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Anemias microcíticas e macrocíticas Classificação de anemias e aspectos laboratoriais das anemias microcítica e macrocítica. Prof.ª Patricia Fernanda Rosa de Siqueira 1. Itens iniciais Propósito Compreender os princípios gerais das anemias, suas classificações e os aspectos laboratoriais das anemias microcítica e macrocítica auxiliará na interpretação de exames laboratoriais de pacientes com anemias. Preparação Tenha acesso a um dicionário médico on-line para consultar as doenças relatadas no conteúdo. Objetivos Descrever o conceito de anemia, sua classificação e os principais exames laboratoriais aplicados para o diagnóstico. Reconhecer as anemias microcíticas e os respectivos diagnósticos diferenciais. Reconhecer as anemias macrocíticas e os respectivos diagnósticos diferenciais. Introdução Neste conteúdo, estudaremos a principal alteração da série vermelha do sangue, conhecida como anemia. Ela é caracterizada pela diminuição dos níveis de hemoglobina no sangue e é responsável por diferentes manifestações clínicas, decorrentes da redução da capacidade de transporte de oxigênio do sangue para os tecidos. A hemoglobina também contribui para a manutenção do pH sanguíneo e os níveis adequados de hemoglobina no sangue são variáveis de acordo com a idade e o sexo do indivíduo. Isso é importante especialmente entre as crianças, pois existe variação dos valores de referência do hemograma, de acordo com a faixa etária infantil. Estudaremos diferentes causas relacionadas à diminuição dos níveis de hemoglobina e/ou diminuição do número de eritrócitos no sangue periférico e o estabelecimento do quadro clínico de anemia. • • • 1. Anemias Alterações da série vermelha Anemia: definição e diagnóstico clínico O termo anemia é utilizado para descrever a diminuição da concentração de hemoglobina no sangue, acompanhada ou não da diminuição do número de eritrócitos. A seguir, ilustramos esquematicamente a diferença entre a quantidade de eritrócitos e, em consequência, de hemoglobina, em sangues de indivíduos sem anemia e com anemia. Para falarmos de anemias, é preciso conhecer um pouco sobre a molécula de hemoglobina. Ela é uma proteína composta de dois pares de cadeias globínicas distintas, que formam um tetrâmero. Ligado a cada cadeia globínica, existe um grupamento heme contendo um átomo de ferro (Fe2+) central, capaz de ligar-se e desligar-se do oxigênio, funcionando como um transportador dessa molécula. Representação esquemática da molécula de hemoglobina. As anemias podem ser diagnosticadas laboratorialmente quando a concentração de hemoglobina sanguínea se encontra abaixo dos níveis considerados normais, levando-se em consideração a faixa etária e o sexo. Observe os valores limítrofes de hemoglobina para definição de anemia em pessoas que vivem ao nível do mar. Faixa etária Valores de hemoglobina que indicam anemia (g/dL) Crianças de 6 a 59 meses de idadepela síntese ou maturação anormal dessas células. Isso ocorre, por exemplo, nas talassemias, na anemia megaloblástica e nas síndromes mielodisplásicas. A perda de eritrócitos pode ocorrer: • • • • • • • A maior parte do ferro no organismo humano encontra-se na forma de hemoglobina, sendo também armazenado na forma de ferritina, principalmente no fígado. Quando acontece perda sanguínea, é preciso que os níveis de ferritina no organismo estejam adequados para que o ferro seja mobilizado dos depósitos para síntese de hemoglobina e produção de eritrócitos. Em geral, as concentrações de eritrócitos e de hemoglobina se normalizam cerca de três semanas após um episódio de perda sanguínea em pacientes previamente hígidos (saudáveis), que possuem níveis de ferritina dentro dos valores de normalidade e que não precisaram receber transfusão. Classificação laboratorial Classificação morfológica Você conhece a classificação morfológica das anemias? Ela foi criada por Wintrobe, em 1934, usando os índices hematimétricos: Volume globular médio (VGM) Hemoglobina globular média (HGM) Concentração de hemoglobina globular média (CHGM) Esses índices foram desenvolvidos por ele anteriormente, com base no conceito de hematócrito (Ht). A classificação morfológica das anemias é dividida em três grupos, utilizando como parâmetros o tamanho e a cor da população de eritrócitos do paciente, conforme demonstramos a seguir: Classificação morfológica das anemias. E como reconhecemos um eritrócito de tamanho normal? O tamanho dos eritrócitos equivale ao tamanho do núcleo dos linfócitos, note na imagem a seguir. De forma aguda Devido a traumas decorrentes de cirurgias ou por outras causas. Nesses casos, é necessário fazer a reposição de eritrócitos e de plasma pelas transfusões, a fim de impedir um choque hipovolêmico. De forma lenta Em algumas situações, a anemia se instala lentamente, devido a perdas de sangue pela via gastrointestinal, por via urinária, devido ao fluxo menstrual intenso ou a hemorroidas, por exemplo. • • • Comparação de tamanho entre o eritrócito e linfócito. Você sabia que o tamanho dos eritrócitos varia de acordo com a faixa etária dos indivíduos? Na população adulta, normalmente, eles apresentam volume globular médio (VGM) ou volume corpuscular médio (VCM) em torno de 80 a 100 fentolitros (fL). Entretanto, em crianças e adolescentes, os eritrócitos apresentam valores de VGM distintos, conforme podemos ver na tabela a seguir: Faixa etária VGM (fL) para diagnóstico de microcitose Crianças de 3 a 6 meses de idadeíndices hematimétricos característicos de um indivíduo saudável e os valores observados em alguns tipos de anemias. Sinalizamos em negrito os principais índices alterados nos diferentes quadros de anemias. Confira as diferenças! Valores de Referência (Mulheres Adultas) Erit: 4,0 ̶ 5,2 milhões/mm3 Hb: 12,0 ̶ 16,0g/dL Ht: 36 ̶ 46% VGM: 80 ̶ 100fL HGM: 26 ̶ 34pg CHGM: 31 ̶ 37g/dL RDW: 11,5 ̶ 14,5% Anemia Ferropriva Erit: 3,75 milhões/mm3 Hb: 5,7g/dL Ht: 