndromes etiologia-específicas - Encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento CDKL-5 Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises, as quais podem incluir crises tônicas, espasmos epilépticos, crises tônico- clônicas generalizadas e/ou crises focais Crises sequenciais hipercinéticas-tônicas- espasmos são características mas não são vistas em todos os casos Ausência de espasmos epilépticos no primeiro ano de vida EEG Atividade de base normal no EEG sem descargas interictais após 4 meses de idade Idade de início Início da epilepsia >3 meses Desenvolvimento no início Desenvolvimento normal antes do início das crises Exame neurológico Tônus normal Falta de encefalopatia Outros estudos - genética, etc. Variante patogênica no gene CDKL5 (ligado ao X, mas predomínio em mulheres 4: homens 1) Curso da doença Deficiência intelectual moderada a profunda Epilepsia fármacorresistente RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico, mas é fortemente recomendada para excluir outras causas EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Encefalopatia Epiléptica e do Desenvolvimento CDKL5 não pode ser diagnosticada sem testagem genética confirmatória Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 101 Síndromes epilépticas com início em neonatos e lactentes Tabela 13. Síndromes etiologia-específicas - Epilepsia em salvas PCDH19 Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises focais (gritos de medo típicos) e crises tônico- clônicas em salvas; podem ser desencadeadas por febre Crises focais clônicas (hemiclônicas) em lactentes (considere síndrome de Dravet) Ausência de salvas EEG Ausência de descargas epileptiformes (as quais usualmente são focais, mas raramente podem ser generalizadas) Idade de início 1,5-60 meses em mulheres; 5-96 meses em homens Outros estudos - genética, etc. Variante patogênica no gene PCDH19 RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico, mas é fortemente recomendada para excluir outras causas EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Epilepsia em Salvas PCDH19 poderia ser provisoriamente diagnosticada, sem testagem genética confirmatória, especificamente diante de história familiar sugestiva de herança dominante ligada ao X que poupa indivíduos do sexo masculino Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 102 Crises epilépticas Tabela 14. Síndromes etiologia-específicas - Síndrome da deficiência do transportador de glicose 1 Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises focais ou generalizadas, incluindo crises de ausência (frequentemente começando antes dos 3 anos de idade) Exame neurológico Achados neurológicos focais (outros que paresia de Todd) Outros estudos - genética, etc. Variante patogênica no gene SLC2A1 OU Glicose baixa no LCR em jejum e relação baixa glicose LCR/glicose plasma Outra etiologia documentada ou hipoglicorraquia Curso da doença Deficiência intelectual Crises controladas com medicamentos Falta de melhora das crises com dieta cetogênica Falta de distúrbios de movimento como ataxia, discinesia induzida por exercício, distonia RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico, mas é fortemente recomendada para excluir outras causas EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Síndrome da Deficiência do Transportador de Glicose 1 pode ser diagnosticada sem EEG, RM e estudos genéticos em crianças sem alertas que preenchem todos os critérios clínicos mandatórios e de exclusão. Estudos de LCR são necessários para diagnóstico * Glicose LCR pode não ser tão baixa tardiamente na Síndrome da Deficiência do Transportador de Glicose 1 Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 103 Síndromes epilépticas com início em neonatos e lactentes Tabela 15. Síndromes etiologia-específicas - Síndrome de Sturge-Weber Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises focais motoras ou autonômicas com ou sem comprometimento da percepção, que podem evoluir para tônico-clônicas bilaterais EEG Interictal: Falta de assimetria da atividade de base com voltagem reduzida e alentecimento sobre o hemisfério afetado Exame neurológico Falta do hemangioma capilar facial afetando o dermátomo V1 Imagem RM mostrando realce leptomeníngeo sugestivo de angioma leptomeníngeo, com calcificação cortical e atrofia cerebral focal progressiva Curso da doença Faltade anormalidade no exame neurológico- pode ser limitada a déficit de campo visual Falta de deficiência intelectual de leve a profunda RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM é necessária para diagnóstico. As alterações podem ser muito sutis ou ausentes em RM obtidas antes de 2 meses de idade EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Síndrome de Sturge-Weber pode ser presumivelmente diagnosticada sem EEG ou RM em pessoas sem alertas que preenchem todos os outros critérios clínicos mandatórios Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 104 Crises epilépticas Tabela 16. Síndromes etiologia-específicas - Crises gelásticas com hamartoma hipotalâmico Mandatórios Alertas Exclusão Crises epilépticas Crises gelásticas, com riso mecânico, sem propósito, inapropriado ao contexto Frequência de crises menor que diárias EEG Interictal: Alentecimento focal ou generalizado (excluindo período pós-ictal imediato) Ictal: Crises gelásticas podem ocorrer sem correlato EEG ictal Idade de início Início >5 anos de idade Desenvolvimento no início Atraso no desenvolvimento evidente no início das crises Exame neurológico Achados neurológicos focais (outros que paralisia de Todd) ou hipotonia generalizada Imagem Hamartoma hipotalâmico (pode requerer cortes finos através do hipotálamo para confirmação) Curso da doença Epilepsia fármacorresistente Falta de problemas comportamentais incluindo agressão, impulsividade e hiperatividade RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM é necessária para diagnóstico EEG ictal não é necessário para diagnóstico. Além disso, crises gelásticas podem ocorrer sem alterações correlatas no EEG Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Síndrome de Crises Gelásticas com Hamartoma Hipotalâmico não pode ser diagnosticada sem RM, pois crises gelásticas podem ocorrer em outras regiões cerebrais Zuberi et al. Epilepsia 2022;63(6):1349-97 105 Seção 6 Síndromes epilépticas com início na infância 106 Crises epilépticas Figura 37. As síndromes epilépticas com início da infância. Nelas, há poucas síndromes etio- logia-específicas.99 Síndromes Epilépticas com Início na Infância Epilepsias focais autolimitadas Epilepsia autolimitada com descargas centrotemporais Epilepsia visual occipital da infância Epilepsia autolimitada com crises autonômicas Epilepsia do lobo occipital fotossensível Epilepsias generalizadas Epilepsia ausência da infância Epilepsia com ausências mioclônicas Encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 Epilepsia com mioclonias palpebrais Epilepsia com crises mioclônico- atônicas Síndrome da hemiconvulsão- hemiplegia- epilepsia (HHE) Síndrome de Lennox-Gastaut Encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento com ativação de espícula-onda no sono Síndrome da epilepsia relacionada à infecção febril (FIRES) * Critérios diagnósticos da síndrome de Epilepsia ausência da infância estão entre as Epilepsias Generalizadas Idiopáticas 107 Síndromes epilépticas com início na infância Tabela 17. Epilepsias focais autolimitadas - Epilepsia autolimitada com descargas centrotemporais Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises focais com disartria, sialorreia, disfasia, movimentos unilaterais clônicos ou tônico-clônicos da boca em vigília ou sono e/ou crises focais noturnas evoluindo para tônico-clônicas bilaterais apenas em sono Se ocorrem durante o sono, as crises são vistas 1h após adormecer ou 1-2h antes do despertar Status epilepticus convulsivo focal motor ou generalizado (>30 min); Frequência de crises usual mais do que diariamente Crises apenas durante o dia Crises generalizadas tônico- clônicas em vigília Ausências atípicas Crises com alucinações gustatórias, de medo ou características autonômicas EEG Descargas epileptiformes centrotemporais bifásicas de grande amplitude Alentecimento focal persistente não limitado a fase pós-ictal Descargas centrotemporais focais persistentemente unilaterais em EEGs seriados Falta de ativação das descargas centrotemporais em sono Idade de início >12 anos 14 anos Desenvolvimento no início Deficiência intelectual moderada a profunda Regressão neurocognitiva com padrão de espícula-onda contínua em sono (sugere Encefalopatia Epiléptica com Ativação de Espícula-onda no Sono) Exame neurológico Hemiparesia ou achados neurológicos focais, outros que paresia de Todd Imagem Neuroimagem documentando lesão causal para as crises Curso da doença Remissão até meados da adolescência ou em sua fase tardia Ausência de regressão no neurodesenvolvimento Regressão neurocognitiva com padrão de espícula-onda em sono sugere evolução para Encefalopatia Epiléptica com Ativação de Espícula-onda no Sono RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico desta síndrome, mas deve ser fortemente considerada em casos com alertas EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Epilepsia Autolimitada com Descargas Centrotemporais pode ser diagnosticada sem EEG e RM em crianças sem alertas que preenchem todos os critérios mandatórios e de exclusão * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 108 Crises epilépticas Tabela 18. Epilepsias focais autolimitadas - Epilepsia autolimitada com crises autonômicas Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises focais autonômicas com ou sem comprometimento da percepção Sintomas autonômicos envolvem frequentemente náuseas e vômitos proeminentes, mas podem também incluir mal estar, palidez, enrubescimento, dor abdominal, alterações pupilares ou cardiorrespiratórias Frequência de crises maior do que mensal EEG Descargas epileptiformes focais ou multifocais de amplitude elevada ativadas pela sonolência e sono Alentecimento focal mantido não limitado ao período pós-ictal Anormalidades focais unilaterais com uma área focal consistente em EEGs seriados Idade de início 8 anos 14 anos Desenvolvimento no início Deficiência intelectual moderada a profunda Regressão neurocognitiva com padrão de espícula-onda contínua em sono (sugere Encefalopatia Epiléptica com Ativação de Espícula-onda no Sono) Exame neurológico Hemiparesia ou achados neurológicos focais, outros que paresia de Todd Imagem Neuroimagem documentando lesão causal para as crises Curso da doença Remissão até meados da adolescência ou em sua fase tardia Ausência de regressão no neurodesenvolvimento Regressão neurocognitiva com padrão de espícula-onda em sono sugere evolução para Encefalopatia Epiléptica com Ativação de Espícula-onda no Sono RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico desta síndrome, mas deve ser fortemente considerada em casos com alertas EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados no mínimo um EEG interictal é necessário para diagnosticar esta síndrome com confiança * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 109 Síndromes epilépticas com início na infância Tabela 19. Epilepsias focais autolimitadas - Epilepsia visual occipital da infância Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises focais sensoriais visuais com fenômenos visuais elementares (círculos multicoloridos), com ou sem comprometimento dapercepção e com ou sem sinais motores (desvio dos olhos ou versão da cabeça) Crises surgem predominantemente ou exclusivamente em vigília Crises prolongadas durando >15 minutos Crises tônico-clônicas generalizadas em vigília Crises de queda (tônicas ou atônicas) Ausências atípicas Mioclonias progressivas EEG Descargas de espículas ou espícula-onda occipitais (vigília ou sono) Alentecimento focal mantido não limitado ao período pós- ictal Idade de início 14 anos 19 anos Desenvolvimento no início Deficiência intelectual Regressão neurocognitiva