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Virginia_M._Axline___Dibs___Em_Busca_de_Si_Mesmo

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em um nível que 
superasse qualquer criança de sua idade? Qual a vantagem em 
apresentar uma alta capacidade intelectual, se isso não proporcionava, 
(Pag. 154 155) em determinadas circunstâncias, o correspondente em 
bem-estar e harmonia para o indivíduo e para os outros? 
- Então vocês acham que Dibs está progredindo em seu grupo? - 
indaguei. No entanto, minha observação me pareceu fraca e 
inadequada. 
- Ele adora música - Miss Jane acrescentou. - É sempre o 
primeiro a apresentar-se. Sabe todas as canções. Participa da banda 
rítmica. 
- Você pode vê-lo dançar - disse Hedda. - Oferece-se para ser um 
elefante, um macaco ou o vento. E o faz espontaneamente. Quando 
começa, é um tanto desajeitado, mas à medida que se deixa envolver 
movimenta-se com graça e ritmo. Não o forçamos a nada. Ficamos 
contentes com cada avanço seu, ainda que modesto, e sentimos que ele 
desfruta a oportunidade de pertencer ao grupo. E creio que o 
comportamento da mãe em relação a Dibs mudou completamente. 
Quando o traz ou vem buscá-lo, parece-nos mais receptiva e feliz com 
Dibs. Quando saem, ele segura bem sua mão e seguem juntos 
naturalmente. É uma criança muito interessante! 
- Sim. Na verdade, Dibs é uma criança muito interessante - 
reafirmei. - Parece estar tentando com todas as suas forças realizar-se 
como pessoa e como membro de seu grupo. 
- A mais notável mudança ocorreu por ocasião de seu aniversário. 
Sempre comemoramos o aniversário de cada criança com um bolo 
de aniversário. Começamos sempre formando um círculo, contamos 
uma história e, em seguida, vem o bolo com as velas acesas. Todos 
cantam Parabéns a você e o aniversariante, que permanece ao meu 
lado, apaga as velinhas. O bolo é cortado e distribuído a todas as 
crianças. 
"Pois bem, no dia em que anunciamos o aniversário de Dibs, não 
imaginávamos qual seria sua reação. Anteriormente ele não participava, 
embora festejássemos seu aniversário da mesma forma como o fazíamos 
com as outras crianças. Este ano, logo que chegou a hora de formarmos 
o círculo, Dibs estava ali, a meu lado. Quando cantamos Parabéns a 
você, sua voz soava mais alto do que a dos companheiros. Cantava: 
"Parabéns, querido Dibs, parabéns para mim!" Depois de cortado o bolo, 
ele distribuiu cada pedaço com um grande sorriso no rosto. Continuava 
cantando: "Hoje é o meu aniversário. Meu aniversário. Estou 
completando seis anos." 
As professoras estavam satisfeitas com Dibs. E eu também. Mas 
ainda tínhamos um longo caminho a percorrer. Dibs tinha de aprender 
a aceitar-se e utilizar seu rico potencial, e não desprezá-lo. Ele estava 
atingindo novos horizontes por si mesmo, fundamentais a seu pleno 
desenvolvimento. Eu confiava em que a capacidade por ele desenvolvida 
na sala de ludoterapia e em sua própria casa transbordassem para suas 
outras experiências. Suas habilidades intelectuais haviam sido 
exploradas para testá-lo e, assim, tornaram-se uma barreira e um 
refúgio em relação ao mundo que Dibs tanto temia. Ele acostumou-se a 
usá-las como um mecanismo de defesa e autoproteção. E nelas 
começou a insular-se. Se começasse conversar, ler, escrever, desenhar, 
bem além do nível de seus colegas, correria o risco de ser por eles 
rejeitado e isolado por suas diferenças. 
Quantas crianças superdotadas desenvolveram-se de uma 
maneira desequilibrada e ficaram aprisionadas em seu mundo solitário! 
Tal inteligência superior cria sérios problemas de ajustamento pessoal e 
social. É necessário detectar todas as necessidades básicas da criança e 
promover os estímulos adequados ao desenvolvimento de sua 
inteligência superior. Há aulas para crianças bem dotadas, mas Dibs 
não estava suficientemente amadurecido para ser uma delas, ou, ainda, 
para que tal experiência lhe fosse, de fato, proveitosa. 
