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APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA Implicações Clínicas: O formato curvado e a estrutura lipídica dificultam tanto a ação de muitos antibióticos quanto a destruição do bacilo pelos mecanismos de defesa do organismo. 2. Epidemiologia: A tuberculose (TB) continua sendo um grande desafio global. De acordo com o Relatório Global da Tuberculose 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS): Em 2019, cerca de 10 milhões de pessoas desenvolveram TB, resultando em 1,4 milhão de mortes. Aproximadamente 465 mil casos apresentaram resistência a medicamentos, mas menos de 40% foram adequadamente tratados. Entre 2018 e 2019, 14 milhões de pessoas receberam tratamento, representando mais de um terço da meta de 40 milhões estabelecida para o período de 2018-2022. A pandemia de COVID-19 impactou negativamente os serviços de TB, com redução de notificações e aumento do risco de óbitos. 3. Fatores de Risco Estado Imunológico Comprometido: Pessoas com sistemas imunológicos debilitados são mais suscetíveis. Isso inclui: Pacientes com HIV/AIDS: A coinfecção TB-HIV é especialmente preocupante, pois o HIV reduz a imunidade celular, fundamental para controlar a infecção pelo Mycobacterium tuberculosis. Pacientes em tratamento imunossupressor: Por exemplo, aqueles em uso de corticosteroides prolongados, terapia biológica (como inibidores de TNF-alfa) ou após transplantes de órgãos. Idade avançada: O sistema imunológico enfraquece com a idade, tornando os idosos mais vulneráveis à infecção. Desnutrição: A deficiência nutricional prejudica a resposta imunológica inata e adaptativa, aumentando o risco de infecção ativa. Sociais e Ambientais: Condições de vida precárias: Domicílios com pouca ventilação e alta densidade populacional. Baixa condição socioeconômica: Favorece a transmissão devido à aglomeração. Habitação em regiões endêmicas: Áreas com alta prevalência da doença. 1. Microbiologia do agente etiológico da tuberculose (Mycobacterium tuberculosis) O Mycobacterium tuberculosis é uma bactéria com características específicas que a tornam única e distinta de outros patógenos. Aqui estão as características mais importantes: Formato e Tamanho: Bacilo fino, ligeiramente curvo, com diâmetro de 0,5 a 3 µm. Estrutura da célula bacteriana: A célula de M. tuberculosis é formada por uma parede celular rica em Lipídios e resistente, composta por ácidos micólicos (longas cadeias de ácidos graxos) e arabinogalactano, conferindo alta impermeabilidade, como a resistência a desidratação, ambientes ácidos e desinfetantes comuns. A presença desses lipídios na parede celular também dificulta a penetração de antibióticos convencionais. Isso facilita sua sobrevivência dentro dos macrófagos e contribui para sua persistência no organismo. Álcool-ácido resistência (BAAR): O bacilo é altamente resistente a desinfetantes como ácidos e álcoois, o que dificulta a eliminação em ambientes contaminados e a erradicação do organismo do paciente. Esse bacilo é denominado bacilo de Koch (BK) e é identificado pela sua coloração vermelha intensa. Aeróbio Oblíquo: Exige oxigênio para seu crescimento e multiplicação. Sensibilidade à Luz Solar: O bacilo é sensível à radiação ultravioleta da luz solar, que pode inativá- lo em ambientes externos, razão pela qual a ventilação e a luz natural ajudam a reduzir a transmissão. S9P1: Tuberculose Objetivos: Elucidar a microbiologia do agente etiológico (mycobacteruim tuberculosis); Compreender a epidemiologia, etiologia, fatores de risco, fisiopatologia da Tuberculose. Elucidar as manifestações clínicas, classificação diagnóstico, complicações, tratamento APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 3. Resposta Imunológica Inicial Imunidade Inata: A infecção inicial geralmente passa despercebida pelo sistema imune, já que o bacilo evita o reconhecimento precoce. Entretanto, conforme os macrófagos morrem e liberam bacilos e componentes celulares, ocorre o recrutamento de novas células imunes. Produção de Citocinas: Após cerca de 3 semanas, as células apresentadoras de antígenos (CAA) liberam IL-12, estimulando linfócitos Th1, que: 1. Provocam hipersensibilidade cutânea (reação tuberculínica). 