Exame neurológico Qualquer anormalidade significativa no exame neurológico Déficit de campo visual persistente Imagem RM documentando lesão causal para as crises Calcificações dos lobos occipitais Curso da doença Regressão neurocognitiva Desenvolvimento de crises mioclônicas, ataxia, espasticidade RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM é necessária para diagnóstico desta síndrome para excluir uma lesão causal EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, no mínimo um EEG interictal e uma RM são necessários para diagnosticar esta síndrome com confiança * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 110 Crises epilépticas Tabela 20. Epilepsias focais autolimitadas - Epilepsia do lobo occipital fotossensível Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises focais sensoriais visuais as quais podem evoluir para crises tônico-clônicas bilaterais Crises são desencadeadas por estímulos fóticos, como luz solar cintilante Crises prolongadas durando >15 minutos Mioclonias palpebrais Mioclonias progressivas EEG Anormalidades epileptiformes occipitais facilitadas pelo fechamento palpebral e estimulação luminosa intermitente Alentecimento focal mantido não limitado ao período pós- ictal Resposta fotoparoxística com estimulação fótica em frequências baixas (1-2 Hz sugere doença CLN2) Idade de início 17 anos 50 anos Desenvolvimento no início Deficiência intelectual moderada a profunda Regressão neurocognitiva Exame neurológico Qualquer anormalidade significativa no exame neurológico Déficit de campo visual persistente Imagem RM documentando lesão causal para as crises RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM é necessária para diagnóstico desta síndrome para excluir uma lesão causal EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, no mínimo um EEG interictal e uma RM são necessários para diagnosticar esta síndrome com confiança * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 111 Síndromes epilépticas com início na infância Tabela 21. Epilepsias generalizadas - Epilepsia com mioclonias palpebrais Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Mioclonias palpebrais Impossibilidade de induzir mioclonias palpebrais no consultório pelo fechamento lento dos olhos durante a exposição à luz brilhante em um paciente não tratado Abalos mioclônicos em membros- considerar fortemente Epilepsia Mioclônica Juvenil Qualquer dos seguintes tipos de crises: • Crises de ausências mioclônicas • Crises focais EEG O fechamento dos olhos e a fotostimulação intermitente desencadeiam polispícula ou complexos de polispícula-onda generalizados rápidos (3-6 Hz) Alentecimento focal Descargas consistentemente focais unilaterais Complexos espícula-onda lentos 14 anos Exame neurológico Achados neurológicos focais Imagem Anormalidades potencialmente relevantes, excluindo achados incidentais Neuroimagem anormal com lesão causal Curso da doença Declínio cognitivo progressivo no curso da epilepsia RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico EEG ictal não é necessário para diagnóstico, uma vez que mioclonias palpebrais tenham sido observadas clinicamente e um EEG interictal mostre polispícula ou complexos de polispícula-onda generalizados rápidos (3-6 Hz) induzidos pelo fechamento palpebral ou estimulação luminosa intermitente. Contudo, a maioria dos pacientes não tratados terão resposta fotoparoxística com mioclonias palpebrais registrada durante a estimulação luminosa no EEG de rotina Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, a Epilepsia com Mioclonias Palpebrais pode ser diagnosticada em pessoas que preenchem todos os critérios clínicos mandatórios e de exclusão se têm mioclonias palpebrais testemunhadas pelo examinador ou capturadas em vídeos caseiros * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 112 Crises epilépticas Tabela 22. Epilepsias generalizadas - Epilepsia com ausências mioclônicas Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises de ausência mioclônicas como tipo predominante Crises focais Crises atônicas, mioclônico- atônicas ou tônicas EEG Padrão de complexos de espícula-onda generalizados regulares, ritmados a 3 Hz sincronizados aos abalos mioclônicos Alentecimento focal Descargas consistentemente focais unilaterais Complexos espícula-onda lentos 12 anos Exame neurológico Deficiência intelectual moderada ou mais acentuada Achados neurológicos focais Imagem Neuroimagem anormal com lesão causal Curso da doença Declínio cognitivo progressivo no curso da epilepsia RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? Uma RM deve ser considerada para excluir outras causas EEG ictal não é necessário para diagnóstico, uma vez que ausências mioclônicas tenham sido observadas clinicamente e um EEG interictal mostre complexos de espícula-onda generalizados regulares a 3 Hz. Contudo, a maioria dos pacientes não tratados terão crises de ausência mioclônica no EEG de rotina Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, a Epilepsia com Ausências Mioclônicas pode ser diagnosticada em pessoas que preenchem todos os critérios clínicos mandatórios e de exclusão, se crises de ausência mioclônicas são testemunhadas pelo examinador ou capturadas em vídeos caseiros * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 113 Síndromes epilépticas com início na infância Tabela 23. Epilepsias generalizadas - Epilepsia com crises mioclônico-atônicas Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises mioclônico-atônicas Crises tônicas dentro de 12 meses do início da epilepsia Espasmos epilépticos ou Síndrome dos Espasmos Epilépticos Infantis antes do diagnóstico Crises focais EEG Padrão de complexos de espícula-onda 2-6 Hz ou polispícula generalizado Atividade rápida paroxística generalizada em sono Complexos espícula-onda lentosHipsarritmia Idade de início 8 anos Desenvolvimento no início Atraso no desenvolvimento moderado a severo antes do início das crises Exame neurológico Achados neurológicos focais Imagem Neuroimagem anormal com lesão causal RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? Uma RM não é necessária para diagnóstico. Contudo em uma criança com alertas ou com manifestações clínicas sugestivas das síndromes de Lennox-Gastaut ou Espasmos Epilépticos Infantis, um vídeo pelo menos é essencial e idealmente um EEG ictal deve ser registrado Síndrome em evolução: Epilepsia com Crises Mioclônico-atônicas deve ser suspeitada no caso de início explosivo de múltiplos tipos de crises generalizadas em crianças com a idade apropriada sem sinais de alerta ou de exclusão Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, a Epilepsia com Crises Mioclônico-atônicas pode ser presumivelmente diagnosticada sem EEG se o clínico testemunhou pessoalmente crises mioclônico-atônicas, seja por observação direta do paciente ou em vídeo realizado pela família. Contudo, um EEG é fortemente recomendado * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 114 Crises epilépticas Tabela 24. Encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento - Síndrome de Lennox-Gastaut Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises tônicas Além das crises tônicas, pelo menos um tipo de crise adicional deve estar presente, que pode ser representado por qualquer um dos seguintes: • Ausências atípicas • Atônicas • Mioclônicas • Focais disperceptivas • Tônico-clônicas generalizadas • Status epilepticus não- convulsivo • Espasmos epilépticos EEG Padrão de complexos de espícula e onda lentos 8 anos Prognóstico a longo prazo Epilepsia fármacorresistente Deficiência intelectual leve a profunda RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? Uma RM não é necessária para diagnóstico, mas é usualmente realizada para avaliar a etiologia subjacente Um EEG ictal não é necessário para diagnóstico. Contudo, deve ser fortemente considerado em uma criança com alertas ou com características clínicas que podem sugerir a Síndrome de Epilepsia com Crises Mioclônico-atônicas Síndrome em evolução: Aproximadamente 50% dos lactentes com encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento graves como a Síndrome dos Espasmos Epilépticos Infantis ou a Encefalopatia Epiléptica e do Desenvolvimento Infantil Precoce evoluem ao longo do tempo para a síndrome de Lennox-Gastaut Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, no mínimo um EEG interictal mostrando o padrão característico de complexos de espícula e onda lentos generalizados durante a vigília é necessário para o diagnóstico * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 115 Síndromes epilépticas com início na infância Tabela 25. Encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento - Encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento com ativação de espícula-onda no sono Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises tônicas durante o sono Espasmos epilépticos EEG Padrão de complexos de espícula e onda lentos (1,5-2 Hz) no sono N-REM Anormalidades são marcadamente ativadas durante sono Atividade rápida paroxística generalizada em sono (considere a Síndrome de Lennox-Gastaut) Complexos de espícula e onda lentos 1 e 12 anos Desenvolvimento no início Regressão cognitiva, comportamental ou motora ou estagnação temporalmente relacionada ao padrão de complexos de espícula e onda lentos (1,5-2 Hz) no sono N-REM Prognóstico a longo prazo Remissão do padrão de complexos de espícula e onda lentos (1,5-2 Hz) no sono N-REM no EEG até meados da adolescência, embora frequentemente o EEG continue anormal RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? Uma RM não é necessária para diagnóstico, mas é usualmente realizada para avaliar a etiologia subjacente Um EEG em sono é mandatório para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, esta síndrome não pode ser presumivelmente diagnosticada sem um EEG em sono * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 116 Crises epilépticas Tabela 26. Encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento - Síndrome da epilepsia relacionada à infecção febril (FIRES: Febrile infection-related epilepsy syndrome) Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas História de doença febril inespecífica nas 2 semanas que precedem o início das crises Crises focais e multifocais que frequentemente evoluem para tônico-clônicas bilaterais Crises progridem em frequência e gravidade para culminar em status epilepticus super-refratário tipicamente 2 semanas após o início História de epilepsia antes do início dos sintomas EEG Alentecimento da atividade de base com descargas epileptiformes multifocais e crises focais eletrográficas e eletroclínicas frequentes Crises unifocais Idade de início 30 anos Desenvolvimento no início Encefalopatia aguda com início de crises frequentes Deficiência intelectual antes do início das crises Exame neurológico Anormalidades no exame neurológico antes do início das crises Imagem Na apresentação, RM mostra uma lesão epileptogênica concordante com o início das crises Outros testes Punção lombar mostrando evidência de infecção do SNC Anticorpo causal no LCR ou testes autoimunes plasmáticos Etiologia genética ou metabólica documentada Encefalopatia tóxica documentada Prognóstico a longo prazo Falta de epilepsia focal ou multifocal fármacorresistente Falta de dificuldades de aprendizado ou intelectual Falta em graus variáveis de atrofia cerebral na RM RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? Uma RM é necessária para diagnóstico para excluir lesão causal Um EEG ictal é necessário para confirmar a frequência e a multifocalidade das crises Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, esta síndrome não pode ser diagnosticada sem estudos de EEG e RM * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 117 Síndromes epilépticas com início na infância Tabela 27. Encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento - Síndrome da hemiconvulsão- hemiplegia-epilepsia (HHE) Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Diagnóstico