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Teoria Literaria - Capitulo 5

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FORMALISMO RUSSO E
NEW CRITICISM
Arnaldo Franco Junior
Formalismo Russo e o New Criticism caracterizam-se pela defesa de uma abordagem
lanente da literatura, ou seja, definem seus princípios e seu instrumental teóricos e, também,
â~propostas metodológicas limitando o seu objeto de estudo e investigação à materialidade do
~o literário.
, Separados geográfica e culturalmente - o Formalismo desenvolveu-se na Rússia entre 1915-
te 1923-30; a Nova Crítica teve origem nos anos 1920-30, afirmando-se na América do Norte
ntre as décadas de 1940 e 1950 -esses dois movimentos foram quase contemporâneos urndooütro;"
. arcando, na primeira metade do século XX, uma ruptura radical com a herança da tradição da crítica
da historiografia literárias do século XIX (crítica impressionista, psicologismo biografista; rigidez
retoricista) .-- /
Cada um à sua maneira, os dois movimentos foram, em seus respectivos contextos de
manifestação e áreas de-influência, decisivos para que a teoria literária se firmasse com.o
disciplina pautada por parâmetros científicos ao lado da linguística e das demais Ciências
Humanas .. ~
Tanto num movimento como no outro, ainda que por perspectivas próprias e diferentes
entre si, é visível a base positivista que exige que as hipóteses de investigação de um determinado
objeto de estudo - a literatura, no caso - só se convertam em teses se a argumentação e a
exemplificação que as sustentam puderem ser empiricamente comprovadas e demonstradas.
Isso significa que tanto o Formalismo Russo como o New Criticism elegem o texto literário
como limite e objeto privilegiado de suas reflexões, considerando os demais campos aos quais o
texto literário se vincula como campos de investigação secundária e/ou suplementar.
Neste capítulo, vamos abordar essas duas tendências da teoria e crítica literárias, destacando alguns
de seus principais aspectos e contribuições para o estudo da literatura.
116-TEORIA LITERÁRIA
RANCO ]UNIOR
o FORMALISMO Russo
Entre 1914 e 1917, na Rússia, alguns estudantes fundaram o Círculo Linguístico de Moscou
(1914-15) e a Associação para o Estudo da Linguagem Poética (OPOIAZ - 1917), instituindo, com
isso, um campo para o desenvolvimento de estudos da língua e da literatura, livre dos compromissos
com a tradição acadêmica vigente na época e marcado pelo entusiasmo para com o cientificismo que
caracterizava a então emergente disciplina de Linguística na Rússia e, também, em outros núcleos
universitários europeus.
O Formalismo Russo desenvolveu-se contemporaneamente às pesquisas e inovações estéticas do
Futurismo Russo, que teve na poesia a sua ponta de lança de afirmação dos valores de vanguarda
modernista em arte. Seu contexto de eclosão está marcado por uma forte turbulência social ligada à
crise do regime czarista e à emergência da revolução russa, que projetava a utopia de uma sociedade
livre de classes sociais, capaz de abolir a propriedade privada e as limitações, estruturas e hierarquias
comprometidas coma velha ordem econômica, sociocultural e política - uma sociedade regulada
por um Estado democrático comprometido com os interesses coletivos da sociedade e regulado, em
suas ações, pela racionalidade e pela ciência. Revolução, igualdade, liberdade, sociedade sem classes,
democracia, participação ativa na construção da sociedade e da história não são meras palavras ou
ideias nesse contexto; são ideais que caracterizaram a ação de muitos dos que se comprometeram com
o objetivo de transformar a sociedade, de mudar a história.
Pode-se dizer que o período heroico de combate e afirmação dos valores, ideias e propostas
dos formalistas russos (1914-17 e 1923-25) coincidiu com o período heróico de afirmação das
utopias ligadas ao projeto de construção de uma sociedade comunista na - após a revolução de
1917 - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A ascensão de Josef Stálin ao poder
a partir de 1924, a consolidação do stalinismo e a extensão de seus efeitos a todas as instituições
da então URSS (1924-1953) significou, para os formalistas e, também, para toda a URSS, a
distorção e o dilaceramento de boa parte das utopias projetadas como ideais durante a fase heroica
anteriormente citada.
