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PLANEJAMENTO URBANO Autoria: Felipe Buller Bertuzzi Indaial - 2021 UNIASSELVI-PÓS 1ª Edição CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Carlos Fabiano Fistarol Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Cristiane Lisandra Danna Norberto Siegel Camila Roczanski Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Bárbara Pricila Franz Marcelo Bucci Revisão de Conteúdo: Bárbara Pricila Franz Revisão Gramatical: Equipe Produção de Materiais Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Copyright © UNIASSELVI 2021 Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. B552p Bertuzzi, Felipe Buller Planejamento urbano. / Felipe Buller Bertuzzi – Indaial: UNIASSELVI, 2021. 135 p.; il. ISBN 978-65-5646-407-7 ISBN Digital 978-65-5646-406-0 1. Urbanismo. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 710 Impresso por: Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................5 CAPÍTULO 1 O Planejamento Urbano e suas Interfaces .............................. 7 CAPÍTULO 2 Os Instrumentos do Planejamento Urbano ............................ 53 CAPÍTULO 3 O Planejamento e o Urbanismo Contemporâneo ................... 93 APRESENTAÇÃO Caro estudante! Seja muito bem-vindo à disciplina de Planejamento Urbano do Programa de Pós-Graduação lato sensu da UNIASSELVI. Será um prazer dialogarmos sobre essa temática que é extremamente importante para as cidades onde vivemos. As abordagens deste livro irão lhe auxiliar a desenvolver habilidades que serão fundamentais para a aplicação no mercado de trabalho! Inicialmente, no primeiro capítulo, serão expostas as principais teorias do urbanismo e do planejamento urbano para que, em seguida, você possa compreender os processos que originaram a composição das cidades ao longo da história internacional e, posteriormente, do Planejamento Urbano e Regional no Brasil. Será com esses entendimentos que você terá o conhecimento técnico científico necessário para a elaboração das melhores estratégias urbanas em sua vida profissional. Além disso, estará apto a avaliar e aplicar os conceitos já elucidados ao longo da história no urbanismo atual. Já no segundo capítulo, iremos discutir as estratégias atuais do planejamento urbano que vêm sendo realizadas nas mais diferentes cidades do mundo, bem como as formas legais do exercício do planejamento nas cidades que precisam ser respeitados. Com isso, você terá instrumentos técnicos para analisar as dinâmicas das políticas públicas frente às necessidades urbanas atuais. Além disso, você poderá aliar as propostas de planejamento urbano aos instrumentos legais vigentes. Por fim, o terceiro capítulo irá lhe instigar e promover o debate acerca dos desafios urbanos a partir de trabalhos já realizados no âmbito nacional e internacional, a fim de capacitá-lo para o pensamento crítico e a prática de técnicas para a análise do espaço urbano. Na prática, você poderá analisar a viabilidade e o estudo de projetos urbanos bem-sucedidos, captar as melhores estratégias para o desenvolvimento urbano local e auxiliar na solução de problemas urbanos a partir de princípios sustentáveis. Está preparado para desbravarmos todo esse conhecimento juntos? Lembre-se sempre: A transformação só existirá se houver conhecimento! Professor Arq. Me. Felipe Buller Bertuzzi CAPÍTULO 1 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS IN- TERFACES A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: apreender as principais teorias do urbanismo e do Planejamento Urbano; conhecer os processos históricos do Planejamento Urbano e Regional no Brasil; agregar conhecimento técnico-científi co para a elaboração das melhores estratégias urbanas; avaliar e aplicar os conceitos já elucidados ao longo da história no urbanismo atual. 8 Planejamento Urbano 9 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 1 CONTEXTUALIZAÇÃO O presente capítulo irá abordar as defi nições de planejamento urbano a partir de uma breve história do urbanismo. É preciso entender o planejamento urbano sob a perspectiva de uma disciplina que visa encontrar soluções para a melhoria das cidades e que esses recursos perpassam de uma forma transdisciplinar, isto é, requer decisões conjuntas a partir de diferentes atores da sociedade. Mas para essa análise acontecer é necessário compreender o processo histórico da confi guração das comunidades, da aglomeração urbana e dos primeiros desafi os acarretados pelo processo de urbanização. Muitas decisões tomadas ao longo da história desencadearam em divisões do espaço urbano que ascenderam e continuam provocando o fortalecimento da desigualdade social, como o uso e a apropriação do solo urbano por meio do zoneamento, a priorização da requalifi cação de áreas urbanas que visavam melhorar a aparência da cidade ao ocultar áreas mais pobres, dentre outros. Para isso, será apresentado o processo da constituição das cidades, extremamente importante para que você consiga relacionar às decisões urbanas tomadas nos dias atuais. Na sequência, abordaremos a história do planejamento urbano e regional no Brasil, levando em consideração as suas potencialidades e fragilidades, bem como a análise das determinações anteriores com aquilo que vem sendo feito atualmente. Para isso, serão evidenciados os períodos (ou fases) do planejamento urbano brasileiro que considerou momentos de pura unilateralidade sobre a cidade e também da compreensão de que o espaço urbano necessita ser pensado por todos. Por fi m, serão apresentadas algumas maneiras de intervir no espaço urbano – ainda que de uma forma generalista – para que você compreenda quais os problemas mais decorrentes e as maneiras de intervenção na cidade a partir de uma gestão urbana integrada. Nesse sentido, o presente capítulo buscará lhe situar sobre o que essa disciplina do Planejamento Urbano quer dizer a partir de um passo a passo sistemático com inúmeras provocações ao longo do texto que lhe farão refl etir sobre a cidade contemporânea. Vamos lá? 10 Planejamento Urbano 2 A NECESSIDADE DO PLANEJAMENTO Você tem alguma ideia de como surgiu o termo “planejamento urbano” e como ele é tratado nos dias de hoje? Iremos abordar esse conceito com você! Mas antes disso, é preciso desmembrar essas palavras e entender, separadamente, o que cada uma delas signifi ca. Vamos nessa? 2.1 DEFINIÇÕES DE PLANEJAMENTO URBANO E UMA BREVE HISTÓRIA DO URBANISMO Quando falamos em planejamento, logo vem à mente o ato de organizar, preparar uma determinada atividade ou um determinado espaço. Quando planejamos algo, quer dizer que estamos querendo buscar melhorias para a resolução de um problema, não é verdade? Isso ocorre quando estudamos para uma avaliação na faculdade ou quando precisamos realizar alguma refeição ou mesmo pensar em como será a viagem do fi nal de ano. Esses são exemplos muito simples de atividades que requerem um planejamento prévio, uma organização para que as nossas atividades saiam conforme o esperado! Para envolver um entendimento científi co e lhe auxiliar ainda mais na compreensão dessa temática, Yehezkel Dror defi ne planejamento como sendo “o processo de preparar um conjunto de decisões para ação futura, dirigida à consecução de objetivos através dos meios preferidos” (DROR, 1973, p. 323). Em outras palavras, o autor desta frase quis dizer que o planejamento se trata de um processo preparatório para o alcance de metas, realizado em conjunto com todas as pessoas envolvidas. É importante ressaltar que, muitasvezes, as decisões tomadas no momento de todo o processo de planejamento não necessariamente serão as mesmas a serem executadas (SABOYA, 2011). Isso porque é necessário avaliar o contexto e todas as circunstâncias envolvidas a fi m de verifi car se a resolução daquele problema será realmente efetiva. Conseguiu compreender o que signifi ca planejamento? Agora, iremos descobrir o sentido da próxima palavra que compõe o entendimento da presente disciplina do curso! O termo “urbano” está ligado diretamente à cidade e trata do espaço civilizado em que vivemos. 11 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 Aqui, tratamos o termo civilizado como sendo a união de aspectos que compõem uma civilização, uma sociedade. Dentre eles estão os fatores intelectuais, morais e materiais de uma região, por exemplo! A origem no latim, “urbanus”, signifi ca “pertencente à cidade”, relacionado diretamente aos habitantes que nela vivem (VESCHI, 2019). E é nesse meio, dotado de inúmeras interconexões, que praticamos as nossas atividades diárias e nos relacionamos com o ambiente externo. Para exemplifi car algumas das características que compõem a zona urbana estão: as edifi cações, o perfi l viário, as redes de iluminação, os serviços de saúde, educação, áreas de lazer, dentre muitos outros. Todos esses componentes de uma cidade fazem parte e estão inerentes a nossa vida cotidiana. Portanto, se unirmos os dois termos, entendemos que “planejamento urbano” trata da organização e do crescimento das cidades a partir de diferentes olhares e análises que abordaremos neste capítulo. Apesar de muitas vezes os termos “urbanismo” e “planejamento urbano” serem encarados como sinônimos, o urbanismo está voltado às características territoriais das cidades (ao desenho da cidade), enquanto o planejamento urbano abre-se para um sentido interdisciplinar, ainda mais amplo (DUARTE, 2009). Ele remete ao conjunto de medidas que visam alcançar objetivos sob aspectos da arquitetura, sociologia, geografi a, economia, engenharia, entre outros. Segundo Jorge Wilheim (importante planejador urbano do Brasil), o objetivo do urbanismo é analisar criticamente a realidade do espaço da vida urbana, oferecer uma visão desejável e possível, propor e instrumentar uma estratégia de mudança. Esta estratégia deveria ser acompanhada pelos instrumentos necessários para induzir e conduzir a alteração de realidade proposta (DUARTE, 2009). Vamos em frente? Talvez você já esteja se perguntando: “Mas como isso de fato ocorre na prática?”. O planejamento urbano acontece a partir de processos técnicos (profi ssionais habilitados para pensar a cidade, como urbanistas e engenheiros) e pelo poder público, responsável pela gestão da cidade. Além disso, torna-se muito importante a participação da população em Assim, o planejamento urbano volta-se para a garantia do desenvolvimento ordenado das comunidades pertencentes à cidade. 12 Planejamento Urbano todo esse processo, pela qual relacionaremos nos próximos capítulos. Assim, o planejamento urbano volta-se para a garantia do desenvolvimento ordenado das comunidades pertencentes à cidade. Esperamos que você tenha entendido! Agora que entendemos o que signifi ca esse termo, iremos tratar sobre a relação do planejamento com as cidades. Estudaremos como surgiu a preocupação com a organização do espaço urbano e quais as implicações nas mais diferentes cidades do mundo. Por mais recente que o planejamento urbano possa parecer, o homem já formava “cidades” há milhares e milhares de anos. Benevolo (1997) relacionou o surgimento desses agrupamentos ancestrais como geradores da divisão de classes, um contraste social que era evidenciado por aqueles que dominam e os que eram dominados. E isso refl etia muito nas formas de habitar e na determinação daqueles que poderia ter mais recursos de sobrevivência em detrimento de outros. Esse processo era muito sustentado pela produção agrícola em que a sociedade aprimorava as suas técnicas a fi m de construir, gradativamente, a sua própria evolução. Aos poucos, esses agrupamentos foram se espalhando e se desenvolvendo em diferentes locais do mundo (Figura 01). Leonardo Benevolo (1997) traz o comparativo do processo de evolução em seu livro intitulado História da Cidade, que retrata o desenvolvimento da civilização humana. BENEVOLO, L. História da Cidade. 3. ed. São Paulo: Perspectiva S/A, 1997. 13 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 FIGURA 1 – EVOLUÇÃO DO CRESCIMENTO POPULACIONAL AO LONGO DE MILHARES DE ANOS FONTE: Adaptada de Benevolo (1997) Aos poucos, foram sendo feitas descobertas de recursos que poderiam ser cultivados para a subsistência, das ferramentas que seriam utilizadas e do local onde as pessoas seriam assentadas. A instalação das comunidades próxima a leitos de rios favorecia todo esse desenvolvimento, como a irrigação para o cultivo de plantas e cereais, o transporte, a troca de mercadorias, dentre outros (BENEVOLO, 1997). Assim, o funcionamento da cidade começou a ser implantado. Com o passar do tempo, essa tipologia “aberta” de cidade foi trocada por regiões cercadas. Há cerca de 2000 a.C., as cidades sumerianas – localizada na região sul da Mesopotâmia – resumiam-se em construções muito próximas de dezenas de milhares de habitantes, mas também verticais no formato de pirâmide, os chamados zigurates (BENEVOLO, 1997). A Figura 2 demonstra como era evidente a distinção de classes, em que os mais pobres já viviam em áreas compactas e aglomeradas mais distante da região central dotada de armazéns, lojas, laboratórios dentre outros serviços. 14 Planejamento Urbano FIGURA 2 – FORMATO DAS EDIFICAÇÕES E A DIVISÃO DE CLASSES FONTE: Adaptada de Benevolo (1997) Com o tempo, as cidades passaram a ser desenvolvidas com certa regularidade geométrica, intercalando espaços abertos e fechados, muitas vezes distribuídos ao redor de pátios centrais. Resultado do processo evolutivo do ser humano que, ao longo da história, foi descobrindo diferentes formas de organização espacial em prol de sua sobrevivência. E todo esse caminho percorrido foi decorrente do conhecimento empírico, ou seja, do ato de o ser humano agir conforme as suas experiências, vivências e necessidades. E aí... o que você está achando? Conseguiu captar a ideia desse panorama histórico que trouxemos para você? Julgamos extremamente necessário para que você consiga compreender a real noção de planejamento urbano que abordaremos neste livro. Agora, daremos um salto na cronologia histórica para lhe mostrar como todo esse processo desencadeou em mudanças extremamente desafi adoras e que nos perseguem até os dias de hoje! Vamos lá? Apesar de diferentes formatos e tipologias que foram surgindo ao longo de milênios e em todas as localidades do mundo, um período muito recente da nossa história acelerou o desenvolvimento urbano e evidenciou, com muito mais força, a necessidade de se pensar a cidade. 15 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 Ainda neste capítulo, falávamos sobre o papel do planejamento na resolução de problemas. No caso das cidades, isso não foi diferente. Isso porque a Revolução Industrial, ocorrida em meados do século XVIII na Inglaterra, provocou o esvaziamento de uma população que até então morava em áreas rurais para se deslocarem à área urbana das cidades, o que gerou um aumento muito signifi cativo de pessoas que buscavam empregos e a esperança de uma qualidade de vida melhor do que eles já tinham. Revolução Industrial: período de grandes transformações ocasionadas pelo surgimento da indústria e da aceleração da produção! Esclarecendo: é importante saber que o processo acelerado de migração para as cidades foi denominado “êxodo rural”. Fazendo uma analogia para que você entenda: era como se um estádio de futebol com capacidade de 100 mil pessoas passassea receber 375 mil naquele mesmo espaço ao longo de vários anos. Ou seja: a capacidade de absorção da população nas cidades já estava esgotava!!! E não bastasse isso, o processo iniciado na Europa (também chamado de alastramento ou espalhamento urbano) foi se disseminando pelo mundo todo, crescendo de 500 mil para 1 bilhão de pessoas entre os séculos XVIII e XIX. Para deixar ainda mais ilustrativo esse crescimento, o gráfi co a seguir retrata, em percentagem, o quanto o processo de urbanização impactou no mundo, entre os anos 1500-2016. Também é possível fazer uma relação com o crescimento populacional do Brasil e do Reino Unido. 16 Planejamento Urbano GRÁFICO 1 – CRESCIMENTO DA URBANIZAÇÃO NOS ÚLTIMOS 500 ANOS FONTE: Our World in Data baseado no UN World Urbanization Prospects (2018) Ao contrário das melhorias humanas que se pretendia buscar refúgio nas cidades, esse salto resultante do aumento signifi cativo da densidade populacional acabou gerando o oposto das expectativas. Uma série de problemas relacionados ao ambiente físico foi gerada a partir do acúmulo de lixo, do esgoto a céu aberto e, consequentemente, da proliferação muito acelerada de doenças infecciosas. Todo esse impacto gerado a partir da grande “aglomeração” de pessoas acendeu um alerta que perdura até os dias de hoje: a necessidade de se pensar a cidade, visando encontrar alternativas viáveis para a sua sustentabilidade. O campo desse estudo, denominado urbanismo, visa estudar as relações entre a vida humana e o espaço físico vivido, a fi m de encontrar soluções para o melhoramento da qualidade de vida. Todo esse processo histórico que praticamente mudou o rumo da sociedade mundial pode ser resumido na Figura 3, servindo de ilustração para que você tenha em mente que a aceleração do desenvolvimento industrial – que hoje é o propulsor da economia, principalmente tecnológico – foi um dos motivos pelo qual estamos estudando as cidades no dia de hoje. 17 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 FIGURA 3 – SÍNTESE DO PROCESSO DE URBANIZAÇÃO NAS CIDADES FONTE: <https://brasilescola.uol.com.br/brasil/urbanizacao.htm>. Acesso em: 29 jun. 2021. Aviso importante: Vale ressaltar que quando tratamos sobre os acontecimentos históricos de uma forma sequencial, isso não signifi ca que eles ocorreram de maneira simultânea em todos os cantos do mundo. Fazemos isso para que você entenda e construa todo o processo e os seus desdobramentos de uma maneira lógica, ok? Então, vamos retomar a lógica do planejamento. Quando observamos uma difi culdade, precisamos solucioná-la, correto? O mesmo aconteceu para as cidades. Com o passar dos anos, o Urbanismo passou a ser uma disciplina a ser estudada por profi ssionais que voltavam o olhar para a tentativa de solucionar esses problemas. Pois bem, talvez você esteja se perguntando: como o planejamento urbano surgiu somente agora, se as cidades já existiam há muito mais tempo? 18 Planejamento Urbano A resposta para essa questão é a seguinte: somente a partir desse momento, no século XIX, que o planejamento urbano passou a ser entendido com um trabalho resultante de profi ssionais que realmente “planejassem”, que desenvolvessem um método, um procedimento de como as cidades deveriam ser, apesar das cidades antigas que vimos anteriormente terem sido construídas e ampliadas conforme as intenções da época. Vale ressaltar que a “falta de planejamento” remetido às cidades da antiguidade voltam-se unicamente para o funcionamento urbano e a distribuição territorial como um todo, excetuando dessa discussão análises sobre descobertas e formas de sobrevivência extremamente importantes e relevantes para os dias atuais. Os estudos propriamente ditos focados no planejamento urbano e na arquitetura passaram a ser discutido no período do pós-revolução industrial. Os arquitetos e urbanistas – adeptos do Modernismo que se instaurava na Europa do início do século XX – defendiam a ideia da padronização das edifi cações visando reduzir custos e serem produzidos em grande escala. Tratava-se de um movimento de manifestações artísticas e culturais com o intuito de romper com o tradicionalismo vigente e propor novas soluções à cidade. Excetuando dessa discussão análises sobre descobertas e formas de sobrevivência extremamente importantes e relevantes para os dias atuais. O livro História crítica da arquitetura moderna, desenvolvido por Kenneth Frampton, discute as origens da arquitetura moderna a partir de uma perspectiva contextualizada sobre a prática arquitetônica atual e a sustentabilidade. Vale a pena conferir! FRAMPTON, K. História crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Martins Fontes, 2015. Ao surgir esse regramento nos espaços de morar, novos hábitos e formas de apropriação dos espaços construídos e não construídos foram sendo criados. É nesse momento que surgem estudos urbanos com a existência de grandes conjuntos habitacionais realizados por arquitetos e urbanistas da época. E com o intuito de realizar trocas de experiências entre profi ssionais que seguiam essa linguagem arquitetônica nas edifi cações e nas cidades, foram criados os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, muito conhecidos pela sua abreviatura: os CIAM’s (Figura 4). 19 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 FIGURA 4 – FOTO RETIRADA NA PRIMEIRA EDIÇÃO DO EVENTO (CIAM I) FONTE: Adaptada de Ferreira e Queiroz (2021) Apesar de eles se reunirem com o objetivo de realizar trocas de experiências, será que o evento se resumiu a esse único intuito? Na realidade, o que eles também queriam era universalizar/unifi car os princípios da arquitetura moderna entre eles e, a partir disso, gerar uma única forma de expressão, uma arquitetura e um urbanismo que falassem a mesma língua! Nesse sentido, buscaram discutir sobre a ideologia funcionalista – pensamento focado na funcionalidade da habitação e da cidade –, sustentada pela racionalização econômica e industrialização na projeção dos espaços físicos. Ou seja: defendiam a ideia de que as construções precisariam ser padronizadas, baratas, construídas rapidamente e em grande escala (GURGEL, 2021). O Quadro 1 visa sintetizar as principais ideias debatidas nos CIAM’s, para que você compreenda a importância histórica desses momentos de discussões do planejamento urbano! Com o objetivo de fi car ainda mais didático e facilitar a sua aprendizagem, os CIAM’s foram agrupados em três períodos: 20 Planejamento Urbano 1º PERÍODO (1928- 1933) 2º PERÍODO (1933- 1947) 3º PERÍODO (1947- 1956) CIAM I Suíça CIAM IV Grécia CIAM VII Itália CIAM II Alemanha CIAM V França CIAM VIII InglaterraCIAM IX França CIAM III Bélgica CIAM VI Inglaterra CIAM X Iugoslávia Pauta: Criação de padrões mínimos na construção: busca pela racionalização. Pauta: Planejamento Urbano; Recon- strução das cidades. Organizador: Arq. e Urb. Le Corbusier. Pauta: Arquitetura como arte; Preocupação com o habitat. QUADRO 1 – OS CONGRESSOS INTERNACIONAIS DE ARQUITETURA MODERNA (CIAM’S) E SEUS RESPECTIVOS PERÍODOS FONTE: Adaptado de Gurgel (2021) • 1º PERÍODO (1928-1933) O ponto de partida dos congressos, dado na Suíça (CIAM I), teve como discussão principal as técnicas construtivas modernas (como o uso do concreto armado), a padronização da construção, a economia e o urbanismo. Posteriormente, no CIAM II, foram abordados os padrões mínimos da habitação, sob orientação do arquiteto Ernst May, o qual sustentava a ideia de que as unidades habitacionais deveriam possuir “a máxima função com o mínimo de forma” (GURGEL, 2021, s.p.). Já o CIAM III discutiu a problemática da obtenção de terras para a construção de empreendimentos. Os resultados do evento resultaram na publicação Razões de construção racional. Além disso, essa edição também tratou da confi guração urbana, como o gabarito ideal (altura das edificações) e as distâncias que as edifi cações deveriam ter entre si. Tudo isso foi sendo pensado sob o pretexto de dividir o solo a partir de uma perspectiva racional. De um modo geral, o 1º período dos CIAM’s trouxe à tona a discussão sobre a racionalização na construção, frisando a execução da maior quantidade possível de edifi cações de baixo custo e de rápida construção. Talvez você esteja pensando: por que estou estudando sobre a habitação, se o foco dessa disciplina é o planejamento urbano? Não deveríamos estar pensando a partir de um ponto de vista mais amplo? 