requer tanto a história da doença em estágio agudo como crônico Estágio agudo: Episódio de status epilepticus hemiclônico febril, o qual é imediatamente seguido de hemiparesia permanente Estágio crônico: após um período de tempo variável (usualmente, 3 anos após o status epilepticus inicial) aparecem crises focais motoras unilaterais ou focais evoluindo para tônico-clônicas bilaterais Hemiparesia transitória (paresia de Todd) Crises focais motoras unilaterais que progridemin crescendo em meses a anos, com desenvolvimento tardio de hemiparesia progressiva (considerar encefalite de Rasmussen) EEG Alentecimento da atividade de base sobre o hemisfério afetado Descargas epileptiformes focais ou multifocais sobre o hemisfério afetado na fase crônica Idade de início >4 anos >6 anos Desenvolvimento no início Deficiência intelectual antes do início das crises Exame neurológico Anormalidades no exame neurológico antes do episódio inicial de status epilepticus febril Angioma facial sugestivo de síndrome de Sturge-Weber Imagem RM imediatamente após o status epilepticus febril (estágio agudo) mostra alteração de sinal difusa com hipersinal em T2 e restrição da difusão da região subcortical do hemisfério afetado, frequentemente com edema importante Com o tempo (estágio crônico) há atrofia do hemisfério afetado Na apresentação, RM mostra uma lesão epileptogênica concordante com o início das crises Outros testes Causa alternativa de hemiparesia encontrada como acidente vascular isquêmico agudo, infecção intracraniana, etc. Prognóstico a longo prazo Epilepsia fármacorresistente Déficit motor focal permanente RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? Uma RM é necessária para diagnóstico Um EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome em evolução: Em crianças com hemiparesia aguda persistente após um episódio de status epilepticus convulsivo febril, com achados de RM mandatórios, mas que ainda não progrediram para a fase crônica da doença com crises focais motoras ou focais evoluindo para tônico-clônicas bilaterais fármacorresistentes, deve-se suspeitar de Síndrome da Hemiconvulsão-Hemiplegia-Epilepsia emergente Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, esta síndrome não pode ser presumivelmente diagnosticada sem estudos de EEG em casos com todos os critérios clínicos mandatórios e de exclusão, sem alertas. Contudo, um estudo de imagem (TC ou RM) é necessário para excluir outras causas * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Specchio et al. Epilepsia 2022;63(6):1398-42 119 Seção 7 Síndromes epilépticas com início em idades variáveis 120 Crises epilépticas Síndromes epilépticas com idade de início variável Síndromes de epilepsias generalizadas • Epilepsias generalizadas idiopáticas – Epilepsia mioclônica juvenil – Epilepsia ausência juvenil – Epilepsia com crises tônico-clônicas generalizadas apenas Síndromes epilépticas focais • Autolimitadas – Epilepsia visual occipital da infância – Epilepsia do lobo occipital fotossensível • Epilepsia do lobo temporal mesial familiar • Epilepsia com manifestações auditivas Síndromes epilépticas focais e generalizadas combinadas • Epilepsia com crises induzidas por leitura Síndromes epilépticas com encefalopatia epiléptica e/ou do desenvolvimento, ou com deterioração neurológica progressiva • Síndrome da epilepsia relacionada a infecção febril (FIRES) • Síndrome de Rasmussen • Epilepsias mioclônicas progressivas Epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal Epilepsia hipermotora (hipercinética) relacionada ao sono Epilepsia focal familiar com focos variáveis Figura 38. Neste grupo estão as síndromes de epilepsias com idade de início variável, bastan- te heterogêneas quanto à etiologia.46 Riney et al. Epilepsia 2022;63(6):1443-74 121 Síndromes epilépticas com início em idades variáveis Tabela 28. Epilepsias com idades de início variáveis - Epilepsia hipermotora (hipercinética) relacionada ao sono Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Breves crises focais motoras com características hipercinéticas ou posturas tônicas/distônicas assimétricas predominantemente em sono Crises predominantemente em vigília Crises somente durante vigília Crises de início generalizado EEG Anormalidade epileptiforme frequente fora das regiões frontais Anormalidade epileptiforme generalizada Idade de início 20 anos 64 anos Desenvolvimento no início Deficiência intelectual moderada a severa Exame neurológico Anormalidades focais no exame neurológico RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico, mas deve ser feita para avaliar a etiologia subjacente EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, a Epilepsia (Hipermotora) Hipercinética Relacionada ao Sono pode ser diagnosticada se outros critérios mandatórios e de exclusão forem preenchidos e o paciente tem crises hipercinéticas durante o sono testemunhadas ou registradas em vídeo * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Riney et al. Epilepsia 2022;63(6):1443-74 122 Crises epilépticas Tabela 29. Epilepsias com idades de início variáveis - Epilepsia do lobo temporal mesial familiar Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises focais cognitivas (particularmente déjà vu), sensoriais ou autonômicas Crises de início generalizado EEG Anormalidade epileptiforme generalizada Desenvolvimento no início Deficiência intelectual Exame neurológico Anormalidades focais no exame neurológico Imagem Normal ou esclerose/atrofia hipocampal Outros estudos: Genética, etc. História familiar de indivíduos com crises focais originadas no lobo temporal mesial RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM é necessária para diagnóstico para excluir outras causas EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, RM é necessária para excluir outras etiologias estruturais * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Riney et al. Epilepsia 2022;63(6):1443-74 123 Síndromes epilépticas com início em idades variáveis Tabela 30. Epilepsias com idades de início variáveis - Epilepsia focal familiar com focos variáveis Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises de início focal Crises de início generalizado EEG Anormalidade epileptiforme generalizada Idade de início Início neonatal Desenvolvimento no início Deficiência intelectual moderada a profunda Exame neurológico Anormalidades focais no exame neurológico Imagem Normal ou displasia cortical focal Outros estudos: Genética, etc. História familiar de indivíduos com crises focais originadas em regiões corticais que diferem entre os membros da família História familiar de crises focais que ocorrem exclusivamente antes dos 20 meses de idade RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM é necessária para diagnóstico. História familiar de crises focais pode ser incidental, devido a causas adquiridas EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, a Epilepsia Focal Familiar com Focos Variáveis pode ser diagnosticada sem EEG, se o paciente preenche outros critérios mandatórios e de exclusão. Contudo, uma RM ou TC é necessária para excluir outras etiologias estruturais * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Riney et al. Epilepsia 2022;63(6):1443-74 124 Crises epilépticas Tabela 31. Epilepsias com idades de início variáveis - Epilepsia com características auditivas Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises focais sensoriais auditivas e/ou crises focais cognitivas com afasia receptiva Crises de iníciogeneralizado Outras crises de início focal EEG Anormalidade epileptiforme generalizada Desenvolvimento no início Deficiência intelectual moderada a profunda Exame neurológico Anormalidades focais no exame neurológico Imagem Normal ou displasia cortical focal RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM é necessária para diagnóstico para excluir outras causas EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, para diagnóstico da Epilepsia com Características Auditivas a RM é necessária para excluir outras etiologias estruturais * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Riney et al. Epilepsia 2022;63(6):1443-74 125 Síndromes epilépticas com início em idades variáveis Tabela 32. Epilepsias com idades de início variáveis - Epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises focais perceptivas ou disperceptivas com semiologia inicial referida às redes do lobo temporal medial Semiologia inicial referida a outras redes que mesial temporal (por exemplo, desconforto na garganta, movimentos clônicos ou distônicos, sintomas sensitivos somáticos, atividade hipercinética, sintomas visuais, sintomas auditivos, riso) Crises de início generalizado EEG Falta consistente de anormalidade epileptiforme temporal, a despeito de EEGs repetidos Anormalidade epileptiforme generalizada Descargas centrotemporais de amplitude elevada com dipolo horizontal Anormalidade epileptiforme interictal ou alentecimento focal, fora das regiões temporais ou em regiões posteriores Crises registradas com início generalizado Crises eletrográficas registradas com início em regiões fora do lobo temporal Idade de início 20 anos Desenvolvimento no início Normal Exame neurológico Normal Imagem Normal RM ou EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM é necessária para diagnóstico para excluir causa estrutural EEG ictal não é necessário; contudo, observação durante leitura (diretamente ou por vídeo) é fortemente recomendada, pois mostra as mioclonias características afetando os músculos orofaciais Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões com recursos limitados, esta síndrome pode ser diagnosticada em crianças e adultos que preenchem todos os critérios mandatórios e não os critérios de exclusão * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Riney et al. Epilepsia 2022;63(6):1443-74 128 Crises epilépticas Tabela 35. Epilepsias com idades de início variáveis - Critérios diagnósticos para epilepsias mioclônicas progressivas Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises mioclônicas EEG Espículas/polispícula-onda generalizadas Anormalidade focal persistente, outra que occipital Idade de início 2-50 anos >20 anos Desenvolvimento no início Normal no início Exame neurológico Normal no início Comorbidades Deterioração neurocognitiva progressiva (em alguns casos observação ao longo do tempo é necessária para distinguir Epilepsia Mioclônica Progressiva de Epilepsia Mioclônica Juvenil) Imagem Normal no início Curso da doença Piora progressiva das mioclonias erráticas, crises mioclônicas e tônico-clônicas generalizadas, declínio cognitivo, sinais cerebelares progressivos Deterioração no EEG com alentecimento progressivo da atividade de base e/ou aumento das anormalidades epileptiformes RM ou EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico, mas é frequentemente feita para avaliar a etiologia subjacente EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões com recursos limitados, Epilepsias Mioclônicas Progressivas podem ser suspeitadas em pessoas que preenchem os critérios mandatórios, sem alertas e de exclusão e que mostram piora progressiva das crises mioclônicas e da função neurológicasem epilepsia, de fatores precipitantes (ou seja, precipitantes específicos de crises reflexas).6 Risco de recorrência de 60%: um risco de recorrência de 60% após a primeira crise teria o mesmo significado que a definição tradicionalmente utilizada para iniciar o tratamento da epilepsia, ou seja, a ocorrência de duas crises não provocadas. Um estudo importante sobre o risco de recorrência de crises epilépticas não provocadas foi feito por Hauser et al.7 Neste, os autores seguiram 204 indivíduos que apresentaram uma primeira crise epiléptica por até 72 meses para verificação do risco de recorrência de novas crises. Foi observado que após uma primeira crise, o risco de recorrência de uma segunda foi de 26% a 40%. Após duas crises, o risco de uma terceira foi de 60% a 87%, e após a terceira crise, o risco de uma quarta foi aproximadamente