20,1% VGM: 53,7fL HGM: 15,2pg CHGM: 28,3g/dL RDW: 19,6% Beta-talassemia Erit: 5,37 milhões/mm3 Hb: 10,5g/dL Ht: 33,0% VGM: 62,3fL HGM: 19,6pg CHGM: 31,8g/dL RDW: 14,7% Eritrograma Normal Erit: 4,37 milhões/mm3 Hb: 13,7g/dL Ht: 40,3% VGM: 92,2fL HGM: 26 - 34 pg CHGM: 34,0 g/dL RDW: 13,2% Anemia de Doença Crônica (fase inicial) Erit: 4,00 milhões/mm3 Hb: 10,5g/dL Ht: 32,6% VGM: 81,5fL HGM: 26,2pg CHGM: 32,2g/dL RDW: 14,2% Anemia por Deficiência de Vitamina B12 Erit: 1,56 milhões/mm3 Hb: 6,7g/dL Ht: 20,7% VGM: 132,7fL HGM: 42,9pg CHGM: 32,1/dL RDW: 19,1% De modo geral, o resultado do eritrograma direciona quais serão as investigações adicionais que fornecerão mais informações sobre a origem da anemia. Estudo de caso com análise de resultado laboratorial Análise do resultado de um eritrograma M.D.C., mulher de 45 anos apresentando uma enorme fadiga ao pequeno exercício, procurou a Clínica da Família da Frei Caneca, no Rio de Janeiro. Ao ser atendida, o médico realizou o exame físico, notando enorme palidez de pálpebras, na sola dos pés, palma da mão e lábios. O médico, então, solicitou alguns exames laboratoriais, dentre eles o hemograma completo, com indicação de fadiga e cansaço. A seguir, podemos ver no hemograma dessa paciente que a única alteração encontrada foi na série vermelha. Ao analisar o resultado, primeiro devemos ver a contagem de eritrócitos, hemoglobina e hematócrito e comparar com os valores de referência. Atenção Os valores usados como referência devem estar de acordo com o sexo e a faixa etária da paciente. Nossa paciente é do sexo feminino e adulta, pois tem 45 anos. Assim, ao verificar a contagem de eritrócitos, hematócrito e hemoglobina, vemos que esses valores estão menores do que o valor de referência, o que caracteriza a anemia. Esses dados estão de acordo com a indicação do exame no pedido médico, que mostra palidez e cansaço, sinais clínicos da anemia. Valores de Referência (mulheres adultas) Erit: 4,0 – 5,2 milhões/mm3 Hb: 12,0 – 16,0g/dL Ht: 36 – 46% M.D.C., 45 anos. Sexo: feminino Erit: 3,75 milhões/mm3 Hb: 9,0g/dL Ht: 27% Em seguida, devemos observar o tamanho das hemácias, índice que é verificado pelo VCM. No resultado apresentado, o VCM da paciente encontra-se menor do que o valor de referência, esse dado é indicativo de microcitose. Além disso, a paciente apresenta o HCM e CHCM menores do que o valor de referência, o que aponta menor concentração de hemoglobina, indicativo de hipocromia. Por fim, o RDW está aumentado em relação ao valor de referência, mostrando que a população de células tem tamanhos variados, ou seja, é heterogênea. Valores de Referência (mulheres adultas) VGM: 80 – 100 fL HGM: 26 – 34pg CHGM: 31 – 37g/dL RDW: 11,5 – 14,5 % M.D.C., 45 anos. Sexo: feminino VGM: 65fL HGM: 15,2pg CHGM: 28,3g/dL RDW: 20 % Valores de Referência (mulheres adultas) Erit: 4,0 – 5,2 milhões /mm3 Hb: 12,0 – 16,0g/dL Ht: 36 – 46% VGM: 80 – 100 fL HGM: 26 – 34pg CHGM: 31 – 37g/dL RDW: 11,5 – 14,5 % M.D.C., 45 anos. Sexo: feminino Erit: 3,75 milhões /mm3 Hb: 9,0g/dL Ht: 27% VGM: 65fL HGM: 15,2pg CHGM: 28,3g/dL RDW: 20 % Dessa maneira, conseguimos perceber que M.D.C. tem uma anemia microcítica hipocrômica, que justifica o cansaço e a palidez. Mas como poderíamos confirmar a morfologia dos eritrócitos após o resultado do exame? Se você pensou que é a partir da hematoscopia, acertou! Lembre-se de que a análise da distensão sanguínea é uma das etapas do hemograma. Nele, conseguiríamos confirmar que os eritrócitos da paciente eram hipocrômicos e microcíticos, confira na imagem a seguir: Eritrócitos microcíticos e hipocrômicos. Anemias Neste vídeo, a especialista Gabriela Cardoso responde às 5 perguntas mais pesquisadas da internet sobre anemias. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Anemia: definição e diagnóstico clínico Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Classificação das anemias Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Classificação laboratorial das anemias Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Aprendemos que o termo anemia é utilizado para descrever a diminuição da concentração de hemoglobina no sangue, acompanhada ou não da diminuição do número de eritrócitos. Existem várias causas que levam à anemia. Sobre isso, analise as afirmativas a seguir: I. A deficiência de ácido fólico desencadeia anemia pela deficiência de produção de hemoglobina. II. As infecções do trato respiratório superior levam a uma anemia secundária, ou seja, devido a uma condição preexistente. III. Nas talassemias, a anemia ocorre por alterações na produção de hemoglobina. É correto o que se afirma em A I e II. B I e III. C I. D II. E III. A alternativa B está correta. As anemias se originam quando há deficiência na produção de hemoglobina, como na deficiência de nutrientes (por exemplo, vitamina B12), devido a hemoglobinopatias que podem afetar a quantidade ou a qualidade da hemoglobina produzida (ex.: talassemias) e podem ser secundárias a doenças preexistentes (como câncer, doença renal crônica, doenças hepáticas). Entretanto, a infecção do trato respiratório superior não será capaz de, como causa única, produzir um quadro de anemia. Questão 2 Após o exame, um paciente apresentou com RDW igual a 13%. Sabendo que o valor de referência do RDW é de 11,5% a 14,5% e os outros parâmetros estão dentro da normalidade, qual a classificação correta para esse padrão encontrado? A População eritroide homogênea. B População eritroide heterogênea. C Macrocitose. D Microcitos. E População eritroide hipocrômica. A alternativa A está correta. O RDW, ou índice de anisocitose, reflete o grau de variação dos tamanhos das células na população eritrocitária em porcentagem (%), responsável por observar variações no tamanho das células. Um RDW dentro do intervalo de referência significa uma população de eritrócitos homogênea, ou seja, com tamanhos semelhantes. Já um RDW maior indicaria uma população heterogênea, com tamanhos diferentes. 