Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Escolha uma das opções e acesse esse e outros materiais sem bloqueio. 🤩

Cadastre-se ou realize login

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

ARQUEOLOGIA 
AULA 2 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Ana Luíza Berredo 
 
 
 
CONVERSA INICIAL 
Arqueologia é uma ciência que estuda a cultura material e o contexto 
envolvido na produção desses objetos. Nesse sentido, é necessário estudar a 
origem dessa disciplina que teve como ambiente a Europa do século XVIII, 
período das revoluções, com os colecionistas que acumulavam os objetos 
encontrados em sítios antigos identificados como parte de uma arqueologia 
clássica referente a Grécia e Roma, além da arqueologia egípcia. 
Posteriormente, surge a arqueologia norte-americana e depois a implementação 
dos métodos arqueológicos que foram trazidos para solo brasileiro. 
O objetivo desta aula é apresentar as origens da arqueologia e as 
principais escolas teóricas que auxiliaram as pesquisas nesse campo do saber. 
TEMA 1 – ORIGEM 
A origem dos estudos da arqueologia remete a um momento da vida pelo 
qual muitos de nós já passamos: a vontade de colecionar objetos. É comum que 
esse seja um movimento infanto-juvenil em que nos apegamos a determinados 
objetos, os selecionamos com base em um prisma (gosto, cor, tamanho) e os 
guardamos montando nossa coleção. O chamado “colecionismo” foi a primeira 
forma de se pensar arqueologia, que foi registrada por autores como Bruce 
Trigger (2004), em História do pensamento arqueológico, e Nuno Bicho (2012) 
em Manual da arqueologia pré-histórica, que produziram os materiais didáticos 
que baseiam as principais discussões sobre a história da arqueologia e suas 
origens. Por isso, são utilizados como referência para mostrar como esse campo 
de estudo foi se desenvolvendo à medida que as pesquisas e teorias foram 
avançando. 
1.1 Relação entre arqueologia e burguesia 
De acordo com Pereira (2017), apoiado em Trigger (2004), há uma 
relação entre a emergência da arqueologia e a burguesia europeia. O surgimento 
da burguesia, que remete ao final da Idade Média e sua ascensão na Idade 
Moderna, exigiu que os burgueses buscassem algo para se legitimar, já que esse 
período histórico foi da Era dos Grandes Reis e Rainhas, que tinham um cabedal 
numeroso de objetos para lhes representar. Nesse sentido, a legitimação da 
 
 
3 
burguesia se deu por meio da busca por objetos e símbolos que essa categoria 
pudesse utilizar como forma de mostrar prestígio perante a nobreza europeia. 
Para contextualizar, ao analisarmos a pesquisa de Norbert Elias (1987), 
em A sociedade de corte, sobre a corte francesa de Luís XIV, o Rei-Sol, é 
possível identificar por meio da narrativa do autor os aparatos materiais 
sustentados pela nobreza que incluíam tipos de habitação, peças de roupas com 
tecidos de seda, adornos para serem colocados no corpo, tronos, camas, 
tapeçarias, entre outros objetos que se tornaram símbolos de uma cultura 
material que remete a um modo de vida do nobre europeu. Desse modo, os 
objetos identificavam as pessoas e suas classes sociais. 
Figura 1 – Rei Louis XIV retratado com indumentária luxuosa 
 
Créditos: Everett Collection/Shutterstock. 
https://www.shutterstock.com/pt/g/everett
 