2. Produzem IFN-γ, ativando macrófagos que liberam óxido nítrico, TNF, IFN-γ e quimiocinas, potencializa a produção de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio, mas nem sempre é eficaz contra o bacilo 3. Resulta na formação de granulomas e necrose caseosa, além da destruição de bacilos 4. Formação dos Granulomas (Tubérculos) Se a infecção não for controlada rapidamente, os bacilos continuam se multiplicando nos macrófagos. Para conter a disseminação, o sistema imune forma um granuloma tuberculoso, também chamado de tubérculo, que é uma estrutura composta por: Macrófagos ativados (células epitelioides): células grandes com núcleo alongado. Células gigantes de Langhans (macrófagos multinucleados): formadas pela fusão de macrófagos. Linfócitos T e B: ao redor formam uma cápsula protetora. O centro do granuloma pode sofrer necrose caseosa, caracterizada por um material pastoso (massa amorfa e esbranquiçada), formada por macrófagos mortos, restos celulares e bacilos. A necrose caseosa é típica da tuberculose pulmonar e se forma devido à resposta imune intensa e destruição tecidual. Função do Granuloma: Limitar a disseminação do bacilo. No entanto, se a imunidade do hospedeiro cair, os bacilos podem se reativar e escapar, levando à TB ativa. O granuloma serve para conter a infecção, mas também permite que os bacilos permaneçam latentes no interior das células infectadas. Doenças crônicas: Diabetes mellitus, insuficiência renal crônica e doenças pulmonares crônicas. Comportamentais: Alcoolismo: O álcool compromete a função imunológica e é um fator independente para o desenvolvimento da TB ativa. Tabagismo: O cigarro lesa o epitélio respiratório, facilitando a penetração e proliferação do bacilo. Uso de drogas ilícitas: A situação social e a exposição em ambientes insalubres agravam o risco. 4. Fisiopatologia da Tuberculose A fisiopatologia da tuberculose envolve uma complexa interação entre o agente etiológico (Mycobacterium tuberculosis) e o sistema imunológico do hospedeiro. 1. Transmissão e Entrada no Organismo O M. tuberculosis é transmitido principalmente por via aérea, através de gotículas aerossolizadas que contêm o bacilo, expelidos por indivíduos com tuberculose pulmonar ativa ao tossir, espirrar, falar ou cantar. As partículas contendo os bacilos são muito pequenas (1 a 5 µm) e podem permanecer suspensas no ar por longos períodos. Após a inalação, as partículas chegam aos alvéolos pulmonares, especialmente nos lóbulos superiores e segmentos posteriores dos lobos superiores, locais ricos em oxigênio. 2. Fagocitose e Inibição da Destruição Intracelular Nos alvéolos, os bacilos são fagocitados por macrófagos alveolares por meio de receptores específicos (como os receptores de manose e complemento). Entretanto, o M. tuberculosis não é destruído dentro dos macrófagos, pois ele desenvolve um mecanismos para inibir a fusão do fagossomo com o lisossomo, evitando sua destruição. Fator cordão: Um glicolipídeo presente na parede celular que interfere na fusão fagolisossomal. Proteína de choque térmico 65 (Hsp65): Auxilia na sobrevivência intracelular do bacilo. Assim, o bacilo pode se replicar livremente dentro dos macrófagos, causando sua morte e liberando novos bacilos para infectar outros macrófagos. APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA5. Tipos Clínicos de Tuberculose 1. Tuberculose Primária: A TB primária ocorre quando uma pessoa é exposta ao bacilo pela primeira vez. É mais comum em crianças e em pessoas com sistema imunológico comprometido. Após a inalação dos bacilos, estes se depositam nos alvéolos pulmonares, principalmente nos lobos médios e inferiores, onde iniciam a infecção. Formas Clínicas da Tuberculose Primária: a) Forma Insidiosa (Mais Comum): É a forma mais frequente da TB primária e geralmente apresenta um quadro paucissintomático e inespecífico. Manifestações Clínicas: Febre baixa e prolongada (geralmente vespertina). Sudorese noturna e perda de peso discreta. Mal-estar geral e cansaço. Tosse seca ou produtiva, porém leve. O exame