21 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 As discussões sobre a funcionalidade da unidade habitacional é pensar o espaço urbano. Os arquitetos e urbanistas pensavam no macro (cidade), a partir do micro (habitação). Defendiam que a arquitetura precisaria ser racional para que a cidade também fosse. E isso tudo é planejamento urbano, um sistema complexo que envolve muitas conexões! Por isso é necessário compreender todo o processo dos CIAM’s, a fi m de estudar as temáticas abordadas em cada edição e analisar os resultados obtidos. Veremos que o 2º período dos CIAM’s foi fundamental para compreendermos o impacto que o estudo das edifi cações gerou nas cidades! • 2º PERÍODO (1933-1947) Agora, sim, chegamos à análise “macro”: chegamos à cidade! O CIAM IV teve como objetivo realizar a análise de 33 cidades no que tange à ordem e à funcionalidade urbana. Esse evento, coordenado pelo Arquiteto e Urbanista Le Corbusier, resultou na “Carta de Atenas” (Figura 5), um manifesto urbanístico criado por arquitetos que visou expor os problemas urbanos consequentes do crescimento das cidades. A Carta de Atenas pode ser lida na íntegra no site: https:// edisciplinas.usp.br/pluginfi le.php/2974977/mod_resource/content/3/ aula12_Corbusier_Le_A_Carta_de_Atenas.pdf. Publicada em Paris, no ano de 1941, a Carta foi sustentada na ideia de que era necessário criar uma legislação que regrasse sobre o desenvolvimento urbano, a fi m de evitar a expansão desenfreada das cidades europeias. Em outras palavras, a Carta sugeriu que o Estado fosse o responsável por regular os interesses coletivos da cidade sobre os individuais! (CORBUSIER, 1933). 22 Planejamento Urbano FIGURA 5 – A CARTA DE ATENAS FONTE: Adaptada de Corbusier (1933) Mas de que forma a Carta evidenciou a necessidade de se seguir um regramento urbanístico? Ela defi ne as ações desenvolvidas na cidade com base em quatro pontos importantes: HABITAR, TRABALHAR, RECREAR e CIRCULAR (Quadro 2). Em cada agrupamento foram defi nidos indicativos de como o planejamento da cidade deveria acontecer para que a estrutura urbana pudesse alcançar o equilíbrio. QUADRO 2 – ESPECIFICIDADES DA CARTA DE ATENAS FONTE: Adaptada de Corbusier (1933) 23 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 Mesmo defendendo a substituição de áreas degradadas por áreas verdes, a Carta de Atenas assegurava a manutenção de edifi cações históricas a fi m de garantir a preservação da identidade da cidade. Apesar disso, as novas construções que seriam construídas não poderiam ser desenvolvidas com base em estilos antigos, a fi m de evitar uma “reconstituição inverídica” do passado. Em resumo, a Carta de Atenas visava ORGANIZAR a cidade a partir da ORDEM e do ALINHAMENTO urbanos da Europa. Ao contrário das demais edições, o CIAM V foi realizado durante o período da II Guerra Mundial. Devido a isso, os arquitetos precisaram se reunir em diferentes países. Nesse evento, cada agrupamento de profi ssionais discutiu uma temática, como o planejamento pós-guerra e a preparação da legislação. Anos depois, o CIAM VI ocorreu com o intuito de compartilhar as experiências dos grupos que, sem se comunicar previamente, debateram sobre ideias muito parecidas. Em contraponto às outras edições que ocorreram fortemente baseadas na racionalização e funcionalidade da cidade, este abordou a questão estética: desde a análise das reais necessidades humanas até a relação do arquiteto com escultores e pintores. • 3º PERÍODO (1947-1956) Este último período de congressos resultou em uma mescla de assuntos julgados pertinentes pelos profi ssionais arquitetos e urbanistas. O CIAM VII, por exemplo, envolveu discussões sobre o desenvolvimento de novas cidades e também sobre a questão estética. Por outro lado, o CIAM VIII voltou-se à análise da Carta de Atenas. Verifi cou- se que a carta fracassou em defi nir apenas quatro pontos para delimitar as funções da cidade. Era necessário dar destaque ao centro, o “coração da cidade” como o quinto ponto. Sob um ponto de vista mais humano, o pedestre passou a ser entendido como um dos estruturadores do espaço urbano. Nos mesmos moldes, o CIAM IX considerou a importância do indivíduo no processo de construção do espaço. Com a temática “habitat humano” sustentou-se a ideia de que deveria haver uma relação entre os habitantes de uma família e de uma sociedade. Por consequência, a Carta de Atenas foi mais uma vez criticada por não levar em consideração a identidade e as relações entre o bairro e a residência, isto é, era preciso predominar as relações humanas sobre funcionais descritas na Carta de Atenas. Por fi m, o CIAM X – que contou com a presença de arquitetos e urbanistas da nova geração, excetuando Le Corbusier, por exemplo – desenvolveram a chamada “Carta do Habitat”, que levou em consideração as relações do indivíduo Em resumo, a Carta de Atenas visava ORGANIZAR a cidade a partir da ORDEM e do ALINHAMENTO urbanos da Europa. 24 Planejamento Urbano com a família e com a comunidade; as necessidades do ser humano em se isolar e também em ter contato com a natureza. Tratava-se do surgimento de um novo momento na história da cidade: a preocupação com os problemas reais que afl igiam a qualidade de vida humana, contrariando uma arquitetura modernista que visava enquadrar e regrar toda a ação humana. A cidade passou a ser vislumbrada a partir de um olhar mais aberto, sustentado pela compreensão do ambiente em que aquele indivíduo se desenvolve (FERREIRA; QUEIROZ, 2021). Surge, portanto, uma grande distinção de ideias: QUADRO 3 – DISTINÇÃO DE IDEIAS QUADRO 4 – RELAÇÃO ENTRE AS DUAS VERTENTES DO URBANISMO FONTE: Ferreira e Queiroz (2021, s.p.) FONTE: Adaptado de Choay (2005) Tratava-se da transição de uma arquitetura racional pela “valorização da ótica do usuário, pela consideração dos aspectos culturais envolvidos em arquitetura, pela leitura da cidade em termo dos diferentes níveis de associação humana, pelo retorno da valorização da rua como espaço de convivência” (BARONE, 2002, p. 188). Mas como esses pensamentos funcionavam na prática? A seguir, serão apresentados, de uma forma mais detalhada, os responsáveis por dar vida às correntes de pensamento que Choay (2005) chamou de urbanismo progressista e urbanismo culturalista, predominantes no século XX. Objetivos URBANISMO PROGRESSISTA URBANISMO CULTURALISTA Modernizar a cidade, adequando-a ao modelo de vida industrial Buscar uma nova forma de vida ao retomar princípios e costumes do passado Profi ssionais Tony Garnier, Walter Gropius e Le Corbusier Camillo Sitte, Ebenezer Howard e Raymond Unwin 25 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 O urbanista Walter Gropius (1883-1969), adepto à modernização da cidade, defendia a padronização de prédios, sustentando a ideia de que a repetição poderia ser mais econômica e a verticalização reduziria as grandes distâncias a serem percorridas na cidade. Nos mesmos moldes do urbanismo progressista, o urbanista Tony Garnier (1869-1948) acreditava que as grandes cidades deveriam advir dos princípios industriais, como a separação das funções urbanas, o que hoje chamamos de zoneamento (zonas específi cas para residências, para as áreas de indústria, comércio etc.), a exclusão de pátios internos e estreitosdos lotes e a criação de áreas verdes para que todos pudessem utilizar de forma comunitária. Já o urbanista franco-suíço Le Corbusier (1887-1965), também adepto do urbanista progressista, desenvolveu um dos modelos utópicos de cidade, as chamadas “cidades ideais”. Seu intuito era desenvolver uma cidade que pudesse ter muitos espaços verdes e captação de luz solar, a fi m de garantir aos residentes um estilo de vida melhor. Com a preocupação de planejar a cidade com o foco na distribuição espacial, o traçado urbano e a aparência da cidade, o ano de 1922 foi marcado pelo desenvolvimento do projeto intitulado “Ville Radieuse”, classifi cado com um centro urbano para 3 milhões de habitantes com destaque para arranha-céus localizados na área central e dotados de apartamentos e escritórios interligados por uma rede de transportes. Nas áreas mais afastadas do centro foram projetados blocos menores para a alocação de trabalhadores de classes mais baixas (BOSTJAN, 2020). FIGURA 7 – PROJETO DA VILLE RADIEUSE, PROJETO DE CIDADE DESENVOLVIDO POR LE CORBUSIER FONTE: Bostjan (2020,s.p.) 26 Planejamento Urbano De uma maneira geral, Le Corbusier pôde resumir o seu estudo urbano em alguns princípios: modelo linear, edifi cações elevadas sobre pilotis e destaque para o centro da cidade. Pensou-se em uma cidade com alta densidade e um zoneamento bastante defi nido, como áreas destinadas estritamente a residências, hotéis, negócios, indústrias etc. Segundo Le Corbusier (1933, s.p.), "A cidade de hoje é uma coisa morta, porque seu planejamento não é na proporção geométrica. O resultado de um lay- out verdadeiramente geométrico é a repetição, o resultado da repetição é um padrão. A forma perfeita”. Ao contrário dessa vertente que prezava por um desenvolvimento mais evolucionista, haviam urbanistas que procuravam focar no mais simples e resgatar as origens mais antigas, como a arquitetura da Idade Média, em que as construções não possuíam uma regularidade geométrica, mas defendendo a ideia de que cada edifi cação deveria ter as suas dimensões próprias, fora da padronização. Enquanto o arquiteto e historiador Camilo Sitte (1843-1903) visualizava a cidade medieval sob o ponto de vista estético, com traçados viários irregulares, casas com alturas diferentes e praças enclausuradas, o urbanista Ebenezer Howard (1850-1928) considerava que o urbanismo ideal deveria ser a cidade- jardim, uma espécie de “união” da cidade altamente densa com o campo. Segundo ele, os órgãos públicos e o lazer deveriam ser localizados na área central e as indústrias na zona periférica da cidade para facilitar o desenvolvimento produtivo. Além disso, a população seria planejada para 30.000 pessoas, sendo 2.000 advindas do campo, o que justifi ca a ideia harmônica entre o homem e a natureza. Já o urbanista Raymond Unwin (1863-1940) defendia a padronização de casas destinadas aos operários que possuísse custo baixo e que, ao mesmo tempo, garantisse as condições de salubridade. Aliado a isso, destacava a necessidade de desenvolver áreas verdes em grandes extensões junto às novas edifi cações. Para tanto, desenvolveu juntamente a Barry Parker (1867- 1947), o Projeto de Implantação de Letchworth (Figura 8), situada na Inglaterra. Embasados em uma topografi a plana, desenvolveram quarteirões com traçados orgânicos – se comparados com o Urbanista Progressista em que os quarteirões possuíam características de traçados mais retilíneos. 27 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 FIGURA 8 – PROJETO DE IMPLANTAÇÃO DE LETCHWORTH, DESENVOLVIDO PRO RAYMOND UNWIN E BARRY PARKER FONTE: Zimmermann (2021, s.p.) Independentemente da vertente de urbanismo aqui evidenciada, sendo progressista ou culturalista, tratavam-se de modelos “prontos” que visam construir uma cidade nova, sem considerar os reais problemas enfrentados pelas cidades reais. É como se ignorasse a cidade em que viviam para planejar uma nova área urbana. Será mesmo que isso resolveria todos os problemas? Lembrando que essas proposições foram originadas após o período da revolução industrial, acometendo o crescimento exponencial das cidades e gerando problemas sanitários e de superlotação de pessoas. Além disso, esses planos se limitavam a um modelo que poderia ser replicado sem considerar as especifi cidades das cidades. Para Taylor (1988, p. 14), “Os planos e as decisões de planejamento eram feitos geralmente baseadas na intuição ou, ao invés disso, baseadas em concepções estéticas simplistas da forma urbana [...]”. Apesar dessas fragilidades, muitos modelos foram aplicados ao longo de várias localidades do mundo, inclusive no Brasil, em que abordaremos mais adiante. 28 Planejamento Urbano Recapitulando, vimos, até o momento, como aconteceu o início dos estudos de planejamento urbano. Vale lembrá-lo de que precisamos estudar os acontecimentos históricos para compreender o passado, mas, acima de tudo, abrir os nossos olhos para as decisões tomadas no nosso dia a dia e na idealização do futuro da cidade! Ressaltamos a você que é extremamente importante saber como tudo isso ocorreu e como a civilização humana se comporta nos dias de hoje em relação ao espaço urbano. Por isso, deixamos a seguir alguns questionamentos para a sua refl exão. Pensar a partir desses questionamentos é fundamental para seguirmos. Vamos lá? • Será que o planejamento urbano em que vivemos atualmente é unicamente intuitivo ou leva em consideração critérios técnicos nas etapas de idealização e execução dos processos? • A projeção e a distribuição de espaços abertos e fechados na cidade gera igualdade a todos os indivíduos? Devemos criar uma cidade “ideal” do “zero” ou analisar os problemas existentes e procurar resolvê-los pontualmente? 1) Sobre o Planejamento Urbano, assinale a resposta correta: a) ( ) Trata-se de uma técnica oriunda do urbanismo que visa estudar unicamente as características sociais das cidades. b) ( ) Trata-se da organização e do crescimento das cidades em um sentido mais amplo de caráter indisciplinar. Visa alcançar diferentes objetivos sob a perspectiva de várias áreas do conhecimento. c) ( ) Estuda somente o traçado urbano das cidades, sem considerar outros atributos. d) ( ) Por vezes é confundido com o urbanismo, mas ambos se voltam para a proposição de estratégias para a melhoria do espaço urbano. e) ( ) Apenas as alternativas B e D estão corretas. 2) Iniciado na Inglaterra do século XVIII, a Revolução Industrial provocou o inchaço urbano, período de grandes transformações ocasionadas pelo surgimento da indústria e da aceleração da produção. Pode-se dizer que esse processo foi consequência do(a): 29 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 a) ( ) Abandono rural, em que os habitantes do campo migraram para a cidade em busca de empregos e de uma melhor qualidade de vida. b) ( ) Urbanização planejada, em que os indivíduos buscavam migrar ordenadamente para as cidades. c) ( ) Êxodo rural, em que os habitantes do campo migraram para a cidade em busca de empregos e de uma melhor qualidade de vida, o que gerou diversos problemas sociais. d) ( ) Migração rururbana, em que poucos habitantes do campo migraram para a cidade em busca de melhor qualidade de vida. e) ( ) Nenhuma das anteriores. 3) Os estudos propriamente ditos focados no planejamento urbano e na arquitetura passaram a ser discutidos no período do pós- revolução industrial. A partir daí, surgiriam adeptos do Movimento Modernista. Sobre esse movimento, leia as asserções e assinale a alternativa correta: I- O Modernismo voltou-se para a padronização das construções e a criação de padrões mínimos para se viver, resultando em cidades funcionalistas. II- Defendia a manutenção das cidades, sem defi nir a separação das funções urbanas. III- Tratava-se de um movimento dotado de manifestações artísticas e culturais com ointuito de romper com o tradicionalismo vigente e propor novas soluções à cidade. IV- Ao defender as funções urbanas (zoneamento), defi niam construções na área central sem levar em consideração o gabarito (altura) dos prédios. V- A Carta do Habitar surgiu com o intuito de evidenciar a importância das relações com a família e a comunidade, contrariando aspectos estritamente funcionalistas e padronizadas da Carta de Atenas. a) ( ) I e IV estão incorretas. b) ( ) III e V estão corretas. c) ( ) II e IV estão incorretas. d) ( ) I, II e V estão corretas. e) ( ) Todas as alternativas estão corretas. 30 Planejamento Urbano 2.2 HISTÓRIA DO PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL NO BRASIL Até o momento, verifi camos como as cidades foram sendo constituídas e as primeiras ideias de planejamento urbano sendo aplicadas. Após terem sido originadas na Inglaterra do século XVIII, iremos estudar o surgimento desses conceitos no Brasil. Vamos lá? Posterior ao avanço das discussões sobre o planejamento urbano do continente europeu para outras localidades do mundo, o Brasil também passou a incorporar ideias relativas à organização territorial. E para essa compreensão, debateremos acerca da visão de dois autores que contribuíram e contribuem signifi cativamente para a compreensão histórica dos estudos urbanos no Brasil: os arquitetos e urbanistas prof. Dr. Flávio Villaça e a prof. Dra. Maria Cristina da Silva Leme. Ambos trazem elementos muito enriquecedores para o entendimento desse processo! Você está preparado? Esses conceitos sobre o Planejamento Urbano no Brasil que estão sendo discorridos advêm do livro O processo de urbanização no Brasil, de Sueli Ramos Schiffer, e do livro A formação do pensamento urbanístico no Brasil: 1895-1965, de Maria Cristina da Silva Leme. Vale a pena a leitura dessas obras para complementar o seu entendimento sobre este tema! Inicialmente, vamos tratar do planejamento urbano brasileiro na visão do prof. Dr. Flávio Villaça. O arquiteto, que desenvolveu muitos trabalhos nessa temática, analisou planos realizados entre os anos de 1875 e 1992 no país, criando algumas defi nições para facilitar o entendimento de cinco diferentes vertentes encontradas (VILLAÇA, 1999): 31 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 PLANEJAMENTO URBANO LATO SENSU Discursos aliados às práticas. PLANEJAMENTO URBANO STRICTO SENSU Planos diretores que, muitas vezes, fi caram no discurso. ZONEAMENTO Instrumento do planejamento urbano que regula o uso e a ocupação do solo ur- bano. PLANEJAMENTO DAS CIDADES NOVAS Cidades criadas a partir de planos de em- belezamento, visando à monumentalidade. URBANISMO SANITARISTA Implantação de planos de saneamento e espaços públicos verdes nas cidades. QUADRO 5 – VERTENTES DO PLANEJAMENTO URBANO, POR FLÁVIO VILLAÇA FONTE: Adaptado de Villaça (1999) De uma forma resumida, o que autor quer dizer é que existem várias formas de encarar o planejamento urbano. Inclusive, faremos uma analogia para que você compreenda melhor. Quando decidimos realizar um curso de pós-graduação no Brasil, podemos optar por duas modalidades: a pós-graduação stricto sensu e a lato sensu. Você sabe a diferença de cada uma delas? A primeira, stricto sensu, refere-se a cursos de mestrado e doutorado, em uma abrangência mais teórica, enquanto a tipologia lato-sensu remete aos cursos de especialização, mais práticos e com conceitos que podem ser aplicados no dia a dia da profi ssão. Conseguiu entender a diferença? Enquanto um campo é mais teórico, o outro é mais prático! Da mesma forma, o que Villaça (1999) chama de Planejamento Urbano Stricto Sensu refere-se à organização de diretrizes para o desenvolvimento de uma cidade, como é o caso do Plano Diretor. Segundo ele, trata-se de um planejamento que muitas vezes não é seguido e aplicado, fi cando apenas no papel. Por outro lado, o que é defi nido como Planejamento Urbano Lato Sensu remete ao ato de aplicar os estudos e diretrizes previamente realizadas. Outra vertente citada pelo autor e que complementa o Plano Diretor de uma cidade foi o Zoneamento. Trata-se de um instrumento do planejamento urbano e que visa defi nir, a partir de critérios, a ordenação e o controle do uso do solo urbano. É essa ferramenta que defi ne qual a localidade da cidade poderá ter uma maior área construída, quais os limites de altura poderão construir etc. (BRASIL, 2001). Já o planejamento de cidades novas remete à preocupação com o embelezamento das cidades, ideia muito próxima das cidades que não consideravam a funcionalidade como sendo o aspecto mais importante. Por fi m, 32 Planejamento Urbano trata do Urbanismo Sanitarista, praticamente instinto na década de 1930, e que sustentou a ideia de inclusão de planos de saneamento e áreas verdes, parques e praças a fi m de garantir locais arejados para a garantia da qualidade de vida da população a partir das técnicas do Engenheiro Sanitarista Saturnino de Brito (VILLAÇA, 1999). Conseguiu compreender essas diferenças? Mais adiante, ainda neste livro, relacionaremos estes conceitos a casos reais para que fi que ainda mais claro para você! Mas agora, iremos abordar cada passo dado em prol do planejamento urbano no Brasil, segundo a prof. Dra. Maria Cristina da Silva Leme e embasamentos de Villaça (1999). Para que fi que mais claro e objetivo para você, apresentaremos uma síntese que resume essas fases e o seu período de duração: QUADRO 6 – FASES DO PLANEJAMENTO URBANO NO BRASIL FONTE: Adaptado de Leme (1999) • 1ª FASE: Planos de embelezamento (1875-1930) Essa fase foi totalmente proveniente dos planos europeus, em que se tinha como foco o alargamento de vias, a retirada de pessoas de baixa renda dos centros das cidades, o desenvolvimento de uma infraestrutura e o embelezamento de áreas verdes, como praças e parques. Era um plano voltado à reorganização de áreas muito pontuais sem abranger toda a cidade. Preocupava-se com a estética da área central, deixando-a mais contemplativa. Além disso, os cortiços eram enxergados como problemas da cidade e que precisavam ser exterminados, o que era caracterizado como uma “limpeza” do espaço urbano central. Inclusive, foi nesse período que o Engenheiro Sanitarista Saturnino de Brito desenvolveu planos de saneamento e o fomento às áreas verdes nas cidades (LEME 1999; VILLAÇA, 1999). Um desses exemplos pode ser visualizado na Figura 9. Trata-se do Plano Pereira Passos para o município do Rio de Janeiro. Era necessário prezar pela “higienização” do centro da cidade (a) para que o local pudesse ser revitalizado e prol do tão somente embelezamento (b). Preocupava-se com a estética da área central, deixando-a mais contemplativa. 