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NEUROSES 
CAPÍTULO XXI 
 
Este material é parte integrante do Curso de Psicanálise, não podendo ser 
distribuído nem reproduzido sem a autorização dos autores e editores. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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APRESENTAÇÃO 
Caro Aluno(a), 
A proposta de nossa metodologia é entrelaçar o conteúdo prático com o 
conteúdo teórico de nosso Curso, tornando a aprendizagem mais eficiente 
e agradável. 
Buscamos desenvolver este material com uma linguagem clara, porém 
adequada a um ambiente acadêmico. 
Todo nosso material é fundamentado em conteúdo adquirido tanto no 
Brasil quanto em países de Primeiro Mundo, assim poderemos oferecer o 
máximo de consistência e fundamentação sólida, gerando segurança para 
o desenvolvimento de seu conhecimento. 
Jamais podemos deixar de lembrar que a educação e a saúde estão em 
constante desenvolvimento, por isso não nos privamos de alterar nosso 
material sempre que necessário, além de adicionar conteúdos práticos que 
foram colocados em laboratório por nossa equipe. 
Sendo assim, desejamos atingir suas expectativas, e alcançar o resultado 
que almejamos: plantarmos sementes capazes de modificar e salvar muitas 
vidas. 
Acreditamos em cada um de vocês, assim como vocês devem acreditar 
sempre no próximo, pois não há limites para quem acredita! 
 
Recebam um carinhoso abraço 
De toda equipe pedagógica INIEDS 
 
 
 
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INTRODUÇÃO 
 
Na história da Psicanálise, as neuroses, e em especial a histeria, 
tem um papel fundamental. 
Tallaferro (1989) inicia seu “Curso Básico em Psicanálise” com 
uma breve história da histeria, alegando “uma razão de ordem 
histórica e de respeito pela cronologia dos êxitos e fracassos da 
vida de Sigmund Freud enquanto pesquisador” para assim iniciar 
seu livro. Freud repetidamente salientou a importância do estudo 
da histeria para o desenvolvimento da Psicanálise, chegando até 
a creditar a Breuer, por seu trabalho com “Fraulein Anna O.”, o 
nascimento da Psicanálise (Freud, 1910). Os estudos sobre a 
histeria levaram Freud à maior parte das conclusões importantes 
que embasaram até hoje a teoria psicanalítica, e talvez seja nos 
pacientes histéricos que os resultados do tratamento psicanalítico 
sejam mais evidentemente positivos. 
 
Neste módulo, procuraremos fazer uma “ponte” entre a visão 
“clássica” das neuroses e as classificações atuais, tentando 
aprofundar os conhecimentos já adquiridos com uma descrição 
mais detalhada dos transtornos mais importantes, do ponto de 
vista clínico. 
 
 
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“A sobrevivência humana em face à ameaça de um 
Holocausto nuclear e da devastação de nosso ambiente 
Natural será possível apenas se formos capazes 
de mudar radicalmente os métodos e valores em que 
se baseiam nossa ciência e tecnologia. A mudança de 
paradigma que está agora está acontecendo terá que 
incluir uma mudança profunda de valores; na verdade, 
uma completa mudança de sentimentos – da intenção 
de dominar e controlar a natureza para uma 
atitude de cooperação e não-violência.” 
Fritjot Capra 
 
 
 
 
 
 
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O CONFLITO NEURÓTICO E A DEFESA 
 
Conflito Neurótico 
 
Freud define neurose como resultado de um conflito entre o Ego 
e o Id, entre um impulso (pulsão) e uma tendência a reprimir este 
mesmo impulso, ou em outras palavras, entre uma catexia e uma 
contracatexia. Por outro lado, não existe conflito possível entre 
dois impulsos (pulsões) contrários, mesmo admitindo-se que 
existam pulsões diametralmente opostas, as pulsões de “vida” e 
de “morte”. Isto porque o Id, como expõe Freud, é caótico e 
atemporal, não havendo conflito entre seus diversos conteúdos, 
seus diversos instintos. Vale a pena reproduzirmos a descrição 
original, da Conferência XXXI (Novas Conferências Introdutórias 
Sobre Psicanálise – 1933): 
 
É a parte obscura, a parte inacessível de nossa personalidade; o 
pouco que sabemos a seu respeito, aprendemo-lo de nosso 
estudo da elaboração onírica e da formação dos sintomas 
neuróticos, e a maior parte disso é de caráter negativo e pode ser 
descrita somente como um contraste com o Ego. Abordamos o Id 
com analogias; denominamo-lo caos, caldeirão cheio de agitação 
fervilhante. Descrevemo-lo como estando aberto, no seu 
extremo, a influências somáticas e como contendo dentro de si 
necessidades instintuais que nele encontram expressão psíquica; 
não sabemos dizer, contudo, em que substrato. 
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Está repleto de energias que a ele chegam dos instintos, porém 
não possui organização, não expressa uma vontade coletiva, mas 
somente uma luta pela consecução da satisfação das 
necessidades instintuais, sujeita à observância do princípio do 
prazer. As leis lógicas do pensamento não se aplicam ao Id, e isto 
é verdadeiro, acima de tudo, quanto à lei da contradição. Impulsos 
contrários existem lado a lado, sem que um anule o outro, ou sem 
que um diminua o outro: quando muito, podem convergir para 
formar conciliações, sob a pressão econômica dominante, com 
vistas à descarga da energia. No Id não há nada que se possa 
comparar à negativa e é com surpresa que percebemos uma 
exceção ao teorema filosófico segundo o qual espaço e tempo são 
formas necessárias de nossos atos mentais. No Id, não existe nada 
que corresponda à ideia de tempo; não há reconhecimento da 
passagem do tempo, e – coisa muito notável e merecedora de 
estudo no pensamento filosófico nenhuma alteração em seus 
processos mentais é produzida pela passagem do tempo. 
Impulsos plenos de desejos, que jamais passaram além do Id, e 
impressões, que foram mergulhadas no id pelas repressões, são 
virtualmente imortais; depois de se passarem décadas, 
comportam-se como se tivessem ocorrido há pouco. Só podem 
ser reconhecidos como pertencentes ao passado, só podem 
perder sua importância e ser destituídos de sua catexia de 
energia, quando tornados conscientes pelo trabalho de análise, e 
é nisto que, em grande parte, se baseia o efeito terapêutico do 
tratamento analítico. 
 
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Já o Ego contrapõe os dois princípios: o do prazer (pressionado 
pelo Id) e o da realidade. Quando a energia pulsional não pode, 
segundo o julgamento do Ego, ser “descarregada” (ou seja, “o 
desejo não pode ser realizado”), por uma exigência do princípio 
da realidade, tal energia tem de ser ou completamente desviada 
para outra ação ou desejo, ou reprimida, através de uma energia 
contrária (contracatexia). No primeiro caso, obtém-se uma 
resolução satisfatória, sendo este mecanismo denominado 
sublimação. No segundo caso, mantém-se a pulsão original 
contida no inconsciente (“recalcada”), porém às custas de gasto 
constante de energia, comparado por Tallaferro ao “trabalho do 
indivíduo que deseja manter um barril vazio afundado na água”. 
Logicamente, tal indivíduo “terá que usar uma força constante, já 
que sua interrupção permitiria ao barril vir imediatamente à 
tona”. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
INSTITUTO INTERNACIONALque incluíam evitar certos prédios enquanto atravessava o 
campus, sentar-se sempre no terceiro assento da quinta fileira em 
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sua sala de aula e alinhar seus livros e lápis em uma certa 
configuração sobre, antes de estudar. 
 
CASO 7 (Fenichel, 1981) 
 
Um rapaz de dezessete anos tornou-se neurótico em virtude do 
conflito que teve com a masturbação. Durante certo tempo, 
masturbou-se sem sentimento algum de culpa, chegando até, 
muitas vezes, a olhar para os companheiros de escola que se 
compraziam na masturbação mútua. Depois ouviu um sacerdote 
proferir um sermão em que aconselhava todos a se afastarem de 
quem quer que se masturbasse. Visto que sua genitalidade infantil 
fora inibida por medo excessivo da castração, o paciente tomou 
muito a sério o sermão e resolveu seguir-lhe o conselho, deixando 
de falar com um rapaz que, segundo sabia, se masturbava muito. 
Conseguiu, durante algum tempo, manter a resolução formada, 
mas, depois, para evitar o contato com o rapaz, desenvolveu 
certas fobias e procedimentos compulsivos que mantivessem a 
distância. Primeiramente, sempre que encontrava o outro, tinha 
de cuspir; a análise nunca chegou a clarificar uma resolução 
obsessiva quanto ao número de vezes que tinha de cuspir. 
 
A fobia disseminou-se; o paciente absteve-se de todo contato com 
a família e os amigos do “Evitado”. (O paciente deu ao outro rapaz 
este nome para não ter que usar-lhe o nome). A seguir, como o 
Evitado era filho de um barbeiro, passou a evitar as barbearias. 
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Mais adiante, chegou a evitar contato com pessoas que 
frequentavam barbearias; e sentiu-se obrigado a não passar no 
bairro da cidade onde se localizava a barbearia do pai do 
“Evitado”. 
 
Daí por diante, a neurose inteira desenvolveu-se com rapidez em 
“neurose de isolamento”. O rapaz estabeleceu, compulsivamente, 
que os membros da família, principalmente as mulheres (avó, mãe 
e irmã) não devia passar naquela vizinhança proibida, o que o fez 
sofrer muito porque as parentes não se dispuseram a aceitar esta 
restrição da sua liberdade. O paciente seguiu implicitamente a sua 
própria proibição, mas quanto mais estritamente limitava seus 
atos, mais intensamente era obrigado a pensar, obsessivamente, 
no bairro proibido da cidade. Não é difícil compreender que isso o 
fez sofrer, mas a explicação que deu do seu sofrimento foi 
inesperada: era penoso, disse ele, porque em casa via a mãe e a 
avó, daí por que não devia pensar nos locais nem nas pessoas 
proibidas. Se bem que percebesse a relação entre a sua doença e 
a masturbação, a conexão lhe escapava. Deixara de masturbar-se 
sem maior dificuldade aparente, mas, no lugar dela, cada vês se 
tornou mais nítido o esforço neurótico que fazia para manter a 
ideia “membro da família” separada das pessoas e locais 
desagradáveis ou “incompatíveis”, esforço que visava a isolar 
estas ideias umas das outras. 
 
 
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O isolamento veio a tornar-se o tópico principal da neurose. O 
paciente considerava lícito pensar nas coisas “incompatíveis”, mas 
procurava não pensar nas pessoas “compatíveis” ao mesmo 
tempo, desta forma demonstrando que o Complexo de Édipo era 
o conteúdo da atividade masturbatória. A elaboração deste 
esforço por parte do ego, que queria defender-se contra o 
complexo de Édipo mediante o isolamento, levou o paciente, 
dentro de poucos meses, a neurose, obsessiva das mais severas. 
 
O paciente assemelhava-se ao homem da peça de Wedekind que, 
segundo se supunha, não devia pensar em urso. Sempre que 
pensava no “Evitado”, pensava imediatamente, na avó, sintoma 
tormentoso que denominou de “conexão”. Conseguiu usar uma 
defesa com que o manipular, a saber, uma chamada 
“desconexão”, o que constitui um bom exemplo do mecanismo de 
“anulação”. Depois de haver pensado, ao mesmo tempo, num 
local proibido e numa pessoa compatível, desde que conseguisse, 
porém, formar uma imagem mental da coisa incompatível 
completamente isolada e liberta de todos os anexos compatíveis, 
tudo entrava nos eixos novamente e o paciente acalmava-se. Não 
tardou muito a deixar-se absorver na construção de 
“desconexões” o dia inteiro. 
 
Surgiram, a seguir, dois outros componentes que tenderam a 
aumentar a severidade da neurose obsessiva disseminada: 
 
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extensão imensa do campo da sintomatologia e invasão dos 
sintomas pelos impulsos rejeitados. 
 
A divisão dos objetos em compatíveis e incompatíveis pouco a 
pouco veio a abranger todas as pessoas, todos os lugares. Assim, 
por exemplo, os “colegas” tornaram-se “incompatíveis”; os 
parentes tornaram-se “afins”; todas as outras pessoas, mediante 
associações superficiais, foram colocadas numa ou noutra 
categoria, sujeitas, por conseguinte, a conexões e desconexões. 
 