 
4 
Nota: O Rei Louis XIV retratado com indumentária luxuosa que remete à nobreza, com a cores 
branca e azul, além da peruca volumosa e, acima desta, um dossel de seda vermelho com 
detalhes dourados. Os objetos em destaque nas mãos do monarca são o cetro na mão direita e 
a espada disposta na cintura, bem como a coroa disposta em cima de um móvel, todos símbolos 
do poder de um rei absolutista. 
A burguesia almejava ter o mesmo reconhecimento que a nobreza e, por 
isso, buscou no período histórico clássico, mais especificamente o greco-
romano, a fonte para obter esse reconhecimento e possível construção de suas 
identidades. Inspirados pela estética, artes, padrões e formas da Antiguidade, os 
burgueses queriam ser representados por símbolos surgidos antes da formação 
da nobreza europeia, o que acarretou no início da fase do colecionismo (Pereira, 
2017). 
1.2 Arqueologia como ciência 
A arqueologia em seu início esteve ligada à História e à Antropologia e 
somente foi compreendida enquanto ciência anos depois, quando foi possível 
realizar pesquisas utilizando metodologias próprias que a fez se distanciar 
dessas disciplinas para que fosse possível trilhar caminhos próprios. Para Bicho 
(2012), a definição da arqueologia enquanto ciência se deu por meio da definição 
do ser humano no tempo, quando foi constatado que existiram povos sem escrita 
que estavam ligados aos primeiros grupamentos humanos, como os caçadores-
coletores-pescadores, identificados dentro do campo da “pré-história”1. 
Pereira (2017), apoiado em Bicho (2012), ressalta ainda que o outro 
aspecto para a definição da arqueologia foi o surgimento da escrita, da 
agricultura e da sedentarização, do período do Homo sapiens: “A elaboração de 
técnicas de estudo arqueológicos – como as seriações temporais e de materiais, 
as tipologias de peças e a construção de padrões de cultura, deram o tom 
científico à arqueologia” (Pereira, 2017, p. 35). 
A criação de escolas teóricas faz parte da cientificidade atribuída aos 
campos de estudos, conforme nos elucida Reis (2002), apoiado em Almeida e 
Pinto (1986): 
Teoria é um agregado de ideias no corpo de uma ciência contendo uma 
ou diversas hipóteses como partes integrantes; condiciona ou propicia 
 
1 As aspas colocadas no termo “pré-história” se referem à pertinência do seu uso nas atuais 
discussões didáticas referentes a povos sem escritas como se fossem povos sem história. 
 
 
5 
a observação dos fenômenos, além de suas partes hipotéticas, um 
aparato que permite sua verificação, confirmação ou impossibilidade 
[…] uma teoria não é necessariamente uma explicação do domínio dos 
feitos aos quais se refere, porém constitui um instrumento de 
ordenação, conceituação e previsão (Reis, 2002, p. 177) 
A arqueologia, como qualquer outra ciência, também é pautada por 
escolas teóricas que foram responsáveis pelo desenvolvimento desse campo de 
estudos: histórico-culturalismo, processualismo e pós-processualismo. No 
entanto, antes de nos aprofundarmos na teoria, é necessário entender o que foi 
o colecionismo. 
 
TEMA 2 – COLECIONISMO 
A primeira forma de se pensar a arqueologia foi por intermédio do 
colecionismo, que consiste na coleção de objetos que eram selecionados e 
acumulados, sendo utilizados nas coleções que originaram os museus de 
história natural. Segundo Trigger (2004) e Bahn (1996), esse tipo de coleta e 
formação de coleções é característico do antiquarianismo do século XVIII. 
Figura 2 – Coleção de vasos de cerâmica originárias da cultura grega 
 
Créditos: Sshipfactory/Shutterstock. 
https://www.shutterstock.com/pt/g/shipfactory
 