33 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 FIGURA 9 – COMPARATIVO ENTRE O PROCESSO DE LIMPEZA URBANA (A) E A REVITALIZAÇÃO DO CENTRO DA CIDADE (B) FONTE: Adaptado de Barbosa (2011) • 2ª FASE: Planos de conjunto (1930-1965) Ao contrário da 1ª fase, esta foi embasada em um planejamento voltado a todos os bairros que compunham o território da cidade. A partir desse momento na história do Brasil, a ideia de embelezamento foi sendo complementada com a funcionalidade. Isso porque os arruamentos passam a ser pensados para o trajeto dos carros. Além disso, essa fase também passou a incorporar os zoneamentos a partir do controle do uso do solo (LEME, 1999). Resultante de um amplo diagnóstico, o Plano de Alfred Agache foi desenvolvido para a cidade do Rio de Janeiro com o discurso de implementação de diretrizes científi cas e técnicas. FIGURA 10 – PLANO DE ALFRED AGACHE, PARA A CIDADE DO RIO DE JANEIRO FONTE: Leme (1999, p. 363) 34 Planejamento Urbano • 3ª FASE: Planos de desenvolvimento integrado (1965-1971) Nestes planos, passaram a ser considerados os aspectos sociais e econômicos em conjunto com as características territoriais da cidade. Para Villaça(1999), esta fase visou identifi car os inúmeros problemas que precisavam ser resolvidos na cidade, resultando em uma grande complexidade de informações e ações para serem idealizadas e executadas. No entanto, o fato desses problemas muitas vezes não serem a prioridade das classes dominantes da cidade, muitos dos objetivos traçados não eram realizados por impedimentos de toda a natureza. Um dos exemplos que pode ser mencionado e que foi originado nessa fase foi o Plano Doxiadis, o qual envolveu inúmeras diretrizes adaptadas às diferentes realizadas da cidade do Rio de Janeiro. FIGURA 11 – PLANO DOXIADIS, PARA A CIDADE DO RIO DE JANEIRO FONTE: Leme (1999, p. 359) • 4ª FASE: Planos sem mapas (1971-1992) Tratavam a cidade a partir de diretrizes genéricas, sem evidenciar as diferenciações do espaço urbano de uma maneira pontual e integrada. Eram conhecidos como planos sem mapas, pois não eram regidos por diagnósticos e projetos urbanos, o que resultava na “maquiagem” dos problemas urbanos que continuaram existindo e até aumentando. 35 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 Pois bem! Como foi visto até o momento, as fases aqui discriminadas apresentam um panorama de como as cidades eram pensadas ao longo do último século. Você deve ter notado que foram várias as alterações de entendimento, as proposições de cada época. Enquanto num primeiro momento se ignorava a funcionalidade da cidade, a evolução desses pensamentos fez incorporá-la nas decisões da cidade com o intuito de diagnosticar os problemas urbanos e procurar resolvê-los. Independentemente de construir a cidade a partir de nomenclaturas – Lato Sensu, Stricto Sensu ou Zoneamento – é preciso destacar aqui que a cidade infelizmente se deteve à sustentação de interesses das classes mais abastadas, ao encarar a zona urbana como uma possibilidade de enriquecimento. E essa visão, sustentada tanto por Villaça (1999) quanto por Leme (1999), referente aos instrumentos da cidade evidenciados nos parágrafos interiores, reforçam a ideia de um desenvolvimento urbano unilateral, em que há um direcionamento para a distinção de pessoas mais ricas em áreas centrais em detrimento de proletariado, moradores de locais adjacentes ao centro. Acusa-se, portanto, uma distinção de cunho social no território maquiada de leis e diretrizes urbanas. É importante que você compreenda que as decisões urbanas (espaciais) estão diretamente relacionadas aos contextos social e econômico de toda a população. Os textos anteriores nos mostraram que é necessário lançar um olhar cada vez mais integrado sobre o território! Uma das formas que existem no Brasil em prol do desenvolvimento das cidades são dispositivos legais que serão vistos na 5ª fase do planejamento urbano no Brasil e que perdura nos dias de hoje. Vamos nessa? • 5ª FASE: Constituição de 1988 e Estatuto da Cidade Aliado ao processo de redemocratização do Brasil – ocorrido a partir da Constituição de 1988 – o planejamento urbano passou a ser compreendido como um processo político e com participação social. Esta lei, que rege sobre o atual modelo político do país, reconhece os Planos Diretores como o principal instrumento de planejamento. O Plano Diretor é o principal instrumento de planejamento de uma cidade. Criado em 2011, o Estatuto da Cidade estabeleceu o “direito à cidade sustentável” a partir de princípios e diretrizes que deveriam ser adotados nos Planos Diretores e seguidos por cidades que possuam o mínimo de 20 mil habitantes (VILLAÇA, 1999). O Plano Diretor é o principal instrumento de planejamento de uma cidade. 36 Planejamento Urbano A 5ª fase do planejamento urbano brasileiro trata-se, portanto, do período que estamos vivendo, sem data de término: o chamado urbanismo contemporâneo! Mesmo assim, ainda temos muito que percorrer! Apesar de estarmos alicerçados em defi nições e diretrizes por esses dispositivos legais que visam impulsionar o desenvolvimento das cidades, precisamos continuar pensando a cidade sob o ponto de vista sustentável! E é por isso que estamos aqui estudando sobre o planejamento urbano, para que consigamos estabelecer estratégias que resultem na efetiva melhoria da qualidade de vida das cidades e, sobretudo, da população que nela vive! Apesar de esses instrumentos existirem, é preciso que eles sejam constantemente revisados a ponto de responderem às expectativas e atendimentos locais de cada município. Dentre as questões a serem analisadas está o funcionamento da mobilidade urbana, da habitação, de diferentes setores e serviços municipais etc. É importante saber que o Plano Diretor não se trata unicamente de um modelo reaplicado em diferentes locais do Brasil. Ele deve ser único, contemplando as reais necessidades da população local, por isso deve passar por períodos periódicos de revisão. Vale lembrar aqui, que mesmo com essas normativas, muitos indivíduos não as seguem ou procuram burlá-las a fi m de suprir os próprios interesses. Por isso, devemos pensar sobre como ocorre um desenvolvimento urbano na nossa cidade. Agora que vimos de uma forma mais prática como as técnicas do planejamento urbano se sobressaem sobre as cidades, deixaremos algumas questões para que você refl ita. • O que vem sendo produzido no espaço urbano atual vai de encontro com as normativas instauradas no município? • O Estatuto da Cidade está sendo considerado um instrumento de planejamento urbano Stricto Sensu (fi ca no campo da teoria e não se aplica) ou Lato Sensu (se aplica)? 37 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 Para fi nalizar, deixamos a você uma outra questão para refl exão e que também é uma provocação da prof. Dra. Maria Cristina da Silva Leme: enquanto profi ssionais e cidadãos que somos, como podemos fazer para que os planos sejam efetivamente cumpridos e que garantam uma melhor equidade na ocupação do solo urbano? 1) Relacione as lacunas a seguir: (a) Estatuto da Cidade (b) Planejamento Urbano Stricto Sensu (c) Planos de embelezamento (d) Zoneamento ( ) Instrumento que determina a utilização do solo urbano. ( ) Diretrizes para o desenvolvimento de uma cidade: o Plano Diretor. ( ) Estabelece o direito à cidade sustentável. ( ) Processo de limpeza urbana que visou à revitalização do centro da cidade. 2) Qual a fase do Planejamento Urbano no Brasil passou a envolver a participação social na tomada de decisões? E qual a fase que mais se contrapôs a esse princípio? Por quê? 3) Em qual fase eram desenvolvidos planos regidos por diagnósticos e projetos urbanos que maquiavam os problemas urbanos ao invés de resolvê-los? a) ( ) 1ª fase: Planos de embelezamento (1875-1930). b) ( ) 2ª fase: Planos de conjunto (1930-1965). c) ( ) 3ª fase: Planos de desenvolvimento integrado (1965-1971). d) ( ) 4ª fase: Planos sem mapas (1971-1992). e) ( ) 5ª fase: Constituição de 1988 e Estatuto da Cidade. 38 Planejamento Urbano 2.3 O PLANEJAMENTO COMO MECANISMO DE INTERVENÇÃO NO ESPAÇO URBANO Após todo esse apanhado histórico que lhe foi apresentado, você está conseguindo perceber a relação das decisões tomadas pelo homem com a produção do espaço urbano? O principal deles foi o crescimento urbano desenfreado no período da revolução industrial. Talvez esse tenha sido o motivo pelo qual, até hoje, discutimos as formas de solucionar os problemas das cidades. Agora que você teve uma fundamentação mais ampla de como funcionou e ainda funciona o universo do planejamento urbano, vale a pena relembrar e reforçar alguns conceitos tratados na primeira parte deste capítulo. Você lembra quando falamos sobre o signifi cado do termo “urbano” como sendo aquilo que “pertence à cidade”? E que resume todas as características físicas (como edifi cações, perfi l viário, redes e serviços) que se relacionam diariamente a nossa vida cotidiana? Pois bem, talvez agora fi que ainda mais claro para você que o urbanismose trata do estudo da relação entre a sociedade e os espaços construídos e não construídos, no que se refere a sua ocupação, organização e intervenção. Dentro dele está o planejamento urbano, técnica responsável por encontrar soluções práticas para os problemas da cidade. Portanto, o Urbanismo se resume ao estudo da cidade, tendo como técnica o planejamento urbano que visa solucionar os problemas urbanos. Essa forma de encarar o processo de urbanização passou a fi car evidente a partir da metade do século XX, com a regulamentação e a ordenação do crescimento populacional. As cidades passaram a ser vistas não somente como locais dotados de ruas e quarteirões, mas sim como um sistema complexo que envolve questões econômicas, sociais e ambientais que se interligam no desenho urbano. E a forma de resolver todas essas questões emerge da proposição de melhorias urbanas resultantes de um planejamento consistente. 39 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 Para que isso ocorra de uma maneira efetiva é necessário que exista uma gestão integrada da cidade para o alcance de um espaço urbano de qualidade (NOVAES, 2021). É necessário que exista uma gestão integrada da cidade para o alcance de um espaço urbano de qualidade. Para ilustrar essa ideia, traremos o exemplo do município de São Paulo. Por meio da Figura 12 é possível notar a expansão urbana da cidade paulista no hiato de 100 anos: entre 1881 e 1983 a partir de um estudo desenvolvido por Grostein (1987). É necessário que exista uma gestão integrada da cidade para o alcance de um espaço urbano de qualidade. FIGURA 12 – EXPANSÃO URBANA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO EM UM PERÍODO DE 100 ANOS FONTE: Grostein (1987) Esse crescimento, fortalecido pela industrialização da década de 1930, acelerou o processo de urbanização e, junto à ampliação territorial de quadras e ruas, também gerou muitos problemas de cunho social, econômico e ambiental. Social, por impulsionar distinções no espaço urbano, excetuando as pessoas mais vulneráveis para as bordas da cidade e, assim, afastando os habitantes de uma infraestrutura de qualidade e do acesso a serviços básico, processo que se denomina segregação socioespacial. Econômico, por defi nir um custo ao uso do solo, garantir a infraestrutura básica para o desenvolvimento dos mais diferentes serviços, determinar a localização espacial das áreas residenciais, comerciais e industriais, a fi m de gerar riqueza ao município. Ambiental, por intervir no ambiente natural muitas vezes reduzindo a quantidade de áreas verdes na cidade e prejudicando a sustentabilidade ambiental (NOVAES, 2021). 40 Planejamento Urbano E cada uma dessas defi nições, apesar de possuírem seus próprios conceitos, precisam andar integradas para que a estrutura da cidade responda positivamente aos interesses da população. No livro intitulado Brasil, cidades: alternativas para a crise urbana, Ermínia Maricato discute sobre as práticas urbanísticas e as prioridades estabelecidas no espaço urbano que geram a diferenciação do uso do solo e, por consequência, a segregação socioespacial. Não basta planejar habitações populares em áreas muito distantes do centro da cidade para justifi car a resolução do défi cit (defi ciência) habitacional brasileiro que existe (problema social), se essa população fi cará distante dos principais serviços da cidade como saúde, habitação e segurança. Isto é: não adianta resolver um problema na mesma medida em que se criam outros. Da mesma forma que a falta de assistência à população de baixa renda tende a desencadear problemas urbanos, como a produção de lixo urbano e descarte em locais impróprios, gerando impactos à própria saúde devido à morada em locais insalubres e impactos ambientais. Um fato bastante calamitoso que iniciou no ano de 2019 e se intensifi cou substancialmente no Brasil no início de 2020 foi a Pandemia do Novocoronavírus (COVID-19). A desigualdade social que já era bastante clara no país se intensifi cou ainda mais. A falta de infraestrutura, somada à necessidade de cuidados higiênicos para evitar a proliferação do vírus, exacerbou ainda mais os problemas que vêm sendo enfrentado há muito tempo pelas cidades brasileiras. Além disso, fi cou muito evidente o embate entre o setor econômico e as questões social e ambiental, gerando diferentes interpretações sobre o momento atípico em que se vivia: “Precisamos fechar tudo para evitar a proliferação desse vírus!” “Mas a falta de trabalho mata mais que o vírus, precisamos manter tudo aberto!” “Eu moro em um casebre com esgoto a céu aberto, não possuo banheiro e resido com várias pessoas em um único cômodo. Como querem que eu cuide da minha saúde se não possuo o mínimo para se viver?” 41 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 Talvez essas perguntas e afi rmações justifi quem a necessidade de uma gestão integrada do território urbano. Não basta ajeitar um lado se o outro continuará torto. Para isso, existe a necessidade de se pensar no desenvolvimento sustentável da cidade. Isso signifi ca que é preciso conciliar o desenvolvimento ambiental, econômico e social. Esse entendimento já existe desde 1987, quando teve a sua aceitação pela Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento: […] desenvolvimento sustentável é um processo de transformação no qual a exploração dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional se harmonizam e reforça o potencial presente e futuro, a fi m de atender às necessidades e aspirações futuras […] é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades (CMMD, 1988, p. 46, grifo do autor). O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades (COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO, 1988, p. 46). A Figura 13 apresenta essa correlação de uma forma bastante clara: FIGURA 13 – RELAÇÃO ENTRE AS TRÊS ESFERAS DA SUSTENTABILIDADE: ECONÔMICO, SOCIAL E AMBIENTAL FONTE: Adaptado de Carvalho (2021) 42 Planejamento Urbano A inter-relação desses conceitos já demonstra que a sustentabilidade não se resume apenas a questões ambientais, correto? Vamos imaginar um exemplo: a gestão urbana de uma cidade decide fomentar o setor industrial na cidade a fi m de desenvolver o setor econômico, gerando emprego e renda à população (esfera social). Após a análise territorial do município é decidido que essa área será alocada em locais afastados das áreas residenciais, nas bordas do município (zona que deve ser defi nida e ofi cializada no Zoneamento do Plano Diretor do município). A pergunta é: para garantir que o tripé da sustentabilidade se concretize, basta que a empresa se instale naquela zona e desenvolva o seu negócio local? A resposta é: não! Para que haja uma integração completa desse sistema é preciso considerar a questão ambiental. Mas como? Elaborando um Estudo de Impacto Ambiental (EIA). A depender da empresa a se instalar naquele local é preciso observar quais impactos ela poderá gerar ao ambiente (poluição do ar, alteração da fauna e da fl ora, geração de resíduos etc.) e comprovar de que forma o empreendimento irá controlar os impactos gerados ao meio ambiente. Conseguiu entender como funciona essa integração? Perceba que para justifi car o exemplo anterior, precisamos trazer à tona umas das ferramentas do planejamento urbano, o EIA. Saiba que trataremos mais a fundo dessas práticas nos próximos capítulos. Antes de ir para o próximo exemplo, queremos lhe mostrar que, ao longo dos últimos anos, esse tripé sofreu uma alteração bastante signifi cativa. A partir de agora, é necessário que a dimensão cultural seja associada à social, econômica e ambientalde forma igualitária. Vejamos: 43 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 FIGURA 14 – RELAÇÃO ENTRE AS QUATRO ESFERAS DA SUSTENTABILIDADE: ECONÔMICO, SOCIAL, AMBIENTAL E CULTURAL FONTE: Adaptado de Carvalho (2021) A inclusão dessa nova dimensão vai de encontro ao entendimento de que não há um “modelo” ou uma “receita de bolo” para ser seguida. O planejamento ideal para a cidade de Salvador/BA provavelmente não será ideal para Fortaleza/ CE, mesmo que as duas cidades possuam praticamente a mesma quantidade populacional e estarem localizadas no Nordeste (segundo dados do IBGE, 2010). Ou então afi rmar que o planejamento urbano de uma determinada cidade pode ser reaplicado e outra devido às mesmas dimensões territoriais. Esses dois exemplos não fazem sentido. Sabe por quê? É preciso levar em conta o desenvolvimento local no que diz respeito às questões social, econômica, ambiental e também cultural. É preciso estar ciente de que não existem modelos. Deve-se analisar a realidade local de cada cidade para que sejam tomadas as decisões que respondam às necessidades da população. E a questão cultural faz muita diferença nesse processo. Traremos algumas questões aqui de exemplos que você já leu neste capítulo. Vamos ver se você vai lembrar: 44 Planejamento Urbano • Os arquitetos e urbanistas modernistas levavam em consideração os aspectos culturais ao desenvolverem as chamadas “cidades ideais”? • Na última edição dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM X), os arquitetos da nova geração da época ofereceram uma nova visão sobre a cidade, em contraponto ao urbanismo modernista que vinha sendo exercido. O que mudou? Vale deixar claro que, apesar desses conceitos de sustentabilidade terem surgido nos anos 1980, eles já poderiam estar implícitos nos projetos desenvolvidos da época. Agora, sim, gostaríamos de lhe apresentar mais um exemplo para elucidar na prática como essas quatro dimensões se entrelaçam. Uma gestão municipal resolve requalifi car uma área urbana degradada e transformá-la em um parque urbano de referência. Decide desenvolver o projeto paisagístico preservando a vegetação existente e propondo funções urbanas, como espaços para caminhada, bancos, brinquedos infantis, lixeiras e áreas de contemplação. Após o período de obras, a prefeitura propõe a realização de uma entrega pública à comunidade. Nos primeiros meses, a população adere à solução proposta pelo município, mas após um ano de área requalifi cada, a frequência de visitantes diminui, o que gera o aumento da sensação de insegurança no local. Na sua opinião, o que você acha que gerou esse afastamento de uma área aparentemente planejada, com uma infraestrutura toda nova e destinada à população local? Se você pensou que faltou a interação com a população, você ACERTOU! Recuperar áreas degradadas é muito importante, pois desenvolve o quesito ambiental das dimensões sustentáveis. A questão econômica também é fortalecida, tendo em vista que a reestruturação do local ajudou na valorização imobiliária das residências do entorno, em um primeiro momento. Mas será que as questões social e cultural foram atendidas? O fato de o parque urbano estar aberto, disponível à população 24 horas por dia, parte do pressuposto que todos da cidade tenham acesso, correto? Sim e não. Vamos lá: se os moradores moram próximo, a chance de eles utilizarem esse parque é muito maior. Mas se as pessoas que moram longe (como geralmente 45 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 é o caso da população de baixa renda) e que dependem do transporte público ou outros meios para se deslocar até esse parque, será que ele será utilizado com uma maior frequência por elas? Uma solução para isso seria qualifi car áreas próximas a essas pessoas para que elas tenham um acesso mais facilitado. Mas para que isso ocorra, seria necessário realizar uma análise do entorno e, principalmente, ir em busca da aceitação da população local. E é nesse ponto que esbarramos no fator fundamental desse exemplo que trouxemos a você: a dimensão cultural. Será que a requalifi cação desse parque urbano levou em consideração a participação da população nas decisões? Foram realizadas entrevistas, aplicado questionários, realizando outros tipos de métodos para verifi car se aquelas soluções são realmente aquilo que a população precisa e quer? Seguindo nesse caso hipotético que trouxemos, o que faltou incluir no parque foram quadras de esporte para que a população utilizasse com maior frequência, tendo em vista que existe uma escola próxima e que não possui infraestrutura para a prática de esportes. Resumo da história: faltou incluir a população no processo de desenvolvimento do parque urbano. A população não recebeu todas as dimensões que sustentam o desenvolvimento de uma cidade de forma completa. Talvez isso justifi que a não utilização duradoura do local, exceto nos primeiros meses quando tudo era novidade. E em que isso tudo desencadeou? Em uma nova degradação do ambiente. Na dimensão econômica, a valorização dos empreendimentos do entorno não era mais tão atrativa como estava sendo no período em que o parque possuía uma grande procura. E a dimensão ambiental passou a perder força a partir do momento em que o local passou a ser descuidado pela prefeitura. Ou seja, tudo voltou a ser como era antes. Como falamos, esse é um caso hipotético para que você observe como todas as dimensões andam interligadas. E é um compromisso integrado entre a gestão pública, a gestão privada, a participação da universidade por meio de pesquisadores e a população local. Esses quatro setores que se relacionam em prol de ambientes de inovação são chamados de Quádrupla Hélice. 46 Planejamento Urbano FIGURA 15 – ELEMENTOS ESTRUTURANTES DA QUÁDRUPLA HÉLICE FONTE: Nicolas (2016, s.p.) Portanto, vê-se que uma coisa está ligada à outra. E na complexidade em que vivemos, principalmente nas cidades grandes, torna-se cada vez mais necessário olhar para todas essas implicações quando se tenta resolver um problema. E por falar em problema, eis o momento adequado para tratarmos das difi culdades que afl igem as cidades brasileiras: • DIFICULDADES URBANAS Como citado anteriormente, o défi cit habitacional é um deles. Resultante da falta de habitações de qualidade, muitos indivíduos residem em instalações precárias, sem o saneamento básico para viver com dignidade. Inclusive, esse problema está ligado a outro: as grandes distâncias que essas pessoas precisam percorrer para ter acesso aos serviços urbanos, consequência da retirada das pessoas do centro em direção às periferias, processo conhecido como gentrifi cação. E aqui fazemos uma referência aos planos de embelezamento das cidades (ocorridos no início do século XX no Brasil) e que tinha como objetivo revitalizar as áreas centrais e deixá-las bonitas, e destinando os moradores da classe baixa para as bordas da cidade. Segundo Jan Van Weesep, a gentrifi cação se resume em uma “expressão espacial de uma profunda mudança social” (BATALLER, 2012, p. 9). Segundo Jan Van Weesep, a gentrifi cação se resume em uma “expressão espacial de uma profunda mudança social” (BATALLER, 2012, p. 9). 