Sofrida que fosse uma conexão, o paciente não conseguia sair do 
lugar onde por acaso estava, nem conseguia interromper a 
atividade em que estivesse, no momento, empenhado, sem ter, 
antes, completado a desconexão, situação esta que lhe era muito 
angustiante. Assim, sempre se mostrava problemática a 
possibilidade de levantar-se do divã, terminada a entrevista 
analítica; e durante a hora inteira que esta tomava, torturava-o o 
medo de vê-la acabar justamente entre uma conexão e uma 
desconexão. Enfim, a própria defesa veio a exprimir os impulsos 
rejeitados. A compulsão a desconectar obrigava o paciente a ter 
bastante pessoas, lugares e coisas compatíveis à sua disposição. O 
desejo de acabar rapidamente com a tensão tormentosa fez voltar 
da repressão o material reprimido. O paciente pôs-se a frequentar 
lugares incompatíveis, anotando com cuidado as pessoas 
incompatíveis, de modo a tê-las sempre à disposição em caso de 
necessidade. 
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Mas não lhe foi possível fazer a mesma coisa com todos os objetos 
incompatíveis. O Evitado, por exemplo, continuou a ser evitado. 
Com o tempo, o paciente veio a ter uma série graduada de 
diferenciações: haviam objetos que eram fobicamente evitados 
por serem de todo incompatíveis; mas haviam outros menos 
incompatíveis que ele procurava e que precisava ter à disposição; 
mais ainda: objetos um tanto indiferentes, ligeiramente 
compatíveis e absolutamente compatíveis. Por fim, 
conscientemente, esforçou-se por só pensar em objetos 
incompatíveis na esperança de que, assim, produziria com mais 
facilidade a desconexão. Como a ideia de “objetos incompatíveis” 
representava “masturbação”, o paciente estava, então, 
inconscientemente, a masturbar-se de maneira incessante. Aliás, 
quando máxima lhe era a tensão e não conseguia produzir 
desconexão malgrado todos os esforços, acontecia-lhe, às vezes, 
para sua grande surpresa, ter uma ejaculação. 
 
CASO 8 (Freud, 1886): 
 
O paciente, ..., gravador de 29 anos, é a pessoa que está diante 
dos senhores: um homem inteligente, que de pronto se ofereceu 
para ser examinado por mim, na esperança de uma rápida 
recuperação. 
 
Permitam-me que comece por um relato de sua história familiar e 
de sua história pessoal. 
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O paia um olho (o 
esquerdo). E, realmente, quando pela primeira vez examinei o 
paciente, ele mostrava em ambos os olhos a peculiar poliopia 
monocular dos pacientes histéricos e distúrbios da sensibilidade 
às cores. Com o olho direito, reconhecia todas as cores, exceto o 
roxo, que dizia ser cinzento; com o olho esquerdo, reconhecia 
apenas o vermelho-claro e o amarelo-claro, ao passo que 
considerava todas as outras cores como cinzento, quando eram 
claras, e como preto, quando escuras. O Dr. Konigstein teve a 
gentileza de submeter o paciente a um minucioso exame 
oftalmológico e posteriormente relatará suas conclusões. 
Passando aos outros órgãos dos sentidos, o olfato e o paladar 
estão inteiramente anulados do lado esquerdo. Somente a 
audição foi poupada da hemianestesia cerebral. 
 
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Convém lembrar que a acuidade do ouvido direito ficou 
seriamente prejudicada desde que o paciente sofreu um acidente, 
aos oito anos de idade; seu ouvido esquerdo é o melhor; a 
redução da audição nele presente é (segundo uma gentil 
comunicação do Professor Gruber) suficientemente explicada por 
uma visível e substancial afecção da membrana timpânica. 
 
Se procedermos agora a um exame do tronco e dos membros, 
verificaremos também uma anestesia absoluta, sobretudo no 
braço esquerdo. Como vêem, consigo espetar a ponta de uma 
agulha numa dobra da pele sem que o paciente reaja. As 
estruturas profundas – músculos, ligamentos e articulações – 
também devem estar insensíveis em grau igualmente elevado, 
pois posso mover a articulação do punho e estirar os ligamentos 
sem provocar qualquer sensação no paciente. É consoante com 
essa anestesia das estruturas profundas o fato de que o paciente, 
quando seus olhos são vedados, também não tem noção da 
posição do seu braço esquerdo no espaço, nem de qualquer 
movimento que executo com ele. Passo uma venda em seus olhos 
e depois lhe pergunto o que fiz com sua mão esquerda. Ele não 
consegue dizer. Peço-lhe que, com a mão direita, segure o 
polegar, o cotovelo ou o ombro esquerdo. Ele tateia às cegas, 
confunde sua própria mão com a minha, que lhe estendo, e então 
admite que não sabe a quem pertence a mão que segurou. 
 
 
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Deve ser particularmente interessante descobrir se o paciente é 
capaz de encontrar as partes da metade esquerda de sua face. 
Seria de supor que isso não lhe oferecesse quaisquer dificuldades, 
pois, afinal, a metade esquerda do rosto está, digamos, 
firmemente cimentada à metade direita, intacta. Mas a 
experiência mostra o contrário. O paciente erra o alvo no olho 
esquerdo, no lobo da orelha esquerda, e assim por diante; na 
verdade, parece sair-se pior ao tatear com a mão direita as partes 
anestesiadas do rosto do que se estivesse tocando uma parte do 
corpo de alguma outra pessoa. A causa disso não é uma 
perturbação na mão direita, que ele está usando para apalpar, 
pois os senhores podem ver com que certeza e rapidez ele 
encontra os pontos em que lhe digo para tocar a metade direita 
do rosto. 
 
A mesma anestesia está presente no tronco e na perna esquerda. 
Observamos aí que a perda das sensações tem seu limite na linha 
média, ou se estende um pouco além desta. 
 
Para mim, parece haver um interesse especial na análise dos 
distúrbios do movimento que o paciente mostra em seus 
membros anestesiados. Acredito que esses distúrbios do 
movimento devem ser atribuídos, inteira e unicamente, à 
anestesia. Certamente não existe paralisia do braço esquerdo, por 
exemplo. 
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Um braço paralisado ou cai flacidamente, ou se mantém rígido, 
devido às contraturas em posições forçadas. Aqui a coisa se passa 
de modo diverso. Se eu vendar os olhos do paciente, seu braço 
esquerdo permanecerá na posição que tinha assumido 
anteriormente. Os distúrbios da mobilidade são mutáveis e 
dependem de diversas condições. Em primeiro lugar, aqueles 
dentre os senhores que tiverem notado como o paciente se despiu 
com ambas as mãos e como fechou sua narina esquerda com os 
dedos da mão esquerda, não terão tido a impressão de qualquer 
distúrbio grave do movimento. A um exame mais acurado, 
verificar-se-á que o braço esquerdo, em especial os dedos, são 
movimentados mais lentamente e com menos habilidade, como 
se estivessem entorpecidos, e com um leve tremor. Todos os 
movimentos, até os mais complicados, são, todavia, executados, 
e isso acontece sempre que a atenção do paciente é desviada dos 
órgãos do movimento e dirigida unicamente para o objetivo do 
movimento. As coisas se passam diversamente quando lhe peço 
que efetue movimentos isolados com o braço esquerdo, sem 
qualquer objetivo mais remoto – como, por exemplo, dobrar o 
braço na articulação do cotovelo enquanto segue o movimento 
com os olhos. Nesse caso, seu braço esquerdo parece muito mais 
inibido do que antes, o movimento é feito com muita lentidão, 
incompletamente, em estágios diferentes, como se houvesse uma 
grande resistência a ser vencida, e é acompanhado de um nítido 
tremor. Os movimentos dos dedos são extraordinariamente 
débeis nessas circunstâncias. 
 
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Uma terceira espécie da perturbação do movimento, a mais grave, 
surge, finalmente, quando o paciente é solicitado a efetuar 
movimentos isolados com os olhos fechados. Por certo, algo se 
passa no membro que está absolutamente anestesiado, pois, 
como veem, a inervação motora é independente de qualquer 
informação sensitiva do tipo que normalmente procede de um 
membro que vai ser movimentado; esse movimento, no entanto, 
é mínimo, de modo algum dirigido a um determinado segmento, 
e não determinável quanto à sua direção por parte do paciente. 
Não suponham, porém, que esse último tipo de perturbação do 
movimento seja uma consequência necessária da anestesia; é 
precisamente com relação a esse aspecto que se encontram 
marcantes diferenças individuais. Observamos, no Salpêtrière, 
pacientes com anestesias que, de olhos fechados, conservam um 
controle muito mais acentuado de membros que tivessem sido 
eliminados da consciência. 
 
A mesma influência da atenção desviada e do olhar aplica-se à 
perna esquerda. Hoje, durante pelo menos uma hora, o paciente 
caminhou a meu lado pelas ruas, a passos rápidos, sem olhar para 
seus pés enquanto andava. E tudo o que pude notar foi que pisava 
com o pé esquerdo girando-o um pouco para fora e que, muitas 
vezes, arrastava-o pelo chão. Mas quando lhe ordeno que ande, 
ele tem que acompanhar com os olhos cada movimento da perna 
anestesiada, e os movimentos faz-se lento e hesitante, cansando-
o com muita facilidade. 
 
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Por fim, com os olhos fechados, ele caminha completamente 
inseguro e se desloca mantendo ambos os pés em contato com o 
chão, como faria qualquer um de nós se caminhasse no escuro em 
local desconhecido. Ele também tem grande dificuldade em 
permanecer de pé apenas sobre a perna esquerda; quando fecha 
os olhos nessa posição, cai imediatamente ao chão. 
 
Prosseguirei com a descrição do comportamento de seus reflexos. 
Estes são, em geral, mais vivos do que o normal e, além disso, 
mostram pequenas coerência entre si. Os reflexos do tríceps e do 
extensor são efetivamente maisDE EDUCAÇÃO E SAÚDE 
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MECANISMOS DE DEFESA 
 
As “defesas patológicas”, ou seja, as defesas que se utilizam de 
contracatexias, são a base para a aparição dos diversos sintomas 
nos quadros neuróticos. Vale a pena, portanto, revisar aqui os 
diversos mecanismos de defesa utilizados para apaziguar os 
conflitos Ego/Id. Convém lembrar que é a pressão constante dos 
impulsos rejeitados no sentido da motilidade, procurando em 
toda oportunidade uma descarga parcial, indireta, (uma vez que a 
descarga direta, total, não pode ser efetuada), que se traduz como 
sintoma neurótico. Segundo o conceito psicanalítico, “todas as 
defesas patológicas enraízam-se na infância”; - portanto, “não 
existe neurose que não tenha raiz na infância” (Fenichel, 1981). 
 
Repressão 
 
Freud utilizou o termo “repressão” em contextos e significados 
diferentes, tendo inicialmente usado como sinônimo de defesa, 
para só depois estabelecê-lo como mecanismo específico da 
mesma (Freud, 1926). Consiste no esquecimento 
inconscientemente intencional, ou na não-conscientização de 
impulsos internos ou de fatos externos, que em geral representam 
possíveis tentações, impulsos censuráveis, ou até simples alusões 
a estes. Nas palavras do próprio Freud (1915), “a essência da 
repressão consiste simplesmente em afastar determinada coisa 
do consciente, mantendo-a à distância. 
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A repressão é o mecanismo de defesa principal da histeria, em 
uma atitude em que aquilo que é censurável ou importuno é 
tratado simplesmente como se não existisse. Segundo Fenichel 
(1981), uma possível explicação para a repressão ser utilizada 
mais frequentemente como defesa contra os impulsos sexuais, 
enquanto os impulsos agressivos são comumente objeto de 
outros mecanismos de defesa, residiria no diferente trato dados 
pelos educadores a estas questões, omitindo primordialmente 
qualquer menção aos assuntos sexuais, enquanto reconhecem a 
existência da agressividade, embora qualificando-a como ruim. 
 
Negação 
 
A negação consiste simplesmente em não aceitar na realidade um 
fato que perturba o ego. Fadiman e Frager (1976) a ilustram com 
uma estória singela: 
 
Uma mulher foi levada à Corte a pedido de seu vizinho. Esse 
vizinho acusava a mulher de ter pegado e danificado um vaso 
valioso. Quando chegou a hora da mulher se defender, sua defesa 
foi tripla: “Em primeiro lugar, nunca tomei o vaso emprestado. Em 
segundo lugar, estava lascado quando eu o peguei. Finalmente, 
Sua Excelência, eu o devolvi em perfeito estado”. 
 
 
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Notadamente, a memória nos “trai” de modo muitas vezes 
surpreendente, uma vez que o que armazenamos não são 
necessariamente os fatos em si, mas sim as nossas percepções e 
interpretações dos fatos. Na verdade, quando em terapia o cliente 
tem um “insight”, percebendo como a lembrança era distorcida, 
de modo defensivo, isso traduz a ressignificação prévia da 
lembrança incômoda. Em outras palavras, o “insight” não é fator 
de cura, mas sim indício de que a cura já ocorreu, em nível 
inconsciente! 
 