 
6 
2.1 Antiquarianismo 
Partindo da leitura de Soltys (2010), o antiquarianismo surge para atender 
a uma ordem cronológica da classificação dos objetos dentro da arqueologia e 
também para relacioná-los com a história da criação dos museus, em que o 
arqueólogo buscava envolver um público-alvo e inserir ideologias por meio de 
propostas teóricas e metodológicas que foram somadas a um interesse pelo 
passado, surgindo um tipo de arqueologia denominada evolucionista. 
De acordo com Soltys (2010), o antiquarianismo levou a uma nova forma 
de ver os artefatos arqueológicos que teve início na Inglaterra do século XVI, 
“quando foi fundada a Sociedade dos Antiquários, uma associação londrina para 
a preservação e o estudo das antiguidades nacionais. Eles fizeram 
pouquíssimas tentativas de escavação, de forma deliberada e a cronologia não 
era uma preocupação” (Soltys, 2010, p. 14). 
Trigger (2004) informa que, por causa da dependência dos escritos, os 
antiquários achavam improvável saber sobre períodos anteriores e continuaram 
acreditando que a datação do mundo estava em torno de 3500 anos a. C., época 
aproximada do surgimento da escrita. Nesse sentido, o antiquarianismofoi 
responsável por reunir os objetos dentro de salas, reduzindo e miniaturalizando 
a cultura dos povos (Soltys, 2010, p. 16). 
2.2 Arqueologia evolucionista 
De acordo com Trigger (2004, p. 92), a teoria evolucionista dizia que o 
corpo humano e sua cultura tornaram-se mais complexos com o passar do 
tempo, levando os arqueólogos a colocar os sítios em ordem cronológica, com 
vistas a identificar estágios de desenvolvimento. O tom evolucionista dessas 
classificações foi muito influenciado pelos estudos de Charles Darwin (1859), 
vinculado a um evolucionismo social muito presente em discussões científicas 
do século XIX. 
No entanto, Baco, Faccio e Luz (2009) destacam que essa é uma 
concepção antropológica preconceituosa de progresso humano, uma vez que 
não levaram em consideração as particularidades culturais regionalmente 
estabelecidas nos assentamentos de diferentes sociedades. 
A nova área de estudos buscava novos indícios que comprovassem a 
antiguidade do ser humano e suas origens, culminando com o crescimento do 
 
 
7 
nacionalismo, o surgimento dos museus e a necessidade de definir e classificar 
culturas e povos. De acordo com Soltys (2010, p. 14), o surgimento de uma 
arqueologia nacionalista levou ao desenvolvimento da primeira escola teórica, a 
Arqueologia Histórico Cultural. 
TEMA 3 – HISTÓRICO-CULTURALISMO 
As influências provenientes do evolucionismo cultural afetaram o modo 
como foram feitos o enquadramento dos achados arqueológicos nos esquemas 
e etapas formalizados pelo evolucionismo. Além disso, havia uma preocupação 
dos arqueólogos no estudo da distribuição geográfica dos artefatos e suas 
relações com grupos históricos, enfocando principalmente no estudo das 
sequências regionais dos artefatos (Reis, 2002, p. 177). 
De acordo com Pereira (2017, p. 76), o ponto central do histórico-
culturalismo é a definição de padrões de cultura em regiões geograficamente 
determinadas, levando-se em conta que processos de migração e de difusão 
da tecnologia teriam contribuído para o desenvolvimento dos povos por meio da 
observação de formas cerâmicas, tipos de pontas de flechas e padrões de 
pinturas rupestres, por exemplo. 
Quadro 1 – Migração e difusão 
Migração Difusão 
Corresponde ao movimento de povos e 
trânsito da cultura material do grupo e entre 
grupos. 
Ocorre quando um grupo aprendia com outro 
grupo a elaborar ou utilizar um aspecto da 
cultura material. 
 
Fonte: Pereira, 2017, p. 76. 
3.1 Histórico Culturalismo como ciência 
De acordo com Pereira (2017), os três principais fatores que originaram a 
escola histórico-culturalista foram: o aprofundamento da percepção da 
diferenciação entre grupos humanos, o que refutou o evolucionismo; o 
desenvolvimento de métodos de escavação mais profissionais e a introdução da 
arqueologia nas universidades da Europa e dos Estados-Unidos. 
Na Europa, a arqueologia surge vinculada à História, Artes e Literatura, 
em que os primeiros estudos se deram com os grupos pré-romanos, greco-
romanos, pré-históricos e com a possibilidade de consulta a fontes escritas, 
escavações arqueológicas e dados bibliográficos produzidos. Nos Estados 
 