47 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 Outra difi culdade que é muito presente nas grandes cidades diz respeito ao trânsito e ao congestionamento, principalmente em horários de grande movimento. Falha bastante gritante tanto nos sistemas de mobilidade individual como na superlotação do transporte público. Também é uma grande difi culdade a inexistência ou baixa qualidade de infraestrutura pública básica, como a iluminação, sistemas de drenagem, falta de pavimentação asfáltica, inexistência de tratamento de esgoto e de resíduos, dentre outros. Tais problemas e limitações demonstram a necessidade de se PENSAR A CIDADE do ponto de vistaESTRATÉGICO. E quais as formas de fazer isso? Segundo Novaes (2021), dentre as soluções estão: • Garantir o correto FUNCIONAMENTO dos serviços. • Garantir a EFICIÊNCIA e a EFICÁCIA das infraestruturas públicas. • Atendimento às NECESSIDADES dos CIDADÃOS (lembre-se da Quádrupla Hélice). • PLANEJAMENTO e REGULAMENTAÇÃO do adensamento e crescimento das cidades. • QUALIFICAÇÃO e REQUALIFICAÇÃO dos espaços urbanos. Esses modos de resolução de problemáticas que atingem o espaço urbano está sendo muito pautado no uso de tecnologias como forma de acelerar os processos e garantir ainda mais qualidade de vida aos indivíduos. E é nesse contexto que surge o termo “cidades inteligentes” ou smart cities. Você já ouviu falar nesse termo? Se não, vamos às explicações. Muitos pesquisadores compreendem o conceito de cidades inteligentes como sendo uma visão estratégica para o futuro urbano (ANGELIDOU, 2012). Trata-se da utilização da tecnologia para impulsionar os avanços nos mais diversos setores de uma cidade. No entanto, este é um conceito que ainda não chegou a um consenso em comum. Inclusive, as mais recentes defi nições dependem da ideia de que a cidade precisa ser inteligente, humana e sustentável, rompendo a unilateralidade do foco na tecnologia e envolvendo o indivíduo como o protagonista de um processo evolutivo de cidade. A Figura 16 retrata a amplitude que abrange uma cidade inteligente, que envolve os vários setores da sociedade para pensarem acerca do espaço urbano. O Planejamento Urbano é a técnica essencial para determinar o avanço e/ou instauração de uma cidade inteligente e, acima de tudo, humana e sustentável. 48 Planejamento Urbano FIGURA 16 – RELAÇÃO DE ASPECTOS À CONSTRUÇÃO DAS CIDADES INTELIGENTES HUMANAS E SUSTENTÁVEIS FONTE: Novaes (2021, s.p.) Vamos compreender quais outras aplicações práticas estão incorporadas à gestão urbana integrada? Fique ligado nos próximos capítulos. Mas antes, deixamos a você algumas questões para a refl exão. • A cidade onde você mora está tomando alguma providência em relação aos problemas urbanos? • Você acha que as cidades atuais estão levando em consideração os aspectos sociais, ambientais, econômicos e culturais de forma integrada para garantir uma cidade inteligente? 49 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS INTERFACES Capítulo 1 1) Para alcançar uma gestão integrada de qualidade na cidade é preciso envolver as quatro esferas da sustentabilidade. Descreva quais são elas e a importância de cada uma para o desenvolvimento sustentável. 2) Leia as afi rmações a seguir e marque V (para verdadeiro) e F (para falso): a) ( ) O atendimento às necessidades dos cidadãos é uma das formas de se pensar a cidade sob o ponto de vista estratégico. b) ( ) A qualifi cação e a requalifi cação dos espaços urbanos sem a participação popular gera maior agilidade e efi ciência no pós-uso desses espaços. c) ( ) É necessário planejar e regulamentar o adensamento e o crescimento das cidades para que evite a inefi ciência dos serviços públicos e privados na cidade. d) ( ) O processo conhecido como gentrifi cação é o mais correto para corrigir o défi cit habitacional das cidades brasileiras. 3) Em relação ao planejamento e aos mecanismos de intervenção no espaço urbano, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) Quaisquer interferências no meio urbano precisa obter a aceitação da população local. b) ( ) O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente e compromete o atendimento às necessidades das gerações futuras. c) ( ) De acordo com os últimos estudos, a cidade para ser considerada inteligente (tecnológica) também precisa considerar a inteligência humana e sustentável. d) ( ) A dimensão cultural no processo de desenvolvimento é essencial, pois reforça que não existe modelos prontos: deve-se observar a realidade de cada cidade para que sejam tomadas as decisões apropriadas. 50 Planejamento Urbano 3 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Conforme observamos neste capítulo, as cidades mais antigas possuíam problemas muito parecidos com os que temos hoje. A única diferença é que os processos de urbanização se intensifi caram, tornando ainda mais emergente a necessidade de discussão em prol da busca de soluções concretas e efetivas. Compreendemos que o Plano Diretor, apesar de ser um instrumento originado pela legislação brasileira, precisa ser instituído em municípios com o mínimo de 20 mil habitantes e deve considerar as especifi cidades locais para a sua real efi cácia. E para que isso aconteça é imprescindível que haja um processo de gestão integrada no município que envolva o governo, as empresas, a universidade e, acima de tudo, a sociedade em geral para a tomada de decisões. É nesse contexto de ecossistema que as esferas social, econômica, ambiental e cultural se relacionam, a fi m de resolver os problemas reais que a cidade enfrenta. Isso signifi ca que a mesma abordagem utilizada em São Paulo para melhorar a mobilidade urbana não será a mesma para o Rio de Janeiro, apesar de as duas serem grandes metrópoles. É necessário realizar o levantamento das necessidades locais e adequá-las aos instrumentos e ferramenta pertinentes para a melhoria das questões urbanas. Com esses conhecimentos adquiridos e embasados em conceitos técnicos aqui dispostos, será possível elaborar as melhores estratégias urbanas no mercado de trabalho, a fi m de contribuir signifi cativamente para a construção de cidades mais inteligentes, humanas e sustentáveis. No próximo capítulo, visualizaremos de uma maneira mais detalhada como os instrumentos do planejamento urbano funcionam para garantir o desenvolvimento das cidades. REFERÊNCIAS ANGELIDOU, M. Smart cities: A conjuncture of four forces. Cities, v. 47, p. 95-106, 2012. Disponível em: https://doi. org/10.1016/j.cities.2015.05.004. Acesso em: 20 mar. 2021. BARBOSA, V. M. O bota-abaixo de Pereira Passos: a tentativa de promover uma nova ética urbana no Rio de Janeiro. 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Acesso em: 25 mar. 2021. CAPÍTULO 2 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: discutir as estratégias atuais do Planejamento Urbano; exemplifi car as formas legais do exercício do planejamento nas cidades; analisar as dinâmicas das políticas públicas frente às necessidades urbanas atuais; aliar as propostas de planejamento urbano aos instrumentos legais vigentes. 54 Planejamento Urbano 55 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Este capítulo tem o objetivo de levar até você as formas legais de aplicar o planejamento urbano nas mais diferentes cidades. Para isso, é necessário compreender a legislação federal e as leis criadas especifi camente para cada município. Antes dessas compreensões, é muito importante que você perceba que a cidade está em constante mudança. O que for planejado para o dia de hoje, pode não ser mais o ideal no dia de amanhã. Isso se dá devido à alta velocidade da informação e do conhecimento, consequentes do processo de globalização. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam para a urgência de melhorar as condições sociais, culturais, econômicas e ambientais da nossa sociedade. Enquanto que, até o ano de 2015, o foco principal era direcionado ao desenvolvimento econômico das cidades, hoje se fala muito no desenvolvimento sustentável a partir de uma visão integrada e equilibrada. Mas o que isso tem a ver com o planejamento urbano? Absolutamente tudo! É cada vez mais necessário aliar as decisões projetuais nos setores da habitação, saneamento básico, resíduos sólidos e mobilidade urbana às reais necessidades da população e sempre visando reduzir ao máximo os impactos gerados pelas novas ações e propostas. Estes objetivos, acordados em nível mundial, fazem parte da Agenda 2030 que visa universalizar, integrar e “não deixar ninguém para trás” no desenvolvimento sustentável da sociedade. Precisamos colocar em prática as legislações sob um olhar holístico, atualizando-as para as necessidades urbanas das mais diferentes localidades brasileiras. Veremos como isso pode ser aplicado nos instrumentos urbanos devidamente ancorados pela legislação federal: instrumentos de Indução do Desenvolvimento Urbano, de Regularização Fundiária, de Democratização da Gestão Urbana e de Financiamento da Política Urbana. Todos eles foram criados a partir do Estatuto da Cidade (BRASIL, 2001), Lei que estabelece as diretrizes da política urbana no Brasil. É a partir dele que saem planos diretores para fomentar o desenvolvimento das nossas cidades, visando atender às necessidades da população. Está preparado para desbravarmos todo esse conhecimento juntos? Lembre- se sempre: A transformação só existirá se houver conhecimento! 56 Planejamento Urbano 2 O PLANEJAMENTO URBANO E SUAS FERRAMENTAS Muitos pensam que as cidades crescem de maneira descontrolada, sem o mínimo de regramento. No entanto, poucos sabem que existem regulamentações para diferentes casos que veremos na sequência. Mas antes, precisamos lembrar que a cidade por si só é muito complexa. E quando falamos em complexo não é no sentido “difícil” de ser, mas por ser um território delimitado que possui inúmeros sistemas trabalhando simultaneamente e interdependente. 2.1 PRODUÇÃO DO ESPAÇO, PLANEJAMENTO E POLÍTICAS PÚBLICAS Já parou para pensar como funciona o nosso corpo? Se algum dos nossos membros ou órgãos declarar “independência”, um caos é instaurado e teremos problemas de saúde. Assim é a cidade: se o sistema de mobilidade urbana não estiver de acordo com as legislações vigentes e não responder às reais necessidades do lugar, é muito provável que problemas aconteçam. Nos dias de hoje, em que a nova condição de mundo está voltada à grande velocidade das informações a partir da globalização, torna-se necessário nos adequarmos e pensarmos em como estabelecer novos paradigmas nessa condição sistêmica. Essa necessidade está sendo fortemente evidenciada pelos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU). Trata-se de um plano de ação proposto para o mundo todo em prol da prosperidade e do fortalecimento da paz universal. Dentre os objetivos está o objetivo 11 – Cidades e comunidades sustentáveis, que tem tudo a ver com o que estamos estudando. Precisamos pensar na cidade do agora, mas também analisar e projetar meios sustentáveis para que não haja implicações para as próximas gerações. 57 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 Para que você possa verifi car detalhadamente todos esses objetivos, basta acessar o link: http://www.agenda2030.com.br/. Por conta desses entendimentos e ao contrário das consequências da Revolução Industrial, em que as visões eram (e ainda continuam sendo) mecanicistas, em um contexto de repetições, hoje o mundo exige novas formas de apropriação, como processos interativos e sustentáveis nas mais diferentes escalas. Em outras palavras, precisamos parar de reproduzir o que vem pronto, fugir de modelos estáticos, mas criar alternativas específi cas para determinadas situações. Vamos dar um exemplo para que você consiga compreender essas ideias. O planejamento catalão para os Jogos Olímpicos de 1922, bastante promissor em Barcelona, foi cobiçado por diferentes cidades que sucederam às edições dos jogos. Intitulado “modelo Barcelona”, muitos queriam copiar as estratégias desenvolvidas naquela localidade, esquecendo que as culturas, a localização, as formas de apropriação são completamente diferentes. A cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, foi uma das cidades-sede a “vender” essa ideia, mas que resultou em inúmeros problemas na cidade, como a remoção de moradores próximos às áreas de intervenções e a posterior subutilização das instalações olímpicas (BERTUZZI, 2020). Voltamos a frisar que a cidade está sendo cada vez mais complexa, exigindo a todoo momento processos retroativos de causa e efeito por meio dos seus planejadores. O que planejarmos para hoje, pode não ser o ideal para o amanhã. É necessário que haja mecanismos que possibilitem a interatividade, a busca pelo entendimento de diferentes frentes, visões distintas para que sejam debatidas as melhores soluções de cidade. O que fazíamos antigamente e o que ainda fazemos é focar em uma única resposta “certa” para os problemas. Ou então, uma única causa ou único culpado por determinada situação. Porém, hoje é necessário pensar de forma sistêmica e integrada, em que todos os envolvidos precisam opinar, participar, discutir, contrariar, convergir. Quando existem debates públicos sobre as melhorias dos espaços livres públicos na cidade, os gestores municipais devem promover o debate com a população geral que usufrui desses espaços para o lazer e recreação, mas 58 Planejamento Urbano também com os defensores do meio ambiente, com os comerciantes, taxistas etc. Pois essas áreas promovem a interação de todas essas pessoas que as utilizam para momentos de descanso, mas também para aqueles que precisam desses locais para o seu sustento. Consegue compreender como a gestão integrada deve funcionar? E isso cabe aos planejadores de cidades pensarem soluções que viabilizem a inter- relação de todos esses agentes. Lembrando que não devemos buscar uma única solução para tudo, mas várias soluções que abarquem a diversidade que existe no território urbano. Sugerimos que você assista a este vídeo. Ele não fala diretamente sobre a cidade, mas nos faz perceber sobre a importância de enxergarmos o mundo como algo sistêmico, imprevisível e instável. Esse vídeo fará você abrir a sua mente para uma visão de mundo ainda mais aberta e diversa: https://www.youtube.com/ watch?v=EdPS5LjT6Ts E é nesse contexto de mudanças que daremos continuidade a este capítulo. Todo e qualquer pensamento, formas de pensar a cidade ou técnica aplicada ao espaço urbano tende a promover mudanças em todo o sistema, e isso se chama inovação. E você sabe de que forma podemos fazer isso? Aliando a engrenagem urbana brasileira (legislação e instrumentos do desenvolvimento urbano) a um processo de governança local a partir de ecossistemas de inovação. A Figura 1 apresenta os regramentos existentes e que norteiam o desenvolvimento das cidades. Apesar de cada um possuir os seus objetivos próprios, eles fazem parte de um “todo”, que é a cidade. Como falamos anteriormente, as leis e os instrumentos de planejamento urbano são interdependentes, sendo que um precisa do outro para a manutenção de uma cidade! Lembre-se sempre da gestão integrada. Ah! E fi que tranquilo, pois iremos abordar cada um destes planos e leis neste capítulo. Está preparado? 59 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 FIGURA 1 – LEGISLAÇÕES E INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO NO BRASIL FONTE: WRI Brasil (2018, s.p.) Você notou que as preocupações com o planejamento urbano se intensifi caram a partir da Constituição Federal de 1988? E isso não aconteceu por acaso. No que tange a nossa área de estudo, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu o princípio da função social de propriedade, trazendo junto da sociedade brasileira o amparo à distribuição justa de benefícios no processo de urbanização. Essa legislação, que se constitui em um Estado democrático 60 Planejamento Urbano de direito, é consequência da movimentação popular dotada de ideias comuns que visavam assegurar o bem-estar dos seus habitantes a partir da garantia de direitos que, dentre eles estão o direito à vida, à igualdade de oportunidades, à habitação, à propriedade como função social, dentre outros (BRASIL 1988). Foi a partir dessa constituição que houve a promoção da descentralização da receita tributária para os governos estaduais e municipais, possibilitando com que os gestores locais pudessem promover melhorias com uma maior autonomia. Dessa forma, a gestão urbana poderia ser de mais fácil resolução, pois o problema era mais “próximo” e podia-se ter mais controle. Foi a partir daí que surgiram outros regramentos, como o Estatuto da Cidade, em 2001. Essa lei visou normatizar mecanismos e procedimentos que visassem promover a ordenação e o controle do uso do solo urbano, a fi m de evitar decisões especulativas e gestões inadequadas do território (CIDADES SUSTENTÁVEIS, 2021). O planejamento e a implantação de instrumentos de política urbana são essenciais para a tomada de decisão. Se acompanhados de investimentos públicos, podem corrigir desigualdades no curto, médio e longo prazo. Dois anos depois da promulgação do Estatuto da Cidade, foi criado o Ministério das Cidades (2003, s.p.), com o intuito de "Combater as desigualdades sociais, transformando as cidades em espaços mais humanizados, ampliando o acesso da população à moradia, ao saneamento e ao transporte”. Tal criação foi estabelecida a partir de forte demanda de movimentos sociais voltados à reforma urbana (REIS, 2010). Dentre as competências do Ministério das Cidades incluía a política de desenvolvimento urbano, as políticas de habitação, saneamento ambiental, trânsito e transporte urbano, a partir da interlocução com diferentes esferas do governo, setor privado e organizações (DADOS, 2021). Ou seja: esse ministério fazia a interlocução entre as cidades e o governo federal, promovia um elo para onde os problemas estavam, em nível local. Essa preocupação coma visão de descentralização – ainda que focada na receita tributária a partir da Constituição de 1988 – passou a ser incorporada nas cidades, mas que ainda precisa percorrer muito caminho. Vale lembrar que a sustentabilidade das cidades só ocorre se partirmos para uma gestão integrada efetiva que compreenda setores públicos, privados, instituições e a população. 61 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 Para dar andamento aos avanços das políticas públicas das últimas duas décadas, foi criada em 2005, a Lei de Habitação, a qual criou o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS) e o Conselho Gestor do FNHIS (BRASIL, 2005). Essa lei visou implementar políticas públicas que promovessem moradia digna à população de baixa renda, como forma de reduzir o défi cit habitacional existente no país. A expressão “défi cit habitacional” se refere à falta de habitações (em dados numéricos) de uma determinada região. A partir daí foi estabelecida a união de diferentes sujeitos integrantes do Ministério das Cidades, do Conselho Gestor, da Caixa Econômica Federal (CEF) e demais membros da comunidade civil a partir da representação de instituições, associações, sindicatos etc. A interlocução desse ecossistema possibilitou discutir sobre as políticas públicas da habitação de interesse social, muito problematizada no passado quando o sistema promovia habitações de má qualidade, haviam critérios bancários para a seleção dos usuários desses recursos, e também a centralização desses regramentos no âmbito federal (BRASIL, 2005). Após a instauração dessa lei, dentre as inúmeras melhorias nesse setor, foi facilitada a aquisição/melhoria de unidades habitacionais nas áreas urbanas e rurais e a criação de equipamentos comunitários caracterizados como áreas de interesse social. E tudo isso deveria ser coordenado pelo Ministério das Cidades em conjunto com os demais agentes formadores do Conselho Gestor. Vê-se, portanto, uma forma de promover o relacionamento com diferentes agentes da sociedade, sejam eles técnicos, sociedade civil ou entidades. É baseada nessa interlocução que devemos nortear as decisões de planejamento urbano. Mesmo com esses avanços em prol das cidades, esse foi o primeiro passo de muitos que ainda precisam ser dados. O fato de uma lei entrar em vigor não resolve os problemas que vivemos na sociedade. Ainda há muito a ser feito, principalmentequando verifi camos as estatísticas: Segundo a Fundação José Pinheiro (2021), o número registrado no Brasil, em 2019, chegou a 5,877 milhões de moradias faltantes no país. Trata-se, infelizmente, de uma situação bastante alarmante. 62 Planejamento Urbano FONTE: <http://www.arionaurocartuns.com.br/2017/07/charge-moradia.html>; < https://www.youtube.com/watch?v=Pk36PVrgIVM>. Acesso em: 28 abr. 2021. FIGURA 2 – CHARGES ILUSTRATIVAS EM REFERÊNCIA AO DÉFICIT HABITACIONAL NO BRASIL Você consegue visualizar situações parecidas com a fi gura anterior na sua cidade? Se sim, há uma predominância para essa caracterização nas bordas da cidade? Caso a resposta também seja positiva, essas são as consequências do processo de segregação socioespacial, que fortalece essa distinção no espaço urbano. Refl ita sobre isso e tente encontrar outras formas que intensifi cam essas desigualdades em seu município. Visualizando isso, o que de fato é possível fazer para tentar reduzir essas distinções sociais? Uma das formas é promover debates sobre as condições atuais de acesso à terra. Devido aos custos de implantação – que em geral são mais altos em áreas centrais da cidade – há a promoção de uma locação de empreendimentos de baixa renda em áreas afastadas, difi cultando o acesso a serviços situados em grande parte no centro da cidade. Além do valor da terra, o custo das habitações também é um problema. Uma das formas de reduzi-lo está na incorporação de novas tecnologias construtivas que permitam a padronização de processo e o aumento da produtividade, fazendo com que se torne menos oneroso o custo de construção. Vale dizer que a redução de custo deve estar diretamente condicionada à garantia da qualidade dos serviços, inclusive se adequando a critérios de efi ciência energética das edifi cações. É preciso cuidar para não cair no problema da reprodução em grande escala sem qualidade, pois poderão haver novos problemas no futuro. 