Racionalização 
 
O processo de achar motivos aceitáveis para pensamentos e ações 
inaceitáveis é bastante comum entre as pessoas de nível cultural 
mais elevado, embora apareça em qualquer classe sociocultural. 
A racionalização é um modo de aceitar a pressão do Superego, 
disfarçando nossos motivos, e tornando nossas ações moralmente 
aceitáveis. 
 
Muito empregado por religiosos, psicoterapeutas, médicos e 
cientistas em geral, tal mecanismo de defesa oferece grande 
resistência à conscientização, uma vez que se utiliza de uma 
sequência complexa e aparentemente lógica de associações, 
servindo de base sólida para uma postura geralmente bastante 
rígida. 
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Formação Reativa 
 
Chamam-se formações reativas as atitudes rígidas, 
diametralmente opostas ao desejo ou impulso real. Diferenciam-
se da repressão pura e simples pelo caráter permanente das 
alterações, chegando a ser considerada uma modificação da 
estrutura da personalidade do indivíduo. É como se o perigo do 
desejo inaceitável fosse tão grande, estivesse tão frequentemente 
presente, que se torna necessário estar-se pronto a combatê-lo a 
qualquer momento, um estado de “vigília permanente”. As 
principais características que “expõem” a formação reativa são 
seu excesso, sua rigidez, e sua extravagância. A personalidade 
pode tornar-se bastante inflexível, restringindo a capacidade da 
pessoa de responder adequadamente a eventos. 
 
Exemplos de formações reativas podem ser encontrados em 
diversas situações, como no caso da dona de casa que limpa 
continuamente sua casa, podendo estar na realidade se 
concentrando no contato e no exame da sujeira; ou nos casos de 
pais que se “preocupam” excessivamente com o bem-estar e a 
segurança dos filhos, interferindo tanto em suas vidas, não 
admitindo seu ressentimento em relação a eles (às vezes 
simplesmente por não tê-los desejado!), que a “superproteção” 
se transforma em um tipo de punição. 
 
 
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Ou ainda nos exemplos de pessoas “homofóbicas”, rigidamente 
contrárias ao homossexualismo, que muitas vezes escondem com 
isso uma homossexualidade latente. 
 
Anulação 
 
Enquanto na formação reativa toma-se uma atitude que se 
contrapõe à atitude originalmente desejada, na anulação se dá 
um passo a mais: faz-se coisa que é o contrário daquilo que se fez 
antes, seja na realidade ou na imaginação, seja de modo real ou 
de modo “mágico”, anulando o ato anterior. Fenichel cita um 
exemplo de um paciente que não tinha religião, e que rezava 
obsessivamente pela mãe doente, mas batendo de leve na boca 
após rezar, anulando assim a oração, que funcionava como uma 
rejeição do desejo de que a mãe morresse. 
 
Às vezes, a anulação se dá não por uma ação oposta, mas pela 
repetição do mesmo ato realizado, baseando-se em um 
mecanismo inconsciente de anulação por estar sendo realizada a 
repetição em condições internas diferentes das previamente 
existentes. 
 
 
 
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Fenichel (1981), novamente cita um exemplo divertido: 
 
Certo paciente escrupuloso quanto a despesas desnecessárias 
comprou um jornal por um níquel; inconscientemente, a compra 
equivaleu para ele à visita a uma meretriz. Lamentou ter feito o 
gasto e, querendo anulá-lo, resolveu voltar à banca de jornais, 
sem saber ao certo o que fazer, porque tinha vergonha de 
devolver o jornal ao vendedor e pedir-lhe a restituição do 
dinheiro. Ocorreu-lhe, porém, que a compra de outro jornal lhe 
aliviaria a mente, mas a banca já estava fechada. Tirou, então, 
outro níquel do bolso e jogou-o fora. 
 
Projeção 
 
Também bastante comum é o ato de atribuir a outra pessoa (ou 
animal, ou objeto) os sentimentos, desejos, impulsos que não 
queremos admitir em nós mesmos. É, de fato, bem mais fácil lidar 
com os impulsos ameaçadores como se fossem uma força 
externa, sem admitir o fato de que tal sentimento ou 
comportamento temido vem de nossa própria mente 
inconsciente. 
 
Generalizações como “todos os homens só pensam em sexo”, ou 
“não se pode confiar em umpolicial, eles são todos corruptos”, ou 
ainda “todos os espíritas estão trilhando o caminho da perdição”, 
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podem na realidade estar escondendo sentimentos como “eu 
penso muito a respeito do sexo mas, como mulher, não deveria 
pensar”, “eu gostaria de poder tirar vantagem injusta dos outros, 
até mesmo através da força ou violência”, ou “eu tenho muito 
medo de “me perder”, e não tenho certeza quanto ao meu 
futuro”. Outros exemplos são abundantes, mostrando a 
relevância da recomendação bíblica de “não querer tirar o 
argueiro do olho do seu irmão, quando se tem uma trave no 
próprio olho”. 
 
Introjeção 
 
Em oposição à projeção, a introjeção consiste em trazer para si as 
características e atributos do objeto desejado. Embora seja 
derivada de um processo de satisfação instintiva, ou seja, o ato de 
ingerir e incorporar o alimento, torna-se mecanismo de defesa na 
medida em que o ego primitivo percebe que, ao incorporar o 
objeto amado, ele objetivamente o destrói, inicialmente pela 
digestão, e posteriormente pela destruição do objeto “real”, para 
dar lugar ao objeto imaginário, introjetado. Desse modo, o ego 
passa a usar a introjeção para efetivamente destruir aquilo que 
não deve continuar existindo (o mundo externo), e passa a viver 
apenas a realidade interna, de fantasia. É um mecanismo 
frequentemente encontrado na histeria. 
 
 
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Uma forma específica de introjeção é a identificação, onde o ego 
busca semelhanças em si de objetos desejados ou até invejados. 
Pode aparecer de formas variadas, desde a identificação parcial 
(como no caso de um jovem que procura vestir-se ou comportar-
se de modo semelhante a seu pai, ou a um professor), até a 
identificação total (quando o mesmo jovem procura seguir os 
mesmos passos do pai, por exemplo, seguindo a mesma profissão, 
procurando formar uma família semelhante, com o mesmo 
número de filhos, etc.). Também é fácil percebermos casos de 
identificação projetiva, onde o ego se projeta para fora, como na 
situação em que nos identificamos com uma personalidade de um 
filme, por exemplo, vivenciando emocionalmente as situações 
dramáticas que se desenrolam na tela. 
 
Deslocamento 
 
Deslocando-se os afetos de um para outro objeto, retirando-se 
um sentimento “proibido” por uma determinada pessoa, para 
colocá-lo em relação a outra coisa ou outra pessoa, o ego 
consegue lidar com sentimentos ambivalentes de modo mais 
suportável, por assim dizer. Mecanismo de defesa primordial nos 
casos de fobias, é também um mecanismo natural de movimento 
de energias do inconsciente, percebido intensamente nos sonhos, 
onde o conteúdo manifesto é sempre uma representação 
simbólica, portanto deslocada, do conteúdo latente. 
 
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O deslocamento não deixa de incluir também uma identificação, 
pois a ligação entre os objetos do deslocamento se dá por alguma 
semelhança entre os mesmos, em uma cadeia associativa 
inconsciente. Não se trata, aqui, de uma identificação do indivíduo 
com o objeto, mas sim das representações psíquicas de um objeto 
com o outro. 
 
Isolamento 
 
Separando-se as lembranças traumáticas de um conteúdo 
emocional, isola-se o sintoma de suas causas, mecanismo também 
comum nos obsessivos, que muitas vezes conhecem, 
conscientemente, os fatos traumáticos que originam seus 
sintomas, porém não conseguem perceber as ligações que 
conectam fato e sintoma. 
 
Algumas vezes, o cliente coloca um limite físico, espacial ou 
temporal, entre aquilo que deve permanecer isolado, muitas 
vezes criando rituais para estabelecer estas divisões. Na prática 
psicanalítica, pode-se observar clientes que aceitam a análise 
enquanto estiverem no consultório, deitados no divã, mas isolam 
o “set” psicanalítico de todo o resto de suas vidas, realizando 
rituais ao entrar e ao terminar cada sessão, com o intuito de 
mantê-las isoladas. 
 
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Diversos tabus e superstições são reflexos desse isolamento 
mágico, como no caso dos tabus de contato, descritos de modo 
apurado por Freud em Totem e Tabu (1912-13). No Brasil, já foi 
muito comum o ato de, ao se comentar sobre algo desagradável, 
bater-se três vezes em algo de madeira, dizendo-se “isola!”, num 
ritual claro de pensamento mágico e tentativa de isolamento do 
“mau pensamento” e da realidade (ou da possível consequência 
desse mau pensamento...). 
 
NEUROSES E A CLASSIFICAÇÃO DOS TRANSTORNOS MENTAIS 
 
As classificações atuais de Transtornos Mentais, DSM-V e CID-10, 
já restringem muito o uso do termo “neurose”, estando 
completamente ausente do DSM-IV. No entanto, algumas das 
categorias podem ser reconhecidas como englobando as antigas 
neuroses, dando uma especificação mais precisa de cada quadro 
clínico, o que pode nos ajudar a organizar o pensamento de modo 
mais minucioso, evitando a inclusão de formas muito diversas de 
apresentação clínica em um único diagnóstico. Isso se torna mais 
evidente quando examinamos a antiga histeria, que reunia um 
amplo espectro sintomático, hoje dividido em algumas categorias 
separadas. 
 
 
 
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No DSM-V, as neuroses se encontram categorizadas como 
Transtornos de Ansiedade, Transtornos Somatoformes, e 
Transtornos Dissociativos, sendo ainda incluído como neurose o 
Transtorno Distímico (classificado como Transtorno de Humor, 
entre os Transtornos Depressivos), e também os Transtornos 
Sexuais (que não farao parte deste módulo, sendo estudados no 
módulo de Sexualidade). Já no CID-10, uma grande categoria de 
“Transtornos Neuróticos, relacionados ao “Stress”, e 
Somatoformes”, engloba as categorias de Transtornos de 
Ansiedade Fóbica, outros transtornos de Ansiedade, Trantorno 
Obsessivo-Compulsivo, Reação a “Stress” Severo e Transtornos de 
Ajustamento, Transtornos Dissociativos (de Conversão), 
Transtornos Somatoformes, e Outros Transtornos Neuróticos 
(esta última incluindo até um código para “Transtorno Neurótico, 
não especificado”). 
 
Para mantermos a consistência com o módulo de Psiquiatria, 
tomaremos por base a classificação do DSM-IV, referindo-nos aos 
termos usados pela Psicanálise, em especial por Freud, para que 
seja possível a compreensão e a ligação da linguagem “Freudiana” 
e da linguagem “Psiquiátrica”. 
 
 
 
 
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Transtornos de Ansiedade 
 
Como vimos no módulo de Psiquiatria, a ansiedade é, em 
princípio, uma resposta normal, fisiológica, do organismo a um 
estímulo potencialmente nocivo, preparando o indivíduo para 
uma reação de “fuga ou luta”. Freud reconhecia esta função 
biológica da ansiedade, e fundamentou muito de sua teoria das 
pulsões nas noções biológicas da ansiedade, sendo a base para os 
aspectos “econômicos” da teoria das pulsões. Basicamente, Freud 
vê a ansiedade como produto da libido frustrada, ou seja, de uma 
pulsão que não consegue ser descarregada. Freud atribuía as 
chamadas “neuroses atuais”, incluindo a “neurastenia” e a 
hipocondria, às tensões causadas por práticas sexuais 
“inadequadas” (como a abstinência sexual ou o coito 
interrompido). 
 
Já as “psiconeuroses”,que incluíam as fobias, a histeria e as 
neuroses obsessivas, eram também referidas por “psiconeuroses 
de defesa”, por representarem sintomas decorrentes das defesas 
patológicas (dependentes de contracatexias), contra pulsões mais 
antigas, envolvendo complexos intrapsíquicos de combate a 
sentimentos ambivalentes. De um ou de outro modo, a 
antecipação de um “perigo” se dá em última análise sempre em 
nível interno, através da representação de um conflito gerado por 
pulsões não satisfatoriamente descarregadas. 
 
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Vamos agora nos deter um pouco sobre cada categoria 
diagnóstica, relembrando o módulo de Psiquiatria e nos 
aprofundando um pouco mais em alguns quadros específicos de 
neuroses. 
 