 
8 
Unidos da América (EUA), a arqueologia está ligada à figura de Franz Boas 
(1858-1942), tido como o fundador da antropologia desse país, que criou o 
campo científico dessa disciplina apoiado no chamado Four Fields: Antropologia 
Cultural; Bioantropologia; Linguística e Arqueologia. A ideia era explicar a origem 
dos povos do continente americano com o estudo dos grupos ainda vivos no 
continente e também perpetuar a necessidade de vinculação entre a arqueologia 
e a antropologia com ciências-irmãs (Pereira, 2017, p. 76). 
3.2 Principais autores do histórico culturalismo 
Partindo das reflexões de Trigger (2004), apesar de estar vinculado a 
preceitos nacionalistas de unidade cultural, o histórico-culturalismo resultou em 
um significativo aperfeiçoamento de métodos arqueológicos, como a seriação, a 
estratigrafia, a classificação e o aumento da compreensão do modo como se 
vivia no passado. Os principais autores dessa escola teórica foram sintetizados 
no Quadro 2 a seguir. 
Quadro 2 – Principais autores dessa escola teórica 
Gordon Childe (1892-1957) Grahame Clarck (1907-1995) 
Propôs a sistematização da arqueologia 
como ciência, alargamento das técnicas de 
escavação e compreensão do registro 
arqueológico. O autor afirmava que era 
possível determinar uma ordenação à cultura 
material dentro das sociedades passadas, 
possibilitando a determinação das “culturas 
arqueológicas”. Além disso, dizia que o 
contexto em que o objeto foi encontrado 
possibilitaria inferir dados sobre o grupo 
(Trigger, 2004). 
 
Afirmava que a cultura era um sistema 
adaptativo no qual seria necessário 
reconstruir tanto a história quanto os sistemas 
econômicos, políticos, simbólicos e religiosos 
do grupo que se estudava (Pereira, 2017). 
 
Fonte: Trigger, 2004; Pereira, 2017. 
O histórico-culturalismo trouxe muitas inovações para o campo de 
pesquisa arqueológico, porém mostrou um maior interesse pelas peças 
acumuladas do que pelo conhecimento dos grupos que as criaram, considerando 
que a cultura material seria o reflexo passivo da sociedade ou do grupo 
estruturado. 
No século XX, a arqueologia sofre algumas mudanças e anda em direção 
a uma ciência com maior apreço às metodologias e um aprofundamento 
interpretativo. 
 
 
9 
TEMA 4 – PROCESSUALISMO 
O desenvolvimento de uma arqueologia mais científica, com a aplicação 
de metodologias robustas para a verificação de dados e hipóteses 
cientificamente formuladas, influenciou o surgimento do processualismo, 
também conhecido como “Nova Arqueologia”. 
O processualismo surge em solo estadunidense após a Segunda Guerra 
Mundial e tem como um dos primeiros pesquisadores Joseph Caldwell (1959), 
que estabeleceu uma perspectiva neoevolucionista em que a percepção do 
registro arqueológico seria decorrente de um processo cultural. Além disso, essa 
escola baseia-se na teoria geral dos sistemas e no positivismo lógico, pois os 
pesquisadores identificaram que os sistemas integrados como economia e 
política eram os fatores que movimentavam a sociedade (Reis, 2002; Pereira, 
2017). 
4.1 Principais autores do processualismo 
Lewis Binford foi um dos principais pesquisadores da escola 
processualista e afirmava que “o registro arqueológico seria as padronizações 
da cultura por sua funcionalidade” (Binford, 1983). Nesse sentido, o autor buscou 
mostrar que os aspectos tecnológicos é que fazem a cultura material modificar-
se e ter usos sociais, pois o que realmente importaria seria a funcionalidade de 
um objeto e não sua estética. Binford advoga que a arqueologia deixe de lado o 
tom histórico e assuma a cientificidade da antropologia com métodos, modelos 
e interpretações realizadas por meio da análise do grupo e não por deduções do 
pesquisador. 
Michel Schiffer é outro autor que se tornou referência do processualismo, 
uma vez que afirma a necessidade de se conhecer os contextos sistêmicos e 
arqueológicos para entender como ocorre a cultura em funcionamento. Schiffer 
(1972) apresenta um modelo de circulação no qual a história de vida ou os 
processos sistêmicos correlatos a um objeto podem ser percebidos. Por contexto 
sistêmico, leia-se a formação do Registro Arqueológico que seria decorrente de 
cinco passos: aquisição do material, manufatura, uso, manutenção e descarte, 
que acarretaria um sistema comportamental (Pereira, 2017, p. 85). 
Schiffer (1995, p. 14-16) também propôs a Teoria do Médio Alcance, que 
tinha como objetivo produzir um aporte teórico que possibilitava o material 
 