63 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 FONTE: Adaptado de Chequi (2020) QUADRO 1 – METAS PROJETADAS PELO MARCO LEGAL DO SANEAMENTO BÁSICO (LEI Nº 11.445/2020) E muito relacionado à habitação está o saneamento, infraestrutura básica para a sustentação da qualidade de vida da população, um dos direitos básicos assegurados pela Constituição Federal. Trata-se da distribuição de água tratada, coleta e tratamento de esgoto, limpeza urbana, manejo apropriado de resíduos sólidos e a drenagem de águas da chuva. Criada em 2007, a Lei nº 11.445 visou estabelecer diretrizes nacionais para o saneamento básico, a partir da criação de um Comitê Interministerial de Saneamento Básico (BRASIL, 2007). Recentemente, em 2020, a Lei nº 14.026 atualizou o Marco Legal do Saneamento, apresentando mudanças sobre as políticas voltadas às áreas de coleta e reciclagem de resíduos sólidos e limpeza urbana, bem como o estabelecimento de novas metas para o acesso a esses serviços (BRASIL, 2020): % em 2018 META para 2033 53,2% da população com acesso à coleta de esgoto 90% da população com acesso à co- leta de esgoto até 31 de dezembro de 2033 83,6% da população com acesso à água tratada 99% da população com acesso à água tratada até 31 de dezembro de 2033 E para levar o saneamento à grande parte da parcela da população, a nova lei estabelece a obrigatoriedade de licitação para a prestação desses serviços, o que não existia antes. Assim, com o fomento à competitividade, tende-se a estimular a efi ciência na prestação destes serviços fornecidos à população. Além disso, a criação de blocos regionais para a disseminação desses serviços terá o objetivo de integrar municípios de pequeno porte, garantindo a viabilidade técnica e, por consequência, melhorando a efi ciência dos serviços. O papel dos prestadores de serviços recai sobre a busca por soluções compartilhadas, como Políticas Público-Privadas (PPPs) a partir de critérios ainda mais claros e padronizados (CHEQUI, 2020). Esse compartilhamento e interlocução entre as cidades pode ser compreendido como um sistema de cogestão, em que várias localidades interagem para promover melhorias no desenvolvimento local e regional. Na construção de cidades sustentáveis que promovam diretrizes para o melhor funcionamento da zona urbana não poderia fi car de fora a preocupação com a gestão dos resíduos sólidos. Publicada em 2 de agosto de 2010, a Lei 64 Planejamento Urbano nº 12.305 defi niu que todos os materiais utilizados nas mais diversas atividades humanas e que fosse descartado seria compreendido como resíduo sólido. Tal regramento incide sobre a necessidade de se gerir esses resíduos de forma integrada, transferindo responsabilidades aos geradores de resíduos e ao poder público, a fi m de evitar que houvessem danos ambientais e à saúde da própria população (BRASIL, 2010). Apesar dessa legislação já estar vigente no país há mais de 10 anos, muitas cidades brasileiras ainda não possuem uma infraestrutura adequada para a correta destinação desses resíduos. Para se ter uma ideia, a geração desses resíduos aumentou 19% entre os anos de 2010 e 2019. FONTE: ABRELPE (2020, s.p.) GRÁFICO 1 – RELAÇÃO ENTRE A GERAÇÃO, COLETA E A DISPOSIÇÃO INADEQUADA DE RESÍDUOS SÓLIDOS NO BRASIL Como observado no gráfi co anterior, o quesito “geração” é o que mais destaca, se relacionado com o processo da coleta e do envio para locais inadequados. E é exatamente a redução da geração dos resíduos que precisamos evitar, segundo a Política Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS. 65 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 FONTE: Apoena Socioambiental (2020, s.p.) FIGURA 3 – ORDEM DE PRIORIDADE SEGUNDO A POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS (PNRS) Antes de pensar em reduzir, reutilizar, reciclar ou tratar os resíduos é fundamental pensar nas mais diferentes formas de não gerá-los. Uma das maneiras de contribuir para isso é investindo na educação ambiental em práticas escolares, nas mais diversas formas de divulgação dessa temática, na fi scalização (do poder público e também a nossa), entre outros. Somente assim conseguiremos fazer a nossa parte e colaborar para a mudança dessa cultura que nos assola. Para prosseguir com as principais legislações que regem sobre as nossas cidades está a Política Nacional de Mobilidade Urbana, que defende o acesso da população à cidade a partir de sistemas integrados e sustentáveis (BRASIL, 2012). Na prática, essa lei dá segurança jurídica para que os municípios possam priorizar transportes coletivos e não motorizados a fi m de reduzir o incentivo a veículos de uso individual. A Figura 4 sintetiza os anseios dessa legislação. FONTE: Capacidades (2013, s.p.) FIGURA 4 – OBJETIVOS CENTRAIS DA POLÍTICA NACIONAL DE MOBILIDADE URBANA 66 Planejamento Urbano Sugerimos que você acesse o site “Capacidades”, que faz parte do Programa Nacional de Capacitação das Cidades, do Ministério do Desenvolvimento Regional. Basta você se cadastrar gratuitamente. Ele vai lhe ajudar a compreender, de forma bastante didática, as políticas públicas urbanas integradas no processo de promoção do Direito à Cidade e da inclusão social: http://www.capacidades.gov.br/. Metrópole se refere a uma cidade de altas complexidades de ordem econômica, sociocultural e política. Cunningham (2010) compreende a metrópole como sendo “um espaço híbrido, a metrópole produz novos espaços de autonomia que semeiam as sementes das novas relações sociais e novas formas de cooperação” (CUNNINGHAM, 2010, p. 17). Verifi ca-se, portanto, que essa política de mobilidade urbana visa fortalecer o desenvolvimento social, ambiental, econômica e cultural da cidade, dimensões estas que já vimos no capítulo anterior. Ao mesmo tempo em que se propõe a redução da desigualdade (social), há também o fomento à utilização de sistemas de mobilidade não motorizados para a redução da emissão de poluentes (ambiental). Além disso,esses incentivos, que dependerão de uma mudança cultural de uma sociedade que subestima usos alternativos e sustentáveis, também poderão implicar positivamente na economia a partir da efi ciência e integração do sistema de transporte público. Até o momento, vimos como a legislação se aplica às cidades a partir da particularidade que cada uma possui. No entanto, devido ao alto crescimento populacional das cidades, algumas se destacaram por se tornarem “centralidades” de grande potência e referência para uma determinada região e até para o país. E para essas cidades, damos o nome de Metrópole. 67 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 São Paulo, por exemplo, é considerada uma metrópole por ser conhecida com o a capital fi nanceira do país em que o Brasil inteiro está interligado. Se realizarmos uma viagem de avião de Porto Alegre/RS para Campo Grande/MS precisaremos fazer uma parada em São Paulo para, só depois, seguir viagem para o destino fi nal. Assim, a cidade paulista detém alto poder de integração territorial do país. Consegue perceber a importância dessa cidade para todo o Brasil? E é nesse contexto que surge o Estatuto da Metrópole, Lei nº 13.089 (BRASIL 2015). Essa recente legislação teve como objetivo realizar direcionamentos a cidades que fazem parte de regiões metropolitanas, em que os limites de cada município não são evidentes após um crescimento urbano sobreposto, gerando o processo de conurbação. FONTE: Polon (2014, s.p.) FIGURA 5 – ESQUEMA REPRESENTATIVO DO PROCESSO DE CONURBAÇÃO Devido a isso, o Estatuto da Metrópole defi niu critérios para a instauração de governanças interfederativas que possibilitasse a integração entre as cidades acerca de políticas públicas criadas em comum. Essa estrutura precisou incorporar órgãos colegiados, debates, audiências sobre as mais diversas funções públicas pertencentes à cidade, como: planejamento e uso do solo, transporte, habitação, saneamento, meio ambiente, desenvolvimento econômico, atendimento social, esporte e o lazer. E tudo isso deveria estar sintetizado em um Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado (PDUI) que englobasse diretrizes para o macrozoneamento, áreas restritivas à urbanização, dentre outros (BRASIL, 2015; RIBEIRO, 2017). Recentemente, foi defi nida a partir da Medida Provisória nº 818 (BRASIL, 2018), que a conclusão desses planos integrados de áreas metropolitanas deverá ser fi nalizada até a data de 31 de dezembro de 2021. Esse adiamento faz com que os municípios tenham mais tempo para desenvolver todo esse planejamento. 68 Planejamento Urbano Por outro lado, o fato de promover a extensão dos prazos pode contribuir para a negligência no desenvolvimento de soluções a serem tomadas em prol do bem comum. Esses processos tendem a aumentar ainda mais a complexidade da cidade, tendo em vista que os sistemas irão abranger dimensões territoriais ainda maiores. “A cidade existe quando as pessoas criam vínculos provisórios ou permanentes e quando o sentimento de pertencimento é inseparável das pessoas com elas mesmas e delas com a cidade” (FIAMENGUI et al., 2017, p. 1). Em um nível ainda mais local, o desenvolvimento urbano é gerido a partir do Plano Diretor de uma cidade. Trata-se de uma lei municipal que visa ordenar o território municipal (urbano e rural), analisando e determinando o desenvolvimento de cada região da cidade a partir da regulamentação do solo. Segundo o Estatuto da Cidade (BRASIL, 2001), é exigida a implantação de Plano Diretor – dentre outras obrigatoriedades – em cidades com o mínimo de vinte mil habitantes e/ ou que integrem regiões metropolitanas e aglomerações urbanas. Tal documento precisa conter a delimitação das atividades nas áreas urbanas a partir do parcelamento do solo, da funcionalidade das edifi cações e a sua utilização, e a sua revisão deve ser feita a cada dez anos (BRASIL, 2001). O quadro a seguir sintetiza todas as etapas, funções e regras necessárias para a implementação do Plano Diretor: Plano Diretor Etapas Funções Regras Identifi car a realidade e os problemas da cidade (junto à população) Incentivar o cresci- mento e o desen- volvimento local É obrigatória a criação do Plano Diretor a municípios com mais de 20.000 habitantes Defi nir temas e objeti- vos a serem trabalha- dos Garantir o atendi- mento às necessi- dades da população É obrigatória a criação do Plano Diretor a municípios integrantes de regiões metropolitanas e aglomerações urbanas Escrever a proposta de Plano Diretor Garantir que a pro- priedade urbana esteja vinculada às funções anteriores É obrigatória a criação do Plano Diretor a municípios de áreas de interesse turístico QUADRO 2 – OBRIGATORIEDADES PARA A IMPLANTAÇÃO DO PLANO DIRETOR NAS CIDADES 69 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 Enviar a proposta à Câmara Municipal para as discussões Fazer cumprir a Lei do Estatuto da Ci- dade (BRASIL, 2001) É obrigatória a criação do Plano Diretor a municípios com em- preendimentos de alto impacto ambiental Estabelecer prazos e formas de aplicação do Plano Diretor Realizar a revisão do Plano Diretor a cada 10 anos FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e Oliveira (2012) 1) Leia as afi rmações a seguir e marque V (para verdadeiro) e F (para falso): a) ( ) A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) defi ne como principal prioridade a redução da produção de resíduos sólidos nas cidades. b) ( ) A Política Nacional de Mobilidade Urbana dá segurança jurídica para que os municípios possam priorizar transportes coletivos e não motorizados a fi m de reduzir o incentivo a veículos de uso individual. c) ( ) As novas metas propostas pelo Marco Legal do Saneamento (Lei 11.445/2020) limitam-se ao acesso à coleta de esgoto para 90% da população brasileira até o ano de 2033. d) ( ) Uma das formas de melhorar o acesso à moradia no Brasil é reduzir o custo de acesso à terra e o custo de habitações, condicionado à garantia da qualidade dos serviços. 2) Após o Estatuto da Cidade ser instituído, houve a criação do Ministério da Cidades, órgão responsável por combater as desigualdades sociais visando transformar as cidades em espaços mais humanizados nos setores de habitação, saneamento e transporte. Descreva quais as competências do Ministério e como funcionava na prática a relação entre o governo federal e os municípios. 3) Sobre o Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001), importante legislação para a formulação de políticas públicas urbanas, assinale a resposta correta: 70 Planejamento Urbano a) ( ) Os planos diretores englobam somente as áreas urbanas do município. b) ( ) Apenas cidades com mais de 20 mil habitantes são obrigadas a criarem Planos Diretores. c) ( ) Essa lei foi criada com o intuito de fortalecer a valorização imobiliária, principalmente nas grandes cidades. d) ( ) Apenas a alternativa A está incorreta. e) ( ) Nenhuma das anteriores. 2.2 INSTRUMENTOS LEGAIS DO PLANEJAMENTO URBANO Pudemos verifi car as várias legislações que norteiam o ordenamento territorial do nosso país. Mas, como sabemos, para que a lei seja aplicada de maneira efetiva no espaço urbano é preciso conhecer os instrumentos técnicos que a defi nem. Tais instrumentos originam de tributos, zoneamento e parâmetros urbanísticos (SOUZA, 2003). Ainda assim, são classifi cados da seguinte forma: informativos, inibidores, estimuladores, coercitivos e outros. Informativos Meios de divulgação de informações relevantes para os agentes modeladores. Inibidores Limitam a margem de manobra dos agentes modela- dores do espaço urbano. Ex.: edifi cação compulsória, desapropriação. Estimuladores Incentivos fi scais, vantagens fi nanceiras a investi- dores para a atração de investimentos. Coercitivos Estabelecem proibições e limites legais, como os índices urbanísticos, proibições e determinações do uso do solo. QUADRO 3 – CLASSIFICAÇÃODOS TIPOS DE INSTRUMENTOS URBANOS FONTE: Adaptada de Sousa (2015) e Araújo (2011) Para fazer jus a que é determinado em Lei, existem vários instrumentos que visam vincular as decisões legislativas à realidade da cidade: 71 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 QUADRO 5 – OBJETIVOS DA REGULAÇÃO DO USO E OCUPAÇÃO DO SOLO FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e Oliveira (2012) 2.2.1 Instrumentos de Indução do Desenvolvimento Urbano 2.2.2 Instrumentos de Regularização Fundiária 2.2.3 Instrumentos de Democratização da Gestão Urbana 2.2.4 Instrumentos de Financiamento da Política Urbana QUADRO 4 – CLASSIFICAÇÃO DOS INSTRUMENTOS URBANOS FONTE: O autor Na sequência, estudaremos cada um desses instrumentos, a fi m de visualizar os diferentes mecanismos que infl uenciam diretamente na complexidade da cidade. 2.2.1 Instrumentos de Indução do Desenvolvimento Urbano Instrumento Objetivos Regulação do Uso e Ocupação do Solo • Pode destinar partes da cidade aos mais diferentes membros da sociedade. • Tem o poder de gerar oportunidades e riquezas no espaço urbano. • Pode promover ou combater a segregação socio- espacial. • Pode gerir sobre a propriedade urbana que precisa exercer a sua função social. 72 Planejamento Urbano Instrumento Objetivos Macrozoneamento • Estabelece diretrizes para as zonas delimitadas no espaço urbano. Ex.: zona urbana, zona rural, zona central, zonas periféricas etc. • Trata-se do alicerce em que serão amparados to- dos os outros instrumentos de regulação urbana. • O macrozoneamento não é focalizado, ele se trata de uma subdivisão mais ampla da cidade, não interferindo diretamente nas normas de ocu- pação dos lotes. • É a partir desse instrumento que é estabelecido o direito de construir na cidade. QUADRO 6 – OBJETIVOS DO MACROZONEAMENTO FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e Oliveira (2012) FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e Oliveira (2012) QUADRO 7 – OBJETIVOS DAS ZONAS ESPECIAIS DE INTERESSE SOCIAL (ZEIS) Instrumento Objetivos Zonas Especiais de Interesse So- cial (ZEIS) • Áreas destinadas à moradia popular, com boa in- fraestrutura, a partir do Plano Diretor da cidade (Habi- tação de Interesse Social). • A implantação de ZEIS serve para possibilitar a regu- larização de áreas ocupadas, cortiços, loteamentos clandestinos. 73 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e Oliveira (2012) QUADRO 9 – OBJETIVOS DO SOLO-CRIADO OU OUTORGA ONEROSA DO DIREITO DE CONSTRUIR FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Saboya (2008) e Oliveira (2012) QUADRO 8 – OBJETIVOS DO DIREITO DE SUPERFÍCIE Instrumento Objetivos Direito de Superfície • Possibilita a construção em um local por um determinado tempo, mesmo que não se tenha o direito à propriedade. • Trata-se do pagamento pela utilização do espaço aéreo ou do subsolo, como as redes de eletricidade, telefonia etc. Instrumento Objetivos Solo-criado ou Ou- torga Onerosa do Direito de Construir • Trata-se de tudo que é construído e que extrapola os limites do Plano Diretor. Quem construir a mais de- verá pagar à prefeitura por isso. • Distinção do que é direito de propriedade e direito de construir. • Tem o intuito de combater a valorização imobiliária gerada pelos investimentos públicos. • Defi nição prévia do preço por metro quadrado (m²). 74 Planejamento Urbano Instrumento Objetivos Operações Urbanas • Áreas destinadas à requalifi cação urbana ou implantação de projetos, como parques, revi- talização de ruas etc. • Utiliza regras específi cas para o uso e ocu- pação do solo em prol da melhoria do espaço urbano. FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e Oliveira (2012) QUADRO 11 – OBJETIVOS DO DIREITO DE PREEMPÇÃO FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Oliveira (2012) e Versa (2021) QUADRO 10 – OBJETIVOS DAS OPERAÇÕES URBANAS Instrumento Objetivos Direito de Preempção • Áreas da cidade em que o Poder Público tem preferência no processo de compra e ven- da, caso necessário. • Essas áreas já devem estar estipuladas pre- viamente no Plano Diretor da Cidade. 75 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 QUADRO 13 – OBJETIVOS DO USUCAPIÃO ESPECIAL DE IMÓVEL URBANO/CONCESSÃO DE USO ESPECIAL PARA FINS DE MORADIA FONTE: Adaptado de Brasil (1988), Brasil (2001) e Canário (2021) Instrumento Objetivos Consórcio Imo- biliário • Parceria entre o proprietário e o poder público. • O proprietário cede a terra ao poder público, que realiza a construção de um empreendimento. Após construído, o empreendimento retorna para o proprietário no valor da terra cedida. QUADRO 12 – OBJETIVOS DO CONSÓRCIO IMOBILIÁRIO FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Oliveira (2012) e Versa (2021) 2.2.2 Instrumentos de Regularização Fundiária Instrumento Objetivos Usucapião Especial de Imóvel Urbano/ Con- cessão de Uso Especial para fi ns de moradia • Indivíduo que possuir como sua área edifi ca- da de até 250m² e que a utiliza por cinco anos (ininterruptamente) para fi ns de moradia e que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. 76 Planejamento Urbano QUADRO 14 – OBJETIVOS DO USUCAPIÃO URBANO COLETIVO/ CONCESSÃO COLETIVA DE USO ESPECIAL PARA FINS DE MORADIA QUADRO 15 – OBJETIVOS DA CONCESSÃO DE DIREITO REAL DE USO FONTE: Adaptado de Brasil (1988), Brasil (2001) e Canário (2021) FONTE: Adaptado de Brasil (1988), Brasil (2001) e Canário (2021) FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Oliveira (2012) e Canário (2021) QUADRO 16 – OBJETIVOS DOS DEBATES, AUDIÊNCIAS E CONSULTAS PÚBLICAS Instrumento Objetivos Usucapião Urbano Coleti- vo/ Concessão Coletiva de Uso Especial para fi ns de moradia • População de baixa renda que estiver ocu- pando áreas urbanas de, no mínimo, 250m² e que a utiliza por cinco anos (ininterrupta- mente) para fi ns de moradia e que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. Instrumento Objetivos Concessão de Direito Real de Uso • Direito aplicável a terrenos públicos ou partic- ulares para fi ns de urbanização, edifi cação e outras utilizações de interesse social. 2.2.3 Instrumentos de Democratização da Gestão Urbana Instrumento Objetivos Debates, Audiências e Consultas Públicas • Solicitadas pelo poder público para a discussão de projetos e planos urbanos de grande relevância para a cidade. • Pode ocorrer de duas formas: Referendo (o resulta- do da votação ORIENTA a decisão dos governantes) e Plebiscito (o resultado da votação vale como DE- CISÃO FINAL). 77 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 QUADRO 17 – OBJETIVOS DAS CONFERÊNCIAS SOBRE ASSUNTOS DE INTERESSES URBANOS QUADRO 18 – OBJETIVOS DO CONSELHO DE DESENVOLVIMENTO URBANO QUADRO 19 – OBJETIVOS DO ESTUDO DE IMPACTO DE VIZINHANÇA (EIV) FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Oliveira (2012) e Canário (2021) FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Oliveira (2012) e Canário (2021) FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Oliveira (2012) e Canário (2021) Instrumento Objetivos Conferências sobre Assuntos de Interesses Urbanos • Trata-se de eventos e encontros periódicos entre o poder público e a sociedade civil representada por diferentes setores da comu- nidade. • Um dos exemplos de conferência é o proces- so de revisão de Planos Diretores, em que a participação da sociedade nas decisões é obrigatória. Instrumento Objetivos Conselho de Desenvolvi- mento Urbano • Órgão colegiado que abrange os diferentes setores da sociedade civil e o poder público. • Possuem a incumbência de acompanhar e fi scalizar as ações oriundas do planejamento territorial. Instrumento Objetivos Estudo de Impacto de Viz- inhança (EIV) • Serve para medir o efeito de grandes em- preendimentos em uma determinada região, como o adensamento construtivo, áreas des- matadas, impactos na renda da população etc. • Tal instrumento precisa estar alinhado com a população dos bairros próximos a esses em- preendimentos, a fi m de evitarincômodos gerados por construções em desacordo com a legislação vigente. • Caso haja descumprimentos na lei, os propri- etários desses empreendimentos deverão re- alizar compensações ou contrapartidas nas áreas em que os impactos irão incidir. 