Transtorno de Pânico e Agorafobia 
 
Como estudamos em Psiquiatria, o Transtorno de Pânico só foi 
definido a partir de 1980, não existindo como entidade clínica 
reconhecida à época de Freud, ou mesmo quando dos trabalhos 
de outros grandes nomes da Psicanálise e de linhas derivadas, 
como Karen Horney, Melanie Klein, Jacques Lacan, Donald W. 
Winnicott, entre outros. Era, portanto, confundida e incluída nos 
quadros de fobias, de ansiedade generalizada, ou da histeria. 
Freud relata, no caso de número 4 dos “Estudos Sobre a Histeria” 
(1895ª), uma queixa que hoje seria facilmente diagnosticada 
como Transtorno de Pânico: 
 
- Bem, e de que é que você sofre? 
- Sinto muita falta de ar. Nem sempre. Mas às vezes ela me apanha 
de tal forma que acho que vou ficar sufocada. 
 
Isso não pareceu, à primeira vista um sintoma nervoso. 
 
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Mas logo me ocorreu que provavelmente era apenas uma 
descrição representando uma crise de angústia: ela estava 
destacando a falta de ar do complexo de sensações que decorrem 
da angústia e atribuindo uma importância indevida a esse fator 
isolado. 
 
- Sente-se aqui. Como são as coisas quando você fica “sem ar”? 
- Acontece de repente. Antes de tudo, parece que há alguma coisa 
pressionando meus olhos. Minha cabeça fica muito pesada, há um 
zumbido horrível e fico tão tonta que quase chego a cair. Então 
alguma coisa me esmaga o peito a tal ponto que quase não 
consigo respirar. 
- E não nota nada na garganta? 
- Minha garganta fica sufocada, como se eu fosse sufocar. 
- Acontece mais alguma coisa na cabeça? 
- Sim, umas marteladas, o bastante para fazê-la explodir. 
- E não se sente nem um pouco assustada quando isso acontece? 
- Sempre acho que vou morrer. Em geral, sou corajosa e ando 
sozinha por toda parte, desde o porão até a montanha inteira. 
Mas no dia em que isso acontece não ouso ir a parte alguma; fico 
o tempo todo achando que há alguém atrás de mim que vai me 
agarrar de repente. 
 
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Portanto, era de fato uma crise de angústia, e introduzida pelos 
sinais de uma “aura” histérica – ou, mais corretamente, era um 
ataque histérico cujo conteúdo era a angústia. 
 
Notem a descrição típica de ataques de Pânico, com as sensações 
de sufocamento, peso na cabeça, opressão precordial, dificuldade 
para respirar, impressão de morte iminente, e evitações 
secundárias, chegando próximo da agorafobia. Freud, no entanto, 
classifica os ataques como histéricos, “cujo conteúdo era a 
angústia”. No decorrer desse relato, Freud faz uma sessão 
“informal” de Psicanálise, porém as circunstâncias do encontro 
com a “Srta. Katharina” (uma viagem de férias de Freud) não 
permitiram um acompanhamento verdadeiro do caso, restando a 
Freud apenas esperar “que essa moça, cuja sensibilidade sexual 
fora afetada numa idade tão precoce, tenha tirado algum 
benefício” de sua conversa, afirmando não mais tê-la visto depois 
disto. Considerando a evolução clínica dos casos de Pânico, 
atualmente observados, dificilmente um benefício permanente e 
decisivo poderia ter surgido de uma abordagem tão rápida, 
embora tenha sido surpreendentemente profunda, considerando 
o exíguo contato entre Freud e sua “paciente”. 
 
Embora hoje não se admita um tratamento exclusivamente 
psicoterápico para o Transtorno de Pânico, os estudos e relatos 
recentes tornam evidente a superioridade da combinação de 
farmacoterapia com psicoterapia, em relação ao tratamento 
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farmacológico isolado. Em síntese, os medicamentos apenas 
controlam os ataques de pânico “em si”, não resolvendo os 
conflitos geradores do transtorno, nem as fobias e evitações 
secundárias. A Psicanálise, aliada a técnicas de terapia breve, ou a 
hipnoterapia, pode completar o transtorno, modificando em suas 
raízes mais profundas as alterações psíquicas que tenham 
originado os transtornos. 
 
Em relação aos problemas encontrados como origens do Pânico, 
os mais comuns são as perdas recentes (próximas do início dos 
sintomas), embora outros tipos de “traumas” possam estar 
relacionados. A agorafobia, por sua vez, é na maioria dos casos 
uma consequência da associação psíquica inconsciente dos 
ataques com situações em que estes possam ser psicologicamente 
“agravados”, por não haver meio de encontrar “abrigo”. Muitas 
vezes o próprio cliente refere ter, na verdade, “medo de sentir 
medo”, ou seja, temer a ocorrência de uma crise de Pânico em um 
local público, sem ter como ocultar seu estado dos estranhos, e 
sem ter alguém por perto para ampará-lo. Freud (1895b) já 
percebeu isso desde o início de seus trabalhos: 
 
No caso da agorafobia, etc., encontramos frequentemente a 
recordação de um ataque de angústia; e o que o paciente de fato 
teme é a ocorrência de tal ataque nas condições especiais em que 
acredita não poder escapar dele. 
 
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Fobias Específicas e Fobia Social 
 
A fobia, medo exagerado de algo que não oferece perigo real, ou 
que, embora perigoso, não justifica uma reação tão intensa e 
irracional, é uma das situações onde a defesa mostra-se mais 
facilmente identificável. Como comenta Fenichel, “se alguém 
reage a certo acontecimento de maneira exagerada ou com um 
tipo de afeto aparentemente inadequado, tem-se aí um sinal de 
deslocamento: o afeto relaciona-se, de fato, com alguma outra 
situação que terá sido reprimida”. 
 
Freud tentou reduzir toda e qualquer fobia ao conflito edipiano, 
em especial ao medo da castração. De fato, alguns casos mostram 
esta origem de modo contundente, como no caso do “Pequeno 
Hans” (Freud, 1909), ou em fobias de facas e tesouras, onde 
frequentemente encontram-se ideias de castração, tanto quanto 
de hostilidade reprimida. Porém muitas vezes os eventos 
traumáticos distanciam-se muito deste único mecanismo, sendo 
muito mais importante encontrarem-se individualmente, caso a 
caso, as lembranças inconscientes e as ligações entre tais 
lembranças e os objetos da fobia, geralmente bastante evidentes, 
uma vez que as lembranças traumáticas venham à tona. 
 
Técnicas para a ressignificação dos eventos traumáticos, ou 
simplesmente para a supressão dos sintomas, existem em várias 
linhas terapêuticas, muitas com excelentes resultados, como a 
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regressão hipnótica ou a dessensibilização progressiva. Nos casos 
de fobias simples, não érealmente necessária uma análise mais 
profunda, sendo verificado empiricamente ser errônea a ideia de 
que outros sintomas apareceriam, quando a fobia é eliminada de 
uma forma mais “direta”. A vantagem da Psicanálise, na 
abordagem das fobias simples, se verifica principalmente nos 
casos em que se acompanham também outras dificuldades 
concomitantes, pois desta maneira alcançam-se insights mais 
profundos e abrangentes, com modificações efetivas em áreas 
mais amplas da vida do cliente. 
 
Atualmente, considera-se em separado o diagnóstico de Fobia 
Social, onde há um temor acentuado e persistente de uma ou mais 
situações sociais ou de desempenho, onde o indivíduo é exposto 
a pessoas estranhas ou ao possível julgamento de outras pessoas, 
resultando em medo de agir de modo embaraçoso ou humilhante 
para si. Nestas situações, a ansiedade pode ser tão grande a ponto 
de assumir a forma de um ataque de Pânico, que, no entanto, 
aparece exclusivamente ligado ou predisposto pela situação 
social. A justificativa para a separação diagnóstica de fobias 
específicas e fobia social reside em evidências de que esta última 
pode ter boa resposta à medicação, enquanto as fobias 
específicas têm resposta quase nula à mesma. 
 
 
 
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Transtorno de Ansiedade Generalizada 
 
Nas últimas classificações dos transtornos mentais, incluiu-se uma 
categoria diagnóstica “nova”, o Transtorno de Ansiedade 
Generalizada, definido como uma preocupação excessiva e 
abrangente, acompanhada de uma variedade de sintomas 
corporais, e que causa acentuado sofrimento ou 
comprometimento significativo no funcionamento social ou 
ocupacional do indivíduo. Os critérios para o seu diagnóstico 
incluem ansiedade e preocupação excessivas, ocorrendo na 
maioria dos dias, e em relação a diversas atividades, eventos ou 
situações, sendo considerado pelo indivíduo difícil de controlar a 
preocupação. Também é necessário que a ansiedade não seja 
restrita a aspectos de algum outro transtorno (como no caso do 
Pânico, das fobias, ou do Transtorno Obsessivo Compulsivo, entre 
outros). 
 
Segundo Kaplan et al (1997), a psicoterapia, para pacientes 
motivados para a compreensão das fontes da ansiedade, pode ser 
o tratamento de escolha. No entanto, o objetivo da terapia não 
seria o de eliminar a ansiedade, mas sim aumentar a tolerância à 
mesma. O cliente continua vivenciando ansiedade, após o término 
de uma terapia bem sucedida, porém com um controle 
aumentado do ego, que lhe permite usar esse sintoma como um 
sinal para refletir sobre os conflitos internos, e expandir seu 
insight e entendimento. 
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Neurose Obsessiva, Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), e 
Transtorno de Personalidade Obsessivo-Compulsiva 
 
A Psicanálise sempre abordou a Neurose Obsessiva reunindo em 
uma mesma categoria tanto a entidade nosológica hoje 
denominada Transtorno Obsessivo-Compulsivo (comumente 
designada por TOC) quanto o que é classificado como Transtorno 
de Personalidade Obsessivo-Compulsiva. Também é comum 
encontrarmos casos de compulsões simples, ou de traços de 
caráter obsessivo, nas discussões sobre as neuroses obsessivas. 
Presume-se, com essa mistura, serem sempre os sintomas 
obsessivos ou compulsivos provenientes dos mesmos 
mecanismos psicopatológicos. 
 
No entanto, um estudo mais crítico da diversidade desses casos 
mostra que a maioria dos pacientes com TOC não tem sintomas 
obsessivo-compulsivos pré-mórbidos, não sendo estes sintomas 
nem necessários, nem suficientes para o desenvolvimento do 
TOC. Por outro lado, a grande maioria dos clientes com 
compulsões simples, com traços obsessivos de caráter, ou com 
personalidade obsessivo-compulsiva permanecem com sintomas 
“estáveis” ao longo do tempo, sendo bastante raro o 
aparecimento do TOC “completo”. Além disso, o tratamento 
medicamentoso parece ser essencial para o TOC, e praticamente 
indiferente para os outros transtornos citados, que respondem 
muito melhor à psicoterapia voltada para o insight. 
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Como vimos no módulo de Psiquiatria, o TOC é caracterizado pela 
ocorrência de obsessões e compulsões. Uma obsessão é um 
pensamento, sentimento, ideia ou sensação intrusiva, recorrente 
e persistente, experimentados como inadequados, causando 
acentuada ansiedade e sofrimento. Já uma compulsão é um 
comportamento ou ato mental consciente, estandardizado e 
recorrente, como contar, verificar, evitar ou lavar, que a pessoa se 
sente compelida a executar em resposta a uma obsessão, ou de 
acordo com regras que devem ser rigidamente aplicadas. As 
obsessões levam a um aumento da ansiedade da pessoa, 
enquanto a execução das compulsões leva a uma sensação de 
redução da ansiedade. Quando um indivíduo com TOC resiste à 
realização da compulsão, a ansiedade aumenta, até que ele se 
veja praticamente “obrigado” a realizá-la. 
 
Um paciente obsessivo-compulsivo percebe o caráter irracional 
de suas obsessões, e experimenta tanto a obsessão quanto a 
compulsão como alheias ao ego, ou seja, é evidenciada como algo 
estranho à experiência que a pessoa tem de si mesma. As 
obsessões invadem insistente e persistentemente a consciência, e 
um sentido de medo ansioso acompanha a manifestação central, 
levando a pessoa a tomar medidas contra a ideia ou impulso 
inicial. A pessoa que sofre de obsessões e compulsões sente na 
maioria das vezes um forte desejo de resistir-lhes, porém cerca de 
metade dos pacientes oferece efetivamente pouca resistência à 
compulsão. Independentemente de quão vívidas e intensas sejam 
 
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a obsessão ou compulsão, a pessoa geralmente reconhece-as 
como absurdas e irracionais. 
 