2. Anemias microcíticas Anemias microcíticas: Conceitos iniciais Causas das anemias microcíticas As anemias microcíticas podem ser adquiridas, ou seja, desenvolvidas durante a vida, como as anemias por deficiência de ferro, ou podem ser herdadas e estarem relacionadas a características genéticas transmitidas pelos pais. Os eritrócitos microcíticos são formados por causas diversas, tais como: Insuficiência Quantidade de ferro insuficiente para formação do grupamento heme. Fornecimento Alteração na distribuição e/ou no fornecimento do ferro. Alteração Alteração enzimática na síntese do grupamento heme. Defeito Defeito na síntese das cadeias globínicas. Entre essas anemias, destacam-se a anemia por deficiência de ferro (ADF), anemias de doenças crônicas e anemia sideroblástica. Acerca das causas hereditárias de microcitose, as talassemias destacam-se e são decorrentes de defeitos genéticos quantitativos na síntese de cadeias globínicas. Vamos conhecê-las de modo mais detalhado! Anemia por deficiência de ferro A anemia por deficiência de ferro (ADF) é a mais comum em todo o mundo, embora varie sua prevalência de acordo com a localização geográfica, idade, gênero e classe social. Em geral, é mais prevalente entrecrianças menores de dois anos, mas acomete bastante todas as faixas etárias e está relacionada ao déficit cognitivo na infância. Entre os adultos, é mais comum nas mulheres, especialmente entre as gestantes. As classes socioeconômicas menos favorecidas são mais acometidas pela ADF. A ADF é mais comum em gestantes. A ADF é desencadeada pela deficiência nutricional ou absortiva, ou por perda crônica de sangue. A maior parte do ferro do organismo é encontrada na forma de constituinte da hemoglobina, presente nos eritrócitos. Ele também é armazenado na forma de ferritina ou de hemossiderina em diferentes tecidos, como fígado e baço, e no retículoendotelial. Conforme há o envelhecimento e a destruição dos eritrócitos, o ferro da hemoglobina nessas células é reciclado. O ferro heme (ligado à hemoglobina), encontrado em fontes animais, é mais bem absorvido do que o ferro não heme, obtido nos vegetais e cereais. Essa absorção ocorre no duodeno e, ao ser liberado na circulação sanguínea, o ferro liga-se a uma glicoproteína transportadora denominada transferrina. O ferro circula no plasma ligado à transferrina, e é cedido aos eritroblastos na medula óssea para a síntese do grupamento heme, conforme podemos ver na imagem a seguir: Processo de absorção e liberação do ferro. E quais as causas da deficiência de ferro no sangue? A ingestão inadequada na dieta é a principal causa de deficiência de ferro em crianças. No entanto, o crescimento rápido que acontece na adolescência, a gestação, lactação, perda menstrual excessiva, doença celíaca ou outras causas gastrointestinais de perda sanguínea também podem estar relacionadas a esse quadro de deficiência. Anemia de doença crônica A anemia de doença crônica (ADC), também chamada de anemia da inflamação, inicialmente se apresenta como normocítica e, com a evolução do quadro, os eritrócitos passam a ser microcíticos, em função da baixa disponibilidade do ferro durante a inflamação. E como isso acontece? Em estados inflamatórios, nas neoplasias, nas infecções agudas ou crônicas e nas doenças autoimunes, há a produção de citocinas inflamatórias (interleucina 1, interleucina 6, fator de necrose tumoral, alfa interferon, beta interferon, gama interferon etc.). Essas citocinas alteram a homeostase do ferro, promovem o acúmulo de ferro em locais de estocagem, como o sistema reticuloendotelial e os macrófagos da medula óssea, além de diminuir a produção renal de eritropoetina. Dessa forma, o estoque de ferro fica impedido de ser utilizado para produção de novos eritrócitos. Esfregaço demonstrando os sideroblastos em anel. Anemia sideroblástica A anemia sideroblástica congênita é uma forma rara de doença, que pode ser herdada ou adquirida. Em ambos os casos, o metabolismo mitocondrial encontra-se alterado, causando a síntese ineficaz do grupamento heme e da eritropoiese, bem como a produção insuficiente desse grupamento. Isso ocorre devido à síntese anormal de protoporfirina ou inserção defeituosa do ferro no anel protoporfirínico. Ocorre eritropoiese ineficaz — maturação anormal do núcleo ou do citoplasma dos eritroblastos. A maior parte do grupamento heme é produzida no citoplasma e nas mitocôndrias dos eritroblastos, e o restante é produzido nos hepatócitos. Nos eritroblastos da medula óssea, o ferro não utilizado para a síntese desse grupamento deposita-se em volta do núcleo dessas células, e são denominados sideroblastos em anel. Os casos de origem hereditária são muito raros e apresentam-se com microcitose e hipocromia. Os casos adquiridos podem estar relacionados a síndromes mielodisplásicas ou a doenças, como artrite reumatoide, mielofibrose, carcinoma, ou podem ser secundários ao contato com agentes tóxicos ou drogas, como isoniazida, pirazinamida, cloranfenicol, chumbo, entre outros. Esses casos costumam ser normocíticos e normocrômicos ou macrocíticos. Talassemia Para que as moléculas de hemoglobina sejam produzidas adequadamente, as cadeias polipeptídicas devem ser produzidas em proporções iguais. Nas talassemias, ocorre a produção desequilibrada das cadeias alfa e das cadeias não alfa, devido à ausência ou diminuição da síntese de uma ou mais cadeias globínicas. O excesso da cadeia globínica produzida normalmente se acumula nas células como um produto instável e precipita, ocasionando alterações na membrana do eritrócito e causando a destruição prematura deles. As talassemias apresentam-se como anemias microcíticas e hipocrômicas, devido à produção inadequada de hemoglobina. O desequilíbrio na produção das cadeias globínicas causa eritropoiese ineficaz, produção de hemoglobina insuficiente, hemólise e anemia em grau variável. As manifestações clínicas podem variar de microcitose