Dibs estava profundamente envolvido na busca de si mesmo. Era 
imperativo saber esperar as vitórias - cada uma a seu tempo - e confiar 
na força interior dessa criança. A atmosfera à sua volta deveria ser 
tranqüila, otimista e perceptiva. 
- Programamos um pequeno encontro na escola, outro dia - disse 
Hedda com um sorriso. - Reunimo-nos no auditório dos alunos 
menores. Não estávamos certas se as condições de Dibs permitiriam 
sua participação em uma experiência de tal ordem. Deixamo-lo livre 
para formular sua decisão. Na verdade, essa foi nossa posição em 
relação a todos os nossos alunos. Respeitamos a deliberação de cada 
um. Resolvemos apresentar uma atividade já vivenciada em classe. 
Havíamos montado, certa vez, uma história em que o grupo 
representava, a partir de criação livre, desenvolvendo o texto e a música 
enquanto atuavam. E eram sempre diferentes. Cada dia planejávamos 
de uma forma. Quem queria ser a árvore? Quem queria ser o vento? E o 
sol? Você sabe como isso é feito. (Pag. 156 157) 
"Não sabíamos como Dibs encararia o assunto ou o que desejava 
fazer. Já havíamos realizado esse tipo de experiência antes e Dibs 
sempre nos ignorara. Mas um dia ele se juntou ao círculo e 
espontaneamente começou a dançar. E o fez muito bem e todos se 
divertiram. Ele quis ser o vento. Soprou e girou em volta das crianças, e 
elas decidiram que ele deveria então fazer o papel do vento na 
apresentação que estávamos preparando. Dibs concordou. Executou 
seu papel muito bem. De súbito, no meio da dança, decidiu cantar. 
Improvisou a letra da canção e a melodia. Foi algo assim: "Sou o vento. 
E sopro. Sopro. E subo. Subo nas colinas e movimento as nuvens. 
Dobro as árvores e balanço a grama. Ninguém pode parar o vento. Eu 
sou o vento, um vento amigo que você não pode ver. Mas eu sou o 
vento!" Parecia haver esquecido a platéia. Os alunos estavam surpresos 
e fascinados. Nem é preciso dizer que o mesmo ocorreu conosco. 
Pensamos, então, que Dibs havia, finalmente, se encontrado e se 
tornara agora um membro do grupo." 
Dibs, sem dúvida, estava fazendo progressos, mas ainda não 
podíamos afirmar que tinha se encontrado. Havia ainda um bom 
caminho a percorrer. E essa busca era uma experiência lenta e 
inquietante que o tornava mais consciente de seus sentimentos, 
atitudes e relacionamentos com aqueles que o cercavam. Não havia 
dúvida de que Dibs não conseguira desenterrar muitos sentimentos de 
seu passado e assim os usava nas brincadeiras para conhecê-los, 
compreendê-los e controlá-los melhor. 
Esperava que ele pudesse encontrar na sala de ludoterapia 
oportunidades que o auxiliassem a sentir e conhecer suas próprias 
emoções, de tal maneira que qualquer ódio e medo que ainda guardasse 
emergissem e fossem enfrentados e dominados. (Pag. 15) 
Capítulo XIX 
 
Quando Dibs apareceu para a sua entrevista semanal, perguntou-
me se podia ficar em meu escritório. 
- Notei que você tem um gravador - disse. - Posso usá-lo? 
- Claro. 
Encaminhamo-nos para lá. Liguei o gravador e ensinei-o a 
manejá-lo. Ao concluir, Dibs já tomara, ansiosamente, o microfone de 
minhas mãos. 
- Dibs falando - anunciou. - Ouça-me, gravador. Você vai ouvir 
minha voz e guardá-la. Sou Dibs e estou falando. Eu sou Dibs. Sou eu. 
- Desligou e voltou a fita. Apertou o botão para escutar a sua 
mensagem. - Esta é a minha voz - comentou com alegria. - Falei e 
gravei. Farei uma longa gravação para guardarmos por todo o sempre. E 
será apenas para nós. 
Recomeçou a manejar o gravador e voltou a falar ao microfone. 
Mencionou seu nome completo, seu endereço e telefone. Em 
seguida, apresentou o nome completo de cada membro de sua família, 
incluindo sua avó. 
- Sou Dibs e quero conversar - acrescentou. - Estou no escritório 
de Miss A. e aqui encontrei este gravador, no qual agora estou falando. 
Freqüento uma escola e vou dizer-lhe