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NEUROSES CAPÍTULO XXI Este material é parte integrante do Curso de Psicanálise, não podendo ser distribuído nem reproduzido sem a autorização dos autores e editores. INIEDS WWW.INIEDS.COM Todos os direitos reservados ©2018 – Mariana Sabbag INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 1 1 NEUROSES APRESENTAÇÃO Caro Aluno(a), A proposta de nossa metodologia é entrelaçar o conteúdo prático com o conteúdo teórico de nosso Curso, tornando a aprendizagem mais eficiente e agradável. Buscamos desenvolver este material com uma linguagem clara, porém adequada a um ambiente acadêmico. Todo nosso material é fundamentado em conteúdo adquirido tanto no Brasil quanto em países de Primeiro Mundo, assim poderemos oferecer o máximo de consistência e fundamentação sólida, gerando segurança para o desenvolvimento de seu conhecimento. Jamais podemos deixar de lembrar que a educação e a saúde estão em constante desenvolvimento, por isso não nos privamos de alterar nosso material sempre que necessário, além de adicionar conteúdos práticos que foram colocados em laboratório por nossa equipe. Sendo assim, desejamos atingir suas expectativas, e alcançar o resultado que almejamos: plantarmos sementes capazes de modificar e salvar muitas vidas. Acreditamos em cada um de vocês, assim como vocês devem acreditar sempre no próximo, pois não há limites para quem acredita! Recebam um carinhoso abraço De toda equipe pedagógica INIEDS INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 2 2 NEUROSES INTRODUÇÃO Na história da Psicanálise, as neuroses, e em especial a histeria, tem um papel fundamental. Tallaferro (1989) inicia seu “Curso Básico em Psicanálise” com uma breve história da histeria, alegando “uma razão de ordem histórica e de respeito pela cronologia dos êxitos e fracassos da vida de Sigmund Freud enquanto pesquisador” para assim iniciar seu livro. Freud repetidamente salientou a importância do estudo da histeria para o desenvolvimento da Psicanálise, chegando até a creditar a Breuer, por seu trabalho com “Fraulein Anna O.”, o nascimento da Psicanálise (Freud, 1910). Os estudos sobre a histeria levaram Freud à maior parte das conclusões importantes que embasaram até hoje a teoria psicanalítica, e talvez seja nos pacientes histéricos que os resultados do tratamento psicanalítico sejam mais evidentemente positivos. Neste módulo, procuraremos fazer uma “ponte” entre a visão “clássica” das neuroses e as classificações atuais, tentando aprofundar os conhecimentos já adquiridos com uma descrição mais detalhada dos transtornos mais importantes, do ponto de vista clínico. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 3 3 NEUROSES “A sobrevivência humana em face à ameaça de um Holocausto nuclear e da devastação de nosso ambiente Natural será possível apenas se formos capazes de mudar radicalmente os métodos e valores em que se baseiam nossa ciência e tecnologia. A mudança de paradigma que está agora está acontecendo terá que incluir uma mudança profunda de valores; na verdade, uma completa mudança de sentimentos – da intenção de dominar e controlar a natureza para uma atitude de cooperação e não-violência.” Fritjot Capra INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 4 4 NEUROSES O CONFLITO NEURÓTICO E A DEFESA Conflito Neurótico Freud define neurose como resultado de um conflito entre o Ego e o Id, entre um impulso (pulsão) e uma tendência a reprimir este mesmo impulso, ou em outras palavras, entre uma catexia e uma contracatexia. Por outro lado, não existe conflito possível entre dois impulsos (pulsões) contrários, mesmo admitindo-se que existam pulsões diametralmente opostas, as pulsões de “vida” e de “morte”. Isto porque o Id, como expõe Freud, é caótico e atemporal, não havendo conflito entre seus diversos conteúdos, seus diversos instintos. Vale a pena reproduzirmos a descrição original, da Conferência XXXI (Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise – 1933): É a parte obscura, a parte inacessível de nossa personalidade; o pouco que sabemos a seu respeito, aprendemo-lo de nosso estudo da elaboração onírica e da formação dos sintomas neuróticos, e a maior parte disso é de caráter negativo e pode ser descrita somente como um contraste com o Ego. Abordamos o Id com analogias; denominamo-lo caos, caldeirão cheio de agitação fervilhante. Descrevemo-lo como estando aberto, no seu extremo, a influências somáticas e como contendo dentro de si necessidades instintuais que nele encontram expressão psíquica; não sabemos dizer, contudo, em que substrato. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 5 5 NEUROSES Está repleto de energias que a ele chegam dos instintos, porém não possui organização, não expressa uma vontade coletiva, mas somente uma luta pela consecução da satisfação das necessidades instintuais, sujeita à observância do princípio do prazer. As leis lógicas do pensamento não se aplicam ao Id, e isto é verdadeiro, acima de tudo, quanto à lei da contradição. Impulsos contrários existem lado a lado, sem que um anule o outro, ou sem que um diminua o outro: quando muito, podem convergir para formar conciliações, sob a pressão econômica dominante, com vistas à descarga da energia. No Id não há nada que se possa comparar à negativa e é com surpresa que percebemos uma exceção ao teorema filosófico segundo o qual espaço e tempo são formas necessárias de nossos atos mentais. No Id, não existe nada que corresponda à ideia de tempo; não há reconhecimento da passagem do tempo, e – coisa muito notável e merecedora de estudo no pensamento filosófico nenhuma alteração em seus processos mentais é produzida pela passagem do tempo. Impulsos plenos de desejos, que jamais passaram além do Id, e impressões, que foram mergulhadas no id pelas repressões, são virtualmente imortais; depois de se passarem décadas, comportam-se como se tivessem ocorrido há pouco. Só podem ser reconhecidos como pertencentes ao passado, só podem perder sua importância e ser destituídos de sua catexia de energia, quando tornados conscientes pelo trabalho de análise, e é nisto que, em grande parte, se baseia o efeito terapêutico do tratamento analítico. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 6 6 NEUROSES Já o Ego contrapõe os dois princípios: o do prazer (pressionado pelo Id) e o da realidade. Quando a energia pulsional não pode, segundo o julgamento do Ego, ser “descarregada” (ou seja, “o desejo não pode ser realizado”), por uma exigência do princípio da realidade, tal energia tem de ser ou completamente desviada para outra ação ou desejo, ou reprimida, através de uma energia contrária (contracatexia). No primeiro caso, obtém-se uma resolução satisfatória, sendo este mecanismo denominado sublimação. No segundo caso, mantém-se a pulsão original contida no inconsciente (“recalcada”), porém às custas de gasto constante de energia, comparado por Tallaferro ao “trabalho do indivíduo que deseja manter um barril vazio afundado na água”. Logicamente, tal indivíduo “terá que usar uma força constante, já que sua interrupção permitiria ao barril vir imediatamente à tona”. INSTITUTO INTERNACIONALque incluíam evitar certos prédios enquanto atravessava o campus, sentar-se sempre no terceiro assento da quinta fileira em INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 56 56 NEUROSES sua sala de aula e alinhar seus livros e lápis em uma certa configuração sobre, antes de estudar. CASO 7 (Fenichel, 1981) Um rapaz de dezessete anos tornou-se neurótico em virtude do conflito que teve com a masturbação. Durante certo tempo, masturbou-se sem sentimento algum de culpa, chegando até, muitas vezes, a olhar para os companheiros de escola que se compraziam na masturbação mútua. Depois ouviu um sacerdote proferir um sermão em que aconselhava todos a se afastarem de quem quer que se masturbasse. Visto que sua genitalidade infantil fora inibida por medo excessivo da castração, o paciente tomou muito a sério o sermão e resolveu seguir-lhe o conselho, deixando de falar com um rapaz que, segundo sabia, se masturbava muito. Conseguiu, durante algum tempo, manter a resolução formada, mas, depois, para evitar o contato com o rapaz, desenvolveu certas fobias e procedimentos compulsivos que mantivessem a distância. Primeiramente, sempre que encontrava o outro, tinha de cuspir; a análise nunca chegou a clarificar uma resolução obsessiva quanto ao número de vezes que tinha de cuspir. A fobia disseminou-se; o paciente absteve-se de todo contato com a família e os amigos do “Evitado”. (O paciente deu ao outro rapaz este nome para não ter que usar-lhe o nome). A seguir, como o Evitado era filho de um barbeiro, passou a evitar as barbearias. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 57 57 NEUROSES Mais adiante, chegou a evitar contato com pessoas que frequentavam barbearias; e sentiu-se obrigado a não passar no bairro da cidade onde se localizava a barbearia do pai do “Evitado”. Daí por diante, a neurose inteira desenvolveu-se com rapidez em “neurose de isolamento”. O rapaz estabeleceu, compulsivamente, que os membros da família, principalmente as mulheres (avó, mãe e irmã) não devia passar naquela vizinhança proibida, o que o fez sofrer muito porque as parentes não se dispuseram a aceitar esta restrição da sua liberdade. O paciente seguiu implicitamente a sua própria proibição, mas quanto mais estritamente limitava seus atos, mais intensamente era obrigado a pensar, obsessivamente, no bairro proibido da cidade. Não é difícil compreender que isso o fez sofrer, mas a explicação que deu do seu sofrimento foi inesperada: era penoso, disse ele, porque em casa via a mãe e a avó, daí por que não devia pensar nos locais nem nas pessoas proibidas. Se bem que percebesse a relação entre a sua doença e a masturbação, a conexão lhe escapava. Deixara de masturbar-se sem maior dificuldade aparente, mas, no lugar dela, cada vês se tornou mais nítido o esforço neurótico que fazia para manter a ideia “membro da família” separada das pessoas e locais desagradáveis ou “incompatíveis”, esforço que visava a isolar estas ideias umas das outras. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 58 58 NEUROSES O isolamento veio a tornar-se o tópico principal da neurose. O paciente considerava lícito pensar nas coisas “incompatíveis”, mas procurava não pensar nas pessoas “compatíveis” ao mesmo tempo, desta forma demonstrando que o Complexo de Édipo era o conteúdo da atividade masturbatória. A elaboração deste esforço por parte do ego, que queria defender-se contra o complexo de Édipo mediante o isolamento, levou o paciente, dentro de poucos meses, a neurose, obsessiva das mais severas. O paciente assemelhava-se ao homem da peça de Wedekind que, segundo se supunha, não devia pensar em urso. Sempre que pensava no “Evitado”, pensava imediatamente, na avó, sintoma tormentoso que denominou de “conexão”. Conseguiu usar uma defesa com que o manipular, a saber, uma chamada “desconexão”, o que constitui um bom exemplo do mecanismo de “anulação”. Depois de haver pensado, ao mesmo tempo, num local proibido e numa pessoa compatível, desde que conseguisse, porém, formar uma imagem mental da coisa incompatível completamente isolada e liberta de todos os anexos compatíveis, tudo entrava nos eixos novamente e o paciente acalmava-se. Não tardou muito a deixar-se absorver na construção de “desconexões” o dia inteiro. Surgiram, a seguir, dois outros componentes que tenderam a aumentar a severidade da neurose obsessiva disseminada: INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 59 59 NEUROSES extensão imensa do campo da sintomatologia e invasão dos sintomas pelos impulsos rejeitados. A divisão dos objetos em compatíveis e incompatíveis pouco a pouco veio a abranger todas as pessoas, todos os lugares. Assim, por exemplo, os “colegas” tornaram-se “incompatíveis”; os parentes tornaram-se “afins”; todas as outras pessoas, mediante associações superficiais, foram colocadas numa ou noutra categoria, sujeitas, por conseguinte, a conexões e desconexões. Sofrida que fosse uma conexão, o paciente não conseguia sair do lugar onde por acaso estava, nem conseguia interromper a atividade em que estivesse, no momento, empenhado, sem ter, antes, completado a desconexão, situação esta que lhe era muito angustiante. Assim, sempre se mostrava problemática a possibilidade de levantar-se do divã, terminada a entrevista analítica; e durante a hora inteira que esta tomava, torturava-o o medo de vê-la acabar justamente entre uma conexão e uma desconexão. Enfim, a própria defesa veio a exprimir os impulsos rejeitados. A compulsão a desconectar obrigava o paciente a ter bastante pessoas, lugares e coisas compatíveis à sua disposição. O desejo de acabar rapidamente com a tensão tormentosa fez voltar da repressão o material reprimido. O paciente pôs-se a frequentar lugares incompatíveis, anotando com cuidado as pessoas incompatíveis, de modo a tê-las sempre à disposição em caso de necessidade. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 60 60 NEUROSES Mas não lhe foi possível fazer a mesma coisa com todos os objetos incompatíveis. O Evitado, por exemplo, continuou a ser evitado. Com o tempo, o paciente veio a ter uma série graduada de diferenciações: haviam objetos que eram fobicamente evitados por serem de todo incompatíveis; mas haviam outros menos incompatíveis que ele procurava e que precisava ter à disposição; mais ainda: objetos um tanto indiferentes, ligeiramente compatíveis e absolutamente compatíveis. Por fim, conscientemente, esforçou-se por só pensar em objetos incompatíveis na esperança de que, assim, produziria com mais facilidade a desconexão. Como a ideia de “objetos incompatíveis” representava “masturbação”, o paciente estava, então, inconscientemente, a masturbar-se de maneira incessante. Aliás, quando máxima lhe era a tensão e não conseguia produzir desconexão malgrado todos os esforços, acontecia-lhe, às vezes, para sua grande surpresa, ter uma ejaculação. CASO 8 (Freud, 1886): O paciente, ..., gravador de 29 anos, é a pessoa que está diante dos senhores: um homem inteligente, que de pronto se ofereceu para ser examinado por mim, na esperança de uma rápida recuperação. Permitam-me que comece por um relato de sua história familiar e de sua história pessoal. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 61 61 NEUROSES O paia um olho (o esquerdo). E, realmente, quando pela primeira vez examinei o paciente, ele mostrava em ambos os olhos a peculiar poliopia monocular dos pacientes histéricos e distúrbios da sensibilidade às cores. Com o olho direito, reconhecia todas as cores, exceto o roxo, que dizia ser cinzento; com o olho esquerdo, reconhecia apenas o vermelho-claro e o amarelo-claro, ao passo que considerava todas as outras cores como cinzento, quando eram claras, e como preto, quando escuras. O Dr. Konigstein teve a gentileza de submeter o paciente a um minucioso exame oftalmológico e posteriormente relatará suas conclusões. Passando aos outros órgãos dos sentidos, o olfato e o paladar estão inteiramente anulados do lado esquerdo. Somente a audição foi poupada da hemianestesia cerebral. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 66 66 NEUROSES Convém lembrar que a acuidade do ouvido direito ficou seriamente prejudicada desde que o paciente sofreu um acidente, aos oito anos de idade; seu ouvido esquerdo é o melhor; a redução da audição nele presente é (segundo uma gentil comunicação do Professor Gruber) suficientemente explicada por uma visível e substancial afecção da membrana timpânica. Se procedermos agora a um exame do tronco e dos membros, verificaremos também uma anestesia absoluta, sobretudo no braço esquerdo. Como vêem, consigo espetar a ponta de uma agulha numa dobra da pele sem que o paciente reaja. As estruturas profundas – músculos, ligamentos e articulações – também devem estar insensíveis em grau igualmente elevado, pois posso mover a articulação do punho e estirar os ligamentos sem provocar qualquer sensação no paciente. É consoante com essa anestesia das estruturas profundas o fato de que o paciente, quando seus olhos são vedados, também não tem noção da posição do seu braço esquerdo no espaço, nem de qualquer movimento que executo com ele. Passo uma venda em seus olhos e depois lhe pergunto o que fiz com sua mão esquerda. Ele não consegue dizer. Peço-lhe que, com a mão direita, segure o polegar, o cotovelo ou o ombro esquerdo. Ele tateia às cegas, confunde sua própria mão com a minha, que lhe estendo, e então admite que não sabe a quem pertence a mão que segurou. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 67 67 NEUROSES Deve ser particularmente interessante descobrir se o paciente é capaz de encontrar as partes da metade esquerda de sua face. Seria de supor que isso não lhe oferecesse quaisquer dificuldades, pois, afinal, a metade esquerda do rosto está, digamos, firmemente cimentada à metade direita, intacta. Mas a experiência mostra o contrário. O paciente erra o alvo no olho esquerdo, no lobo da orelha esquerda, e assim por diante; na verdade, parece sair-se pior ao tatear com a mão direita as partes anestesiadas do rosto do que se estivesse tocando uma parte do corpo de alguma outra pessoa. A causa disso não é uma perturbação na mão direita, que ele está usando para apalpar, pois os senhores podem ver com que certeza e rapidez ele encontra os pontos em que lhe digo para tocar a metade direita do rosto. A mesma anestesia está presente no tronco e na perna esquerda. Observamos aí que a perda das sensações tem seu limite na linha média, ou se estende um pouco além desta. Para mim, parece haver um interesse especial na análise dos distúrbios do movimento que o paciente mostra em seus membros anestesiados. Acredito que esses distúrbios do movimento devem ser atribuídos, inteira e unicamente, à anestesia. Certamente não existe paralisia do braço esquerdo, por exemplo. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 68 68 NEUROSES Um braço paralisado ou cai flacidamente, ou se mantém rígido, devido às contraturas em posições forçadas. Aqui a coisa se passa de modo diverso. Se eu vendar os olhos do paciente, seu braço esquerdo permanecerá na posição que tinha assumido anteriormente. Os distúrbios da mobilidade são mutáveis e dependem de diversas condições. Em primeiro lugar, aqueles dentre os senhores que tiverem notado como o paciente se despiu com ambas as mãos e como fechou sua narina esquerda com os dedos da mão esquerda, não terão tido a impressão de qualquer distúrbio grave do movimento. A um exame mais acurado, verificar-se-á que o braço esquerdo, em especial os dedos, são movimentados mais lentamente e com menos habilidade, como se estivessem entorpecidos, e com um leve tremor. Todos os movimentos, até os mais complicados, são, todavia, executados, e isso acontece sempre que a atenção do paciente é desviada dos órgãos do movimento e dirigida unicamente para o objetivo do movimento. As coisas se passam diversamente quando lhe peço que efetue movimentos isolados com o braço esquerdo, sem qualquer objetivo mais remoto – como, por exemplo, dobrar o braço na articulação do cotovelo enquanto segue o movimento com os olhos. Nesse caso, seu braço esquerdo parece muito mais inibido do que antes, o movimento é feito com muita lentidão, incompletamente, em estágios diferentes, como se houvesse uma grande resistência a ser vencida, e é acompanhado de um nítido tremor. Os movimentos dos dedos são extraordinariamente débeis nessas circunstâncias. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 69 69 NEUROSES Uma terceira espécie da perturbação do movimento, a mais grave, surge, finalmente, quando o paciente é solicitado a efetuar movimentos isolados com os olhos fechados. Por certo, algo se passa no membro que está absolutamente anestesiado, pois, como veem, a inervação motora é independente de qualquer informação sensitiva do tipo que normalmente procede de um membro que vai ser movimentado; esse movimento, no entanto, é mínimo, de modo algum dirigido a um determinado segmento, e não determinável quanto à sua direção por parte do paciente. Não suponham, porém, que esse último tipo de perturbação do movimento seja uma consequência necessária da anestesia; é precisamente com relação a esse aspecto que se encontram marcantes diferenças individuais. Observamos, no Salpêtrière, pacientes com anestesias que, de olhos fechados, conservam um controle muito mais acentuado de membros que tivessem sido eliminados da consciência. A mesma influência da atenção desviada e do olhar aplica-se à perna esquerda. Hoje, durante pelo menos uma hora, o paciente caminhou a meu lado pelas ruas, a passos rápidos, sem olhar para seus pés enquanto andava. E tudo o que pude notar foi que pisava com o pé esquerdo girando-o um pouco para fora e que, muitas vezes, arrastava-o pelo chão. Mas quando lhe ordeno que ande, ele tem que acompanhar com os olhos cada movimento da perna anestesiada, e os movimentos faz-se lento e hesitante, cansando- o com muita facilidade. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 70 70 NEUROSES Por fim, com os olhos fechados, ele caminha completamente inseguro e se desloca mantendo ambos os pés em contato com o chão, como faria qualquer um de nós se caminhasse no escuro em local desconhecido. Ele também tem grande dificuldade em permanecer de pé apenas sobre a perna esquerda; quando fecha os olhos nessa posição, cai imediatamente ao chão. Prosseguirei com a descrição do comportamento de seus reflexos. Estes são, em geral, mais vivos do que o normal e, além disso, mostram pequenas coerência entre si. Os reflexos do tríceps e do extensor são efetivamente maisDE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 7 7 NEUROSES MECANISMOS DE DEFESA As “defesas patológicas”, ou seja, as defesas que se utilizam de contracatexias, são a base para a aparição dos diversos sintomas nos quadros neuróticos. Vale a pena, portanto, revisar aqui os diversos mecanismos de defesa utilizados para apaziguar os conflitos Ego/Id. Convém lembrar que é a pressão constante dos impulsos rejeitados no sentido da motilidade, procurando em toda oportunidade uma descarga parcial, indireta, (uma vez que a descarga direta, total, não pode ser efetuada), que se traduz como sintoma neurótico. Segundo o conceito psicanalítico, “todas as defesas patológicas enraízam-se na infância”; - portanto, “não existe neurose que não tenha raiz na infância” (Fenichel, 1981). Repressão Freud utilizou o termo “repressão” em contextos e significados diferentes, tendo inicialmente usado como sinônimo de defesa, para só depois estabelecê-lo como mecanismo específico da mesma (Freud, 1926). Consiste no esquecimento inconscientemente intencional, ou na não-conscientização de impulsos internos ou de fatos externos, que em geral representam possíveis tentações, impulsos censuráveis, ou até simples alusões a estes. Nas palavras do próprio Freud (1915), “a essência da repressão consiste simplesmente em afastar determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 8 8 NEUROSES A repressão é o mecanismo de defesa principal da histeria, em uma atitude em que aquilo que é censurável ou importuno é tratado simplesmente como se não existisse. Segundo Fenichel (1981), uma possível explicação para a repressão ser utilizada mais frequentemente como defesa contra os impulsos sexuais, enquanto os impulsos agressivos são comumente objeto de outros mecanismos de defesa, residiria no diferente trato dados pelos educadores a estas questões, omitindo primordialmente qualquer menção aos assuntos sexuais, enquanto reconhecem a existência da agressividade, embora qualificando-a como ruim. Negação A negação consiste simplesmente em não aceitar na realidade um fato que perturba o ego. Fadiman e Frager (1976) a ilustram com uma estória singela: Uma mulher foi levada à Corte a pedido de seu vizinho. Esse vizinho acusava a mulher de ter pegado e danificado um vaso valioso. Quando chegou a hora da mulher se defender, sua defesa foi tripla: “Em primeiro lugar, nunca tomei o vaso emprestado. Em segundo lugar, estava lascado quando eu o peguei. Finalmente, Sua Excelência, eu o devolvi em perfeito estado”. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 9 9 NEUROSES Notadamente, a memória nos “trai” de modo muitas vezes surpreendente, uma vez que o que armazenamos não são necessariamente os fatos em si, mas sim as nossas percepções e interpretações dos fatos. Na verdade, quando em terapia o cliente tem um “insight”, percebendo como a lembrança era distorcida, de modo defensivo, isso traduz a ressignificação prévia da lembrança incômoda. Em outras palavras, o “insight” não é fator de cura, mas sim indício de que a cura já ocorreu, em nível inconsciente! Racionalização O processo de achar motivos aceitáveis para pensamentos e ações inaceitáveis é bastante comum entre as pessoas de nível cultural mais elevado, embora apareça em qualquer classe sociocultural. A racionalização é um modo de aceitar a pressão do Superego, disfarçando nossos motivos, e tornando nossas ações moralmente aceitáveis. Muito empregado por religiosos, psicoterapeutas, médicos e cientistas em geral, tal mecanismo de defesa oferece grande resistência à conscientização, uma vez que se utiliza de uma sequência complexa e aparentemente lógica de associações, servindo de base sólida para uma postura geralmente bastante rígida. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 10 10 NEUROSES Formação Reativa Chamam-se formações reativas as atitudes rígidas, diametralmente opostas ao desejo ou impulso real. Diferenciam- se da repressão pura e simples pelo caráter permanente das alterações, chegando a ser considerada uma modificação da estrutura da personalidade do indivíduo. É como se o perigo do desejo inaceitável fosse tão grande, estivesse tão frequentemente presente, que se torna necessário estar-se pronto a combatê-lo a qualquer momento, um estado de “vigília permanente”. As principais características que “expõem” a formação reativa são seu excesso, sua rigidez, e sua extravagância. A personalidade pode tornar-se bastante inflexível, restringindo a capacidade da pessoa de responder adequadamente a eventos. Exemplos de formações reativas podem ser encontrados em diversas situações, como no caso da dona de casa que limpa continuamente sua casa, podendo estar na realidade se concentrando no contato e no exame da sujeira; ou nos casos de pais que se “preocupam” excessivamente com o bem-estar e a segurança dos filhos, interferindo tanto em suas vidas, não admitindo seu ressentimento em relação a eles (às vezes simplesmente por não tê-los desejado!), que a “superproteção” se transforma em um tipo de punição. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 11 11 NEUROSES Ou ainda nos exemplos de pessoas “homofóbicas”, rigidamente contrárias ao homossexualismo, que muitas vezes escondem com isso uma homossexualidade latente. Anulação Enquanto na formação reativa toma-se uma atitude que se contrapõe à atitude originalmente desejada, na anulação se dá um passo a mais: faz-se coisa que é o contrário daquilo que se fez antes, seja na realidade ou na imaginação, seja de modo real ou de modo “mágico”, anulando o ato anterior. Fenichel cita um exemplo de um paciente que não tinha religião, e que rezava obsessivamente pela mãe doente, mas batendo de leve na boca após rezar, anulando assim a oração, que funcionava como uma rejeição do desejo de que a mãe morresse. Às vezes, a anulação se dá não por uma ação oposta, mas pela repetição do mesmo ato realizado, baseando-se em um mecanismo inconsciente de anulação por estar sendo realizada a repetição em condições internas diferentes das previamente existentes. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 12 12 NEUROSES Fenichel (1981), novamente cita um exemplo divertido: Certo paciente escrupuloso quanto a despesas desnecessárias comprou um jornal por um níquel; inconscientemente, a compra equivaleu para ele à visita a uma meretriz. Lamentou ter feito o gasto e, querendo anulá-lo, resolveu voltar à banca de jornais, sem saber ao certo o que fazer, porque tinha vergonha de devolver o jornal ao vendedor e pedir-lhe a restituição do dinheiro. Ocorreu-lhe, porém, que a compra de outro jornal lhe aliviaria a mente, mas a banca já estava fechada. Tirou, então, outro níquel do bolso e jogou-o fora. Projeção Também bastante comum é o ato de atribuir a outra pessoa (ou animal, ou objeto) os sentimentos, desejos, impulsos que não queremos admitir em nós mesmos. É, de fato, bem mais fácil lidar com os impulsos ameaçadores como se fossem uma força externa, sem admitir o fato de que tal sentimento ou comportamento temido vem de nossa própria mente inconsciente. Generalizações como “todos os homens só pensam em sexo”, ou “não se pode confiar em umpolicial, eles são todos corruptos”, ou ainda “todos os espíritas estão trilhando o caminho da perdição”, INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 13 13 NEUROSES podem na realidade estar escondendo sentimentos como “eu penso muito a respeito do sexo mas, como mulher, não deveria pensar”, “eu gostaria de poder tirar vantagem injusta dos outros, até mesmo através da força ou violência”, ou “eu tenho muito medo de “me perder”, e não tenho certeza quanto ao meu futuro”. Outros exemplos são abundantes, mostrando a relevância da recomendação bíblica de “não querer tirar o argueiro do olho do seu irmão, quando se tem uma trave no próprio olho”. Introjeção Em oposição à projeção, a introjeção consiste em trazer para si as características e atributos do objeto desejado. Embora seja derivada de um processo de satisfação instintiva, ou seja, o ato de ingerir e incorporar o alimento, torna-se mecanismo de defesa na medida em que o ego primitivo percebe que, ao incorporar o objeto amado, ele objetivamente o destrói, inicialmente pela digestão, e posteriormente pela destruição do objeto “real”, para dar lugar ao objeto imaginário, introjetado. Desse modo, o ego passa a usar a introjeção para efetivamente destruir aquilo que não deve continuar existindo (o mundo externo), e passa a viver apenas a realidade interna, de fantasia. É um mecanismo frequentemente encontrado na histeria. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 14 14 NEUROSES Uma forma específica de introjeção é a identificação, onde o ego busca semelhanças em si de objetos desejados ou até invejados. Pode aparecer de formas variadas, desde a identificação parcial (como no caso de um jovem que procura vestir-se ou comportar- se de modo semelhante a seu pai, ou a um professor), até a identificação total (quando o mesmo jovem procura seguir os mesmos passos do pai, por exemplo, seguindo a mesma profissão, procurando formar uma família semelhante, com o mesmo número de filhos, etc.). Também é fácil percebermos casos de identificação projetiva, onde o ego se projeta para fora, como na situação em que nos identificamos com uma personalidade de um filme, por exemplo, vivenciando emocionalmente as situações dramáticas que se desenrolam na tela. Deslocamento Deslocando-se os afetos de um para outro objeto, retirando-se um sentimento “proibido” por uma determinada pessoa, para colocá-lo em relação a outra coisa ou outra pessoa, o ego consegue lidar com sentimentos ambivalentes de modo mais suportável, por assim dizer. Mecanismo de defesa primordial nos casos de fobias, é também um mecanismo natural de movimento de energias do inconsciente, percebido intensamente nos sonhos, onde o conteúdo manifesto é sempre uma representação simbólica, portanto deslocada, do conteúdo latente. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 15 15 NEUROSES O deslocamento não deixa de incluir também uma identificação, pois a ligação entre os objetos do deslocamento se dá por alguma semelhança entre os mesmos, em uma cadeia associativa inconsciente. Não se trata, aqui, de uma identificação do indivíduo com o objeto, mas sim das representações psíquicas de um objeto com o outro. Isolamento Separando-se as lembranças traumáticas de um conteúdo emocional, isola-se o sintoma de suas causas, mecanismo também comum nos obsessivos, que muitas vezes conhecem, conscientemente, os fatos traumáticos que originam seus sintomas, porém não conseguem perceber as ligações que conectam fato e sintoma. Algumas vezes, o cliente coloca um limite físico, espacial ou temporal, entre aquilo que deve permanecer isolado, muitas vezes criando rituais para estabelecer estas divisões. Na prática psicanalítica, pode-se observar clientes que aceitam a análise enquanto estiverem no consultório, deitados no divã, mas isolam o “set” psicanalítico de todo o resto de suas vidas, realizando rituais ao entrar e ao terminar cada sessão, com o intuito de mantê-las isoladas. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 16 16 NEUROSES Diversos tabus e superstições são reflexos desse isolamento mágico, como no caso dos tabus de contato, descritos de modo apurado por Freud em Totem e Tabu (1912-13). No Brasil, já foi muito comum o ato de, ao se comentar sobre algo desagradável, bater-se três vezes em algo de madeira, dizendo-se “isola!”, num ritual claro de pensamento mágico e tentativa de isolamento do “mau pensamento” e da realidade (ou da possível consequência desse mau pensamento...). NEUROSES E A CLASSIFICAÇÃO DOS TRANSTORNOS MENTAIS As classificações atuais de Transtornos Mentais, DSM-V e CID-10, já restringem muito o uso do termo “neurose”, estando completamente ausente do DSM-IV. No entanto, algumas das categorias podem ser reconhecidas como englobando as antigas neuroses, dando uma especificação mais precisa de cada quadro clínico, o que pode nos ajudar a organizar o pensamento de modo mais minucioso, evitando a inclusão de formas muito diversas de apresentação clínica em um único diagnóstico. Isso se torna mais evidente quando examinamos a antiga histeria, que reunia um amplo espectro sintomático, hoje dividido em algumas categorias separadas. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 17 17 NEUROSES No DSM-V, as neuroses se encontram categorizadas como Transtornos de Ansiedade, Transtornos Somatoformes, e Transtornos Dissociativos, sendo ainda incluído como neurose o Transtorno Distímico (classificado como Transtorno de Humor, entre os Transtornos Depressivos), e também os Transtornos Sexuais (que não farao parte deste módulo, sendo estudados no módulo de Sexualidade). Já no CID-10, uma grande categoria de “Transtornos Neuróticos, relacionados ao “Stress”, e Somatoformes”, engloba as categorias de Transtornos de Ansiedade Fóbica, outros transtornos de Ansiedade, Trantorno Obsessivo-Compulsivo, Reação a “Stress” Severo e Transtornos de Ajustamento, Transtornos Dissociativos (de Conversão), Transtornos Somatoformes, e Outros Transtornos Neuróticos (esta última incluindo até um código para “Transtorno Neurótico, não especificado”). Para mantermos a consistência com o módulo de Psiquiatria, tomaremos por base a classificação do DSM-IV, referindo-nos aos termos usados pela Psicanálise, em especial por Freud, para que seja possível a compreensão e a ligação da linguagem “Freudiana” e da linguagem “Psiquiátrica”. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 18 18 NEUROSES Transtornos de Ansiedade Como vimos no módulo de Psiquiatria, a ansiedade é, em princípio, uma resposta normal, fisiológica, do organismo a um estímulo potencialmente nocivo, preparando o indivíduo para uma reação de “fuga ou luta”. Freud reconhecia esta função biológica da ansiedade, e fundamentou muito de sua teoria das pulsões nas noções biológicas da ansiedade, sendo a base para os aspectos “econômicos” da teoria das pulsões. Basicamente, Freud vê a ansiedade como produto da libido frustrada, ou seja, de uma pulsão que não consegue ser descarregada. Freud atribuía as chamadas “neuroses atuais”, incluindo a “neurastenia” e a hipocondria, às tensões causadas por práticas sexuais “inadequadas” (como a abstinência sexual ou o coito interrompido). Já as “psiconeuroses”,que incluíam as fobias, a histeria e as neuroses obsessivas, eram também referidas por “psiconeuroses de defesa”, por representarem sintomas decorrentes das defesas patológicas (dependentes de contracatexias), contra pulsões mais antigas, envolvendo complexos intrapsíquicos de combate a sentimentos ambivalentes. De um ou de outro modo, a antecipação de um “perigo” se dá em última análise sempre em nível interno, através da representação de um conflito gerado por pulsões não satisfatoriamente descarregadas. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 19 19 NEUROSES Vamos agora nos deter um pouco sobre cada categoria diagnóstica, relembrando o módulo de Psiquiatria e nos aprofundando um pouco mais em alguns quadros específicos de neuroses. Transtorno de Pânico e Agorafobia Como estudamos em Psiquiatria, o Transtorno de Pânico só foi definido a partir de 1980, não existindo como entidade clínica reconhecida à época de Freud, ou mesmo quando dos trabalhos de outros grandes nomes da Psicanálise e de linhas derivadas, como Karen Horney, Melanie Klein, Jacques Lacan, Donald W. Winnicott, entre outros. Era, portanto, confundida e incluída nos quadros de fobias, de ansiedade generalizada, ou da histeria. Freud relata, no caso de número 4 dos “Estudos Sobre a Histeria” (1895ª), uma queixa que hoje seria facilmente diagnosticada como Transtorno de Pânico: - Bem, e de que é que você sofre? - Sinto muita falta de ar. Nem sempre. Mas às vezes ela me apanha de tal forma que acho que vou ficar sufocada. Isso não pareceu, à primeira vista um sintoma nervoso. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 20 20 NEUROSES Mas logo me ocorreu que provavelmente era apenas uma descrição representando uma crise de angústia: ela estava destacando a falta de ar do complexo de sensações que decorrem da angústia e atribuindo uma importância indevida a esse fator isolado. - Sente-se aqui. Como são as coisas quando você fica “sem ar”? - Acontece de repente. Antes de tudo, parece que há alguma coisa pressionando meus olhos. Minha cabeça fica muito pesada, há um zumbido horrível e fico tão tonta que quase chego a cair. Então alguma coisa me esmaga o peito a tal ponto que quase não consigo respirar. - E não nota nada na garganta? - Minha garganta fica sufocada, como se eu fosse sufocar. - Acontece mais alguma coisa na cabeça? - Sim, umas marteladas, o bastante para fazê-la explodir. - E não se sente nem um pouco assustada quando isso acontece? - Sempre acho que vou morrer. Em geral, sou corajosa e ando sozinha por toda parte, desde o porão até a montanha inteira. Mas no dia em que isso acontece não ouso ir a parte alguma; fico o tempo todo achando que há alguém atrás de mim que vai me agarrar de repente. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 21 21 NEUROSES Portanto, era de fato uma crise de angústia, e introduzida pelos sinais de uma “aura” histérica – ou, mais corretamente, era um ataque histérico cujo conteúdo era a angústia. Notem a descrição típica de ataques de Pânico, com as sensações de sufocamento, peso na cabeça, opressão precordial, dificuldade para respirar, impressão de morte iminente, e evitações secundárias, chegando próximo da agorafobia. Freud, no entanto, classifica os ataques como histéricos, “cujo conteúdo era a angústia”. No decorrer desse relato, Freud faz uma sessão “informal” de Psicanálise, porém as circunstâncias do encontro com a “Srta. Katharina” (uma viagem de férias de Freud) não permitiram um acompanhamento verdadeiro do caso, restando a Freud apenas esperar “que essa moça, cuja sensibilidade sexual fora afetada numa idade tão precoce, tenha tirado algum benefício” de sua conversa, afirmando não mais tê-la visto depois disto. Considerando a evolução clínica dos casos de Pânico, atualmente observados, dificilmente um benefício permanente e decisivo poderia ter surgido de uma abordagem tão rápida, embora tenha sido surpreendentemente profunda, considerando o exíguo contato entre Freud e sua “paciente”. Embora hoje não se admita um tratamento exclusivamente psicoterápico para o Transtorno de Pânico, os estudos e relatos recentes tornam evidente a superioridade da combinação de farmacoterapia com psicoterapia, em relação ao tratamento INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 