físico, na maioria dos casos, não apresenta achados significativos. Radiografia de Tórax: Pode mostrar o complexo de Ghon (lesão pulmonar primária acompanhada de linfonodomegalia hilar). Em alguns casos, podem aparecer calcificações pulmonares ou linfáticas conhecidas como complexo de Ranke (evidência de cicatrização). Evolução: Em alguns pacientes, especialmente imunocomprometidos, a TB primária pode evoluir para formas graves ou disseminadas. No entanto, na maioria dos casos, há cura espontânea com formação de cicatrizes e calcificações. b) Forma Aguda (Menos Comum): A forma aguda da TB primária é rara e ocorre quando há uma resposta inflamatória exuberante, levando a um quadro de pneumonia tuberculosa. Manifestações Clínicas: Febre alta e persistente. Tosse produtiva com ou sem hemoptise. Dispneia e, em alguns casos, sinais de insuficiência respiratória aguda. Radiografia de tórax: Pode mostrar uma consolidação extensa e linfonodomegalias hilárias. 5. Evolução da Infecção: Tuberculose Latente (infecção): Nesta fase, os bacilos estão presentes no organismo, mas em estado de dormência, encapsulados nos granulomas por meses ou anos. O sistema imunológico mantém a infecção sob controle, a pessoa é assintomática e não transmite a doença. Pode reativar em casos de imunossupressão. Reativação (doença ativa): Ocorre quando o sistema imunológico é comprometido (por exemplo, em casos de HIV, desnutrição ou uso de imunossupressores). O granuloma se rompe, liberando bacilos viáveis. Ocorre disseminação dentro do pulmão ou para outros órgãos, como: Tuberculose miliar: Disseminação hematogênica (sangue) para vários órgãos. Tuberculose extrapulmonar: Acometimento de linfonodos, meninges, ossos, rins, etc. 6. Progressão para Tuberculose Ativa A reativação ou infecção primária não contida resulta na destruição do tecido pulmonar. A necrose caseosa se liquefaz, formando cavidades pulmonares que são ricas em bacilos e facilmente detectáveis na baciloscopia. Disseminação Hematogênica: Os bacilos podem alcançar a corrente sanguínea e se espalhar para outros órgãos (TB miliar). Destruição Pulmonar: As cavidades formadas causam a destruição dos alvéolos e bronquíolos, resultando em hemoptise (tosse com sangue). Resposta Inflamatória Intensa: A liberação de mediadores inflamatórios causa sintomas sistêmicos como febre, sudorese noturna e perda de peso. APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 6. Manifestações Clínicas da Tuberculose As manifestações clínicas da TB variam de acordo com o órgão afetado e se a infecção é primária, latente ou ativa. A) Tuberculose Pulmonar (forma mais comum) Sintomas Respiratórios: Tosse persistente por mais de três semanas (seca ou produtiva) Produção de escarro, que pode ser hemoptoico (com sangue) Dor torácica pleurítica (indicando comprometimento pleural) Dispneia (em casos avançados) Sintomas Sistêmicos: Febre vespertina (pico febril no fim da tarde) Sudorese noturna Perda ponderal (perda de peso significativa) Astenia (fraqueza) Anorexia (perda de apetite) Mal-estar geral B) Tuberculose Extrapulmonar Acontece em cerca de 15-20% dos casos, principalmente em imunossuprimidos (HIV). Formas mais comuns: Ganglionar: Linfadenomegalia indolor (principalmente em cadeias cervicais) Pleural: Derrame pleural, dor pleurítica Geniturinária: Disúria, hematúria, dor lombar Óssea (Mal de Pott): Dor nas costas, deformidade vertebral Meningoencefálica: Cefaleia, confusão mental, sinais de hipertensão intracraniana Miliar: Sintomas inespecíficos e envolvimento disseminado (febre alta, hepatoesplenomegalia) 7. Classificação da Tuberculose A classificação da TB pode ser feita com base na localização, estado clínico e contexto epidemiológico: A) QUANTO À FORMA CLÍNICA: Pulmonar: Acomete os pulmões, forma mais comum e transmissível. Extrapulmonar: Acomete órgãos fora do sistema respiratório (ossos, rins, meninge). Mista: Comprometimento pulmonar e extrapulmonar simultaneamente. A forma aguda pode evoluir rapidamente para complicações graves, como disseminação hematogênica, levando à tuberculose miliar (disseminação para múltiplos órgãos) ou à meningite tuberculosa. 