78 Planejamento Urbano QUADRO 20 – OBJETIVOS DA GESTÃO PARTICIPATIVA DO ORÇAMENTO QUADRO 21 – OBJETIVOS DA INICIATIVA POPULAR DE PROJETOS DE LEI QUADRO 22 – OBJETIVOS DO IMPOSTO PREDIAL E TERRITORIAL URBANO (IPTU) PROGRESSIVO NO TEMPO QUADRO 23 – OBJETIVOS DA EMISSÃO DE TÍTULOS FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Oliveira (2012) e Canário (2021) FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Oliveira (2012) e Canário (2021) FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e Oliveira (2012) FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e Oliveira (2012) Instrumento Objetivos Gestão Participativa do Orçamento • Baseada em assembleias realizadas em dif- erentes regiões da cidade a fi m de captar as prioridades de investimento público. • Cada localidade é representada por “delega- dos” que serão responsáveis por votar nas as- sembleias que podem ser temáticas (com foco na educação, saúde, habitação etc.) ou por agrupamento urbano (idosos, jovens etc.). Instrumento Objetivos Iniciativa Popular de Pro- jetos de Lei • Reunião de um grande número de assinatu- ras a partir da sociedade civil para a proposição de planos e projetos que poderá tramitar em órgãos legislativos. Instrumento Objetivos Imposto Predial e Territori- al Urbano (IPTU) Progres- sivo no Tempo • Visa punir o proprietário de uma determinada localidade por não exercer a função social do imóvel. Instrumento Objetivos Emissão de Títulos • Caso em que o poder público municipal poderá realizar a desapropriação de um imóvel após cinco anos de cobrança do IPTU. 2.2.4 Instrumentos de Financiamento da Política Urbana 79 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 FIGURA 6 – DIFERENÇAS ENTRE PARCELAMENTO, USO E OCUPAÇÃO DO SOLO FONTE: Gestão Urbana SP (2021, s.p.) QUADRO 25 – OBJETIVOS DA POLÍTICA TRIBUTÁRIA QUADRO 24 – OBJETIVOS DA TRANSFERÊNCIA DO DIREITO DE CONSTRUIR FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e Oliveira (2012) FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e Oliveira (2012) Instrumento Objetivos Política Tributária • Tarifas e tributos sobre imóveis e serviços pú- blicos urbanos diferenciados em função do in- teresse social. Instrumento Objetivos Transferência do Direito de Construir • Autoriza o proprietário de imóvel urbano a exer- cer o direito de construir em um outro local, quando as atividades do imóvel forem voltadas à implantação de equipamentos urbanos e co- munitários, preservação do interesse histórico, paisagístico, social, ambiental ou cultural e tam- bém em prol de programas de regularização fundiária. Como pudemos ver, existem vários instrumentos que, aliados aos Planos Diretores, defi nem os índices urbanísticos para o ordenamento de uma cidade. Dentre os seus principais objetivos estão o controle do aumento das cidades, redução dos confl itos entre os usos e as atividades, o controle da mobilidade, proteção de áreas verdes a fi m de evitar a ocupação urbana e a manutenção dos custos da propriedade (JUERGENSMEYER; ROBERT, 2003). A fi gura a seguir apresenta alguns conceitos que podem parecer semelhantes, mas que possuem diferentes defi nições: 80 Planejamento Urbano A fi gura anterior esclarece de uma forma muito didática como isso funciona. Enquanto o parcelamento do solo se limita unicamente à divisão territorial do solo (sentido macro), uma área ainda não construída, o uso se refere à distribuição das funções na cidade (residencial, comercial, industrial) a partir da localização defi nida pelo zoneamento urbano da cidade. Por fi m, a ocupação é compreendida em um sentido mais micro, olhando diretamente para os critérios construtivos que devem ser seguidos pelo empreendimento. Dessa forma, é possível observar uma gradual projeção do espaço físico da cidade baseada na escala “do maior para o menor”. É preciso analisar e aplicar diretrizes que impactem uma maior parcela da população (locais de comum e uso público) para só depois olhar para “dentro” da edifi cação (critérios de altura, áreas máximas a serem construídas etc.). E é a partir desse enfoque em diferentes parâmetros que outros conceitos vão surgindo na discussão do planejamento urbano para a efetividade do zoneamento urbano. São eles: FIGURA 7 – DESDOBRAMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO FONTE: Adaptada de Carmo (2021) 81 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 QUADRO 26 – SÍNTESE DAS GRANDEZAS URBANÍSTICAS Como pôde ser observado na fi gura anterior, os parâmetros urbanísticos se desmembram em diferentes ferramentas que se incorporam às grandezas e aos índices urbanísticos. Vale lembrar que cada um deles deve ser observado sob o ponto de vista da legislação municipal. É ela quem regula a sua implementação. Para esses regramentos está incorporado, no planejamento de uma cidade, o Código de Obras: Lei Municipal que dispõe sobre as regras gerais e específi cas para a aprovação de projetos, licenciamento, execução de edifi cações, permitindo que haja construções, demolições e alterações de uso. O quadro a seguir irá apresentar as características de cada uma das grandezas urbanísticas que são regidas por essas legislações: Gabarito Representa a altura máxima permitida para uma edifi cação. Depende da localização na cidade. Geralmente, em áreas mais centrais são permitidos prédios mais altos. Afastamento Trata-se do recuo obrigatório que o lote deve possuir para que uma edifi cação nova seja construída. Área construída Representa a soma da metragem de todos os pavimentos construídos em um lote. 82 Planejamento Urbano Área útil construída Somatório das áreas dos espaços internos, sem considerar paredes e divisórias. FONTE: Adaptado de Araújo (2011) e Souza (2015) Essas características são fundamentais para iniciar o desenvolvimento de qualquer projeto na malha urbana. É imprescindível realizar a análise das legislações vigentes para que o projeto seja desenvolvido em conformidade com elas. Além das grandezas, também existe os índices urbanísticos, os quais possuem o objetivo de delimitar até que ponto determinado poderá ter de metragem construída e de áreas livres permeáveis: Taxa de Ocu- pação (TO) Trata-se da área de projeção horizontal sobre o lote. Taxa de Perme- abilidade (TP) É a porcentagem de área do lote que deve permitir a infi ltração da água. QUADRO 27 – SÍNTESE DOS ÍNDICES URBANÍSTICOS 83 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 Coefi ciente de Aproveitamen- to (CA) É a relação entre a área total construída e a área do lote. Índice de Áreas Verdes Trata-se da metragem destinada às áreas ar- borizadas no terreno. FONTE: Adaptado de Araújo (2011) e Souza (2015) Justaposto a esses parâmetros, também podem surgir outros conceitos para defi nir a ocupação no solo: • Área bruta: área total do lote, incluindo ruas e praças. • Área líquida: área destinada unicamente a fi ns residenciais. • Densidade bruta: número total de moradores que residem em uma determinada área. • Densidade líquida: número de pessoas que residem em uma determinada localidade, dividido pela área do lote. Todas essas defi nições devem estar muito claras no dia a dia do planejador urbano. É importante saber distinguir as suas características para que erros sejam evitados, por exemplo, confundir Taxa de Ocupação (TO) com Coefi ciente de Aproveitamento (CA). Ou então não saber discernir área construída de área útil construída. Quando se relacionam os instrumentos econômicos com o planejamento urbano, tende-se a estabelecer um disciplinamento da expansão urbana com o intuito de incentivar determinadas atividades em prol do interesse comum. Dentre eles está o Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), ferramenta com potencial paracombater a atividade especulativa e promover a regularização fundiária de locais atingidos pela segregação socioespacial (ARAÚJO, 2011; SOUZA, 2015). 84 Planejamento Urbano Como vimos antes, uma das formas de promover essa equidade social no espaço urbano é aplicando o IPTU progressivo no tempo, diretriz evidenciada no Estatuto da Cidade e que promove esse aumento de imposto a edifi cações já existentes e não aproveitados (BRASIL, 2001). FIGURA 8 – FUNCIONAMENTO DO IPTU PROGRESSIVO NO TEMPO FONTE: Yagura (2021, s.p.) Esse aumento de tributos ocorreu a partir do momento em que é instaurado o Plano Diretor, também no Estatuto da Cidade. Segundo a legislação: Art. 39. A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no plano diretor, assegurando o atendimento das necessidades dos cidadãos quanto à qualidade de vida, à justiça social e ao desenvolvimento das atividades econômicas, respeitadas as diretrizes previstas no art. 2o desta Lei (BRASIL, 2001, s.p.). A partir dessa lei, a propriedade urbana passou a ter obrigatoriamente uma função, uma utilização. Não basta “ter” várias terras ou imóveis, mas esses espaços precisam estar promovendo algum tipo de função, caso contrário, os tributos serão aumentados para essa propriedade. Além disso, também poderá haver desapropriações e outras punições. Você consegue observar qual o objetivo desse instrumento? É tentar conter a especulação imobiliária que ocorre em detrimento ao défi cit habitacional exorbitante no nosso país e que já falamos anteriormente. O planejamento urbano ocorre dessa forma: inserindo ferramentas, instrumentos, diretrizes para promover o ordenamento de uma cidade que vise melhorar a qualidade de vida de todos os envolvidos. 85 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 E para que toda a cidade tente seguir uma organização territorial coerente, existe o zoneamento. Tal instrumento faz parte do plano diretor de uma cidade e visa distinguir a cidade a partir de agrupamentos, as chamadas zonas. Essa separação funcional do território visa determinar em qual localidade poderá existir uma densidade construtiva maior (construir mais) ou menor (construir menos). Além disso, é por meio do zoneamento urbano que são defi nidos os usos permitidos para determinadas localidades. Por exemplo: nas áreas centrais da cidade há uma tendência para o uso misto (residencial e comercial), enquanto em áreas mais afastadas, para os usos industriais. Para reforçar a ideia de integração promovida a partir do zoneamento urbano, Dorneles (2010, p. 465) aponta que “a divisão do território através do zoneamento tem por objetivo delimitar a expansão urbana e a distribuição espacial da população de forma a garantir o desenvolvimento econômico, social e o equilíbrio ambiental”. A fi gura a seguir apresenta o Zoneamento Urbano da cidade do Rio de Janeiro, para que você possa perceber como esse instrumento é apresentado junto ao Plano Diretor de cada cidade. FONTE: Andreatta, Hazan e Denadai (2021, s.p.) FIGURA 9 – ZONEAMENTO URBANO DO RIO DE JANEIRO/RJ 86 Planejamento Urbano Cada localidade possui uma metodologia para determinar as limitações de usos e ocupações ao longo do território de uma cidade. Enquanto o zoneamento do Rio de Janeiro denomina Zona Residencial Unifamiliar (ZRU), outras cidades podem trabalhar com Zona Residencial (ZR1), por exemplo. 1) Dentre os Instrumentos de Indução do Desenvolvimento Urbano estão o Macrozoneamento e a Regulação do Uso e Ocupação do Solo, responsáveis por delimitar o espaço urbano por zonas. Sobre esses instrumentos, analise as seguintes asserções: I. O Macrozoneamento se trata de uma delimitação pontual da cidade, interferindo diretamente nas normas e ocupação dos lotes. II. A Regulação do Uso e Ocupação do Solo está condicionada à função social da propriedade. III. O Macrozoneamento é responsável por delimitar quais serão as áreas residenciais, comerciais e industriais na cidade. IV. Dependendo da Regulação do Uso e Ocupação do Solo, pode-se promover ou combater a diferenciação socioespacial na cidade. Assinale a alternativa correta: a) ( ) I e II estão incorretas. b) ( ) Apenas a alternativa IV está correta. c) ( ) I, II e IV estão corretas. d) ( ) II e III estão incorretas. e) ( ) II e IV estão corretas. 2) Relacione as colunas: 1. Coefi ciente de Aproveitamento (CA) 2. Afastamento 3. Taxa de Ocupação (TO) 4. Gabarito 3) Existem vários instrumentos urbanos que visam vincular as decisões legislativas à realidade da cidade. Sobre os Instrumentos de Regularização Fundiária, assinale a alternativa correta: ( ) Altura máxima permitida em uma determinada localização. ( ) Área de projeção horizontal sobre o lote. ( ) Relação entre a área total construída e a área do lote. ( ) Recuo obrigatório que o lote deve possuir. 87 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 a) ( ) O Usucapião Especial de Imóvel Urbano/Concessão de Uso Especial para fi ns de moradia pode ser solicitado por indivíduos que estejam residindo há mais de 5 anos em áreas de, no mínimo, 250 m². b) ( ) O Referendo e o Plebiscito são formas de participação sociedade em Conferências sobre Assuntos de Interesses Urbanos. c) ( ) O Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) Progressivo no Tempo serve para punir o proprietário de uma determinada localidade por não exercer a função social do imóvel. d) ( ) O Direito de Preempção se aplica a casos em que qualquer indivíduo tem preferência no processo de compra e venda de uma determinada área da cidade. e) ( ) As alternativas B e C estão corretas. 3 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Como pôde ser visto neste capítulo, abordamos as legislações que permeiam o campo do planejamento urbano, sobre as estratégias atuais e as formas legais de intervenção nas cidades. Junto a essas leis estão os instrumentos, necessários para colocar em prática todos os artigos e incisos traçados nas leis. Vimos que existem diferentes tipos de instrumentos, desde aqueles que estão voltados ao planejamento em nível macro e micro (Indução do Desenvolvimento Urbano) até aqueles que se vinculam ao Financiamento da Política Urbana, os quais se articulam para promover cidades que sigam o regramento estipulado pelos Planos Diretores, sempre em consonância com o Estatuto da Cidade. Além disso, existem os Instrumentos de Democratização da Gestão Urbana que defendem a participação de diferentes setores da sociedade em todas essas decisões e os Instrumentos de Regularização Fundiária que promovem a concessão de direitos. Complexo, não? Isso tudo faz parte de uma cidade! Não basta projetar a inclusão de uma rua sem levar em consideração a incidência de todos esses instrumentos no município. Por isso falamos tanto da gestão integrada, comunitária, sustentável. É preciso pensar no hoje, mas prevendo as implicações de amanhã, tanto nos campos social, econômico, ambiental e cultural de uma sociedade. 88 Planejamento Urbano Com esses conhecimentos adquiridos e embasados em conceitos técnicos aqui dispostos, será possível analisar as dinâmicas das políticas públicas frente às necessidades urbanas atuais e aliar as propostas de planejamento urbano aos instrumentos legais vigentes. No próximo capítulo, visualizaremos como essas legislações e seus respectivos instrumentos são aplicados em casos reais, para que você consiga visualizar a aplicabilidade teórica em exemplos práticos, a fi m de captar as melhores estratégias para o desenvolvimento urbano local. REFERÊNCIAS ABRELPE. Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2020. 2020. Disponível em: https://abrelpe.org.br/panorama/. Acesso em: 28 abr. 2021. ANDREATTA, V.; HAZAN, V.; DENADAI, L. G. Lei de uso e ocupação do solo. 2021. Disponível em: http://www.rio.rj.gov. br/dlstatic/10112/6438610/4221811/74LUOSPLC572017.pdf. Acesso em: 5 maio 2021. APOENA SOCIOAMBIENTAL. Ordem de Prioridade da Política Nacional de Resíduos Sólidos. 2020. Disponível em: https://www. facebook.com/ApoenaSocioambiental/photos/a.22589700808402 33/4543877432349475/?type=3. Acesso em: 28 abr. 2021. ARAÚJO, G. Mudar a cidade. 2011. Disponível em: https://pt.slideshare. net/grazilive/t4-g3-mudar-a-cidade. Acesso em: 29 abr. 2021. BERTUZZI, F. B. Percepção e observação do ambiente construído: investigação do legado olímpico após as transformações urbanas na cidade do Rio de Janeiro. 2020. 242 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Mestrado em Arquitetura e Urbanismo, IMED, Passo Fundo, 2020. Disponível em: https://www.imed.edu.br/Uploads/DISSERTACAO%20 FINAL_Felipe%20Buller%20Bertuzzi.pdf. Acesso em: 27 abr. 2021. BRASIL. Lei nº 14.026, de 15 de julho de 2020. Atualiza o marco legal do saneamento básico e altera a Lei nº 9.984, de 17 de julho de 2000. Brasília: DOU de 16/7/2020. 89 OS INSTRUMENTOS DO PLANEJAMENTO URBANO Capítulo 2 BRASIL. Medida Provisória nº 818, de 11 de janeiro de 2018. Altera a Lei nº 13.089, de 12 de janeiro de 2015, que institui o Estatuto da Metrópole, e a Lei nº 12.587, de 3 de janeiro de 2012, que institui as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana. Brasília: DOU de 12/1/2018. BRASIL. Lei nº 13.089, de 12 de janeiro de 2015. Institui o Estatuto da Metrópole, altera a Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001, e dá outras providências. Brasília: DOU de 13/1/2015. BRASIL. Lei nº 12.587, de 3 de janeiro de 2012. Institui as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana. Brasília: DOU de 4/1/2012. BRASIL. Lei nº 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos; altera a Lei n. 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências. Brasília: DOU de 3/8/2010. BRASIL. Lei nº 11.445, de 5 de janeiro de 2007. Estabelece diretrizes nacionais para o saneamento básico. Brasília: DOU de 8/1/2007. BRASIL. Lei nº 11.124, de 16 de junho de 2005. Dispõe sobre o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social – SNHIS, cria o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social – FNHIS e institui o Conselho Gestor do FNHIS. Brasília: DOU de 17/6/2005. BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Institui o Estatuto da Cidade. Brasília: DOU de 11/7/2001. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988. Brasília, 1988. CANÁRIO, M. G. Instrumentos de regularização fundiária urbana. 2021. Disponível em: https://slideplayer.com. br/slide/10363315/. Acesso em: 6 maio 2021. CAPACIDADES. Política Nacional de Mobilidade Urbana. 2013. 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Acesso em: 30 abr. 2021. 92 Planejamento Urbano CAPÍTULO 3 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: instigar e promover o debate acerca dos desafi os urbanos a partir de trabalhos já realizados no âmbito nacional e internacional; capacitar o pensamento crítico e a prática de técnicas para a análise do espaço urbano; analisar a viabilidade e o estudo de projetos urbanos bem-sucedidos; captar as melhores estratégias para o desenvolvimento urbano local; auxiliar na solução de problemas urbanos a partir de princípios sustentáveis. 94 Planejamento Urbano 95 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Após verifi carmos toda essa carga teórica que sustenta a disciplina de planejamento urbano, verifi camos que é necessária a compreensão de que a cidade é um local complexo, dotada de leis e instrumentos que norteiam as decisões urbanas e, mais do que isso, precisam estar vinculadas a uma gestão integrada, multidisciplinar. Neste capítulo, portanto, veremos como tudo isso se aplica na prática das cidades. A partir de alguns exemplos, veremos diferentes formas de planejar a cidade sob a ótica de diferentes localidades, tanto nacionais quanto internacionais. Veremos como o Estatutovem sendo aplicado em algumas situações a fi m de facilitar o seu entendimento sobre essa lei que rege o espaço urbano. Vale destacar que é importantíssimo olhar para os lugares que “deram certo”, mas entender que não podemos replicá-los de modo literal (como modelos), isso porque cada realidade, cada território possui a sua particularidade. Veremos os pontos positivos, negativos, e sempre evidenciando a importância de o planejador estar em completa sintonia com os demais agentes que devem fazer parte de todo o processo. Ao fi nal, relacionaremos esses estudos de caso com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Será que as cidades estão sendo pensadas de forma inclusiva, segura, resiliente e sustentável? Está preparado para desbravarmos todo esse conhecimento juntos? Lembre- se sempre: A transformação só existirá se houver conhecimento! 2 OS DESAFIOS URBANOS DA ATUALIDADE Como pudemos verifi car nas laudas anteriores, para que o planejamento urbano aconteça é necessário seguir as legislações e os instrumentos que direcionam as mais diferentes ações. Uma das leis que estão vinculadas a essa lógica urbana é o Estatuto da Cidade (BRASIL, 2001), em que sustenta um planejamento urbano com a participação direta da sociedade a partir de um melhor desempenho no corpo técnico-administrativo das gestões municipais a partir de uma estrutura integrada sustentada pelo plano diretor. 96 Planejamento Urbano Mas como realizar tudo isso na prática? E como fazer isso a partir de um processo de planejamento participativo? Desenvolvendo um diagnóstico da situação urbana do município a fi m de descobrir os principais desafi os a serem enfrentados na cidade. Após, deve-se verifi car junto à estrutura administrativa municipal, a disponibilidade técnica disponível para a resolução desses desafi os. Por fi m, deve-se consultar o acervo tecnológico da prefeitura a fi m de verifi car as possíveis adequações e/ou modifi cações nas bases cartográfi cas e informações do cadastro imobiliário. Mas o que são essas bases cartográfi cas no âmbito urbano? São formas de captação da imagem da cidade com o intuito de fornecer informações para as projeções urbanas, como o lançamento de infraestruturas e cobranças de IPTU. Segundo Teixeira (2000), a cartografi a urbana apresenta os traçados urbanos da cidade ou de partes dela, podendo ser observadas as estruturas existentes como quarteirões, a localização das edifi cações e demais características físicas pertencentes ao meio urbano. Tal conceito reforça o que Harley (1990) já dizia, que as bases cartográfi cas tratam de uma representação gráfi ca de aspectos do mundo real. As formas de representação desse “mundo real” podem ser feitas de várias formas: incialmente, capta-se a partir de imagens de satélite as características da cidade. Após, é realizada uma “ortorretifi cação”, que nada mais é que a correção das distorções que a imagem aérea pode gerar, a fi m de traduzir a imagem em desenhos com linhas e traços que forma os quarteirões, lotes e demais características físicas. Além disso, também é possível encontrar as curvas de nível a partir dessas imagens a fi m de verifi car quais lugares possuem declividades e quais são planos. É a partir dessa representação gráfi ca que podemos tomar conhecimento das mais diferentes necessidades da cidade, sejam defi nições para o uso, ocupação do solo e habitação, estratégias para a mobilidade urbana, saneamento, estudos sobre as diferenças sociais, dentre muitos outros. Fazendo uma analogia é como se precisássemos desse ingrediente (mapas cartográfi cos) para elaborar uma receita (planos, diretrizes para a cidade) que irá suprir a “fome” da população (resolução dos mais diferentes problemas). Para reforçar, o quadro a seguir destaca a importância da cartografi a para o desenvolvimento das cidades. 97 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 CARTOGRAFIA E PLANEJANETO UR- BANO Ferramenta de auxílio na TOMADA DE DECISÃO Análise do ESPAÇO URBANO Orienta a política de DESENVOLVIMENTO e ORDE- NAMENTO Planeja a EXPANSÃO URBANA do município Detecta os PROBLEMAS URBANOS e AMBIENTAIS Auxilia no planejamento de POLÍTICAS PÚBLICAS para as cidades QUADRO 1 – OBJETIVOS DA CARTOGRAFIA PARA O PLANEJAMENTO URBANO FIGURA 1 – PROCESSO DE TRANSCRIÇÃO DAS INFORMAÇÕES PARA A CRIAÇÃO DE BASES CARTOGRÁFICAS URBANAS FONTE: Adaptado de Coelho (2021) FONTE: Moreira (2016, s.p.) Um desses exemplos pode ser visto na Figura 1: a partir da imagem aérea (A) é possível transcrever, a partir de outros softwares (como o AutoCAD, por exemplo) (B) ou digitalizações, e captar essas informações por meio de desenhos. É importante frisar que as bases cartográfi cas e o cadastro imobiliário são PRODUTOS oriundos de um PROCESSO de planejamento urbano sustentado pelo plano diretor municipal. É a partir dessas informações (dados cartográfi cos e do cadastro imobiliário) que se obtém a leitura da realidade municipal e dá subsídio para uma atuação legítima. É importante frisar que as bases cartográfi cas e o cadastro imobiliário são PRODUTOS oriundos de um PROCESSO de planejamento urbano sustentado pelo plano diretor municipal. 