 
10 
arqueológico ser ligado tanto ao seu passado (em perspectiva dinâmica) quanto 
ao seu presente (visto sob uma forma dinâmica no registro arqueológico). 
Para o autor, existiriam os transformadores C e N que modificariam a 
cultura materialde acordo com fatores culturais e naturais. Os transformadores 
C corresponderiam às leis que relacionam variáveis de um sistema cultural em 
existência a variáveis que descrevem a deposição ou não deposição cultural de 
seus elementos. Já os transformadores N corresponderiam a processos naturais 
como erosão, chuva, intemperismo, responsáveis por transformar ou alterar a 
forma da cultura material de maneira natural (Pereira, 2017). 
4.2 Críticas 
O processualismo trouxe muitas inovações do ponto de vista da aplicação 
metodológica na arqueologia e se firmou enquanto ciência com aporte teórico, 
dados robustos a serem analisados e hipóteses a serem testadas. No entanto, 
ignora aspectos ideacionais e simbólicos, empreendendo uma visão estática da 
cultura material. 
As pesquisas dos autores processualistas tentaram criar leis gerais em 
que a cultura material fosse uma resposta adaptativa do grupo ao meio, 
reduzindo a participação e o gosto do indivíduo criador dos objetos. Conforme 
nos elucida Tânia Andrade Lima (2011, p. 16), “essa perspectiva reduziu o 
indivíduo a um autômato controlado pelo sistema”. 
A Nova Arqueologia foi questionada e constatou-se a importância de 
reinserir o indivíduo e suas ações nos estudos da cultura material, sendo 
necessário trazer a agência humana de volta à relação com a materialidade, de 
modo que fosse realizado um foco analítico no sujeito (Pereira, 2017). 
TEMA 5 – PÓS-PROCESSUALISMO 
O pós-processualismo surge no início da década de 1980 em virtude de 
um descontentamento com o processualismo. Cabe destacar que tal insatisfação 
não estava ligada ao campo metodológico, mas ao distanciamento em relação 
às teorias sociais vigente na época, o que acarretou críticas ao funcionalismo de 
Lewis Binford, que postulava que a criação dos objetos era feita em decorrência 
da sua funcionalidade em um grupo, deixando de lado os aspectos estéticos ou 
rituais. Nesse sentido, havia a necessidade de reinserção dos indivíduos como 
 
 
11 
agentes transformadores da sociedade e o estudo dos aspectos ideacionais 
como pinturas rupestres e sistemas religiosos, por exemplo. 
5.1 Principais autores do pós-processualismo 
Ian Hodder (1995) é o principal autor dessa escola teórica e pretendeu 
refletir sobre como, por que, e em que sentidos, os indivíduos utilizaram a cultura 
material para expressar suas formas de pensar as ideias e seus conceitos sobre 
o mundo e, sobretudo, como isso pode ser lido na atualidade tanto pelo viés 
político como pelo social em que muitas pesquisas estão inseridas. 
Para isso, Hodder se inspirou no estruturalismo de Levi-Strauss (1958), 
no pós-estruturalismo de Pierre Bourdieu (1972) e Michel Foucault (1969) e na 
teoria de agência de Anthony Giddens (1986), e que o foco do estudo são os 
indivíduos, vistos como sujeitos ativos na sociedade. 
De acordo com Pereira (2017), apoiado em Michael Shanks e Ian Hodder 
(1998): 
O material arqueológico deveria não apenas ser considerado e 
interpretado como aspecto do comportamento pretérito, mas também 
ser inserido em uma pauta política e social em que passaria a ter uma 
função legitimadora ou de empoderamento de determinados grupos 
excluídos do registro arqueológico (Pereira, 2017, p. 90) 
Essa reflexão faria parte do que os pesquisadores chamam de 
“arqueologia contextual”, em que o contexto social influenciaria a confecção e 
interpretação da cultura material. 
5.2 Arqueologia: pesquisa social e política 
A arqueologia pós-processual dá ênfase à dimensão dos significados 
simbólicos presentes em diferentes contextos culturais e propõe a reflexão de 
que os arqueólogos desenvolvem suas pesquisas com base em sua classe 
social, ideologia, cultura e gênero, os quais podem ser fatores utilizados como 
ponto de partida para as perguntas formuladas às evidências arqueológicas 
(Reis, 2002). 
A cultura material não tem sentido por si mesma, como defende o 
histórico-culturalismo, mas encontra sua significância de interpretação 
na relação que o arqueólogo estabelece com o passado que é 
interpretado conforme as pautas políticas da atualidade. Assim, não 
existe uma “reconstrução” do passado, mas a interpretação e a 
elaboração de uma leitura deste. O passado é lido e interpretado e não 
reconstituído (Pereira, 2017, p. 59) 
 