Para diagnosticarmos TOC, é necessário que as obsessões ou 
compulsões causem acentuado sofrimento, consumam tempo 
(mais de 1 hora por dia), ou interfiram significativamente na 
rotina, funcionamento social ou ocupacional do indivíduo. 
 
Em contraste direto com o TOC, as “compulsões simples” são 
extremamente comuns, sendo consideradas geralmente como 
características da pessoa, pelos seus familiares e amigos. É o caso, 
por exemplo, das pessoas que têm compulsão por chocolates, 
comidas em geral, jogos eletrônicos, compras, entre outros. Tais 
pessoas não percebem as compulsões como irracionais, alheias ao 
ego, não têm pensamentos obsessivos, e geralmente não têm seu 
funcionamento social ou profissional prejudicado de modo 
evidente. Trata-se de uma “falha” no controle dos impulsos, de 
modo que uma vez que iniciem uma atividade, não conseguem 
parar até que tenham exaurido os recursos (acabado com o 
chocolate, por exemplo), ou sejam obrigados a parar por 
circunstâncias externas. 
 
No caso do Transtorno de Personalidade Obsessivo-Compulsiva, 
chamado na CID-10 de Personalidade Anancástica, estamos nos 
referindo à personalidade, ou seja, à totalidade dos traços 
emocionais e comportamentais que caracterizam o indivíduo na 
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vida cotidiana. Quando esses traços são inflexíveis, mal ajustados, 
e causam um funcionamento comprometido ou um sofrimento, 
apresentando uma variação que vai além da faixa encontrada na 
maioria dos indivíduos, falamos de um Transtorno da 
Personalidade. Estequadro deve ser distinguido daqueles 
indivíduos que apresentam alguns traços de caráter típicos de um 
ou outro transtornos da personalidade, sem necessariamente 
apresentarem sofrimento significativo, ou se distanciarem da 
faixa da maioria das pessoas. Em outras palavras, todos nós 
apresentamos traços de caráter, ou obsessivos, ou histéricos, e 
assim por diante, mas apenas os verdadeiros “neuróticos” podem 
ser vistos como possuindo Transtornos da Personalidade. 
 
No caso da personalidade obsessivo-compulsiva, é característica a 
presença de construção emocional, organização, perseverança, 
obstinação e indecisão, com um padrão inflexível de 
perfeccionismo. Esse padrão invasivo de preocupação com 
organização, perfeccionismo e controle mental e interpessoal 
restringe a eficácia, a flexibilidade e a abertura, estando presente 
em uma variedade de contextos. O DSM-IV exige pelo menos 4 
entre 8 critérios para o diagnóstico, entre eles: rigidez e teimosia, 
incapacidade para desfazer-se de objetos usados ou inúteis, 
devotamento excessivo ao trabalho (exceto quando explicado por 
uma evidente necessidade econômica) e preocupação excessiva 
com detalhes, regras, listas, ordem, organização ou horários (a 
ponto de perder o ponto principal da atividade). 
 
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Esses casos são de difícil manejo em terapia, exibindo enorme 
resistência à mudança. Embora haja sofrimento significativo, 
essas pessoas geralmente tendem a responsabilizar os outros por 
seu sofrimento, considerando-se sempre “corretos”, e irritando-
se facilmente com atitudes diversas das suas próprias. Os 
mecanismos de defesa utilizados geralmente incluem a projeção, 
estando sempre “voltados para fora”, em contraste com os 
histéricos, que embora sejam extremamente “teatrais”, estão 
geralmente “voltados para dentro”. 
 
A HISTERIA: TRANSTORNOS SOMATOFORMES E TRANSTORNOS 
DISSOCIATIVOS 
 
A História da Histeria 
 
Embora o termo histeria seja extremamente inadequado, estando 
abolido das classificações atuais, a história dos transtornos 
antigamente englobados sob esta denominação justifica a sua 
presença marcante em qualquer discussão que envolva o 
psiquismo humano, em especial a Psicanálise. Freud 
fundamentou praticamente todo o seu extenso conjunto teórico 
sobre a mente humana nos estudos minuciosos que empreendeu 
sobre a histeria, suas manifestações, seus mecanismos e sua 
gênese, e até hoje a aplicação mais bem sucedida para a 
Psicanálise (enquanto modalidade terapêutica) continua sendo a 
histeria, em suas diversas “expressões clínicas”. 
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O termo origina-se do grego histeron, útero (muitas vezes referido 
como “matriz”), por acreditar-se inicialmente ser uma afecção 
exclusiva das mulheres, sendo explicada inicialmente (por 
Hipócrates, no século V a.C.) como um deslocamento daquele no 
interior do corpo da mulher. Platão, contemporâneo de 
Hipócrates, comparava o útero a “um animal que deseja 
ardentemente engendrar crianças”, e atribuía (como muitos o 
fizeram) as manifestações da histeria à falta de reprodução na 
mulher após a puberdade. 
 
Tais suposições levaram a recomendações como o casamento, a 
masturbação, e até mesmo o uso de odores fétidos, ao mesmo 
tempo em que se aplicavam na região vaginal aromas agradáveis 
(para “atrair” o útero de volta ao seu local anatômico)! Estes e 
outros mitos persistiram de modo intenso e irredutível até Freud, 
embora antes dele alguns pesquisadores já anotassem inclusive a 
existência da histeria masculina, como Charles Lepois e Thomas 
Sydenham, no século XVIII, e Briquet, em meados do século XIX. 
Mesmo assim, por muito tempo Freud foi ridicularizado e 
menosprezado por seus colegas, ao tentar mostrar as suas 
conclusões, em especial por falar abertamente sobre a histeria em 
homens! (Freud, 1925). 
 
Os “grandes ataques histéricos”, tão comuns à época das 
investigações Freudianas, tornaram-se raros no pós-guerra e nas 
décadas seguintes (Cf. Fenichel, 1981, pág. 204), mas têm voltado 
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a se tornarem frequentes, hoje principalmente na forma dos 
Transtornos de Conversão e de Somatização, mas também como 
Transtornos Dissociativos. 
 
Uma Descrição Freudiana de Uma Paciente Histérica 
 
Vale a pena, para iniciarmos o estudo dos sintomas histéricos e de 
sua gênese, reproduzir aqui trechos da descrição feita por Freud 
do caso da Srta. Bertha Pappenheim (cujo pseudônimo, utilizado 
por Breuer e Freud em seus escritos, era “Ana O.”), na primeira 
das “Cinco Lições de Psicanálise” (1910): 
 
A paciente do Dr. Breuer, uma jovem de 21 anos, de altos dotes 
intelectuais, manifestou no decurso de sua doença, que durou 
mais de dois anos, uma série de perturbações físicas e psíquicas 
mais ou menos graves. Tinha uma paralisia espástica de ambas as 
extremidades do lado direito, com anestesia, sintoma que se 
estendia por vezes aos membros do lado oposto; perturbações 
dos movimentos oculares e várias alterações da visão; dificuldade 
em manter a cabeça erguida; tosse nervosa intensa; repugnância 
pelos alimentos e impossibilidade de beber durante várias 
semanas, apesar de uma sede martirizante; redução da faculdade 
de expressão verbal, que chegou a impedi-la de falar ou entender 
a língua materna; e, finalmente, estados de “absence” (ausência), 
de confusão, de delírio e de alteração total da personalidade, aos 
quais voltaremos mais adiante a nossa atenção. 
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Podemos também acrescentar, consoante a história clínica, não 
só que a afecção lhe apareceu quando estava tratando do pai, que 
ela adorava e cuja grave doença havia de conduzi-lo à morte, 
como também que ela, por causa de seus próprios padecimentos, 
teve de abandonar a cabeceira do enfermo. 
... 
Havia-se notado que nos estados de “absence” (alteração da 
personalidade acompanhada de confusão), costumava a doente 
murmurar algumas palavras que pareciam relacionar-se com 
aquilo que lhe ocupava o pensamento. O médico, que anotava 
essas palavras, colocou a moça numa espécie de hipnose e 
repetiu-as, para incitá-la a associar ideias. A paciente entrou, 
assim, a reproduzir diante do médico as criações psíquicas que a 
tinham dominado nos estados de “absence” e que se haviam 
traído naquelas palavras isoladas. Eram fantasias profundamente 
tristes, muitas vezes de poética beleza – devaneios, como podiam 
ser chamadas – que tomavam habitualmente como ponto de 
partida a situação de uma jovem à cabeceira do pai doente. 
Depois de relatar certo número dessas fantasias, sentia-se ela 
como que aliviada e reconduzida à vida normal. Esse bem-estar 
durava muitas horas e desaparecia no dia seguinte para dar lugar 
a nova “absence”, que cessava do mesmo modo pela revelação 
das fantasias novamente formadas. É forçoso reconhecer que a 
alteração psíquica manifestada durante as “absences” era 
conseqüência da excitação proveniente dessas fantasias 
intensamente afetivas. A própria paciente, que nesse período da 
moléstia só falava e entendia inglês, deu a esse novo gênero de 
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tratamento o nome de “talking cure” (cura de conversação), 
qualificando-o também, por gracejos, de “chimney sweeping” 
(limpeza da chaminé). 
 
Verificou-selogo, como por acaso, que, limpando-se a mente por 
esse modo, era possível conseguir alguma coisa mais que o 
afastamento passageiro das repetidas perturbações psíquicas. 
Pode-se também fazer desaparecer sintomas quando, na hipnose, 
a dente recordava, com exteriorização afetiva, a ocasião e o 
motivo do aparecimento desses sintomas pela primeira vez. Tinha 
havido, no verão, uma época de calor intenso e a paciente sofria 
de sede horrível, pois sem que pudesse explicar a causa, viu-se, de 
repente, impossibilitada de beber. Tomava na mão o cobiçado 
copo de água, mas assim que o tocava com os lábios, repetia-o 
como hidrófoba. Nesses poucos segundos, ela se achava 
evidentemente em estado de absence. Para mitigar a sede que a 
martirizava, vivia somente de frutas, melões etc. Quando isso já 
durava perto de seis semanas, falou, certa vez, durante a hipnose, 
a respeito de sua “dama de companhia” inglesa, de quem não 
gostava, e contou então com demonstrações de maior 
repugnância que, tendo ido ao quarto dessa senhora, viu, 
bebendo num copo, o seu cãozinho, um animal nojento. Nada 
disse, por polidez. Depois de exteriorizar energicamente a cólera 
retida, pediu de beber, bebeu sem embaraço grande quantidade 
de água e despertou da hipnose com o copo nos lábios. A 
perturbação desapareceu definitivamente. 
 
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... as perturbações visuais da doente remontavam a situações 
como aquelas em que, estando a paciente com os olhos 
marejados de lágrimas, junto ao leito do enfermo, perguntou-lhe 
este, de repente, que horas eram, e, não podendo ela ver 
distintamente, forçou a vista, aproximando dos olhos o relógio, 
cujo mostrador lhe pareceu então muito grande – devido à 
macropsia e ao estrabismo convergente. Ou se esforçou em 
reprimir as lágrimas para que o enfermo não as visse. Todas as 
impressões patogênicas provinham, aliás, do tempo em que ela se 
dedicava ao pai doente. Uma noite revelava muito angustiada 
junto ao doente febricitante e estava em grande ansiedade 
porque se esperava de Viena um cirurgião para operá-lo. Sua mãe 
ausentara-se por algum tempo e Anna, sentada à cabeceira do 
doente, pôs o braço direito sobre o espaldar da cadeira. Caiu em 
estado de semissono e viu, como se viesse da parede, uma cobra 
negra que se aproximava do enfermo para mordê-lo. (É muito 
provável que no campo situado atrás da casa algumas cobras 
tivessem de fato aparecido, assustando anteriormente a moça e 
fornecendo agora o material de alucinação). Ela quis afastar o 
ofídio, mas estava como que paralisada; o braço direito, que 
pendia no espaldar, achava-se “adormecido”, insensível e 
parético, e, quando ela o contemplou, transformaram-se os dedos 
em cobrinhas cujas cabeças eram caveiras (as unhas). 
Provavelmente procurou afugentar a cobra com a mão direita 
paralisada e por isso a anestesia e a paralisia da mesma se 
associaram com a alucinação da serpente. 
 
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Quando esta desapareceu, aterrorizada, quis rezar, mas não 
achou palavras em idioma algum, até que, lembrando-se duma 
poesia infantil em inglês, pode pensar e rezar nessa língua. Com a 
reconstituição dessa cena durante a hipnose foi removida a 
paralisia espástica do braço direito, que existia desde o começo da 
moléstia, e teve fim o tratamento. 
 