o mesmo (61% a 90%) e manteve-se estável (Figura 1). Por essa razão, preconizou-se, a critério médico, o início do tratamento após a segunda crise. Em 2014, o grupo de trabalho da ILAE concluiu que, se após a primeira crise o médico julgar que há risco de recorrência para uma segunda de aproximadamente 60%, ele deverá definir a condição como epilepsia. Figura 1. Risco de recorrência após a segunda, terceira e quarta crises não provocadas.7 12 Crises epilépticas Não há como aferir o risco de recorrência de 60% já por ocasião da primeira crise epiléptica para todos os pacientes, pois o risco para crises é individual. Certamente, a demonstração de uma lesão estrutural definida e/ou a presença de uma alteração eletroencefalográfica indubitável por ocasião da primeira crise representam elementos que autorizam o médico a postular o início do tratamento.4 Síndrome epiléptica: é definida por um agrupamento distinto de características clínicas e ele- troencefalográficas, muitas vezes apoiadas por achados etiológicos específicos (estruturais, gené- ticos, metabólicos, imunológicos ou infecciosos).8 Os sinais e sintomas podem ser clínicos (por exemplo, história, tipos de crises, modos de ocorrência das crises e achados neurológicos e psico- lógicos) ou alterações detectadas por exames complementares (eletroencefalograma, tomografia computadorizada e ressonância magnética do encéfalo, bases genéticas).9 Exemplos: síndrome dos espasmos epilépticos infantis, epilepsia autolimitada com descargas centrotemporais. Finalmente, o termo condição persistente utilizado na definição conceitual de epilepsia não define a duração da doença. Em 2014, o Grupo de Trabalho da ILAE cunhou o termo epilepsia resolvida, o qual deverá ser utilizado para descrever a condição de indivíduos que tiveram uma epilepsia relacionada a uma determinada faixa etária e que agora ultrapassa- ram essa idade ou a condição de indivíduos que tiveram a última crise há mais de dez anos e estão há pelo menos cinco anos sem tratamento com fármacos anticrises.4 Essa definição terá implicações práticas importantes na vida dos pacientes com epilepsia, como redução do estigma relacionado à doença, bem como repercussões sociais e econômicas relaciona- das a seguros de saúde e direção veicular, entre outras. Zona epileptogênica Durante uma crise epiléptica, a rede neuronal mostra oscilações típicas que frequentemente se propagam através do cérebro, envolvendo progressivamente a maior parte dele. Tais os- cilações podem ser observadas através de potenciais de campo locais, por exemplo, como vemos no EEG. A expressão clínica dessas alterações são reveladoras da zona epileptogê- nica (ZE). Os limites da ZE não podem ser definidos diretamente com qualquer instrumen- to de avaliação e seu conceito é teórico. É a região cortical que produz as crises epilépticas, cuja remoção cirúrgica tornará o paciente livre de crises. A ZE se comporta como rede em contato com numerosas estruturas corticais através de contatos privilegiados a partir do reforço sináptico e é um conjunto de cinco zonas: 1. zona irritativa; 2. zona de início ictal; 3. zona sintomatogênica; 4. zona lesional; e 5. zona de déficit funcional. A ZE pode ser representada em um “modelo” no qual: 1. a zona irritativa 13 Classificação das crises epilépticas corresponde às descargas paroxísticas interictais; 2. a zona de início ictal é a área do córtex na qual as crises epilépticas têm início; 3. a zona de origem dos sintomas ou zona sintoma- togênica que se expressa por sinais e sintomas que podem ser observados nos dez segun- dos iniciais da crise; 4. a zona lesional que corresponde às alterações estruturais cerebrais às quais as crises podem ser atribuídas; 5. a zona de déficit funcional que é representada pelos déficits neurológicos (mensurados pelo exame neuropsicológico e pelos estudos de neuroimagem funcional) determinados pela ZE (Figura 2). As primeiras sensações subje- tivas no início de uma crise referida pelo paciente (sintomas) ou as primeiras manifesta- ções objetivas (sinais) têm valor localizatório ou lateralizatório da ZE e são muito úteis, particularmente na avaliação de pacientes candidatos à cirurgia de epilepsia. A semiologia ictal observada nos primeiros dez segundos aproximadamente após o início da crise reflete a propagação das descargas epilépticas. Há padrões clínicos específicos em alguns dos di- ferentes subtipos de epilepsia focal que serão abordados em seguida. A correlação entre os sinais e sintomas e as redes neuronais implicadas permitiram no passado, e ainda permitem, considerar a epilepsia como um modelo válido para estudo de algumas das características de funcionamento do sistema nervoso central ao longo da história da neurociência clínica, particularmente em relação à propagação da informação em nível de populações neuronais (redes e circuitos neuronais).10,11 Zona sintomatogênica Lesão epileptogênica Zona de déficit funcional Zona de início ictal Zona irritativa Figura 2. Modelo de zona epileptogênica. 14 Crises epilépticas As crises epilépticas são muito pleomórficas e frequentemente estereotipadas para um de- terminado indivíduo, dependendo da zona cortical envolvida em suas crises, seja pelo local da origem crítica, seja pela propagação preferencial das descargas epilépticas. Crises são imprevisíveis e transitórias. Apresentam início súbito e duração curta, embora, excepcio- nalmente, possam se prolongar por mais de quatro a cinco minutos. Em geral, são diag- nosticadas de forma histórica e raramente são presenciadas durante as consultas clínicas. O diagnóstico patognomônico é estabelecido a partir do registro eletroencefalográfico conco- mitante ao registro das manifestações clínicas delas em vídeo-EEG. Como essa condição é pouco frequente, na maioria dos casos o diagnóstico se baseia nas características das crises relatadas pelo paciente e/ou seus familiares. O EEG intercrítico contribui para o diagnósti- co em aproximadamente 50% a 60% dos casos. Os achados observados têm especial valor quando acompanhados de manifestações clínicas características de epilepsia. A classifi- cação da crise epiléptica continua, portanto, sendo basicamente um diagnóstico clínico, o qual é dependente das informações das testemunhas, podendo haver variações em função dos critérios de cada observador. A Classificação Internacional das Crises Epilépticas de 201712,13 considera quatro grupos de crises: as crises de início focal, as crises de início generalizado, as crises de início desconhe- cido e as crises não classificáveis (Figura 3). Esquema simplificado Perceptivas | Disperceptivas Início motor Início não motor Focal evoluindo para tônico-clônica bilateral 1. Início focal Motoras Tônico-clônicas Outras motoras Não motoras (ausências) Motoras Tônico-clônicas Outras motoras Não motoras Parada comportamental 2. Início generalizado 3. Início desconhecido 4. Não classificáveis2 Figura 3. O esquema simplificado da Classificação Internacional das Crises Epilépticas da ILAE de 2017 considera as crises de início focal, as crisese cognitiva * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Riney et al. Epilepsia 2022;63(6):1443-74 129 Síndromes epilépticas generalizadas idiopáticas Seção 8 Síndromes epilépticas generalizadas idiopáticas 130 Crises epilépticas EPILEPSIAS GENERALIZADAS GENÉTICAS Epilepsias generalizadas idiopáticas Encefalopatias epilépticas Encefalopatias epilépticas e do desenvolvimento Encefalopatias do desenvolvimento Epilepsia ausência da infância Epilepsia ausência juvenil Epilepsia com crises mioclônico-atônicas Epilepsia com mioclonias palpebrais Epilepsia com ausências mioclônicas Epilepsia mioclônica do lactente Epilepsia mioclônica juvenil Epilepsia com crises tônico-clônicas generalizadas apenas Hirsch et al. Epilepsia 2022;63(6):1475-99 Figura 39. As Epilepsias Generalizadas Genéticas contêm o subgrupo das Epilepsias Ge- neralizadas Idiopáticas e quatro síndromes que estão na transição para as Encefalopatias Epilépticas e do Desenvolvimento (uma delas, a Epilepsia com Crises Mioclônico-atônicas) já é classificada como encefalopatia epiléptica e do desenvolvimento. Observe também a su- perposição da Epilepsia Ausência da Infância com a Epilepsia Ausência Juvenil e a Epilepsia Mioclônica Juvenil, um fato que indica que uma síndrome epiléptica generalizada da infância pode evoluir para outras formas na adolescência.124 131 Síndromes epilépticas generalizadas idiopáticas Tabela 36. Epilepsias generalizadas - Epilepsia ausência da infância Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises de ausências típicas Crises tônico-clônicas generalizadas antes ou durante o período das ausências frequentes Episódios de olhar fixo com duração típica > 30 s ou com confusão ou fadiga pós-ictal Ausências ocorrendo menos que diariamente em um indivíduo não tratado Qualquer dos seguintes tipos de crises: • Crises mioclônicas proeminentes • Mioclonias palpebrais proeminentes • Crises de ausências mioclônicas • Crises atônicas • Crises tônicas • Crises de ausências atípicas • Crises focais disperceptivas EEG Paroxismos de complexos de espícula-onda a 3 Hz (faixa = 2.5-4 Hz) generalizados no início da ausência. Pode ter sido obtido na história Falta de ativação de complexos de espícula- onda generalizados 2,5-4 Hz na HV em um paciente não tratado que faz bem a HV ≥ 3 min Descargas epileptiformes consistentemente unilaterais Registro de fixação do olhar típico sem correlato em EEG em uma criança com história de complexos de espícula-onda 2,5- 4 Hz generalizados Alentecimento persistente da atividade de base no EEG na ausência de medicação sedativa Alentecimento difuso da atividade de base Idade de início 2-3 ou 11-13 anos 13 anos Desenvolvimento no início Deficiência intelectual leve Deficiência intelectual moderada a profunda Exame neurológico Anormalidades potencialmente relevantes no exame neurológico, excluindo achados incidentais Comorbidades Estagnação ou declínio cognitivo Imagem Neuroimagem anormal, potencialmente relevante, excluindo achados incidentais Outros estudos: genética, etc. Glicose baixa no LCR e/ou variante patogênica SLC2A1 (o teste não é necessário na maioria dos casos, mas é fortemente recomendado em crianças com início ≤3 anos, microcefalia e/ou deficiência intelectual) RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico EEG ictal não é necessário para diagnóstico, desde que estudo interictal mostre paroxismos de complexos de espícula-onda 2,5- 4 Hz generalizados em vigília. Contudo, a maioria dos pacientes não tratados terão crise de ausência típica no EEG de rotina Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Epilepsia Ausência da Infância pode ser diagnosticada em crianças sem alertas que preenchem todos os outros critérios mandatórios e de exclusão, se elas têm uma crise de ausência típica testemunhada durante a HV * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Quanto maior o número de alertas, menor a possibilidade de diagnóstico desta síndrome. Hirsch et al. Epilepsia 2022;63(6):1475-99 132 Crises epilépticas Tabela 37. Epilepsias generalizadas idiopáticas - Epilepsia ausência juvenil Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises de ausências típicas Episódios de olhar fixo com duração típica >30 s ou com confusão pós-ictal ou fadiga Crises de ausência ocorrendo >10 por dia Qualquer dos seguintes tipos de crises: • Crises mioclônicas proeminentes • Mioclonias palpebrais proeminentes • Crises de ausências mioclônicas • Crises atônicas • Crises tônicas • Crises de ausências atípicas • Crises focais disperceptivas EEG Paroxismos generalizados de complexos de espícula- onda a 3-5,5 Hz (pode ter sido obtido na história) Falta de ativação de complexos de espícula-onda generalizados 3-5,5 Hz na HV em um paciente que faz bem a HV ≥ 3 min Alentecimento persistente da atividade de base no EEG na ausência de medicação sedativa Descargas epileptiformes focais consistentemente unilaterais Alentecimento difuso da