98 Planejamento Urbano Após esses levantamentos, parte-se para o momento de verifi cação dos recursos fi nanceiros disponíveis e da observação da vontade política e dos mais diversos seguimentos da sociedade. Para tanto, é necessário existir um Conselho Municipal de Desenvolvimento Urbano, grupo de cunho consultivo (aconselha) e deliberativo (decide). Assim, também, para fazer jus a uma fi scalização e legitimação do planejamento participativo, deve-se haver um Núcleo Gestor ou Comissão do Plano Diretor. Uma equipe técnica do Plano Diretor é necessária para coordenar todos os trabalhos que competem o planejamento, dotada de profi ssionais das mais diferentes áreas, como arquitetos, engenheiros, assistentes sociais, biólogos etc. E para colocar em prática todos os objetivos levantados pelas equipes é necessário criar um plano de trabalho (termo de referência) a partir de uma metodologia. Em resumo, deve-se: Sensibilizar as secretarias municipais para a importân- cia do PLANEJAR Construir soluções em conjunto com as represen- tações dos segmentos da SOCIEDADE CAPACITAR as sec- retarias e entidades QUADRO 2 – SÍNTESE DO PROCESSO DE PLANEJAMENTO URBANO FONTE: O autor Como já trabalhado no capítulo anterior, o Estatuto da Cidade trata-se da Lei que estabelece as diretrizes da política urbana no Brasil. É a partir dele que saem planos diretores para fomentar o desenvolvimento das nossas cidades, visando atender às necessidades da população (BRASIL, 2001). É nesse sentido que, a seguir, você vai comparar algumas normativas exigidas pelo Estatuto da Cidade e como ele vem sendo aplicado na prática, a partir de casos reais (quadros 3 a 7): 99 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 QUADRO 3 – RELAÇÃO ENTRE O ESTATUTO DA CIDADE E A PRESERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE O que o Estatuto da Cidade diz? “XII – proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arque- ológico” (BRASIL, 2001) Em outras palavras... Deve-se assegurar a manutenção de edifi cações e localidades históricas, pois resguardam a memória e a história de uma cidade. O problema: Muitos prédios antigos, apesar de não serem tombados como patrimônio histórico e cultural, passar por anális- es para verifi car a existência ou não de um valor arquitetônico que justifi que essa certifi cação do edifício. O que acontece muitas vezes é a demolição desses prédios para a inserção de no- vos empreendimentos. Perante a lei, não há impedimento para a demolição desses prédios desde que sejam seguidas as normativas relativas à construção civil. Vale ressaltar que a demolição de prédios tombados con- stituicrime contra o patrimônio cultural. Prédio antigo, em Fortaleza/CE A solução: Uma das formas de garantir a per- manência de uma edifi cação histórica que represente um valor à cidade é o processo de tombamento. A imagem ao lado foi considerada Patrimônio Histórico e Cultural do Estado do Rio do Janeiro para fi ns de preservação. Dessa forma, fi cam impedidas alter- ações estruturais e a comercialização deste imóvel. Escola Municipal Cicero Penam no Rio de Janeiro/RJ FONTE: Adaptado de Extra (2021) e Diário do Nordeste (2021) 100 Planejamento Urbano O que o Estatuto da Cidade diz? “XIII – audiência do Poder Público municipal e da população interessada nos processos de implantação de empreendimentos ou atividades com efeitos potencialmente negativos sobre o meio ambiente natural ou con- struído, o conforto ou a segurança da população” (BRASIL, 2001) Em outras palavras... Tal diretriz volta-se para o direito à gestão democrática urbana, o qual garante o acesso e o poder de interferência da população nas decisões e implementações da política urbana. O problema: Será que as nossas cidades es- tão preparadas para ouvir de fato a população? Ou simplesmente impõem decisões urbanas unilat- erais que não resolvem os reais problemas da população? Na charge ao lado, vemos que a implantação de um empreen- dimento incomodou moradores do entorno. Isso demonstra que muito provavelmente não houve esse diálogo, faltando um Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) consistente. Lembra que já falamos desse in- strumento no capítulo anterior? Trata-se da análise prévia dos efeitos que novos empreendimentos podem gerar no seu entorno. No caso da charge, esse problema aparece como um adensamento construtivo em uma área que impossibilitou o acesso viário e até visual para lojas que já estavam instaladas naquela redondeza. A solução: No caso da imagem a seguir, é possível observar que um empreendimento que comercializa fast-food foi instalado em frente a uma rua bastante movimentada de Curitiba/PR. Você saberia dizer qual impacto pode ser gerado a partir dessa implantação? Essa situação é clássica de um impacto na circulação viária, em que haverá uma tendência de aumento na fl uidez do trânsito devido a esse empreendimento. São os chamados polos geradores de tráfego. QUADRO 4 – RELAÇÃO ENTRE O ESTATUTO DA CIDADE E O ESTUDO DE IMPACTO DE VIZINHANÇA (EIV) 101 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 A solução encontrada para esse problema foi a criação de uma via paralela à via principal que dá acesso ao estacionamento da em- presa, evitando que hajam impac- tos indesejáveis no trânsito. Mas lembre-se: cada caso preci- sa ser avaliado de forma individ- ual, pois depende do contexto em que está inserido! Não existem modelos a serem replicados. As soluções emergem da interativi- dade entre todos os envolvidos! Empreendimento em Curitiba/PR FONTE: Adaptado de Brasil (2001) e DENATRAN/FGV (2001) QUADRO 5 – RELAÇÃO ENTRE O ESTATUTO DA CIDADE E O DIREITO À MORADIA O que o Estatuto da Cidade diz? “XIV – regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por popu- lação de baixa renda mediante o estabelecimento de normas especiais de urbanização, uso e ocupação do solo e edifi cação, consideradas a situação socioeconômica da população e as normas ambientais” (BRASIL, 2001) Em outras palavras... A diretriz tem o intuito de garantir o direito à moradia de milhões de brasileiros que vivem em condições precárias, considerados ilegais e irregulares pela leg- islação urbana. O problema: O Estatuto da Cidade visa pro- teger legalmente o direito à moradia para as pessoas que vivem em favelas, loteamentos populares e periferias a partir da urbanização de áreas ocu- padas pela população consid- erada de baixa renda. Loteamento irregular em Sorocaba/SP A solução: Uma dessas formas é estabelecer as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), defi nidas a partir do zoneamento da cidade e que reservam áreas para este fi m. 102 Planejamento Urbano Imagem ilustrativa que representa a destinação de áreas da cidade para as ZEIS Empreendimento habitacional Canaã em Passo Fundo/RS FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Secretaria de Obras e Habitação (2018) e Jornal Cruzeiro do Sul (2018) QUADRO 6 – RELAÇÃO ENTRE O ESTATUTO DA CIDADE E A SIMPLIFICAÇÃO DA LEGISLAÇÃO DE PARCELAMENTO O que o Estatuto da Cidade diz? “XV – simplifi cação da legislação de parcelamento, uso e ocupação do solo e das normas edilícias, com vistas a permitir a redução dos custos e o au- mento da oferta dos lotes e unidades habitacionais” (BRASIL, 2001) Em outras palavras... Os parâmetros atuais são complexos e difi cultam a possibilidade de ofertar lotes. A simplifi cação desse processo auxiliaria na obtenção de mais moradias, garan- tindo as condições de salubridade e qualidade ambiental. O problema: Um dos problemas que envolvem esse assunto é a alta burocracia cobrada para a aprovação de pro- jetos nas prefeituras. Segundo a legislação, o prazo para a análise de projetos gira em torno de 30 dias. No entanto, como podemos ver na imagem ao lado, esse prazo se es- tende por muito mais tempo. Esse problema pode sim ser causado pela alta demanda de processos, mas também pela elevada buroc- racia que a legislação exige. Essa morosidade nas análises gera, por- tanto, o atraso no início das obras. Notícia do Jornal O Progresso, de Doura- dos/MS 103 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 FONTE: Adaptado de Brasil (2001), Marques (2021) e Agência Brasília (2021) A solução: Uma das formas de se resolver ou ao menos amenizar tal situação, seria simpli- fi car o trabalho da avaliação dos processos, tendo em vista que já existe profi s- sional(is) habilitado(s) para responder por inconformidades na legislação. Desse modo, será que precisaria de uma análise bastante morosa por parte da prefei- tura? O processo de desburocratização já é algo visado por várias prefeituras e gov- ernos. Um desses casos pode ser visto no Distrito Federal: o governo local sim- plifi cou processos e regularizou 28 áreas e aprovou 11 parcelamentos de solo, o que benefi ciou mais de 225 mil habitantes, segundo notícia da Agência Brasília (2021). Houve, também, a aprovação histórica de 2.220 alvarás de construção durante a pandemia da COVID-19. Notícia veiculada no Jornal Agência Brasília (2021) Outra forma de acelerar esse processo pode ocorrer a partir da implantação de plataformas digitais que permitam agilizar o processo de documentação e tam- bém facilitam a inter-relação entre os próprios órgãos internos da prefeitura. 104 Planejamento Urbano O que o Estatuto da Cidade diz? “XVI – Isonomia de condições para os agentes públicos e privados na pro- moção de empreendimentos e atividades relativos ao processo de urban- ização, atendido o interesse social” (BRASIL, 2001) Em outras palavras... É importante que haja uma integração efetiva entre os entes públicos e privados, dialogando com a população da cidade. O problema: Mesmo com uma legislação defend- endo a discussão entre os mais dif- erentes entes envolvidos em uma determinada proposição urbana, em muitos casos, as prefeituras não con- sideram de fato os anseios da popu- lação. A imagem ao lado retrata um dess- es casos. Ao contrário do que rege o Plano Diretor de Niterói/RJ, os tra- balhadores locais de vários quiosques da Praia de Charitas não foram infor- mados sobre a requalifi cação urbana que será feita na orla do bairro. Se- gundo O GLOBO (2021), o Plano Di- retor estabelece que a regularização das políticas de urbanismo da cidade deve considerar o diálogo com todos os entes envolvidos. QUADRO 7 – RELAÇÃO ENTRE O ESTATUTO DA CIDADE E A HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 105 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 A solução: Um exemplo que é fruto de uma gestão integrada foi a requalifi caçãoda Rua 14 de Julho, na cidade de Campo Grande/MS. A partir de um estudo desen- volvido em parceria com a Prefeitura Municipal e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), as alterações propostas para a área visaram captar as percepções de empresários e consumidores da Rua 14 de Julho (CG NOTÍCIAS, 2021). Em pesquisa recente, 93% da população e dos comerciantes aprovaram as mudanças realizadas na área. Consequência de um trabalho em conjunto, a partir da criação de ecossistemas que promoveram métodos interativos de coop- eração para que o resultado pudesse ir de encontro com as necessidades locais. Rua 14 de Julho, de Campo Grande/MS, após ser revitalizada Ao olhar para este exemplo, podemos lembrar os conceitos que estudamos nos outros capítulos deste livro: a gestão integrada a partir das dimensões social, econômica, ambiental e cultural. É preciso que haja um processo interativo entre os envolvidos. Não somente sob a perspectiva da consulta, do “sim” ou “não”, mas da investigação dos anseios dos indivíduos que realmente irão usufruir do espaço urbano. Recentemente, a cidade tem sido entendida como um processo, algo não estático, e que precisa de modos de interação constantes. Isso sustenta conceitos novos de “co-cidade”, “cidade compartilhada” e “cidades inteligentes”. FONTE: Adaptado de Brasil (2021) e O Globo (2021) 1) A cartografi a urbana trata-se da captação da imagem da cidade com o intuito de fornecer informações para as projeções urbanas, como o lançamento de infraestruturas e cobranças de IPTU. Sobre essa temática, assinale a alternativa INCORRETA: a) ( ) A cartografi a urbana apresenta os traçados urbanos da cidade, podendo ser observadas posteriormente as estruturas existentes como quarteirões, a localização das edifi cações e demais características físicas. 106 Planejamento Urbano b) ( ) Não é preciso realizar correção das distorções que a imagem aérea pode gerar, pois a imagem já apresenta de forma automática as linhas e traços que formam os quarteirões, lotes e demais características físicas. c) ( ) É a partir dessa representação gráfi ca que podemos tomar conhecimento das mais diferentes necessidades da cidade, sejam defi nições para o uso, ocupação do solo e habitação, estratégias para a mobilidade urbana, saneamento, estudos sobre as diferenças sociais, dentre muitos outros. d) ( ) A cartografi a urbana orienta a política de desenvolvimento e ordenamento e planeja a expansão urbana do município. e) ( ) A cartografi a urbana detecta os problemas urbanos e ambientais e auxilia no planejamento de políticas públicas para as cidades 2) O Estatuto da Cidade trata-se da Lei que estabelece as diretrizes da política urbana no Brasil. É a partir dele que saem planos diretores para fomentar o desenvolvimento das nossas cidades, visando atender às necessidades da população. É a partir dele que devem ser elaborados os planos diretores do município. No âmbito do planejamento urbano, responda: I. A isonomia de condições para os agentes públicos e privados na promoção de empreendimentos e atividades relativos ao processo de urbanização, atendido o interesse social refere- se à integração efetiva entre os entes públicos e privados, sem necessariamente dialogar com a população da cidade. II. A regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por população de baixa renda mediante o estabelecimento de normas especiais de urbanização se resume em garantir o direito à moradia de milhões de brasileiros que vivem em excelentes condições, considerados legais e regulares pela legislação urbana. III. Dentre as formas de proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico está o tombamento de edifi cações históricas em prol da preservação da cultura e identidade locais. IV. Para o Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) torna-se opcional realizar audiências do Poder Público municipal e da população interessada nos processos de implantação de empreendimentos ou atividades com efeitos potencialmente negativos. 107 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 V. A equipe técnica do Plano Diretor visa coordenar todos os trabalhos que competem o planejamento, dotada de profi ssionais das mais diferentes áreas, como arquitetos, engenheiros, assistentes sociais, biólogos etc. a) ( ) I e II estão incorretas. b) ( ) Apenas a alternativa V está correta. c) ( ) I, II e IV estão corretas. d) ( ) III e V estão corretas. e) ( ) II e IV estão incorretas. 3) A isonomia de condições para os agentes públicos e privados na promoção de empreendimentos e atividades relativos ao processo de urbanização, atendido o interesse social é de extrema importância para uma integração efetiva entre os entes públicos e privados, dialogando com a população da cidade. Vimos, neste capítulo, um exemplo de exclusão da sociedade em importantes discussões. Nesse sentido, descreva qual é a melhor solução técnica para resolver esse problema de gestão. 2.1 ESTUDOS DE CASOS A seguir, apresentaremos a análise de algumas cidades que dão exemplos de planejamento urbano, mas que também mostram como as tentativas de planejar a cidade pode não dar certo. A cidade de Copenhagen, capital da Dinamarca, é um desses exemplos positivos. Conhecido como o “Plano dos Cinco Dedos”, um plano de mobilidade urbana, o desenvolvimento de linhas de transporte foi fortemente incentivado a partir de cerca de 1,2 mil pontos de ônibus, transporte aquático e metrô, os quais compuseram o sistema de transporte público da cidade (ESTADÃO, 2020). Além disso, a cultura da bicicleta é uma forma de locomoção muito respeitada na cidade. Para se ter uma ideia, a cidade é dotada de estacionamentos para as bicicletas em diversos pontos da cidade, estrategicamente alocados nas estações de ônibus e metrô. Os semáforos são sincronizados para garantir que os ciclistas não precisem parar em momentos de grande fl uxo de veículos. 108 Planejamento Urbano FONTE: Estadão (2020, s.p.) FIGURA 2 – TIPOS DE MOBILIDADE URBANA EM COPENHAGUE Além dessa preocupação com a qualidade de vida, o fomento a um transporte público de qualidade está diretamente relacionado à utilização de energia renovável e aos conceitos de mobilidade verde e cidade inteligente. Consegue visualizar uma gestão integrada que vincula as dimensões social, econômica, ambiental e cultural? “A forma urbana e o desenho de Copenhagen são o produto de um tráfi co ferroviário cuidadosamente integrado sob um desenvolvimento urbano” (GHIDINI, 2009, p. 10). Mas por que a cidade de Copenhagen se voltou para uma mobilidade urbana focada no pedestre e nos ciclistas? Isso se deu a partir de um planejamento urbano voltado à diminuição da congestão de veículos, desde a década de 1970. Vale ressaltar que não se tratou do extermínio do uso do carro, mas sim da readequação de um modo de locomoção motorizado. Como consequência da aplicação dessas estratégias, o fl uxo de veículos foi reduzido em 10%, o que hoje resulta em uma média de 330 automóveis para cada 1 mil habitantes (GHIDINI, 2009). “A forma urbana e o desenho de Copenhagen são o produto de um tráfi co ferroviário cuidadosamente integrado sob um desenvolvimento urbano” (GHIDINI, 2009, p. 10). 109 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 Além disso, Ghidini (2009) também destaca outras táticas que foram inseridas no meio urbano em prol da mobilidade urbana sustentável: uso da bicicleta, sinalização preferencial para os ônibus, aumento da quantidade de ônibus que alcançassem as mais diferentes regiões da cidade, entre outros. A expressão “mobilidade urbana sustentável” remete à integração da proteção ambiental, à sustentabilidade econômica e à justiça social, importantes condicionantes no processo de planejamento (IPEA, 2016). Daremos comoexemplo o carro, que, por si só, fere a dimensão ambiental por ser movido a substâncias poluentes ao meio ambiente, seu custo acaba sendo caro devido às condições de obtenção e manutenção (economia) e a sociedade muitas vezes não consegue adquiri-lo ou mantê-lo, dada as condições de desigualdade (justiça social). Além de tudo isso, o carro é uma forma de locomoção individual que toma muito espaço da via pública, ao contrário de um ônibus que consegue abrigar mais pessoas e otimizar o espaço utilizado. Além de uma análise de muitos fatores para a proposição dessas estratégias, dentre elas estava o fato de a cidade de Copenhagen possuir declividades muito baixas, o que a torna ideal para a utilização da bicicleta (COLVILLE, 2015; KUNZ, 2018) – o que talvez justifi que um poder cultural muito forte em prol do uso da bicicleta como meio de locomoção. A Figura 3 apresenta a evolução da malha cicloviária de Copenhagen. 110 Planejamento Urbano FIGURA 3 – MAPA REPRESENTATIVO DA EVOLUÇÃO DA MALHA CICLOVIÁRIA DE COPENHAGEN ENTRE OS ANOS DE 1912-2013 FONTE: Carstensen et al. (2015, p. 6) 111 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 FONTE: Prefeitura Municipal de Curitiba (2015, s.p.) e Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (2021, s.p.) QUADRO 8 – BREVE LINHA DO TEMPO QUE RESUME A TRAJETÓRIA DE CURITIBA/PR NO PROCESSO DE PLANEJAMENTO URBANO Similar a Copenhagen no que tange ao planejamento urbano embasado na mobilidade sustentável temos a cidade brasileira de Curitiba/PR. Considerado como um novo “paradigma urbanístico”, a maior cidade do sul do Brasil é considerada um exemplo de bastante destaque quando se trata de uma transformação urbana em prol das pessoas (DIAS; JÚNIOR, 2017). O quadro a seguir apresenta o caminho do desenvolvimento territorial de Curitiba que resultou nas diretrizes urbanas que conhecemos hoje: PLANO AGACHE (1941-1943) COMISSÃO DE PLANEJAMENTO DE CURITIBA (1954) SEMINÁRIO CURITIBA DO AMANHÃ (1965) IPPUC (1965) PLANO DIRETOR (1966) 1º Plano De Urbanização de Curitiba/PR Período de mod- ernização no planejamento ur- bano Debates entre autoridades mu- nicipais e rep- resentantes da sociedade civil Instituto de Pesquisa e Plane- jamento Urbano de Curitiba (IPPUC) 1º Plano Diretor de Curitiba Ações: adoção do sistema radial de vias Organização da cidade por setores (indus- trial, comercial, administrativo, educacional, desportivo e res- idencial Ampliação da rede de esgoto População es- timada: 140 mil habitantes Ações: mod- ernizar o Plano Agache, atuali- zando-o para a nova realidade da cidade que super- ava 180 mil habi- tantes Ações: sur- gimento da Assessoria de Pesquisa e Planejamento Urbano de Cu- ritiba (APPUC) para a posterior criação do Pla- no Preliminar de Urbanismo (PPU) e do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Cu- ritiba (IPPUC) Ações: constituído para nor- tear a or- ganização territorial da cidade a partir de um Plano Diretor Ações: Consol- ida as políticas urbanas impor- tantes para o desen- volvi- mento de Curitiba 112 Planejamento Urbano Foi no ano de 1965 que as transformações iniciaram na capital paranaense. O Instituto de Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC) foi constituído para nortear a organização territorial da cidade a partir do Plano Diretor. O arquiteto e urbanista Jaime Lerner, que participou da criação da entidade, ajudou a nortear o início dos trabalhos urbanos que envolveram uma ação direta no fl uxo de veículos e no crescimento espacial urbano. Na prática, houve restrições no trânsito de veículos na área central da cidade de Curitiba (DIAS; JÚNIOR, 2017). Além disso, pode-se dizer que Curitiba já apostava em uma gestão integrada que promovia várias diretrizes urbanas, baseando-se nas três funções básicas que se resumem em Uso do Solo, Transporte Coletivo e Sistema Viário: FONTE: IPPUC (2021, s.p.) FONTE: IPPUC (2021, s.p.) FIGURA 4 – TRÊS FUNÇÕES BÁSICAS DO PLANEJAMENTO DE CURITIBA/PR QUADRO 9 – DIRETRIZES CRIADAS AS PARTIR DAS FUNÇÕES BÁSICAS URBANAS DA CIDADE DE CURITIBA/PR 1. Hierarquização do sistema viário 2. Zoneamento do uso do solo 3. Regulamentação dos loteamentos 4. Renovação urbana 5. Preservação e revitalização dos setores históricos tradicionais 6. Oferta de serviços públicos e equipamentos comunitários 113 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 FONTE: IPPUC (2021, s.p.) FONTE: IPPUC (2021, s.p.) FIGURA 5 – CONFIGURAÇÃO ESPACIAL LINEAR A PARTIR DO SISTEMA TRINÁRIO DE CURITIBA/PR FIGURA 6 – CONFIGURAÇÃO ESPACIAL LINEAR A PARTIR DO USO E OCUPAÇÃO DO SOLO DE CURITIBA/PR Houve, também, a defi nição de uma distribuição dos corredores de transporte de forma linear e não radial (SOUZA, 2001; DIAS; JÚNIOR, 2017). A Figura 5 apresenta a adequação da cidade ao Sistema Trinário que instauraria o crescimento linear idealizado: uma via destinada ao transporte coletivo, duas vias para o tráfego lento (de acesso a comércio e residências) e duas vias de tráfego rápido em sentidos opostos. Observa-se na fi gura anterior que a conformação linear respaldada pelo Sistema Trinário ligou trechos na malha viária que até então estavam isolados. Mas não basta pensar somente na mobilidade urbana se o uso e ocupação do solo não forem idealizados de forma conjunta. Para tanto, o planejamento da cidade se baseou em uma ocupação de alta densidade (alto potencial construtivo) nas áreas centrais destinadas às zonas comerciais e, à medida que os quarteirões vão se afastando do centro, passou a ser defi nido – agora sim de forma radial – às demais zonas: residencial, rural, verde e especial. 