Esta é apenas uma descrição parcial do caso, sendo fortemente 
recomendada a leitura e estudo do caso “na íntegra”, como 
apresentado em “Estudos Sobre a Histeria” (Breuer e Freud, 
1895). 
 
As Múltiplas Apresentações da Histeria 
 
O caso de “Anna O.” mostra apenas alguns aspectos clínicos do 
que era englobado no diagnóstico da histeria, talvez os aspectos 
mais conhecidos, hoje denominados de Transtornos de 
Conversão. No entanto, eram também consideradas histéricas as 
pacientes com múltiplas queixas somáticas, hoje classificadas sob 
o nome de Transtornos de somatização, e as com dissociações nos 
seus diversos “níveis de intensidade”, classificados hoje no grupo 
dos Transtornos Dissociativos. Vamos, então, relembrar cada um 
desses aspectos, separadamente. 
 
 
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Transtornos de Somatização 
 
No Transtorno de Somatização, o paciente apresenta múltiplos 
sintomas somáticos, que não podem ser explicados por exames 
físicos e exames auxiliares. A multiplicidade de sintomas, e os 
múltiplos sistemas orgânicos “afetados” o diferenciam dos demais 
transtornos somatoformes, principalmente no transtorno 
conversivo. Caracteristicamente, é um transtorno crônico, que 
leva o paciente a múltiplas consultas médicas, com múltiplos 
especialistas, e a submeter-se a múltiplos exames auxiliares, 
muitas vezes bastante dolorosos, ou no mínimo desconfortáveis, 
o que pode aumentar ainda mais o sofrimento do paciente. 
 
Para o diagnóstico de Transtorno de Somatização, é necessário o 
aparecimento de vários sintomas, entre eles a dor (pelo menos 
em quatro locais ou relacionada a funções diferentes), sintomas 
gastrointestinais (pelo menos dois sintomas diferentes), sintomas 
sexuais (que não há dor), e sintomas “pseudoneurológicos” 
(também não limitados à dor), com início antes da idade de 30 
anos, ocorrendo por um período de vários anos. Falta de ar (não 
relacionada a esforço) e “palpitações” também são comuns. 
 
Na somatização, o sintoma não traduz uma simbologia a respeito 
do conflito que o origina, mas sim uma alexitimia, ou seja, uma 
dificuldade inerente da pessoa em representar verbalmente ou 
simbolicamente os seus sofrimentos. 
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Isso contrasta diretamente com a conversão, aonde podemos 
identificar nos sintomas uma expressão simbólica do conflito 
emocional inconsciente. 
 
Transtorno de Conversão 
 
O Transtorno Conversivo caracteriza-se pela presença de um ou 
mais sintomas neurológicos, que não podem ser explicados por 
uma condição neurológica conhecida, nem detectada por exames 
auxiliares. A especificidade dos sintomas, exclusivamente 
neurológicos, diferencia a conversão da somatização, onde 
podem existir sintomas neurológicos, porém sempre 
acompanhados de sintomas relativos a outros órgãos ou sistemas. 
 
Os sintomas, como paralisias, cegueira, distúrbios da fala, 
tonturas, ou convulsões, entre outros, podem tornar difícil a 
diferenciação com patologias realmente neurológicas, tornando 
obrigatória a avaliação por um especialista, que muitas vezes 
pode ter dificuldade para descartar completamente algum 
distúrbio neurológico orgânico. 
 
O Transtorno Conversivo tende a ser agudo (contrastando com a 
Somatização), com a resolução espontânea dos sintomas, quase 
sempre em alguns dias, ou no máximo em um mês. Em 
aproximadamente 25% dos casos o transtorno é recorrente, 
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sendo indicado o tratamento psicanalítico. Muitas vezes, no 
entanto, uma abordagem mais breve, mesmo de inspiração 
psicanalítica, abordando apenas os aspectos mais diretamente 
ligados àquela “crise” específica, é suficiente para a resolução do 
problema. 
 
Os médicos tendem a desprezar as crises de conversão, e tal 
atitude não se modificou muito desde a época de Freud. Vejamos 
um trecho das “Cinco Lições de Psicanálise” (Freud, 1910), e 
comparemos com a atitude que pode ser observada na grande 
maioriados atendimentos médicos atuais: 
 
Ao terem notícia de semelhante quadro mórbido, os senhores 
tenderão, mesmo não sendo médicos, a supor que se trate de uma 
doença grave, provavelmente do cérebro, com poucas esperanças 
de cura, e que levará rapidamente o enfermo a um desenlace 
fatal. Os médicos podem, entretanto, assegurar-lhes que, numa 
série de casos com fenômenos da mesma gravidade, justifica-se 
outra opinião muito mais favorável. Quando tal quadro mórbido 
é encontrado em indivíduo jovem do sexo feminino, cujos órgãos 
vitais internos (coração, rins, etc.) nada revelam de anormal ao 
exame objetivo, mas que sofreu no entanto violentos abalos 
emocionais, e quando, em certas minúcias, os sintomas se 
afastam do comum, já os médicos não consideram o caso tão 
grave. Afirmam que não se trata de uma afecção cerebral 
orgânica, mas desse enigmático estado que desde o tempo da 
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medicina grega é denominado histeria e que pode simular todo 
um conjunto de graves perturbações. Nesses casos não 
consideram a vida ameaçada e até acham provável o 
restabelecimento completo. 
... 
Não devem os senhores esperar que o diagnóstico de histeria, em 
substituição ao de afecção cerebral orgânica grave, possa 
melhorar consideravelmente para o doente a perspectiva de um 
auxílio médico. Se a medicina é o mais das vezes impotente em 
face das lesões cerebrais orgânicas, diante da histeria o médico 
não sabe, do mesmo modo, o que fazer, tendo de confiar à 
providencial natureza a maneira e a ocasião em que se há de 
cumprir seu esperançoso prognóstico. 
 
Com o rótulo de histeria pouco se altera, portanto, a situação do 
doente, enquanto para o médico tudo se modifica. Pode-se 
observar que este se comporta para com o histérico de modo 
completamente diverso que para com o que sofre de uma doença 
orgânica. Nega-se a conceder ao primeiro o mesmo interesse que 
dá ao segundo, pois não obstante as aparências, o mal daquele é 
muito menos grave. Mas acresce outra circunstância: o médico, 
que, por seus estudos, adquiriu tantos conhecimentos vedados 
aos leigos, pode formar uma ideia da etiologia das doenças e de 
suas lesões, como, por exemplo, nos casos de apoplexia ou de 
tumor cerebral, ideia que até certo ponto deve ser exata, pois lhe 
permite compreender os pormenores do quadro mórbido. 
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Em face, porém, das particularidades dos fenômenos histéricos, 
todo o seu saber e todo o seu preparo em anatomia, fisiologia e 
patologia deixam-no desamparado. Não pode compreender a 
histeria, diante da qual se sente como um leigo, posição nada 
agradável a quem tenha em alta estima o próprio saber. Os 
histéricos ficam, assim, privados de sua simpatia. Ele os considera 
como transgressores das leis de sua ciência, tal como os crentes 
consideram os hereges: julga-os capazes de todo mal, acusa-os de 
exagero e de simulação, e pune-os com lhes retirar seu interesse. 
 
Talvez algumas características comuns às pessoas histéricas (ou 
melhor, com Transtorno de Conversão) facilitem esta atitude 
lamentável. Uma delas, embora não seja exclusiva deste 
transtorno nem estar presente em todos os indivíduos 
“conversivos”, é a chamada belle indifférence, uma atitude 
inadequadamente altiva do paciente diante de um sintoma sério. 
Outro fator que pode incitar o “repúdio” da maioria dos médicos 
é a tendência à “teatralidade” dos histéricos, o que dá, em 
conjunto com a belle indifférence, uma falsa impressão de 
simulação, como se o paciente estivesse voluntariamente e 
conscientemente produzindo aqueles sintomas. O fato de sempre 
haver um ganho secundário, ou seja, vantagens e benefícios 
evidentes que o paciente obtém com seus sintomas (diferentes do 
ganho primário, que é a manutenção do conflito básico fora do 
alcance da consciência), como dispensa do trabalho, atenção e 
carinho das pessoas próximas, contribui ainda mais para que os 
 
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profissionais de saúde se sintam “enganados”, quando na verdade 
o sofrimento do paciente é real e intenso. 
 
Transtornos Dissociativos 
 
Também incluídos no quadro da histeria estavam os Transtornos 
Dissociativos, incluindo a Amnésia e a Fuga Dissociativas, o 
Transtorno Dissociativo de Identidade (Personalidades Múltiplas), 
o Transtorno de Despersonalização, e o Transe Dissociativo. Como 
vimos em Psiquiatria, a dissociação patológica surge, 
provavelmente, como uma defesa psíquica contra um trauma, 
seja físico ou emocional. O grau de dissociação, e a maneira 
individual de cada paciente reagir, determinam a formação de 
síndromes distintas. 
 
Poderíamos imaginar uma “escala de gravidade” entre os 
sintomas dissociativos, desde os mais “leves”, como o transe e a 
despersonalização (chamadas de “absences” no caso de “Anna 
O.”, acima), até o mais grave, a Personalidade Múltipla. Todos 
estes, no entanto, são aspectos de um mesmo problema, de 
origem aparentemente psicodinâmica “exclusiva”, não havendo 
evidências até agora que apontem para uma causa “orgânica”, 
mesmo no Transtorno Dissociativo de Identidade, embora a 
gravidade e exuberância do quadro lembrem a esquizofrenia e 
outros quadros “psicóticos”. 
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Recordando os quadros específicos, o transtorno de 
despersonalização caracteriza-se por episódios persistentes e 
recorrentes, ego-distônicos, em que os pacientes se sentem 
mecânicos, em sonho, ou distanciados do próprio ego, mas 
percebem a irrealidade de seus sintomas. As sensações podem 
incluir alterações corporais, como sentir que suas extremidades 
estão maiores ou menores que o normal, ou até duplicação, 
sentindo-se “fora do corpo” ou até em dois lugares ao mesmo 
tempo. 
 
O transe dissociativo é caracterizado por perturbações episódicas 
ou isoladas do estado de consciência, identidade ou memória, 
com ou sem a substituição do sentimento costumeiro de 
identidade pessoal por uma nova identidade (“possessão”), que 
não seja aceito como componente normal de uma prática cultural 
ou religiosa. Envolve o estreitamento da consciência, movimentos 
ou comportamentos estereotipados “involuntários”, ou amnésia 
(total ou parcial) para o evento. 
 
Na amnésia dissociativa os fenômenos de dissociação estão 
limitados à memória. Basicamente, o paciente perde a capacidade 
para recordar informações já armazenadas em sua memória, 
geralmente aquelas que dizem respeito a um evento traumático 
ou estressante. A capacidade para aprender novas informações, 
no entanto, é mantida. 
 
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Na fuga dissociativa o paciente, além de perder a memória de seu 
nome, família, passado, etc., afasta-se fisicamente de seu lar 
habitual, trabalho e locais costumeiramente frequentados, muitas 
vezes assumindo uma identidade completamente nova, embora 
essa identidade, em geral, seja menos completa do que as 
personalidades alternativas vistas no transtorno dissociativo de 
identidade, além de não haver uma alternância entre as 
identidades antiga e nova. O paciente, durante o período de fuga, 
tem completa amnésia para a sua vida e ligações passadas, mas 
não tem consciência plena de ter se esquecido de algo, e não 
perde capacidades anteriores aprendidas. Em geral, não dá 
mostras de estar comportando-seque incluíam evitar certos prédios enquanto atravessava o 
campus, sentar-se sempre no terceiro assento da quinta fileira em 
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sua sala de aula e alinhar seus livros e lápis em uma certa 
configuração sobre, antes de estudar. 
 
CASO 7 (Fenichel, 1981) 
 
Um rapaz de dezessete anos tornou-se neurótico em virtude do 
conflito que teve com a masturbação. Durante certo tempo, 
masturbou-se sem sentimento algum de culpa, chegando até, 
muitas vezes, a olhar para os companheiros de escola que se 
compraziam na masturbação mútua. Depois ouviu um sacerdote 
proferir um sermão em que aconselhava todos a se afastarem de 
quem quer que se masturbasse. Visto que sua genitalidade infantil 
fora inibida por medo excessivo da castração, o paciente tomou 
muito a sério o sermão e resolveu seguir-lhe o conselho, deixando 
de falar com um rapaz que, segundo sabia, se masturbava muito. 
Conseguiu, durante algum tempo, manter a resolução formada, 
mas, depois, para evitar o contato com o rapaz, desenvolveu 
certas fobias e procedimentos compulsivos que mantivessem a 
distância. Primeiramente, sempre que encontrava o outro, tinha 
de cuspir; a análise nunca chegou a clarificar uma resolução 
obsessiva quanto ao número de vezes que tinha de cuspir. 
 