atividade de base Registro de episódios de fixação do olhar típicos sem correlato EEG Idade de início 20 anos Desenvolvimento no início Deficiência intelectual leve Deficiência intelectual moderada a profunda Exame neurológico Anormalidades potencialmente relevantes no exame neurológico, excluindo achados incidentais Comorbidades Estagnação ou declínio cognitivo Imagem Neuroimagem anormal, potencialmente relevante, excluindo achados incidentais Outros estudos: genética, etc. Glicose baixa no LCR e/ou variante patogênica SLC2A1 (o teste não é necessário na maioria dos casos, mas é fortemente recomendado em crianças com início ≤3 anos, microcefalia e/ou deficiência intelectual Curso da doença Falta de crises tônico-clônicas generalizadas no curso da epilepsia, na ausência de tratamento com FACs que são efetivos para este tipo de crise RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico EEG ictal não é necessário para diagnóstico, desde que estudo interictal mostre paroxismos de complexos de espícula-onda 3-5,5 Hz generalizados em vigília. Contudo, a maioria dos pacientes não tratados terão crise de ausência no EEG de rotina Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Epilepsia ausência juvenil pode ser diagnosticada em pessoas sem alertas que preenchem todos os outros critérios mandatórios e de exclusão, se elas têm uma crise de ausência típica testemunhada durante a HV * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Quanto maior o número de alertas, menor a possibilidade de diagnóstico desta síndrome. Hirsch et al. Epilepsia 2022;63(6):1475-99 133 Síndromes epilépticas generalizadas idiopáticas Tabela 38. Epilepsias generalizadas idiopáticas - Epilepsia mioclônica juvenil Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises mioclônicas Status epilepticus de crises tônico-clônicas generalizadas Semiologia unifocal consistente (i.e., sempre afetando a mesma parte do corpo do mesmo lado) no início de crises tônico- clônicas generalizadas Mioclonias consistentemente unifocais Qualquer dos seguintes tipos de crises: • Crises de ausências mioclônicas • Crises atônicas • Crises tônicas • Crises de ausências atípicas • Crises focais disperceptivas • Mioclonias predominantemente ou exclusivamente em sono • Crises mioclônicas que ocorrem exclusivamente durante a leitura • Tremor corticalcom mioclonias EEG Paroxismos generalizados de complexos de espícula-onda a 3-5,5 Hz ou polispícula- onda (pode ter sido obtido na história) Evento mioclônico habitual capturado no EEG não acompanhado por complexos de espícula-onda ou polispícula no EEG Alentecimento focal Atividade epileptiforme consistentemente focal unilateral Paroxismos de complexos de espícula-onda lentos 40 anos (Epilepsia Ausência da Infância pode ocasionalmente evoluir para Epilepsia Mioclônica Juvenil; em tais casos as pessoas podem ter início com crises de ausência, mas não crises tônico-clônicas generalizadas ou mioclônicas antes de 8 anos de idade) Desenvolvimento no início Deficiência intelectual leve Deficiência intelectual moderada a profunda Exame neurológico Anormalidades potencialmente relevantes no exame neurológico, excluindo achados incidentais Imagem Neuroimagem anormal, potencialmente relevante, excluindo achados incidentais Curso da doença Declínio cognitivo progressivo Mioclonias progressivas com comprometimento da função motora RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Epilepsia Mioclônica Juvenil pode ser diagnosticada em pessoas sem alertas que preenchem todos os outros critérios clínicos mandatórios e de exclusão * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Quanto maior o número de alertas, menor a possibilidade de diagnóstico desta síndrome. Hirsch et al. Epilepsia 2022;63(6):1475-99 134 Crises epilépticas Tabela 39. Epilepsias generalizadas idiopáticas - Epilepsia com crises tônico-clônicas generalizadas apenas Mandatórios Alertas* Exclusão Crises epilépticas Crises tônico-clônicas generalizadas Semiologia unifocal consistente (i.e., sempre afetando a mesma parte do corpo do mesmo lado) no início da crise Crises mioclônico-tônico- clônicas (sugestivas de Epilepsia Mioclônica Juvenil) Qualquer outro tipo de crise EEG Paroxismos de complexos de espícula-onda a 3-5,5 Hz ou polispícula-onda generalizados (pode ter sido obtido na história) Alentecimento focal Atividade epileptiforme consistentemente focal unilateral Paroxismos de complexos de espícula-onda lentos 40 anos Desenvolvimento no início Deficiência intelectual leve Deficiência intelectual moderada a profunda Exame neurológico Anormalidades potencialmente relevantes no exame neurológico, excluindo achados incidentais Imagem Neuroimagem anormal, potencialmente relevante, excluindo achados incidentais Neuroimagem anormal com lesão causal Curso da doença Declínio cognitivo progressivo RM e EEG ictal são necessários para diagnóstico? RM não é necessária para diagnóstico em todos os casos, mas deve ser considerada com alertas ou se há preocupação clínica para a existência de uma possível lesão estrutural EEG ictal não é necessário para diagnóstico Síndrome sem confirmação laboratorial: Em regiões de recursos limitados, Epilepsia com Crises Tônico-clônicas Generalizadas Apenas não pode ser diagnosticada sem EEG mostrando complexos de espícula-onda generalizados, uma vez que não é possível excluir início focal sem EEG * Critérios de alerta são ausentes na grande maioria dos casos, mas podem raramente ser vistos. Sua presença deve exigir cautela no diagnóstico da síndrome e consideração de outras condições. Quanto maior o número de alertas, menor a possibilidade de diagnóstico desta síndrome. Hirsch et al. Epilepsia 2022;63(6):1475-99 135 Referências bibliográficas 136 Crises epilépticas 1. Fisher RS, van Emde Boas W, Blume W, et al. 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Brigadeiro Luís Antônio, 1.700 – 11o andar Bela Vista – São Paulo, SP – CEP 01318-002 Crises e síndromes epilépticas 2a Edição Cr is es e s ín dr om es e pi lé pt ic as - 2a E di çã o Elza Márcia Targas Yacubian Silvia Kochen Apoio: METABÓLICA ESTRUTURAL GENÉTICA IMUNE INFECCIOSA DESCONHECIDA ETIOLOGIA COMORBIDADES TIPOS DE CRISES SÍNDROMES EPILÉPTICAS TIPOS DE EPILEPSIASde início generalizado, as crises de início desconhecido e as não classificáveis.12,13 1 Definições, outros tipos de crises e descritores estão listados no artigo e no glossário de termos12,13 2 Por informação inadequada ou impossibilidade de inserir nas outras categorias Classificação dos Tipos de Crises da ILAE 20171 15 Classificação das crises epilépticas Segundo a Classificação Internacional das Crises Epilépticas de 2017 (Figura 4), crises de início focal são definidas como aquelas em que as primeiras manifestações clínicas e eletroencefalográficas indicam a ativação inicial de um sistema de neurônios limitado a uma parte de um hemisfério cerebral.12,13,14 Elas podem evoluir para crises tônico-clônicas bilaterais.12,13 Figura 4. O esquema expandido da Classificação Internacional das Crises Epilépticas da ILAE de 2017 considera as crises de início focal perceptivas e disperceptivas (motoras e não moto- ras), as crises de início generalizado (motoras e não motoras), as crises de início desconhe- cido (motoras e não motoras) e as não classificáveis. Crises focais podem, com a propagação das descargas, transformarem-se em crises tônico-clônicas bilaterais.12,13 Esquema expandido Perceptivas | Disperceptivas Início motor automatismos atônicas2 clônicas espasmos epilépticos2 hipercinéticas mioclônicas tônicas Início não motor autonômicas parada comportamental cognitivas emocionais sensoriais Focal evoluindo para tônico-clônica bilateral 1. Início focal Motoras tônico-clônicas clônicas tônicas mioclônicas mioclônico-tônico- clônicas mioclônico-atônicas atônicas espasmos epilépticos2 Não motoras (ausências) típicas atípicas mioclônicas mioclonias palpebrais Motoras tônico-clônicas espasmos epilépticos Não motoras parada comportamental 2. Início generalizado 3. Início desconhecido 4. Não classificáveis3 1 Definições, outros tipos de crises e descritores são listados no artigo e glossário de termos12,13 2 Estas podem ser focais ou generalizadas, com ou sem alteração da perceptividade 3 Por informação inadequada ou impossibilidade de inserir nas outras categorias Classificação dos Tipos de Crises da ILAE 20171 16 Crises epilépticas As crises de início generalizado são aquelas que se originam em algum ponto de uma rede neuronal e rapidamente envolvem e se distribuem em redes neuronais bilaterais.12,13,14 Crises focais são divididas em perceptivas, quando a percepção de si próprio e do meio ambiente é preservada e disperceptivas ou com comprometimento da percepção quando a percepção é comprometida. As crises focais, podem ser motoras (7 subtipos) ou não moto- ras (5 subtipos), e ambos os tipos podem evoluir para crises tônico-clônicas bilaterais. Crises generalizadas são também subdivididas em crises motoras e não motoras (ausên- cias). Há 8 subtipos de crises generalizadas motoras e 4 subtipos de ausências como não motoras. A diferenciação destes subtipos de ausências é fundamental para o estabelecimen- to do diagnóstico sindrômico e do prognóstico. Crises de início desconhecido por não terem sido integralmente testemunhadas, porém com indícios de que se tratou inquestionavelmente de crises de natureza epiléptica, seriam re- feridas, na Classificação de 1981, pela simples palavra “não classificadas”.15 Agora elas recebem características adicionais, incluindo motoras e não motoras. Um tipo de crise de início desconhecido pode ulteriormente ser classificado tanto como de início focal, quanto de início generalizado, quando estiverem disponíveis exames complementares como EEG, neuroimagem ou testes genéticos. Finalmente, pode ser impossível classificar uma crise epiléptica, tanto por informações incompletas como pela natureza incomum da crise; nesse caso deverá ser chamada de crise epiléptica não classificável. Categorização como não classificada deve ser feita somente em situações excepcionais, quando o clínico está seguro de que o evento é uma crise epiléptica, mas não consegue prosseguir na classificação do evento.12,13 Na apresentação da semiologia das crises epilépticas, abordaremos inicialmente as crises focais, por serem as mais frequentes e terem características semiológicas que permitem a caracterização da zona sintomatogênica e, com ela, a programação dos exames comple- mentares. Em seguida, apresentaremos a semiologia das crises genera lizadas. Não consideraremos aqui a classificação dos diferentes tipos de estado de mal epiléptico. Seção 2 Semiologia das crises focais 18 Crises epilépticas Na Proposta de Classificação de 2010, aceita em 2017, crises epilépticas focais são aquelas que se originam em redes neuronais limitadas a um hemisfério cerebral, as quais podem ser restritas ou distribuídas de forma mais ampla. Para cada tipo de cri- se, o início crítico é consistente de uma crise para outra com padrões de propagação preferenciais, e o ritmo ictal pode envolver o hemisfério contralateral. Em alguns casos, contudo, há mais do que uma rede neuronal epileptogênica e mais do que um tipo de crise epiléptica, mas cada tipo de crise individual tem um local de início consistente14 A classificação de 1981 sugeriu uma diferenciação fundamental entre crises com e sem comprometimento da consciência (crises parciais simples e complexas).15 Esta diferenciação é fundamental, pois apresenta impacto significativo na vida do paciente. Estes termos foram retirados da Classificação de 2017.12,13 A menção do termo crise parcial simples pode banalizar o impacto da crise a um paciente que não crê que as ma- nifestações e consequências de suas crises sejam de forma alguma simples; por outro lado, a menção de que suas crises são parciais complexas pode significar a ele e seus familiares que esse tipo de crise é mais complicado ou difícil para entender (e tratar...) do que outros tipos de crises.12,13 