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Teoria Literaria - Capitulo 5

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experimentadas pelo autor no momento da criação da obra.
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Wimsatt e Beardsley defendem um conjunto de ideias que consideram fundamentais para a
realização da leitura crítica, a saber:
a) Um poema não existe por acaso, mas nasce de um intelecto. Não se deve, entretanto, "conceder
ao desígnio ou intenção [desse intelecto] o papel de um padrão pelo qual o crítico pode julgar
o valor da realização do poeta" (WIMSATT; BEARDSLEY, 1983, p. 87 - colchete nosso);
b) "Se o poeta teve êxito em realizá-lo, então o próprio poema mostrará o que ele tentava realizar.
E, se o poeta não foi bem-sucedido, então o poema não é uma prova adequada e o crítico deve
extrapolar o poema, na busca de evidenciar uma intenção que não se efetivou no poema"
(WIMSATT; BEARDSLEY, 1983, p. 87);
c) "Julgar um poema é como julgar um pudim ou uma máquina. Exige-se que ele funcione. Só
inferimos a intenção do artesão porque seu produto funciona. [...] A poesia é uma operação
do estilo pela qual um complexo de significado é apreendido de um só golpe. A poesia triunfa
porque tudo ou quase tudo que nela se diz ou se encontra implícito é relevante; o que não
importa foi excluído, como os caroços de um pudim ou os enguiços de uma máquina. A este
respeito, a poesia difere das mensagens práticas, que são bem sucedidas se e apenas se inferimos
corretamente sua intenção" (WIMSATT; BEARDSLEY, 1983, p. 87);
d) "O significado de um poema por certo pode ser pessoal [...] Mas até mesmo um poema lírico
curto é dramático, sendo a resposta de um falante (por mais abstrata que se lhe conceba) a uma
situação (por mais universal que seja). Devemos atribuir os pensamentos e atitudes do poema
de imediato aofalante dramático [eu-lírico - nota nossa] e, se de algum modo ao autor, apenas
por um ato de inferência biográfica" (WIMSATT; BEARDSLEY, 1983, p. 87-88);
e) "O poema não pertence ao crítico, nem ao autor (desliga-se do autor ao nascer e percorre
o mundo subtraindo-se ao poder ou ao controle do criador sobre ele). O poema pertence
ao público. Corporifica-se na linguagem, posse peculiar do público, e trata do ser humano,
objeto de conhecimento público. O que se diz sobre o poema é sujeito à mesma indagação
que qualquer afirmativa em linguística ou na ciência geral da psicologia" (WIMSATT;
BEARDSLEY, 1983, p. 88).
Afalácia da emoção resulta da ideia de que a análise de um poema se reduz à análise da
emoção que ele produz. A emoção suscitada na leitura é um efeito do poema, e não deve ser
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FORMALISMO RUSSO E NEW CRITICISM
confundida com ele. Segundo Teixeira,
o poemaé entendidocomoumaformaparticularde conhecimento,medianteo qualsepode
aprimorare intensificaro contatocom a vida.Mas a funçãodo analistaé examinaro texto,
e não o seu efeito,A críticadeveprocurarno texto as propriedadesque o transformamem
poesia,caracterizandooscomponentesqueo convertemem instrumentode conhecimentoe
emoçãoestética,semjamaisperderdevistaa ideiade que a emoçãodo textoé ficcionale não
se confundecoma emoçãovivida(TEIXElRA, 1998, p. 36).
A heresia da paráfrase consiste no equívoco de se tornar por análise crítica a mera "tradução" dotexto
literário em termos simples. Incorre-se na heresia da parcifrase quando se reduz a abordagem d~ texto à
decodificação de seu significado referencial. Embora eventualmente útil como recurso deconstrução <:i~
leitura crítica, a paráfrase não pode constituir-se em fim último desta, pois "o verdadeiro entendimento de
uma imagem não consiste na captação de seu significado lógico, e sim na percepção de sua configuração
estética,na fruição de seu valor expressivo" (TEIXElRA, 1998, p. 36).
Finalmente, deve-se evitar, também, conceber o texto literário como mero veículo de mensagens
morais, pedagógicas, religiosas, políticas ou como fonte de "sabedoria" prática. Fazer isso é reduzir a
apreciação da literatura à message-hunting (busca de mensagens ou "de ensinamentos"). Segundo Teixeira,
para a "perspectiva da 'nova crítica', a sabedoria da arte decorre, não da apreensão das mensagens, mas
do convívio desinteressado com as formas que engendra" (TEIXElRA, 1998, p. 37).
LIMITES DA TEORIA
Tanto o Formalismo Russo como o New Criticism privilegiam, em sua abordagem da literatura, a
materialidade do texto e seus limites. São, portanto, correntes textualistas de teoria e críticaliterárias. '---e-
Essa ênfase, embora muito importante para o desenvolvimento da crítica e da teoria literárias noséculo
xx, tende a desconsiderar os aspectos ligados à recepção do texto.
Se compreendermos a leitura como o resultado de uma articulação entre a materialidade do texto ,-
(que projeta um conjunto de possibilidades de sentido) e a recepção (que se marca pela escolha, pela
seleção e pela ênfase em determinados sentidos em detrimento de outros, além de ser potencialmente
afetada pelos planos emocional e afetivo do receptor, bem como por sua memória individual e histórica),
identificaremos com clareza os limites tanto do Formalismo Russo como do New Criticism.
Para essas duas correntes de teoria e crítica literárias, a verdade do texto (seus possíveis sentidos)
prescinde do polo da recepção para afirmar-se. Sabemos hoje, a partir da contribuição das teorias da
recepção, que serão expostas no Capítulo 9, que a leitura não é construída com base exclusivamente
nos elementos que constituem a materialidade sígnica e estrutural do texto, seja este literário ou.não-
literário. A leitura crítica é o resultado de uma interação entre o texto e o leitor, e ela afirma uma
verdade possível (um sentido) a partir da articulação das informações de um e outro palas.
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