assintomática à anemia extrema, incompatível com a vida, podendo causar morte intrauterina. Estudaremos as talassemias com mais detalhes em outro momento. Diagnóstico das anemias microcíticas Conceitos iniciais Diante de um eritrograma com microcitose e hipocromia, a rotina de investigação laboratorial quase sempre se inicia com a análise da bioquímica do ferro, que inclui as seguintes dosagens: Ferro sérico. Ferritina sérica. Capacidade livre e total de ligação ao ferro (CTLF). Índice de saturação de transferrina (IST). Diante desses resultados, conseguimos identificar as possíveis causas da anemia microcítica e hipocrômica. Note que o valor de RDW também é muito importante para auxiliar essa investigação. Diagnóstico diferencial das anemias microcíticas e hipocrômicas de acordo com os exames laboratoriais para avaliação do metabolismo do ferro. Vamos entender o diagnóstico a partir dos resultados da cinética do ferro! • • • • Anemia sideroblástica com dupla população de eritrócitos no sangue (normocíticos e microcíticos). Diagnóstico diferencial das anemias sideroblásticas A partir do esquema, vemos que um paciente que manifesta os níveis de ferro, de ferritina e do IST elevados provavelmente apresenta anemia sideroblástica. Nos pacientes com esse tipo de anemia, o ferro sérico encontra-se em níveis elevados devido à incapacidade de utilização dele. Como mencionado, há dupla população de eritrócitos (microcítica/hipocrômica e normocítica/normocrômica) nessa anemia, mas os reticulócitos estão normais. O diagnóstico diferencial é feito a partir da biópsia da medula óssea, na qual observa-se excesso de sideroblastos em anel (>10% de células nucleadas). Além disso, há uma quantidade aumentada de hemossiderina, visualizada pela coloração com azul da Prússia, denominada reação de Perls. Acúmulo de grânulos Medula óssea evidenciando acúmulo de grânulos contendo ferro dispostos ao redor do núcleo em paciente com síndrome mielodisplásica. Hemossiderina Biópsia de fígado mostrando hemossiderina evidenciada pela coloração com azul da Prússia. Diagnóstico diferencial das Talassemias Em pacientes que apresentarem todos os exames relacionados à cinética do ferro dentro da faixa de referência, é indicada a realização da investigação do perfil de hemoglobinas para avaliar se existe alguma hemoglobina variante e quantificar as hemoglobinas normais (HbA, A2 e Fetal) e anormais, se houver. Alguns casos de talassemia (talessemia major ou intermédia ̶ também conhecida como intermediária) podem apresentar aumento de ferritina, ferro sérico e IST, como consequência de hemólise e eritropoiese ineficaz, que ocorre nesses casos. Diagnóstico diferencial das ADF Antes de iniciarmos, é importante reforçar que: A principal causa das anemias microcíticas e hipocrômicas é a deficiência de ferro. Quando os níveis de ferro e ferritina séricos se encontram abaixo dos valores de referência, esse diagnóstico é facilmente concluído. No entanto, o quadro de anemia por deficiência de ferro é precedido por estágios gradativos de deficiência de ferro, detectados no laboratório, e permitem avaliar os diferentes compartimentos de ferro (de estoque, de transporte e funcional). Nesses casos, o que notamos inicialmente é a diminuição do estoque de ferro, avaliadoindiretamente pela dosagem da ferritina sérica, ou diretamente pela coloração do ferro medular com azul da Prússia. Com o objetivo de avaliar o transporte de ferro para disponibilizá-lo à eritropoiese, são utilizados os testes de: CTLF Tende a aumentar. IST Tende a diminuir, em função da menor disponibilidade de ferro. O primeiro sinal de diminuição dos estoques de ferro é a queda dos níveis séricos de ferritina. Conforme a anemia por deficiência de ferro se instala, observamos a diminuição do VGM, HGM e da hemoglobina, com o aumento do RDW, em virtude da maior heterogeneidade do tamanho da população eritrocitária. Os níveis de ferro sérico encontram-se diminuídos nas fases mais avançadas da deficiência. Observe, na ilustração a seguir, o processo de instalação progressiva da anemia por deficiência de ferro, com base nos parâmetros laboratoriais: Fisiopatologia da instalação da anemia por deficiência de ferro. Alguns parâmetros laboratoriais que podem auxiliar no diagnóstico diferencial da anemia por deficiência de ferro e da anemia da inflamação ainda não são amplamente utilizados na prática clínica devido ao alto custo, tais como as dosagens do receptor solúvel da transferrina (sTfR) e da zincoprotoporfirina eritrocitária (ZPP). Essas dosagens não se alteram na inflamação, mas na anemia por deficiência de ferro ambos estão elevados. Diagnóstico diferencial das anemias por doença crônica Na anemia de doença crônica, o nível de ferritina pode estar normal ou elevado. Como a ferritina é uma proteína que se eleva na fase aguda de uma inflamação, é interessante realizar em paralelo algum teste para avaliar a presença de um possível quadro inflamatório, como a velocidade de hemossedimentação (VHS) ou a concentração sérica de proteína C reativa (PCR). Nesse tipo de anemia, o ferro sérico pode estar normal ou diminuído, assim como o VGM, e a CTLF e o IST geralmente estão diminuídos. A diminuição do ferro sérico nesse caso é consequência do desequilíbrio no metabolismo do ferro, pois o estado inflamatório bloqueia a utilização do seu estoque, diminuindo a síntese de hemoglobina e a eritropoiese. Um peptídeo denominado hepcidina aumenta nos processos inflamatórios e inibe a absorção do ferro pelo intestino delgado e a liberação dele pelos macrófagos. Além disso, o aumento dos níveis de citocinas também pode interferir na produção de eritropoietina no rim e na maturação das células eritroides. A seguir, você pode observar os principais dados laboratoriais utilizados para o diagnóstico diferencial das anemias microcíticas e hipocrômicas (Adaptado de: LICHTMAN, 2005, p. 78). Contagem de eritrócitos Anemia por deficiência de ferro: Geralmente