Consciência é um fenômeno complexo que envolve componentes subjetivos e objeti- vos com quatro elementos fundamentais: 1. a percepção de si próprio; 2. a percepção do ambiente; 3. a responsividade; 4. a memória, cada um dos quais é variavelmente comprometido durante as crises epilépticas. A Classificação de 2017 utilizou o com- prometimento ou não da percepção de si próprio e do meio como os componentes fundamentais da alteração que pode ocorrer durante crises focais, um termo substi- tutivo para alteração da ‘consciência’, pois a responsividade nem sempre é avaliada durante as mesmas e a memória dos fatos ocorridos durante a crise é variavelmente afetada.12,13 A Classificação das Crises Epilépticas de 2017 considerou convulsão um termo leigo, utilizado para descrever crises epilépticas com manifestações motoras tôni- cas, clônicas ou tônico-clônicas uni ou bilaterais. Ainda aura, também considerado um termo leigo, que é, na realidade, a manifestação inicial de uma crise focal, foi considerada um sinônimo de crise de início focal perceptiva não motora. Contudo, por se tratar de um termo consagrado desde a Antiguidade e conhecido por todos,16 pode ser empregado durante a anamnese e estabelecimento da conduta na prática clínica.12,13 19 Semiologia das crises focais Crises de início focal perceptivas não motoras ‘Auras’ epilépticas (do lat. aura, ae ‘vento suave, brisa’) são sensações referidas pelo pa- ciente, decorrentes da ativação pelo ritmo ictal de uma região cortical limitada. Elas apre- sentam curta duração, geralmente de segundos, e ocorrem no início das crises. Muitas vezes o paciente será capaz de descrevê-las, mas algumas vezes, com a propagação das des- cargas ictais durante a crise epiléptica e envolvimento extenso do córtex cerebral, haverá amnésia destes eventos iniciais. São sintomas subjetivos que ocorrem em crises focais, mas são descritos também em crises generalizadas. Auras epilépticas devem ser diferenciadas de auras queocorrem em eventos paroxísticos não epilépticos, como enxaqueca, síncope e crises dissociativas.6 Na Classificação de 2017 elas estão listadas no grupo das crises de início focal não motoras e são representadas pelas crises autonômicas, cognitivas, emocio- nais e sensoriais (Figura 4). O termo “crises cognitivas” engloba muitas delas entre aquelas com características positivas, como déjà vu, jamais vu, alucinações, ilusões ou distorções da percepção (Figura 5).12,13 Abdominais Somatossensitivos Vertiginosos Visuais Auditivos Autonômicos Cognitivos Olfativos Gustativos Cognitivos Autonômicos Figura 5. Os sintomas das crises de início focal perceptivas não motoras constituem um sinal importante na caracterização da zona epileptogênica das crises epilépticas, uma vez que muitos deles têm valor localizatório. 20 Crises epilépticas 1. Sintomas somatossensitivos são sensações somáticas específicas descritas como for- migamento, entorpecimento, sensação de choques, dor, sensação de que a área afetada se move ou desejo de movê-la. Mais comumente são representadas por sensações parestési- cas, as quais, como as crises motoras, podem migrar de um segmento corpóreo para outro, seguindo um padrão somatotópico (marcha jacksoniana). Podem ser muito localizadas em um segmento corpóreo, como a mão, pé ou face contralateral. Nestes casos, são um sinal localizatório muito confiável da proximidade da ZE ao córtex sensitivo primário, ou área somatossensitiva primária, localizada nos lobos parietais (Figura 6). Sintoma de dor, mui- tas vezes de forte intensidade, pode se originar na área somatossensitiva primária. Ilusões somatossensitivas, como aumento ou redução de uma parte do corpo ou ilusão cinestésica e distúrbios da imagem corporal, originam-se em áreas parietais, mais frequentemente no hemisfério não dominante. Figura 6. Representação somatotópica na área somatossensitiva primária do giro pós-central do lobo parietal. 21 Semiologia das crises focais No entanto, esses fenômenos sensitivos podem ser menos localizados ou mesmo bilaterais, envolvendo ambas as mãos ou os pés, quando resultantes da ativação da área somatossen- sitiva secundária (localizada no opérculo frontoparietal, em que são representados ambos os lados do corpo), ou da área sensitivo-motora suplementar (Figura 7). Sintomas mais difusos da área somatossensitiva secundária são sucedidos por fenômenos motores na boca ou face pela proximidade com a região rolândica dessas partes do corpo. Por sua vez, as auras da área sensitivo-motora suplementar são muito menos definidas, sendo descritas como sensações corporais gerais, em que as auras são muito pouco localizadas, envolvendo os dois lados do corpo, como ambas as extremidades proximais dos membros superiores. Área sensitivo-motora suplementar Área somatossensitiva primária Área somatossensitiva secundária Área motora primária Corpo caloso Figura 7. As três áreas sensitivas: a área somatossensitiva primária, localizada no giro pós-central (áreas 3, 1, 2 de Brodmann), a qual mostra representação somatotópica muito bem definida; a área somatossensitiva secundária, localizada no opérculo frontoparietal (área 43 de Brodmann); e a área sensitivo-motora suplementar, localizada na superfície mesial dos lobos frontal e parietal (área 7 de Brodmann). 2. Sintomas visuais são, em geral, alucinações visuais simples, em lampejos coloridos, não estáticos, se movimentado no campo visual, algumas vezes culminando em amaurose, pelo comprometimento de amplas áreas occipitais quando o ritmo ictal envolve completamente as áreas posteriores de ambos os hemisférios cerebrais. 22 Crises epilépticas 3. Sintomas auditivos são alucinações elementares representadas por um som, em geral repetitivo e simples. A estimulação elétrica do giro temporal transverso e do giro temporal superior adjacente (opérculo) pode evocar fenômenos auditivos simples (zumbido, sus- surro, badalar de sinos), o que confere valor localizatório para os sintomas auditivos. A combinação de fenômenos auditivos simples com outros fenômenos experienciais indica a propagação das descargas epileptiformes para outras regiões do lobo temporal, podendo haver ilusões e alucinações auditivas representadas por alterações da percepção, de timbre, distância ou tempo constituídas por sons de vozes, músicas ou sons compreensíveis, fre- quentemente familiares, mas não identificados com precisão. Alucinações auditivas, parti- cularmente se complexas e especialmente se impositivas, não são fenômenos presentes nas crises epilépticas, sendo verificadas comumente na esquizofrenia. 4. Sintomas olfatórios são alucinações olfativas, em geral desagradáveis, indicativas de que a zona sintomatogênica é representada principalmente pela região periamigdaliana ou frontal basal. Mencionada por Aretaeus da Capadócia, essa aura teve sua descrição defi- nitiva feita por John Hughlings Jackson17 (Quadro 1), que enfatizou quase tudo o que é importante nesse tipo de manifestação: 1) trata-se de um sintoma raro (apenas dois casos foram descritos por Jackson); 2) geralmente é associada a outros tipos de auras; 3) pode ser associada a processos expansivos; e 4) auras olfativas podem ser um sintoma transitório na evolução da epilepsia.18 Sintomas olfatórios raramente ocorrem de modo isolado, sendo mais frequentemente associados a fenômenos gustativos e a outras manifestações da região medial do lobo temporal. No entanto, o termo crises uncinadas foi questionado por Daly Quadro 1. John Hughlings Jackson (1835-1911).17 descreveu casos de aura olfatória John Hughlings Jackson descreveu dois casos de aura olfatória e ou- tras sensações como manifestações iniciais de crises epilépticas.17 O primeiro foi o de uma cozinheira de 53 anos que havia apresentado início dos sintomas 13 meses antes de sua consulta com Jackson. As crises se iniciavam com tremores nos membros superiores. Ela via uma pequena mulher negra que estava sempre muito ativamente envolvida na tarefa de cozinhar. Então referia “um odor indescritível horrível” que a sufocava. A paciente não perdia a consciência, mas apresentava palidez e emissão de urina. À necrópsia foi encontrado um tumor no lobo temporoesfenoidal direito. O segundo paciente descrito por Jackson era um médico de 51 anos que tinha crises ini- ciadas por náusea e vertigem e uma “sensação intensa de odor”. 23 Semiologia das crises focais após o conhecimento de que os centros corticais do paladar e do olfato teriam localizações, respectivamente, na ínsula e no úncus, estruturas que apenas em raras situações poderiam ser simultaneamente acometidas por uma mesma descarga epiléptica.19 Descrições fre- quentes, desde a época de Jackson (Quadro 1), da associação entre processos tumorais do lobo temporal e auras olfativas resultaram em uma tendência de sempre associar esses dois quadros neurológicos, embora esta não seja necessariamente a regra.20 Além da região medial do lobo temporal, o bulbo olfatório é a única estrutura que pode produzir sensação olfativa por estimulação elétrica, conferindo valor localizatório a esse tipo de aura. 5. Sintomas gustativos são geralmente acompanhados de sintomas olfatórios. Geralmente não prazerosas, tais manifestações são associadas a alucinações multissensoriais típicas dos sintomas cognitivos. Os sintomas gustativos podem ser evocados através da estimula- ção de duas regiões: o opérculo parietal e a região mesiobasal anterior do lobo temporal.18 6. Sintomas autonômicos são representados por uma sensação indicativa do envolvimento do sistema nervoso autônomo, incluindo funções cardiovasculares, sudomotoras, vasomo- toras, termorregulatórias e gastrintestinais. Auras abdominais constituem um tipo de sinto- ma autonômico muito frequente, indicativas do aumento de peristaltismo no tubo digesti- vo. Ajmone-Marsan e Ralston21 puderam avaliar, através da medida por balões inseridos no mesmo, que, durante esse sintoma em cerca de50% das vezes, há aumento dos movimen- tos peristálticos. Fenômenos que acompanham essa manifestação autonômica, geralmente referida ao epigástrio, incluem náuseas, vômitos e taquicardia. A aura epigástrica se mani- festa como desconforto abdominal e inclui náusea, sensação de vazio, aperto, indisposição ou frio no estômago, dor, fome; a sensação pode ascender ao peito ou à garganta. Auras autonômicas (sintomas subjetivos) são diferentes de crises autonômicas (manifestações objetivas), como taquicardia, sudorese em um hemicorpo, salivação etc. 7. Sintomas cefálicos/‘auras’ cefálicas representam um grupo com características subje- tivas e extremamente variáveis, sendo referidas sensações cefálicas de choques elétricos, pressão, parestesias ou sensação de vazio, além de vertigens subjetivas. Sintomas verti- ginosos podem ser produzidos pela estimulação elétrica do giro temporal superior pode evocar a sensação de deslocamento ou movimento, incluindo sensações rotatórias. Os sin- tomas vertiginosos verdadeiros são raros e podem ser relacionados a descargas na região posterior do neocórtex temporal superior. Sensações inespecíficas podem ser confundidas com sintomas vertiginosos, sem correlação eletroclínica verdadeira, o que restringe seu valor localizatório. Cefaleia pode ser o sintoma inicial de crise epiléptica. A relação entre cefaleia e crises epilépticas ainda representa um ponto de controvérsia, e a despeito do 24 Crises epilépticas grande número de pacientes que descrevem cefaleias prodrômicas ou pós-críticas, há casos em que o surgimento abrupto da cefaleia marca inequivocamente o início de uma crise epiléptica. Em tal situação, pode-se defini-la como cefaleia crítica. Em outras situações, a cefaleia crítica pode não corresponder a aura e sim a uma alteração na circulação intra- craniana, tanto precedendo a crise epiléptica como coincidindo com seu início. As auras cefálicas não apresentam valor localizatório, podendo estar relacionadas a crises focais iniciadas em praticamente qualquer região do cérebro. Em uma série de casos, cefaleia peri-ictal, com características da enxaqueca comum em 60% dos casos, foi ipsilateral à ZE em 27 de 30 pacientes com epilepsia do lobo temporal na série daqueles com epilepsia focal, mas apenas em dois de 17 pacientes com epilepsia extratemporal. Essa diferença foi estatisticamente significativa, o que confere valor localizatório para o sintoma de cefaleia na epilepsia do lobo temporal.22 8. Sintomas experienciais são crises de início focal não motor cognitivas e cursam com sintomas que revivem experiências previamente vivenciadas pelo paciente, ou seja, são fenômenos complexos que incluem sentimentos experimentados ao longo da vida, embora sejam reconhecidos pelo indivíduo como uma sensação fora do contexto real. Esses even- tos incluem: 8.1 sensações afetivas; 8.2 mnemônicas e 8.3 alucinações e ilusões. 