O Formalismo Russo pode ser, portanto, dividido em duas fases. A primeira compreende mais
precisamente os anos de 1917 a 1923, momento de afirmação agressiva das novas ideias em relação à
abordagem científica da literatura diante de uma tradição acadêmica conservadora e resistente; a segunda
compreende os anos de 1923-25 e 1930, período de radicalização dos conflitos entre os partidários de uma
abordagem sociológica da literatura (e ideologicamente comprometida com os ideais da revolução socialista
e, também, com determiriados interesses ligados ao exercício do poder pelo Estado) e os membros do grupo
formalista, que recusavam e/ou negavam certos princípios e pressupostos de tal abordagem sociológica. O
ano de 1930 marca, segundo Schnaiderman "a condenação pública e categórica do 'formalismo' [...] e
sua virtual interdição" (1976, p. xviii), tendo, como efeito, o abandono do país por alguns dos membros
do grupo e a limitação dos que permaneceram "a estudos literários em âmbito mais estreito, e que não·
implicassem em teorização" (1976, p. xviii).
Feito esse breve histórico, vamos nos deter em alguns dos princípios e conceitos teóricos
fundamentais do Formalismo Russo.
Segundo Eikhenbaum (1976), o Formalismo Russo marcou-se mais propriamente pela afirmação
de determinados princípios na abordagem da literatura do que pela proposição de um modelo
sistematizado de teoria de caráter dogmático. Nesse sentido, para os membros do grupo formalista,
a metodologia sempre ocupou posição secundária diante da literatura como objeto de estudo. Os
formalistas, segundo Eikhenbaum (1976), nunca hesitaram em transformar seus princípios e conceitos,
caso tal necessidade se impusesse, em razão do estudo de determinado texto ou problema literário. Isso
explica o fato de que, lidos em conjunto, os estudos formalistas apresentam certas nuances e
no que se refere à utilização de alguns mesmos princípios e conceitos teóricos na abordagem de textos
e problemas literários distintos.
FORMALISMO RUSSO E NEW CRITICISM
Dentre os mais importantes princípios formalistas, destaca-se a preocupação com a abordagem
da materialidade do texto literário, que recusa, num primeiro momento, às explicações deb:lse"-
extrali terária:
A filosofia, a sociologia, a psicologia etc., não poderiam servir de ponto de partida paraa
abordagem da obra literária. Ela poderia conter esta ou aquela filosofia, refletir esta ou aquela
opinião política, mas, do ponto de vista do estudo literário, o que importava era o prlom, ou
processo, isto é,o princípio da organização da obra como produto estético, jamais um fator
externo (SCHNAIDERMAN, 1976, p. ix).
Os formalistas preocupavam-se em investigar e explicar o que faz de determinada obra uma obra
literária. Nos termos de Jakobson:
A poesia é linguagem em sua função estética.
Deste modo, o objeto do estudo literário não é a literatura, mas a literaricdade, isto é, aquilo que
torna determinada obra uma obra literária. [... ] Tudo servia para os historiadores da literatura:
os costumes, a psicologia, a política, a filosofia. Em lugar de um estudo da literatura, criava-
se um conglomerado de disciplinas mal-acabadas. Parecia-se esquecer que estes elementos
pertencem às ciências correspondentes [...] e que estas últimas podiam, naturalmente, utilizar
também os monumentos literários como documentos defeituosos e de segunda ordem. Se o
estudo da literatura quer tornar-se uma ciência, ele deve reconhecer o "processo" como seu
único "herói" GAKOBSON, 1921 apud SCHNAIDERMAN, 1976, p. ix-x).
"
O termo priom, que Schaiderman traduz como processo, ficou mais conhecidoe~tre nÓs2~~~"
procedimento. Trata-se de um dos mais importantes conceitos dos estudos formalistas,