A fobia disseminou-se; o paciente absteve-se de todo contato com 
a família e os amigos do “Evitado”. (O paciente deu ao outro rapaz 
este nome para não ter que usar-lhe o nome). A seguir, como o 
Evitado era filho de um barbeiro, passou a evitar as barbearias. 
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Mais adiante, chegou a evitar contato com pessoas que 
frequentavam barbearias; e sentiu-se obrigado a não passar no 
bairro da cidade onde se localizava a barbearia do pai do 
“Evitado”. 
 
Daí por diante, a neurose inteira desenvolveu-se com rapidez em 
“neurose de isolamento”. O rapaz estabeleceu, compulsivamente, 
que os membros da família, principalmente as mulheres (avó, mãe 
e irmã) não devia passar naquela vizinhança proibida, o que o fez 
sofrer muito porque as parentes não se dispuseram a aceitar esta 
restrição da sua liberdade. O paciente seguiu implicitamente a sua 
própria proibição, mas quanto mais estritamente limitava seus 
atos, mais intensamente era obrigado a pensar, obsessivamente, 
no bairro proibido da cidade. Não é difícil compreender que isso o 
fez sofrer, mas a explicação que deu do seu sofrimento foi 
inesperada: era penoso, disse ele, porque em casa via a mãe e a 
avó, daí por que não devia pensar nos locais nem nas pessoas 
proibidas. Se bem que percebesse a relação entre a sua doença e 
a masturbação, a conexão lhe escapava. Deixara de masturbar-se 
sem maior dificuldade aparente, mas, no lugar dela, cada vês se 
tornou mais nítido o esforço neurótico que fazia para manter a 
ideia “membro da família” separada das pessoas e locais 
desagradáveis ou “incompatíveis”, esforço que visava a isolar 
estas ideias umas das outras. 
 
 
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O isolamento veio a tornar-se o tópico principal da neurose. O 
paciente considerava lícito pensar nas coisas “incompatíveis”, mas 
procurava não pensar nas pessoas “compatíveis” ao mesmo 
tempo, desta forma demonstrando que o Complexo de Édipo era 
o conteúdo da atividade masturbatória. A elaboração deste 
esforço por parte do ego, que queria defender-se contra o 
complexo de Édipo mediante o isolamento, levou o paciente, 
dentro de poucos meses, a neurose, obsessiva das mais severas. 
 
O paciente assemelhava-se ao homem da peça de Wedekind que, 
segundo se supunha, não devia pensar em urso. Sempre que 
pensava no “Evitado”, pensava imediatamente, na avó, sintoma 
tormentoso que denominou de “conexão”. Conseguiu usar uma 
defesa com que o manipular, a saber, uma chamada 
“desconexão”, o que constitui um bom exemplo do mecanismo de 
“anulação”. Depois de haver pensado, ao mesmo tempo, num 
local proibido e numa pessoa compatível, desde que conseguisse, 
porém, formar uma imagem mental da coisa incompatível 
completamente isolada e liberta de todos os anexos compatíveis, 
tudo entrava nos eixos novamente e o paciente acalmava-se. Não 
tardou muito a deixar-se absorver na construção de 
“desconexões” o dia inteiro. 
 
Surgiram, a seguir, dois outros componentes que tenderam a 
aumentar a severidade da neurose obsessiva disseminada: 
 
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extensão imensa do campo da sintomatologia e invasão dos 
sintomas pelos impulsos rejeitados. 
 
A divisão dos objetos em compatíveis e incompatíveis pouco a 
pouco veio a abranger todas as pessoas, todos os lugares. Assim, 
por exemplo, os “colegas” tornaram-se “incompatíveis”; os 
parentes tornaram-se “afins”; todas as outras pessoas, mediante 
associações superficiais, foram colocadas numa ou noutra 
categoria, sujeitas, por conseguinte, a conexões e desconexões. 
 
Sofrida que fosse uma conexão, o paciente não conseguia sair do 
lugar onde por acaso estava, nem conseguia interromper a 
atividade em que estivesse, no momento, empenhado, sem ter, 
antes, completado a desconexão, situação esta que lhe era muito 
angustiante. Assim, sempre se mostrava problemática a 
possibilidade de levantar-se do divã, terminada a entrevista 
analítica; e durante a hora inteira que esta tomava, torturava-o o 
medo de vê-la acabar justamente entre uma conexão e uma 
desconexão. Enfim, a própria defesa veio a exprimir os impulsos 
rejeitados. A compulsão a desconectar obrigava o paciente a ter 
bastante pessoas, lugares e coisas compatíveis à sua disposição. O 
desejo de acabar rapidamente com a tensão tormentosa fez voltar 
da repressão o material reprimido. O paciente pôs-se a frequentar 
lugares incompatíveis, anotando com cuidado as pessoas 
incompatíveis, de modo a tê-las sempre à disposição em caso de 
necessidade. 
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Mas não lhe foi possível fazer a mesma coisa com todos os objetos 
incompatíveis. O Evitado, por exemplo, continuou a ser evitado. 
Com o tempo, o paciente veio a ter uma série graduada de 
diferenciações: haviam objetos que eram fobicamente evitados 
por serem de todo incompatíveis; mas haviam outros menos 
incompatíveis que ele procurava e que precisava ter à disposição; 
mais ainda: objetos um tanto indiferentes, ligeiramente 
compatíveis e absolutamente compatíveis. Por fim, 
conscientemente, esforçou-se por só pensar em objetos 
incompatíveis na esperança de que, assim, produziria com mais 
facilidade a desconexão. Como a ideia de “objetos incompatíveis” 
representava “masturbação”, o paciente estava, então, 
inconscientemente, a masturbar-se de maneira incessante. Aliás, 
quando máxima lhe era a tensão e não conseguia produzir 
desconexão malgrado todos os esforços, acontecia-lhe, às vezes, 
para sua grande surpresa, ter uma ejaculação. 
 
CASO 8 (Freud, 1886): 
 
O paciente, ..., gravador de 29 anos, é a pessoa que está diante 
dos senhores: um homem inteligente, que de pronto se ofereceu 
para ser examinado por mim, na esperança de uma rápida 
recuperação. 
 
Permitam-me que comece por um relato de sua história familiar e 
de sua história pessoal. 
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O paido paciente, aos 48 anos de idade, morreu da doença de 
Bright; trabalhava numa adega, bebia muito e tinha 
temperamento violento. Sua mãe morreu, aos 46 anos, de 
tuberculose. Soube-se que ela sofria muito de dores de cabeça, 
quando jovem: o paciente nada tem a dizer sobre ataques 
convulsivos ou algo semelhante. O casal teve seis filhos, dos quais 
o primeiro levou uma vida irregular e faleceu de uma afecção 
sifilítica cerebral. O segundo filho tem interesse especial para nós; 
ele desempenha um papel na etiologia da doença do seu irmão e 
parece que ele próprio era histérico. Contou ao nosso paciente 
haver sofrido de ataques convulsivos; e, por uma estranha 
coincidência, nesse mesmo dia, encontrei um colega de Berlim 
que tratara desse irmão, em Berlim, durante uma enfermidade, e 
havia diagnosticado que ele sofria de histeria – diagnóstico este 
que também foi confirmado num hospital daquela cidade. O 
terceiro filho desapareceu desde que desertou do exército; o 
quarto e o quinto morreram em tenra idade, e o último é o nosso 
paciente. 
 
Nosso paciente teve um desenvolvimento normal na infância, 
nunca sofreu convulsões infantis e teve as doenças comuns de 
crianças. Aos oito anos, teve a infelicidade de ser atropelado na 
rua; sofreu ruptura do tímpano direito, com permanente déficit 
da audição do ouvido direito, e foi acometido de uma doença que 
durou diversos meses, durante a qual sofria frequentes desmaios, 
cuja natureza atualmente já não é possível descobrir. Esses 
desmaios continuaram por uns dois anos. 
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Desse acidente adveio um certo embotamento intelectual, que o 
paciente afirma ter sido notado em seu rendimento escolar, e 
uma tendência a sensações vertiginosas sempre que, por alguma 
razão, se sentia indisposto. Mais tarde, completou o curso 
primário; após a morte dos pais, passou a aprendiz de gravador; 
um dado que fala muito a favor de seu caráter é o fato de ter 
permanecido como artífice e empregado do mesmo mestre de 
ofício durante 10 anos. Considera-se pessoa cujos pensamentos 
estavam total e unicamente voltados para a perfeição de seu 
habilidoso ofício e que, com esse fim em vista, leu muito e 
exercitou-se no desenho, não se permitindo relacionamentos 
sociais nem divertimentos. Via-se obrigado a refletir muito acerca 
de si mesmo e de suas ambições e, por fazê-lo com tanta 
frequência, caía num estado de excitada fuga de ideias, no qual 
ficava alarmado a respeito de sua saúde mental; seu sono muitas 
vezes era agitado e sua digestão fazia-se lenta por causa de seu 
modo de vida sedentário. Sofreu de palpitações durante os 
últimos nove anos; mas, afora isto, era sadio e jamais precisou 
interromper seu trabalho. 
 
Sua doença atual começou há uns três anos. Nessa época, teve um 
desentendimento com o irmão que levava uma vida desregrada, 
porque este se recusou a lhe pagar uma soma em dinheiro que o 
paciente lhe emprestara. O irmão ameaçou apunhalá-lo e 
avançou contra ele com uma faca. Isto causou ao paciente um 
medo indescritível; sentiu um zumbido na cabeça, como se ela 
fosse estourar; correu para casa, sem poder contar como foi que 
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chegou lá, e caiu no chão, inconsciente, em frente à porta de casa. 
Depois, ouviu dizer que, durante duas horas, tinha tido violentos 
espasmos, durante os quais falara da cena com seu irmão. Quando 
voltou a si, sentia-se muito fraco; durante as seis semanas 
seguintes, sofreu de violentas dores no lado esquerdo da cabeça 
e pressão intracraniana. Parecia-lhe alterada a sensibilidade na 
metade esquerda do corpo, e seus olhos se cansavam facilmente 
no trabalho, que ele retomou em seguida. Com algumas 
oscilações, seu estado ficou sendo este durante três anos, até que, 
há sete semanas, uma nova agitação causou uma mudança para 
pior. O paciente foi acusado de roubo por uma mulher, teve 
palpitações violentas e, por uns quinze dias, esteve tão deprimido 
que pensou em suicídio; ao mesmo tempo, um tremor muito 
intenso tomou conta de seus membros esquerdos. A metade 
esquerda de seu corpo ficou como se tivesse sido afetada por um 
pequeno acidente cerebral; seus olhos se enfraqueceram muito e 
frequentemente faziam-no ver tudo cinza; seu sono era 
interrompido por aparições terrificantes e sonhos nos quais 
pensava estar caindo de uma grande altura; começaram a surgir 
dores no lado esquerdo da garganta, na virilha esquerda, na região 
sacra e em outras áreas; seu estômago, com frequência, estava 
“como se tivesse estourado”, e ele se viu obrigado a parar de 
trabalhar. Outra piora em todos esses sintomas data da última 
semana. Além disso, o paciente está sujeito a dores violentas no 
joelho esquerdo e na planta do pé esquerdo, quando caminha 
durante algum tempo; tem uma sensação peculiar na garganta, 
como se a língua estivesse presa, ouve frequentes zumbidos nos 
ouvidos, e outras coisas dessa natureza. 
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Sua memória está prejudicada quanto aos acontecimentos 
ocorridos durante sua doença; quanto aos eventos anteriores à 
doença, porém, não apresenta problemas. Os ataques sob forma 
de convulsões repetiram de seis a nove vezes durante os três 
anos; contudo, a maior parte deles foi muito benigna; somente 
um ataque, à noite, no último mês de agosto, acompanhou-se de 
“agitação” com bastante gravidade. 
 