 
12 
A arqueologia pós-processualista advoga que essa área de estudos pode 
ser utilizada como ferramenta para sensibilização da população sobre os 
desafios e compromissos políticos com a preservação da memória e pluralidade 
cultural. Nesse sentido, é fundamental estabelecer um diálogo com outras 
ciências como a história, a antropologia, a sociologia, a biologia, a geologia etc., 
possibilitando construções teóricas e práticas a respeito dos problemas e das 
questões do presente (Pereira, 2017). 
O objetivo do pós-processualismo é dar visibilidade a outras culturas 
materiais para a criação de novas narrativas, que podem ser até mesmo em 
primeira pessoa, que faz parte da virada epistemológica que essa escola trouxe 
para a arqueologia. 
NA PRÁTICA 
A arqueologia se perpetuou no campo científico desde o século XIX e 
galgou espaços cada vez mais embasados e fortalecidos por escolas teóricas 
que proporcionaram o desenvolvimento dessa ciência no Brasil e no mundo. Na 
prática, o estudo das escolas teóricas contribui para entendermos a história da 
ciência arqueológica e de que modo se deu sua cronologia. 
As teorias são utilizadas para guiar as pesquisas arqueológicas e podem 
ser escolhidas pelo pesquisador de acordo com a que melhor se adapta ao seu 
objeto de estudos. Nesse sentido, assim que se escolhe o objeto de estudo 
dentro da arqueologia, é necessário se perguntar qual das escolas teóricas é 
possível vincular à pesquisa que se quer desenvolver. 
Cabe destacar que as teorias processualistas e pós-processualistas não 
se anulam, sendo possível realizar uma pesquisa predominantemente baseada 
em autores pós-processualistas e utilizar autores processualistas que 
apresentem metodologias aplicáveis à cultura material escolhida, e vice-versa. 
Na prática, sugerimos imaginar-se como um arqueólogo que está 
estudando os sepultamentos encontrados em um sambaqui. Qual(is) escola(s) 
teórica(s) escolheríamos para basear a análise? É interessante completar esse 
exercício de reflexão por meio da escrita de um pequeno texto justificando essa 
escolha. 
 
 
13 
FINALIZANDO 
Nesta aula, foram apresentadas as escolas teóricas que fazem parte da 
história da arqueologia. A primeira forma de se entender arqueologia foi por meio 
do colecionismo de objetos e do antiquarianismo, no século XVIII, movimentos 
que fizeram parte da criação das coleções de objetos que possibilitaram o 
surgimento dos museus. 
No século XIX, surgiu o histórico-culturalismo, que foi fortemente 
influenciado pelo evolucionismo cultural adaptado dos estudos de Charles 
Darwin e que tinham como objetivo definir padrões de cultura baseados na 
questão territorial e geográfica. De acordo com os autores dessa escola teórica, 
isso poderia acontecer por meio da migração e da difusão. O histórico-
culturalismo representou, ainda, mesmo que incipiente, o início da Era 
cientificista da arqueologia. 
O processualismo é a escola teórica que determinou a permanência 
definitiva da arqueologia enquanto uma ciência que era composta por teoria e 
metodologias, em que foi possível realizar o levantamento de dados e testar 
hipóteses. Os principais expoentes desse estudo foram Lewis Binford e Michael 
Schiffer que, em seus estudos, propuseram que a cultura material dependia da 
funcionalidade dos objetos, deixando de lado o aspecto social e de ação dos 
indivíduos, o que lhes gerou as maiores críticas que desencadearam a formação 
de uma nova escola: o pós-processualismo. 
A inserção do sujeito na arqueologia, prezando pelo aspecto político e 
social, é o pilar do pós-processualismo. Essa escola teórica,que tem como 
principais autores Ian Hodder e Michael Shanks, aborda a necessidade de não 
se apagar o sujeito construtor dos objetos. Nesse sentido, mesmo que o objeto 
tenha sido criado com uma funcionalidade, os arqueólogos não podem afirmar o 
motivo que o levou à confecção de determinada cultura material, mas apenas 
estudar o contexto em que os objetos foram encontrados, bem como seus 
materiais de confecção, e propor hipóteses que pudessem explicar o modo de 
vida dos indivíduos do passado. De modo que os arqueólogos não podem 
reconstituir o passado, ele é lido e interpretado por meio das escolas teóricas 
escolhidas e das experiências do pesquisador. 
Para melhor entender a cronologia envolvendo as escolas teóricas, na 
Figura 3 a seguir dispomos o quadro-síntese desenvolvido por Pereira (2017). 
 