baixa Talassemia: Geralmente > 5 x 106/µL Anemia de doença crônica: Geralmente baixa VGM Anemia por deficiência de ferro: Raramente tão baixo como 60-70 fL. Talassemia: Na alfa-talassemia heterozigota – em geral de 70fL-80fL e na beta-talassemia menor – em geral de 60fL-70fL. Anemia de doença crônica: Normal ou Baixo (20%-30% dos casos). Anemia sideroblástica: Baixo (causa hereditária) ou normal/alto (causa adquirida). Nível de Ferritina Sérica Anemia por deficiência de ferro: Diminuído. Talassemia: Aumentado. Anemia de doença crônica: Normal a aumentado. Anemia sideroblástica: Normal a aumentado. RDW Anemia por deficiência de ferro: Aumentado. Talassemia: Normal. Anemia de doença crônica: Normal ou aumentado. Anemia sideroblástica: Aumentado (adquirida). Nível de Ferro Sérico Anemia por deficiência de ferro: Diminuído. Talassemia: Normal a aumentado. Anemia de doença crônica: Normal a diminuído. Anemia sideroblástica: Normal a aumentado. Capacidade Total de Ligação ao Ferro Anemia por deficiência de ferro: Aumentada. Talassemia: Normal. Anemia de doença crônica: Discretamente diminuída. Anemia sideroblástica: Normal. Saturação de Transferrina Anemia por deficiência de ferro: Geralmente baixa, mas pode ser normal. Talassemia: Normal a aumentada. Anemia de doença crônica: Normal a discretamente diminuída. Geralmente >15%. Anemia sideroblástica: Normal a aumentada. Perfil de Hemoglobinas Anemia por deficiência de ferro: Geralmente normal. Hemoglobina A2 pode estar diminuída. Talassemia: Na alfa-talassemia heterozigota em adultos = normal; e recém-nascidos podem apresentar hemoglobina Bart’s ou HbH; na beta-talassemia menor – hemoglobina A2 > 4,0%, hemoglobina fetal pode estar aumentada. Anemia de doença crônica: Geralmente normal. Anemia sideroblástica: Geralmente normal. Diagnóstico diferencial das anemias microcíticas e hipocrômicas Neste vídeo, a especialista Patrícia Fernanda Rosa de Siqueira fala sobre diagnóstico diferencial das anemias microcíticas e hipocrômicas. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Causas das anemias microcíticas e anemia por deficiência de ferro Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Anemia de doença crônica, sideroblástica e talassemias Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Aprendemos que existem diferentes causas que levam ao aparecimento das anemias microcíticas. Sobre as causas da anemia microcítica analise as afirmativas a seguir. I. Normalmente, as anemias microcíticas são adquiridas, ou seja, desenvolvidas durante a vida, não tendo casos de anemias microcíticas herdadas. II. A anemia microcítica é causada pela deficiência nutricional, como a deficiência de vitamina B12 e ácido fólico. III. A anemia microcítica pode ser causada por defeitos na síntese da cadeia globínica. É correto o que se afirma em A I, apenas. B II, apenas. C III, apenas. D I e II, apenas. E I e III, apenas. A alternativa C está correta. A alternativa III está correta. As anemias microcíticas podem ser adquiridas ou herdadas. Os eritrócitos microcíticos são formados devido a causas diversas, como: deficiências nutricionais, pela diminuição na concentração de ferro sérico, importante para a formação do grupamento heme da hemoglobina. A deficiência de vitamina B12 e ácido fólico é causa das anemias macrocíticas. Questão 2 Vimos que o diagnóstico das anemias microcíticas é realizado por eritrograma e análise da bioquímica do ferro, que inclui as seguintes dosagens: ferro sérico, ferritina sérica, capacidade livre e total de ligação ao ferro (CTLF), e índice de saturação de transferrina (IST). Sobre os achados laboratoriais da anemia de doença crônica, analise as afirmativas a seguir: I. A dosagem do receptor solúvel da transferrina (sTfR) e da zincoprotoporfirina eritrocitária (ZPP) encontra-se normal. II. O RDW pode ser normal ou aumentado. III. O VGM está aumentado. IV. A dosagem de ferritina, assim como na anemia ferropriva, encontra-se aumentada. É correto o que se afirma em A I e II. B I e III. C II e IV. D II e III. E III e IV. A alternativa A está correta. Na anemia de doença crônica, a dosagem de ferritina sérica pode estar normal ou elevada, mas o ferro sérico e o VGM encontram-se normais ou diminuídos. O RDW pode ser normal ou aumentado e os valores de sTfR e ZPP normais. Na anemia ferropriva, a dosagem de ferritina sérica está diminuída. 3. Anemias macrocíticas Anemias macrocíticas: conceitos iniciais Anemia por deficiência de vitamina B12 Essas anemias em geral se desenvolvem devido a defeitos na proliferação dos eritroblastos provocados pela falta de nutrientes (folato ou vitamina B12), seja pela deficiência na ingestão ou por alterações que impedem a absorção adequada deles. A deficiência de vitamina B12 (cobalamina) aparece: Desnutrição Em casos de desnutrição ou de má absorção (gastrite, gastrectomia, anemia perniciosa, ressecção ileal). Necessidade Em casos de aumento da necessidade fisiológica (gravidez). Patologia Em casos de aumento patológico (neoplasias). As principais fontesalimentares de vitamina B12 são: carnes, peixes, vísceras, laticínios e ovos. A vitamina B12 liga-se ao fator intrínseco, produzido pelas células parietais gástricas. Essa ligação ocorre no duodeno e jejuno para que sua absorção ocorra no íleo terminal. Saiba mais A anemia perniciosa é causada pela falta da secreção do fator intrínseco pela mucosa gástrica, que impede a absorção da vitamina B12. Esse tipo de anemia é uma doença autoimune, causada pela produção de anticorpos anticélulas parietais, que provocam a destruição das células e a não liberação do fator intrínseco. Anemia por deficiência de folato O fígado é o principal local de reserva do folato, sob forma de 5-metiltetraidrofolato. Essas reservas conseguem atender às necessidades do organismo por três a quatro meses, antes de surgir o quadro de deficiência. A deficiência desse nutriente surge devido à nutrição deficiente, em casos em que há absorção