Agora examinemos o paciente: um homem bastante pálido, de 
compleição média. O exame de seus órgãos internos nada revela 
de patológico, exceto bulhas cardíacas abafadas. Quando 
comprimo o ponto de saída dos nervos supra-orbital, infra-orbital 
ou no mento, do lado esquerdo, o paciente volta a cabeça por uma 
expressão de dor intensa. Podemos, portanto, supor que há uma 
alteração nevrálgica do trigêmeo esquerdo. Também a abóbada 
craniana é muito sensível à percussão na sua metade esquerda. A 
pele da metade esquerda da cabeça comporta-se, no entanto, de 
modo muito diferente do que esperávamos: está completamente 
insensível a estímulos de qualquer espécie. Posso aplicar-lhe 
alfinetada, beliscá-la, torcer o lobo da orelha entre meus dedos, 
sem que o paciente chegue sequer a perceber o contato. Aqui, 
pois, existe um grau muito elevado de anestesia; esta, contudo, 
atinge não só a pele como também as membranas mucosas, 
conforme lhes mostrarei no caso dos lábios e da língua do 
paciente. Se introduzo um rolinho de papel em seu canal auditivo 
externo esquerdo e depois em sua narina esquerda, não se produz 
nenhuma reação. 
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Repito agora a experiência no lado direito e mostro que aqui a 
sensibilidade do paciente é normal. Em consonância com a 
anestesia, os reflexos sensoriais também estão abolidos ou 
diminuídos. Assim, posso introduzir meu dedo e tocar todos os 
tecidos faríngeos do lado esquerdo, sem que resultem ânsias de 
vômito; os reflexos faríngeos do lado direito, contudo, também se 
encontram diminuídos; apenas quando toco a epiglote no lado 
direito é que se dá uma reação. O toque da conjuntiva palpebral e 
ocular mal produz o fechamento das pálpebras; por outro lado, o 
reflexo corneano está presente, embora muito reduzido. Aliás, os 
reflexos conjuntivais e corneano do lado direito também estão 
diminuídos, embora em grau menor; e esse comportamento dos 
reflexos é suficiente para me possibilitar a conclusão de que os 
distúrbios da visão não se limitam necessariamentea um olho (o 
esquerdo). E, realmente, quando pela primeira vez examinei o 
paciente, ele mostrava em ambos os olhos a peculiar poliopia 
monocular dos pacientes histéricos e distúrbios da sensibilidade 
às cores. Com o olho direito, reconhecia todas as cores, exceto o 
roxo, que dizia ser cinzento; com o olho esquerdo, reconhecia 
apenas o vermelho-claro e o amarelo-claro, ao passo que 
considerava todas as outras cores como cinzento, quando eram 
claras, e como preto, quando escuras. O Dr. Konigstein teve a 
gentileza de submeter o paciente a um minucioso exame 
oftalmológico e posteriormente relatará suas conclusões. 
Passando aos outros órgãos dos sentidos, o olfato e o paladar 
estão inteiramente anulados do lado esquerdo. Somente a 
audição foi poupada da hemianestesia cerebral. 
 
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Convém lembrar que a acuidade do ouvido direito ficou 
seriamente prejudicada desde que o paciente sofreu um acidente, 
aos oito anos de idade; seu ouvido esquerdo é o melhor; a 
redução da audição nele presente é (segundo uma gentil 
comunicação do Professor Gruber) suficientemente explicada por 
uma visível e substancial afecção da membrana timpânica. 
 
Se procedermos agora a um exame do tronco e dos membros, 
verificaremos também uma anestesia absoluta, sobretudo no 
braço esquerdo. Como vêem, consigo espetar a ponta de uma 
agulha numa dobra da pele sem que o paciente reaja. As 
estruturas profundas – músculos, ligamentos e articulações – 
também devem estar insensíveis em grau igualmente elevado, 
pois posso mover a articulação do punho e estirar os ligamentos 
sem provocar qualquer sensação no paciente. É consoante com 
essa anestesia das estruturas profundas o fato de que o paciente, 
quando seus olhos são vedados, também não tem noção da 
posição do seu braço esquerdo no espaço, nem de qualquer 
movimento que executo com ele. Passo uma venda em seus olhos 
e depois lhe pergunto o que fiz com sua mão esquerda. Ele não 
consegue dizer. Peço-lhe que, com a mão direita, segure o 
polegar, o cotovelo ou o ombro esquerdo. Ele tateia às cegas, 
confunde sua própria mão com a minha, que lhe estendo, e então 
admite que não sabe a quem pertence a mão que segurou. 
 
 
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Deve ser particularmente interessante descobrir se o paciente é 
capaz de encontrar as partes da metade esquerda de sua face. 
Seria de supor que isso não lhe oferecesse quaisquer dificuldades, 
pois, afinal, a metade esquerda do rosto está, digamos, 
firmemente cimentada à metade direita, intacta. Mas a 
experiência mostra o contrário. O paciente erra o alvo no olho 
esquerdo, no lobo da orelha esquerda, e assim por diante; na 
verdade, parece sair-se pior ao tatear com a mão direita as partes 
anestesiadas do rosto do que se estivesse tocando uma parte do 
corpo de alguma outra pessoa. A causa disso não é uma 
perturbação na mão direita, que ele está usando para apalpar, 
pois os senhores podem ver com que certeza e rapidez ele 
encontra os pontos em que lhe digo para tocar a metade direita 
do rosto. 
 
A mesma anestesia está presente no tronco e na perna esquerda. 
Observamos aí que a perda das sensações tem seu limite na linha 
média, ou se estende um pouco além desta. 
 
Para mim, parece haver um interesse especial na análise dos 
distúrbios do movimento que o paciente mostra em seus 
membros anestesiados. Acredito que esses distúrbios do 
movimento devem ser atribuídos, inteira e unicamente, à 
anestesia. Certamente não existe paralisia do braço esquerdo, por 
exemplo. 
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Um braço paralisado ou cai flacidamente, ou se mantém rígido, 
devido às contraturas em posições forçadas. Aqui a coisa se passa 
de modo diverso. Se eu vendar os olhos do paciente, seu braço 
esquerdo permanecerá na posição que tinha assumido 
anteriormente. Os distúrbios da mobilidade são mutáveis e 
dependem de diversas condições. Em primeiro lugar, aqueles 
dentre os senhores que tiverem notado como o paciente se despiu 
com ambas as mãos e como fechou sua narina esquerda com os 
dedos da mão esquerda, não terão tido a impressão de qualquer 
distúrbio grave do movimento. A um exame mais acurado, 
verificar-se-á que o braço esquerdo, em especial os dedos, são 
movimentados mais lentamente e com menos habilidade, como 
se estivessem entorpecidos, e com um leve tremor. Todos os 
movimentos, até os mais complicados, são, todavia, executados, 
e isso acontece sempre que a atenção do paciente é desviada dos 
órgãos do movimento e dirigida unicamente para o objetivo do 
movimento. As coisas se passam diversamente quando lhe peço 
que efetue movimentos isolados com o braço esquerdo, sem 
qualquer objetivo mais remoto – como, por exemplo, dobrar o 
braço na articulação do cotovelo enquanto segue o movimento 
com os olhos. Nesse caso, seu braço esquerdo parece muito mais 
inibido do que antes, o movimento é feito com muita lentidão, 
incompletamente, em estágios diferentes, como se houvesse uma 
grande resistência a ser vencida, e é acompanhado de um nítido 
tremor. Os movimentos dos dedos são extraordinariamente 
débeis nessas circunstâncias. 
 
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Uma terceira espécie da perturbação do movimento, a mais grave, 
surge, finalmente, quando o paciente é solicitado a efetuar 
movimentos isolados com os olhos fechados. Por certo, algo se 
passa no membro que está absolutamente anestesiado, pois, 
como veem, a inervação motora é independente de qualquer 
informação sensitiva do tipo que normalmente procede de um 
membro que vai ser movimentado; esse movimento, no entanto, 
é mínimo, de modo algum dirigido a um determinado segmento, 
e não determinável quanto à sua direção por parte do paciente. 
Não suponham, porém, que esse último tipo de perturbação do 
movimento seja uma consequência necessária da anestesia; é 
precisamente com relação a esse aspecto que se encontram 
marcantes diferenças individuais. Observamos, no Salpêtrière, 
pacientes com anestesias que, de olhos fechados, conservam um 
controle muito mais acentuado de membros que tivessem sido 
eliminados da consciência. 
 
A mesma influência da atenção desviada e do olhar aplica-se à 
perna esquerda. Hoje, durante pelo menos uma hora, o paciente 
caminhou a meu lado pelas ruas, a passos rápidos, sem olhar para 
seus pés enquanto andava. E tudo o que pude notar foi que pisava 
com o pé esquerdo girando-o um pouco para fora e que, muitas 
vezes, arrastava-o pelo chão. Mas quando lhe ordeno que ande, 
ele tem que acompanhar com os olhos cada movimento da perna 
anestesiada, e os movimentos faz-se lento e hesitante, cansando-
o com muita facilidade. 
 
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Por fim, com os olhos fechados, ele caminha completamente 
inseguro e se desloca mantendo ambos os pés em contato com o 
chão, como faria qualquer um de nós se caminhasse no escuro em 
local desconhecido. Ele também tem grande dificuldade em 
permanecer de pé apenas sobre a perna esquerda; quando fecha 
os olhos nessa posição, cai imediatamente ao chão. 
 
Prosseguirei com a descrição do comportamento de seus reflexos. 
Estes são, em geral, mais vivos do que o normal e, além disso, 
mostram pequenas coerência entre si. Os reflexos do tríceps e do 
extensor são efetivamente maisvivos na extremidade direita, não 
anestesiada. O reflexo patelar parece mais vivo na esquerda; o 
reflexo do tendão de Aquiles é igual em ambos os lados. Também 
é possível obter uma discreta reação patelar, mais nitidamente 
observável à direita. Os reflexos do cremaster estão ausentes; por 
outro lado, os reflexos abdominais são rápidos, sendo que o 
esquerdo está intensamente aumentado de modo que o mais leve 
toque numa área da pele do abdômen provoca uma contração 
máxima do músculo reto-abdominal esquerdo. 
 
Em conjugação com uma hemianestesia histérica, nosso paciente 
mostra, tanto espontaneamente como sob pressão, áreas 
dolorosas nesse lado do corpo que é, em outros aspectos, o lado 
insensível – o que se conhece como “zonas histerógenas”, embora 
nesse caso sua conexão com a provocação dos ataques não seja 
acentuada. 
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Assim o nervo trigêmeo, cujos ramos terminais, como lhes mostrei 
anteriormente, são sensíveis à pressão, é a sede de uma zona 
histerógena desse tipo; também o são uma estreita área na fossa 
cervical média esquerda, uma faixa mais larga na parede esquerda 
do tórax (onde a pele também é sempre sensível), a parte lombar 
da coluna e a parte mediana do osso sacro (a pele é sensível 
também sobre a porção anterior dessas). Finalmente, o cordão 
espermático esquerdo está muito sensível à dor, e essa zona se 
prolonga no trajeto do cordão espermático, pela cavidade 
abdominal, até a área que, nas mulheres, frequentemente é sede 
da “ovaralgia”. 
 
Devo acrescentar dois comentários referentes aos desvios que 
nosso caso apresenta em relação ao quadro típico da 
hemianestesia histérica. O primeiro diz respeito ao fato de que o 
lado direito do corpo do paciente também não está livre da 
anestesia, ainda que não seja em grau intenso e pareça afetar 
apenas a pele. Há, portanto, uma zona de diminuição da 
sensitividade à dor (e à temperatura) sobre a saliência do ombro 
direito; uma outra estende-se em forma de faixa ao redor da 
extremidade distal do antebraço; a perna direita apresenta 
hipoestesia no lado externo da coxa e na panturrilha. 
 
Um segundo comentário refere-se ao fato de que a hemianestesia 
de nosso paciente mostra muito nitidamente a característica da 
instabilidade. 
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Assim, num teste para sensitividade elétrica, contrariando minha 
expectativa, tornei sensível uma área da pele no cotovelo 
esquerdo; e testes repetidos mostraram que a extensão das zonas 
dolorosas do tronco e as perturbações do sentido da visão 
oscilavam de intensidade. É nessa instabilidade do distúrbio da 
sensitividade que baseio minha esperança de ser capaz de 
restaurar a sensitividade normal do paciente, dentro de pouco 
tempo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
 
Fadiman, J. e Frager, R., 1976. Teorias da Personalidade. São 
Paulo, Harbra, 1986. 
Fenichel, O., 1981. Teoria Psicanalítica das Neuroses. Rio de 
Janeiro/São Paulo, Atheneu, 1981. 
Freud, S., 1886. Observação De Um Caso Grave De Hemianestesia 
Em Um Homem Histérico. Vol. I da Edição Standard (Eletrônica) 
Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio 
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________, 1924ª. Neurose e Psicose. Vol. XIX da Edição Standard 
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________, 1925. Um Estudo Autobiográfico. Vol. XX da Edição 
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