 
14 
Figura 3 – Principais escolas teóricas da arqueologia 
 
 
Fonte: Pereira, 2017, p. 36. 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
ALMEIDA, J. F.; PINTO, J. M. Da teoria à investigação empírica. Problemas 
Metodológicos Gerais. In: SILVA, A. S.; PINTO, J. M. Metodologia das ciências 
sociais. Porto: Afrontamento, 1986. 
BACO, H. M.; FACCIO, N. B.; LUZ, J. R. Das raízes da pesquisa arqueológica a 
arqueologia processual: um esboço geral. Revista Tópos, v. 3, n. 1, p. 206-233, 
2009. 
BAHN, P. G. The cambridge illustrated history of archaeology. Cambridge: 
Cambridge University Press, 1996. p. 386. 
BICHO, N. Manual de arqueologia pré-histórica. 2. ed. rev. e atual. Lisboa: 
Edicções 70, 2012. 
BINFORD, L. In pursuit of the past: decoding the archaeological record. New 
York: Thames and Hudson, 1983. 
BOURDIEU, P. Esquisse d’une théorie de Ia pratique. Geneve: Droz, 1972. 
CALDWELL, J. The New American Archaeology. Science, v. 129, n. 3.345, p. 
303-307, 1959. 
CHILDE, G. Para uma recuperação do passado. São Paulo: All Print, 2008. 
DARWIN, C. [1859]. A origem das espécies. Porto: Lello & Irmão, 2003. 
ELIAS, N. A sociedade de corte. Tradução de Ana Maria Alves. Lisboa: Editorial 
Estampa, 1987. 
FOUCAULT, M. [1969]. A arqueologia do saber. Tradução de A. M. Sheridan 
Smith. Londres: Nova Iorque: Routledge, 2002. 
GIDDENS, A. The constitution of society: outline of the theory of structuration. 
Berkeley: University Of California Press, 1986. 
HODDER, I. Theory and practice in archaeology. Londres: Routledge, 1995. 
LEVI-STRAUSS, C. Anthropologie structurale. Paris: Plon, 1958. 
LIMA, T. Cultura material: a dimensão concreta das relações sociais. Boletim do 
Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, v. 6, n. 1, p. 11-23, jan./abr. 2011. 
PEREIRA, R. Arqueologia, patrimônio material e legislação: conceito, 
aplicações e perspectivas. Curitiba: InterSaberes, 2017. 
https://pt.wikipedia.org/wiki/Michel_Foucault
 
 
16 
REIS, J. Prolegômenos sobre teoria na arqueologia. Diálogos, v. 6. p. 173-186, 
2002. 
SCHIFFER, M. Archaeolgical context and systemic context. American Antiquity, 
v. 37, n. 2, p. 156-165, abr. 1972. 
_____. Behavioral Archaeology. First Principles. Salt Lake City: University of 
Utah Press, 1995 (Foundations of Archaeological Inquiry). 
SOLTYS, F. Caleidoscópio, narrativas e subjetividade na arqueologia 
pública. 159 p. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, 
Belo Horizonte, 2010. 
TRIGGER, B. História do pensamento arqueológico. Odysseys, São Paulo, 2004.

Mais conteúdos dessa disciplina