2. Tuberculose Pós-Primária: A TB pós-primária, também conhecida como TB secundária, ocorre após a reativação endógena de focos latentes ou pela reinfecção exógena em indivíduos previamente sensibilizados. Geralmente ocorre anos após a infecção inicial e é mais comum em adultos, especialmente em indivíduos imunocomprometidos ou desnutridos. A reativação ocorre quando o sistema imunológico não consegue manter os bacilos latentes sob controle. Manifestações Clínicas: Os sintomas costumam ser mais pronunciados do que na TB primária: Tosse persistente, inicialmente seca e depois produtiva (com expectoração mucopurulenta). Hemoptise (presente em casos com cavitação). Febre vespertina, sudorese noturna e perda ponderal significativa. Dor torácica pode estar presente em casos com envolvimento pleural. Radiografia de Tórax: Lesões preferencialmente nos ápices pulmonares, devido ao maior teor de oxigênio, que favorece o crescimento do bacilo. Cavitações, infiltrados e consolidações apicais. Presença de nódulos e cicatrizes fibróticas. Diagnóstico: Baciloscopia do escarro positiva, especialmente nas formas cavitárias. Teste Rápido Molecular para Tuberculose (TRM-TB) e cultura são fundamentais. Evolução: A TB pós-primária pode ser pulmonar (mais comum) ou extrapulmonar (afetando ossos, rins, sistema nervoso central, entre outros). A forma pulmonar apresenta maior risco de transmissão devido à presença de bacilos no escarro. APG 3º PERÍODO ACADÊMICA: AMANDA MARTINS COSTA 9. Complicações da Tuberculose A) PULMONARES: Hemoptise maciça: Rompimento de vasos em cavidades Pneumotórax: Ruptura de cavidades para o espaço pleural Bronquiectasias: Dilatações irreversíveis dos brônquios Fibrose pulmonar: Sequelas cicatriciais B) EXTRAPULMONARES: Meningite Tuberculosa: Cefaleia intensa, alterações neurológicas Osteomielite Tuberculosa: Deformidade e dor óssea crônica Amiloidose secundária: Deposição de proteínas nos tecidos Síndrome da Reconstituição Imune (HIV): Aumento da inflamação ao iniciar tratamento antirretroviral 10. Tratamento da Tuberculose A) Esquema Terapêutico Padrão (RIPE): Fase Intensiva (2 meses): Rifampicina (R) Isoniazida (H) Pirazinamida (Z) Etambutol (E) Fase de Manutenção (4 meses): Rifampicina (R) + Isoniazida (H) O tratamento é geralmente de 6 meses, sendo 2 meses na fase intensiva e 4 meses na fase de manutenção. B) TB Multirresistente (TB-MDR): Uso de medicamentos de segunda linha (Levofloxacina, Amicacina, Linezolida) Tratamentoprolongado (18-24 meses) C) MONITORAMENTO E ADESÃO: Acompanhamento mensal com exames clínicos e baciloscopia Monitoramento de efeitos adversos (hepatotoxicidade, neuropatia periférica) Educação sobre adesão ao tratamento para evitar resistência B) QUANTO AO ESTADO DA DOENÇA: Infecção Latente: O bacilo está presente no organismo, mas não há sintomas nem transmissão. Tuberculose Ativa: Doença sintomática e transmissível. C) QUANTO AO CONTEXTO EPIDEMIOLÓGICO: Primária: Infecção recente, geralmente assintomática ou com quadro gripal leve. Secundária (ou Pós-Primária): Reativação de foco latente, geralmente em adultos. Multirresistente (TB-MDR): Resistente a isoniazida e rifampicina. Extensivamente resistente (TB-XDR): Resistente a isoniazida, rifampicina, fluoroquinolonas e injetáveis de segunda linha. 8. Diagnóstico da Tuberculose A) ANAMNESE E EXAME FÍSICO: Identificação de sintomas típicos (tosse crônica, febre, perda de peso) Investigação de fatores de risco (contato com pacientes com TB, HIV positivo) Exame físico: estertores, roncos, adenomegalia (TB ganglionar), sinais de derrame pleural B) TESTES LABORATORIAIS E IMAGEM: Baciloscopia do Escarro: Pesquisa de BAAR (Bacilo Álcool-Ácido Resistente) Cultura (meio de Lowenstein-Jensen): Identificação do bacilo Teste Rápido Molecular (TRM-TB): Detecta M. tuberculosis e resistência à rifampicina Teste Tuberculínico (PPD): Avalia resposta imune ao bacilo (positivo em latência) IGRA (Interferon Gamma Release Assay): Detecta infecção latente Radiografia de Tórax: Infiltrado pulmonar, cavitações, adenopatias hilar e paratraqueal Tomografia Computadorizada: Melhora a definição das lesões pulmonares e cavitárias