114 Planejamento Urbano Essas foram as diretrizes traçadas nas primeiras soluções para a cidade. É evidente que, ao longo dos anos, novas proposições precisam ser feitas, movimentadas pelo aumento populacional, novos hábitos, dentre outros aspectos a considerar. De acordo com o Ranking Connected Smart Cities 2020, promovido pela Urban Systems, que coleta os dados de municípios brasileiros que possuam mais de 50 mil habitantes, Curitiba foi considerada a terceira cidade mais inteligente do Brasil dentre os 673 municípios avaliados (Figura 7). Isso se deu a partir da análise de 70 indicadores em 11 eixos temáticos distintos: Mobilidade, Urbanismo, Meio Ambiente, Tecnologia e Inovação, Empreendedorismo, Educação, Saúde, Segurança, Energia, Governança e Economia (URBAN SYSTEMS, 2021b). FIGURA 7 – CURITIBA, CLASSIFICADA COM O 3º LUGAR NO RANKING CONNECTED SMART CITIES 2020 FONTE: Urban Systems (2021b, s.p.) 115 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 A imagem anterior mostra que Curitiba fi cou em primeiro lugar no eixo temático “Urbanismo”, o qual o resultado se origina da análise considera vários indicadores (Figura 8). Dentre os motivos que fi zeram Curitiba estar nessa posição, destacam- se: o atendimento urbano de água e esgoto em 100% da cidade; o investimento ser de R$ 655,00 por habitante em urbanismo; 100% da população viver em área de médio e alto adensamento (URBAN SYSTEMS, 2021a). FIGURA 8 – INDICADORES DO EIXO TEMÁTICO “URBANISMO” DO RANKING CONNECTED SMART CITIES 2020 FONTE: Urban Systems (2021a, s.p.) A lista completa e mais detalhes da classifi cação das cidades, eixos temáticos, indicadores, entre outros, pode ser verifi cado no “Ranking Connected Smart Cities 2020” disponível em: https:// d335luupugsy2.cloudfront.net/cms/fi les/48668/1600973008Ranking_ CSC_2020.pdf. Outra indicação que deixamos a você é o portal intitulado “Connected Smart Cities” que reúne conteúdos, notícias, eventos dos mais diversos temas relacionados aos eixos temáticos que vimos anteriormente. Vale a pena acessá-lo com frequência para verifi car o que vem sendo feito para garantir cidades inteligentes humanas e sustentáveis: https://portal.connectedsmartcities.com.br/.116 Planejamento Urbano Todas essas avaliações são para dizer “esta cidade possui condições que garantam o bem-estar humano”. Dias e Júnior (2017) fazem uma relação direta entre as intervenções em mobilidade urbana e a alta qualidade de vida nas cidades. Para os autores, essa sinergia faz emergir um sentimento de “um sentimento de pertencimento e orgulho da população, que possibilita, ao curitibano, não só o desfrute e a autoexpressão, mas também o cuidado com seus espaços públicos, servindo de exemplo para o restante do País” (DIAS; JÚNIOR, 2017, p. 656). A fi gura a seguir elucida a relação entre diferentes épocas que retratam hábitos também distintos. FIGURA 9 – RELAÇÃO ENTRE ÉPOCAS DISTINTAS NA CIDADE DE CURITIBA/PR FONTE: Dias e Júnior (2017) Gehl (2014) destaca que a apropriação humana no espaço público deve emergir de uma cidade viva em que as pessoas se sintam convidadas a permanecer, caminhar ou pedalar nos mais variados espaços. E em meio ao processo de desenvolvimento das cidades, novas formas de gestão vêm sendo pensadas com o intuito de aproximar cada vez mais a população de fóruns e discussões sobre a cidade. Nesse aspecto, um novo conceito chamado “Governança Antecipatória”, que consiste na exploração, previsão, defi nição e direção de estratégias para uma determinada região (RAMOS, 2016). Em outras palavras, essa forma de gestão da cidade visa envolver a sociedade em todos os passos do processo; consiste em mapear direções que realmente resolvam os problemas da sociedade. Não basta mudar a cidade simplesmente para deixá-la bela, mas sim que a cidade se torne também útil para a população que ali vive. 117 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 FIGURA 10 – PROJETO URBANO DESENVOLVIDO POR LÚCIO COSTA PARA O CONCURSO DO PLANO PILOTO DE BRASÍLIA/DF, EM 1957 FONTE: Oliveira (2008) Refl exão: Volte à imagem anterior e analise: qual das imagens demonstra uma interação e um sentimento de pertencimento mais forte à cidade? Na sequência, traremos um caso de planejamento urbano brasileiro que, na verdade, se trata de um exemplo a “não ser seguido”. Isso mesmo! Precisamos estar atentos às propostas que não deram certo para tentar não repeti-las. O caso é bastante emblemático: trata-se do planejamento de Brasília, no Distrito Federal, inaugurada no ano de 1960. Você se recorda dos princípios modernistas que falamos no início deste livro? Pois então... Brasília/DF seguiu as diretrizes desse movimento, criando zoneamento de atividades, grandes blocos afastados e ensolarados circundados por grandes vias (LING, 2019). Proposta pelo arquiteto e urbanista Lúcio Costa, a “nova” cidade que viria a ser a capital do Brasil foi proposta com base nos princípios dos CIAM e da Carta de Atenas (OLIVEIRA, 2008). Projetada a partir de dois eixos: o Eixo Monumental, destinado às áreas dos poderes executivo, legislativo e judiciário e alocadas na área central do Plano Piloto de Brasília (formato de “avião”). Próximo a esse centro, foram situados os setores comerciais. Já o Eixo Rodoviário deu espaço para os setores residenciais, representados pelos grandes quarteirões (NÓBILE, 2010). 118 Planejamento Urbano Em meio a um contexto histórico em que o desenvolvimento do automóvel se fortalecia, o sistema ferroviário deixou de ser prioridade, elucidando o fomento ao transporte individual. Você já deve ter ouvido falar que Brasília foi “projetada para os carros”, certo? E realmente foi. Isso porque as superquadras – como o próprio nome já diz – destoam de um processo de caminhabilidade e apropriação pela população. Apesar de esses quarteirões terem sido pensados de forma aberta ao público, para que as áreas verdes se comunicassem com as vias e a população pudesse caminhar e se utilizar desses espaços livres, existe um outro problema: o clima árido do Cerrado que difi culta a transição de pedestres. O paisagismo projetado para a cidade não produz sombreamentos, o que também problematiza o conforto térmico da cidade. Essas condições, portanto, intensifi cam a utilização do carro como o melhor meio de locomoção em Brasília (CHICONI, 2015). Outro problema bastante evidente da capital do Brasil é a segregação socioespacial, massifi cada após o surgimento das cidades-satélite. Já no Plano Piloto desenvolvido por Lúcio Costa havia previsão de que essas novas regiões existiriam. No entanto, "As cidades-satélites não deveriam ter surgido como uma periferia da cidade", ressalta o arquiteto e urbanista Henrique de Carvalho, pesquisador na USP (VEIGA, 2020, s.p.). Cidade-satélite é o nome que se dá a centros urbanos formados a partir de um ponto urbano central. No caso de Brasília/DF, existem 15 cidades-satélite que circundam o Plano Piloto. Vê-se, portanto, que apesar de parecer uma cidade “perfeita” e totalmente planejada com a distribuição das funções urbanas de maneira metódica, os problemas urbanos foram sendo evidenciados muito fortemente ao longo dos anos. Havia a previsão de que a cidade teria cerca de 500 mil habitantes 40 anos depois, em 2000. O problema é que, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografi a e Estatística (IBGE), a população tinha quatro vezes mais que o planejado: cerca de 2 milhões de habitantes (NÓBILE, 2010). A estimativa para o censo do IBGE para 2020 é de uma população de 3 milhões de habitantes. A qualidade de vida urbana desvanece diante das grandes distâncias a serem percorridas diariamente, do transporte de massa inefi ciente, que consome energia e tempo, e da demanda por novas infraestruturas, que acrescenta problemáticas 119 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 ambientais, entre tantas outras. [...] A única certeza reside na necessidade de uma mudança de paradigma, que pense a cidade para os seus cidadãos (DIAS; JÚNIOR, 2017, s. p.). Ao contrário de Brasília/DF, em que a locomoção individual é imprescindível devido às grandes distâncias, temos a cidade-Estado de Singapura, no continente Asiático, que viu a sua população crescer quase o dobro nos últimos 30 anos (G1, 2018). Tal crescimento populacional se dá em grande parte pela busca por melhores condições econômicas e de acesso a serviços de qualidade como a saúde e a educação. E foi baseado na preocupação com as pessoas que Singapura desenvolveu diretrizes para o planejamento urbano. 01 Planejamento para Crescimento a Longo-Prazo e Renovação • Metas de longo a médio prazo; • Controle de desenvolvimento de modo responsável; • Decisões inteligentes de planejamento prematuro em prol de uma "cidade habitável". QUADRO 10 – 10 PRINCÍPIOS PARA SE VIVER EM CIDADES DE ALTA DENSIDADE DESENVOLVIDOS PARA SINGAPURA 120 Planejamento Urbano 02 Abrace a Diversidade, Adote a Inclusão • Projetando para uso misto e fl exibilidade no uso de terra garante que as co- munidades não dependam só de uma indústria para sua economia. 03 Traga a Natureza Para Perto das Pessoas • As cidades precisam estar dotadas de espaços com massas verdes, parques, corpos de água, locais de recreação. Essas inserções naturais no meio urbano auxiliam no controle da qualidade do ar e das temperaturas, a fi m de reduzir o valor provocado pelo aquecimento de coberturas imper- meáveis no solo. 121 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 04 Desenvolvimento Acessível, Bairro de Uso Misto • Projeção de bairros compactos e autossufi cientes visando fortalecer os laços comunitários e diminuir a agitação dos grandes centros. 05 Faça os Espaços Públicos Funcionarem • Reativar espaços inutilizados a fi m de gerar oportunidades de desenvolvi- mento e gerar vitalidade à cidade. 122 Planejamento Urbano 06 Priorize o Transporte Verde e Opções de Construção • Incentivo ao transporte verde a fi m de reduzir o consumo; • Gestão consciente de recursos; • Ampliação da rede de transporte público; • Percursos de pedestresseguros e acessíveis. 07 Alivie a Densidade com Variedade e Cordões Verdes • Zoneamento estratégico de uso misto (edifícios altos e baixos em uma mes- ma região). 08 Ative Espaços para Maior Segurança • A aplicação do princípio “os olhos da vizinhança na rua” tende a gerar uma maior sensação de segurança de quem reside e transita na região, gerando um sistema de inclusão natural baseado na confi ança entre vizinhos e comu- nidades. 123 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 09 Promover Inovação e Soluções Não Convencionais • Busca por novas soluções e inovações aos problemas urbanos no que diz respeito à administração de recursos e o uso da terra. 124 Planejamento Urbano 10 Faça "Parcerias (Pessoas Público Privado) 3Ps" • A colaboração é fundamental para interligar as mais diferentes necessi- dades e preocupações. FONTE: Adaptado de Vinnitskaya (2013) e Centre of Liveable Cities Singapore (2021) A íntegra do documento original dos “10 princípios para se viver em cidades de alta densidade” pode ser verifi cado no link: https://www.clc.gov.sg/docs/default-source/ books/10principlesforliveablehighdensitycitieslessonsfromsingapore. pdf. “Transporte Verde” é designado a meios de locomoção que possuem baixa ou nenhuma emissão de poluentes na atmosfera, como bicicletas, carros elétricos etc. 125 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 FONTE: Adaptada de Bloomberg (2013) FIGURA 11 – FATORES QUE CONTRIBUEM PARA UMA EXPERIÊNCIA ATIVA DE PASSEIO A expressão “os olhos da vizinhança na rua” foi criada pela ativista Jane Jacobs no livro “Morte e Vida das Grandes Cidades”, de 1961. Trata-se da importância de se dar vida às cidades a fi m de gerar áreas urbanas mais igualitárias e seguras. Quanto mais ativa a cidade for, mais segura ela fi ca. E é nesse momento de planejamento que devem surgir as mais diferentes estratégias que visem aproximar os indivíduos da função da cidade. A fi gura a seguir apresenta um esquema que exibe uma situação bastante interessante de como o espaço público pode se portar. 126 Planejamento Urbano Vimos exemplos de cidades sob o aspecto de várias realidades: Copenhagen, que investiu na mobilidade urbana fortalecida pelas suas condições culturais; Curitiba, que promoveu um reordenamento da cidade a partir da implantação de um Sistema Trinário integrado à projeção de diretrizes para o uso e apropriação do solo; Brasília, que foi uma cidade projetada do “zero” e que causou e ainda causa problemas urbanos dos mais variados tipos; já Singapura promoveu princípios/ diretrizes de reestruturação da cidade frente à expansão da urbanização. Ao relacionar esses quatro exemplos, o que você vê em comum? As duas primeiras cidades já existiam e foram reordenadas conforme as necessidades locais. A terceira foi 100% planejada. Já a quarta, também promoveu uma readequação nas mais diferentes frentes. E a pergunta que deixamos para você refl etir é a seguinte: Qual dessas alternativas é mais viável do ponto de vista social, ambiental, econômico e cultural: cidades novas com traçados e infraestruturas novas (modelo utópico de cidade; cidades ideais) ou a averiguação dos problemas urbanos contemporâneos visando resolvê-los de maneira pontual, a fi m de analisar todas as variáveis possíveis (gestão integrada do território)? Bem, esperamos que você tenha compreendido até aqui que o planejamento urbano se faz a partir de visões múltiplas da realidade local. E devido à celeridade com que as coisas vêm acontecendo, precisamos estar cada vez mais preparados para enfrentar os problemas e promover as soluções oportunas. Atualmente, tudo isso que discutimos neste livro sobre o planejamento das cidades já é evidenciado na Nova Agenda Urbana. Este documento foi adotado na Conferência das Nações Unidas sobre Habitação e Desenvolvimento Urbano Sustentável (Habitat III), realizado na cidade do Quito, capital do Equador. Trata- se de uma visão compartilhada em prol de um futuro melhor e mais sustentável em defesa dos direitos e da igualdade aos benefícios e oportunidades nos sistemas urbanos (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2019). A implementação da Nova Agenda Urbana contribui para a implementação e a localização da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável de maneira integrada e para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e de suas metas, inclusive o ODS 11 de tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2019, p. 4). 127 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 Um dos objetivos que nós mais devemos fi car de olho e fomentar é o 11 – Cidades e Comunidades Sustentáveis que tem como objetivo: “Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis” (AGENDA 2030, 2015, s.p.). Mas como fazer isso? Parece muito amplo... É para isso que existem as metas, que servem para dar direção às ações que, ao fi nal, alcançarão o objetivo 11 das ODS! Vamos conferir cada uma delas no Quadro 11? 11.c Apoiar os países menos desenvolvidos, inclusive por meio de as- sistência técnica e fi nanceira, para construções sustentáveis e robus- tas, utilizando materiais locais. 11.b Até 2020, aumentar substancialmente o número de cidades e assenta- mentos humanos adotando e implementando políticas e planos in- tegrados para a inclusão, a efi ciência dos recursos, mitigação e adap- tação à mudança do clima, a resiliência a desastres; e desenvolver e implementar, de acordo com o Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres 2015-2030, o gerenciamento holístico do risco de desastres em todos os níveis. 11.a Apoiar relações econômicas, sociais e ambientais positivas entre áreas urbanas, periurbanas e rurais, reforçando o planejamento nacion- al e regional de desenvolvimento. 11.7 Até 2030, proporcionar o acesso universal a espaços públicos se- guros, inclusivos, acessíveis e verdes, em particular para as mul- heres e crianças, pessoas idosas e pessoas com defi ciência. 11.6 Até 2030, reduzir o impacto ambiental negativo per capita das ci- dades, inclusive prestando especial atenção à qualidade do ar, gestão de resíduos municipais e outros. 11.5 Até 2030, reduzir signifi cativamente o número de mortes e o número de pessoas afetadas por catástrofes e diminuir substancialmente as per- das econômicas diretas causadas por elas em relação ao produto inter- no bruto global, incluindo os desastres relacionados à água, com o foco em proteger os pobres e as pessoas em situação de vulnerabilidade. 11.4 Fortalecer esforços para proteger e salvaguardar o patrimônio cul- tural e natural do mundo. 11.3 Até 2030, aumentar a urbanização inclusiva e sustentável, e a ca- pacidade para o planejamento e a gestão participativa, integrada e sustentável dos assentamentos humanos, em todos os países. QUADRO 11 – METAS DO OBJETIVO 11 - CIDADES E COMUNIDADES SUSTENTÁVEIS 128 Planejamento Urbano 11.2 Até 2030, proporcionar o acesso a sistemas de transporte seguros, acessíveis, sustentáveis e a preço acessível para todos, melhorando a segurança rodoviária por meio da expansão dos transportes públicos, com especial atenção para as necessidades das pessoas em situação de vulnerabilidade, mulheres, crianças, pessoas com defi ciência e ido- sos. 11.1 Até 2030, garantir o acesso de todos a habitação segura, adequada e a preço acessível, e aos serviços básicos e urbanizar as favelas. FONTE: Agenda 2030 (2015) FONTE: Agenda 2030 (2015) FIGURA 12 – OS 17 OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (ODS) 1) Relacione as colunas: 1- Copenhagen 2- Curitiba/PR 3- Brasília/DF 4- Singapura ( ) Cidade planejada que não preveu seu crescimento, gerando problemas de mobilidade e segregação socioespacial. ( ) Cidade dotada de semáforos sincronizados com o trânsito de bicicletas. ( ) Cidadeque traçou princípios de desenvolvimento próprios em prol da qualidade de vida da população local. ( ) Cidade que baseou o deu desenvolvimento urbano em três funções básicas: Uso do Solo, Transporte Coletivo e Sistema Viário. 129 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 2) Visualize as afi rmações a seguir e marque V (para verdadeiro) e F (para falso): a) ( ) A aplicação do princípio “os olhos da vizinhança na rua” tende a gerar uma maior sensação de segurança de quem reside e transita na região, gerando um sistema de inclusão natural baseado na confi ança entre vizinhos e comunidades. b) ( ) O Sistema Trinário resume-se em vias destinadas aos ciclistas, vias para o tráfego lento e vias de tráfego rápido. c) ( ) Uma das formas de melhorar o acesso à moradia no Brasil é reduzir o custo de acesso à terra e o custo de habitações, condicionado à garantia da qualidade dos serviços. d) ( ) A expressão “mobilidade urbana sustentável” remete à integração da proteção ambiental, a sustentabilidade econômica e a justiça social, importantes condicionantes no processo de planejamento. e) ( ) As inserções naturais no meio urbano para a estruturação de espaços de áreas verdes como parques, locais de recreação etc. devem ser opcionais, pois auxiliam no controle da qualidade do ar e das temperaturas, a fi m de reduzir o valor provocado pelo aquecimento de coberturas impermeáveis no solo. 3) Dentre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), temos o objetivo 11 que trata das “Cidades e Comunidades Sustentáveis”, visando tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. Nesse contexto, aponte três metas que você, enquanto planejador urbano, poderia se engajar. 3 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Pudemos verifi car neste capítulo que os desafi os urbanos da sociedade estão diretamente ligados às relações entre as legislações, seus instrumentos e a participação de um corpo técnico-administrativo em conjunto com a sociedade. Mas para que isso ocorra de fato é necessário realizar diagnósticos das mais diferentes situações urbanas que existem na cidade para que as melhores soluções sejam tomadas. 130 Planejamento Urbano Vimos que uma das formas de realizar o levantamento dessas informações é a partir da cartografi a urbana, ferramenta que capta os aspectos da cidade e que auxiliam no processo de resolução dos problemas. Tal ferramenta auxilia na tomada de decisões, contribui para a geração de análises e orienta a política de desenvolvimento e ordenamento do município. Mas para que tudo isso corra, é preciso que os gestores municipais saibam a importância do planejamento e consigam construir soluções de forma conjunta com a sociedade. Desse modo, fi ca mais fácil aplicar legislações que, muitas vezes, se limitam ao que está escrito no “papel” e não se pratica. Um dos exemplos que trouxemos foi a relação de alguns itens do Estatuto da Cidade. Se bem elaborado, é possível sim colocar em prática ações de proteção e preservação do meio ambiente, o estudo prévio de empreendimentos que poderão causar impactos negativos à população, a urbanização de áreas ocupadas pela população de baixa renda, a simplifi cação da legislação de parcelamento e a integração efetiva da população nos processos decisórios. É necessário incorporar todas essas questões às reais necessidades urbanas a partir das visões de todos os envolvidos. Também pudemos verifi car alguns exemplos de cidades sob o aspecto de várias realidades. Inclusive, fi zemos uma provocação a você, lhe questionando qual(is) daquela(s) alternativa(s) era a(s) mais viável(is) do ponto de vista social, ambiental, econômico e cultural: cidades novas com traçados e infraestruturas novas (modelo utópico de cidade; cidades ideais) ou a averiguação dos problemas urbanos contemporâneos visando resolvê-los de maneira pontual, a fi m de analisar todas as variáveis possíveis (gestão integrada do território)? Esse questionamento visou focar a análise daquela cidade em específi co, e não se deve entender essas boas práticas como modelos a serem seguidos. Podemos nos inspirar, mas as soluções precisam ser moldadas no local, na origem do problema a partir de diagnósticos, discussões e análises muito específi cas. Dentre as cidades apresentadas, tivemos dois exemplos internacionais (Copenhagen e Singapura) e um nacional (Curitiba) que nos apresentaram várias soluções que melhoraram o sistema viário, o uso e ocupação do solo e a preocupação com a qualidade de vida do cidadão. Já Brasília, concebida a partir de um projeto de “cidade ideal”, nos mostrou que não houve um pensamento urbano de forma integrada, mas sim unilateral pelos técnicos – até porque ainda não existiam moradores no local para opinarem sobre o projeto, resultando em problemas na mobilidade urbana, conforto térmico, dentre outros. 131 O PLANEJAMENTO E O URBANISMO CONTEMPORÂNEO Capítulo 3 Assim, pudemos observar que as cidades precisam ser repensadas sob vários aspectos, integrando profi ssionais e a sociedade. A cidade é um quebra- cabeça “pré-montado”, e cabe aos planejadores urbanos reorganizar as peças a fi m de estabelecer uma harmonia. Voltamos a frisar: não existe uma solução única para tudo, mas “várias soluções” para realidades diferentes, localidades distintas. Devemos ter a legislação como base para nortear decisões, mas cada localidade deve ter, em sua essência, a solução ideal para aqueles que ali residem. REFERÊNCIAS AGÊNCIA BRASÍLIA. ‘Nosso governo já legalizou lotes para 225 mil famílias em todo o DF’. 2021. Disponível em: https://www. agenciabrasilia.df.gov.br/2021/05/07/nosso-governo-ja-legalizou-lotes- para-225-mil-familias-em-todo-o-df/. Acesso em: 28 maio 2021. AGENDA 2030. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. 2015. Disponível em: http://www.agenda2030.com.br/os_ods/. Acesso em: 2 jun. 2021. BLOOMBERG, M. R. Active design shaping the sidewalk experience. 2013. Disponível em: https://nacto.org/docs/usdg/active_design_shaping_ the_sidewalk_experience_nycdot.pdf. Acesso em: 2 jun. 2021. BRASIL. Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001. Institui o Estatuto da Cidade. Brasília: DOU de 11/7/2001. 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