defeituosa do folato, como nas doenças do intestino delgado, nas doenças hepáticas, ou em casos de necessidades aumentadas, como na gravidez ou nas anemias hemolíticas crônicas, sendo observada também em indivíduos que fazem uso excessivo de álcool, em lactentes prematuros e em idosos. As principais fontes de ácido fólico são: vegetais verdes, carnes, frutas e vísceras. Alguns medicamentos prejudicam a síntese de DNA porque são análogos ao ácido fólico (como o metotrexato e sulfametoxazol-trimetoprima) ou análogos ao ácido nucleico (5-fluorouracil e zidovudina), além de outros (hidroxiureia, sulfasalazina, fenitoína e fenobarbital). Durante o uso de tais medicamentos, podemos observar alterações megaloblásticas. Atenção Na consulta do paciente, devem ser coletadas informações sobre o uso de medicamentos que permitam auxiliar o diagnóstico. Importância da vitamina B12 e do folato para o organismo O ácido fólico e a vitamina B12 são necessários à síntese de timidina, que é um dos constituintes do DNA. Quando há deficiência desses nutrientes, a eritropoiese torna-se ineficaz e costuma acontecer a destruição de eritroblastos no interior da medula óssea. Observa-se assincronismo núcleo-citoplasmático, com produção de precursores eritroides maiores e com núcleos anormais, embora tenham citoplasma normal. A redução na capacidade de divisão (mitose) dos eritroblastos origina grandes precursores eritroides (megaloblastos) na medula óssea. Os eritrócitos produzidos são maiores e em pequeno número, mas apresentam concentração de hemoglobina ideal para o seu tamanho (CHGM normal), sendo normocrômicos. Anemia megaloblástica — eritrócitos macrocíticos e neutrófilos hipersegmentados. Características laboratoriais das anemias megaloblásticas Diagnóstico das anemias megaloblásticas Observe, a seguir, as características dos exames laboratoriais utilizados para investigação das anemias megaloblásticas: Eritrograma Eritrócitos em número diminuído. VGM elevado (geralmente >110fL para adultos). Hemoglobina em níveis bastante variados (anemia moderada a grave). HGM elevado (proporcionalmente ao aumento do VGM). CHGM (normal). RDW elevado (desde o início da instalação da anemia). Morfologia do sangue periférico Anisocitose com macrocitose moderada a intensa, com presença de macrócitos ovalados, poiquilocitose discreta com presença de hemácias em lágrima e fragmentos de eritrócitos. Podem ser eventualmente observados corpúsculos de Howeel-Jolly (restos de DNA). Além dos eritrócitos, os leucócitos e as plaquetas são observados em número menor, devido ao comprometimento da síntese de DNA. Presença de neutrófilos hipersegmentados (>5 lóbulos) em pelo menos 5% das células avaliadas. Contagem de reticulócitos Níveis normais ou diminuídos (até 1,5%). • • • • • • Outros exames laboratoriais essenciais para o diagnóstico Dosagem sérica de vitamina B12 (cobalamina) e de ácido fólico — pelo menos uma das dosagens deve estar abaixo dos valores de referência de normalidade. Para verificar as reservas corporais de folato, o ideal é dosar o folato eritrocitário, devido à maior sensibilidade. Resultados encontrados: Ferro sérico elevado. Ferritina sérica elevada. Bilirrubina indireta elevada. Enzima lactato desidrogenase (LDH) elevada. Ácido metilmalônico (MMA) elevado ou homocisteína + MMA elevados — na deficiência de vitamina B12. Homocisteína elevada — deficiência de folato. Homocisteína e MMA normais — indica-se avaliação da medula óssea do paciente para investigar outras causas de anemia, tais como as síndromes mielodisplásicas ou a aplasia da medula óssea. Anticorpos para fator intrínseco ou células parietais — indicativos de anemia perniciosa. Por sinal, falamos em corpúsculo de Howell-Jolly, mas você se lembra de como identificá-los nas lâminas de esfregaço sanguíneo? Vamos ver! Corpúsculos de Howell-Jolly representados pelas setas em um eritroblasto ortocromático (à esquerda) e nos eritrócitos (à direita). Diagnóstico das anemias não megaloblásticas • • • • • • • • Reticulócitos corados com corante novo azul de metileno. As anemias macrocíticas não megaloblásticas devem ser investigadas após se excluir as principais causas das anemias megaloblásticas. As não megaloblásticas costumam apresentar VGM não tão elevado como as megaloblásticas (aproximadamente 110fL) e não são visualizados neutrófilos hipersegmentados no sangue periférico. Em alguns casos, observamos poiquilocitose (esferócitos, acantócitos, esquizócitos) e eritrócitos policromatofílicos. Além disso, a contagem de reticulócitos é variável, mas ajuda muito a direcionar a investigação. Nos casos em que observamos contagens de reticulócitos elevadas, as principais suspeitas são de anemia hemolítica ou de hemorragia aguda. Esses quadros provocam a resposta da medula óssea para produzir mais eritrócitos, a fim de compensar aqueles que foram perdidos na hemólise ou no sangramento. Saiba mais Caso a contagem de reticulócitos esteja baixa, outras causas podem estar relacionadas, tais como: uso contínuo de álcool, hipotireoidismo, doenças hepáticas crônicas, e até mesmo o uso de medicamentos que possam afetar a produção de eritrócitos. Diagnóstico laboratorial das anemias macrocíticas Neste vídeo, a especialista Gabriela Cardoso ajuda na compreensão das questões apresentadas sobre diagnóstico laboratorial das anemias macrocíticas. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Estudos de caso de anemias Caso clínico 1 Vejamos este primeiro exemplo hipotético para descobrir o diagnóstico! A paciente M.A.S., uma mulher de 59 anos, com mal-estar, foi ao clínico geral. Durante o exame, a mulher apresentava taquicardia, palidez cutânea e fadiga. Foram solicitados vários exames laboratoriais de sangue e foi marcado o retorno para 30 dias. Na consulta de retorno, M.A.S. levou os seguintes resultados de exames: No hemograma, foi encontrada apenas alteração na série vermelha; a contagem de plaquetas e de leucócitos estava normal. Além disso, havia uma observação da presença de eritrócitos macrocíticos, policromáticos e de neutrófilos hipersegmentados. Os exames de bioquímica revelaram: Valores de Referência (mulheres adultas) Erit: 4,0 – 5,2 milhões /mm3 Hb: 12,0 – 16,0g/dL Ht: 36 – 46% VGM: 80 – 100 fL HGM: 26 – 34pg CHGM: 31 – 37g/dL RDW: 11,5 – 14,5 % Reticulócitos: 0,5 – 1,5% M.A.S., 59 anos. Sexo: feminino Erit: 3,75 milhões /mm3 Hb: 9,2g/dL Ht: 28% VGM: 128fL HGM: 40pg CHGM: 28,3g/dL RDW: 20 % Reticulócitos: 0,5% Valores de Referência (mulheres adultas) Ferritina sérica: 16-300ng/mL Ferro sérico: 60-180ng/mL IST: 15-50% CTLF: 240-450µg/mL Vitamina B12: 176 – 949pg/mL Ácido fólico: 2,6 – 16ng/mL Homocisteína: abaixo de 15µmol/L Ácido metilmalônico: Inferior ou igual a 0,50 microMol/L. Pesquisa de anticorpos contra células parietais do estômago: Negativa M.A.S., 59 anos. Sexo: feminino Ferritina sérica: 26ng/ mL Ferro sérico: 130ng/mL IST: 25% CTLF: 300µg/ mL Vitamina B12: 160pg/mL Ácido fólico: 10,3ng/mLHomocisteína: 65,7µmol/L Ácido metilmalônico: 28nmol/L Pesquisa de anticorpos contra células parietais do estômago: Positiva Pesquisa de anticorpos contra células parietais do estômago: Positiva E então? Qual o diagnóstico que o médico deu para a paciente? Se você respondeu anemia perniciosa, acertou! No hemograma, vemos uma discreta anemia, com o RDW aumentado e VCM também aumentado, indicativo de anemia macrocítica, pois o VCM encontra-se aumentado em relação ao valor de referência. Além disso, a presença no esfregaço sanguíneo de macrocitose, neutrófilos hipersegmentados e policromasia é indicativo de deficiência de vitamina B12. No entanto, no exame de sangue, a dosagem de folato e dos parâmetros do metabolismo do ferro estavam normais. Além disso, foi verificado aumento de homocisteína e do ácido metilmalônico, a presença de anticorpos contra as células parietais do estômago e diminuição da vitamina B12. Relembrando A vitamina B12 liga-se ao fator intrínseco, produzido pelas células parietais gástricas, importante para que sua absorção ocorra no íleo terminal. A anemia perniciosa, uma doença autoimune, é causada pela falta da secreção do fator intrínseco pela mucosa gástrica, que impede a absorção da vitamina B12, principalmente pela produção de anticorpos contra as células parietais. Caso clínico 2 J.S., mulher de 60 anos apresentando uma enorme dificuldade de deglutição e fadiga ao menor esforço, foi à emergência do hospital Santa Casa. Ao ser atendida, o médico realizou o exame físico e solicitou alguns exames laboratoriais, entre eles hemograma completo, dosagem de ferritina, de transferrina, ferro sérico e ácido fólico e vitamina B12. No hemograma, a única alteração encontrada foi na série vermelha, conforme observamos a seguir: Ao analisar o resultado, vemos que a paciente apresenta uma anemia, com diminuição do número de eritrócitos, hemoglobina, CHCM, HGM e que, como o VCM está diminuído, essa anemia é microcítica. O RDW indica a presença de anisocitose. Para o diagnóstico diferencial da anemia microcítica, devemos avaliar os outros resultados. São eles: Valores de Referência (mulheres adultas) Erit: 4,0 – 5,2 milhões /mm3 Hb: 12,0 – 16,0g/dL Ht: 36 – 46% VGM: 80 – 100 fL HGM: 26 – 34pg CHGM: 31 – 37g/dL RDW: 11,5 – 14,5 % Reticulócitos: 0,5 – 1,5% J.S., 60 anos. Sexo: feminino Erit: 3,75 milhões /mm3 Hb: 7,0g/dL Ht: 22% VGM: 61fL HGM: 15,2pg CHGM: 28,3g/dL RDW: 20 % Reticulócitos: 2,0% A partir dos exames, vimos que a dosagem de ferro sérico, ferritina sérica e IST estão baixas e CTLF está aumentada, característica da anemia ferropriva. Não houve alteração nas dosagens de vitamina B12 e ácido fólico. Assim, concluímos que o diagnóstico da paciente é anemia por deficiência de ferro. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Anemia por deficiência de vitamina B12 Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Anemia por deficiência de folatos Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Importância da vitamina B12 e do folato para o organismo Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Aprendemos que as anemias macrocíticas são causadas pela deficiência de vitamina B12 e ácido fólico. Quando temos uma deficiência dessas substâncias no organismo, qual alteração é observada nas hemácias? A Alteração na síntese de timidina, um dos constituintes do DNA. B Alteração das cadeias globínicas. Valores de Referência (mulheres adultas) Ferritina sérica: 16-300ng/mL Ferro sérico: 60-180ng/mL IST: 15-50% CTLF: 240-450µg/mL Vitamina B12: 176 – 949pg/mL Ácido fólico: 2,6 – 16ng/mL J.S., 60 anos. Sexo: feminino Ferritina sérica: 6ng/mL Ferro sérico: 30ng/mL IST: 5% CTLF: 500µg/mL Vitamina B12: 460pg/mL Ácido fólico: 10,3ng/mL C Aumento da taxa de proliferação celular. D Maior diferenciação celular. E Aumento da concentração de hemoglobina. A alternativa A está correta. A vitamina B12 e o ácido fólico são essenciais para síntese dos nucleotídeos, timidina, que compõem a molécula de DNA. Quando temos menor concentração plasmática dessas moléculas ocorre redução na capacidade proliferativa, ou seja, das mitoses. Dessa forma, temos a produção de eritrócitos grandes e em menor quantidade. No entanto, os eritrócitos têm concentração de hemoglobina ideal para o seu tamanho, não aumentam a diferenciação celular e nem alteram as cadeias globínicas. Questão 2 Durante a análise de um eritrograma e da contagem de reticulócitos de um paciente, observaram-se níveis aumentados de reticulócitos e presença de eritrócitos macrocíticos. Qual doença hematológica esses achados sugerem? A Anemia de doença crônica. B Anemia ferropriva. C Anemia hemolítica. D Alfa-talassemia menor. E Anemia megaloblástica. A alternativa C está correta. A anemia hemolítica, assim como a anemia posterior à hemorragia, provoca macrocitose com elevada concentração de reticulócitos. O aumento de reticulócitos ocorre para repor aqueles eritrócitos que foram perdidos durante a hemólise ou sangramento. Na anemia megaloblástica, há macrocitose com contagem de reticulócitos normal ou baixa. 