8.1. Sintomas afetivos são constituídos por diferentes componentes, como medo, depres- são, alegria e (raramente) raiva. Sensação de medo é uma manifestação comum na ativação da amígdala. O medo ictal geralmente tem início quando o paciente ainda está consciente, tem duração breve (0,5 a 2 minutos), é acompanhado de outras auras cognitivas, como déjà vu e outros fenômenos alucinatórios, e não é precedido por ansiedade antecipatória como ocorre nos ataques de pânico. 8.2. Sintomas mnemônicos são constituídos por diferentes modalidades dos fenômenos mnésticos de déjà vu/jamais vu (já visto/nunca visto), déjà vecu/jamais vecu (já vivido/ nunca vivido), déjà entendu/jamais entendu (já ouvido/nunca ouvido), entre outros. Ainda podem incluir alucinações ou ilusões visuais ou auditivas, geralmente complexas, sempre com alguma conotação emocional. 8.3. Sintomas alucinatórios ou ilusórios. Alucinação é a percepção real de um objeto inexistente, ou seja, são percepções sem um estímulo externo que envolvem fenômenos visuais, auditivos, somatossensitivos, olfatórios e/ou gustatórios. Ilusão é uma alteração de uma percepção real envolvendo os sistemas visuais, auditivos, somatossensitivos, olfa- tórios e gustatórios. Auras de êxtase, semelhantes às clássicas descrições de Dostoiévski (Quadro 2), vêm sendo descritas na literatura, com dados sugestivos de que seriam origi- nadas no lobo temporal não dominante.23,24,25 25 Semiologia das crises focais Quadro 2. A aura de êxtase do príncipe Michkin. Fiodor Mikhailovitch Dostoievski (1821- 1881).23-25 A aura de êxtase do príncipe Michkin No romance O idiota, Dostoiévski (1821-1881) descreveu, pela primeira vez, um curto estado extático de felicidade absoluta, seguido de acen- tuada melancolia e profundo sentimento de cul- pa. Esse era o tipo de crise narrado pelo príncipe Michkin; no caso, um relato detalhado da epilep- sia do lobo temporal que só seria realizada, no meio médico, cerca de 20 anos depois, pelo neu- rologista inglês John Hughlings Jackson. “Existiria realmente a tal loja com os tais arti- gos expostos na tal vitrina? Ah! Sem dúvida, não estava se sentindo bem hoje, a bem dizer se achando quase no estado em que outrora se sen- tia quando estava para vir um dos ataques da sua antiga moléstia. Sabia que em tais ocasiões cos- tumava pouco antes se sentir excepcionalmente ‘ausente’ de tudo, e que então confundia coisas e pessoas, caso não se esforçasse por prestar bas- tante atenção nelas...” “ ...Lembrou-se, por exemplo, de que sempre um minuto antes do ataque epiléptico (quan- do lhe vinham ao estar acordado) lhe iluminava o cérebro, em meio à tristeza, ao abati- mento e à treva espiritual, um jorro de luz e logo, com extraordinário ímpeto, todas as suas forças vitais se punham a trabalhar em altíssima tensão. A sensação de vivência, a consciência do eu decuplicavam naquele momento, que era como um relâmpago de ful- guração. O seu espírito e o seu coração se inundavam com suas dúvidas, todas as suas ansiedades ficavam desagravadas imediatamente. Tudo imergia numa calma suave, cheia de terna e harmoniosa alegria e esperança. Tal momento, tal relâmpago, era apenas o prelúdio desse único segundo (não era mais do que um segundo) com que o ataque co- meçava...” “ ...Era como se em tal fração de momento contemplasse visões irreais e deslumbrantes como as despertadas pelo haxixe, pelo ópio ou pelo vinho ao destruírem a razão e dis- torcerem a alma. Era capaz de julgá-las inteiramente quando o ataque cessava. Tais fra- ções de momento, para defini-las numa palavra, caracterizavam-se por uma fulguração da consciência e por uma suprema exaltação da emotividade subjetiva. Se, nesse segundo, ou melhor, bem no último momento consciente anterior ao ataque, ele tivesse tempo de dizer a si mesmo, clara e lucidamente: ‘Sim, por este só momento se daria toda a vida!´, então esse momento, sem dúvida, valia realmente por toda a vida.” 26 Crises epilépticas Crises focais com manifestações motoras O ato motor é programado em duas áreas que funcionam em conjunto: o córtex somato- motor (área 4 de Brodmann - área somatomotora primária) e o córtex pré-motor com seus componentes medial e lateral. O componente medial é o córtex sensitivo-motor suplemen- tar, localizado na superfície medial do hemisfério cerebral, e o lateral é a área pré-motora frontal (Figura 8). Área somatomotora primária Área pré-motora Área sensitivo-motora suplementar Figura 8. As três áreas motoras. As crises com expressão motora são constituídas por componentes motores simples ou mais elaborados. O Quadro 3 enumera as crises com fenomenologia motora. Quadro 3. Exemplos de manifestações motoras das crises de início focal. Manifestações motoras de crises de início focal 1. Espasmos epilépticos 2. Crises tônicas 3. Crises clônicas 4. Crises tônico-clônicas bilaterais 5. Crises mioclônicas 6. Crises focais motoras tônicas versivas 7. Crises com automatismos 8. Crises hipercinéticas 9. Crises focais não motoras emocionais gelásticas 27 Semiologia das crisesfocais 1. Espasmos epilépticos. Espasmos epilépticos são definidos como uma contração súbita em flexão, em extensão ou mista de predomínio em músculos proximais e do tronco usualmente mais mantida que um movimento mioclônico mas não tão mantida como uma crise tônica. Formas limitadas podem ocorrer: careteamento, queda da cabeça, ou movimentos oculares súbitos. Frequentemente ocorrem em grupos. Os espasmos infantis são a forma mais conhe- cida, mas espasmos podem ocorrer em qualquer idade.12,13 O predomínio da contração de músculos axiais proximais ocasiona a flexão do tronco e abdução e elevação de ambos os membros superiores numa posição saudatória (tic de salaam). O movimento inicial tende a ser relativamente rápido, como uma contração mioclônica. O paciente permanece na atitude saudatória por poucos segundos antes de cada relaxamento. Esses espasmos tendem a ocorrer em salvas, ao adormecer ou ao despertar. Classicamente divididos em espasmos em flexão e em extensão, ou mistos, essa subdivisão não deve ser valorizada, pois é dependente da po- sição do eixo corpóreo e da cabeça quando da sua ocorrência. No entanto, espasmos consis- tentemente assimétricos são indicativos de comprometimento assimétrico do córtex cerebral. 2. Crises tônicas. Definida simplesmente como um aumento mantido da contração muscular que dura poucos segundos a minutos,12,13 a crise tônica consiste na contração muscular axial, axorrizomélica ou global mantida, usualmente com duração superior a cinco a dez segundos. As crises tônicas podem ser muito breves, perceptivas ou mais longas e disperceptivas. No pri- meiro caso, são manifestações da área motora suplementar, enquanto, no segundo, tratam-se de crises generalizadas. As crises tônicas focais da área sensitivo-motora suplementar geralmente são assimétricas. É importante ressaltar que, neste caso, a lateralização da cabeça e a assimetria dos membros superiores (postura de esgrimista) não apresentam valor lateralizatório (Figura 9). Figura 9. As manifestações motoras tônicas assimétricas nas crises da área sensitivo-motora suplementar são em geral desprovidas de valor lateralizatório. Tayrine da Siva Gonçalves Diferenças na duração da crise tônica: origem focal x generalizada Tayrine da Siva Gonçalves Mioclonia / Espasmo / Crise tônica Tayrine da Siva Gonçalves Duração: Crise tônica - em geral > 5-10s Espasmo- e simétrica, um tipo de crise generalizada, o paciente executa algumas ordens, deambula, reage aos estímulos, porém o faz de forma anor- malmente lenta e alterada. Ao término do estado de mal de ausência típica, não será capaz de se lembrar o que aconteceu ou o que fez durante o mesmo. O mesmo ocorre em algumas for- mas de status epilepticus não convulsivo como ‘aura’ contínua, com sintomas autonômicos, sensitivos, visuais, olfatórios, gustatórios, emocionais/psíquicos/experienciais ou auditivos. Coma em epileptologia é visto apenas nas crises tônico-clônicas bilaterais ou generalizadas, após as quais o paciente encontra-se comatoso por vários minutos, apresenta inicialmente arreflexia profunda e depois mostra reflexos patológicos, como o sinal de Babinski. Nas crises de início focal com automatismos do lobo temporal, o paciente apresenta um esta- do muito diferente do coma. Classicamente verificado quando há propagação do ritmo ictal ao lobo temporal contralateral, o comprometimento da consciência nesse tipo de crise é pro- vavelmente decorrente de dois fatos: 1. da inabilidade de formar qualquer traço de memória pela desorganização funcional das estruturas mesiais dos lobos temporais, implicadas no pro- cessamento da memória; 2. pela desorganização, pelo ritmo ictal, das áreas de linguagem no hemisfério dominante, ou seja, das áreas de Wernicke, Broca e ainda da área temporal basal, responsável pela nomeação. Esse é o motivo pelo qual as crises que envolvem inicialmente o hemisfério dominante cursam com “dispercepção” (termo substitutivo ou comprometimento da ‘consciência’) muito mais acentuada do que a verificada nas crises do hemisfério não dominante, nas quais esse comprometimento pode ser muito sutil ou, até mesmo, se mostrar ausente. O comprometimento da percepção em crises do lobo temporal é o resultado, portan- to, de uma disfunção primária de estruturas corticais arqui e neocorticais. Da mesma forma, nas crises generalizadas de ausências típicas acompanhadas de complexos de espícula-onda ritmados a 3/s de projeção difusa, bilateral e síncrona, há acentuada desorganização de es- truturas neocorticais de ambos os hemisférios cerebrais, e não perda de consciência e coma. A presença dessas descargas produzirá disfunção cortical em diferentes graus de diversas funções, produzindo um estado de ‘demência momentânea e transitória’.31 31 Semiologia das crises focais • A postura distônica (Figura 11) consiste na postura não natural de um membro com componente rotatório.21 Embora todo o membro superior possa ser afetado, o fenômeno fundamental é a postura tônica da mão com rotação desta, ou seja, um componente de torção, com duração de pelo menos cinco segundos. Quando associado a automatismos no membro superior contralateral, esse sinal é altamente sugestivo de epilepsia das estruturas mesiais do lobo temporal.32 A zona sintomatogênica desse sinal lateralizatório é provavel- mente os gânglios da base ipsilaterais à ZE. Figura 11. Postura distônica da mão esquerda. Postura não natural de um membro com com- ponente rotatório; ombro em abdução/rotação, cotovelo em extensão/flexão, punho e arti- culações metacarpofalangianas em flexão, extensão dos dedos, com ou sem componente coreoatetósico. A associação de postura distônica com automatismos manuais contralaterais sugere fortemente sua origem em estruturas mesiais do lobo temporal.21,32 32 Crises epilépticas 8. Crises hipercinéticas. Tratam-se de crises com fenômenos motores importantes e au- tomatismos que afetam primariamente os segmentos proximais do corpo. Tal fato resulta em grandes movimentos, que, quando executados rapidamente, parecem violentos. Crises hipercinéticas ocorrem predominantemente durante o sono, têm início abrupto e duração breve, ocorrem várias vezes na mesma noite e, a característica