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ACIDENTES VASCULARES CEREBRAIS (AVC) P R O F . V I C T O R F I O R I N I E P R O F . R O D R I G O F R E Z A T T I Estratégia MED Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) 2NEUROLOGIA PROF. VICTOR FIORINI & PROF. RODRIGO FREZATTI APRESENTAÇÃO: Seja muito bem-vindo ao módulo de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) do Estratégia MED! Este é o assunto de Neurologia mais frequente nas provas de Residência. Cerca de 15% das questões da especialidade são sobre o tema. As questões de AVC dividem-se entre AVC isquêmico (70%), AVC hemorrágico intraparenquimatoso (10%) e hemorragia subaracnóidea (20%). No caso dos AVCs isquêmicos, que são o tema mais frequente, as estatísticas de provas são as seguintes: @neurofrezatti @estrategiamed @estrategiamed /estrategiamed Estratégia MED t.me/estrategiamed https://www.instagram.com/neurofrezatti/ https://www.instagram.com/prof.alexandremelitto/ https://www.instagram.com/estrategiamed/?hl=pt https://www.tiktok.com/@estrategiamed https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw https://t.me/estrategiamed Estratégia MED Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) 3NEUROLOGIA Este capítulo foi todo construído com base na engenharia reversa. Mais de trezentas e vinte questões sobre AVC foram comentadas, alternativa por alternativa. Todo o conhecimento necessário para resolvê-las, sem que você fique com dúvidas, estará nas próximas páginas. Acredite, muitos assuntos se repetem nas provas e, tendo domínio das informações que passaremos, você terá maior facilidade para solucionar as questões que serão abordadas no seu concurso de Residência Médica. Logo de cara, chamo a atenção para o tratamento da fase aguda do AVC isquêmico, o assunto mais frequente das provas. Leia com bastante calma. Saiba a fundo, memorize as tabelas e veja a videoaula. Ela ajuda a sedimentar o conhecimento. Em seguida, tente resolver as questões do nosso Sistema de Questões. Ele é a alma do nosso material. Um bom cirurgião é aquele que tem maior habilidade prática, entretanto, para quem está prestando concurso, sai na frente quem responde acertadamente a mais questões. Sempre que possível, as respostas às questões serão acompanhadas de informações que podem ajudá-lo na solução de questões parecidas, sem perder a objetividade. Tenha ótimos estudos e conte conosco! AVC Neuroanatomia Fatores de risco do AVCi Síndrome neurovascular NIHSS Imagem AIT Tratamento fase aguda Profilaxia secundária AVCi AVCh HSA 2% 5% 12% 1% 6% 4% 32% 9% 9% 20% Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC)NEUROLOGIA 4 SUMÁRIO 1.0 ANATOMIA NEUROVASCULAR 8 1.1 SISTEMAS ANTERIOR E POSTERIOR 8 1. 2 POLÍGONO DE WILLIS 10 1.3 CIRCULAÇÃO CAROTÍDEA 11 1.4 CIRCULAÇÃO VERTEBROBASILAR 12 1.5 IRRIGAÇÃO DOS HEMISFÉRIOS CEREBRAIS 13 1.6 TERRITÓRIO DA ARTÉRIA CEREBRAL MÉDIA 15 1.7 TERRITÓRIO DA ARTÉRIA CEREBRAL ANTERIOR 16 1.8 TERRITÓRIO DA ARTÉRIA CEREBRAL POSTERIOR 17 1.9 TERRITÓRIOS DAS ARTÉRIAS VERTEBRAIS, BASILAR E CEREBELARES 17 2.0 ACIDENTES VASCULARES CEREBRAIS ISQUÊMICOS 18 2.1 INTRODUÇÃO 18 2.2 FATORES DE RISCO 20 2.3 FISIOPATOLOGIA 23 2.3.1 CORE E PENUMBRA ISQUÊMICOS 23 2.3.2 EDEMA CITOTÓXICO 24 2.4 ETIOPATOGENIA 26 2.4.1 ATEROSCLEROSE DE GRANDES VASOS 26 2.4.3 CARDIOEMBOLIA 28 2.4.4 OUTRAS CAUSAS DE AVC ISQUÊMICO 29 2.5 SÍNDROMES NEUROVASCULARES 32 2.5.1 INÍCIO SÚBITO DOS SINTOMAS 33 2.5.2 SÍNDROMES DA CIRCULAÇÃO ANTERIOR 33 2.5.2.1 SÍNDROMES DA ARTÉRIA CEREBRAL MÉDIA 33 2.5.2.1.1 ALTERAÇÕES DE FORÇA E SENSIBILIDADE 35 Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC)NEUROLOGIA 5Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 2.5.2.1.2 ALTERAÇÕES COGNITIVAS 35 2.5.2.1.3 ALTERAÇÕES VISUAIS 39 2.5.2.1.4 ALTERAÇÕES NEUROPSIQUIÁTRICAS 42 2.5.2.2 SÍNDROME DA ARTÉRIA CEREBRAL ANTERIOR 42 2.5.2.3 SÍNDROME DAS ARTÉRIAS LENTICULOESTRIADAS 44 2.5.2.4 SÍNDROMES CAROTÍDEAS 45 2.5.2.5 SÍNDROME DA ARTÉRIA CORÓIDEA ANTERIOR 47 2.5.3 SÍNDROMES DA CIRCULAÇÃO POSTERIOR 47 2.5.3.1 SÍNDROMES DA ARTÉRIA CEREBRAL POSTERIOR 47 2.5.3.1.1 SÍNDROME TALÂMICA DE DEJERINE-ROUSSY 47 2.5.3.1.2 SÍNDROMES MESENCEFÁLICAS 48 2.5.3.1.3 INFARTO OCCIPITAL 48 2.5.3.2 SÍNDROMES DAS ARTÉRIAS VERTEBRAIS E BASILAR 49 2.5.3.2.1 SÍNDROMES PONTINAS 51 2.5.3.2.2 SÍNDROMES BULBARES 52 2.5.3.2.3 SÍNDROMES CEREBELARES 53 2.5.4 RACIOCÍNIO CLÍNICO NA AVALIAÇÃO DAS SÍNDROMES NEUROVASCULARES 55 2.6 ESCALAS DE AVALIAÇÃO CLÍNICA (NIH E RANKIN) 55 2.7 EXAMES DE IMAGEM NA FASE AGUDA DO AVC ISQUÊMICO 60 2.7.1 TOMOGRAFIA DE CRÂNIO (TC) 61 2.7.1.1 SINAIS PRECOCES DE ISQUEMIA NA TC DE CRÂNIO 63 2.7.1.2 ESCORE ASPECTS 65 2.7.1.3 ANGIOTOMOGRAFIA 65 2.7.1.4 TOMOGRAFIA COM PERFUSÃO 66 2.7.2 RESSONÂNCIA MAGNÉTICA 66 2.7.2.1 TÉCNICAS DE NEUROIMAGEM AVANÇADA COM MISMATCH 68 2.7.3 ARTERIOGRAFIA DIGITAL 69 2.8 TRATAMENTO DA FASE AGUDA DO AVC ISQUÊMICO 70 2.8.1 AVALIAÇÃO PRÉ-HOSPITALAR 70 2.8.2 AVALIAÇÃO INICIAL 72 2.8.3 STROKE MIMICS 73 Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC)NEUROLOGIA 6 2.8.4 TROMBÓLISE ENDOVENOSA 76 2.8.4.1 JANELA TERAPÊUTICA 78 2.8.4.2 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO PARA TROMBÓLISE 79 2.8.4.3 PRESSÃO ARTERIAL E DEXTRO 84 2.8.4.4 COMPLICAÇÕES DA TROMBÓLISE 86 2.8.4.5 TROMBÓLISE INTRA-ARTERIAL 86 2.8.5 TROMBECTOMIA MECÂNICA 87 2.8.6 TRATAMENTO GERAL DO AVC ISQUÊMICO 94 2.8.7 CRANIECTOMIA DESCOMPRESSIVA 95 2.9 ATAQUE ISQUÊMICO TRANSITÓRIO 98 2.10 INVESTIGAÇÃO ETIOLÓGICA E PROFILAXIA SECUNDÁRIA 100 2.10.1 INVESTIGAÇÃO ETIOLÓGICA – CLASSIFICAÇÃO DE TOAST 100 2.10.1.1 ATEROMATOSE DE GRANDES VASOS 100 2.10.1.2 ATEROMATOSE DE PEQUENOS VASOS (LACUNAS) 102 2.10.1.3 CARDIOEMBOLIA 102 2.10.1.4 OUTRAS CAUSAS 104 2.10.1.4.1 AVC ISQUÊMICO EM PACIENTES JOVENS (no lobo frontal esquerdo. Qual dos seguintes sintomas psiquiátricos está mais frequentemente associado a um acidente vascular cerebral nessa área do cérebro? A) pânico B) mania C) depressão D) obsessões Correta a alternativa C. COMENTÁRIOS Questão extremamente difícil! No entanto, a resposta está logo acima. Lesões do lobo frontal esquerdo associam-se à depressão, ao passo que as lesões temporais associam-se à mania. A síndrome do pânico relaciona-se com lesões corticais de hemisfério cerebral direito e os quadros de obsessões, à disfunção de núcleo caudado e ao circuito talamocortical frontal. 2.5.2.2 SÍNDROME DA ARTÉRIA CEREBRAL ANTERIOR Como a artéria cerebral anterior irriga a porção medial dos ⅘ anteriores dos hemisférios cerebrais, onde se situam os corpos celulares dos neurônios responsáveis pelo comando motor (no giro pré-central) e sensitivo (no giro pós-central) do membro inferior contralateral, sua lesão causará um déficit sensitivo e/ou motor de predomínio crural. Pode ocorrer comprometimento da face e do membro superior, porque, na região subcortical, as fibras provenientes do homúnculo cortical aproximam-se e parte delas são irrigadas, tanto pela cerebral média quanto pela cerebral anterior. Pacientes com lesão desse vaso também podem desenvolver um quadro de diminuição da vontade própria, chamado de abulia, além de incontinência urinária, agitação e engasgos. Quadros de afasia e heminegligência não costumam ser encontrados nas lesões do território dessa artéria. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 43 Muitos examinadores consideram apenas que a lesão da artéria cerebral média causa hemiparesia de predomínio braquiofacial e a da cerebral anterior leva a uma hemiparesia de predomínio crural. Isso também vale para os déficits sensitivos. Para isso, lembre-se da irrigação do homúnculo de Penfield (figura 23). Figura 23: irrigação do homúnculo de Penfield, mostrando o motivo por que os déficits decorrentes de lesões corticais da artéria cerebral média são de predomínio braquiofacial e os da cerebral anterior são de predomínio crural. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 44 CAI NA PROVA (HC UFPR 2018) Em relação ao acidente vascular encefálico isquêmico, assinale a alternativa que apresenta as principais manifestações clínicas típicas de envolvimento da artéria cerebral anterior. A) Déficit sensorial e/ou motor contralateral, com predomínio facial e braquial (face e braço > perna); afasia. B) Déficit sensorial e/ou motor contralateral, com predomínio crural (perna > braço e face); abulia. C) Déficit sensorial e/ou motor contralateral, com predomínio facial e braquial (face e braço > perna); negligência hemiespacial contralateral. D) Déficit sensorial e/ou motor ipsilateral, com predomínio facial e braquial (face e braço > perna); afasia. E) Déficit sensorial e/ou motor ipsilateral, com predomínio crural (perna > braço e face); abulia. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: essa descrição é do acometimento da artéria cerebral média do hemisfério dominante (hemiparesia e hemi- hipoestesia contralateral de predomínio braquiofacial e afasia). Correta a alternativa B: o acometimento isolado da artéria cerebral anterior envolve a perda de movimentos e/ou sensibilidade contralateral, mais intensa no membro inferior, devido à disposição dos neurônios no homúnculo de Penfield ser medial para esse segmento do corpo, exatamente no território desse vaso. A lesão frontal medial pode levar a outros déficits, como incontinência urinária, abulia (perda da iniciativa), agitação e engasgos. Incorreta a alternativa C: a alternativa descreve o acometimento vascular da artéria cerebral média do hemisfério não dominante, gerando déficit de predomínio braquiofacial e heminegligência. Incorreta a alternativa D: o acometimento de artérias cerebrais (anterior, média e posterior) gera déficits contralaterais. A lesão da artéria cerebral anterior não causa afasia. Incorreta a alternativa E: a lesão da artéria cerebral anterior gera abulia e hemiparesia de predomínio crural, mas o déficit é contralateral (está escrito ipsilateral na alternativa). 2.5.2.3 SÍNDROME DAS ARTÉRIAS LENTICULOESTRIADAS As artérias lenticuloestriadas são ramos perfurantes provenientes da artéria cerebral média (algumas também podem vir da cerebral anterior). Elas irrigam a região dos núcleos da base, principalmente o braço posterior da cápsula interna, por onde passam os axônios do trato corticoespinhal provenientes do homúnculo de Penfield. A oclusão de um ou mais desses ramos gera um quadro típico: hemiparesia completa e proporcionada pura, em que há déficit de força no andar inferior da face (paralisia facial central), no membro superior e no membro inferior, contralateralmente ao lado comprometido. Nesses pacientes, o grau de força do membro superior será idêntico ao do membro inferior. E é só! O paciente não apresentará outros déficits, como cognição, visão, nervos cranianos ou cerebelo. A única exceção ocorre quando o tálamo é comprometido concomitantemente, afetando a sensibilidade contralateral. Nesse caso, teremos uma hemiparesia pura acompanhada de hemi- hipoestesia. Essas duas síndromes são as principais representantes das síndromes lacunares clássicas. Lacuna é aquela lesão de até 1,5 cm de diâmetro, causada por doença aterosclerótica de pequenos vasos. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 45 CAI NA PROVA (UFPA 2020 (ADAPTADA)) Paciente 50 anos sexo feminino, com hipertensão mal controlada, trazida ao serviço de urgência devido à instalação nas últimas duas horas de déficit motor proporcionado à esquerda apenas. A paciente encontra-se consciente e orientada, não há heminegligência, afasia, evidência de síndrome alterna, alteração de sensibilidade ou outros achados. À sua chegada ao hospital, realiza-se tomografia computadorizada de crânio que não demonstra anormalidades. Considerando-se a doença representada pelo quadro clínico em questão, o vaso e a estrutura encefálica acometida são, respectivamente, A) artéria cerebral anterior e córtex frontal direito. B) artéria lenticuloestriada e cápsula interna direita. C) artéria cerebral anterior e cápsula interna direita. D) artéria lenticuloestriada e córtex frontal direito. COMENTÁRIOS: Incorretas as alternativas A e C: o AVC de artéria cerebral anterior causa hemiparesia de predomínio crural. Se a lesão for no córtex frontal direito, o paciente apresentará hemiparesia esquerda, desproporcionada. Correta a alternativa B: as artérias lenticuloestriadas são ramos perfurantes da artéria cerebral média para irrigar a região da cápsula interna e dos núcleos da base. Quando um desses ramos sofre isquemia, pode haver comprometimento da cápsula interna, por onde passam, de forma compactada, todas as fibras provenientes do homúnculo de Penfield para inervar o membro superior e o membro inferior do hemicorpo contralateral e a face (andar superior bilateral e andar inferior contralateral). Assim, o paciente apresentará uma hemiparesia completa e proporcionada, sem outros sintomas. Incorreta a alternativa D: as artérias lenticuloestriadas irrigam a região subcortical dos hemisférios cerebrais, principalmente a cápsula interna e os núcleos da base. Por isso, um AVC de uma dessas artérias não afetará o córtex. 2.5.2.4 SÍNDROMES CAROTÍDEAS A artéria carótida interna emite ramos intracranianos, sendo os mais importantes seus três ramos terminais: artéria cerebral média, artéria cerebral anterior e artéria comunicante posterior. Além deles, outros ramos importantes são a artéria oftálmica e a coróidea anterior. O local mais comum de estenoseaterosclerótica é o bulbo carotídeo, a primeira porção da carótida interna, ainda na região cervical, após a bifurcação da carótida comum. Placas ateromatosas dessa região podem soltar êmbolos que ocluem temporária ou permanentemente a artéria oftálmica, gerando quadro de amaurose (cegueira) monocular. Quando há melhora dos sintomas após algum tempo, chamamos de amaurose fugaz. Êmbolos de colesterol provenientes dessas placas para a artéria oftálmica, e dela para a artéria central da retina, vistos ao fundo de olho, são chamados de êmbolos de Hollenhorst. Quando a estenose carotídea cervical é superior a 70%, podemos auscultar um sopro na região cervical anterior paramediana alta (sopro carotídeo). Pacientes com síndromes neurovasculares devem, obrigatoriamente, ser examinados à procura desse tipo de sopro. Além dos sintomas visuais, causados por embolia arterioarterial, podemos encontrar pacientes com oclusões desse vaso, gerando um infarto hemisférico, que compromete o território das artérias cerebral anterior e cerebral média (M1). O quadro é muito semelhante ao de uma síndrome de M1 proximal. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 46 Nos pacientes com dissecção de carótida interna, encontraremos quadro de dor cervical e/ou de cabeça. A maior parte desses pacientes é jovem, com menos de 45 anos de idade. Muitas vezes, há história de trauma associado ou de movimentos de flexão e extensão do pescoço de forma excessiva. Podemos observar a ocorrência de miose, semiptose palpebral e anidrose ipsilaterais à dissecção. Esses sinais compõem a chamada síndrome de Claude Bernard-Horner, resultante de uma lesão da via do sistema nervoso simpático para a pupila. O nervo simpático passa por dentro da camada adventícia da artéria carótida interna antes de atingir sua porção intracraniana e pode ser lesionado durante a dissecção. Para mais detalhes anatômicos da via simpática de inervação pupilar, leia nosso capítulo de anatomia, fisiologia e semiologia neurológica. CAI NA PROVA (HDG MG 2019) Os pacientes portadores de doença arterial carotídea podem apresentar manifestações clínicas com graus variados, exceto: A) placas de Hollenhorst. B) isquemia cerebral ipsilateral. C) ataque isquêmico transitório. D) afasia quando ocorre no lado esquerdo. E) hematoma cerebral intraparenquimatoso. COMENTÁRIOS: A doença arterial carotídea é uma das causas de AVC pelo mecanismo de aterotrombose ou de embolia arterioarterial. A questão quer saber em qual desses casos a doença arterial carotídea NÃO apresenta manifestações clínicas. Correta a alternativa A: as placas de Hollenhorst são êmbolos de colesterol provenientes de placas carotídeas que atingem a circulação retiniana. Correta a alternativa B: a isquemia cerebral ipsilateral é uma manifestação clínica possível da ateromatose carotídea. Quando o paciente apresenta vários sintomas neurológicos recorrentes no mesmo território arterial, a principal hipótese é de ateromatose carotídea. Correta a alternativa C: o ataque isquêmico transitório é caracterizado por um déficit neurológico de curta duração, causado pela oclusão temporária de um vaso encefálico, cuja recanalização ocorre antes da perda de neurônios, e isso é confirmado pelos exames de neuroimagem, que se mostram normais. Ele pode ser causado por doença carotídea. Correta a alternativa D: uma lesão arterial carotídea pode causar afasia caso acometa o hemisfério esquerdo, principalmente o lobo frontal. Em 99% dos destros e 70% dos canhotos, encontramos a linguagem sediada no hemisfério esquerdo. Incorreta a alternativa E: lesões carotídeas por dissecção arterial podem causar hemorragia subaracnóidea, mas não hematoma intraparenquimatoso. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 47 2.5.2.5 SÍNDROME DA ARTÉRIA CORÓIDEA ANTERIOR A artéria coróidea anterior é ramo da carótida interna e irriga globo pálido, braço posterior da cápsula interna, trato óptico, plexo coroide, causando: • hemiparesia contralateral; • hemi-hipoestesia contralateral; • hemianopsia homônima contralateral. 2.5.3 SÍNDROMES DA CIRCULAÇÃO POSTERIOR Estrategista, agora começa a parte mais punk deste livro! Há várias síndromes complexas, com alterações de núcleos de nervos cranianos, cerebelo e tratos longos (motor e sensitivo), tudo ao mesmo tempo. Para quem gosta de Neurologia, esse é um assunto muito interessante. Nem comece a ler se você estiver cansado, espere para continuar em momento oportuno. As síndromes da circulação posterior são causadas por: • lesões do território da artéria cerebral posterior; • lesões dos territórios das artérias vertebrais e basilar; • lesões das artérias cerebelares. A maioria dessas síndromes são causadas por mecanismos cardioembólicos. Veremos mais adiante, quando discutirmos sobre a investigação etiológica dos quadros de AVC, mais detalhes sobre esse assunto. 2.5.3.1 SÍNDROMES DA ARTÉRIA CEREBRAL POSTERIOR A artéria cerebral posterior emerge da artéria basilar e possui um segmento até a anastomose com a artéria comunicante posterior (segmento P1). De P1 partem ramos que irrigarão a parte superior do tronco encefálico e os tálamos. Após a emergência da comunicante posterior, temos os segmentos distais que irrigam o lobo occipital e a porção inferior do lobo temporal. 2.5.3.1.1 SÍNDROME TALÂMICA DE DEJERINE-ROUSSY A síndrome talâmica de Dejerine-Roussy é causada pelo comprometimento do tálamo (por onde passa a via sensitiva), braço posterior da cápsula interna (por onde passa a via motora) e parte dos núcleos da base, gerando os seguintes sintomas: • hemi-hipoestesia com hiperalgesia dimidiada contralateral; • hemiparesia contralateral transitória; • atetose (movimento involuntário) da mão contralateral. Na síndrome de Dejerine-Roussy, o quadro doloroso do tipo dor neuropática central (dor em choque ou queimação em todo o hemicorpo contralateral) prevalece sobre os outros. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 48 2.5.3.1.2 SÍNDROMES MESENCEFÁLICAS A lesão mesencefálica unilateral por infarto da artéria cerebral posterior causará a síndrome de Weber, afetando simultaneamente o trato corticoespinhal e o núcleo do nervo oculomotor (III NC). Isso causará a “síndrome alterna” mais famosa entre todas. Síndrome alterna é o nome dado ao fenômeno que ocorre por lesão no tronco encefálico, em que há acometimento da via motora e/ou sensitiva para o hemicorpo contralateral e de um ou mais nervos cranianos ipsilateralmente. Na síndrome de Weber, teremos hemiparesia completa contralateral e paralisia do III NC ipsilateral (midríase, desvio do olhar para baixo e para fora, ptose palpebral). Os principais diagnósticos diferenciais da síndrome de Weber são as síndromes de Benedikt e de Claude, que também ocorrem por lesão mesencefálica. A síndrome de Benedikt é causada por uma lesão no mesencéfalo que provoca: • hemiparesia contralateral; • hemiataxia ipsilateral; • tremor rubral ipsilateral; • hipercinesia (movimentos coreicos) ipsilateral; • paralisia do nervo oculomotor (III NC) ipsilateral. 2.5.3.1.3 INFARTO OCCIPITAL O lobo occipital sedia a porção final da via visual. Em cada um dos nossos lobos occipitais chegam as informações da visão de ambos os olhos, apenas do campo visual contralateral (campo nasal ipsilateral e temporal contralateral), conforme explicado no capítulo de anatomia, fisiologia e semiologia neurológica. O AVC da porção distal da artéria cerebral posterior promoverá, portanto, uma hemianopsia homônima contralateral à lesão. Veja bem, se uma lesão da área motora direita causará hemiparesia esquerda, uma lesão do lobo occipital direito causará hemianopsia esquerda.Hemianopsia homônima esquerda significa que o paciente não será capaz de enxergar nada que esteja situado a sua esquerda, tanto com o olho direito quanto com o esquerdo. A síndrome de Claude é caracterizada pela ocorrência de hemiparesia, ataxia, paralisia do III NC e tremor rubral, sem hipercinesia. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 49 CAI NA PROVA (PUC RS 2017) Homem, 65 anos, hipertenso, apresenta acidente vascular isquêmico, comprometendo o lobo occipital direito e lesionando as áreas visuais à direita. Qual é o achado esperado no exame neurológico? A) Amaurose direita. B) Amaurose esquerda. C) Hemianopsia bitemporal. D) Hemianopsia homônima direita. E) Hemianopsia homônima esquerda. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: na lesão do nervo óptico (II NC), que quase sempre é unilateral, ocorre o comprometimento da visão dos campos nasal e temporal de um dos olhos. O paciente perderá a visão de um olho (total ou parcialmente = escotoma). Denominamos esse processo de amaurose monocular. A amaurose à direita seria causada por uma lesão no nervo óptico à direita. Incorreta a alternativa B: a amaurose à esquerda deverá ser causada por uma lesão no nervo óptico à esquerda. Incorreta a alternativa C: na lesão da parte medial do quiasma, o paciente perde os campos de visão temporais bilateralmente, ficando apenas com a visão dos campos nasais, como se estivesse com as laterais dos olhos tampadas ou então dentro de um túnel. O nome desse fenômeno é hemianopsia bitemporal. As lesões mais comuns do quiasma são as que comprometem sua porção medial e costumam ser provocadas por tumores de hipófise. Incorreta a alternativa D: a lesão da via retroquiasmática causa hemianopsia homônima contralateral, pois as imagens que passam por cada trato óptico, pela radiação óptica e chegam aos lobos occipitais são as seguintes: • imagem do campo temporal contralateral (projetou-se na retina nasal e cruzou no quiasma); • imagem do campo nasal ipsilateral (projetou-se sobre a retina temporal e não cruzou no quiasma). Se o paciente tiver hemianopsia homônima direita, ele deve ter sido acometido por uma lesão da via retroquiasmática esquerda. Correta a alternativa E: a lesão do córtex occipital provoca, assim como todas as outras da via retroquiasmática, um quadro de hemianopsia homônima contralateral à lesão. A sua causa mais comum é o AVC de artéria cerebral posterior. Na lesão do lobo occipital direito, o paciente apresentará hemianopsia homônima esquerda. 2.5.3.2 SÍNDROMES DAS ARTÉRIAS VERTEBRAIS E BASILAR Esse é um dos assuntos mais aterrorizantes da neurologia inteira. Agora, pense em uma coisa: você acha que eu, tendo sido contratado para escrever um material didático para facilitar sua vida e ajudá-lo a entrar nas melhores Residências, vou escrever de uma forma que seja difícil de entender? Lógico que não! Isso é uma questão de honra para nós do Estratégia! Respire fundo, Estrategista! Vamos devorar este assunto e acertar muitas questões! O sistema vertebrobasilar irriga o tronco encefálico e o cerebelo, além de parte dos núcleos da base, o lobo occipital e a parte inferior do lobo temporal. A isquemia da artéria vertebral pode levar ao comprometimento do bulbo ou do cerebelo, em virtude dos vasos que saem dessa artéria antes de ela anastomosar- se com a vertebral e originar a artéria basilar. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 50 Nas lesões do tronco, teremos as famosas síndromes alternas (hemiparesia, com ou sem hemi-hipoestesia, contralateralmente, e paralisia de nervos cranianos, com ou sem ataxia cerebelar, ipsilateralmente. A banca pode colocar um monte de sintomas assustadores, você logo percebe que a lesão é no tronco e, como sabe que essa estrutura é supercomplexa, pode acabar ficando intimidado e com o raciocínio comprometido. Não precisa disso. Basta se lembrar do que está no parágrafo acima e você acerta a questão. De acordo com a engenharia reversa, algumas síndromes vertebrobasilares específicas que caem nas provas são as seguintes: • Síndromes pontinas: locked-in (cativeiro), Millard-Gubler, Marie-Foix, Foville, topo da artéria basilar; • Síndromes bulbares: Wallemberg, Dejerine, pseudobulbar e soluços persistentes. CAI NA PROVA (AMRIGS - 2022) Assinale a alternativa correta quanto às manifestações clínicas do Acidente Vascular Encefálico isquêmico de acordo com o vaso ocluído. A) A cegueira bilateral é manifestação frequente da oclusão da artéria cerebral posterior. B) Hemiparesia contralateral e anosognosia ocorrem na oclusão da artéria cerebral média. C) Abulia e incontinência urinária são manifestações típicas da oclusão da artéria vertebral. D) Vertigem, náuseas e nistagmo são comuns na oclusão da artéria cerebral anterior. COMENTÁRIOS Incorreta a alternativa A. Cada artéria cerebral posterior é responsável pela irrigação do final da via visual ipsilateral. Sendo assim, a oclusão de uma dessas artérias, produzirá hemianopsia homônima contralateral. Para que ocorra cegueira bilateral, ambas as artérias cerebrais posteriores devem ser acometidas, o que pode ocorrer na oclusão do topo da artéria basilar. Correta a alternativa B. De fato, no AVC da artéria cerebral média direita, além do déficit sensitivo-motor contralateral, a hemianopsia homônima e, eventualmente, o desvio tônico do olhar, podemos identificar a heminegligência (lembre-se de que, no AVC à esquerda, o sintoma esperado é a afasia). Quando o paciente não reconhece sua própria fraqueza (olha para o seu braço esquerdo plégico e não acredita que o braço é seu ou mesmo que ele está fraco), damos o nome de anosognosia (do latim: não reconhecer a própria doença). Incorreta a alternativa C. São manifestações do AVC por oclusão da artéria cerebral anterior! Além desses sintomas, nesse AVC, esperamos ainda encontrar o déficit motor contralateral, de predomínio na perna Incorreta a alternativa D. Esses sintomas são típicos do AVC de circulação posterior, por exemplo, na oclusão da artéria vertebral. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 51 2.5.3.2.1 SÍNDROMES PONTINAS A síndrome de Millard-Gubler é uma síndrome alterna que ocorre por uma lesão na ponte (lesão de um ramo da artéria basilar) e provoca o surgimento de: • hemiparesia contralateral; • paralisia do VI e VII ipsilaterais. A síndrome de Marie-Foix surge devido a uma isquemia da região pontina lateral, por comprometimento de ramos circunferenciais longos da artéria basilar ou da artéria cerebelar anteroinferior (AICA), levando a um quadro de hemiataxia ipsilateral e hemiparesia com hemi-hipoestesia contralateral. A síndrome de Foville inferior ocorre em uma lesão pontina unilateral. Ela compromete a informação para o olhar conjugado e a via piramidal. O comando do olhar conjugado é proveniente do lobo frontal contralateral e cruza acima do tronco. A via piramidal cruza abaixo, na decussação das pirâmides bulbares. A exceção é a informação para a inervação da mímica facial, que já cruzou. Então, na síndrome de Foville, teremos comprometimento da via já cruzada para o olhar conjugado ipsilateral e para a face ipsilateral, e da via ainda não cruzada para a motricidade voluntária contralateral dos membros. O paciente apresentará hemiparesia contralateral à lesão, paralisia facial periférica ipsilateral e desvio do olhar conjugado para o lado da fraqueza dos membros. A síndrome do topo da artéria basilar pode levar o paciente a um quadro de coma, por comprometimento da formação reticular ativadora ascendente na transição pontomesencefálica. Em outros casos, provoca tetraparesia e comprometimento de nervos cranianos pontinose bulbares, restando apenas a inervação dos quatro primeiros nervos. Assim, o paciente permanece consciente, com motricidade ocular vertical preservada, mas totalmente paralisado no resto do corpo. Essa síndrome chama-se do cativeiro ou locked in. CAI NA PROVA (SUS RR 2018) Os acidentes vasculares cerebrais são a segunda maior causa de mortalidade mundial e a maior causa de invalidez em adultos nos EUA. Sobre os AVCs isquêmicos, marque a alternativa CORRETA: A) No AVC da artéria cerebral média, encontra-se fraqueza contralateral e perda sensitiva na face e membro superior, além de hemianopsia e desvio do olhar para o lado da lesão. B) Na oclusão da artéria cerebral anterior, podem causar hemianestesia ipsilateral completa e dor lancinante. C) Na oclusão da artéria basilar, ocorre fraqueza do neurônio motor inferior e déficit sensitivos em MMII. D) A oclusão da artéria cerebral anterior está relacionada à síndrome do cativeiro. COMENTÁRIOS: Correta a alternativa A: o AVC de artéria cerebral média compromete a irrigação da porção anterolateral dos hemisférios cerebrais, nos lobos frontal, parietal e temporal. O comprometimento do lobo frontal causa fraqueza contralateral com predomínio braquiofacial e desvio do olhar conjugado para o lado da lesão, pelo acometimento do campo visual frontal. No lobo parietal, teremos um quadro de diminuição da sensibilidade do corpo do lado contrário e um possível comprometimento da via visual (radiação óptica) no caminho para o lobo occipital. Incorreta a alternativa B: a oclusão da artéria cerebral anterior pode causar hemianestesia, mas geralmente causa hemiparesia de predomínio crural, pois irriga a parte medial dos lobos frontal e parietal, onde se situam as áreas representativas do membro inferior contralateral. O quadro descrito na alternativa é compatível com uma isquemia talâmica, fazendo parte do quadro da síndrome de Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 52 2.5.3.2.2 SÍNDROMES BULBARES A síndrome de Dejerine (ou infarto bulbar medial) ocorre por isquemia vertebrobasilar ou da artéria espinhal anterior. Seu quadro é caracterizado por hemiparesia e hemi-hipoestesia contralaterais e fraqueza da língua ipsilateral (lesão do núcleo do XII NC). Soluços persistentes são aqueles que duram mais de 48 h. Quando o quadro dura menos que esse tempo, geralmente as causas são benignas. Entretanto, quadros com mais de 48 h devem ser sempre investigados. As principais causas de soluços persistentes são: • neurovasculares (20%); • pós-operatórias (18%); • lesões do sistema nervoso central (17%), incluindo doenças desmielinizantes, malformações vasculares, aneurismas, siringomielia, lesão do nervo frênico ou do nervo vago etc.; • úlcera duodenal (5%); • esofagite de refluxo (principal causa de soluços persistentes em uma série de casos); • lesões causando irritação do nervo frênico: bócio, tumor e cisto cervical, laringite ou faringite, massa mediastinal e lesão diafragmática; • lesões torácicas: massa mediastinal, tromboembolismo pulmonar, aneurisma de aorta, linfonodomegalia, trauma torácico, empiema, bronquite, pleurite e mediastinite; • lesões do conduto auditivo externo por corpo estranho, irritando o ramo auricular do nervo frênico; • medicamentos: benzodiazepínicos, barbitúricos, tramadol, quimioterápicos, corticoides etc.; • distúrbios tóxicos metabólicos: uremia, hiponatremia, hipocalemia, hipocalcemia e hipocapnia. A lesão neurovascular mais associada à presença de soluços é o infarto lateral do bulbo, que causa a síndrome de Wallemberg. As características clínicas desse infarto são: • hemi-hipoestesia alterna (ipsilateral na face e contralateral nos membros); • hemiataxia ipsilateral; • síndrome de Horner ipsilateral; • paralisia dos nervos IX e X ipsilateral: disfagia, rouquidão e soluços; • paralisia do VIII ipsilateral: vertigem, nistagmo, náuseas e vômitos. A síndrome pseudobulbar é caracterizada por um quadro de labilidade emocional (choro e riso imotivados e explosivos) associada à disartria, disfonia e disfagia, sem que haja lesão direta dos núcleos ou nervos relacionados ao controle dessas funções. Na verdade, ocorre uma lesão supranuclear bilateral afetando o trato corticoespinhal antes de ele inervar os núcleos responsáveis pela mímica facial e deglutição/ fala. Suas causas incluem infartos isquêmicos, traumatismo cranioencefálico, esclerose múltipla e esclerose lateral amiotrófica. Dejerine-Roussy, composta por hemiplegia leve, hemianestesia superficial, hemiataxia leve, astereognosia, dores lancinantes no lado hemiplégico e movimentos coreoatetósicos. Incorreta a alternativa C: a oclusão da artéria basilar causa um quadro grave de rebaixamento da consciência, tetraparesia e paralisia de nervos cranianos bilateralmente. Incorreta a alternativa D: a síndrome do cativeiro é caracterizada por tetraplegia, paralisia dos nervos cranianos (V-XII), mantendo-se apenas a capacidade de abrir e fechar os olhos, além da preservação do olhar para cima e para baixo. Ocorre por oclusão da artéria basilar. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 53 CAI NA PROVA (UNCISAL - 2022) Um infarto da artéria cerebelar posteroinferior tem, como sintomas principais: A) Paralisia hemicorporal. B) Monoplegia. C) Vertigem e desequilíbrio. D) Afasia. E) Hipertonia. COMENTÁRIOS: Conforme vimos logo acima, vertigem e desequilíbrio são sintomas clássicos das síndromes neurovasculares de circulação posterior. A vertigem, como consequência do acometimento do VIII nervo craniano, é um dos componentes da síndrome de Wallemberg. A presença de déficit motor não é característica da síndrome, afastando as alternativas A, B e E, bem como afasia, déficit tipicamente “cortical” e associado ao AVC da artéria cerebral média esquerda. 2.5.3.2.3 SÍNDROMES CEREBELARES As síndromes cerebelares podem ocorrer por lesão dos hemisférios cerebelares ou do tronco encefálico, por onde passam vias que conectam essa estrutura ao cerebelo. Na imensa maioria das vezes, as lesões isquêmicas que afetam o cerebelo e suas vias produzem sinais e sintomas IPSILATERAIS. Uma explicação para isso é dada no capítulo de anatomia, fisiologia e semiologia neurológica. Basicamente, o paciente apresentará sintomas de ataxia cerebelar apendicular: dismetria, tremor de intenção, disdiadococinesia e distúrbios da fala. Esses achados podem ocorrer por lesão de qualquer uma das artérias cerebelares (AICA, PICA ou SUCA), sendo mais comum os infartos de PICA. CAI NA PROVA (IFF RJ 2016) Assinale a opção que apresenta o conjunto de manifestações clínicas mais provavelmente encontradas num paciente acometido por um acidente vascular encefálico isquêmico cerebelar. A) Disbasia, nistagmo e bradicinesia. B) Disartria, disfagia e disfonia. C) Hiperreflexia, hipercinesia e disfasia D) Ataxia, disdiadococinesia e disartria Correta a alternativa C Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 54 COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: a perda do equilíbrio (disbasia) e o nistagmo podem acontecer em lesões cerebelares ou vestibulares (ponte). A bradicinesia ocorre no comprometimento do trato piramidal ou nos núcleos da base. Incorreta a alternativa B: disartria, disfagia e disfonia ocorrem em quadros que acometem a inervação dos músculos bulbares. Incorreta a alternativa C: hiperreflexia e afasia ocorrem em lesões do córtex frontal do hemisfério dominante. A hipercinesia ocorre em lesões dos núcleos da base. Correta a alternativa D: ataxia, disdiadococinesia e disartria são encontrados nas lesões dos hemisférios cerebelares. Lesões da via piramidal, do córtex frontal ao bulbo, também podem causar disartria. (UFCGPB 2017) Em relação às características clínicas do Acidente Vascular Encefálico isquêmico, assinale a alternativa INCORRETA. A) Oclusão do ramo superior da artéria cerebral média do hemisfério dominante provoca afasia de Broca. B) Oclusão do ramo inferior da artéria cerebral média do hemisfério direito provoca astereognosia à esquerda. C) Oclusão dos ramos lenticuloestriatais à esquerda provoca hemiplegia faciobraquiocrural proporcionada à direita. D) Paralisia facial periférica à direita, com hemiplegia faciobraquiocrural à esquerda é compatível com lesão de tronco encefálico. E) Oclusão da artéria cerebelar anterossuperior (AICA) à direita cursa com ataxia cerebelar no dimídio esquerdo. COMENTÁRIOS: Uma ótima questão para revisarmos as manifestações neurológicas do comprometimento isquêmico das diversas artérias encefálicas. Correta a alternativa A: a artéria cerebral média origina-se da artéria carótida comum e apresenta quatro divisões. O seu primeiro segmento, M1, horizontal ou esfenoidal, aproxima-se da fissura de Sylvius e bifurca-se, emitindo um ramo ascendente e outro descendente, que contornarão a fissura sylviana, correspondendo aos segmentos M2. O ramo ascendente é chamado de superior e dirige-se para o lobo frontal. Consideramos o hemisfério dominante aquele em que está sediada a linguagem. Na oclusão da divisão superior da artéria cerebral média, temos comprometimento da linguagem, principalmente sua parte sediada no lobo frontal (área de Broca, da expressão, causando afasia motora ou de Broca), e da área motora que cuida, principalmente, da inervação do membro superior e da face do lado contralateral do corpo. Correta a alternativa B: o hemisfério dominante, na maioria das pessoas, destras ou canhotas, é o esquerdo. Nas lesões da divisão inferior da artéria cerebral média do hemisfério direito, temos comprometimento temporal e parietal. As alterações do córtex parietal, principalmente da área sensitiva primária, envolvem o comprometimento de sensibilidades mais sofisticadas, como a estereognosia (capacidade de identificar um objeto pelo tato), do lado contralateral ao afetado. Correta a alternativa C: as artérias lenticuloestriadas são ramos do segmento M1 da artéria cerebral média e irrigam estruturas localizadas nos núcleos da base, como o braço posterior da cápsula interna, por onde passam fibras oriundas do córtex motor primário em direção ao tronco. Dessa forma, a isquemia no território dessa artéria causa hemiparesia contralateral, com comprometimento do membro superior, membro inferior e face. Correta a alternativa D: as lesões isquêmicas do tronco causam a chamada síndrome alterna, em que o paciente apresenta hemiparesia contralateral e o comprometimento ipsilateral de um ou mais nervos cranianos. Quando a lesão ocorre na ponte, surge uma síndrome de paralisia facial periférica pelo acometimento do núcleo do nervo facial. Incorreta a alternativa E: a artéria cerebelar anteroinferior, como o próprio nome diz, irriga o hemisfério cerebelar em seu aspecto anteroinferior. A região hemisférica cerebelar controla os movimentos DO MESMO LADO do corpo, não ocorrendo ataxia cerebelar contralateral quando ocorre o infarto dessa artéria. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 55 2.5.4 RACIOCÍNIO CLÍNICO NA AVALIAÇÃO DAS SÍNDROMES NEUROVASCULARES Pois é, caro Estrategista! Essa parte não é nada fácil. Ela contém muita informação, mas é um assunto que cai nas provas. Agora, gostaria de fazer um pequeno resumo sobre as síndromes neurovasculares para ajudar na resolução de casos e, secundariamente, de questões sobre o tema. Você vai perceber que a maioria das questões mostrará um caso clínico com o paciente queixando-se de alteração de força. Por isso, vale a pena saber bem sobre a via motora. Ela é mesmo uma pedra no sapato de quem está começando na Neurologia, mas é muito importante compreendê-la, pois isso vai garantir muitos pontos nas provas! Sendo assim, é recomendável que você dê uma boa lida na parte da via motora no capítulo de Anatomia, Fisiologia e Semiologia Neurológica. Lá está tudo explicadinho e mastigado. Então, ao estudar essa parte, você vai ver que a via motora passa pelo córtex, cápsula interna e tronco encefálico. A irrigação dessas três regiões é feita, respectivamente, pelas artérias cerebrais (média – membro superior e face; anterior – membro inferior), lenticuloestriada e sistema vertebrobasilar. A tabela a seguir mostra o tipo de lesão, o local lesionado, sinais e sintomas associados e o território arterial afetado. Topografia Déficit Sinais e sintomas associados Território Córtex Hemiparesia desproporcionada Predomínio braquiofacial Afasia ACME Heminegligência ACMD Predomínio crural Abulia ACA Cápsula interna Hemiparesia proporcionada Hemi-hipoestesia Lenticuloestriada Tronco Hemiparesia Paralisia do III NC, com ou sem ataxia cerebelar Mesencéfalo (ACP) Paralisia do VI e VII NC, com ou sem ataxia cerebelar Ponte (basilar) Disfagia, disartria, disfonia, soluços, ataxia cerebelar Bulbo (vertebral) Tetraparesia Com ou sem coma Ponte (basilar) 2.6 ESCALAS DE AVALIAÇÃO CLÍNICA (NIH E RANKIN) Tabela 4: resumo das principais síndromes neurovasculares motoras com suas topografias, achados clínicos e vasos acometidos. ACME: artéria cerebral média esquerda; ACMD: artéria cerebral média direita; ACA: artéria cerebral anterior; ACP: artéria cerebral posterior. De acordo com as principais diretrizes de atendimento ao paciente com suspeita de AVC isquêmico, é indicado realizar um exame neurológico sistematizado em que os déficits sejam anotados e graduados. Para isso, dispomos de alguns instrumentos clínicos, sendo o mais usado a Escala de AVC do NIH (National Institutes of Health). Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 56 Cada alteração encontrada no exame neurológico gera uma pontuação. Na escala de AVC do NIH, quanto mais déficits maior a pontuação. Para indivíduos com exame neurológico normal, a pontuação da escala do NIH é zero. O objetivo do tratamento é que, após as medidas instituídas para o tratamento da fase aguda, o paciente melhore e fique com a menor pontuação possível. Alguns indivíduos podem receber entre 0-5 pontos, sem que algum desses déficits detectados seja incapacitante. Nessas circunstâncias, denominamos o AVC de stroke minor (AVC menor). Isso é importante para a tomada de decisões quanto a exames e medicações prescritas na emergência. Indivíduos com pontuação acima de 25 na escala de NIH são considerados portadores de AVC grave, sujeitos a maior risco de sangramento quando submetidos a terapias de reperfusão vascular. A escala de AVC do NIH é mostrada a seguir: Parâmetros Características Pontuação 1a. Nível de consciência Alerta; olhos abertos espontaneamente. 0 Sonolento, mas, ao ser acordado por mínima estimulação, obedece, responde ou reage. 1 Sonolento/torporoso, requer estimulação repetida ou dolorosa para realizar movimentos (não estereotipados). 2 Responde somente com reflexo motor ou reações autonômicas, ou totalmente irresponsivo, flácido e arreflexo. 3 1b. Perguntas de nível de consciência Responde a ambas as questões corretamente. 0 Responde a uma questão corretamente. 1 Não responde a nenhuma questão corretamente. 2 1c. Comandos de nível de consciência Realiza ambas as tarefas corretamente. 0 Realiza uma tarefa corretamente. 1 Não realiza nenhuma tarefa corretamente. 2 2. Melhor olhar conjugado Normal. 0 Paralisia parcial do olhar. 1 Desvio forçado ou paralisia total do olhar que não podem ser vencidos pela manobra oculocefálica. 2 3. Visual Sem perda visual. 0 Hemianopsia parcial. 1 Hemianopsia completa. 2 Hemianopsia bilateral (cego, incluindo cegueira cortical).3 Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 57 4. Paralisia facial Movimentos normais simétricos. 0 Paralisia facial leve (apagamento de prega nasolabial, assimetria no sorriso). 1 Paralisia facial central evidente (paralisia facial total ou quase total da região inferior da face). 2 Paralisia facial completa (ausência de movimentos faciais das regiões superior e inferior da face). 3 5. Motor para braços 5a. Braço esquerdo 5b. Braço direito Sem queda; mantém o braço 90º (ou 45º) por 10 segundos completos. 0 Queda; mantém o braço a 90º (ou 45º), porém este apresenta queda antes dos 10 segundos completos; não toca a cama ou outro suporte. 1 Algum esforço contra a gravidade; o braço não atinge ou não mantém 90º (ou 45º), cai na cama, mas tem alguma força contra a gravidade. 2 Nenhum esforço contra a gravidade; braço despenca. 3 Nenhum movimento. 4 NT = Amputação ou fusão articular, explique:__________________ NT 6. Motor para pernas 6a. Perna esquerda 6b. Perna direita Sem queda; mantém a perna a 30º por 5 segundos completos. 0 Queda; mantém a perna a 30º, porém esta apresenta queda antes dos 5 segundos completos; não toca a cama ou outro suporte. 1 Algum esforço contra a gravidade; a perna não atinge ou não mantém 30º, cai na cama, mas tem alguma força contra a gravidade. 2 Nenhum esforço contra a gravidade; perna despenca. 3 Nenhum movimento. 4 NT = Amputação ou fusão articular, explique:__________________ NT 7. Ataxia de membros Ausente. 0 Presente em um membro. 1 Presente em dois membros. 2 NT = Amputação ou fusão articular, explique:__________________ NT Parâmetros Características Pontuação Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 58 8. Sensibilidade Normal; nenhuma perda. 0 Perda sensitiva leve a moderada. 1 Perda da sensibilidade grave ou total. 2 9. Melhor linguagem Sem afasia; normal. 0 Afasia leve a moderada. 1 Afasia grave. 2 Mudo, afasia global. 3 10. Disartria Normal. 0 Disartria leve a moderada. 1 Disartria grave. 2 Intubado ou outra barreira física; explique. NT 11. Extinção ou desatenção (antiga negligência) Nenhuma anormalidade. 0 Desatenção visual, tátil, auditiva, espacial ou pessoal, ou extinção à estimulação simultânea em uma das modalidades sensoriais. 1 Profunda hemidesatenção ou hemidesatenção para mais de uma modalidade; não reconhece a própria mão e orienta-se somente para um lado do espaço. 2 Total Uma outra escala muito utilizada é a Escala de Incapacidade de Rankin modificada (mRS). Ela é útil na avaliação do grau de sequelas pelo AVC. O objetivo do tratamento de um paciente com AVC é deixá-lo com o menor grau de sequelas possível, ou seja, zero pontos na escala de Rankin modificada. Muitos trabalhos sobre medidas de tratamento na fase aguda do AVC isquêmico usarão como objetivo a pontuação mais baixa na escala de Rankin modificada; por exemplo, em relação ao placebo, a probabilidade de um paciente trombolisado ficar com pontuação entre 0-1 na mRS, em até 3 h do início dos sintomas, é 30% maior. Parâmetros Características Pontuação Tabela 5: escala de AVC do NIH (NIHSS). Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 59 A escala de Rankin modificada é mostrada na tabela a seguir: Pontuação Características 0 Assintomático. 1 Sintomas, mas sem qualquer incapacidade. 2 Incapacidade leve. 3 Incapacidade moderada (deambula sozinho). 4 Incapacidade moderada a grave (precisa de ajuda para deambular). 5 Incapacidade grave (restrito ao leito). 6 Óbito. CAI NA PROVA (UNESC ES 2018) O melhor escore para avaliar a gravidade clínica de um paciente com AVE isquêmico, e que deve ser utilizado antes da trombólise química, está relacionado com o seguinte termo/sigla: A) TIMI. B) NIH. C) ASPECTS. D) CHA2DS2VASC. E) MELD. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: o escore TIMI é para avaliação de estratificação de risco nos pacientes com síndrome coronária aguda com supradesnivelamento do segmento ST. Correta a alternativa B: a escala de AVC do NIH é utilizada para quantificar os déficits do paciente com suspeita de AVC, por meio do exame neurológico padronizado e direcionado para a identificação de sinais e sintomas neurovasculares. Incorreta a alternativa C: o escore ASPECTS é tomográfico, usado para prever o risco de sangramento durante a trombólise de um paciente com AVC isquêmico. Incorreta a alternativa D: o escore CHA2DS2VASC é uma ferramenta clínica que avalia a necessidade de anticoagulação em pacientes com fibrilação atrial. Incorreta a alternativa E: o escore MELD é usado no manejo de pacientes com hepatopatia avançada. Tabela 6: escala de Rankin modificada, capaz de avaliar o grau de incapacidade de um paciente após um AVC isquêmico. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 60 (ENARE - 2022 ) Sobre a escala NIHSS (National Institute of Health Stroke Scale), é correto afirmar que A) a presença de ataxia pode ser avaliada pela manobra index-nariz ou calcanhar-joelho. B) a presença de mutismo causado por barreira mecânica (cânula orotraqueal, por exemplo) caracteriza pontuação máxima nos itens disartria e linguagem. C) a pontuação, nos casos em que o paciente não possui um membro (amputação), deve ser máxima na avaliação de força desse membro. D) a heminegligência deve ser pontuada no paciente não contactuante. E) a escala de NIHSS é mais importante nos casos de AVC hemorrágico. 2.7 EXAMES DE IMAGEM NA FASE AGUDA DO AVC ISQUÊMICO Os exames de imagem são OBRIGATÓRIOS em todos os pacientes com quadro agudo de síndrome neurovascular. Eles têm várias utilidades: • diferenciar AVC isquêmico de AVC hemorrágico; • diferenciar AVC isquêmico de ataque isquêmico transitório (AIT); • determinar o tamanho do infarto; • determinar há quanto tempo os sintomas começaram; • determinar o risco de sangramento após terapia de reperfusão do AVC isquêmico; • auxiliar na decisão sobre terapias de reperfusão; • calcular a diferença entre a área de isquemia e a de penumbra num paciente com AVC isquêmico agudo; • avaliar se a lesão é recente ou antiga; • ajudar no diagnóstico diferencial de AVC; • avaliar a etiologia do AVC isquêmico; • prever o sucesso de tratamentos agudos de reperfusão, como trombólise e trombectomia mecânica; • identificar pontos de microssangramento dentro de uma área isquêmica; • identificar possíveis complicações do AVC isquêmico. Alguns exames de imagem são usados na fase aguda do AVC isquêmico e outros para a avaliação etiológica e auxílio na decisão de adoção da profilaxia secundária (tratamento que evitará recorrências). Por enquanto, falaremos dos exames na fase aguda do AVC isquêmico e, mais à frente, das demais indicações e como interpretá-los. Esse assunto é bem explorado pelas bancas. Então, fique bem atento. COMENTÁRIOS: Correta a alternativa A. Exatamente, a avaliação da ataxia está incluída no item 7 e, de fato, utilizamos as manobras do índex-nariz e calcanhar-joelho para fazer essa avaliação. Caso o paciente não apresente ataxia ou não consiga executar as manobras, ele pontua zero. Caso ocorra ataxia em um membro, pontua 1 e, se presente em ao menos 2 membros, pontua 2. Perceba que, em um paciente em coma, esse item não deverá ser pontuado! Incorreta a alternativa B. No item disartria, a presença de cânula orotraqueal não pontua, já no quesito linguagem, de fato, atribui-se pontuação máxima. Incorreta a alternativa C. Caso o paciente não possua o membro, a pontuação no quesito força será igual a zero. Incorreta a alternativa D. A heminegligência só poderá ser pontuada se, de fato, for visualizada. Não basta opaciente estar não contactuante para receber pontuação máxima, assim como ocorre na avaliação da ataxia. Incorreta a alternativa E. É uma escala para pacientes vítimas de síndrome neurovascular, na verdade, desenvolvida para pacientes com AVCi. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 61 2.7.1 TOMOGRAFIA DE CRÂNIO (TC) A TC de crânio é o exame mais usado na avaliação inicial dos pacientes com suspeita de AVC isquêmico. É um exame baseado na emissão de radiografia. Ela é de acesso mais rápido, é mais barata e está mais facilmente disponível nos serviços de emergência. Entretanto, há um problema: muitas vezes ela vem normal, porque pode demorar horas para que uma lesão isquêmica seja visível por essa técnica. Ainda assim, ela tem seu valor: diferenciar o AVC isquêmico do hemorrágico, pois as hemorragias aparecem imediatamente após sua instalação na tomografia. Na fase aguda do AVC, a função mais importante da tomografia é descartar hemorragia. As hemorragias vistas na tomografia podem ser intraparenquimatosas ou subaracnóideas (HSA significa que há presença de sangue no liquor, aparecendo na topografia das cisternas próximo ao polígono de Willis e nas fissuras cerebrais). Vamos tratar delas mais tarde. Nas imagens tomográficas, a hemorragia possui caráter mais branco (hiperdenso/hiperatenuante), pois a radiação não consegue passar com facilidade onde há depósito de ferro. Nas isquemias, como há edema citotóxico, a radiação passa o tecido afetado com maior facilidade, pois a água intra ou extracelular não é grande obstáculo. Nas isquemias, então, o aspecto é mais escuro do que o resto do parênquima normal (hipodenso/ hipoatenuante), como mostrado na figura abaixo. Figura 24: TC de crânio em corte axial mostrando área hipodensa em território da artéria cerebral média direita, sugestiva de AVC isquêmico. Fonte: Shutterstock. Apesar de o corte axial ser o mais usado na avaliação das TC de crânio em pacientes com AVC, é possível ver em outros cortes. Veja, no exemplo a seguir, um AVC de artéria cerebral anterior em corte coronal. Figura 25: AVC isquêmico da artéria cerebral anterior esquerda visto em corte coronal na TC de crânio. Fonte: arquivo do autor. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 62 Ao interpretarmos uma imagem, é importante o conhecimento de que, na parte direita do exame, está o lado esquerdo do paciente, ou seja, ele é visto “pelos pés”. Não é necessário fazer uso do contraste endovenoso na avaliação do paciente por tomografia de crânio para diferenciar o AVC isquêmico do hemorrágico. CAI NA PROVA (IAMSPE - 2022) Em um quadro agudo, o exame padrão-ouro para se detectar a presença de hemorragia intracraniana é: A) ressonância magnética B) SPECT C) arteriografia D) angiorressonância E) tomografia computadorizada COMENTÁRIOS Questão fácil e direta, para você não esquecer. Na avaliação inicial de um paciente com síndrome neurovascular, o exame de escolha para a diferenciação entre um evento isquêmico e um hemorrágico é a tomografia computadorizada de crânio sem contraste. Arteriografia e angiorressonância visam avaliar a circulação cerebral, não o parênquima, ao passo que o SPECT avalia a perfusão. A ressonância magnética, embora consiga diferenciar uma isquemia de uma hemorragia, não é o exame de escolha nessa avaliação, uma vez que não é rápida para ser feita e nem mais sensível que a TC. A RM, como veremos mais à frente, pode ter especial relevância na avaliação dos pacientes com o que chamamos de wake up stroke, que são os indivíduos que acordam com o déficit neurológico, sem a definição do horário do início dos sintomas. Correta a alternativa E. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 63 (HMTJ SUPREMA MG – 2017) Paciente de 65 anos é atendido com história de hipertensão arterial, afasia, hemiplegia esquerda, desvio de comissura labial e Glasgow 9. A tomografia computadorizada de crânio abaixo revela extensa área hipodensa na região corticossubcortical parietal direita, com extensão para a região nucleocapsular ipsilateral, sem compressão e desvio, e estruturas da linha média (ventrículos supratentoriais). Qual é o provável diagnóstico? A) Hemorragia subaracnóidea B) Hematoma subdural C) Acidente Vascular Encefálico isquêmico (AVEi) D) Acidente Vascular Encefálico hemorrágico (AVEh) Para diferenciar uma isquemia de uma hemorragia, devemos realizar uma TC de crânio, pois clinicamente não é possível determinar a natureza da lesão. Vamos analisar as alternativas. Incorreta a alternativa A: a hemorragia subaracnóidea manifesta-se geralmente com a presença de material hiperdenso, branco, compatível com sangue, ao redor do polígono de Willis, nas cisternas da base do crânio. Incorreta a alternativa B: o hematoma subdural surge após um traumatismo cranioencefálico e pode ser agudo (hiperdenso, branco) ou crônico (isodenso ou hipodenso, escuro), entre o parênquima e o crânio. Na questão, temos uma imagem hipodensa no próprio parênquima. COMENTÁRIOS: Correta a alternativa C: 2.7.1.1 SINAIS PRECOCES DE ISQUEMIA NA TC DE CRÂNIO O infarto pode demorar até 24h para ficar visível em uma tomografia de crânio. Lesões pequenas, principalmente as localizadas no tronco encefálico e cerebelo, podem não aparecer no exame, mesmo quando realizado após vários dias. A maior espessura do osso na base do crânio dificulta a passagem da radiação e a imagem fica com uma resolução menor nesse ponto. no AVC isquêmico, o paciente apresenta perda de neurônios por isquemia, causando edema citotóxico. As células repletas de água permitem a passagem da radiação e a imagem ficará hipodensa (escura) no território arterial acometido. No caso desse paciente, temos delimitada a isquemia da artéria cerebral média direita. Incorreta a alternativa D: no AVC hemorrágico intraparenquimatoso, o hematoma gerado, com ferro intracelular, não permite a passagem adequada da radiação, gerando uma imagem hiperdensa (branca), de limites não muito precisos, e a compressão das estruturas adjacentes. Apesar de a tomografia, muitas vezes, não mostrar nenhuma alteração nas primeiras horas de um AVC isquêmico, em certos pacientes podemos encontrar alterações sugestivas de isquemia em pouco tempo da instalação dos sintomas, os sinais precoces. Os achados mais Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 64 característicos são as áreas de hipodensidade precoce, o sinal da artéria cerebral média hiperdensa (figura 26), o apagamento de sulcos corticais e a perda da diferenciação entre substância branca e substância cinzenta. Figura 26 (arquivo do Prof. Victor Fiorini): TC de crânio sem contraste mostrando sinal da artéria cerebral média hiperdensa (seta). A perda da diferenciação entre a substância branca e cinzenta é mais frequentemente observada nos núcleos da base e no córtex cerebral. O apagamento de sulcos na área de infarto ocorre devido ao edema citotóxico em instalação. O sinal da artéria cerebral média hiperdensa é devido a uma trombose aguda na porção inicial desse vaso e pode ser visto na base do crânio, próximo à região do polígono de Willis, junto às cisternas da base. CAI NA PROVA (HCB - SP 2018) TC de crânio deve ser obtida o quanto antes possível em todos os pacientes com AVC, para diferenciar entre infarto e hemorragia, pois a diferenciação clínica dessas entidades pode ser muito difícil. Ocorre que, nessa tarde, o corpo de bombeiros trouxe à sala de emergência paciente em franca insuficiência respiratória aguda logo após perder a consciência e convulsionar. Somente NÃO seria compatívelo seguinte item abaixo: A) AVCs isquêmicos aparecem como áreas hipodensas (escuras na TC), diferentemente, AVCs hemorrágicos aparecem como áreas hiperdensas (claras na TC). B) infartos da circulação posterior (tronco cerebral e cerebelo) podem ser facilmente visualizados na TC. C) embora a TC seja sempre anormal nas hemorragias, ela pode ser normal nas primeiras 24 horas de evolução do infarto. D) devemos interpretar seus achados de acordo com o tempo de evolução dos sintomas. Quando normal, a TC deve ser repetida após 24 a 48 horas para confirmar o infarto. COMENTÁRIOS: Essa questão permite-nos notar o nível de maldade do avaliador. Ele coloca uma informação totalmente irrelevante no meio do enunciado e faz sua pergunta com uma frase confusa: “somente não seria compatível” (ele quer a INCORRETA). Correta a alternativa A: a isquemia tem aspecto escuro (hipodenso ou hipoatenuante), pois a célula está cheia de água e a radiação ultrapassa essas estruturas com maior facilidade. A hemorragia é de aspecto hiperdenso, mais claro, pois o ferro presente no hematoma absorve a radiação e não permite que ela ultrapasse os tecidos, atingindo os detectores do outro lado do aparelho. Incorreta a alternativa B: devido à interposição de estruturas ósseas espessas, os infartos do tronco e cerebelo podem não ser visualizados na TC de crânio. Correta a alternativa C: a função da realização da TC de crânio na fase aguda do AVC é observar a existência de hemorragia. A hemorragia já é visível imediatamente após seu surgimento, mas a isquemia pode demorar várias horas para ser detectável pela TC de crânio. Correta a alternativa D: recomenda-se a repetição da TC de crânio após 24 a 48h do início dos sintomas nos casos de AVC isquêmico, pois, provavelmente, já teremos a delimitação do território do infarto. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 65 2.7.1.2 ESCORE ASPECTS Existe um escore tomográfico, chamado ASPECTS, que analisa 10 locais do parênquima cerebral em dois cortes tomográficos axiais adjacentes, nas regiões dos núcleos da base e no corte axial imediatamente acima dela (supraganglionar). De acordo com ele, a cada área de hipodensidade precoce identificada nessas regiões, retira-se um ponto do escore final. A pontuação do paciente com tomografia normal é 10 e um escore abaixo de 6 significa infarto extenso e risco de sangramento. Ele já caiu em prova e a pergunta era sobre sua utilidade na decisão sobre a realização ou não de terapias de reperfusão. Paciente com escore baixo e, portanto, risco elevado de sangramento, não deve ser submetido a tratamentos que aumentem a chance dessa complicação. Figura 27: pontos analisados para o Escore ASPECTS. 2.7.1.3 ANGIOTOMOGRAFIA A tomografia permite também o estudo dos vasos sanguíneos, por meio da técnica de angiotomografia. Ela é realizada com a infusão de contraste. Em pacientes com déficit motor significativo, com escala de NIHSS (NIH stroke scale) acima de 5 pontos, é possível que o paciente precise ser submetido a um procedimento chamado trombectomia mecânica, por meio de um cateterismo. A trombectomia é indicada nos pacientes com oclusão de vasos proximais, como a carótida interna e o segmento proximal da cerebral média (figura 28). Nesses casos, o diagnóstico só pode ser feito a partir de um estudo de vasos sanguíneos, como a angiotomografia. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 66 Assim, a indicação de angiotomografia cervical e intracraniana é para os pacientes com AVC isquêmico (já submetidos à tomografia sem contraste, descartando hemorragia) e com NIHSS acima de 5 pontos. Figura 28: AngioTC intracraniana mostrando ausência de opacificação ao contraste da artéria cerebral média esquerda a partir do segmento M1 (seta). Fonte: arquivo do Prof. Victor Fiorini. 2.7.1.4 TOMOGRAFIA COM PERFUSÃO A tomografia com perfusão é uma técnica mais avançada, que também utiliza contraste e é capaz de identificar as áreas de isquemia e penumbra. Dessa maneira, auxilia na decisão sobre terapias de reperfusão em pacientes que tenham uma área de penumbra muito maior do que a área de isquemia, ou seja, com tecido neuronal ainda viável. 2.7.2 RESSONÂNCIA MAGNÉTICA A ressonância magnética (RM) é um exame com técnicas extremamente complexas. Ela é capaz de detectar a ocorrência de um AVC isquêmico minutos após a sua instalação, por meio da técnica de difusão. Todavia, é um exame demorado, caro e pouco disponível nos serviços de emergência. As imagens na RM de crânio podem ter aspecto mais escuro (hipossinal/hipointensidade), claro (hipersinal/hiperintensidade) ou igual ao parênquima (isossinal/ isointensidade). As imagens podem ser obtidas a partir de diferentes métodos, chamados sequências. As mais usadas são as ponderadas em T1, T2, FLAIR, difusão, MAPA-ADC e a angiorressonância (figura 29). Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 67 Figura 29: angioRM cervical e intracraniana normal, mostrando a anatomia dos sistemas carotídeo (setas verdes) e vertebrobasilar (setas azuis). Fonte Shutterstock No AVC isquêmico, o padrão-ouro para diagnóstico é a RM com difusão, mostrando hipersinal e o MAPA-ADC (coeficiente aparente de difusão) com hipossinal no local do infarto (veja na questão a seguir). As alterações no exame de difusão permanecem por até 4 semanas após o evento isquêmico, desaparecendo depois. Na sequência FLAIR (inversão-recuperação com atenuação de fluido), as alterações decorrentes de AVC isquêmico surgem após 4,5 h do início dos sintomas. Isso é de suma importância, pois muitas vezes não é possível determinar em que momento o déficit teve início, sobretudo quando o AVC começou enquanto o paciente dormia. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 68 Outras aplicações da RM são a avaliação dos vasos para detecção de estenoses cervicais e intracranianas pela técnica de angiorressonância (angioRM), além da pesquisa de dissecção vascular, por meio da RM com estudo de vasos ou da técnica de supressão de gordura (T1 fat). Mais recentemente, incorporou-se a pesquisa de microssangramentos (microbleeds) ao arsenal de avaliação inicial do paciente com AVC isquêmico agudo. Pacientes com 10 ou mais pontos de microssangramentos ao exame de RM de crânio com a técnica de T2* devem ser poupados das terapias de reperfusão pelo risco de transformação hemorrágica que essas intervenções poderiam causar. 2.7.2.1 TÉCNICAS DE NEUROIMAGEM AVANÇADA COM MISMATCH Sem dúvida, a técnica que mais revolucionou a neurologia vascular nos últimos anos foi a técnica de mismatch difusão- perfusão. Por meio desse método, é possível determinar, assim como na TC por perfusão, as áreas de isquemia (difusão) e penumbra (perfusão), calculando-se, com o auxílio de um software, a diferença entre elas (figura 30). Um mismatch favorável é aquele em que a penumbra tem uma área 20% superior à da isquemia. Figura 30: RM com mismatch difusão-perfusão, mostrando, em rosa, a área de infarto (difusão) e, em verde, a perfusão. A diferença entre a área verde e a rosa (mismatch) será o volume da área de penumbra isquêmica. Fonte: arquivo do autor. Já há estudos que avaliam a indicação de trombólise endovenosa guiada pelos resultados dessa técnica. Por enquanto, ela é usada apenas nos casos de reperfusão por meio de trombectomia mecânica realizada entre 6 h e 24 h do início dos sintomas. Outra forma de mismatch é o FLAIR-difusão, usado em pacientes em que o tempo de início dos sintomas é desconhecido, geralmente porque acordaram com déficit. A trombólise pode ser realizada se o pacienteapresentar área de isquemia na difusão menor do que um terço do território da artéria cerebral média e FLAIR sem alterações (essa sequência só se altera após 4,5 h do início dos sintomas). Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 69 CAI NA PROVA (UFCG 2015) Um determinado paciente com déficit motor focal que se instalou há uma hora, foi submetido a uma modalidade específica de RNM encefálica onde foi observado presença de “mismatch ”. Isso significa: A) que o AVE é isquêmico e que há alto risco para transformação hemorrágica. B) que o AVE é isquêmico e que há área de penumbra viável. C) que o AVE é hemorrágico. D) que não há lesão vascular isquêmica ou hemorrágica. E) que há sinais de envelhecimento encefálico desproporcional à faixa etária do paciente. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: a técnica que avalia o risco de transformação hemorrágica com trombólise é o escore ASPECTS, por meio da tomografia de crânio ou, mais recentemente, pela pesquisa de microssangramentos na sequência T2* da RM de crânio (10 ou mais sangramentos contraindicam a trombólise). Correta a alternativa B: o mismatch serve exatamente para calcular a diferença entre a área de penumbra e a de isquemia, avaliando a viabilidade do tecido em sofrimento, mas ainda capaz de voltar a funcionar se for reperfundido. Incorreta a alternativa C: para avaliar se o AVC é hemorrágico, usamos a própria TC de crânio ou a sequência T2* da RM. Na TC, teremos uma imagem hiperdensa e, na RM, com hipossinal. Incorreta a alternativa D: o mismatch avalia a isquemia, mas não a hemorragia. Incorreta a alternativa E: o mismatch não é usado para avaliar o grau de atrofia cerebral decorrente de envelhecimento. 2.7.3 ARTERIOGRAFIA DIGITAL A angiografia ou arteriografia é um exame invasivo, realizado por cateterismo femoral ou braquial, considerado como o padrão-ouro para o diagnóstico de estenoses e oclusões vasculares, bem como no diagnóstico de aneurismas cerebrais. Sua aplicação nos pacientes com AVC isquêmico é, na fase aguda, guiar a realização de procedimentos terapêuticos invasivos, como trombólise intra-arterial e trombectomia mecânica (figuras 31 e 32). Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 70 Figura 31: arteriografia revelando oclusão do segmento M1 da artéria cerebral média esquerda (seta). Fonte: arquivo do autor. Figura 32: aspecto angiográfico da circulação anterior pós- trombectomia do segmento M1 da artéria cerebral média esquerda mostrando recanalização do vaso. Fonte: arquivo do autor. Após a fase aguda, ela estará indicada na investigação de estenoses cervicais e intracranianas, para o diagnóstico de causas obscuras de AVC não detectadas por métodos não invasivos, como angioTC ou angioRM, por exemplo, nas dissecções arteriais e outras vasculopatias. Além disso, tem sua aplicabilidade para o tratamento definitivo de estenoses cervicais por meio da colocação de stents e na embolização de aneurismas cerebrais. 2.8 TRATAMENTO DA FASE AGUDA DO AVC ISQUÊMICO Muito bem, Estrategista! Agora, que já temos o domínio das principais ferramentas clínicas e radiológicas para avaliar um paciente com suspeita de AVC, vamos colocar a mão na massa e estudar como tratar esses pacientes. Saber bem isso vai ajudá-lo a salvar muitas vidas e a passar na prova! Vamos lá! 2.8.1 AVALIAÇÃO PRÉ-HOSPITALAR Todo paciente identificado com sinais e sintomas de AVC deve ser imediatamente encaminhado para um serviço de emergência com condições de fornecer atendimento adequado. Para isso, deve haver, no mínimo, as seguintes características: • TC de crânio funcionante; • unidade para atendimento de AVC agudo; • unidade de terapia intensiva com experiência no cuidado a pacientes com AVC; • trombolíticos; • neurologista; • neurocirurgião. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 71 CAI NA PROVA (HUPE UERJ 2020 (DISCURSIVA)) Paciente hipertenso de 70 anos chegou à Unidade Básica de Saúde com 20 minutos de início de hemiparesia súbita, disartria e PA = 184 x 104 mmHg. O idoso negou cefaleia, vômitos, uso de AAS e anticoagulantes, doença infecciosa, ou problemas com sangramentos. De acordo com o caso apresentado, enumere três recursos que devem estar disponíveis na unidade para a qual esse paciente deve ser encaminhado. Por tratar-se de uma emergência médica, com potencial risco de morte, o paciente deve ser transferido imediatamente a um serviço de emergência ou terapia intensiva neurológica, mesmo que com vaga zero. Assim, o local que irá receber o paciente deverá contar, no mínimo, com: • TC de crânio funcionante; • unidade para atendimento de AVC agudo; • unidade de terapia intensiva com experiência no cuidado a pacientes com AVC; • trombolíticos; • neurologista; • neurocirurgião. COMENTÁRIOS: (UNB 2021) Marta, de 69 anos de idade, acompanhava seu esposo em uma consulta médica de rotina. O casal aguardava o atendimento quando, de repente, Marta começou a passar mal. O esposo dela, então, pediu ajuda, aos gritos, afirmando “Marta está tendo uma bilora, não fala nada com nada!” (sic). A médica Joana prontamente atendeu Marta e iniciou a avaliação dela. Na avaliação clínica da paciente, constatou-se hemiparesia à esquerda, anisocoria, afasia, nível 14 na escala de Glasgow (AO4/RV 4/RM6), pressão arterial de 190 mmHg × 120 mmHg, frequência cardíaca de 52 bpm e glicemia capilar de 294 mg/dL. Considerando o caso clínico precedente, julgue o próximo item. Na ausência de resposta às medidas estabelecidas na avaliação inicial, a equipe médica deve orientar Marta a retornar a sua residência para repousar e orientar o esposo dela a acionar o serviço de atendimento móvel de urgência (SAMU) caso surjam sinais de piora na paciente. A) Certo. B) Errado. COMENTÁRIOS: Correta a alternativa B: no caso descrito pela questão, a paciente Marta apresentou um déficit focal súbito somado a uma anisocoria, que é outro marcador de gravidade. Nesse contexto, a paciente precisaria ser encaminhada imediatamente para uma unidade de urgência/emergência, preferencialmente com unidade de AVC, para receber avaliação e tratamento o mais cedo possível. Em hipótese nenhuma essa paciente poderia ser liberada para casa, o que torna a afirmação errada. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 72 Na triagem de pacientes suspeitos de AVC, podem ser utilizadas algumas escalas simples, com alta sensibilidade e baixa especificidade. Uma delas é a escala SAMU. A escala SAMU é, na verdade, um acrônimo para Sorrir-Abraçar-Mensagem-Urgência. São orientações dadas ao público leigo para identificar e acionar o serviço de urgência (SAMU) diante da suspeita de um paciente com AVC. Ao pedir ao paciente para sorrir, deve-se observar a ocorrência de desvio de rima labial. O pedido para simular o abraço testará a força muscular do paciente. A “mensagem” é o código para pedir que o paciente fale algo, à procura de afasia ou disartria. Finalmente, a “urgência” é a recomendação para encaminhar o paciente para uma unidade de urgência/emergência. Outra escala é a de Cincinatti, em que se pede ao paciente para que tente sorrir, mantenha seus membros superiores elevados e diga uma frase. Encontrando-se qualquer alteração nesses testes, recomenda-se imediatamente que o paciente seja encaminhado ao serviço de emergência com uma ambulância UTI. 2.8.2 AVALIAÇÃO INICIAL Como toda emergência médica, a conduta inicial no paciente com suspeita de AVC é a realização do ABCD, garantindo-se via aérea pérvia, suplementação de oxigênio para manter a saturação acima de 94%, acesso venoso, monitorizaçãocardíaca por meio do eletrocardiograma e de pressão arterial e realização de dextro, para avaliação da glicemia capilar. Se o dextro estiver entre 50 e 400 mg/dL, descartamos as alterações glicêmicas como causa do déficit neurológico e seguimos com o atendimento. Havendo necessidade de reposição de glicose ou correção da hiperglicemia, devemos aguardar para saber se o paciente melhorou ou não. Caso não tenha melhorado clinicamente com a correção glicêmica, podemos continuar com a hipótese de AVC e seguir com os próximos passos. Tudo isso deve ser rápido, feito dentro da sala de emergência. O paciente deve ser mantido no leito, com a cabeceira entre 0 e 30º de inclinação. A realização de um exame de imagem (preferência pela tomografia de crânio sem contraste) para descartar AVC hemorrágico é obrigatória. Ela poderá vir normal ou, ainda, mostrar sinais precoces de isquemia, como perda da diferenciação córtico- subcortical e sinal da artéria cerebral média hiperdensa. Em seguida, devemos decidir sobre o tratamento específico do AVC isquêmico agudo, providenciando a reperfusão da área isquêmica, salvando os neurônios da penumbra. Isso pode ser feito por meio de trombólise ou trombectomia mecânica. O fluxograma de atendimento inicial ao paciente com AVC é mostrado na figura a seguir: Déficit neurológico Início súbito Síndrome neurovascular Acidente vascular cerebral TC de crânioHemorrágico Normal Dextro 50-400 Trombólise??? Isquêmico Figura 33: fluxograma de avaliação do paciente com quadro agudo de síndrome neurovascular. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 73 CAI NA PROVA (UNIFESP - 2022) Homem, 78 anos de idade, apresentou quadro súbito de hemiparesia direita e dificuldade para falar há duas horas da admissão no PS. Após a realização de exame neurológico rápido, qual das seguintes condutas é a mais adequada? A) Avaliação de eletrólitos e realização de ressonância magnética de crânio com perfusão cerebral imediata. B) Avaliação de glicemia capilar e realização de eletroencefalograma na urgência. C) Avaliação de glicemia capilar e avaliação com tomografia de crânio e angiotomografia. D) Avaliação de eletrólitos e coleta de líquido cefalorraquidiano. COMENTÁRIOS: Esse é o tipo de questão que sempre cai: qual é a conduta nessa emergência (síndrome neurovascular)? Sua resposta deverá ser baseada no ABCD. Nessas medidas iniciais, está incluído o dextro. Logo após, o paciente precisa ser submetido à TC de crânio e, em seguida, à angiotomografia cervical e intracraniana. Assim, será possível diferenciar entre um evento isquêmico e um hemorrágico e, tratando-se de um AVCi, definir qual é o sítio de oclusão arterial, o que terá implicação direta na abordagem terapêutica a ser tomada. Incorreta a alternativa A. O paciente está com apenas 2 horas do início dos sintomas. O exame de escolha nesse momento é a TC de crânio! Além disso, segundo o guideline europeu, americano e brasileiro de tratamento do AVC, apenas a glicemia é um exame laboratorial imprescindível nesse momento. Incorreta a alternativa B. Está correta a realização de glicemia capilar, contudo trata-se de um AVC até que se prove o contrário. Assim, o exame a ser realizado é a TC de crânio e não o EEG. Incorreta a alternativa C. Exatamente. Como vimos acima, esses 3 exames são necessários nesse caso. Incorreta a alternativa D. Conforme vimos acima, a dosagem de eletrólitos não é essencial, tampouco a coleta de LCR está indicada nesse momento. 2.8.3 STROKE MIMICS Algumas situações podem ser semelhantes a um quadro de AVC e gerar confusão diagnóstica. Eles são conhecidos como stroke mimics (imitadores de AVC). Os principais diagnósticos diferenciais são situações que podem gerar agudamente quadros de déficit neurológico focal, com características das síndromes vasculares encefálicas já estudadas, como hipoglicemia, paralisia de Todd, encefalites e surto desmielinizante, como visto na esclerose múltipla. A hipoglicemia é o principal stroke mimic, devendo ser prontamente diagnosticada por meio de glicemia capilar. Esse é o único exame laboratorial que deve ser realizado antes de iniciar o tratamento específico do AVC. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 74 A paralisia de Todd é uma fraqueza muscular encontrada em pacientes após uma crise epiléptica focal motora. Em alguns casos, o paciente desenvolve hemiparesia por algumas horas e, como não percebe melhora, procura o serviço de emergência com queixa de fraqueza muscular. Assim, é importantíssimo, durante a avaliação inicial, perguntar ao paciente se o quadro de fraqueza começou após ele apresentar abalos musculares no hemicorpo que ficou parético, sugestivos de crise epiléptica. As encefalites são resultado de um processo inflamatório, infeccioso ou não, do parênquima cerebral, que podem ter instalação aguda, geralmente em horas, e gerar quadro de crises epilépticas, alteração do estado mental e sinais focais. Os surtos de esclerose múltipla, uma doença desmielinizante do sistema nervoso central, são de instalação aguda e caracterizam- se por serem focais, eventualmente assemelhando-se a síndromes neurovasculares. Entretanto, sua instalação não é súbita, instantânea, como no caso do AVC. Mais adiante, neste capítulo, falaremos do ataque isquêmico transitório (AIT), uma condição que é caracterizada por uma síndrome neurovascular, de instalação súbita e melhora espontânea, sem sequelas nem alterações nos exames de imagem. Outras condições que aparecem em provas de Residência, em questões que cobram o diagnóstico diferencial, são a encefalopatia hipertensiva e a migrânea com aura. A encefalopatia hipertensiva é caracterizada por um quadro de aumento súbito ou excessivo da PA, associado à ocorrência de edema cerebral, comprovado com a presença de papiledema. Clinicamente, manifesta-se por uma cefaleia INSIDIOSA, associada à ausência de sinais focais, apresentando apenas sonolência e confusão, podendo evoluir para crises epilépticas e coma. Ela é considerada um diagnóstico de EXCLUSÃO, apresentando melhora drástica do quadro quando a PA for diminuída de 10-15%. A migrânea com aura é definida por crises de cefaleia com padrão típico e recorrente, acompanhada de sintomas neurológicos não dolorosos, com duração de 5-60 minutos, chamados de aura. Na enxaqueca hemiplégica, a aura é de hemiparesia, de instalação súbita, com duração de até 48h, em alguns casos seguida por cefaleia de padrão enxaquecoso. Leia mais sobre isso no capítulo cefaleias. CAI NA PROVA (PUC-PR - 2023) Paciente de 55 anos é trazido pelo SAMU ao pronto-socorro com história de ter iniciado, há 5 horas, quadro confusional agudo associado a sinais focais. Durante o transporte, o paciente apresentou 3 episódios de crises convulsivas que foram revertidas com uso de diazepam. Você examina o paciente e percebe que ele pontua 26 pontos na escala NIHSS, seu pulso é irregular, sua frequência cardíaca é de 108 bpm e sua pressão arterial de 160x100 mmHg. Qual é a conduta mais adequada para o paciente neste momento? A) Iniciar alteplase por via intravenosa associada a nitroprussiato em bomba infusora, não iniciar anticoagulantes. B) Manter o suporte clínico sem uso de terapia fibrinolítica, anticoagulantes ou anti-hipertensivos. C) Iniciar alteplase por via intravenosa, porém sem uso de anti-hipertensivos ou anticoagulantes. D) Manter o suporte clínico sem uso de terapia fibrinolítica ou anti-hipertensivos, porém iniciar terapia anticoagulante com heparina. E) Iniciar alteplase por via intravenosa associada à heparinização, porém sem uso de anti-hipertensivos. COMENTÁRIOS Questão bastante interessante. Você encontrará reiteradamente nesse livro que, diante de um caso de instalação súbita de sintomas neurológicos,1: troncos supra-aórticos e irrigação encefálica. Fonte: Trello. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 9 Os quatro grandes vasos que irrigam o encéfalo constituem os sistemas anterior e posterior. O sistema anterior é formado pelas artérias carótidas internas direita e esquerda e seus ramos. Ele irriga dois terços anteriores dos hemisférios cerebrais. O sistema posterior é proveniente das artérias vertebrais direita e esquerda, que se unem dentro do crânio e formam a artéria basilar (sistema vertebrobasilar). Esse sistema é responsável pela irrigação do terço posterior dos hemisférios cerebrais, além do tronco encefálico e cerebelo (figura 2). Figura 2: irrigação do encéfalo pelos sistemas carotídeo e vertebrobasilar. Fonte: Trello. Arco Aórtico Sistema Anterior (Carotídeo) Sistema Posterior (Vertebrobasilar) Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 10 1. 2 POLÍGONO DE WILLIS Na região da base do crânio, os dois sistemas anastomosam-se e formam uma estrutura chamada polígono de Willis. A vantagem desse polígono é que, se houver hipofluxo de sangue em uma das artérias que o compõem, pode haver uma inversão do fluxo proveniente de outro vaso, nutrindo aquela artéria deficitária. Porém, esse mecanismo compensatório é parcial e a estenose de um dos vasos que formam o polígono pode, mesmo assim, causar um AVC isquêmico. As artérias componentes do polígono de Willis são as seguintes: • Sistema anterior (carotídeo): carótida interna, cerebral média, cerebral anterior e comunicante anterior; • Sistema posterior (vertebrobasilar): vertebrais, basilar, cerebral posterior, comunicante posterior e cerebelares. Cada carótida interna, proveniente de um dos lados (direito ou esquerdo) origina três vasos: artéria cerebral anterior, artéria cerebral média e artéria comunicante posterior. A artéria basilar dá origem às artérias cere- brais posteriores. No polígono de Willis, encontramos a união do sistema anterior do lado direito com o do lado esquerdo (artéria comunicante anterior) e do sistema anterior de cada lado com o posterior (artéria comunicante posterior). As artérias carótidas internas fazem anastomose com as artérias cerebrais posteriores através das artérias comunicantes posteriores, unindo os sistemas anterior e posterior. No sistema anterior, os lados direito e esquerdo unem-se por meio da artéria comunicante anterior, que faz a anastomose entre a artéria cerebral anterior de um lado com a do outro (figura 3). Figura 3: Polígono de Willis e suas artérias.. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 11 1.3 CIRCULAÇÃO CAROTÍDEA A artéria carótida comum bifurca-se em carótida interna e externa na região cervical. A carótida externa emitirá ramos no pescoço, ao passo que a interna só terá ramos intracranianos. A carótida externa não irriga o encéfalo, portanto, não causa AVC. A carótida interna possui um trajeto cervical, cuja porção inicial chama-se bulbo carotídeo. Esse é o local mais susceptível à formação de placas de ateroma. É por esse motivo que se indica a neuroimagem vascular cervical e intracraniana para elucidação da etiologia dos AVCs isquêmicos. O trajeto intracraniano da carótida interna passa pelo seio cavernoso (leia sobre ele no capítulo de Anatomia, Fisiologia e Semiologia Neurológica), local onde pode ocorrer a chamada fístula carotidocavernosa. Na sua porção intracraniana, a carótida interna forma uma letra “S”, conhecida como sifão carotídeo, também sede de aterosclerose. Na parte terminal de cada carótida interna, já no polígono de Willis, ocorre uma bifurcação nas artérias cerebral média e cerebral anterior; além disso, nesse ponto, é onde desemboca a artéria comunicante posterior, que pode levar sangue da carótida interna para o sistema posterior ou trazer sangue proveniente desse sistema. Essas informações podem ser vistas na figura 4. Os sopros carotídeos podem ser auscultados na região cervical, como resultado de estenoses proximais superiores a 70%. Figura 4: circulação carotídea e vertebrobasilar anastomosando-se na região intracraniana. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 12 1.4 CIRCULAÇÃO VERTEBROBASILAR As artérias vertebrais recebem essa denominação porque passam pelos forames transversos das vértebras cervicais C6- C2 (figura 5). No interior do crânio, elas dão origem às artérias cerebelares posteroinferiores (PICA) direita e esquerda, e continuam até que se anastomosam, formando a artéria basilar. Da porção inicial da artéria basilar, origina-se a artéria cerebelar anteroinferior (AICA) que, na sua região terminal, acaba bifurcando-se em artérias cerebrais posteriores direita e esquerda após emitir as artérias cerebelares superiores (SUCA) direita e esquerda. A irrigação do diencéfalo (tálamo e correlacionados), do cerebelo e do tronco encefálico, geralmente (com algumas exceções), é realizada da seguinte forma: • Tálamos: ramos da artéria cerebral posterior; • Mesencéfalo: ramos da artéria cerebral posterior; • Ponte: ramos da artéria basilar; • Bulbo: ramos das artérias vertebrais; • Cerebelo: porção superior pela SUCA e porção inferior pela AICA e PICA. Para memorizar, use a seguinte regra: “Postaram em tal mês, na base da ponte, um bulbo vertebral”. A figura 6 mostra as artérias do território posterior: Figura 5: artérias da circulação encefálica posterior. . Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 13 1.5 IRRIGAÇÃO DOS HEMISFÉRIOS CEREBRAIS Nos hemisférios cerebrais, a irrigação obedece à seguinte distribuição (figuras 6 e 7): 4/5 anteriores da porção medial são irrigados pelas artérias cerebrais anteriores; 1/5 posterior da porção medial, pelas artérias cerebrais posteriores; e a porção lateral, pelas cerebrais médias. A superfície inferior dos hemisférios é irrigada, anteriormente, pela cerebral anterior e, posteriormente, pela cerebral posterior. Se você conhece aquele penteado chamado moicano, derivado de uma tribo indígena da América do Norte, em que o cabelo é raspado nas laterais e fica apenas na linha média, fazendo uma faixa da parte frontal à parte occipital, vai entender que o território superficial de irrigação das artérias cerebrais anteriores e das cerebrais posteriores fica abaixo de onde está o cabelo nesse penteado. Quem, como este autor, cursou medicina na UNIFESP (Escola Paulista de Medicina) precisa deixar o moicano por algumas semanas (não tenho fotos!). O moicano existia em período ANTERIOR a mim e continuou em uma fase POSTERIOR. Como eu não sou tão velho assim, 80% dos moicanos são anteriores a mim e 20%, posteriores! Figura 6: vista lateral dos territórios de irrigação dos hemisférios cerebrais. . Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 14 Figura 7: vista coronal da irrigação dos hemisférios cerebrais pelas artérias cerebrais anterior, média e posterior. Em azul, o território da artéria coróidea anterior. 1.5.1 IRRIGAÇÃO DA VIA MOTORA As questões de AVC isquêmico com manifestações motoras são as mais frequentes. Sendo assim, vamos estudar com mais detalhes como ocorre a irrigação da via motora para chegarmos mais afiados ao tópico de síndromes neurovasculares, combinado? No capítulo de Anatomia, Fisiologia e Semiologia Neurológica estudamos a anatomia da via motora, de modo que é altamente recomendável que você dê uma olhada novamente naquele texto. De forma resumida, podemosa primeira hipótese diagnóstica é de um AVC. Você leu também que, em pacientes com síndrome neurovascular, a glicemia capilar, a TC de crânio e a angiotomografia cervical e intracraniana são elementares. Pois bem, temos um paciente com instalação súbita de confusão mental e déficit neurológico focal acompanhado de crise epiléptica. Após a estabilização do paciente, o próximo passo deve ser a avaliação da glicemia e a realização de TC de crânio e, nos eventos isquêmicos, devem ser seguidos da angiotomografia. Nenhum dos exames está descrito no enunciado. Portanto, ainda não sabemos o diagnóstico do paciente, de modo que não é possível propor trombólise nem controle pressórico agressivo, tampouco anticoagulá-lo! Sendo assim, a letra B é a única alternativa possível. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 75 (UFPI 2018) Paciente de 70 anos, hipertenso e tabagista, foi levado ao pronto atendimento por familiares com história de ter iniciado, há pouco mais de 24 h, quadro agudo de alteração na fala e fraqueza no lado direito do corpo. O quadro foi precedido por cefaleia com náusea e vômito. Ao exame físico: PA 210x120 mmHg, paciente vigil, consciente, disártrico (disartria leve), hemiparético à direita (hemiparesia grau 4). Baseado no caso clínico relatado, assinale a opção que traz a principal hipótese diagnóstica. A) Encefalopatia hipertensiva. B) Ataque Isquêmico Transitório (AIT). C) Acidente Vascular Cerebral (AVC). D) Hemorragia subaracnoide. E) Migrânea com aura. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: a encefalopatia hipertensiva é caracterizada por um quadro de aumento súbito ou excessivo da PA, associado à ocorrência de edema cerebral, comprovado com a presença de papiledema. Ela é considerada um diagnóstico de EXCLUSÃO, apresentando melhora drástica do quadro quando a PA for discretamente reduzida, por exemplo, em 10-15%. Clinicamente, manifesta-se por uma cefaleia INSIDIOSA, associada à ausência de sinais focais, apresentando apenas sonolência e confusão, podendo evoluir para crises epilépticas e coma. O paciente em questão apresentou quadro de cefaleia aguda e não há relato de papiledema. Além disso, apresenta sinais focais ao exame neurológico. Incorreta a alternativa B: o ataque isquêmico transitório é decorrente de um quadro de isquemia neuronal com duração inferior a 24 horas e ausência de lesão isquêmica aguda no exame de neuroimagem. O paciente da questão apresenta sintomas há mais de 24h, não podendo receber esse diagnóstico. Correta a alternativa C: quando um paciente apresenta um quadro de déficit neurológico de instalação súbita, até que se prove o contrário, o diagnóstico é de AVC, não sendo possível diferenciar um quadro isquêmico de outro hemorrágico apenas pela clínica. Incorreta a alternativa D: a hemorragia subaracnóidea espontânea, que estudaremos mais à frente, é decorrente da ruptura de um aneurisma cerebral, na maioria dos casos, o que gera um quadro de cefaleia súbita, rebaixamento de consciência e sinais meníngeos, sendo raro o surgimento de sinais focais. Incorreta a alternativa E: a migrânea com aura é definida por crises de cefaleia com padrão típico e recorrente, acompanhada de sintomas neurológicos não dolorosos com duração de 5-60 minutos chamados de aura. A exceção para aura, com mais de 60 min, é a enxaqueca hemiplégica, mas o paciente da questão deveria ter tido vários outros episódios semelhantes antes, investigados sem alterações, para que pudéssemos desconfiar desse diagnóstico. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 76 2.8.4 TROMBÓLISE ENDOVENOSA Pare tudo o que estiver fazendo e leia as próximas linhas com muita atenção. Este assunto cai na maioria das provas e costuma ser relativamente fácil, mas não se deixe enganar por pegadinhas. arterial. As maiores evidências disponíveis são resultantes de estudos com trombólise endovenosa, sendo que o procedimento por via arterial não é utilizado de rotina. Assim, o paciente recebe na veia uma medicação que será potencialmente capaz de destruir o trombo e restabelecer a circulação naquele território vascular comprometido. O mecanismo de ação é a fibrinólise por meio da ativação do plasminogênio em plasmina. A plasmina degrada a fibrina. A lise do trombo oclusivo em um vaso arterial chama-se trombólise e pode ser realizada por via endovenosa ou intra- As últimas diretrizes da AHA/ASA, de 2019, recomendam a realização de trombólise endovenosa como tratamento específico de primeira linha para pacientes com quadro de AVC isquêmico. Os primeiros estudos com trombólise são da década de 90, mostrando que o resultado obtido aumentava em 30% a probabilidade de o paciente atingir total independência se comparado aos que eram tratados com placebo, sem, contudo, diminuir a mortalidade nesse período. Esses resultados eram medidos após 90 dias do AVC. Estudos com acompanhamento de pacientes durante 10 anos mostraram que a redução de mortalidade chegou a 42% em pacientes submetidos à trombólise, mas esse não é o objetivo inicialmente descrito nos trabalhos com trombólise. Nos estudos iniciais, a trombólise era realizada em até 3 h do início dos sintomas. Evoluiu-se muito desde então e a janela terapêutica foi ampliada para 4,5 h. Passaremos agora a falar das principais diretrizes para o uso de trombolítico EV. O trombolítico aprovado para uso na fase aguda do AVC é a alteplase, um ativador de plasminogênio tecidual recombinante (rt-PA). Uma outra droga da mesma classe, a tenecteplase (TNK) já se mostrou segura e eficaz em pacientes com AVC isquêmico agudo e aguarda aprovação de agências nacionais para seu uso. A alteplase é administrada em bólus de 10% da dose, seguindo-se 90% em bomba de infusão, em 1 hora. A dose é de 0,9 mg/kg, até o máximo de 90 mg. A dose de tenecteplase é de 0,25 mg/kg em bólus, com máximo de 25 mg. A estreptoquinase não deve ser usada. Seu primeiro estudo em AVC demonstrou aumento da mortalidade devido a sangramento. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 77 CAI NA PROVA (FJG RJ 2019) Com referência ao acidente vascular encefálico - AVE, o uso da trombólise venosa usando ativador do plasminogênio tecidual recombinante - rtPA antes de 4 horas desde o início dos sintomas, tem o seguinte objetivo: A) diminuir a possibilidade de perda da consciência que piora o prognóstico. B) aumentar em 30% a chance de o paciente apresentar lesões mínimas ou nenhuma lesão. C) aumentar em 30% a chance de o paciente não apresentar hemorragia intracraniana. D) diminuir significativamente a mortalidade. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: a perda da consciência não possui relação estabelecida com o prognóstico no AVC e nem sua prevenção é usada como alvo do tratamento da fase aguda do infarto cerebral. Correta a alternativa B: a trombólise aumenta em 30% a probabilidade de que o paciente esteja com pouca ou nenhuma sequela após 90 dias do AVC em comparação com quem recebeu placebo. Incorreta a alternativa C: a trombólise aumenta o risco de hemorragia craniana em 6%. Incorreta a alternativa D: a trombólise não diminui a mortalidade por AVC isquêmico em comparação ao placebo, em 90 dias. No entanto, estudos com acompanhamento de pacientes, feitos durante 10 anos, mostraram que a redução de mortalidade em longo prazo chegou a 42% nos pacientes submetidos à trombólise. De qualquer forma, a pergunta é clara: qual é o objetivo da trombólise. A resposta não é diminuir a mortalidade, mas sim reduzir o grau de incapacidade, sem aumentá-la. (Santa Casa – SP 2016 (ADAPTADA)) Homem, 48 anos, sem antecedentes conhecidos, deu entrada no Serviço de emergência com quadro súbito de perda de forçamuscular à esquerda há 40 minutos, associado à disartria e hemianopsia. Apresentava-se com FC 108 bpm, PA 158x76 mmHg e dextro 108 mg/dl. Foi encaminhado à Tomografia de Crânio que não evidenciou sinais de sangramento, sendo optado pela trombólise química. Qual é a droga de escolha nesse caso? A) Estreptoquinase B) Uroquinase C) Alteplase D) Fondaparinux E) Abciximab COMENTÁRIOS: A banca examinadora já informa que o quadro é um AVC para trombólise. Incorreta a alternativa A: a estreptoquinase já foi estudada como trombolítico para AVC, com resultados desapontadores, como maior mortalidade e maior risco de sangramento. Incorreta a alternativa B: a uroquinase não é aprovada pelo FDA para trombólise de AVC isquêmico. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 78 a alteplase, assim como a tenecteplase, são ativadores recombinantes do plasminogênio tecidual, que ativa o plasminogênio em plasmina e esta degrada a fibrina. São as únicas drogas recomendadas pela AHA/ASA para a trombólise de AVC isquêmico agudo. Só a alteplase é aprovada, até o momento, pelo FDA e ANVISA para trombólise de AVC. Incorreta a alternativa D: essa medicação é anticoagulante, não um trombolítico, e não está indicada no tratamento da fase aguda do AVC. Incorreta a alternativa E: esse inibidor da glicoproteína IIb/IIIa não é recomendado no tratamento da fase aguda do AVC isquêmico. 2.8.4.1 JANELA TERAPÊUTICA A trombólise pode ser realizada por via endovenosa até 4,5 h do início dos sintomas. Considera-se o início dos sintomas o último momento em que o paciente foi visto normal. Já há artigos com expansão da janela terapêutica para até 9 h nos pacientes que apresentam mismatch favorável, mas essa recomendação, até o momento, não foi incorporada aos guidelines. Nos pacientes com início dos sintomas desconhecido, por exemplo, naqueles que acordaram com sintomas de AVC (wake up stroke), pode-se realizar uma RM com sequência FLAIR e com difusão para confirmar a isquemia aguda. Nos pacientes em que a isquemia for menor do que 1/3 do território da artéria cerebral média pela difusão e o FLAIR estiver normal, provavelmente o AVC desenvolveu-se há menos de 4,5 horas, sendo possível, então, fazer trombólise endovenosa. Correta a alternativa C: O que você precisa saber sobre a trombólise? 1- O trombolítico: alteplase 0,9 mg/Kg (10% em bólus e 90% em infusão de 1 hora). A dose de 0,6 mg/Kg de alteplase foi testada no estudo ENCHANTED (2016) e, embora a análise de subgrupo indique benefício em pacientes idosos e com uso prévio de antiagregantes, o estudo não atingiu seu desfecho primário que era testar não inferioridade. O tenecteplase, na dose de 0,25 mg/ Kg em bólus, está consagrado como alternativa (estudo NOR-TEST de 2017 e EXTEND-IA TNK de 2018 ), contudo ainda não foi liberado nas principais agências reguladoras. 2- A janela: tradicionalmente, até 4,5 horas do início dos sintomas. Destaca-se um ponto de confusão: o período de 3 a 4,5 horas. Nesse período, a taxa de recanalização é menor e o risco de sangramento maior, em especial para pacientes com mais de 80 anos, NIHSS >25, uso de anticoagulantes e combinação de diabetes mellitus com AVC prévio. Entretanto, mesmo nesses pacientes, NÃO há contraindicação absoluta à trombólise, pois, ainda assim, pode haver benefício!. Em pacientes com wake-up stroke, a RM de fase aguda (conforme supracitado) pode viabilizar a trombólise. Já para pacientes com janela entre 4,5h e 9 horas do início dos sintomas, o estudo EXTEND, de 2019, sugere benefício com a trombólise desde que sejam preenchidos critérios de elegibilidade no estudo de perfusão. No final das contas, alteplase até 4,5 horas será a resposta para a grande maioria das questões de Residência. É importante que você saiba os detalhes acima, uma vez que nosso intuito é prepará-lo para qualquer prova do país! Especialmente sobre AVC, conhecer a banca pode ser fundamental! A literatura utilizada pode ter implicação direta na resposta de eventuais questões. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 79 CAI NA PROVA (Santa Casa – SP 2017) Agora, são 10 horas da manhã e chega ao pronto-socorro um paciente de 67 anos com quadro de déficit motor esquerdo de predomínio braquiofacial e afasia. Considerando-se que o quadro teve início há uma hora, aproximadamente, pode-se afirmar qual é a artéria acometida e que a trombólise pode ser feita até, respectivamente: A) cerebral média; 4 horas e 30 minutos. B) cerebral anterior; 5 horas. C) cerebral posterior; 3 horas. D) oftálmica; 2 horas. E) basilar; 2 horas e 30 minutos. COMENTÁRIOS: Correta a alternativa A: no AVC de artéria cerebral média, o paciente apresenta hemiparesia contralateral completa e de predomínio braquiofacial. Caso a lesão afete o córtex dominante, ocorrerá afasia. Se for no hemisfério não dominante, o paciente apresentará heminegligência. A trombólise pode ser realizada até 4h30min após o início dos sintomas. Incorreta a alternativa B: no AVC isquêmico de artéria cerebral anterior, a manifestação mais provável é hemiparesia contralateral de predomínio crural, com ou sem comprometimento da face, e sem afasia ou heminegligência. O tempo para realização de trombólise nesse paciente está errado (o adequado é realizar no máximo até 4h30 min). Incorreta a alternativa C: o comprometimento da artéria cerebral posterior pode afetar um dos lobos occipitais, levando ao quadro de hemianopsia homônima contralateral. O tempo para realização da trombólise não é mais de 3 h desde 2007, quando passou a 4,5 h. Incorreta a alternativa D: a isquemia da artéria oftálmica levará à amaurose monocular. O tempo para realização da trombólise está errado, pois são 4h30 min do início dos sintomas. Incorreta a alternativa E: a isquemia da artéria basilar pode provocar desde um quadro grave de rebaixamento da consciência, tetraparesia e paralisia de nervos cranianos bilateralmente até quadros mais brandos, que incluem síndrome alterna (hemiparesia com comprometimento de nervos cranianos em lados opostos, podendo estar associada à ataxia cerebelar). O tempo descrito na alternativa é inferior ao possível para realização da trombólise, que é até 4h30 min. 2.8.4.2 CRITÉRIOS DE INCLUSÃO E EXCLUSÃO PARA TROMBÓLISE Os trombolíticos são medicamentos que devem ser usados com cautela, pois aumentam o risco de sangramento. Por essa razão, não é qualquer paciente que pode ser tratado com eles, mas só os que preencherem os critérios de inclusão e exclusão. Tem examinador maldoso que faz pegadinha com esses critérios. Ele coloca um caso em que o paciente preenche todos os critérios de inclusão e não preenche os de exclusão e coloca algumas bobagens nas alternativas, sendo que a única aceitável é: “tem indicação de trombólise” porque preenche os critérios de inclusão. Obviamente, esse paciente ainda não será trombolisado, porque os critérios de exclusão acabam sendo analisados depois. Enfim, cuidado com esses caras! Resolva muitas questões, leia/assista nossas correções e pegue o jeito! Por falar nos critérios de inclusão e exclusão, as tabelas 7 e 8 mostram todos eles. Note que os critérios de exclusão podem ser Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 80 divididos em três: idade menor que 18 anos (faltam estudos nessa faixa etária), penumbra pequena e risco elevado de sangramento. Quando você pensa em penumbra pequena, pode ser que a área total acometida seja muito pequena (stroke minor) e não vai valer a pena o risco de usar o remédio, ou então a maior parte do território arterial sofreu isquemia de forma irreversível e só uma pequena parte dele é penumbra (tecido viável). Por exemplo,o paciente tem uma síndrome da artéria cerebral média sugestiva de comprometimento proximal e a TC de crânio mostra uma imagem hipodensa extensa que afeta a maior parte do território arterial. Já vimos que, onde há hipodensidade, os neurônios estarão irreversivelmente perdidos. Se o paciente receber trombolítico, a reperfusão ocorrerá em um tecido necrótico, onde os vasos também morreram. Isso pode gerar uma situação chamada transformação hemorrágica. Além de não ter sido salva a área de penumbra e ter ficado com muita lesão isquêmica, ainda ocorrerá o surgimento de uma lesão hemorrágica que pode exercer um efeito de massa e causar compressão de estruturas saudáveis, gerando ainda mais déficits. Critérios de inclusão para uso de alteplase no AVC isquêmico Idade maior que 18 anos. Tempo de início de sintomas até 4,5 h. Quadro sugestivo de AVC com déficit de intensidade significativa (NIHSS > 5 ou déficit incapacitante, por exemplo, afasia ou hemianopsia). Tabela 7: critérios de inclusão para o uso de alteplase no AVC isquêmico. Principais contraindicações de trombólise EV Idade 185 mmHg e PAD > 110 mmHg AVC isquêmico Nos últimos 3 meses Trauma grave Nos últimos 3 meses Cirurgia de grande porte Nos últimos 14 dias Neurocirurgia ou de coluna Nos últimos 3 meses AVC hemorrágico prévio A qualquer tempo Doenças trato GI História de neoplasia ou sangramento nos últimos 21 dias Coagulopatias Plaquetas 1,7 ou TTPA > 40 s Heparina de baixo peso molecular Dose plena há menos de 24h Anticoagulantes diretos Dose há menos de 48h Outras Endocardite, dissecção aórtica, neoplasia intracraniana intra-axial Tabela 8: contraindicações ao uso de trombolítico. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 81 Em alguns casos, apesar de parecer, empiricamente, que o risco de sangramento é elevado, já há estudos demonstrando que é seguro realizar trombólise em caso de AVC. Essas situações polêmicas estão descritas na tabela abaixo. Pontos polêmicos na avaliação de pacientes candidatos à trombólise de AVC isquêmico Idade > 80 anos Permitido (avaliar com cautela) NIHSS > 25 Início dos sintomas entre 3 - 4,5h Permitido (avaliar com cautela) Pressão arterial PAS > 185 mmHg e PAD > 110 mmHg Na entrada, mas reduzidos após medicação. Glicemia 75 anos e NIH de 23 pontos. D) AVCI nos últimos 03 meses e Pressão Arterial na chegada ≥ 185 x 110 mmHg. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 83 COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: considera-se contraindicação à trombólise endovenosa quando a pressão arterial estiver persistentemente ≥ 185 x 110 mmHg, a despeito de medidas para a sua redução. Pacientes com mais de 80 anos podem ser trombolisados até 3 h do início dos sintomas e, com análise mais cautelosa, se o tempo de início dos sintomas for entre 3 - 4,5h. Correta a alternativa B: se o paciente apresentar área de hipodensidade franca ou extensa compatível com lesão irreversível, como no caso da hipodensidade maior que 2/3 do território da artéria cerebral média, não deveremos realizar a trombólise. AVC isquêmico há menos de 3 meses também é considerado uma contraindicação ao procedimento. Incorreta a alternativa C: pacientes com mais de 75 anos podem ser trombolisados, assim como aqueles com NIHSS acima de 23 pontos. Se o NIHSS for superior a 25, o paciente pode ser trombolisado dentro de 3h a partir do início dos sintomas e deve ter o caso analisado com cautela para trombólise entre 3 - 4,5h, mas, ainda assim, não há contraindicação absoluta. Incorreta a alternativa D: como já foi dito, se o AVC isquêmico ocorreu há menos de 3 meses, o paciente não pode ser trombolisado e, se a PA na entrada estava ≥ 185 x 110 mmHg, só haverá contraindicaçãose ela ficar persistentemente assim. (SES PE 2020) Uma paciente de 65 anos foi trazida para a emergência com uma queixa recente de hemiparesia esquerda. A tomografia de crânio descartou hemorragia e a paciente está sendo avaliada para uso de alteplase. Qual das condições abaixo NÃO é contraindicação para a terapia trombolítica? A) Endocardite infecciosa B) Neurocirurgia recente C) Plaquetas abaixo de 100.000/mm³ D) Câncer gástrico E) INR de 1,5 em paciente usando warfarin COMENTÁRIOS: Corretas as alternativas A, B, C e D: endocardite, neurocirurgia recente, plaquetopenia 400 mg/dL podem se manifestar com um quadro semelhante ao de AVC e devem ser corrigidas antes da trombólise. Se os déficits persistirem, a trombólise estará indicada. Tabela 10: níveis de pressão arterial que devem ser observados para indicar tratamento na fase aguda do AVC isquêmico com anti- hipertensivo EV (nitroprussiato de sódio) e conduta em emergências hipertensivas associadas a AVC isquêmico. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 86 CAI NA PROVA (SUS RR 2019) Quanto ao manejo da pressão arterial sistêmica dos pacientes em vigência de um acidente vascular encefálico isquêmico em fase aguda e que não são candidatos a terapia trombolítica, é correto afirmar que: A) devem receber anti-hipertensivos os pacientes que tiverem pressão arterial sistêmica superior a 140/90 mmHg. B) devem receber anti-hipertensivos os pacientes que tiverem pressão arterial sistêmica superior a 185/110 mmHg. C) devem receber anti-hipertensivos os pacientes que tiverem pressão arterial sistêmica superior a 160/110 mmHg. D) só devem receber anti-hipertensivos caso apresentem pressão arterial sistêmica maior que 220/120 mmHg na ausência de outras indicações para redução da pressão arterial sistêmica. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: o alvo de PA sistólica de 140 mmHg é para os quadros de AVC hemorrágico intraparenquimatoso hipertensivo. Incorreta a alternativa B: a PA deve ficar abaixo de 185 x 110 mmHg em pacientes com AVC isquêmico que sejam candidatos à trombólise. Incorreta a alternativa C: esse valor não é meta de nenhuma intervenção relativa ao tratamento de pacientes com AVC. Correta a alternativa D: o alvo de pressão nos pacientes com AVC isquêmico e contraindicação à trombólise, sem outras indicações clínicas para a redução de PA, é 220 x 120 mmHg. 2.8.4.4 COMPLICAÇÕES DA TROMBÓLISE O sangramento intra ou extracraniano é a complicação mais temida da trombólise endovenosa com alteplase. Cerca de 6% dos pacientes submetidos à trombólise desenvolvem sangramento intracraniano sintomático, o que pode trazer impacto negativo na sua recuperação. Sangramento sistêmico é muito raro e, geralmente, oligossintomático. Devemos desconfiar de sangramento intracraniano com trombolítico nas seguintes situações: • rebaixamento do nível de consciência; • crise convulsiva; • cefaleia aguda; • PAS > 185 mmHg e/ou PAD > 105 mmHg ou elevação súbita da PA; • vômitos; • elevação do escore NIHSS. O tratamento é a suspensão da infusão do trombolítico, uso de crioprecipitado e antifibrinolítico (ácido aminocaproico ou ácido tranexâmico). O angioedema orolingual é uma complicação leve que afeta até 8% dos pacientes. 2.8.4.5 TROMBÓLISE INTRA-ARTERIAL A trombólise intra-arterial pode ser realizada em até 6h do início dos sintomas. Veja, não se trata de infundir o trombolítico na artéria radial, por exemplo. A ideia é progredir um cateter até o ponto de oclusão e, então, liberar o trombolítico. Esse tratamento foi estudado ANTES da trombectomia e, mesmo, da liberação da trombólise EV. Desde a inclusão da trombectomia e da autorização da trombólise EV, a trombólise intra-arterial “perdeu o sentido”, não sendo utilizado nos grandes serviços do país. Uma possível indicação seria para os pacientes que apresentaram AVC isquêmico, já submetidos à tentativa detrombectomia e que apresentam embolização distal vista durante o procedimento. Virtualmente, é a única situação em que o procedimento ainda pode ser útil. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 87 2.8.5 TROMBECTOMIA MECÂNICA Se existe um tema que tem aparecido cada vez mais nas provas de Residência é a trombectomia mecânica. Até o Fantástico já fez reportagem sobre ela. A trombectomia mecânica é um procedimento realizado por meio de arteriografia digital, durante a qual o trombo oclusivo é identificado. Após isso, um stent retriever (figuras 34 e 35), isto é, um stent de segunda geração, que não permanecerá no vaso do paciente após o procedimento, é usado para “pescar” e retirar esse trombo. É possível também usar a opção de inserir um cateter de aspiração, que “suga” o trombo. Ambos os métodos possuem a mesma eficácia. um cateterismo arterial. O procedimento começa com uma Figura 34: Stent retriever, usado para trombectomia mecânica. Fonte: Shutterstock. Figura 35: Stent retriever com trombo após procedimento de trombectomia. Fonte: arquivo Prof. Victor Fiorini. A trombectomia surgiu de uma demanda existente em alguns casos de AVC isquêmico que não melhoravam muito com a trombólise. Observou-se que, quando o AVC ocorre por oclusão total de uma das carótidas internas, a taxa de recanalização com trombólise endovenosa é de, no máximo, 8% (oito por cento) e, na cerebral média proximal (segmento M1), de até 32% dos pacientes. Com os novos dispositivos de trombectomia mecânica, a taxa de recanalização pode chegar a mais de 80%. Não basta apenas recanalizar o vaso. Os desfechos clínicos da trombectomia mecânica bem indicada podem ser excelentes, com muitos pacientes atingindo ótimos níveis de recuperação e ficando independentes após o procedimento, em porcentagens muito superiores às daqueles que foram tratados de maneira conservadora. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 88 Para a realização de trombectomia, o paciente deve ter sido inicialmente avaliado e ter sido caracterizada a oclusão de 100% de um vaso proximal envolvido no quadro, preferencialmente a carótida interna ou o segmento M1 da cerebral média. As melhores evidências em favor da trombectomia são para esses pacientes. Assim, quando o paciente chega ao serviço de emergência com suspeita de AVC, ele é submetido a uma avaliação neurológica para aferir-se a pontuação na escala de NIH. Em seguida, realiza-se o dextro e a tomografia de crânio sem contraste. endovenosa. Ao final da trombólise, o paciente é encaminhado para a trombectomia mecânica, já com tudo pronto, esperando por sua chegada. Parece até um carro de corrida chegando ao box da equipe! Pacientes com contraindicação à trombólise podem ser submetidos à trombectomia mecânica caso o vaso ocluído seja um dos citados anteriormente. Essa contraindicação pode ser dentro da janela de 4,5 h ou, após esse período, até 24 h do início dos sintomas. Por exemplo, se um paciente chega ao PS às 10 horas, após ter acordado às 8 horas e ter ido dormir sem déficit às 22 horas, o tempo de reconhecimento dos sintomas será de 2 horas. Contudo, a janela de tempo para eventual indicação de trombectomia será de 12 horas! Em outras palavras, mesmo que seu paciente não seja candidato à trombólise, ele ainda pode ser encaminhado à trombectomia mecânica. Os critérios para realização de trombectomia mecânica dependem do tempo de início dos sintomas. Temos critérios para 0 a 6h e outros, para 6 a 24h. Para pacientes com 0 a 6h de déficit, basta a realização de uma avaliação clínica e radiológica (TC com angioTC ou RM com angioRM). Nos pacientes com 6 a 24h, é necessário o uso de técnicas avançadas de neuroimagem para o cálculo do volume de isquemia com base nos resultados de dois estudos: DAWN e DEFUSE-3. De modo geral, em todos os casos, o paciente precisará satisfazer as seguintes condições: • idade maior que 18 anos; • pontuação na escala de NIH (NIHSS) ≥ 6; • pontuação na escala ASPECTS ≥ 6; • pontuação na escala de Rankin modificada (mRS) 6 TC de crânio ASPECTS > 6 Mismatch perfusão RM- mismatch FLAIR - Difusão (com menos de 1/3 ACM) Mismatch perfusão Trombólise Figura 36: fluxograma de condutas no paciente com AVC isquêmico agudo. O número 1 simboliza a possibilidade, embora ainda não incluída nos fluxogramas europeu e americano, de progredir apenas com a trombectomia em casos deoclusão proximal e anterior (veja a questão acima da UFRN-2023). Já o número 2 deve lembrá-lo da importância de avaliar as contraindicações à trombólise e as indicações (idade superior a 18 anos e NIHSS >5 e/ou déficit incapacitante como afasia, plegia ou negligência) CAI NA PROVA (UESPI 2021) O Acidente Vascular Cerebral (AVC) isquêmico vem tendo mudanças importantes quanto ao tratamento da fase aguda, principalmente relacionado ao uso da trombectomia mecânica. Sobre a trombectomia mecânica no contexto de AVC isquêmico, assinale a alternativa CORRETA.A trombectomia mecânica agora deve ser priorizada em detrimento da trombólise endovenosa, independente do tempo de início do quadro clínico. A) A trombectomia mecânica só tem benefício, após a falha do trombolítico e respeitando o limite de 3 horas após o início do quadro clínico. B) A seleção de pacientes candidatos à trombectomia mecânica leva em consideração somente se há contraindicações ao trombolítico endovenoso. C) Aqueles pacientes que percebem o déficit neurológico, somente ao acordar, não foram avaliados nos grandes estudos sobre trombectomia mecânica e, portanto, não podem ser submetidos à trombectomia mecânica, independente dos achados da tomografia de crânio ou método com perfusão. D) Os benefícios da trombectomia mecânica se mostraram principalmente para pacientes com oclusão proximal da circulação anterior e até 6 horas do início do quadro clínico, embora haja estudos com benefícios para janelas de tempo até maiores. Esse tópico, de longe, é o mais importante e é o mais cobrado nas provas de Neurologia. Vamos treinar bastante em seguida! Leia com atenção as questões que selecionei para você. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 91 COMENTÁRIOS Incorreta a alternativa A: a trombólise endovenosa continua sendo parte fundamental no tratamento agudo do AVCi e sua realização não contraindica, caso haja elegibilidade, a realização da trombectomia. Os dois procedimentos podem ser realizados no mesmo paciente! Além disso, lembre-se de que a trombectomia mecânica só será possível nos casos de oclusão proximal de vasos da circulação anterior. Incorreta a alternativa B: a trombectomia pode ser feita após a trombólise endovenosa e pode ter benefício em até 24 horas do início dos sintomas Incorreta a alternativa C: a indicação da trombectomia depende do tempo desde o início dos sintomas, da viabilidade do tecido cerebral e da confirmação da existência de oclusão proximal de circulação anterior. Incorreta a alternativa D: nesses casos, conhecidos como wake up stroke, para avaliar o tempo desde o início dos sintomas, utilizamos o último momento em que o paciente foi visto “bem”. Como ele acordou com déficit, na melhor das hipóteses, o início dos sintomas é contado a partir da noite anterior, quando ele foi dormir. Nós podemos fazer mismatch FLAIR-difusão para avaliar a possibilidade de trombólise nesses pacientes, mas caso haja oclusão arterial proximal anterior e o estudo de perfusão mostre viabilidade tecidual, a trombectomia poderá ser indicada. Correta a alternativa E: a trombectomia mecânica começou a ser usada após a publicação de estudos que consolidaram a janela de tempo de 6 horas. Posteriormente, a janela de tempo foi estendida para até 24 horas. Como “tempo é cérebro”, quanto mais rápido ocorrer a reperfusão, melhores serão os resultados. (Hospital Regional de Presidente Prudente - 2023 ) Mulher, 72 anos, hipertensa e diabética, deu entrada no pronto atendimento com desvio de rima labial para esquerda e hemiparesia à direita, que começou há 2 horas da admissão. Sinais vitais da admissão: PA = 170 x 100 mmHg, FC = 89 bpm, FR = 14 ipm, SpO2 = 95% em ar ambiente. Foi realizada tomografia de crânio conforme imagem a seguir. Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, o diagnóstico e a conduta corretos, considerando que não existem contraindicações ao tratamento escolhido. A) Acidente vascular cerebral hemorrágico. Arteriografia e embolização. B) Acidente vascular cerebral hemorrágico. Craniectomia descompressiva. C) Acidente vascular cerebral isquêmico. Trombólise química. D) Acidente vascular cerebral isquêmico. Transferência para UTI e trombólise química em até 12 horas. E) Acidente vascular cerebral isquêmico. Craniectomia descompressiva. COMENTÁRIOS Questão fácil. Temos uma paciente com déficit neurológico súbito, sem alteração de glicemia descrita, cuja TC de crânio sem contraste afasta hemorragia. Não há descrição de contraindicações à trombólise, a paciente tem apenas 2 horas desde o início dos sintomas e a TC de crânio revela viabilidade do tecido cerebral (é normal). Sendo assim, a conduta imediata é a trombólise, preferencialmente com o bólus (10%) ainda na tomografia, seguida da instalação dos 90% restantes para correr em 1 hora. Idealmente, logo após o bólus, a angiotomografia deveria ser feita para avaliar a presença de oclusão proximal e anterior que, se presente, indicaria a trombectomia mecânica adjunta. Não há necessidade de aguardar o fim da trombólise para se definir quanto à trombectomia. Idealmente, a paciente Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 92 deve ser levada até a sala de hemodinâmica enquanto o trombolítico é infundido. Caso, durante a arteriografia, detecte-se que já houve recanalização, melhor ainda. É melhor do que perder tempo, eventualmente ocorrer recanalização parcial, levando à melhora parcial, contudo incompleta. Lembre-se: tempo também é cérebro. Incorretas as alternativas A e B. A TC é normal, afastando um evento hemorrágico. Correta a alternativa C. Incorreta a alternativa D. A trombólise no AVCi deve ser feita em até 4,5 horas, não 12. Incorreta a alternativa E. A craniectomia descompressiva profilática está indicada em casos de AVC maligno da artéria cerebral média, quando há edema progressivo e que pode levar ao óbito do paciente. Deve ser feita, preferencialmente, nas primeiras 48 horas do ictus vascular. (HIAE - 2023 ) Paciente do sexo masculino, 62 anos, pardo, é levado ao pronto-socorro por apresentar fala enrolada e dificuldade para andar há 1 hora. Esposa conta que o marido é hipertenso, mas faz tratamento irregular porque acha que o remédio deixa ele tonto. Nega outras comorbidades. Ao exame físico, apresenta-se em regular estado geral, desorientado, PA: 198 × 130 mmHg, confirmada em duas medidas, FC: 124 bpm, eupneico, afebril, corado e hidratado. O exame neurológico mostrou hemiplegia à direita com desvio de rima. Tomografia sem sinais de sangramento. Entre as opções abaixo, a melhor conduta imediata é: A) Trombólise com rt-PA imediata. B) Captopril sublingual. C) Nitroprussiato intravenoso. D) Anticoagulação com heparina não fracionada. COMENTÁRIOS Incorreta a alternativa A. A PA do paciente não é permissiva para a trombólise. É necessário reduzir os níveis tensionais abaixo de 185 x 110 mmHg. Incorreta a alternativa B. De fato, é necessário reduzir a PA, contudo, de forma controlada, com droga EV, não de forma errática como a que se obtém com o uso de captopril sublingual. Correta a alternativa C. O nitroprussiato é a droga de escolha para o manejo pressórico rápido e controlado. Incorreta a alternativa D. A trombólise é que está indicada após o controle pressórico, não a anticoagulação. (FMAC - 2022 )Considerando-se a trombólise no acidente vascular cerebral, assinale a alternativa correta. A) A dosagem plena deve ser ministrada em bólus em meia hora. B) A tomografia de controle deve ser realizada a cada 6 horas pós-finalização da trombólise, nas primeiras 24 horas. C) A pressão arterial deve ser mantidadeve ocorrer em até 6 horas pós-finalização da trombólise. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 93 COMENTÁRIOS Incorreta a alternativa A. A trombólise é feita com a administração de alteplase, também chamado de rTPa ou ativador de plasminogênio tecidual. A dose a ser empregada é de 0,9 mg/Kg, com uma dose máxima de até 90 mg. Tão logo se decida pelo procedimento, 10% da dose total deve ser administrada em bólus e os 90% restantes, infundidos em bomba de infusão contínua durante 1 hora. Incorreta a alternativa B. A TC de crânio deve ser feita logo à admissão, para a diferenciação entre AVCi e AVCh, e permitir a definição terapêutica. Quando se opta pela trombólise, não há necessidade de se repetir a TC de crânio com a periodicidade descrita! O que deve ser feito nas primeiras 24 horas é a reavaliação clínica do paciente por meio da escala NIHSS. A TC de crânio controle para avaliar a extensão da isquemia é feita após 24 horas da instalação dos sintomas. Correta a alternativa C. Exatamente! Esses são alvos pressóricos durante a trombólise e nas primeiras 24 horas. O valor de pressão que contraindica a trombólise, até que essa pressão seja diminuída, é PAS maior ou igual a 185 mmHg e PAD maior ou igual a 110 mmHg, perceba que a diferença para o alvo durante a trombólise é de 5 mmHg na PAS e na PAD. Incorreta a alternativa D. De forma alguma! Nas primeiras 24 horas pós-trombólise não deve ser introduzido nenhum antiagregante ou anticoagulante. Incorreta a alternativa E. Conforme vimos na alternativa acima, nem antiagregante nem anticoagulante devem ser introduzidos nas primeiras 24 horas pós-trombólise, mesmo que se trate da enoxaparina profilática, que poderá ser administrada após 24 horas. (HMASP - 2021) Mulher, 56 anos, procurou o pronto-socorro com quadro de fraqueza à direita e alteração de fala com início há 5 horas e 30 minutos de admissão. Ao exame neurológico, apresentou-se com desvio de olhar conjugado para esquerda, paralisia facial central à direita, hemiplegia direita, afasia, com pontuação de 18 em NIHSS. Realizada TC e angioTC de crânio após 15 minutos de admissão, que revelaram as imagens a seguir: Assinale a alternativa correta acerca da conduta nesse cenário: A) A angioTC não mostra oclusão, logo a paciente deve ser encaminhada para cuidados clínicos. B) A angioTC mostra oclusão de segmento M1 de artéria cerebral média esquerda, logo a paciente é candidata à trombectomia mecânica. C) A angioTC mostra oclusão de segmento M2 de artéria cerebral média esquerda, logo a paciente não é candidata à trombectomia mecânica. D) A angioTC mostra oclusão de segmento M1 de artéria cerebral média esquerda, logo a paciente não é candidata à trombectomia mecânica E) A angioTC mostra oclusão de segmento M2 de artéria cerebral média esquerda, logo a paciente é candidata à trombectomia mecânica. COMENTÁRIOS Trata-se de um quadro de déficit neurológico súbito, iniciado há 5h e 30min, portanto inelegível para trombólise imediata. O estudo de vasos revela oclusão da artéria cerebral média esquerda em seu segmento M2, o que torna a paciente passível de ser submetida à trombectomia. Como estamos com menos de 6 horas do início dos sintomas, basta a TC de crânio com ASPECTS > 6 para viabilizar o procedimento. A questão é polêmica, pois a oclusão pode ser classificada como de segmento distal do da divisão M1, dependendo da classificação utilizada. De qualquer forma, a alternativa E é a correta. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 94 2.8.6 TRATAMENTO GERAL DO AVC ISQUÊMICO Algumas medidas são obrigatórias no tratamento dos pacientes com AVC isquêmico agudo. Entre elas, cabe ressaltar o controle da pressão arterial. Em pacientes que serão submetidos à trombólise, a pressão deverá estar abaixo de 185 x 110 mmHg. Nos pacientes em que a trombólise for contraindicada, a medicação anti-hipertensiva só deverá ser prescrita caso os valores de PA excedam 220 x 120 mmHg. Medicar os pacientes dentro dessa faixa de PA pode causar piora da isquemia, comprometendo a viabilidade dos neurônios da penumbra isquêmica. Outra medida é o controle da glicemia. Tanto a hiper quanto a hipoglicemia podem gerar quadros neurológicos que simulam AVC e estão associadas a pior prognóstico. As medidas são mencionadas na tabela a seguir: Tratamento geral do AVC isquêmico agudo Suporte respiratório Manter saturação de O2 ≥ 95% Elevação da cabeceira 0-30° nas primeiras 24 h Hidratação Hipotensão e hipovolemia devem ser debeladas com cristaloides ou coloides Níveis de glicemia Entre 140-180 mg/dL (G50% se 39°C nas primeiras horas: pior prognóstico e maior mortalidade (medicar se > 38°C) Disfagia Realizar screening antes de iniciar dieta Dieta enteral Iniciar nos primeiros 7 dias Profilaxia de TVP Compressão pneumática intermitente, associada a uso de aspirina *Não há evidência de benefício da heparina Tabela 11: tratamento geral do AVC isquêmico. Ao contrário do que ocorre no infarto agudo do miocárdio, o início do uso de antiplaquetários estará indicado em até 48h do início dos sintomas ou, nos pacientes submetidos à trombólise, após 24h do término da infusão do rt-PA. Quando indicada, veremos que a anticoagulação deve ser iniciada, no mínimo, a partir do 4º dia de déficit. Veremos, na parte de profilaxia secundária, as indicações de dupla antiagregação plaquetária e anticoagulação. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 95 CAI NA PROVA (SES PE 2019) Um paciente de 55 anos, com antecedentes de hipertensão e doença coronariana chegou ao hospital referindo redução de força em dimídio esquerdo iniciada, subitamente, há menos de uma hora. Ao exame físico, apresentava hemiparesia esquerda com nível de consciência preservado e PA 160x100 mmHg. A tomografia de crânio foi compatível com um extenso acidente vascular encefálico no território da cerebral média, sem áreas hemorrágicas. O neurologista foi acionado e está a caminho do hospital, com previsão de chegada menor que 30 minutos. Qual é sua conduta neste momento? A) Prescrever captopril sublingual para reduzir PA diastólica abaixo de 100 mmHg. B) Iniciar imediatamente enoxaparina 1 mg/kg de 12/12horas. C) Iniciar infusão de nitroglicerina, titulando dose para manter PA sistólica entre 120 e 140 mmHg. D) Acionar a equipe de angiografia para arteriografia cerebral de urgência. E) Monitorizar PA, glicemia digital e nível de consciência. COMENTÁRIOS Incorretas as alternativas A e C: o paciente apresenta um AVC isquêmico e está com a PA em 160 x100 mmHg, não havendo indicação para sua redução. Incorreta a alternativa B: não é recomendada anticoagulação de urgência em pacientes com AVC, mesmo que a causa seja cardioembólica, devendo ser introduzido o anticoagulante entre 4-14 dias após o evento, ou mais tarde, se a área de isquemia for extensa, para evitar sangramento. Incorreta a alternativa D: não há indicação de arteriografia, pois o paciente apresenta contraindicação à trombectomia mecânica (escore ASPECTS, que mede o risco de sangramento com trombólise pela presença de áreas hipoatenuantes na tomografia, deve ser maior ou igual a 6 e o paciente com infarto extenso apresenta ASPECTS perto de zero). Correta a alternativa E: como o paciente tem contraindicação para terapias de reperfusão, ele será tratado conservadoramente, com avaliação do nível de consciência,glicemia capilar e controle de PA na unidade de terapia intensiva. 2.8.7 CRANIECTOMIA DESCOMPRESSIVA Este é um assunto ainda pouco explorado em provas de Residência. Iremos mencioná-lo, pois faz parte do arsenal terapêutico da fase aguda do AVC isquêmico. Infartos extensos do encéfalo podem levar a edema e, consequentemente, hipertensão intracraniana. Em alguns pacientes, esse fenômeno pode ser fatal. Dessa forma, é possível que se realize um procedimento cirúrgico, conhecido como craniectomia descompressiva, em que um fragmento grande de calota craniana é retirado, permitindo que o edema se exteriorize e a pressão intracraniana alivie (figura 37). Para mais detalhes sobre o tratamento clínico da hipertensão intracraniana, leia o capítulo sobre coma e alterações da consciência. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 96 Figura 37 : aspecto intraoperatório de uma craniectomia descompressiva em um paciente com AVC isquêmico extenso da artéria cerebral média. Fonte: arquivo do Prof. Victor Fiorini. Contudo, pode-se esperar que, caso o paciente sobreviva, fique com muitas sequelas. Comparando-se pacientes sobreviventes de infartos cerebrais extensos submetidos e não submetidos à craniectomia descompressiva, observaram-se resultados funcionais superiores nos pacientes operados. As indicações para a realização da craniectomia descompressiva são: • idade ≤ 60 anos (relativo); • evidência tomográfica de infarto agudo extenso da artéria cerebral média; • piora do NIH em relação à admissão; • história de deterioração neurológica dentro de 48 h desde o início dos sintomas. Os resultados observados após 12 meses foram diferentes nos pacientes com mais e menos de 60 anos. Em todos os pacientes, a redução da mortalidade foi de 50%. Entre os que tinham até 60 anos, 55% dos sobreviventes foram capazes de voltar a deambular e 18% atingiram independência (mRS 2 pontos). Naqueles com mais de 60 anos, 11% dos sobreviventes foram capazes de voltar a deambular e nenhum deles atingiu independência (mRS 2 pontos). Como há formação de gliose no tecido que sofreu necrose, gerando tardiamente uma atrofia cerebral, a recolocação da calota óssea pode gerar algumas complicações, como coleções líquidas entre o parênquima e o osso (higroma), hidrocefalia e reabsorção óssea. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 97 CAI NA PROVA (SMS SJP PR 2017) Paciente masculino, 52 anos, chega ao PS por quadro de AVC-I cardioembólico de artéria cerebral média D. Estava alerta, respondendo a comandos verbais e era hemiplégico E. Após 48 horas, evoluiu com redução do nível de consciência e aumento da pressão arterial. Realizada nova tomografia de crânio, que demonstrou extensa área hipodensa em região fronto-occipital D, com edema, apagamento de sulcos e desvio das estruturas da linha média para o lado contralateral. Qual das seguintes medidas é eficaz para esse paciente? A) Derivação ventricular externa. B) Craniectomia descompressiva. C) Hiperventilação. D) Dexametasona EV. E) Manitol EV. COMENTÁRIOS A questão trata de um paciente que evoluiu com infarto cerebral extenso, com hipertensão intracraniana descompensada (rebaixamento da consciência e hipertensão arterial), apresentando sinais tomográficos de gravidade, como apagamento de sulcos e desvio de linha média. Incorreta a alternativa A: a quantidade de liquor intracraniano quando a hipertensão intracraniana está estabelecida é pequena, não havendo praticamente o que se retirar. Além disso, é temerária a introdução de um cateter de derivação em um paciente com herniação, ou quase isso, pelo risco de poder agravar essa complicação. Correta a alternativa B: a hemicraniectomia descompressiva está indicada em pacientes com infarto maligno da artéria cerebral média com menos de 60 anos de idade, pois é capaz de reduzir a mortalidade em 50% e 18% dos pacientes atingem a independência, inclusive voltando a deambular sem apoio, após sua realização. Incorreta a alternativa C: a hiperventilação diminui o volume de sangue arterial para o encéfalo, mas se for prolongada pode gerar isquemia e, consequentemente, morte celular com edema citotóxico, com piora da hipertensão intracraniana. Incorreta a alternativa D: a dexametasona não é capaz de reduzir a pressão intracraniana nesses pacientes, não sendo indicada para o tratamento de edema citotóxico. Incorreta a alternativa E: o manitol é um diurético osmótico que diminui a viscosidade sanguínea, retirando líquido extracelular e reduzindo o volume do parênquima cerebral, diminuindo temporariamente a pressão intracraniana, porém com menor eficácia que a craniectomia descompressiva. Ele deve ser sempre utilizado por um curto intervalo de tempo. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 98 2.9 ATAQUE ISQUÊMICO TRANSITÓRIO Uma situação que se confunde muito com o AVC isquêmico é o ataque isquêmico transitório (AIT). No AIT, os sintomas são súbitos e de causa neurovascular, mas não há morte neuronal, porque o sangue volta a circular pelo tecido antes que essas células morram. O paciente fica sem qualquer déficit neurológico ao final do evento. Pela definição clássica, a duração dos sintomas no AIT deve ser inferior a 24h. Entretanto, a definição mais aceita atualmente é a de que não pode haver evidência de morte neuronal pelos exames de imagem. A imensa maioria dos AITs melhoram antes de 1 h e, dificilmente, o paciente chega sintomático ao pronto-socorro. Se isso acontecer, o examinador precisa colocar no enunciado da questão que houve regressão completa dos sintomas espontaneamente. Podemos dizer que o AIT é um “AVC que não deu certo”. Nele, há apenas penumbra isquêmica, que é completamente restaurada sem qualquer intervenção. O exame com maior sensibilidade para isso é a ressonância magnética de crânio com difusão. Muitas vezes, fica difícil estabelecermos se o quadro foi de AVC ou de AIT. Caso a tomografia mostre, nas horas subsequentes, a presença de lesão hipodensa compatível na área responsável pelos sintomas, houve morte neuronal e o quadro foi de AVC isquêmico mesmo. Os pacientes com AIT devem ser avaliados quanto ao risco de desenvolverem um AVC, que é maior nas primeiras 48h. Para isso, usamos a escala ABCD2, atribuindo pontos e classificando o paciente conforme a tabela a seguir: Critério Especificação Pontuação A (age) > 60 anos +1 B (blood pressure) PAS > 140 mmHg ou PAD > 90 mmHg +1 C (clínica) Hemiparesia +2 Alteração de fala isolada +1 D (duração) 10-59 min +1 > 59 min +2 D (diabetes) +1 A pontuação da escala ABCD2 varia de 0-7. A interpretação da pontuação em relação ao risco de desenvolvimento de AVC isquêmico é a seguinte: • Baixo risco: 0-3 pontos; • Risco moderado: 4-5 pontos; • Alto risco: 6-7 pontos. De acordo com essa pontuação, pacientes com risco baixo a moderado poderiam ser liberados para reavaliação ambulatorial, com exames de investigação etiológica em menos de 48h. O número de exames para investigação é alto, como você verá no próximo tópico. Por isso, é inviável, na maioria dos nossos serviços, atualmente, liberar o paciente para retorno com exames. O que se faz, na prática, é a conduta indicada aos pacientes de alto risco: internar para investigar. Tabela 12: escore ABCD2 para avaliação de pacientes com risco de AVC isquêmico em até 90 dias. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 99 CAI NA PROVA (HEJSN ES 2021) Homem, 67 anos, procura atendimento após segundo episódio de perda de força em membro superior e inferior direito com recuperação total.Nega alteração em expressão de face, fala e sensibilidade. No exame físico, apresenta-se hipertenso, sem detecção de hipotensão postural, ritmo cardíaco irregular, força preservada em membros superiores e inferiores. Qual é a hipótese diagnóstica mais provável a ser considerada nesse caso? A) Ataque isquêmico transitório B) Acidente vascular isquêmico C) Transtorno conversivo D) Síndrome de Von Recklinghausen E) Hipoglicemia COMENTÁRIOS: Correta a alternativa A: como o paciente apresentou um déficit neurológico de início súbito com “recuperação total” dos sintomas, a principal hipótese é a de AIT. Incorreta a alternativa B: a reversão completa e espontânea dos déficits desfavorece a hipótese de AVCi e aponta para a possibilidade de AIT. Incorreta a alternativa C: embora o transtorno conversivo seja um diagnóstico diferencial, nessa situação, é uma hipótese de exclusão, não devendo ser a primeira consideração diagnóstica. Incorreta a alternativa D: a síndrome de von Recklinghausen, também conhecida como neurofibromatose do tipo 1, é uma doença genética e está associada a lesões de pele, alteração de aprendizado, deformidades ósseas, entre outras. Incorreta a alternativa E: a hipoglicemia pode estar associada à ocorrência de déficit neurológico focal, contudo o enunciado não descreve nenhuma medida de glicemia nos episódios e nem o paciente apresenta fatores de risco para hipoglicemia, sendo o principal deles a diabetes mellitus, com efeito colateral de medicações. (UFCG PB 2020) Que escore pode ser utilizado para prever o risco de Acidente Vascular Cerebral nos dias após um Ataque Isquêmico Transitório, em adultos? A) CHADS-VASC B) ABCD2 C) APRI D) NIHSS E) ASPECTS COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: o escore CHADS-VASC é usado para avaliação do risco de AVC em pacientes com fibrilação atrial não valvar, ajudando na decisão sobre anticoagulação. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 100 Correta a alternativa B: o escore ABCD2 mede o risco de um paciente com AIT desenvolver AVC. De acordo com esse escore, os pacientes são classificados em risco leve, moderado e alto. Incorreta a alternativa C: o escore APRI analisa o grau de fibrose hepática. Incorreta a alternativa D: o escore NIHSS é obtido por meio da avaliação clínica de pacientes com AVC isquêmico e é útil para o acompanhamento desses pacientes antes, durante e após a trombólise e/ou trombectomia mecânica. Incorreta a alternativa E: o ASPECTS é um escore tomográfico utilizado para a análise do risco de sangramento com trombólise em pacientes com AVC isquêmico agudo. 2.10 INVESTIGAÇÃO ETIOLÓGICA E PROFILAXIA SECUNDÁRIA Estrategista, depois de realizar o tratamento da fase aguda, tentando salvar o máximo de neurônios da penumbra por meio de medidas de reperfusão, deve ficar claro que o trabalho ainda não terminou. Existe uma doença que causou o AVC. Pode ser aterosclerose, embolia cardíaca ou outra, como veremos. Essa doença não foi curada e, talvez, nem seja. E o pior, ela pode causar um novo AVC. Como faremos, então? Aproveitamos que o paciente será internado para compensação clínica e, durante sua permanência no hospital, realizamos os exames que poderão revelar a etiologia do quadro. Assim, quando seguro, podemos iniciar o mais rápido possível o tratamento profilático adequado. 2.10.1 INVESTIGAÇÃO ETIOLÓGICA – CLASSIFICAÇÃO DE TOAST A classificação de TOAST divide os AVCs isquêmicos, de acordo com o mecanismo etiológico, em cinco grupos: • doença de grandes vasos; • cardioembolia; • doença de pequenos vasos (lacunas); • outras causas (raras); • mecanismo indeterminado (causa não elucidada, investigação incompleta ou mais de uma etiologia possível). Os exames solicitados aos pacientes com AVC isquêmico deverão investigar as causas mais comuns de cada grupo, levando- se em conta os dados clínicos (história, exame neurológico e resultado da neuroimagem inicial). 2.10.1.1 ATEROMATOSE DE GRANDES VASOS A doença de grandes vasos é causada, fundamentalmente, por aterosclerose. Corresponde a entre 15 a 20% dos casos de AVC isquêmico. É comum que esses pacientes sejam portadores de fatores de risco, como hipertensão, dislipidemia, diabetes e tabagismo. Clinicamente, o paciente apresentará sintomas sempre no mesmo território arterial cujo vaso esteja afetado. Esse vaso pode ter uma placa que sofre embolias sucessivas. Um exemplo é o de um paciente que apresentou um AVC isquêmico da artéria cerebral média esquerda, com hemiparesia direita e, tempos depois, um novo AVC isquêmico da mesma artéria, agora com afasia. O exame físico poderá revelar, além dos sinais e sintomas neurológicos decorrentes do território comprometido, alterações vasculares, como sopro carotídeo e/ou assimetria de pulsos temporais. Sinais de aterosclerose em outros segmentos do corpo também podem ajudar a reforçar a suspeita. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 101 O sopro carotídeo ocorre por um turbilhonamento na passagem do sangue pela artéria carótida interna. Ele é audível na região paramediana anterior do pescoço. Seu significado é de uma estenose entre 70 a 99% da luz do vaso. A assimetria dos pulsos temporais é vista quando há oclusão de uma carótida interna. O volume sanguíneo proveniente da artéria carótida comum ipsilateral ao vaso ocluído irá todo para a carótida externa, a artéria temporal, ramo dessa carótida externa, terá mais sangue e o pulso será mais amplo. Quer dizer, do lado de maior pulso temporal, o mais provável é que a carótida interna esteja ocluída. A investigação desses pacientes é feita por meio de exames de imagem, como Doppler de carótidas e vertebrais, angioTC, angioRM, angiografia ou Doppler transcraniano. O mais disponível em nosso meio, não invasivo, mais barato e sem riscos para o paciente, é o Doppler de artérias carótidas e vertebrais (figura 38). Ele só avalia a circulação cervical, mas é justamente nessa topografia que se localiza a maior parte das placas ateromatosas que podem estar envolvidas em quadros de AVC isquêmico. Figura 38: US Doppler de carótidas e vertebrais, usado para avaliação de estenoses cervicais. O Doppler transcraniano é um método com mais limitações, muito dependente de operador, nem sempre de fácil execução em alguns pacientes, mas que permite a avaliação da hemodinâmica cerebral, importante para o diagnóstico de estenoses intracranianas e da reserva microcirculatória em quadros de ateromatose de pequenos vasos. Quando o quadro de AVC ou AIT for devido ao comprometimento ipsilateral à estenose/oclusão, ele é chamado de lesão sintomática. Se o achado de estenose for contralateral ao território encefálico afetado, ele é chamado de assintomático. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 102 2.10.1.2 ATEROMATOSE DE PEQUENOS VASOS (LACUNAS) O AVC lacunar ocorre por doença de pequenos vasos perfurantes (figura 39), geralmente afetando os núcleos da base (onde está a cápsula interna), os tálamos, a ponte e o cerebelo. Ele corresponde a entre 15 a 25% dos casos de AVC. Os fatores de risco são os mesmos dos pacientes com doença de grandes vasos: diabetes, hipertensão e dislipidemia. Figura 39: AVC lacunar (seta) na coroa radiada à esquerda. Fonte: Shutterstock. O exame neurológico será compatível com o de uma síndrome lacunar: hemiparesia completa e proporcionada, com ou sem hemi-hipoestesia completa, sem outras alterações. A parte sistêmica poderá não revelar alterações “macrovasculares”, como os sopros e alterações de pulso. A avaliação por imagem é realizada por RM ou TC de crânio, demonstrando as lacunas. Em 15% das vezes, esses infartos são cardioembólicos.Nos restantes, a oclusão ocorre por lipo-hialinose dos pequenos vasos perfurantes. 2.10.1.3 CARDIOEMBOLIA O mecanismo cardioembólico é responsável por cerca de 30% dos casos de AVC isquêmico. Cerca de 13 a 26% de todos os AVCs ocorrem por fibrilação atrial (FA). A FA pode aumentar o risco de AVC entre 5 vezes (FA não valvar) até 17 vezes (FA valvar). O infarto do miocárdio também pode causar AVC em 2 a 3% dos casos nos primeiros 30 dias, e o risco aumenta 5% ao ano se houver aneurisma apical ou áreas de hipocinesia. Outras causas incluem endocardite bacteriana (AVC isquêmico por êmbolo séptico é a complicação neurológica mais comum), próteses valvares, mixomas e miocardiopatias. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 103 O paciente com AVC cardioembólico pode apresentar história prévia de cardiopatia, com queixas de angina, síncope, dispneia e edema, mas pode ser assintomático. Caso ele tenha AVC recorrente, os territórios costumam ser diferentes (lados diferentes e/ou território anterior e posterior no mesmo paciente). O exame clínico pode revelar sinais de insuficiência cardíaca, sopros em áreas de ausculta cardíaca ou irregularidade no pulso (sugestiva de fibrilação atrial). A investigação é realizada com ecocardiograma (transtorácico em maiores de 45 anos e transesofágico em pacientes mais jovens que isso), eletrocardiograma (ou Holter ECG 24h). A sensibilidade do Holter para diagnóstico de FA paroxística é de 1%, sendo muitas vezes indicada monitorização prolongada invasiva e, mais recentemente, por meio de dispositivos, como relógios inteligentes. Alguns outros casos têm sido atribuídos à presença de forame oval patente (FOP), sendo alguns deles beneficiados com a colocação de um dispositivo para oclusão do FOP. Esses pacientes podem desenvolver AVC após manobra de Valsalva, devendo ser investigados com ecocardiograma transesofágico com microbolhas. Em nosso meio, é obrigatória a pesquisa da doença de Chagas por meio da sorologia. CAI NA PROVA (HCB - SP 2018) Nesta manhã, foi solicitado o seu parecer de um paciente com alteração neurológica aguda, que havia sido trazido, na noite anterior, por familiares. No momento em que você avaliava o paciente, o Neurologista também iniciou seu parecer e ambos acabaram por considerar importante, naquele caso, outras avaliações. Os exames vasculares de imagem devem ser realizados rapidamente para que sejam identificados os pacientes com estenoses arteriais importantes e que podem se beneficiar com um tratamento cirúrgico por endarterectomia ou por angioplastia. Sobre isso, assinale a alternativa que apresenta um conceito equivocado. A) EcoDoppler de artérias carótidas e vertebrais deve ser realizado em todos os pacientes com suspeita de ateromas nessas artérias, como possíveis fontes de embolia cerebral. B) O ecoDoppler transcraniano é um método que permite avaliar o fluxo sanguíneo intracraniano. É um importante método complementar para a avaliação da hemodinâmica intracraniana em casos de doenças cerebrovasculares. C) O ECG sozinho, não pode identificar uma fibrilação atrial como fonte embólica, pois sua especificidade para diagnóstico dessa arritmia é muito baixa. D) Avaliação cardíaca por meio de ECG e ecocardiograma deve ser considerada nos pacientes com suspeita de fontes embólicas do coração ou do arco da aorta. COMENTÁRIOS: Correta a alternativa A: o Doppler de artérias carótidas e vertebrais avalia a circulação cervical, justamente onde se localiza a maior parte das placas ateromatosas envolvidas em quadros de AVC isquêmico aterotrombótico. Correta a alternativa B: o Doppler transcraniano realiza a avaliação da hemodinâmica cerebral, importante para o diagnóstico de estenoses intracranianas e da reserva microcirculatória em quadros de ateromatose de pequenos vasos. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 104 Incorreta a alternativa C: o ECG é um método totalmente capaz de detectar fibrilação atrial, principalmente nos casos em que ela é do tipo persistente. Nos quadros de suspeita de fibrilação atrial paroxística, pode ser necessário o uso de outros métodos, com registro por dias a meses. Correta a alternativa D: a avaliação de fontes cardioembólicas deve levar em conta as arritmias, valvopatias e miocardiopatias. Para isso, são solicitados e realizados o eletrocardiograma (ECG) e um ecocardiograma (ECO) transtorácico. Em casos selecionados, pode ser solicitado um ECO transesofágico. 2.10.1.4 OUTRAS CAUSAS Cerca de 4% dos casos de AVC isquêmico caem nesse grupo, que poderíamos chamar de “causas raras”. Entre elas, podemos encontrar vasculopatias, doenças hematológicas e síndromes genéticas. A proporção de casos “raros” é maior no grupo de pacientes com menos de 45 anos. Veremos em breve como investigar as causas de AVC nesse grupo mais jovem. 2.10.1.4.1 AVC ISQUÊMICO EM PACIENTES JOVENS (dizer que a via motora começa no córtex do giro pré-central, no lobo frontal, no corpo celular do neurônio motor superior. Esse neurônio emite um prolongamento que passa pela coroa radiada, cápsula interna, tronco encefálico e, na porção mais inferior do tronco (bulbo), a maioria dessas fibras cruza para o outro lado. Praticamente, todas as lesões vasculares encefálicas que afetam a via motora de um lado causarão sintomas contralaterais, porque a via para o controle da força do membro superior direito, por exemplo, começa no hemisfério esquerdo. Nesse trajeto, a via motora é irrigada por diferentes vasos. Antes de entrar nessa parte, vamos lembrar do homúnculo de Penfield (figura 8). Ele é a representação cortical da área motora (e da sensitiva, logo atrás, no giro pós-central). Quando olhamos um corte coronal do córtex cerebral na altura do giro pré-central, temos uma área mais medial e outra mais superolateral. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 15 No homúnculo de Penfield, a área medial é responsável pelos neurônios motores para o membro inferior e é irrigada pela artéria cerebral anterior. A região superolateral possui neurônios para o membro superior, face, língua e laringe, sendo irrigada pela artéria cerebral média. Na região mais profunda do córtex, encontraremos a cápsula interna, onde as fibras para os membros superiores, inferiores e face estão todas compactadas. A cápsula interna é irrigada por ramos da artéria cerebral média: as artérias lenticuloestriadas. Finalmente, chegamos ao tronco encefálico, onde as fibras continuam compactadas, mas são irrigadas pelo sistema vertebrobasilar. 1.6 TERRITÓRIO DA ARTÉRIA CEREBRAL MÉDIA O que nos ajuda muito na identificação do território arterial afetado é a semiologia do quadro. É importante saber que estruturas estão próximas a cada ponto do trajeto da via motora. Para isso, devemos assimilar mais um conhecimento: o trajeto da artéria cerebral média e suas divisões, já que ela é a mais frequentemente comprometida nos casos de AVC isquêmico. A artéria cerebral média origina-se da artéria carótida, em uma posição mais medial e profunda no encéfalo, na altura do polígono de Willis, e logo assume um trajeto horizontal até a fissura lateral (de Sylvius), que separa os lobos frontal, parietal e temporal. Ela possui quatro segmentos (M1, M2, M3 e M4), mas apenas os dois primeiros nos interessam. No seu terço proximal, conhecido como tronco ou segmento M1 (memorize essa nomenclatura!), ela emite pequenos ramos perfurantes que irrigarão a cápsula interna: artérias lenticuloestriadas. Ao aproximar-se da fissura sylviana, ela bifurca- se em segmentos chamados divisão M2. Uma divisão dará a volta na fissura por cima e irrigará os lobos frontal e parietal (divisão superior) e a outra dará a volta inferiormente, na mesma fissura, nutrindo a parte superior do lobo temporal e parte dos núcleos da base. A divisão superior irriga a porção do córtex motor, responsável pelos movimentos do membro superior contralateral e da face (andar superior bilateral e inferior contralateral). A via visual é explicada detalhadamente no capítulo de anatomia, fisiologia e semiologia neurológica. A divisão superior M2, além do homúnculo de Penfield, irriga a área responsável pelo olhar conjugado (frontal eye field ou campo visual frontal), discutida no capítulo de anatomia, fisiologia e semiologia neurológica. Ela também é responsável pela área de Broca no hemisfério dominante, cuja função é a expressão da linguagem. No hemisfério não dominante, esse território cuida da atenção espacial (sua lesão leva à heminegligência. Leia sobre isso no capítulo de demências). No lobo parietal, a cerebral média M2 – divisão superior, é responsável pela irrigação da área sensitiva primária e de áreas corticais envolvidas com várias funções, como veremos no capítulo sobre demências. Além disso, ela perfunde as fibras da radiação óptica que carregam informações do quadrante inferior contralateral do campo visual. Você já consegue imaginar que um infarto de M2 superior Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 16 pode gerar um quadro clínico bem florido, não é mesmo? É o que veremos no tópico de síndromes neurovasculares, mais adiante. Infelizmente, é preciso explicar tudo isso para que você consiga entender e acertar o maior número possível de questões sobre o tema! Não desanime! A divisão inferior da artéria cerebral média vai perfundir a região dos núcleos da base e sua isquemia pode gerar algumas síndromes de movimentos involuntários bem raras. Porém, o principal local irrigado por ela é a área de Wernicke, relacionada à compreensão da linguagem (mais bem explicada no capítulo de demências). A parte da via visual que corresponde às fibras para o quadrante superior contralateral que passa pelo lobo temporal também é irrigada por esse segmento. 1.7 TERRITÓRIO DA ARTÉRIA CEREBRAL ANTERIOR A artéria cerebral anterior tem menos importância nos quadros de AVC isquêmico do que a cerebral média, mas seu quadro já foi tema de questões de prova de Residência. Ela tem origem na carótida interna e sua principal atribuição é irrigar a porção medial do hemisfério cerebral, onde se encontram os neurônios motores corticais para controle do membro inferior contralateral. Outra função cortical localizada na porção medial dos lobos frontais, cuja área é irrigada pela cerebral anterior, é a volição, que é a capacidade de ter vontade e iniciar uma tarefa. Finalmente, parte do controle da micção está situada na área de irrigação da artéria cerebral anterior. A figura 8 resume as áreas atribuídas a cada um dos territórios carotídeos discutidos até agora. Figura 8: principais estruturas irrigadas pelas diferentes porções das artérias do sistema carotídeo. Fonte: Trello. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 17 1.8 TERRITÓRIO DA ARTÉRIA CEREBRAL POSTERIOR A artéria cerebral posterior é componente do sistema vertebrobasilar e irriga a porção inferior do lobo temporal, o lobo occipital, parte do diencéfalo e a maior parte do mesencéfalo. O lobo occipital contém neurônios da via visual e é irrigado pelo segmento distal da artéria cerebral posterior. Cada lobo occipital recebe informações, de ambos os olhos, do campo visual contralateral. No capítulo de anatomia, fisiologia e semiologia neurológica, encontramos a descrição completa dessa via e suas principais alterações. Nos tálamos, as áreas mais importantes são as relacionadas às vias sensitivas, incluindo vias de dor. Lesões talâmicas podem gerar dor neuropática central. 1.9 TERRITÓRIOS DAS ARTÉRIAS VERTEBRAIS, BASILAR E CEREBELARES No tronco encefálico, a via motora passa próxima aos núcleos e fibras de alguns nervos cranianos e de vias cerebelares. Como veremos adiante, isso gerará quadros interessantíssimos, de déficits motores contralaterais a déficits de nervos cranianos e cerebelares (síndrome alterna), razoavelmente cobrados em provas de Residência. A artéria basilar, por ser um vaso único, não em par, como em todos os outros casos, é responsável pela irrigação da ponte bilateralmente. Ela emite ramos bilaterais chamados de circunferenciais e paramedianos. Veremos, mais à frente, que sua isquemia pode causar sintomas nos dois lados do corpo (quando afetar sua porção proximal) ou unilaterais (quando acometer um de seus ramos). No cerebelo, como as vias para a coordenação de movimentos são oriundas do hemisfério cerebral contralateral e depois retornam àquele hemisfério de origem com a informação neural processada pelos núcleosda coagulação correspondem a 1% dos quadros de AVC em pacientes de qualquer idade e a 4 a 8% das causas em pacientes jovens. As causas hematológicas mais comuns de AVC isquêmico em pacientes jovens são: • anemia falciforme; • policitemia vera; • trombocitose essencial; • trombocitopenia induzida por heparina; • deficiência de proteínas C e S funcionais; • mutação do gene da protrombina; • presença do fator V de Leyden (resistência à proteína C ativada); • deficiência de antitrombina-III; • síndrome antifosfolípide; • hiper-homocisteinemia. A síndrome do anticorpo antifosfolipídio (SAAF) é uma causa comum de AVCi em jovens. É uma doença autoimune associada a eventos trombóticos e abortos de repetição. O diagnóstico é feito a partir dos seguintes critérios: presença de trombose documentada em qualquer sítio OU abortamentos de repetição E presença de um dos três anticorpos antifosfolipídios: anticardiolipina, anticoagulante lúpico e beta-2-glicoproteína 1. Um detalhe importante é que o diagnóstico de SAAF requer dois exames positivos, com intervalo de 12 semanas entre si. Observação: a mutação do gene da protrombina e a presença do fator V de Leyden estão mais relacionados a eventos venosos do que arteriais. A anemia falciforme é a causa mais comum de AVC em crianças e deve ser pesquisada em todas as idades por meio da eletroforese de hemoglobina. CAI NA PROVA (Santa Casa - São Paulo 2016) AVC em paciente jovem qual dos seguintes exames abaixo você NÃO solicitaria para investigar a etiologia? A) Fator V Leiden B) Sorologia HIV C) FAN D) Proteína C reativa E) Proteína S Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 106 COMENTÁRIOS Correta a alternativa A: embora a mutação do fator V de Leyden esteja mais relacionada à eventos venosos, ela deve ser realizada em pacientes com AVC isquêmico com menos de 45 anos. Correta a alternativa B: o HIV pode causar uma arteriopatia inflamatória infecciosa e deve ser investigado. Correta a alternativa C: o FAN é um exame útil na investigação de lúpus eritematoso sistêmico. O LES é uma causa de vasculite e pode levar ao AVC em jovens. Incorreta a alternativa D: a proteína C reativa é um exame inespecífico e, se alterado, não se relaciona necessariamente a uma causa inflamatória de AVC em jovem, diferentemente da proteína C funcional, cuja deficiência pode estar associada a eventos trombóticos. Correta a alternativa E: a proteína S é um dos fatores envolvidos na cascata da coagulação e sua deficiência pode levar a um quadro de hipercoagulabilidade. (UNESP - 2022) Mulher de 30 anos apresentou acidente vascular encefálico (AVE) há um mês. AP: sem comorbidades. Exame físico: sem déficits neurológicos. Exames: tomografia cervical, tomografia encefálica e holter: normais; ecocardiograma transesofágico: persistência de forame oval pérvio com diâmetro de 0,5 x 0,7 cm. A conduta mais adequada para a prevenção de recorrência de AVE é: A) antiagregação plaquetária. B) anticoagulação. C) fechamento do forame oval. D) seguimento ambulatorial. COMENTÁRIOS Estrategista, questão difícil, bem específica e que não costuma ser abordada frequentemente. Diante de um indivíduo com AVC isquêmico, já na fase de investigação e definição de profilaxia secundária, precisamos nos ater a 5 grandes causas (ASCOD), o que envolve uma investigação específica e, consequentemente, uma profilaxia secundária específica. Vamos revisar. A - Aterosclerose de grandes vasos • Como investigo: estudo de vasos cervicais e intracranianos. • Profilaxia secundária: antiagregante e estatina. → Angioplastia/endarterectomia se estenose carotídea de 70 a 99% (lembre-se: na oclusão, a abordagem não está indicada) OU de 50 a 69%, especialmente com endarterectomia e em homens. S - Small vessel disease - aterosclerose dos pequenos vasos. • Como investigo: avaliação de fatores de risco e RM/TC de encéfalo. • Profilaxia secundária: antiagregante, estatina, controle pressórico e de glicemia. C - Cardioembolia • Como investigo: ECG e ecocardiograma. Holter e ECO transesofágico podem ser necessários. • Profilaxia secundária: anticoagular em algumas situações - fibrilação atrial/flutter, trombo intracavitário, FEVEaneurisma septal ou de forame oval grande reafirmariam ainda mais a conduta, por serem os subgrupos de maior benefício. A definição de forame oval patente "grande" é muito subjetiva, sendo de 1 cm para alguns autores. Incorreta a alternativa D. Conforme supracitado, desde 2019, o tratamento sugerido é o fechamento endovascular do forame oval patente. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 108 2.10.1.6 RESUMO A tabela a seguir mostra as principais características de cada tipo de AVC e os exames que devem ser solicitados para investigação etiológica. Mecanismo Territórios Exame físico Neuroimagem Exames complementares Ateromatose de grandes vasos Sempre os mesmos Sopro carotídeo, sopro sistêmico, assimetria de pulso temporal Infartos sempre no mesmo território Perfil lipídico, glicemia, HbA1c, angiografia (RM, TC ou cate), Doppler de carótidas e vertebrais, Doppler transcraniano Cardioembolia Variáveis Sopro cardíaco, sinais de insuficiência cardíaca, pulso arrítmico Infartos em territórios diferentes ECG (Holter ECG 24h), ecocardiograma, sorologia para Chagas Ateromatose de pequenos vasos Profundos (lacunas) Nada específico Infartos lacunares (é de 5 mg a cada 12 horas, exceto em pessoas com idade ≥ 80 anos, peso ≤ 65 kg ou creatinina ≥ 1,5. A alternativa está incorreta, pois o critério de peso está errado: > 80 kg. Correta a alternativa C: a dose normal de rivaroxabana é de 20 mg uma vez ao dia. Deve ser reduzida para 15 mg uma vez por dia se o clearance de creatinina estiver entre 15 e 50 mL/minuto. Incorreta a alternativa D: a dose normal de dabigatrana é de 150 mg a cada 12 horas. Deve ser reduzida para 75 mg se o clearance de creatinina estiver entre 15 e 30 mL/minuto. A alternativa está errada pois deu a dose cheia para um clearance menor do que 30. Incorreta a alternativa E: o AVCi da paciente tem etiologia cardioembólica. A melhor opção de tratamento é a anticoagulação, não a aspirina. A alternativa estaria correta se a causa do AVCi fosse outra. 2.10.2.2 ANTIAGREGAÇÃO PLAQUETÁRIA A antiagregação plaquetária em monoterapia ou com a combinação de dois fármacos pode ser realizada com AAS, clopidogrel, dipiridamol e ticagrelor. O AAS é o fármaco mais usado e mais estudado. Ele deve ser iniciado na dose de 100-300 mg, em dose única diária, em todos os pacientes com AVC isquêmico, entre 24 a 48h de início dos sintomas nos pacientes não trombolisados e após 24h da trombólise. A redução de mortalidade cardiovascular com AAS é de 13- 22% e do risco de novo AVC é de 15%. Não existem muitos estudos comparando outros antiagregantes a placebo. Os mais recentes foram comparados à aspirina. O dipiridamol foi estudado em população asiática, que apresenta características diferentes: as estenoses mais comuns são geralmente intracranianas. Comparado ao placebo, mostrou redução de mortalidade em 22% e de 16% no risco de AVC. Em associação com aspirina, a redução do risco de AVC chega a 37%. O clopidogrel apresenta redução de risco de AVC semelhante à aspirina, mas a redução do risco de morte é menor. Os AITs e AVCs sem indicação de anticoagulação devem ser tratados com antiagregantes em monoterapia, indefinidamente. Até mesmo os AVCs isquêmicos de mecanismo indeterminado devem ser tratados com antiagregante, já que os estudos que testaram a anticoagulação empírica falharam em demonstrar superioridade Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 112 em comparação à aspirina. Nos pacientes com mecanismo cardioembólico de alto risco, a partir do 4º ao 14º dia, a antiagregação será trocada para anticoagulação, ou seja, a anticoagulação de urgência não está indicada no AVC isquêmico. Em alguns pacientes, estará indicada a dupla antiagregação plaquetária (DAPT). A DAPT é realizada com a associação de ácido acetilsalicílico (AAS, também chamado de aspirina) e clopidogrel ou AAS e ticagrelor, e estará indicada por um período pré-determinado, após o qual deve-se prescrever apenas um deles (monoterapia): • pacientes com AIT com escore ABCD2 ≥ 4 pontos ou AVC com NIHSS ≤ 5 pontos (AVC menor) - durante 21 dias; • pacientes submetidos à colocação de stent carotídeo - durante um ano; • pacientes com oclusão de grande vaso intracraniano - durante 90 dias. Em pacientes com AVC isquêmico e transformação hemorrágica, em uso de AAS, a medicação deve ser suspensa ou não? A resposta é DEPENDE: • nos quadros de transformação hemorrágica ASSINTOMÁTICA, o AAS deve ser mantido; • na transformação hemorrágica SINTOMÁTICA, a conduta é suspender o AAS por uma ou duas semanas; • pacientes com transformação hemorrágica ANTES DA INTRODUÇÃO DO AAS, deve-se atrasar o início do tratamento; • pacientes com indicação de dupla antiagregação plaquetária (DAPT): não administrar esse tratamento até a resolução do sangramento; • assim, no caso do paciente, não há indicação de suspender a medicação ou de qualquer outra conduta, seja cirúrgica ou hemoterápica. 2.10.2.3 REVASCULARIZAÇÃO CAROTÍDEA O tratamento clínico com AAS e estatina apresenta alta eficácia como profilaxia secundária, sendo indicado a todos os pacientes com mecanismo aterotrombótico, seja de grandes ou de pequenos vasos. Entretanto, nas estenoses de artéria carótida interna cervical, muitas vezes é necessária a realização de intervenção por meio da técnica de endarterectomia (cirurgia aberta – figura 40) ou colocação de um stent. A maioria dos estudos de boa qualidade sobre revascularização carotídea foi feita em pacientes com AVC isquêmico não incapacitante ou AIT. Os indivíduos com AVC incapacitante foram excluídos desses estudos, porque o risco do procedimento, nesse caso específico, parece ser maior. Em pacientes com AVC isquêmico não incapacitante ou AIT com ateromatose de carótida extracraniana sintomática entre 70- 99%, o tratamento deve ser endarterectomia ou stent, realizados preferencialmente entre 3-14 dias após o AVC. A endarterectomia (e não o stent) também é indicada em pacientes do sexo masculino, com AVC não incapacitante ou AIT, com estenose entre 50-69%, porque, nesses casos, o tratamento clínico sozinho pode não ser eficaz, ao contrário do que ocorre nas mulheres. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 113 Figura 40: representação esquemática de uma endarterectomia carotídea. Fonte: Shutterstock. Essas informações estão mais bem visualizadas na figura abaixo: Figura 41: indicações de tratamento clínico e cirúrgico nos pacientes com estenose carotídea sintomática e AVC isquêmico não incapacitante ou AIT. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 114 Nos casos de estenose carotídea assintomática, que são os pacientes em que a investigação mostrou lesão contralateral ao lado do evento cerebrovascular, a indicação do procedimento vai depender do grau de estenose, da expectativa de vida e do risco perioperatório de AVC. A endarterectomia ou o stent serão indicados, além do uso de AAS e estatina, aos pacientes com estenoses entre 70 a 99%, com risco perioperatório de AVC baixo (menor de 3%) e expectativa de vida superior a 5 anos, como mostra a figura abaixo. Figura 42: indicações do tratamento clínico e cirúrgico em pacientes com estenose carotídea que apresentaram AIT ou AVC isquêmico não incapacitante. Caso a carótida esteja ocluída (100% de obstrução), a conduta é o tratamento clínico com AAS e estatina. Antiagregação Pequenos vasos (Lacuna) Acidente vascular cerebral isquêmico Aterotrombótico Desconhecido Cardioembólico Fibrilação atrial Grandes vasosAntiagregação Outras Intervenção Anticoagulação Figura 43: resumo das principais intervenções profiláticas nos pacientes com AVC isquêmico com base no mecanismo etiológico. O resumo das principais medidas terapêuticas, de acordo com a etiologia, é mostrado no fluxograma a seguir. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 115 CAI NA PROVA (USP SP 2021) Homem de 65 anos de idade desenvolveu subitamente amaurose no olho esquerdo. O sintoma foi revertido em poucos minutos, mas voltou a ocorrer algumas horas depois, e na segunda oportunidade durou 2 horas. Tem doença arterial periférica e faz tratamento com antiagregantes plaquetários e estatinas. Foi realizada ultrassonografia com Doppler colorido que mostrou estenose carotídea maior que 50% bilateralmente. A conduta que mais diminui o risco de acidente vascular cerebral, neste caso, é: A) angioplastia com stent em carótida direita. B) angioplastia com stent em carótida esquerda. C) endarterectomia de carótida direita. D) endarterectomia de carótida esquerda. COMENTÁRIOS: Além de já haver evidência de aterosclerose periférica, os sintomas de amaurose monocular súbita e transitória sugerem comprometimento da artéria oftálmica ipsilateraldevido à embolia de uma placa instável da artéria carótida interna. Essa placa está tão instável que gerou isquemia transitória em duas ocasiões, sendo que a segunda foi pior do que a primeira (AIT em crescendo). Incorretas as alternativas A, B e C: tanto o stent quanto a endarterectomia estão contraindicados em pacientes com estenoses carotídeas assintomáticas inferiores a 70%. Nas estenoses sintomáticas entre 50 a 69%, o stent não é indicado. Correta a alternativa D: a estenose da carótida sintomática (lado esquerdo, ipsilateral à amaurose), acima de 50%, em pacientes do sexo masculino, deve ser tratada com endarterectomia para reduzir os riscos de AVC isquêmico, associando-se tratamento clínico otimizado com controle de fatores de risco e associação de estatina e ácido acetilsalicílico. do receptor de angiotensina (BRA), bloqueador de canal de cálcio (BCC) e diurético. • idosos e afrodescendentes respondem melhor a diuréticos e BCC. • não há evidência de que betabloqueadores previnam a recorrência de AVC. • terapia combinada: • se a PAS estiver ≥ 20 mmHg e a diastólica ≥ 10 mmHg acima da meta. • a recomendação da AHA/ACC é para a associação entre IECA e diuréticos como primeira escolha. 2.10.2.4 IMPACTO DO CONTROLE DOS FATORES DE RISCO Os principais fatores de risco para AVC isquêmico já foram mencionados anteriormente. Cada um deles será tratado em seu capítulo específico, nos livros de cardiologia, endocrinologia e pneumologia. O tratamento da pressão arterial reduz o risco de desenvolver AVC; para uma redução de apenas 10 mmHg na pressão sistólica, o risco cai em cerca de 40%. Em pacientes com hipertensão arterial que já foram acometidos por AVC, o controle da pressão arterial deve ser o seguinte: • monoterapia: • para pacientes em que a PAS esteja até 20 mmHg e a diastólica até 10 mmHg acima da meta. • não há evidência de superioridade entre IECA, bloqueador Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 116 • com base em estudos de revisão, alguns especialistas advogam que não há diferença entre IECA + diuréticos e IECA + BCC, mas indicam IECA + BCC, com base no melhor efeito anti-hipertensivo. O tratamento de diabetes com antidiabéticos orais apresenta redução em 24% do risco de AVC. A cessação do tabagismo pode levar a uma queda no risco de AVC em cerca de 35% em até 5 anos. Alguns estudos mostram que, após esse prazo, o risco de AVC pode ser igual ao de um não fumante. CAI NA PROVA (AMRIGS 2017) Que combinação de drogas está associada à redução da recorrência no caso de um paciente hipertenso que teve um Acidente Vascular Encefálico (AVE)? A) Antagonista do cálcio e diurético. B) Vasodilatador e diurético. C) Inibidor da Enzima Conversora da Angiotensina (IECA) e antagonista do cálcio. D) IECA e diurético. E) Vasodilatador e betabloqueador. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: BCC e diurético é uma boa associação, mas não é a recomendada pela AHA/ACC. Incorreta a alternativa B: não há evidências para a associação vasodilatador + diurético para a prevenção da recorrência de AVC. Incorreta a alternativa C: muitos autores preconizam esse esquema como o melhor para tratamento da HAS em pacientes com AVC prévio, mas não é a recomendação da AHA/ACC. Correta a alternativa D: a associação IECA e diurético é a recomendada pela ACC/AHA para o tratamento de pacientes com HAS que já tiveram AVC prévio. Incorreta a alternativa E: vasodilatadores e betabloqueadores não apresentam evidência de eficácia na profilaxia secundária de AVC em pacientes com HAS. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 117 3.0 ACIDENTES VASCULARES CEREBRAIS HEMORRÁGICOS CAPÍTULO 3.1 AVC HEMORRÁGICO INTRAPARENQUIMATOSO 3.1.1 INTRODUÇÃO Cerca de 15% dos casos de AVC são hemorrágicos. Essa hemorragia pode ocorrer no parênquima, pela ruptura de um vaso perfurante (vaso que tem calibre mais estreito e fica longe da superfície), cujo conteúdo sanguíneo extravasado formará uma coleção intraparenquimatosa (figura 44) ou irá para o espaço onde circula o liquor, o subaracnoide. Os AVCs hemorrágicos intraparenquimatosos correspondem a 10% de todos os AVCs. Os outros 5% são por hemorragia subaracnóidea (HSA), tratada no próximo capítulo. Figura 44 : diferenças entre AVC isquêmico e hemorrágico. Fonte: Shutterstock. A mortalidade por AVC hemorrágico intraparenquimatoso é de 50% e a maioria dos sobreviventes fica com sequelas graves. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 118 Os principais fatores de risco para o AVC hemorrágico intraparenquimatoso são hipertensão arterial (70 % dos casos), angiopatia amiloide, MAV (malformações arteriovenosas), coagulopatias, tumores e drogas (principalmente em jovens usuários de cocaína). O local mais afetado são os núcleos da base. A sua fisiopatologia envolve a ruptura de vasos perfurantes nos núcleos da base, principalmente o putâmen (artérias lenticuloestriadas, as mesmas envolvidas com lacunas isquêmicas na cápsula interna), além dos tálamos (vasos talamoperfurantes), ponte e cerebelo. Esses pacientes são portadores de lipo-hialinose e, neles, ocorre a formação de microaneurismas de Charcot- Bouchard, mais susceptíveis à ruptura. Angiopatia amiloide Em pacientes idosos, pode ocorrer ruptura de vasos devido ao quadro de angiopatia amiloide. A angiopatia amiloide, diferentemente da lipo-hialinose, afeta principalmente vasos dos lobos cerebrais e não se relaciona à hipertensão arterial. Ela corresponde a entre 5 a 35% dos casos de AVC hemorrágico intraparenquimatoso. Então, caro Estrategista, em questões sobre pacientes idosos, com hemorragia lobar espontânea e pressão arterial normal, procure a alternativa que contenha o termo angiopatia amiloide. As malformações arteriovenosas podem ser causas de AVC hemorrágico. Elas são caracterizadas pela presença de um vaso arterial que as nutre, um nidus em aspecto de “saco de vermes” e uma drenagem venosa com opacificação precoce ainda na fase arterial aos exames de imagem contrastada. O sangue chega a um vaso venoso com pressão de sangue arterial e pode haver sangramentos. A anomalia de desenvolvimento venoso ou angioma venoso é uma alteração vascular congênita que raramente está associada a isquemias ou hemorragias. Geralmente, ela é um achado de exame incidental. CAI NA PROVA COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: a angiopatia amiloide causa uma hemorragia intraparenquimatosa não hipertensiva, mais comum em idosos, mas não é a causa mais comum de hemorragia intracraniana na população geral. Incorreta a alternativa B: a HSA pode ser traumática ou espontânea. No caso da espontânea, a causa mais prevalente é a ruptura de um aneurisma sacular que se situa na bifurcação de vasos no polígono de Willis. (ESPCE 2016) Qual é a causa mais comum de hemorragia intracraniana? A) Angiopatia amiloide B) Hemorragia subaracnóidea C) Transformação hemorrágica de AVE prévio D) Hemorragia intraparenquimatosa hipertensiva Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 119 Incorreta a alternativa C: a transformação hemorrágica de AVC isquêmico ocorre por reperfusão do vaso ocluído numa área necrótica e a causa da isquemia é, geralmente, de etiologia cardioembólica, Correta a alternativa D: a causa mais comum de hemorragia intraparenquimatosa é hipertensiva, por ruptura de pequenos vasos lenticuloestriados nos núcleos da base ou talamoperfurantes no diencéfalo. Outros locais afetados são a ponte e o cerebelo. 3.1.2 QUADRO CLÍNICO Como já extensamente dito na parte de AVC isquêmico, é impossível diferenciar clinicamente o AVC isquêmicodo hemorrágico, sendo obrigatório realizar exame de imagem. Como, no hematoma, ocorre um aumento agudo da pressão intracraniana e, no AVC isquêmico, a pressão intracraniana aumenta após 3 a 5 dias em virtude do edema citotóxico, alguns sintomas decorrentes de hipertensão intracraniana podem ser encontrados nas primeiras horas de um AVC hemorrágico intraparenquimatoso: • cefaleia; • náuseas e vômitos; • rebaixamento de nível de consciência; • pressão arterial bastante elevada; • crises convulsivas. CAI NA PROVA (Centro Médico de Campinas – 2021) Vômito é um sintoma típico da Hemorragia Intraparenquimatosa HIP, geralmente relacionado ao aumento da PIC. Sendo correto o item: A) apesar das diversas tentativas de diferenciar clinicamente hemorragia supratentorial de AVC isquêmico, esta distinção não é confiável e um exame de neuroimagem é fundamental. B) apesar das diversas tentativas de diferenciar clinicamente hemorragia supratentorial de AVC isquêmico, esta distinção é confiável e um exame de neuroimagem não é fundamental. C) apesar das diversas tentativas de diferenciar clinicamente hemorragia supratentorial de AVC isquêmico, esta distinção não é confiável e um exame de neuroimagem não é fundamental. D) apesar das diversas tentativas de diferenciar clinicamente hemorragia supratentorial de AVC isquêmico, esta distinção é confiável e um exame de neuroimagem é dispensável. COMENTÁRIOS: Correta a alternativa A: o quadro clínico dos pacientes com AVC hemorrágico intraparenquimatoso e isquêmico pode ser idêntico e a única forma de diferenciá-los é por meio de um exame de neuroimagem (TC de crânio ou RM de crânio). Na fase aguda do AVC hemorrágico, a TC de crânio estará alterada, mas, no AVC isquêmico, ela ainda pode ser absolutamente normal. Portanto, na avaliação de um paciente com suspeita de AVC agudo, a função da TC de crânio é descartar hemorragia. Incorretas as alternativas B, C e D: essas alternativas usam o mesmo jogo de palavras da alternativa correta, porém colocam como afirmação ou negação, de forma a ficarem incorretas. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 120 3.1.3 DIAGNÓSTICO O diagnóstico de AVC hemorrágico intraparenquimatoso será feito mediante a suspeita clínica e confirmado pela TC de crânio, que evidenciará uma área hiperdensa no parênquima encefálico, associada ou não à área de inundação ventricular. O local mais afetado é o putâmen (figura 45), seguido pelo tálamo, ponte, cerebelo e lobos cerebrais (figura 46). Figura 45: AVC hemorrágico intraparenquimatoso putaminal esquerdo. Fonte: Shutterstock. A figura mostra uma tomografia computadorizada de crânio, em um corte axial. As partes das imagens que não permitem a passagem de radiação são mais claras, como o sangue (que contém no lugar da tomografia. Às 12 h teremos a parte anterior. Às 3 h, fica a parte lateral esquerda. Às 6 h, temos a região posterior. Finalmente, às 9h, teremos a porção lateral direita. Assim, no hemisfério direito, na região dos núcleos da base, mais especificamente no putâmen, temos uma imagem mais clara, ou hiperdensa. Essa é a imagem típica de um AVC hemorrágico intraparenquimatoso putaminal. ferro) e o osso (contendo cálcio). No corte axial, vemos o paciente como se o olhássemos pelos pés. Imagine um relógio de ponteiros Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 121 Figura 46: principais localizações dos AVCs hemorrágicos intraparenquimatosos e sua fisiopatologia. Fonte: elaborada pelo Prof. Victor Fiorini. CAI NA PROVA (INTO RJ 2018) Um homem de 34 anos é trazido para serviço de emergência após uso de cocaína. O paciente apresenta-se em coma (escala de coma de Glasgow 5), hipertenso e taquicárdico. Após proceder à intubação orotraqueal, o plantonista optou por realizar tomografia computadorizada de crânio que revelou a imagem abaixo. Qual é o diagnóstico adequado para essa situação? A) Neoplasia intracraniana B) Hematoma epidural C) Hemorragia intracraniana D) Acidente vascular cerebral isquêmico E) Hematoma subdural COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: a neoplasia intracraniana apresenta aspecto hipodenso (mais escuro), com realce ao contraste. Não foi usado contraste nesse exame. Incorreta a alternativa B: o hematoma epidural, ou extradural, forma-se como uma lente biconvexa entre o crânio e o osso, não ultrapassando o limite das suturas. Essa imagem é intraparenquimatosa. Correta a alternativa C: o AVC hemorrágico intraparenquimatoso putaminal é o mais comum entre as hemorragias intracranianas. Ele ocorre em pacientes com quadro de hipertensão e pode ser visto em usuários de drogas que evoluíram com elevação intensa da pressão arterial. A imagem hiperdensa na região dos núcleos da base é típica, como mostrado nessa tomografia. Incorreta a alternativa D: o acidente vascular cerebral isquêmico causa morte celular e edema citotóxico. As células daquele tecido ficam cheias de água e permitem ainda mais a passagem da radiação, assumindo um aspecto mais escuro na tomografia (hipodensidade). Incorreta a alternativa E: o hematoma subdural forma uma imagem de meia-lua entre o encéfalo e o crânio, de coloração branca (hiperdensa) na sua fase aguda, e cinza ou mais escura no caso de hematoma subdural crônico (iso ou hipodenso). Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 122 3.1.4 TRATAMENTO CLÍNICO O tratamento do AVC hemorrágico é clínico, com algumas indicações cirúrgicas. As medidas a serem tomadas são suporte intensivo (circulatório e ventilatório) adequado do ABCD de qualquer emergência, controle da PA, medidas gerais de redução da pressão intracraniana (PIC) e anticonvulsivantes se houver crise epiléptica. A conduta quanto à PA deve ser tomada de acordo com a tabela abaixo: Valor de PA Método Alvo de PA Observações 150-220 mmHg Agudo 140 x 90 mmHg Redução mais intensa pode gerar lesão renal > 220 mmHg Agressivo (com nitroprussiato EV) Desconhecido, mas parece razoável manter PA sistólica entre 140-160 mmHg Monitorização frequente da PA (a cada 5 minutos) Tabela 16: indicações e conduta em relação à pressão arterial em pacientes com AVC hemorrágico intraparenquimatoso. CAI NA PROVA (SES PB 2021) Você está na emergência e avalia, em sala vermelha, H.J.S., masculino, 63 anos, informando que, há 2 horas, apresentou quadro súbito de hemiparesia direita completa e proporcionada, grau 3. O colega que o antecedeu solicitou uma tomografia que veio com a seguinte laudo: área hiperdensa com efeito de massa, localizado em núcleos da base à direita discreto edema perilesional, sugestivo de hematoma intraparenquimatoso. Sem antecedentes patológicos pregressos. Ao exame: estado geral regular, acordado, consciente, Glasgow 15, ACV: RCR 2T BNF s/S FC: 84 bpm, PA: 220/140 mmHg, aparelho respiratório e abdômen normais. Diante desse caso, qual é a conduta indicada no que tange ao manejo da pressão arterial (PA)? A) Manter PA próximo a 140/90 mmHg, usar, no momento, nitroprussiato de sódio. B) Manter PA abaixo de 120/80 mmHg, usar, no momento, nitroprussiato de sódio. C) Manter PA próximo a 140/90 mmHg, usar medicamentos anti-hipertensivos orais - IECA. D) Manter PA entre 140/90 mmHg e 180/110 mmHg, usar nimodipino, prevenir vasoespasmo com hemodiluição por hidratação venosa. E) Manter PA abaixo de 120/80 mmHg, usar nimodipino, prevenir vasoespasmo com hemodiluição por hidratação venosa. COMENTÁRIOS: Correta a alternativa A: como o paciente apresentou um AVC hemorrágico intraparenquimatoso e tem uma PAS de 220 mmHg, pode-se considerar o uso de nitroprussiato para tratamento. O objetivo pressórico deve ser algo em torno de 140/90 mmHg. Incorreta a alternativa B: de fato, onitroprussiato pode ser usado nesse caso, mas o controle pressórico não deve chegar a 120/80 mmHg. Incorreta a alternativa C: o alvo pressórico está correto, mas o tratamento deve ser feito com nitroprussiato ao invés dos anti-hipertensivos orais sugeridos pela alternativa. Incorretas as alternativas D e E: essas alternativas descrevem as medidas de tratamento para hemorragia subaracnóidea, não para AVC hemorrágico intraparenquimatoso. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 123 3.1.5 TRATAMENTO CIRÚRGICO Alguns casos de AVC hemorrágico intraparenquimatoso podem evoluir com síndrome de hipertensão intracraniana e necessitar de tratamento cirúrgico. As indicações de tratamento cirúrgico não ◊ volume do hematoma de 20-50 mL; ◊ Escala de Coma de Glasgow 9-12; ◊ idade entre 50-69 anos; ◊ hematoma lobar sem inundação ventricular (lesões profundas são de difícil acesso e seria necessário lesar tecido neural para chegar até elas). • Hemorragia cerebelar: ◊ hematoma cerebelar > 3 cm; ◊ rebaixamento do nível de consciência; ◊ compressão do tronco e/ou hidrocefalia obstrutiva. costumam ser cobradas nas provas de Residência. Porém, como esse é um assunto constante de congressos de neurologia, é melhor não deixarmos passar. As indicações de cirurgia são: • Hemorragia supratentorial: ◊ cirurgia em até 8 h do início dos sintomas; 3.1.6 PROGNÓSTICO O prognóstico do paciente com AVC hemorrágico intraparenquimatoso pode ser estimado por meio do escore ICH (tabela). DADO CLÍNICO Achado Pontos Glasgow da admissão 3-4 2 5-12 1 13-15 0 Idade ≥ 80 anos 1 10 mm = 0,5%/ano); • fatores genéticos: doenças do colágeno, como Ehlers- Danlos, e associação de aneurismas cerebrais na doença policística renal autossômica dominante (ADPKD); • outros: ◊ sexo feminino; ◊ afrodescendentes; ◊ ingestão excessiva de álcool; ◊ uso de estatinas (controverso); ◊ esforço físico. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 126 Em 85% dos casos, os aneurismas são da circulação anterior, principalmente nas bifurcações dos vasos do polígono de Willis: • junção entre comunicante anterior e cerebral anterior (mais comum em homens); • junção entre a carótida interna e a comunicante posterior (mais comum em mulheres); • bifurcação da artéria cerebral média (entre M1 e M2). Os 15% restantes dos casos, na circulação posterior, distribuem-se entre o topo da basilar (10%) e as artérias vertebrais (5%). A mortalidade por HSA pode chegar a 30%, com os sobreviventes apresentando sequelas graves em até 50% dos casos. CAI NA PROVA (UFS - SE 2016) Causa mais comum de hemorragia subaracnóidea: A) MAVs cerebrais B) Ruptura de aneurismas intracranianos C) Vasculite cerebral D) Traumatismo cranioencefálico COMENTÁRIOS Incorreta a alternativa A: malformações arteriovenosas cerebrais podem ser causa de HSA, mas não são as etiologias mais comuns.Incorreta a alternativa B: a ruptura de aneurismas intracranianos é a causa mais comum de HSA espontânea, mas não de todas as HSAs. Incorreta a alternativa C: vasculites cerebrais podem causar HSA, mas ocorrem em poucas oportunidades quando comparadas com outras causas. Correta a alternativa D: ATENÇÃO PARA A PEGADINHA! ESSA BANCA CONSIDERA QUE A CAUSA MAIS COMUM DE HSA É TRAUMA, NÃO ANEURISMA! (UNAERP 2021) Assinale a opção que apresenta uma doença que predispõe à hemorragia subaracnóidea. A) Esclerose múltipla B) Doença renal policística autossômica dominante C) Hipercolesterolemia familiar D) Deficiência de alfa-1 antitripsina E) Doença de Huntington COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: a esclerose múltipla é uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso central, causando desmielinização. Não afeta diretamente os vasos nem aumenta a incidência da HSA. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 127 Correta a alternativa B: a doença renal policística autossômica dominante é um dos fatores de risco genético mais importante para a formação de aneurismas intracranianos e consequente HSA. Apresenta uma alta taxa de sangramento em indivíduos portadores de aneurismas em comparação com a população geral. Incorreta a alternativa C: apesar de alguns estudos sugerirem aumento de incidência de hemorragia intraparenquimatosa em pacientes tratados com estatinas, não há uma relação clara da hipercolesterolemia familiar com a HSA. Incorreta a alternativa D: a deficiência de alfa-1 antitripsina é uma doença genética associada ao desenvolvimento de hepatopatia crônica e DPOC, mas não à HSA. Incorreta a alternativa E: a doença de Huntington tem origem genética, autossômica dominante, causando alteração neuropsiquiátrica, degeneração cognitiva e vários transtornos do movimento. Não está associada, contudo, à HSA. 3.2.2 QUADRO CLÍNICO O QUADRO DE HSA COMEÇA COM CEFALEIA SÚBITA. Com essa informação, você já é capaz de acertar uma dezena de questões! Cefaleia súbita é aquela que se instala e atinge sua intensidade máxima dentro de poucos segundos, de modo que o paciente se lembra do exato momento em que a dor iniciou. Ela também é chamada de cefaleia em trovoada ou thunderclap headache. Ainda que não seja súbita, a dor pode ter características inéditas (nunca ter sido sentida antes) ou então ser referida como a pior dor da vida. Geralmente, as três coisas acontecem simultaneamente. Uma das explicações para a dor é que a ruptura do aneurisma leva a um extravasamento de sangue para o espaço subaracnoide, onde está o líquido cefalorraquidiano ou, simplesmente, associa-se a náuseas e vômitos e, em 50% dos casos, o paciente pode apresentar um episódio de síncope, devido ao aumento imediato da pressão intracraniana decorrente do “jato” de sangue sob pressão arterial. A presença do sangue no liquor causará um processo inflamatório nas meninges e o paciente apresentará muitas vezes rigidez de nuca, como em uma meningite infecciosa. Os sinais de irritação meníngea estão presentes em 75% dos casos. O processo de irritação do córtex cerebral pelo sangue também pode levar à ocorrência de crises convulsivas em 25% dos pacientes. liquor. A presença de sangue em contato com o liquor é mais do que suficiente para produzir dor intensa. Em 60% dos casos, a cefaleia Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 128 A artéria comunicante posterior tem seu trajeto muito próximo ao nervo oculomotor (III NC). Um aneurisma de artéria comunicante posterior pode causar compressão sobre o nervo oculomotor, levando a sua paralisia. Como as fibras mais periféricas do nervo são as parassimpáticas, o primeiro sintoma de um aneurisma dessa artéria pode ser um quadro de midríase paralítica ipsilateral, causando assimetria do tamanho das pupilas, que também é chamado de anisocoria. À medida que a compressão progride, a parte central do nervo também é acometida, afetando a motricidade dos músculos reto superior, inferior, medial e oblíquo inferior e elevador da pálpebra, levando a um estrabismo divergente com o olho acometido desviado para baixo e para fora e à ptose palpebral (paralisia completa do III NC). Ao exame físico, é fundamental realizar o exame de fundo de olho para a pesquisa de hemorragia sub-hialoide (síndrome de Terson: hemorragia vítrea, uni ou bilateral, por causa de uma hemorragia intracraniana). Essa hemorragia pode ser um sinal de HSA. Um fenômeno interessante e que deve ser mencionado refere-se à expansão e leve sangramento do aneurisma, que ocorre até 15 dias antes da HSA. A esse quadro, dá-se o nome de cefaleia sentinela. Isso ocorre em cerca de 30% dos casos. Então, eu devo investigar todos os pacientes com cefaleia de início recente e padrão inédito por suspeita de HSA? Teoricamente, não. De acordo com a Regra de Ottawa, a investigação de HSA deve ser realizada se o paciente tiver um desses critérios: idade maior de 40 anos; dor ou rigidez cervical; limitação da flexão do pescoço; perda de consciência testemunhada; início ao exercício ou cefaleia súbita. Ela é capaz de descartar a necessidade de realização de TC de crânio em apenas 14% dos pacientes. CAI NA PROVA (Hospital Pasteur RJ 2017) Mulher, 45 anos, apresentou subitamente a pior dor de cabeça da vida, seguida de rigidez na nuca e sonolência. AP: HAS, DM e dislipidemia. Exame neurológico: sonolência e rigidez de nuca (Glasgow: 14). Qual é a sua principal hipótese diagnóstica? A) Hemorragia subaracnoide B) Acidente vascular hemorrágico de ponte C) Meningite bacteriana aguda D) Encefalite herpética COMENTÁRIOS: Correta a alternativa A: não custa repetir, mas a causa mais importante de cefaleia súbita a ser cogitada é sempre hemorragia subaracnóidea. Sua causa mais comum, em casos espontâneos, é a ruptura de aneurisma cerebral, havendo derramamento de sangue no liquor. A causa da cefaleia tão intensa é: meningite inflamatória pela presença de sangue no liquor. Incorreta a alternativa B: o acidente vascular cerebral hemorrágico na ponte causa um quadro súbito, geralmente sem cefaleia, de déficit neurológico focal. Incorreta a alternativa C: a meningite bacteriana aguda caracteriza-se por quadro de cefaleia aguda, mas não súbita, associada à febre e rigidez de nuca (que também está presente na HSA). Incorreta a alternativa D: a meningoencefalite herpética é um quadro caracterizado por cefaleia progressiva, febre, confusão mental e sintomas focais, sendo as crises epilépticas o sinal mais comum. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 129 (HC UFPR 2017) Paciente de 45 anos com história de cefaleia súbita de forte intensidade acompanhada de náuseas, vômitos, fotofobia e diplopia. Ao exame neurológico, encontram-se rigidez de nuca e anisocoria, com ptose palpebral à direita. Sua primeira hipótese diagnóstica e etiologia dos sinais e sintomas é hemorragia: A) intracerebral hipertensiva. B) intracerebral secundária à malformação arteriovenosa. C) subaracnóidea secundária a aneurisma na bifurcação da artéria cerebral média. D) subaracnóidea secundária a discrasia sanguínea. E) subaracnóidea secundária a aneurisma na origem da artéria comunicante posterior. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: a hemorragia intracerebral hipertensiva, geralmente, manifesta-se como um quadro de hemiparesia por acometimento dos núcleos da base (local mais comum), hemi-hipoestesia (tálamo), hemiataxia (cerebelo) ou, ainda, síndrome alterna (hemiparesia contralateral com nervo craniano ipsilateral, por lesão na ponte). Incorreta a alternativa B: a ruptura de MAV causando cefaleia súbita e hemorragia intraparenquimatosa não é a causa mais provávelpara explicar esse quadro. Incorreta a alternativa C: a causa mais comum de HSA é ruptura de aneurisma cerebral, mas, nessa localização, não haveria como justificar a paralisia do nervo oculomotor. Incorreta a alternativa D: HSA secundária à discrasia sanguínea é bem mais rara do que por ruptura de aneurisma, além disso, não explicaria os achados do exame neurológico. Correta a alternativa E: a presença de ptose palpebral, anisocoria e diplopia apontam para uma paralisia do nervo oculomotor (III NC), cujo trajeto se situa próximo à artéria comunicante posterior, um dos locais mais comuns de aparecimento de aneurismas cerebrais. O aneurisma dessa artéria pode comprimir o nervo oculomotor e provocar as alterações apresentadas pelo paciente. (PSU - GO - 2023) A localização mais comum dos aneurismas intracranianos das circulações anterior e posterior é, respectivamente: A) comunicante anterior e topo da basilar. B) comunicante posterior e cerebelar posteroinferior. C) cerebral média e comunicante posterior. D) comunicante anterior e comunicante posterior. COMENTÁRIOS A depender da série analisada, a artéria comunicante anterior ou a artéria carótida interna são os locais de maior incidência de um aneurisma na circulação anterior, correspondendo a cerca de 30% dos casos. Já, no que se refere à circulação posterior, o topo da artéria basilar é o local mais comum, no entanto corresponde a apenas 4% de todos os casos. Correta a alternativa A. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 130 Figura 48 : presença de material hiperdenso nas cisternas da base e fissura de Sylvius, compatível com hemorragia subaracnóidea. Fonte: Shutterstock. 3.2.3 INVESTIGAÇÃO 3.2.3.1 TOMOGRAFIA DE CRÂNIO É importante ter em mente que o diagnóstico da HSA precisa ser rápido para que o tratamento também o seja. Na suspeita de HSA, o paciente deve ser imediatamente submetido à tomografia sem contraste, cuja sensibilidade para diagnóstico é de 95% quando realizada nas primeiras seis horas a partir do início dos sintomas. Na HSA, a tomografia mostrará a presença de sangue nas cisternas da base do crânio, ao redor do polígono de Willis (figura 48). A quantidade de sangue na tomografia permite, ainda, estimar o risco de uma outra complicação da HSA, a isquemia cerebral tardia (vasoespasmo). Quanto mais sangue estiver aparente, maior o risco. A quantificação desse risco é feita pela Escala de Fisher e pela Escala de Fisher modificada (tabelas 18 e 19, respectivamente). Escala de Fisher Grau Características 1 Ausência de sangramento 2 Lâmina fina de sangramento ( 1 mm de espessura) ou coágulo localizado 4 Hemorragia/coágulo intracerebral ou intraventricular Tabela 18: Escala de Fisher para avaliação tomográfica de pacientes com HSA. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 131 Escala de Fisher modificada Grau Espessura do sangramento Hemorragia intraventricular Risco de vasoespasmo 0 Ausente Ausente 0% 1 1 mm Ausente 19%-33% 4 > 1 mm Presente 40% A RM de crânio apresenta sensibilidade semelhante à da tomografia nas primeiras horas, mas é um exame bem mais difícil de se obter em caráter de urgência. Na imensa maioria das vezes, o exame de imagem realizado é a TC de crânio sem contraste. Em 5% dos casos, a tomografia não mostrará o sangue, por isso é indicado colher o liquor. CAI NA PROVA (UNIGRANRIO 2018) Em um plantão de pronto-socorro, são admitidos três pacientes com quadro súbito de diminuição da consciência. - Paciente 1: homem de 65 anos, hipertenso com tratamento irregular. A família relata quadro agudo de cefaleia náusea, vômito e provavelmente um episódio de convulsão tonicoclônica. Está comatoso, com hemiplegia esquerda e pressão arterial de 190 X 160 mmHg. - Paciente 2: mulher de 30 anos, sem antecedentes mórbidos, com quadro súbito de cefaleia holocraniana de forte intensidade, acompanhada de náusea. Está sonolenta, sem déficit motor, com sinais de irritação meníngea e pressão arterial de 140 X 90 mmHg. - Paciente 3: homem de 50 anos, diabético, tabagista, com antecedente de febre reumática e com fibrilação atrial há pelo menos 12 meses. Está sonolento, com hemiparesia esquerda e pressão arterial de 150 X 100 mmHg. São realizadas tomografias computadorizadas dos 3 pacientes, expostas abaixo: É mais provável que as imagens I, II e III correspondam, respectivamente, aos pacientes: Tabela 19: Escala de Fisher modificada para avaliar o risco de vasoespasmo. A) 3, 2 e 1. B) 3, 1 e 2. C) 2, 3 e 1. D) 2, 1 e 3. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 132 COMENTÁRIOS: Paciente 1: o quadro provavelmente é de um AVC hemorrágico intraparenquimatoso, porque o paciente apresentou cefaleia e rebaixamento do nível de consciência, o que ocorre na síndrome da hipertensão intracraniana. Por estar associado à hemiparesia esquerda, essa alteração poderia ser decorrente de um AVC isquêmico ou hemorrágico. Nos AVCs isquêmicos, a hipertensão intracraniana demora cerca de 48 a 72h para aparecer, quando há o pico de edema citotóxico. No AVC hemorrágico intraparenquimatoso, a hipertensão intracraniana pode ser imediata. Assim, esperamos que esse paciente seja o da imagem com hiperdensidade no hemisfério direito – imagem II. Paciente 2: a paciente é uma mulher jovem que apresentou uma cefaleia súbita, com rebaixamento da consciência e sinais meníngeos, mas sem déficit focal. Isso sugere uma alteração mais difusa. E, se o quadro é de cefaleia súbita, devemos considerar a hemorragia subaracnóidea (HSA) por ruptura de aneurisma, cujo aspecto tomográfico é de material hiperdenso nas cisternas da base, ao redor do polígono de Willis – imagem III Paciente 3: apresenta hemiparesia e sonolência, com antecedentes de fibrilação atrial, que sabidamente aumenta o risco de AVC isquêmico cardioembólico. O exame mais provável seria a imagem I. Portanto, a associação correta seria: 3, 1 e 2. Correta a alternativa B. Incorretas as alternativas A, C e D. 3.2.3.2 LIQUOR Na HSA, o liquor perde sua característica límpida e incolor e torna-se avermelhado e hemorrágico. No entanto, uma punção lombar pode gerar sangramento local acidental, tornando o liquor hemorrágico na ausência de HSA. É possível diferenciar a HSA do acidente de punção a partir de alguns testes. O primeiro deles é o teste dos três tubos. Assim que se coloca a agulha e o liquor surge por ela, com aspecto hemorrágico, o examinador deve deixar cair algumas gotas no primeiro tubo, trocando de tubo em seguida e, depois, fazer uma nova troca até que um terceiro tubo também receba o liquor que está sendo drenado pela agulha. No acidente de punção, a tendência é que o liquor do terceiro tubo venha mais claro que o primeiro, enquanto, na HSA, os três tubos terão exatamente o mesmo aspecto. Outra análise é a microscópica. Na HSA, as hemácias já estarão no liquor há algum tempo, sendo encontradas muitas delas degeneradas, inclusive com macrófagos portando hemossiderina em seu interior. No acidente de punção, as hemácias estarão íntegras, pois acabaram de ser lançadas no liquor. Finalmente, procede-se à centrifugação a fim de separar-se os elementos figurados do soro. Como, na HSA, houve destruição das hemácias, o soro estará cheio de proteínas, que conferirão um aspecto dourado ao liquor (xantocromia) ao final da centrifugação. O liquor do paciente com acidente de punção, por sua vez, estará límpido e incolor após a centrifugação. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 133 Figura 49: fluxogramade investigação da hemorragia subaracnóidea (HSA) quando a TC de crânio for normal. Características do LCR HSA Acidente de punção Macrófagos com hemossiderina Presentes Ausentes Xantocromia após centrifugação Presente Ausente Coagulação Ausente Presente Pressão liquórica Elevada Normal Contagem eritrocítica em tubos sequenciais Igual Decrescente Tabela 20: características do liquor na HSA e no acidente de punção. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 134 CAI NA PROVA (HPM MG 2021) Mulher de 45 anos vai ao pronto-atendimento queixando-se de cefaleia holocraniana intensa, que não cedeu com o uso de dipirona, de início súbito há 5h. Associa-se fotofobia, porém nega náuseas, vômitos, fonofobia ou febre. Nega episódios prévios de cefaleia semelhantes a este. É portadora de valvopatia mitral reumática e fibrilação atrial. Faz uso de rivaroxabana. Ao exame físico, PA 150/92 mmHg, FC 92bpm. Apresenta-se alerta, parcialmente desorientada no tempo, orientada no espaço. Pares cranianos, motricidade e sensibilidade sem anormalidades. Sem sinais de irritação meníngea. Exame do fundo de olho sem anormalidades. A tomografia computadorizada do crânio não apresenta anormalidades. A conduta MAIS ADEQUADA é: A) prescrever sumatriptano. B) realizar punção lombar. C) solicitar ressonância magnética do encéfalo. D) prescrever dexametasona parenteral. COMENTÁRIOS: A chegada de um paciente com cefaleia com essas características deve ligar o alarme do futuro Residente quanto à possibilidade de HSA. Deve solicitar imediatamente TC de crânio, na tentativa de identificar quadros mais grosseiros. No entanto, sangramentos pequenos podem não aparecer inicialmente na TC de crânio. Dessa forma, mesmo que o exame seja normal, caso ainda haja forte suspeita de HSA, a investigação deve continuar. Incorreta a alternativa A: sumatriptano é um medicamento especificamente desenvolvido para o tratamento da enxaqueca, doença caracterizada por crises recorrentes de cefaleia com o mesmo padrão. Como a cefaleia é inédita, não é adequado medicar com sumatriptano nesse momento. Correta a alternativa B: diante da suspeita de HSA, quando a TC de crânio vier normal, a próxima conduta é a punção lombar e análise do liquor. Incorreta a alternativa C: a RM de encéfalo tem sensibilidade semelhante à TC de crânio na fase hiperaguda da HSA. Além disso, o liquor é mais sensível que elas. Incorreta a alternativa D: corticoterapia não é o tratamento de escolha para HSA. Pode até ser usado no contexto de cefaleia intensa, mas em associação com outros sintomáticos e para finalidade analgésica. Nesse momento, é necessário fazer o diagnóstico do paciente. (UNESP 2021) Mulher de 52 anos apresenta cefaleia de forte intensidade há 5 dias. É encaminhada ao Serviço de Referência com hipótese diagnóstica de hemorragia subaracnóidea (HSA). AP: hipertensa e tabagista. TC de crânio: normal. Liquor, conforme imagem: Pode-se afirmar que: A) a ausência de sinais de sangramento na TC indica classificação de Fisher 1, porém a presença de sangue no liquor confirma HSA. B) a prova dos 3 tubos sugere acidente de punção durante a coleta, não se podendo ainda afastar a hipótese de HSA. C) a ausência de sinais de sangramento na TC (Fisher 1) e a prova dos 3 tubos positiva sugerem rotura de aneurisma da circulação posterior. D) a prova dos 3 tubos sugere HSA, cuja etiologia deve ser investigada com angiografia digital cerebral ou angiotomografia. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 135 COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: se a TC de crânio é normal, a pontuação na Escala de Fisher é 1. A presença de sangue no liquor pode ser acidente de punção. Nesses casos, a realização do teste de três tubos ajudaria a confirmar o diagnóstico. Correta a alternativa B: a prova de três tubos mostrou uma redução gradual de sangue no liquor dos três tubos, o que sugere acidente de punção, mas realmente não afasta a hemorragia subaracnóidea. Incorreta a alternativa C: se a TC de crânio é normal, a pontuação na Escala de Fisher é 1. A prova dos três tubos positiva sugere acidente de punção. Assim, não confirma a hipótese de HSA. Incorreta a alternativa D: novamente, a prova dos três tubos não sugere HSA, mas sim acidente de punção. 3.2.3.3 ARTERIOGRAFIA Confirmada a HSA pela TC de crânio ou, se o resultado for normal, pelo exame de liquor, a conduta será encaminhar o paciente para a arteriografia o mais rápido possível, na busca por um aneurisma que tenha se rompido e sangrado. A arteriografia é o exame padrão-ouro para o diagnóstico de aneurisma e ainda permite, em muitos casos, o procedimento de embolização, evitando novos sangramentos. Na figura 50, vemos uma arteriografia com aneurisma cerebral. Figura 50: arteriografia mostrando aneurisma cerebral (seta). Fonte: arquivo do prof. Victor Fiorini. CAI NA PROVA (USP RP 2021) Paciente de 35 anos previamente hígido apresenta quadro súbito de cefaleia intensa e explosiva durante um jogo de futebol com os amigos, sendo imediatamente levado ao pronto- socorro. Está sonolento, mas responde ao ser questionado. Refere ter a dor de cabeça mais forte de sua vida e que está enxergando dobrado. Ao exame, apresenta pressão arterial de 190 x 120 mmHg, está sonolento e apresenta oftalmoparesia e midríase no olho esquerdo. A tomografia (sem contraste) inicial é mostrada na figura. Qual é a conduta imediata mais adequada? A) Dexametasona endovenosa B) Manitol endovenoso C) Angiografia cerebral D) Punção diagnóstica do líquido cefalorraquidiano Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 136 COMENTÁRIOS Incorreta a alternativa A: a dexametasona pode ser indicada no tratamento sintomático da HSA, mas não é o tratamento de escolha específico para o paciente nem a conduta imediata. Incorreta a alternativa B: manitol endovenoso está indicado no tratamento de hipertensão intracraniana por lesão com efeito de massa, o que não é o caso desse paciente. Correta a alternativa C: pela história, exame físico e resultado da tomografia de crânio, o paciente apresenta diagnóstico de HSA. A próxima etapa é encontrar o aneurisma para poder tratá-lo. Assim, o exame indicado é a angiografia cerebral por cateterismo. Incorreta a alternativa D: não há necessidade de colher liquor de paciente cujo diagnóstico de HSA já foi estabelecido pela TC de crânio. 3.2.4 TRATAMENTO Não custa repetir, né? Em toda a emergência, a conduta inicial é o ABCD! Garanta via aérea, acesso venoso calibroso, monitorização, estabilização e, em seguida, parta para o tratamento específico. O tratamento específico da HSA tem, como primeiro objetivo, evitar ressangramento, além de identificar e tratar possíveis complicações dessa doença: isquemia cerebral tardia por vasoespasmo, hidrocefalia e hiponatremia. Todas essas condições são potencialmente fatais e capazes de produzir sequelas graves. É por essa razão que devemos saber tão bem sobre a HSA. Aproveite a oportunidade e aprenda bastante. Você pode salvar vidas e isso também vai ajudá-lo a passar na prova! 3.2.4.1 MEDIDAS GERAIS Nos pacientes com HSA, as medidas gerais a serem tomadas são baseadas na redução da pressão intracraniana ou em evitar que ela se eleve, além de impedir sangramentos, e incluem os seguintes pontos: • dieta laxativa; • cabeceira a 30°; • repouso; • profilaxia de TVP não farmacológica; • manter a PAM abaixo de 130 mmHg até que o aneurisma seja tratado; • em pacientes com rebaixamento da consciência, providenciar ventilação mecânica com alvo da PaCO2 entre 30-32 mmHg para diminuir a pressão intracraniana; • corticoides são indicados apenas para analgesia; • anticonvulsivantes apenas se houver crise epiléptica.Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 137 3.2.4.2 RESSANGRAMENTO A mortalidade em caso de ressangramento pode chegar a 78%. A maior incidência ocorre nas primeiras 24h (4,1%), podendo chegar a 20% dos casos até o 14º dia. Tipicamente, o ressangramento manifesta- se por meio de rebaixamento do nível de consciência. Se você tem um paciente com HSA nas primeiras 24h e a pontuação dele na escala de coma de Glasgow caiu repentinamente, pode apostar que se trata de um ressangramento do aneurisma e corra para a tomografia. Se a TC mostrar aumento da quantidade de sangue no espaço subaracnoide, isso confirmará sua hipótese. Novamente, corra para providenciar o tratamento. Há duas maneiras de evitar o ressangramento, desde que feitas precocemente: embolização ou clipagem cirúrgica do aneurisma. A clipagem cirúrgica (figura 51) é feita por meio de cirurgia aberta. O clipe estrangula o aneurisma e impede que o sangue passe por ele. É um procedimento mais delicado, mais invasivo. Figura 51: representação esquemática de clipe cirúrgico de aneurisma sacular. Fonte Shutterstock. A embolização (figuras 52 e 53) é um procedimento realizado por meio de cateterismo arterial, durante o qual um material é colocado no interior do aneurisma, causando sua trombose, sem reduzir a luz do vaso. O problema, nesses casos, é se houver sangramento durante o procedimento, que pode ser difícil de controlar. Figura 52: reconstrução tridimensional por angioTC de um aneurisma embolizado. Fonte: Shutterstock. Figura 53: aspecto angiográfico de um aneurisma embolizado (o mesmo da figura 50), na imagem da direita. Fonte: arquivo do Prof. Victor Fiorini. A escolha do procedimento a ser realizado leva em conta múltiplos fatores com os quais o candidato não precisa se preocupar, pois não caem em prova. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 138 3.2.4.3 VASOESPASMO (ISQUEMIA CEREBRAL TARDIA) Um importante passo no tratamento é evitar a complicação mais temida: o vasoespasmo. Atualmente, o vasoespasmo é chamado de isquemia cerebral tardia. Ele pode ocorrer a partir uma síndrome neurovascular decorrente de AVC isquêmico. A TC de crânio mostrará áreas de hipodensidade em territórios arteriais. do 3º até o 21º dia, com pico entre o 5º e o 14º dia. Existe uma correlação entre a quantidade de sangue na tomografia e o risco de vasoespasmo, visto nas escalas de Fisher e Fisher modificada. O vasoespasmo afeta 30% dos pacientes e é responsável por 25% das mortes por HSA. Por causa do risco de vasoespasmo é que se mantém o paciente na UTI por 2 semanas e no hospital até o 21º dia. O vasoespasmo pode levar à isquemia grave, como se fosse um AVC isquêmico, muitas vezes evoluindo para morte encefálica. Clinicamente, manifesta-se por meio de sinais focais, como A prevenção do vasoespasmo é feita com nimodipino, que deve ser ofertado para todos os pacientes. Ele é um bloqueador de canal de cálcio. Além de nimodipino, o tratamento do vasoespasmo é realizado com a terapia dos 3 Hs: • Hipertensão (PAM em torno de 130); • Hemodiluição (hematócrito por volta de 32%); • Hipervolemia, que atualmente foi substituída por euvolemia. Obviamente, a hipertensão não pode ser induzida em pacientes com aneurismas não clipados pelo risco de ressangramento. CAI NA PROVA (SES - RJ 2014) Paciente de 25 anos é internada com quadro súbito de cefaleia forte, de alteração do nível de consciência e rigidez de nuca. Tomografia do crânio confirma hemorragia subaracnóidea. Com a finalidade de diminuir a chance de morbidade e mortalidade por vasoespasmo cerebral, assim que a pressão arterial estiver estabilizada, deve ser iniciado: A) nimodipino. B) papaverina. C) fenobarbital. D) Difenil-hidantoína. COMENTÁRIOS: Correta a alternativa A: a nimodipina é a droga de escolha para o tratamento profilático e após a instalação do vasoespasmo. Incorreta a alternativa B: a papaverina é um vasodilatador, já estudado no tratamento do vasoespasmo. Até o momento, os resultados não são importantes ou não foram confirmados. Incorretas as alternativas C e D: a fenitoína e o fenobarbital são medicações anticonvulsivantes usadas em pacientes com crises epilépticas devido à HSA, mas não são usadas no tratamento do vasoespasmo. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 139 (HC UFPR – 2016) A terapia para o vasoespasmo cerebral secundário à hemorragia subaracnoide, denominada 3 “H”, é baseada em: A) hipertensão, hipovolemia, hemodiluição. B) hipotensão, hipovolemia, hemostasia. C) hipertensão, hipervolemia, hemodiluição. D) hipotensão, hipervolemia, hemostasia. E) hemoterapia, hipertensão, hipervolemia. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: hipovolemia pode piorar o vasoespasmo. Incorreta a alternativa B: hemostasia não é usada no tratamento do vasoespasmo, mas na prevenção do ressangramento, por meio de embolização por cateterismo ou clipagem do aneurisma. Hipotensão e hipovolemia podem agravar o quadro de vasoespasmo. Correta a alternativa C: a famosa terapia dos 3 Hs era antigamente composta pela hipertensão, hemodiluição e hipervolemia. Atualmente, a conduta é hipertensão (PAM em torno de 130 mmHg), hemodiluição (hematócrito por volta de 32%) e euvolemia, pois a hipervolemia pode piorar o débito cardíaco e agravar o quadro. Incorreta a alternativa D: hemostasia evita o ressangramento. Hipotensão pode agravar a isquemia do vasoespasmo. Incorreta a alternativa E: não se faz hemoterapia, pois o hematócrito deve ficar por volta de 32%. A hipervolemia tem sido substituída por euvolemia. 3.2.4.4 HIDROCEFALIA O processo de absorção do liquor por meio das granulações aracnóideas pode ser comprometido na HSA, gerando hidrocefalia (figura 54), ou seja, uma dilatação do sistema ventricular. O paciente com hidrocefalia evolui com rebaixamento da consciência e a tomografia mostrará aumento do volume ventricular. O primeiro sinal de hidrocefalia é a dilatação dos cornos temporais dos ventrículos laterais. Sua incidência é entre 20 a 30% dos casos. Figura 54: hidrocefalia comunicante (não obstrutiva) em paciente com hemorragia subaracnóidea Fisher 3. Note, no primeiro corte, a dilatação dos cornos temporais dos ventrículos laterais, o sinal mais precoce de hidrocefalia. Fonte: Shutterstock. O tratamento é feito colocando-se, provisoriamente, uma válvula que drena o liquor para um saco coletor, em ambiente de UTI (derivação ventricular externa - DVE). Após alguns dias, a DVE tem seu circuito fechado e o paciente é submetido a uma tomografia após algumas horas. Caso a tomografia revele reversão da hidrocefalia, a DVE é sacada. Do contrário, coloca-se uma derivação ventriculoperitoneal de forma definitiva. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 140 3.2.4.5. HIPONATREMIA A quarta e última complicação mais importante da HSA é a hiponatremia decorrente de síndrome cerebral perdedora de sal, devido à produção excessiva de peptídeo natriurético cerebral (BNP). O tratamento pode ser feito com salina hipertônica e mineralocorticoides, como a fludrocortisona. Deve-se tomar cuidado para que a reposição de sódio não seja rápida (acima de 8 a 10 mEq/L em 24h) sob o risco de causar mielinólise pontina (desmielinização cerebral osmótica). Uma outra causa possível para hiponatremia é a secreção inapropriada da ADH (hormônio antidiurético), discutida no livro de Nefrologia. 3.2.5 OUTRAS COMPLICAÇÕES Hipertensão intracraniana ocorre em 54% dos pacientes com HSA, mas em 49% dos casos, os pacientes apresentam boa evolução clínica. A hipertensãocerebelares, podemos dizer que cada hemisfério cerebelar é responsável pela coordenação dos membros IPSILATERAIS. Para ficar mais claro: o giro pré- central direito comanda os movimentos do hemicorpo esquerdo e receberá informações do hemisfério cerebelar esquerdo, quer dizer, do mesmo lado do membro em questão. Pronto, Estrategista! A partir de agora, podemos nos aprofundar no estudo dos AVCs propriamente ditos. Vamos lá?! Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 18 2.0 ACIDENTES VASCULARES CEREBRAIS ISQUÊMICOS 2.1 INTRODUÇÃO Vamos começar esclarecendo uma polêmica? O jeito certo de falar é AVC ou AVE? Porque AVC significa acidente vascular cerebral e cérebro é o conjunto de diencéfalo (tálamos e correlatos) mais os hemisférios cerebrais. Nesse caso, estão fora o tronco encefálico e o cerebelo. O mais preciso seria falar AVE, acidente vascular encefálico, já que o encéfalo é formado por todo o conjunto: hemisférios, diencéfalo, tronco e cerebelo. Afinal, se o paciente tiver um infarto no cerebelo, seria impreciso falarmos AVC de cerebelo, não é mesmo? De acordo com a Academia Brasileira de Neurologia, apesar de impreciso, o termo que devemos utilizar para referirmo-nos ao infarto ou hemorragia ocorridos em estruturas do encéfalo é acidente vascular cerebral (AVC) ou derrame. O termo acidente vascular encefálico, apesar de ser anatomicamente mais preciso, poderia gerar confusão no público leigo, por isso não é recomendado. Portanto, usaremos a nomenclatura AVC. Nós lidamos com a confusão melhor do que nossos pacientes e o importante é que eles entendam e fiquem bem! Em inglês, AVC é stroke. Stroke pode ser traduzido também como golpe, pancada ou soco. É um nome que reflete bem o que estamos estudando. A pessoa com AVC é aquela que vinha bem “e, aí, pah”, algo acontece do nada, como em um golpe durante uma luta que faz a vítima ser nocauteada. Clinicamente, ela tem um sintoma de aparecimento súbito, abrupto. Como já vimos no capítulo de cefaleia, súbito é aquilo que atinge sua intensidade máxima dentro de um minuto. No caso do AVC, alguns neurônios param de funcionar de repente e a pessoa desenvolve um déficit neurológico (perda da função). Uma dica legal é você perguntar ao paciente, durante a anamnese, o que ele estava fazendo quando o sintoma começou. O fato é tão marcante que ele, muito provavelmente, vai se lembrar da hora e do local onde estava. E não estranhe se você receber respostas do tipo: “estava sentado no vaso sanitário”, “estava colhendo fruta no pé”, ou ainda, “estava terminando de comer o segundo pedaço de pizza”. Recebeu uma resposta dessas, já sabe: é quase certo que aquele paciente está tendo um AVC. Então, corra! AVC é uma emergência e, se você for rápido, pode salvar a vida da pessoa! Define-se AVC como a redução ou perda súbita de determinadas funções neurológicas, causada por oclusão ou rompimento de uma artéria encefálica. Este é o segredo: se houver em alguma questão a palavra SÚBITA, sua principal hipótese deverá ser AVC! Vamos estudar mais à frente que o encéfalo é irrigado por mais de um vaso. No caso do AVC, um desses vasos será afetado e os neurônios irrigados por ele deixarão de funcionar. Dependendo do vaso comprometido, determinados neurônios serão lesados e o paciente terá um quadro típico. Cada território arterial encefálico afetado produzirá um conjunto de sinais e sintomas, o que recebe o nome de síndrome neurovascular. CAPÍTULO Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 19 As síndromes neurovasculares estão entre os assuntos mais cobrados dentro do tema AVC nas provas de Residência! Um outro ponto importante é que nem sempre uma lesão no território de irrigação de uma artéria encefálica, que gere um déficit neurológico, será permanente. Pode ocorrer uma alteração circulatória temporária, de curta duração, e o fluxo sanguíneo por aquele tecido restabelece-se antes que os neurônios sofram morte celular. Nesse caso, não podemos falar em AVC, pois, nele, há morte neuronal. O nome mais adequado seria ataque isquêmico transitório (AIT). Como é possível saber que houve morte neuronal sem fazer um exame anatomopatológico? A resposta é simples: você consegue ver tecido necrótico nos exames de imagem (você vai aprender como fazer isso, aqui, em nosso material); ou então, o déficit tem duração de mais de 24h. O AIT não tem exames de imagem alterados e, por sua definição tradicional, o déficit regride completamente em menos de 24h. Pronto, agora, podemos definir exatamente o que é um AVC. O AVC é o resultado da morte de neurônios em um determinado território arterial encefálico. Clinicamente, teremos a instalação súbita de um déficit neurológico com características de alguma síndrome neurovascular. Figura 9: AVC é um déficit neurológico focal, de instalação súbita e de causa vascular encefálica. Os AVCs são classificados em isquêmicos e hemorrágicos (figura 10). Os isquêmicos são bem mais comuns e correspondem a 85% dos casos contra 15% dos hemorrágicos. Para diferenciá-los, é imprescindível que o paciente realize um exame de imagem. Só pelo quadro clínico, é impossível definirmos o tipo de AVC. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 20 Figura 10: AVC isquêmico e AVC hemorrágico. Fonte: adaptada de Shutterstock. 2.2 FATORES DE RISCO Os fatores de risco para AVC podem ser divididos em modificáveis e não modificáveis. São considerados fatores não modificáveis aqueles sobre os quais não se consegue realizar nenhuma intervenção. Os principais fatores de risco para AVC isquêmico são os modificáveis. Nesse grupo, sem dúvida, a hipertensão arterial é o mais importante, elevando a chance de desenvolver um AVC em até 4 vezes. Ela está presente em 70% de todos os casos de AVC. A lista de fatores de risco para AVC isquêmico inclui as seguintes condições mostradas na tabela 1. Fatores de risco Risco de AVC Não modificáveis Idade Risco dobra a cada década após os 55 anos e aumenta, exponencialmente, após os 65 anos Sexo Masculino: risco 30% maior Etnia Risco é 2,4 vezes maior em afrodescendentes e 2 vezes maior em hispânicos e asiáticos em comparação a caucasianos História familiar Risco é 1,9 vez maior em indivíduos com parentes de primeiro grau com AVC Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 21 Modificáveis Hipertensão arterial 4 vezes maior Fibrilação atrial Valvar: 17 vezes maior Não valvar: aumento de 5% ao ano Diabetes mellitus 1,8 - 6 vezes maior Dislipidemia 1,5 vez maior Tabagismo 1,9 vez maior Etilismo Risco a partir de 40 g por semana (1,6 vez maior) Estenose sintomática de artéria craniana 4,6% de risco em 2 anos Estenose sintomática de artéria cervical Aumento em 24,5% no risco Obesidade Aumento de 5% a cada 1 ponto de aumento do IMC Ansiedade Aumento de 33% Sedentarismo Aumento de 20-30% Tabela 1: principais fatores de risco para AVC isquêmico e sua importância relativa. Fatores de risco Risco de AVC No Brasil, foi realizado o estudo EMMA, que identificou fatores de risco para AVC entre nossa população. Seus resultados foram os seguintes: • HAS 70%; • Tabagismo: 37%; • Dislipidemia: 21,3%; • Fibrilação atrial: 2%; • Obesidade: 13%; • Diabetes: 20,5%. CAI NA PROVA (UFES 2019) São fatores de risco não modificáveis para acidente vascular cerebral. A) Evento cerebrovascular prévio, diabetes, uso de contraceptivos orais. B) Estresse, raça negra, tabagismo. C) Sexo feminino, raça negra, hipercoagulabilidade. D) Sexo masculino, predisposição genética, raça negra.intracraniana na HSA geralmente é secundária à hidrocefalia ou aos infartos decorrentes de vasoespasmo cerebral. Entretanto, ao contrário do vasoespasmo, ela possui medidas de tratamento mais eficazes. A febre, infecciosa ou não, afeta 25% dos pacientes. Cerca de 10% dos pacientes que apresentaram crises epilépticas no início do quadro podem evoluir com epilepsia. 3.2.6 PROGNÓSTICO A mortalidade na HSA é de 30% e metade dos sobreviventes apresentará sequelas graves. Diversos fatores são apontados como marcadores prognósticos na HSA. Os três principais são idade, nível de consciência na admissão e a quantidade de sangue na tomografia (risco de vasoespasmo). Desses, o que é capaz de avaliar melhor o prognóstico é a escala de Hunt-Hess, que relaciona o quadro clínico com a mortalidade, conforme a tabela abaixo: Grau Quadro clínico Mortalidade (%) I Assintomático, cefaleia leve 5 II Cefaleia moderada a grave ou paralisia de nervo oculomotor 5 III Sonolência, confusão, déficit focal leve 10 IV Torpor, localiza a dor 34 V Coma com posturas patológicas ou ausência de respostas 52 Tabela 21: Escala de Hunt-Hess, que leva em consideração o quadro clínico na entrada e relaciona-o ao prognóstico. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 141 CAI NA PROVA (SES GO 2020) O grau do comprometimento neurológico e a extensão do sangramento subaracnóideo no momento da admissão são os preditores mais importantes das complicações neurológicas e do desfecho clínico. Portanto, é imperativo graduar a severidade da hemorragia subaracnóidea tão logo seja possível, após a estabilização dos pacientes com esse quadro. Um paciente que se encontra sonolento ou confuso com déficit neurológico focal leve apresenta um escore na escala de Hunt e Hess de: A) 1. B) 2. C) 3. D) 4. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: o grau 1 na escala de Hunt-Hess é caracterizado por paciente assintomático ou com cefaleia leve. Incorreta a alternativa B: no grau 2 da escala de Hunt-Hess, o paciente apresenta cefaleia moderada a grave e pode ter paralisia de nervo oculomotor. Correta a alternativa C: o paciente com sonolência, confusão e déficit focal leve recebe 3 pontos na escala de Hunt-Hess. Incorreta a alternativa D: o paciente com 4 pontos na escala de Hunt-Hess está torporoso e é capaz de localizar a dor. Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temas dessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC)NEUROLOGIA 142Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 https://estr.at/yV4b https://estr.at/yV4b Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 143 5.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAPÍTULO CAPÍTULO 6.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro colega e futuro Residente, chegamos ao final do livro mais importante da Neurologia e um dos mais importantes de toda a Medicina. É o assunto da especialidade que tem altíssima probabilidade de cair na sua prova. Ao longo dessas páginas, você encontrou vários esquemas, tabelas, figuras, mnemônicos, imagens e, o mais importante, questões comentadas. Acreditamos que, depois de termos resolvido mais de 300 questões de doenças cerebrovasculares, temos uma boa noção do que estamos falando neste material. Leia com calma, tente entender, resolva as questões, veja o vídeo da aula e não tenha vergonha de questionar caso reste alguma dúvida! Será um enorme prazer poder ajudar! Para terminar, deixo uma tabela com um resuminho para que você se lembre das principais características dos acidentes vasculares cerebrais. 1. AA Rabinstein et al. Update on Treatment of Acute Ischemic Stroke Continuum (Minneap Minn). 2020. 2. Dawn O. Kleindorfer et al, 2021 Guideline for the Prevention of Stroke in Patients With Stroke and Transient Ischemic Attack: A Guideline From the American Heart Association/American Stroke Association 3. AHA/ASA Guidelines for the Early Management of Patients with Acute Ischemic Stroke (2019) 4. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Especializada. Manual de rotinas para atenção ao AVC / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Especializada. – Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2013. 5. Octavio Marques Pontes-Neto e col. Neurologia vascular: tópicos avançados. Atheneu , São Paulo, 2015. 6. Anthony S. Kim et al. Medical Management for Secondary Stroke Prevention Continuum (Minneap Minn). 2020 7. Bijoy K. Menon et al. Neuroimaging in acute stroke. Continuum (Minneap Minn). 2020 8. Natalia S. Rost et al. Cerebral small vessel disease. Continuum (Minneap Minn). 2020 9. Gisele S. Silva; Raul G. Nogueira et al. Endovascular treatment of acute ishemic stroke. Continuum (Minneap Minn). 2020. 10. Mas, J. L. et al. Patent foramen ovale closure or anticoagulation vs. antiplatelets after stroke. N. Engl. J. Med. 377, 1011–1021 (2017). 11. Campbell, B.C.V., De Silva, D.A., Macleod, M.R. et al. Ischaemic stroke. Nat Rev Dis Primers 5, 70 (2019). 12. Caplan, Louis R. Caplan's Stroke: A Clinical Approach. Cambridge University Press; 5th edition (October 27, 2016). https://journals.lww.com/continuum/fulltext/2020/04000/update_on_treatment_of_acute_ischemic_stroke.5.aspx https://www.ahajournals.org/doi/10.1161/STR.0000000000000375 Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 144 Espero ter conseguido esclarecer muitos conceitos e colaborado para seu crescimento profissional! Um grande abraço e ótimos estudos! Prof. Victor Fiorini Doença AVCi AVCHIP AIT HSA Sintoma Focal Focal Focal Cefaleia súbita Duração > 24 h > 24 h 24 h TC de crânio Normal ou hipodensidade Hiperdensidade parênquima Normal Normal ou hiperdensidade cisternas e sulcos RM de crânio Hipersinal difusão Hipersinal T2 Normal Hipersinal T2 Liquor Normal Normal Normal Hemácias + Tratamento Trombólise ou conservador Cirurgia ou conservador Conservador Cirurgia ou clipagem do aneurisma Tabela 22: comparação entre as principais características dos diferentes tipos de AVC. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 145 http://med.estrategia.comEstratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 22 COMENTÁRIOS: A banca quer saber se você sabe o que é um fator de risco não modificável. Incorreta a alternativa A: diabetes e uso de contraceptivos orais são fatores de risco modificáveis. Evento cerebrovascular prévio é não modificável. Incorreta a alternativa B: estresse e tabagismo são fatores de risco modificáveis para AVC. Raça negra é fator não modificável. Incorreta a alternativa C: sexo feminino e raça negra são não modificáveis. A hipercoagulabilidade é um fator de risco modificável. Correta a alternativa D: esses três são fatores de risco não modificáveis. (Hospital Santa Marta - 2022) Uma paciente de 72 anos de idade foi levada ao pronto-socorro, ela relatou que, no dia anterior, acordou com dificuldade para falar, movimentar o braço e a perna direitos e notou que a boca estava “torta” ao exame. Ela estava consciente, com PA = 178 x 116 mmHg, FC = 84 bpm, FR = 16 irpm e SatO = 98% em ar ambiente. A tomografia de crânio realizada após dois dias de internação revelou hipodensidade cortical de limites parcialmente definidos, envolvendo território da artéria cerebral média esquerda. Tendo em vista esse caso clínico e os conhecimentos médicos correlatos, assinale a alternativa correta. A) A hipertensão não entra como fator de risco para os eventos isquêmicos cerebrais. B) O início de corticosteroides e o uso profilático de drogas antiepilépticas são recomendados no tratamento desse paciente. C) Nesse caso, recomenda-se a administração de ácido acetilsalicílico, dose inicial de 325 mg, nas primeiras 24 a 48 horas. D) Nessa paciente, a fibrilação atrial não seria fator de risco, pelo evento ter acometido o sistema nervoso central. E) A reabilitação precoce em nada contribui em pacientes estáveis clinicamente, sem apresentar impacto no prognóstico depois do evento. COMENTÁRIOS: Incorreta a alternativa A: a HAS aumenta em 4x o risco de AVC. Incorreta a alternativa B: nenhum dos dois deve ser utilizado no AVC, seja ele isquêmico ou hemorrágico. Correta a alternativa C: conforme veremos mais à frente, o uso de AAS - 325 mg nas primeiras 24-48 horas é estratégia genérica de profilaxia, empregada na maioria dos casos de AVCi até que a etiologia exata do evento seja definida. Incorreta a alternativa D: a fibrilação atrial valvar aumenta 17x o risco de AVC (a não valvar aumenta em 5% ao ano). Incorreta a alternativa E: a reabilitação é essencial no tratamento pós-AVC e deve ser iniciada tão logo seja possível, pois melhora o prognóstico do paciente. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 23 2.3 FISIOPATOLOGIA 2.3.1 CORE E PENUMBRA ISQUÊMICOS No AVC isquêmico, a oclusão de um vaso gera redução do fluxo sanguíneo para um grupo de neurônios e consequente perda de função dessas células. Só que essa queda na perfusão tecidual não é homogênea em todo o tecido comprometido. Em algumas áreas, ela é mais intensa e, em outras, mais discreta. É natural pensarmos que os neurônios para os quais o fluxo sanguíneo cai mais intensamente morrerão mais cedo do que os que ainda recebem uma quantidade um pouco maior de sangue. É exatamente isso que ocorre! Podemos identificar, durante a fase aguda do AVC isquêmico, duas áreas No core isquêmico, a queda do fluxo sanguíneo é tão intensa que esses neurônios morrem em poucos minutos. Na região de penumbra isquêmica, os neurônios estão vivos, mas a quantidade de sangue e nutrientes disponíveis é tão pequena que é incompatível com o metabolismo celular. Em outras palavras, trata-se de uma região não funcionante, mas temporariamente viva. distintas de isquemia: o core isquêmico e a penumbra isquêmica. Saber isso pode render dezenas de pontos a mais em sua prova de Residência! Se o fluxo sanguíneo adequado for restabelecido na área de penumbra, os neurônios retornam ao seu funcionamento normal e o paciente recuperará a função que era exercida por esses neurônios (pode haver melhora do déficit!). Entretanto, caso isso não ocorra a tempo, haverá morte celular. A morte dos neurônios da penumbra é uma questão de tempo (figura 11). Figura 11: penumbra isquêmica x core isquêmico. Fonte: Adaptado do Shutterstock. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 24 Os neurônios da penumbra vão morrendo sucessivamente enquanto o fluxo sanguíneo não voltar à quantidade normal. Portanto, tempo é cérebro. Quanto mais cedo for restabelecido o fluxo sanguíneo cerebral, maiores são as chances de restaurar-se o funcionamento da penumbra. Esse conhecimento é resumido na figura 12. Figura 12: diferenças fisiopatológicas entre área de core isquêmico e de penumbra isquêmica. 2.3.2 EDEMA CITOTÓXICO A morte de neurônios ocorrerá por redução do ATP para a bomba de Na/K que controla a quantidade de íons dentro e fora da célula. Dessa maneira, o sódio, em abundância caracterizando o chamado edema citotóxico. Muitos neurônios mortos, com edema citotóxico, causarão aumento do volume do parênquima encefálico. Em consequência, a pressão intracraniana pode aumentar e estruturas saudáveis, ainda não acometidas pelo infarto, podem passar a ser comprimidas, perdendo também sua função (figura 13). no meio extracelular, entra na célula, levando água consigo, Oclusão de uma artéria cerebral Queda intensa do fluxo sanguíneo cerebral Queda discreta do fluxo sanguíneo cerebral Penumbra isquêmica Déficit neurológico potencialmente reversível Déficit neurológico irreversível Core isquêmica Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 25 Figura 13: edema citotóxico. O aumento da pressão intracraniana, em uma fase mais avançada, acarretará um fenômeno conhecido como herniação, em que um determinado componente do encéfalo acaba sendo obrigado a invadir uma outra região, ocupada por outras estruturas, comprimindo-as. No pior cenário, pode ocorrer herniação das tonsilas cerebelares pelo forame magno, comprimindo o centro respiratório no bulbo e levando o paciente a óbito (leia mais no capítulo de coma e alterações da consciência). CAI NA PROVA (UERN - 2022) Considere as afirmações sobre a fisiopatologia do Acidente Vascular Encefálico (AVE) isquêmico: I. Uma queda do fluxo sanguíneo cerebral para zero causa morte tecidual em 4-10 minutos. II. Se o fluxo sanguíneo cerebral for restabelecido antes da morte celular, o paciente pode apresentar apenas sintomas transitórios, o que é chamado de AVE remitente. III. Denomina-se “penumbra isquêmica” o tecido em volta da região central do infarto, cuja disfunção é reversível. IV. A “penumbra isquêmica” pode ser visualizada por meio de imagens de perfusão-difusão obtidas na ressonância magnética. Assinale a alternativa CORRETA: A) Apenas I e II estão corretas. B) Apenas I e IV estão corretas. C) Apenas II e III estão corretas. D) Apenas I, III e IV estão corretas. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 26 2.4 ETIOPATOGENIA Os principais fenômenos etiopatogênicos que promovem a isquemia e a penumbra isquêmica são a aterosclerose de grandes e pequenos vasos, a cardioembolia e as causas mais raras, como a dissecção arterial. COMENTÁRIOS: Vamos avaliar as assertivas: I- Correta. Diferentes regiões cerebrais têm diferentes tolerâncias ao hipofluxo, além disso, o grau de circulação colateral e a rede de irrigação de uma determinada região têm efeito elementar na progressão para morte tecidual. De fato, quando essas estratégias exaurem e o fluxo cai a zero, o neurônio morre em poucos minutos. II Incorreta:O nome dessa situação é AIT (ataque isquêmico transitório) III- Correta. Essa é a região que queremos salvar com a recanalização! Trata-se de uma região hipoperfundida, contudo ainda viável. IV- Correta. Pela TC de crânio, por meio de software adequado (RAPID), a penumbra também pode ser visualizada. Sendo assim, as alternativas I, III e IV estão corretas. Gabarito: D. 2.4.1 ATEROSCLEROSE DE GRANDES VASOS Na aterosclerose de grandes vasos, pode haver isquemia pela ruptura de uma placa com exposição do seu conteúdo lipídico, desencadeando uma cascata inflamatória e de coagulação com trombose in situ do vaso e interrupção do fluxo sanguíneo a partir dele (figura 14). Figura 14: aterosclerose é a principal causa de AVC isquêmico. Fonte: Shutterstock. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 27 Quando o paciente apresenta vários sintomas neurológicos recorrentes, no mesmo território arterial, a principal hipótese é de ateromatose de um determinado vaso. Outra possibilidade seria a embolia arterioarterial, causada pelo desprendimento Oclusões proximais associadas à hipotensão arterial ou hipofluxo por falha no bombeamento cardíaco ou, ainda, por distúrbios da autorregulação circulatória encefálica podem causar o chamado infarto hemodinâmico. Nesse caso, nota-se isquemia não em um território arterial, mas em uma área de fronteira vascular, por exemplo, entre as artérias cerebrais média e anterior ou entre a média e a posterior, locais esses em que a circulação é terminal e pouco calibrosa (figura 15). de um fragmento da placa, que viajaria pela circulação até que encontrasse um vaso de menor calibre onde causaria oclusão. Figura 15: infarto de fronteira vascular (hemodinâmico). 2.4.2 ATEROSCLEROSE DE PEQUENOS VASOS (MICROANGIOPATIA) A aterosclerose de pequenos vasos causa o fenômeno conhecido como lacuna isquêmica, em que se observam pequenas áreas de infarto de dimensões inferiores a 1,5 cm de diâmetro. Os locais mais comuns são as regiões profundas do encéfalo, longe do córtex, como a cápsula interna (território das artérias lenticuloestriadas, ramos da artéria cerebral média – figura 16), a coroa radiada, os tálamos (território das artérias talamoperfurantes, ramos da artéria cerebral posterior), a ponte e o cerebelo. Nesses vasos, ocorre uma degeneração decorrente de diabetes, hipertensão e dislipidemia chamada lipo-hialinose. A oclusão de um desses pequenos vasos leva a um infarto lacunar, com déficits típicos, como veremos adiante. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 28 Figura 16: principais tipos de AVC isquêmico. Na terceira figura, vemos o AVC lacunar em artérias lenticuloestriadas, território profundo subcortical. Fonte: Adaptado do Shutterstock. 2.4.3 CARDIOEMBOLIA Algumas doenças cardíacas podem causar AVC devido à embolização de coágulos ou, no caso da endocardite, de material infeccioso. A principal delas é a fibrilação atrial, em que o aumento do átrio esquerdo leva à formação de um trombo, que pode ser impulsionado para a circulação encefálica, ocluindo um vaso distalmente. Outras causas incluem infarto do miocárdio com áreas de acinesia e formação de trombo intracavitário, forame oval patente, miocardiopatias (lembre-se da doença de Chagas, que ocorre muito no Brasil) e valvopatias (figura 17). Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 29 Figura 17 (Fonte: Adaptado do Shutterstockmodificada: principais causas de cardioembolia. É comum ocorrer uma recanalização tardia dessas oclusões. Nesses casos, o sangue volta a circular por um tecido necrótico e pode ser observado um extravasamento sanguíneo intraparenquimatoso chamado de transformação hemorrágica. 2.4.4 OUTRAS CAUSAS DE AVC ISQUÊMICO Nas dissecções arteriais, o endotélio rompe-se e forma-se uma falsa luz subendotelial que, devido ao fato de a camada adventícia ser mais rígida, acaba produzindo um hematoma intramural que pode estenosar ou ocluir a luz do vaso afetado. No caso das artérias cervicais, muito mais afetadas por esse mecanismo do que as intracranianas, a causa mais comum é o trauma. As dissecções são a causa mais comum de AVC em pacientes menores de 45 anos. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 30 Quando há dissecção de carótida, ocorre a formação de uma falsa luz na parede do vaso, o que gera uma estenose da luz verdadeira, hipofluxo distal e embolização de fragmentos do hematoma intramural. O quadro costuma ser acompanhado de dor. À medida que o hematoma emboliza, ele pode causar isquemias em territórios distais. Se a dissecção for carotídea, o paciente pode apresentar síndrome de Horner (figura 18): Figura 18: dissecção de carótida com formação de hematoma intramural e embolização. Presença de síndrome de Horner. Fonte: Shutterstock adaptada Outra causa relativamente rara de AVC, mais comum em jovens e que já foi tema de questões de provas de Residência, é a síndrome do roubo da subclávia. Homens jovens e tabagistas correspondem a 70% dos casos de AVC causados por essa síndrome. As artérias vertebrais originam-se das artérias subclávias. Pacientes com placas ateromatosas na artéria subclávia, proximais à origem da artéria vertebral (geralmente, à esquerda), podem apresentar o fenômeno de inversão do fluxo pela vertebral ao tentar movimentar o membro superior do lado afetado. Isso ocorre porque a estenose da artéria subclávia não permite um fluxo sanguíneo suficiente, que possa suprir a demanda circulatória exigida pelo membro superior durante o esforço, ocorrendo enchimento distal do vaso às custas de um fluxo retrógrado pela artéria vertebral (figura 19). Em decorrência disso, o fluxo sanguíneo para o tronco encefálico pode cair de maneira que ocorra uma isquemia encefálica. É comum ocorrer perda de consciência nessas situações (síncope neurovascular), sendo uma das raras situações em que o Doppler de carótidas e vertebrais é útil na investigação do quadro de síncope. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 31 Figura 19: representação esquemática dos troncos supra-aórticos, mostrando o ponto onde ocorre a estenose na síndrome do roubo da subclávia, proximal à origem da artéria vertebral, e a inversão do fluxo na artéria vertebral esquerda para encher a subclávia esquerda distalmente. As causas hematológicas e reumatológicas também fazem parte de etiologias de AVC isquêmico, principalmente em pacientes jovens. A arterite de Takayasu é uma arteriopatia inflamatória granulomatosa de grandes vasos, que afeta a aorta e seus ramos, mais comum em mulheres jovens. Clinicamente, as pacientes portadoras apresentam claudicação de membro superior e síncope. CAI NA PROVA (HUOL UFRN 2018) Um paciente do sexo masculino, 68 anos de idade, hipertenso de longa data, tabagista por 50 anos e com diabetes mellitus diagnosticada há 20 anos, chega ao serviço de pronto atendimento com relato de que, ao ter iniciado atividade física com membro superior esquerdo, apresentou tonteira seguida por síncope e diz que não se recorda bem do que aconteceu. Os acompanhantes informaram que ele apresentou fala arrastada e desvio da comissura labial. Porém, após 6 horas de observação no serviço de pronto atendimento, todas as alterações já haviam se normalizado. Foram solicitados, à admissão, glicemia capilar, que revelou 86 mg/dl; tomografia computadorizada do encéfalo, que se mostrou normal; e duplex scan de carótidas e vertebrais, que revelou ateromatose carotídea bilateral com placas ulceradas,com inversão de fluxo sisto/diastólico, contínuo, em artéria vertebral esquerda. A artéria vertebral direita apresentava-se com fluxo ascendente, com velocidade normal. A inversão do fluxo na artéria vertebral esquerda pode ser explicada pela A) oclusão da artéria subclávia esquerda proximal à origem da artéria vertebral. B) lesão aterosclerótica suboclusiva na origem da artéria vertebral. C) oclusão da carótida interna esquerda proximal à origem da cerebral média. D) lesão aterosclerótica suboclusiva em artéria carótida interna. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 32 COMENTÁRIOS: Correta a alternativa A: em pacientes tabagistas, a incidência de aterosclerose é maior. Uma condição conhecida como SÍNDROME DO ROUBO DA SUBCLÁVIA ocorre quase que exclusivamente em tabagistas, devido a um quadro de aterosclerose com oclusão da artéria subclávia esquerda, proximalmente à emergência da artéria vertebral esquerda. Assim, quando o paciente precisa aumentar a demanda por sangue no membro superior esquerdo, ela será insuficiente por causa da oclusão da artéria subclávia proximal, mas existirá um modo de “encher” a subclávia distalmente: por meio da inversão de fluxo da artéria vertebral esquerda, que “rouba” sangue do polígono de Willis, enche-se retrogradamente e drena seu conteúdo na porção da artéria subclávia distalmente à oclusão. Com isso, ocorre um hipofluxo no sistema vertebrobasilar, que compromete a irrigação do tronco encefálico, incluindo a região da formação reticular que nos mantém alertas. O resultado é um quadro de síncope associado a sintomas de isquemia vertebrobasilar. Incorreta a alternativa B: uma suboclusão da artéria vertebral que não comprometa o fluxo da artéria subclávia não causaria síncope após o esforço do membro superior esquerdo, mas poderia causar isquemia no território vertebrobasilar em outras situações. Incorreta a alternativa C: a oclusão de carótida não levaria à sintomatologia apresentada pelo paciente, como síncope e tontura, mais comuns em isquemias do território vertebrobasilar. O que ocorreria seria um infarto extenso, não seguido de recuperação, comprometendo o território das artérias cerebrais média e anterior, com afasia, hemiparesia, hemi-hipoestesia e possivelmente hemianopsia. Incorreta a alternativa D: a suboclusão da carótida interna esquerda pode ser assintomática ou tornar-se sintomática em casos de hipotensão, hipofluxo gerado por falha da bomba cardíaca ou, ainda, por embolia arterioarterial pelo desprendimento de um fragmento de sua placa aterosclerótica. A displasia fibromuscular é uma vasculopatia não inflamatória, não ateromatosa, com espessamento fibrótico alternado e atrofia da parede do vaso. Ela afeta mais mulheres, dos 20-50 anos. A forma mais comum é a fibroplasia medial. A doença de Moyamoya é caracterizada por genético e pode estar associada à aterosclerose, radioterapia, traumatismo cranioencefálico, tumores cerebrais, meningite, outras neuroinfecções, doenças hematológicas, vasculites e doenças autoimunes, distúrbios genéticos e do desenvolvimento, vasculopatias, doenças metabólicas e doenças renais (como rins policísticos). Uma causa rara de AVC isquêmico, mas já cobrada em prova, é a embolia gordurosa. Ela deve ser lembrada em pacientes com história de trauma com fratura e em até 30 dias do evento. um estreitamento progressivo de um grande vaso intracraniano associado ao desenvolvimento exuberante de vasos colaterais. Angiograficamente, tem um aspecto de fumaça, mesmo significado dessa denominação em japonês. Ela possui um componente 2.5 SÍNDROMES NEUROVASCULARES Amigo Estrategista, se tem uma coisa que cai nas questões de neurologia nas provas de Residência são as síndromes neurovasculares. As bancas mostram um caso clínico e perguntam, com base nos sinais e sintomas, qual é a artéria culpada. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 33 2.5.1 INÍCIO SÚBITO DOS SINTOMAS Considerando que síndrome é um conjunto de sinais e sintomas que podem ser explicados por várias etiologias diferentes, a principal informação que nos faz considerar um quadro de AVC é o INÍCIO SÚBITO DOS SINTOMAS. Súbito significa que os sintomas atingiram sua intensidade máxima em poucos segundos e/ou que o paciente se recorda do exato momento em que os sintomas começaram. Então, mesmo que não se encontre a palavra “súbito” no enunciado, se a questão disser que os sintomas começaram “enquanto o paciente fazia algo”, ou “logo após ter ocorrido tal situação”, ou, ainda, se ele acordou com o déficit, nossa principal hipótese será a de acidente vascular cerebral. “Ah, mas, professor, você está falando de AVC isquêmico, por que não escreveu a palavra “isquêmico” no final da última frase?” Porque não podemos basear nossa conduta terapêutica exclusivamente no quadro clínico. Será necessário, como falaremos mais tarde, realizar um exame de imagem para definirmos se o AVC é isquêmico ou hemorrágico. 2.5.2 SÍNDROMES DA CIRCULAÇÃO ANTERIOR Os acidentes vasculares cerebrais da circulação anterior são os mais comuns entre todos os AVCs. Isso até é fácil de explicar, porque a maior parte do encéfalo é composta pelos hemisférios cerebrais e dois terços deles são irrigados por vasos da circulação anterior. Para as provas de Residência, devemos conhecer as síndromes por comprometimento dos seguintes vasos: • a. carótida interna; • a. cerebral média (tronco e divisões: superior e inferior); • a. cerebral anterior; • a. coróidea anterior; • aa. lenticuloestriadas. A partir de agora, vamos estudar as principais características dessas síndromes e mostraremos como elas são cobradas nas provas pelo Brasil. 2.5.2.1 SÍNDROMES DA ARTÉRIA CEREBRAL MÉDIA Caro Estrategista, como já vimos, a artéria cerebral média tem um trajeto longo e com divisões. A primeira porção, M1, tem origem na carótida interna. Podemos encontrar lesões desse vaso causando AVC em quatro principais pontos: • Divisão M1 proximal à emergência das artérias lenticuloestriadas; • Divisão M1 distal à emergência das artérias lenticuloestriadas; • Divisão superior (M2); • Divisão inferior (M2). Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 34 Na tabela 2, podemos observar a lista dos possíveis sintomas e sinais gerados pelo comprometimento da artéria cerebral média e que pontos de obstrução poderiam originá-los. Recomendo que, se você não está familiarizado com os termos para alterações motoras (hemiparesia), sensitivas (hemi-hipoestesia), visuais (anopsias), de motricidade ocular (paresia do olhar conjugado) e cognitivas (afasia e heminegligência), dê uma recapitulada neles no livro de anatomia, fisiologia e semiologia neurológica. Sinais e sintomas Segmento M1 M2 Proximal à emergência das lenticuloestriadas Distal à emergência das lenticuloestriadas Divisão superior Divisão inferior Hemiparesia contralateral Proporcionada (força no membro superior igual à do membro inferior). Desproporcionada, de predomínio braquiofacial Ausente Hemi- hipoestesia contralateral Presente, incluindo alterações superficiais (tato, dor, pressão e temperatura) e profundas (vibratória, cinético-postural e estereognosia) Paresia do olhar conjugado Presente, com olhar desviado para o lado da artéria comprometida e/ ou dificuldade para olhar para o lado contralateral Ausente Hemisfério dominante Afasia global Afasia de Broca (motora): compreensão preservada Afasia de Wernicke (sensitiva): compreensão prejudicada Hemisfério não dominante Heminegligência Perda de campo visual Hemianopsia homônima contralateral Quadrantanopsia contralateral inferior Quadrantanopsia contralateralsuperior Tabela 2: síndromes da artéria cerebral média segundo o ponto de obstrução. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 35 2.5.2.1.1 ALTERAÇÕES DE FORÇA E SENSIBILIDADE As alterações sensitivas, por serem subjetivas, podem não ser facilmente discriminadas em relação aos diferentes pontos de obstrução da artéria cerebral média. Assim, esse aspecto é pouco questionado em provas. Na região da cápsula interna, uma área compacta por onde passam todos os axônios provenientes de neurônios motores corticais para membro superior, inferior e face, uma isquemia gera comprometimento dessas fibras com a mesma intensidade, afetando, de forma idêntica, a força no membro superior e no inferior (hemiparesia proporcionada). Uma lesão de M1 proximal compromete a perfusão das artérias lenticuloestriadas, que irrigam a cápsula interna, gerando hemiparesia completa e proporcionada. A lesão de M1 distal às lenticuloestriadas afetará a perfusão dos segmentos a partir de M2, sem comprometer a cápsula interna. Dessa maneira, o paciente terá prejuízo, principalmente, dos neurônios corticais para o membro superior e face. Ele apresentará, portanto, uma hemiparesia de predomínio braquiofacial (a força do membro superior será menor do que a do membro inferior do lado afetado). Um exemplo seria um paciente com força grau 2 no membro superior e 4 no inferior. Do ponto de vista motor, os déficits serão idênticos se a lesão for em M1 distal ou na divisão superior de M2. 2.5.2.1.2 ALTERAÇÕES COGNITIVAS Nós possuímos um hemisfério chamado de dominante, pois é onde está sediada a área responsável pela linguagem. Na maioria dos pacientes, ele é o hemisfério esquerdo. Lesões do território da artéria cerebral média no hemisfério dominante podem gerar um quadro de afasia. Muitas vezes, examinadores colocam afasias geradas por lesão no hemisfério direito pura e simplesmente para nos confundir. Na vida real, ela é mais rara do que nas provas de Residência. Não se incomode com isso. O capítulo de demências explora bastante sobre as afasias e suas áreas. Gostaria apenas de refrescar sua memória, porque sei que o tempo muitas vezes é curto! Nós temos uma área chamada de Broca, responsável pela expressão da linguagem, localizada no lobo frontal. A outra área importante é a de Wernicke, que cuida da compreensão da linguagem e está na porção posterior superior do lobo temporal dominante. Essas duas áreas comunicam-se (figura 20). Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 36 Figura 20: principais áreas relacionadas com a linguagem, localizadas no hemisfério dominante. Afasias são transtornos da linguagem, adquiridos por lesão de parte ou de toda a circuitaria relacionada à linguagem. Elas devem ser diferenciadas da disartria, um problema para pronunciar palavras, e da dislalia, um distúrbio no desenvolvimento da linguagem. AVC não causa dislalia. Por favor, não confunda esses termos! O exame da linguagem é realizado por meio de testes que medem a capacidade de nomeação, compreensão, fluência verbal e repetição. A nomeação é comprometida em todos os afásicos, em maior ou menor grau. Para lembrar: Broca era francês e Wernicke era alemão. Na afasia de Broca ficamos com uma linguagem mais enxuta, como é o francês. O francês também é mais fácil para nós, brasileiros, compreendermos. A afasia de Wernicke possui fluência verbal (número de palavras por minuto preservado), com muitas palavras e sílabas soltas, gerando um discurso ininteligível, como nos parece o alemão. O paciente com afasia de Broca (lesão na área de Broca, frontal) compreende bem; o de Wernicke (lesão na área de Wernicke, temporal), não. A afasia de Broca é muito mais comum do que a de Wernicke, inclusive nas provas. Se o paciente tiver uma lesão da divisão superior da artéria cerebral média no hemisfério dominante, ele desenvolverá afasia de Broca, por comprometimento do lobo frontal. A lesão da divisão inferior desse mesmo vaso geraria uma afasia de Wernicke e uma lesão de M1 afetaria as duas regiões simultaneamente, produzindo o quadro de afasia global. Existe um tipo de afasia que já caiu em prova, chamada de condução, por lesão das fibras que comunicam as áreas de Wernicke e Broca (fascículo arqueado). Nesse tipo de afasia, o paciente terá déficit de nomeação e repetição, com compreensão e fluência preservadas. Na afasia global, o paciente terá prejuízo de nomeação, compreensão, repetição e fluência verbal. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 37 Os principais tipos de afasia são descritos na tabela a seguir: Afasia nomeação repetição fluência compreensão Broca - - - + Wernicke - - + - Condução - - + + Global - - - - Anomia - + + + Transcortical motora - + - + Transcortical sensitiva - + + - Transcortical mista - + - - Tabela 3: principais tipos de afasias. E as lesões do hemisfério não dominante? São mais raras nas provas de Residência, mas podem cair. Elas produzem um quadro chamado de heminegligência. Basicamente, quando a atenção espacial é testada individualmente à direita e, depois, à esquerda, o paciente tem um bom desempenho. No entanto, quando os dois espaços são testados simultaneamente, o paciente refere-se apenas ao que é apresentado à direita, ignorando os estímulos à esquerda. Outras lesões da artéria cerebral média podem gerar quadros cognitivos mais raros. Já caíram nas provas de Residência: lesões causando alteração da capacidade de realizar atos motores previamente aprendidos (apraxia) e de reconhecer objetos a partir de estímulos táteis, visuais ou auditivos (agnosias). Uma lesão parietal no hemisfério dominante, em território de M2 superior, pode gerar um quadro conhecido como síndrome de Gerstmann, caracterizado por dificuldade em escrever (agrafia), fazer cálculos (acalculia), identificar os dedos das mãos (agnosia digital) e diferenciar direita e esquerda. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 38 CAI NA PROVA (HUPD UFMA 2019) Paciente idoso,74 anos, destro, hipertenso, diabético tipo II e com sequela de AVE isquêmico, é trazido à emergência por cuidadora por ter acordado “confuso e esquisito”. Ao exame neurológico, o paciente apresenta uma hemiparesia esquerda, desorientação direito-esquerda, agrafia, acalculia, agnosia digital e afasia motora, além de uma discreta paralisia facial, com movimentação ocular e palpebral preservadas. Por ter sido contratada recentemente, a cuidadora hesita em descrever o status neurológico prévio do paciente, não conseguindo dar pistas de quais desses sinais poderiam ser novos. A glicemia capilar é de 82 mg/dL e a pressão arterial é de 160 x 80 mmHg. A tomografia de crânio revela uma área hipodensa frontal direita, compatível com lesão antiga. A respeito desse caso, pode-se dizer que: A) os achados do exame neurológico são todos justificáveis pela lesão isquêmica antiga. B) trata-se, mais provavelmente, de encefalopatia metabólica. C) o paciente apresenta, mais provavelmente, nova lesão isquêmica. D) está indicada punção liquórica para esclarecimento diagnóstico. COMENTÁRIOS: Essa questão nos faz raciocinar sobre duas perguntas: • • O paciente está tendo um novo AVC ou alguma outra intercorrência? • • Quais eram as sequelas do AVC antigo? Uma das explicações para uma “outra intercorrência” seria alteração glicêmica, mas essa dúvida foi definitivamente encerrada ao demonstrar-se que o dextro estava normal. Quais seriam as vantagens de realizar uma nova TC de crânio nesse momento, considerando que, se fosse uma nova isquemia, ela aindapoderia não aparecer no exame? A imagem do AVC antigo, muito provavelmente, ainda será perceptível e, nesse caso, dependendo de sua localização, seria possível comparar os déficits gerados por ela aos sintomas atuais. Então, a TC de crânio foi realizada e mostrou apenas uma lesão antiga, localizada na região frontal direita. Quais seriam os achados esperados ao exame físico de um paciente com uma lesão frontal direita? • Se a isquemia foi da artéria cerebral média: • hemiparesia esquerda de predomínio braquiofacial • olhar conjugado para a direita ou paresia do olhar conjugado para a direita • heminegligência • Se a isquemia foi no território da artéria cerebral anterior: • hemiparesia esquerda de predomínio crural • abulia, incontinência urinária, disfagia • Exame neurológico do paciente revela: • hemiparesia esquerda • discreta paralisia facial central (andar superior poupado) • desorientação direita-esquerda • agrafia • acalculia • agnosia digital • afasia motora As alterações sublinhadas não são explicadas pela lesão antiga, mas a hemiparesia e a paralisia facial podem ser sequelas prévias, como já havíamos visto. O caro futuro Residente pode questionar se a afasia não poderia ser antiga, já que o paciente poderia ter tido um AVC de cerebral média direita prévio e ter ficado afásico. A resposta é que, provavelmente, não, pois o paciente é destro e, para ficar afásico, deveria ter ocorrido uma lesão no hemisfério dominante para a linguagem. Cerca de 99% dos destros têm dominância para a linguagem à esquerda, de modo que um AVC à direita teria pouquíssima chance de causar um quadro de afasia nesse paciente. Se ele fosse canhoto, a chance de a linguagem estar sediada à direita seria de 30%. As próximas perguntas são: • Essas alterações novas podem ser explicadas por uma única lesão cerebral em território de alguma artéria ou trata-se de um quadro metabólico por outra etiologia? (já vimos que não se trata de alteração glicêmica) • Há necessidade de algum exame complementar? Incorreta a alternativa A: já esclarecemos que a lesão antiga não justifica todos os achados do exame neurológico atual. Incorreta a alternativa B: para suspeitarmos de uma encefalopatia metabólica, devemos primeiro descartar que a causa seja um Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 39 quadro de AVC, já que o paciente apresenta risco de ter um novo evento. No caso da questão, conseguimos explicar os novos achados por uma lesão vascular nos lobos frontal e parietal esquerdos. Correta a alternativa C: a afasia motora pode ser explicada por uma lesão cortical no lobo frontal esquerdo, ao passo que os outros novos sintomas (agrafia, acalculia, agnosia digital e perda da diferenciação direita-esquerda) são característicos da SÍNDROME DE GERSTMANN, cuja topografia da lesão é no córtex do lobo parietal esquerdo. Como o quadro foi de início súbito, poderia muito bem ter ocorrido um AVC de artéria cerebral média esquerda, cortical, causando esse quadro. Nesse caso, o paciente teria tido AVC em dois territórios diferentes: anterior direito e anterior esquerdo, o que sugere um quadro de cardioembolia. As embolias de origem cardíaca costumam afetar territórios mais distais, corticais, o que significa que um quadro cortical puro pode ter sido causado por uma embolia e que outro pode ter ocorrido em outro território, o que fortalece muito essa suspeita. Incorreta a alternativa D: já ficou bem claro que se trata de um AVC isquêmico, provavelmente cardioembólico. Em um primeiro momento, a coleta de liquor ainda não está indicada. Ela não faz parte da investigação padrão inicial de causas de AVC isquêmico em pacientes com mais de 45 anos. 2.5.2.1.3 ALTERAÇÕES VISUAIS As alterações visuais decorrentes de lesão da artéria cerebral média são de dois tipos: alteração do olhar conjugado e defeitos do campo visual. Como no lobo frontal, no território da divisão superior de M2, localiza-se o campo visual frontal (frontal eye field, FEF). Podemos encontrar alterações do olhar conjugado em pacientes com AVC dessa área. FEF, que permanece saudável, empurrará os olhos para o lado da lesão, sem oposição do FEF afetado. Isso significa que uma lesão do FEF direito acarretará desvio dos olhos para a direita (desvio do olhar conjugado), por ação do FEF esquerdo e/ou dificuldade de movimentarmos nosso olhar para a esquerda (paresia do olhar conjugado). Em repouso, normalmente, ficamos com o olhar direcionado para a frente, porque nossos FEF, à direita e à esquerda, estão com o mesmo tônus. O FEF da direita desvia os olhos para a esquerda e o da Muito cuidado com as terminologias: a lesão do FEF gera paresia (fraqueza, dificuldade na movimentação) do olhar conjugado para o lado contralateral e desvio forçado do olhar para o lado da lesão. Isso já caiu em provas e poderia gerar confusão! esquerda desvia-os para a direita. Caso haja comprometimento dos neurônios de um dos FEFs, não conseguiremos olhar para o lado contralateral a ele e o outro Lesões do FEF podem ser acompanhadas de hemiparesia contralateral devido ao comprometimento da via motora que trafega próximo ao centro frontal do olhar conjugado (figura 21). Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 40 Figura 21: lesão frontal causando paralisia do olhar conjugado e hemiparesia. Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 41 Agora, falando sobre os defeitos do campo visual, mais bem explicados no capítulo de anatomia, fisiologia e semiologia neurológica, podemos encontrar dois tipos de alterações nos AVCs de artéria cerebral média: comprometimento de metade do campo visual homolateral de ambos os olhos (hemianopsia homônima) ou de um quadrante homolateral de ambos os olhos. A via óptica começa na retina e as informações seguem até o lobo occipital, passando pelo nervo óptico, quiasma, trato óptico, corpo geniculado medial (tálamo) e radiação óptica, sucessivamente. Uma lesão da artéria oftálmica, ramo da artéria carótida interna, poderá causar isquemia do nervo óptico. No trato óptico, as fibras com as informações do quadrante inferior contralateral estão no lobo parietal e as do quadrante superior contralateral, no lobo temporal. Como o lobo parietal é irrigado pela divisão superior de M2 e o temporal, pela inferior, dependendo da divisão acometida, teremos um quadro distinto: • Hemianopsia homônima contralateral: lesão de M1 (compromete as radiações parietal e temporal); • Quadrantopsia homônima inferior contralateral: lesão de M2 superior; Figura 22: Principais alterações de campos visuais. Nos pacientes com quadros cerebrovasculares, as alterações possíveis ocorrem nos pontos 1, 3 e 4. Fonte: elaborada pelo Prof. Victor Fiorini. • Quadrantopsia homônima superior contralateral: lesão de M2 inferior. Na figura 22, você encontra as alterações relacionadas ao AVC nas lesões 1, 3 e 4: Estratégia MED Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) Prof. Victor Fiorini e Prof. Rodrigo Frezatti | Curso Extensivo | 2024 NEUROLOGIA 42 2.5.2.1.4 ALTERAÇÕES NEUROPSIQUIÁTRICAS Alguns examinadores, em dia de maldade, já perguntaram sobre quadros psiquiátricos decorrentes de lesões vasculares isquêmicas. A maioria deles ocorre por lesões do território da artéria cerebral média. Assim, temos o seguinte: • Transtorno de ansiedade generalizada e síndrome do pânico: lesões corticais no hemisfério direito; • Mania: lesões do lobo temporal; • Depressão: AVC frontal esquerdo; • Quadros obsessivos: disfunções em córtex orbitofrontal, giro do cíngulo, tálamo e cabeça do núcleo caudado. CAI NA PROVA (IHOA - 2022) Uma mulher de 65 anos apresenta história de acidente vascular cerebral