4. Conclusão Considerações finais Neste conteúdo, iniciamos o estudo sobre as principais alterações na série vermelha do sangue, um assunto muito presente em laboratórios de análises clínicas, consultórios médicos e hospitais. Entendemos o mecanismo de desenvolvimento das anemias e os possíveis defeitos genéticos, deficiências nutricionais e outras causas relacionadas à baixa produção de hemoglobina ou ao aumento da destruição dos eritrócitos. Além disso, examinamos as características laboratoriais das anemias microcíticas e macrocíticas e foi possível verificar que o diagnóstico das anemias pode ser complexo e envolve a realização de um vasto número de exames. Alguns deles são utilizados para direcionar a linha de investigação a ser seguida, de acordo com dados do hemograma e de exames bioquímicos, entre outros. Por isso, você, como profissional de saúde, deve ser capaz de avaliar dados laboratoriais e auxiliar na investigação das possíveis causas de anemias. Lembre-se de que a cada dia surgem novas abordagens diagnósticas, com opções de testes laboratoriais inovadores, por isso, é importante sempre estar atualizado na sua área de atuação. Podcast Para encerar, ouça a especialista Gabriela Cardoso fala sobre as principais alterações hematológicas em pacientes com covid-19. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. Explore + Para saber mais sobre o tema, leia: O artigo Prevalência de Anemia em Adultos e Idosos Brasileiros, de Ísis Eloah Machado e colaboradores (2019). A diretriz Consenso sobre Anemia Ferropriva, da Sociedade Brasileira de Pediatria, atualizada em 2021. O artigo Anemia Megaloblástica: uma Revisão da Literatura, de Mirella Dias Monteiro e colaboradores (2019), publicado na Revista Saúde em Foco. Referências D'ANGELO, G. Role of hepcidin in the pathophysiology and diagnosis of anemia. Blood research n° 48. 2013, p. 12. LEWIS, S. M.; BAIN, B. J.; BATES, I. Practical haematology. 10. ed. Madrid: Elsevier, 2008. Consultado na internet : 20 mai. 2021. LICHTMAN, M.A et al. Manual de hematologia de Williams. 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 2005. • • • SINGH, T.; KHERA, R. Iron overload syndrome. Education book-Hematology Today 2013. VAN VRANKEN, M. Evaluation of microcytosis. American Family Physician, Kansas, v. 82, n. 9, p. 1117–22, nov. 2010. WORLD HEALTH ORGANIZATION. Haemoglobin concentrations for the diagnosis of anaemia and assessment of severity. Geneve, 2011. Anemias microcíticas e macrocíticas 1. Itens iniciais Propósito Preparação Objetivos Introdução 1. Anemias Alterações da série vermelha Anemia: definição e diagnóstico clínico Exemplo Curiosidade Classificação fisiopatológica Fisiopatologiadas anemias Classificação laboratorial Classificação morfológica Tipos de anemia Anemias microcíticas e hipocrômicas Anemias normocrômicas e normocíticas Anemia macrocítica Diagnóstico laboratorial das anemias Eritrograma Saiba mais Contagem de eritrócitos (Erit) Dosagem de hemoglobina (Hb) Hematócrito (Ht) Volume Globular Médio (VGM) Hemoglobina Globular Média (HGM) Concentração de Hemoglobina Globular Média (CHGM) RDW (Red Blood Cell Distribution Width) Hematoscopia RDW aumentado RDW normal Valores de Referência (Mulheres Adultas) Anemia Ferropriva Beta-talassemia Eritrograma Normal Anemia de Doença Crônica (fase inicial) Anemia por Deficiência de Vitamina B12 Estudo de caso com análise de resultado laboratorial Análise do resultado de um eritrograma Atenção Valores de Referência (mulheres adultas) M.D.C., 45 anos. Sexo: feminino Valores de Referência (mulheres adultas) M.D.C., 45 anos. Sexo: feminino Anemias Conteúdo interativo Vem que eu te explico! Anemia: definição e diagnóstico clínico Conteúdo interativo Classificação das anemias Conteúdo interativo Classificação laboratorial das anemias Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 2. Anemias microcíticas Anemias microcíticas: Conceitos iniciais Causas das anemias microcíticas Insuficiência Fornecimento Alteração Defeito Anemia por deficiência de ferro Anemia de doença crônica Anemia sideroblástica Talassemia Diagnóstico das anemias microcíticas Conceitos iniciais Diagnóstico diferencial das anemias sideroblásticas Acúmulo de grânulos Hemossiderina Diagnóstico diferencial das Talassemias Diagnóstico diferencial das ADF CTLF IST Diagnóstico diferencial das anemias por doença crônica Contagem de eritrócitos VGM Nível de Ferritina Sérica RDW Nível de Ferro Sérico Capacidade Total de Ligação ao Ferro Saturação de Transferrina Perfil de Hemoglobinas Diagnóstico diferencial das anemias microcíticas e hipocrômicas Conteúdo interativo Vem que eu te explico! Causas das anemias microcíticas e anemia por deficiência de ferro Conteúdo interativo Anemia de doença crônica, sideroblástica e talassemias Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 3. Anemias macrocíticas Anemias macrocíticas: conceitos iniciais Anemia por deficiência de vitamina B12 Desnutrição Necessidade Patologia Saiba mais Anemia por deficiência de folato Atenção Importância da vitamina B12 e do folato para o organismo Características laboratoriais das anemias megaloblásticas Diagnóstico das anemias megaloblásticas Eritrograma Morfologia do sangue periférico Contagem de reticulócitos Outros exames laboratoriais essenciais para o diagnóstico Diagnóstico das anemias não megaloblásticas Saiba mais Diagnóstico laboratorial das anemias macrocíticas Conteúdo interativo Estudos de caso de anemias Caso clínico 1 Relembrando Caso clínico 2 Vem que eu te explico! Anemia por deficiência de vitamina B12 Conteúdo interativo Anemia por deficiência de folatos Conteúdo interativo Importância da vitamina B12 e do folato para o organismo Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 4. Conclusão Considerações finais Podcast Conteúdo interativo Explore + Referências