mais importante é que são extremamente estereotipadas em contraste com crises funcionais ou não epilépticas psico- gênicas, as quais mostram, em geral, considerável variabilidade da semiologia crítica de um evento para o outro (Quadro 4). O principal diagnóstico diferencial das crises hiper- cinéticas são os eventos paroxísticos não epilépticos, como os psicogênicos. A principal diferença é que, como mencionado anteriormente, estes não são esterotipados quanto às manifestações motoras ou à duração. Quadro 4. Crises hipercinéticas. Crises hipercinéticas Movimentos repetitivos complexos envolvendo a parte proximal dos membros e o tron- co, os quais resultam em movimentos rápidos, amplos e violentos • Simulam movimentos normais inapropriados para a situação • Vocalização, automatismos sexuais, riso, agitação Mais comuns em epilepsia do lobo frontal, mas podem ocorrer em crises do lobo tem- poral e insulares Os sinais motores frequentemente não têm valor localizatório Podem ser erroneamente diagnosticadas como de natureza não epiléptica 9. Crises focais não motoras emocionais gelásticas. Constituem um exemplo de crise com manifestações motoras com automatismos complexos denominados automatismos mímicos, que se referem a uma mímica ou comportamento estereotipado que se parece com a maneira usual de alguém expressar-se para refletir um afeto, mas que não é acompa- nhado pela emoção correspondente. O termo gelástico é originado da palavra grega gelos, que significa alegria, uma expressão relacionada à manifestação de riso durante a crise. São crises nas quais o principal sintoma é riso. É importante reconhecer a crise gelástica, pois é relacionada ao hamartoma hipotalâmico em 50% dos casos. Assim, seu reconhe- cimento é importante não apenas para localizar a ZE em uma estrutura subcortical, mas também para o diagnóstico etiológico (Quadro 5). 33 Semiologia das crises focais Crises focais especiais Crises epilépticas com fenômenos negativos Estas crises são manifestações de disfunções de três áreas corticais geradoras de crises motoras negativas: a área somatomotora negativa primária, a área motora negativa suple- mentar e a área sensitivo-motora suplementar negativa, como foi demonstrado no trabalho de Lüders et al.30 (Figura 12). Fenômenos epilépticos negativos são relativamente comuns e incluem quatro tipos de cri- ses principais (Quadro 6): Quadro 5. Um exemplo de crises focais iniciadas em estruturas subcorticais são aquelas ori- ginadas no hamartoma hipotalâmico O hamartoma hipotalâmico é o selo patológico de um espectro amplo de condições epi- lépticas, as quais abrangem desde formas muito leves de epilepsia em indivíduos inte- lectualmente normais, nos quais as crises são caracterizadas por necessidade imperiosa de rir, até uma síndrome grave iniciada precocemente com crises gelásticas e puberda- de precoce evoluindo para encefalopatia epiléptica. Estudos neurofisiológicos e de neu- roimagem funcional têm demonstrado que o tecido hamartomatoso é o responsável pela geração das crises e pelo processo de epileptogênese secundária e constitui um exemplo de que crises focais podem se originar em estruturas subcorticais. O termo gelástico é originado da palavra grega gelos, que significa alegria, uma expressão relacionada à ma- nifestação de riso ou gargalhada, usualmente sem tônus afetivo apropriado, durante a crise.12,13,33 34 Crises epilépticas Quadro 6. Crises epilépticas com fenômenos negativos 1. Crises atônicas 2. Crises de parada comportamental 3. Crises afásicas 1. Crises atônicas. É a perda do tônus postural, ocasionando queda. Na maioria das vezes, a crise atônica é precedida por mioclonia maciça que projeta o paciente ao solo. 2. Crises de parada comportamental. Trata-se de um tipo de crise não motora, focal ou de início desconhecido, caracterizado por imobilidade ou incapacidade de se movimentar. Comumente observado em crianças pequenas ou em pacientes com acentuada deficiência intelectual. Nelas, não há como se certificar da ocorrência de comprometimento da cons- ciência, impossibilidade de se movimentar, distratibilidade pela ocorrência deaura etc. Constitui cerca de 30% das crises observadas em crianças e mais comumente crises de parada comportamental constituem sintomas das crises originadas na região têmporo-pa- rieto-occipital.34 O termo acinético define um fenômeno epiléptico caracterizado por inca- pacidade de movimentação sem paralisia. Durante episódios acinéticos, o paciente é inca- AMNP: área motora negativa primária AMNS: área motora negativa suplementar ASMS: área sensitivo-motora negativa suplementar M1: área somatomotora primária S1: área somatossensitiva primária Figura 12. As áreas motoras negativas. 35 Semiologia das crises focais paz de executar movimentos voluntários, principalmente com os músculos mais distais. A preservação da consciência durante esta crise é essencial para classificá-la como acinéti- ca. São mais provavelmente produzidas pela ativação da área motora negativa primária ou da área negativa motora suplementar. Não infrequentemente, a atividade epiléptica pode também ativar a área motora primária como a área da face e da mão. Isto resultará na ocorrência simultânea de uma crise motora negativa (por exemplo, afetando a área da mão contralateral) e uma crise clônica (envolvendo a face e a língua contralateral). Estas crises usualmente duram 30 segundos ou mais. 3. Crises afásicas. Há várias modalidades de crises afásicas, dependendo das áreas corti- cais envolvidas. O comprometimento da área de Broca, no giro frontal inferior, incluída na área motora negativa frontal, promove afasia motora. O comprometimento da área recep- tiva de Wernicke, localizada na porção posterior do primeiro e segundo giros temporais, o giro supramarginal e o giro angular, promove déficits de compreensão. O da área superior da linguagem, localizada na área motora suplementar, promove bloqueio da fala por inibi- ção dos movimentos dos órgãos fonoarticulatórios, ou, menos frequentemente, vocaliza- ção. Finalmente, a estimulação da área temporal basal promove bloqueio da fala e déficit de compreensão e a resseção dela ocasiona déficit de nomeação. Para mensurar esses déficits, a consciência precisará estar plenamente preservada (Figura 13). Áreas da linguagem Anterior Posterior Superior Basal temporal Figura 13. Áreas de linguagem definidas por estimulação elétrica: área anterior da fala, área de Broca; área posterior da fala, área de Wernicke; área superior da fala, na área sensitivo- motora suplementar; e área temporal basal da fala. 36 Crises epilépticas A semiologia dos lobos cerebrais 1. Crises epilépticas frontais A epilepsia do lobo frontal (ELF) continua representando um desafio tanto em termos da compreensão de como se organizam as crises como também em relação ao tratamento. Isto é mais evidente ainda se a compararmos com a bem definida síndrome da epilepsia do lobo temporal mesial com esclerose hipocampal. Além de ser difícil determinar o local de origem das crises no lobo frontal, em muitas ocasiões é ainda difícil estabelecer o diagnóstico de epilepsia. A ELF é frequentemente mal diagnosticada, sendo interpretada como crises funcionais ou não epilépticas psicogê- nicas.35,36 Devido a sintomas bizarros ou atípicos, somado ao fato de que o EEG de escalpe não mostra anomalias interictais e a atividade ictal permanece obscurecida por artefatos.37 Outra dificuldade diagnóstica na ELF é a diferenciação com distúrbios do sono, particular- mente porque a maioria das crises na ELF ocorre durante o sono. O lobo frontal é o maior dos lobos cerebrais, representando cerca de 40% do córtex cerebral (Figura 14). Caracteristicamente, as crises frontais são breves e apresentam início e final súbitos. Po- dem ocorrer em grupos e apresentam tendência a tônico-clônicas bilaterais rapidamente. Observa-se mínima confusão pós-ictal.38 A atividade clônica e a postura tônica assimétrica são típicas e, entre os sinais e sintomas das crises frontais, as manifestações motoras são as mais frequentes, presentes em 90% dos pacientes.35 Na ELF, as manifestações gestuais complexas são também características das crises.35,38-41 Os automatismos gestuais incluem movimentos desordenados ou movimentos exploratórios com as mãos dirigidas a si mesmo ou ao meio, como batidas repetidas ou preensão de objetos ou das roupas da cama; podem ocorrer condutas mais complexas que podem incluir flexão e extensão dos dedos, cruzar e descruzar as pernas, ou, ainda, movimentos mais intensos, como pedalar ou realizar golpes não dirigidos. Algumas dessas condutas podem ser relativamente adaptadas ao meio, in- dicando um grau de consciência e autonomia. O termo “crises hipermotoras” foi proposto pelo grupo de Cleveland, para caracterizar a agitação motora associada a uma atividade emocional, mas não foi amplamente aceito para a classificação (So, 1998). A divisão anatômica funcional em córtex pré-central, pré-motor e pré-frontal representa um modelo para a organização da semiologia das crises, como será descrito a seguir. A re- 37 Semiologia das crises focais Área de expressão da fala (áreas 44 e 45 de Brodmann) - hemisfério dominante Opérculo frontal: contração facial, hipersalivação Área pré-central (área somatomotora primária- área 4 de Brodmann): contrações clônicas, algumas vezes postura clônica ou mioclonias corticais Áreas pré-motoras, incluindo a área sensitivo- motora suplementar (área 6 de Brodmann): postura tônica assimétrica e algumas vezes fenômenos motores mais complexos Área frontal dos olhos (área 8 de Brodmann): rotação mantida e não natural dos olhos e/ou da cabeça para um dos lados Região pré-frontal dorsolateral: automatismos complexos, comportamento semiadequado, atitudes forçadas e também ausências frontais Região pré-frontal ventromesial: conduta motora hipercinética, expressão ictal emocional de medo Área frontal dos olhos (área 8 de Brodmann): rotação dos olhos e/ou da cabeça Região pré-motora: área sensitivo-motora suplementar (área 6 de Brodmann): postura tônica assimétrica e algumas vezes fenômenos motores mais complexos Área pré-central (área somatomotora primária) (representação da perna): movimentos clônicos, algumas vezes postura tônica ou mioclonia cortical A B Figura 14. Divisão anatômica do lobo frontal com elementos de semiologia das crises frontais em relação às regiões pré-central, pré-motora e pré-frontal: A. vista dorsolateral; B. vista me- dial. Modificado de McGonigal e Chauvel.42 38 Crises epilépticas gião pré-central inclui o córtex motor primário (área 4 de Brodmann). O córtex pré-motor inclui os componentes laterais e mediais, a área 6, a área motora suplementar (AMS) e a representação da linguagem (inclui a região conhecida como área de Broca) no hemisfério dominante (área 44). A área frontal dos olhos, que contribui para o desvio ictal da cabeça e dos olhos, está localizada no córtex dorsolateral (área 8) na região onde o córtex pré-motor e pré-central se encontram. Chauvel et al.35 propuseram uma classificação da ELF, dividindo as crises naquelas de ori- gem central, pré-motoras e pré-frontais, fazendo a distinção entre as predominantemente dorsolaterais e medioventrais em cada uma das categorias descritas. Este modelo é clini- camente útil porque reflete a tendência de atividade motora tônica e postural na maioria dos subtipos posteriores (central, pré-central) e condutas motoras complexas com mani- festações autonômicas e emocionais associadas à região pré-frontal. A distinção entre os padrões dorsais e mesiais também é possível, especialmente nas crises da área motora. Crises pré-centrais A descrição de Jackson17 há mais de 100 anos continua válida até a atualidade. Ele definiu as crises que se originam na região pré-central (área motora primária) como crises focais com movimentos clônicos contralaterais à ZE. Uma de suas características é a progressão lenta de uma parte do corpo a outro segmento adjacente, a denominada “marcha jacksonia- na”. A parte do corpo afetada