22 22 NEUROSES farmacológico isolado. Em síntese, os medicamentos apenas controlam os ataques de pânico “em si”, não resolvendo os conflitos geradores do transtorno, nem as fobias e evitações secundárias. A Psicanálise, aliada a técnicas de terapia breve, ou a hipnoterapia, pode completar o transtorno, modificando em suas raízes mais profundas as alterações psíquicas que tenham originado os transtornos. Em relação aos problemas encontrados como origens do Pânico, os mais comuns são as perdas recentes (próximas do início dos sintomas), embora outros tipos de “traumas” possam estar relacionados. A agorafobia, por sua vez, é na maioria dos casos uma consequência da associação psíquica inconsciente dos ataques com situações em que estes possam ser psicologicamente “agravados”, por não haver meio de encontrar “abrigo”. Muitas vezes o próprio cliente refere ter, na verdade, “medo de sentir medo”, ou seja, temer a ocorrência de uma crise de Pânico em um local público, sem ter como ocultar seu estado dos estranhos, e sem ter alguém por perto para ampará-lo. Freud (1895b) já percebeu isso desde o início de seus trabalhos: No caso da agorafobia, etc., encontramos frequentemente a recordação de um ataque de angústia; e o que o paciente de fato teme é a ocorrência de tal ataque nas condições especiais em que acredita não poder escapar dele. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 23 23 NEUROSES Fobias Específicas e Fobia Social A fobia, medo exagerado de algo que não oferece perigo real, ou que, embora perigoso, não justifica uma reação tão intensa e irracional, é uma das situações onde a defesa mostra-se mais facilmente identificável. Como comenta Fenichel, “se alguém reage a certo acontecimento de maneira exagerada ou com um tipo de afeto aparentemente inadequado, tem-se aí um sinal de deslocamento: o afeto relaciona-se, de fato, com alguma outra situação que terá sido reprimida”. Freud tentou reduzir toda e qualquer fobia ao conflito edipiano, em especial ao medo da castração. De fato, alguns casos mostram esta origem de modo contundente, como no caso do “Pequeno Hans” (Freud, 1909), ou em fobias de facas e tesouras, onde frequentemente encontram-se ideias de castração, tanto quanto de hostilidade reprimida. Porém muitas vezes os eventos traumáticos distanciam-se muito deste único mecanismo, sendo muito mais importante encontrarem-se individualmente, caso a caso, as lembranças inconscientes e as ligações entre tais lembranças e os objetos da fobia, geralmente bastante evidentes, uma vez que as lembranças traumáticas venham à tona. Técnicas para a ressignificação dos eventos traumáticos, ou simplesmente para a supressão dos sintomas, existem em várias linhas terapêuticas, muitas com excelentes resultados, como a INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 24 24 NEUROSES regressão hipnótica ou a dessensibilização progressiva. Nos casos de fobias simples, não érealmente necessária uma análise mais profunda, sendo verificado empiricamente ser errônea a ideia de que outros sintomas apareceriam, quando a fobia é eliminada de uma forma mais “direta”. A vantagem da Psicanálise, na abordagem das fobias simples, se verifica principalmente nos casos em que se acompanham também outras dificuldades concomitantes, pois desta maneira alcançam-se insights mais profundos e abrangentes, com modificações efetivas em áreas mais amplas da vida do cliente. Atualmente, considera-se em separado o diagnóstico de Fobia Social, onde há um temor acentuado e persistente de uma ou mais situações sociais ou de desempenho, onde o indivíduo é exposto a pessoas estranhas ou ao possível julgamento de outras pessoas, resultando em medo de agir de modo embaraçoso ou humilhante para si. Nestas situações, a ansiedade pode ser tão grande a ponto de assumir a forma de um ataque de Pânico, que, no entanto, aparece exclusivamente ligado ou predisposto pela situação social. A justificativa para a separação diagnóstica de fobias específicas e fobia social reside em evidências de que esta última pode ter boa resposta à medicação, enquanto as fobias específicas têm resposta quase nula à mesma. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 25 25 NEUROSES Transtorno de Ansiedade Generalizada Nas últimas classificações dos transtornos mentais, incluiu-se uma categoria diagnóstica “nova”, o Transtorno de Ansiedade Generalizada, definido como uma preocupação excessiva e abrangente, acompanhada de uma variedade de sintomas corporais, e que causa acentuado sofrimento ou comprometimento significativo no funcionamento social ou ocupacional do indivíduo. Os critérios para o seu diagnóstico incluem ansiedade e preocupação excessivas, ocorrendo na maioria dos dias, e em relação a diversas atividades, eventos ou situações, sendo considerado pelo indivíduo difícil de controlar a preocupação. Também é necessário que a ansiedade não seja restrita a aspectos de algum outro transtorno (como no caso do Pânico, das fobias, ou do Transtorno Obsessivo Compulsivo, entre outros). Segundo Kaplan et al (1997), a psicoterapia, para pacientes motivados para a compreensão das fontes da ansiedade, pode ser o tratamento de escolha. No entanto, o objetivo da terapia não seria o de eliminar a ansiedade, mas sim aumentar a tolerância à mesma. O cliente continua vivenciando ansiedade, após o término de uma terapia bem sucedida, porém com um controle aumentado do ego, que lhe permite usar esse sintoma como um sinal para refletir sobre os conflitos internos, e expandir seu insight e entendimento. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 26 26 NEUROSES Neurose Obsessiva, Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), e Transtorno de Personalidade Obsessivo-Compulsiva A Psicanálise sempre abordou a Neurose Obsessiva reunindo em uma mesma categoria tanto a entidade nosológica hoje denominada Transtorno Obsessivo-Compulsivo (comumente designada por TOC) quanto o que é classificado como Transtorno de Personalidade Obsessivo-Compulsiva. Também é comum encontrarmos casos de compulsões simples, ou de traços de caráter obsessivo, nas discussões sobre as neuroses obsessivas. Presume-se, com essa mistura, serem sempre os sintomas obsessivos ou compulsivos provenientes dos mesmos mecanismos psicopatológicos. No entanto, um estudo mais crítico da diversidade desses casos mostra que a maioria dos pacientes com TOC não tem sintomas obsessivo-compulsivos pré-mórbidos, não sendo estes sintomas nem necessários, nem suficientes para o desenvolvimento do TOC. Por outro lado, a grande maioria dos clientes com compulsões simples, com traços obsessivos de caráter, ou com personalidade obsessivo-compulsiva permanecem com sintomas “estáveis” ao longo do tempo, sendo bastante raro o aparecimento do TOC “completo”. Além disso, o tratamento medicamentoso parece ser essencial para o TOC, e praticamente indiferente para os outros transtornos citados, que respondem muito melhor à psicoterapia voltada para o insight. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 27 27 NEUROSES Como vimos no módulo de Psiquiatria, o TOC é caracterizado pela ocorrência de obsessões e compulsões. Uma obsessão é um pensamento, sentimento, ideia ou sensação intrusiva, recorrente e persistente, experimentados como inadequados, causando acentuada ansiedade e sofrimento. Já uma compulsão é um comportamento ou ato mental consciente, estandardizado e recorrente, como contar, verificar, evitar ou lavar, que a pessoa se sente compelida a executar em resposta a uma obsessão, ou de acordo com regras que devem ser rigidamente aplicadas. As obsessões levam a um aumento da ansiedade da pessoa, enquanto a execução das compulsões leva a uma sensação de redução da ansiedade. Quando um indivíduo com TOC resiste à realização da compulsão, a ansiedade aumenta, até que ele se veja praticamente “obrigado” a realizá-la. Um paciente obsessivo-compulsivo percebe o caráter irracional de suas obsessões, e experimenta tanto a obsessão quanto a compulsão como alheias ao ego, ou seja, é evidenciada como algo estranho à experiência que a pessoa tem de si mesma. As obsessões invadem insistente e persistentemente a consciência, e um sentido de medo ansioso acompanha a manifestação central, levando a pessoa a tomar medidas contra a ideia ou impulso inicial. A pessoa que sofre de obsessões e compulsões sente na maioria das vezes um forte desejo de resistir-lhes, porém cerca de metade dos pacientes oferece efetivamente pouca resistência à compulsão. Independentemente de quão vívidas e intensas sejam INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 28 28 NEUROSES a obsessão ou compulsão, a pessoa geralmente reconhece-as como absurdas e irracionais. Para diagnosticarmos TOC, é necessário que as obsessões ou compulsões causem acentuado sofrimento, consumam tempo (mais de 1 hora por dia), ou interfiram significativamente na rotina, funcionamento social ou ocupacional do indivíduo. Em contraste direto com o TOC, as “compulsões simples” são extremamente comuns, sendo consideradas geralmente como características da pessoa, pelos seus familiares e amigos. É o caso, por exemplo, das pessoas que têm compulsão por chocolates, comidas em geral, jogos eletrônicos, compras, entre outros. Tais pessoas não percebem as compulsões como irracionais, alheias ao ego, não têm pensamentos obsessivos, e geralmente não têm seu funcionamento social ou profissional prejudicado de modo evidente. Trata-se de uma “falha” no controle dos impulsos, de modo que uma vez que iniciem uma atividade, não conseguem parar até que tenham exaurido os recursos (acabado com o chocolate, por exemplo), ou sejam obrigados a parar por circunstâncias externas. No caso do Transtorno de Personalidade Obsessivo-Compulsiva, chamado na CID-10 de Personalidade Anancástica, estamos nos referindo à personalidade, ou seja, à totalidade dos traços emocionais e comportamentais que caracterizam o indivíduo na INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 29 29 NEUROSES vida cotidiana. Quando esses traços são inflexíveis, mal ajustados, e causam um funcionamento comprometido ou um sofrimento, apresentando uma variação que vai além da faixa encontrada na maioria dos indivíduos, falamos de um Transtorno da Personalidade. Estequadro deve ser distinguido daqueles indivíduos que apresentam alguns traços de caráter típicos de um ou outro transtornos da personalidade, sem necessariamente apresentarem sofrimento significativo, ou se distanciarem da faixa da maioria das pessoas. Em outras palavras, todos nós apresentamos traços de caráter, ou obsessivos, ou histéricos, e assim por diante, mas apenas os verdadeiros “neuróticos” podem ser vistos como possuindo Transtornos da Personalidade. No caso da personalidade obsessivo-compulsiva, é característica a presença de construção emocional, organização, perseverança, obstinação e indecisão, com um padrão inflexível de perfeccionismo. Esse padrão invasivo de preocupação com organização, perfeccionismo e controle mental e interpessoal restringe a eficácia, a flexibilidade e a abertura, estando presente em uma variedade de contextos. O DSM-IV exige pelo menos 4 entre 8 critérios para o diagnóstico, entre eles: rigidez e teimosia, incapacidade para desfazer-se de objetos usados ou inúteis, devotamento excessivo ao trabalho (exceto quando explicado por uma evidente necessidade econômica) e preocupação excessiva com detalhes, regras, listas, ordem, organização ou horários (a ponto de perder o ponto principal da atividade). INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 30 30 NEUROSES Esses casos são de difícil manejo em terapia, exibindo enorme resistência à mudança. Embora haja sofrimento significativo, essas pessoas geralmente tendem a responsabilizar os outros por seu sofrimento, considerando-se sempre “corretos”, e irritando- se facilmente com atitudes diversas das suas próprias. Os mecanismos de defesa utilizados geralmente incluem a projeção, estando sempre “voltados para fora”, em contraste com os histéricos, que embora sejam extremamente “teatrais”, estão geralmente “voltados para dentro”. A HISTERIA: TRANSTORNOS SOMATOFORMES E TRANSTORNOS DISSOCIATIVOS A História da Histeria Embora o termo histeria seja extremamente inadequado, estando abolido das classificações atuais, a história dos transtornos antigamente englobados sob esta denominação justifica a sua presença marcante em qualquer discussão que envolva o psiquismo humano, em especial a Psicanálise. Freud fundamentou praticamente todo o seu extenso conjunto teórico sobre a mente humana nos estudos minuciosos que empreendeu sobre a histeria, suas manifestações, seus mecanismos e sua gênese, e até hoje a aplicação mais bem sucedida para a Psicanálise (enquanto modalidade terapêutica) continua sendo a histeria, em suas diversas “expressões clínicas”. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 31 31 NEUROSES O termo origina-se do grego histeron, útero (muitas vezes referido como “matriz”), por acreditar-se inicialmente ser uma afecção exclusiva das mulheres, sendo explicada inicialmente (por Hipócrates, no século V a.C.) como um deslocamento daquele no interior do corpo da mulher. Platão, contemporâneo de Hipócrates, comparava o útero a “um animal que deseja ardentemente engendrar crianças”, e atribuía (como muitos o fizeram) as manifestações da histeria à falta de reprodução na mulher após a puberdade. Tais suposições levaram a recomendações como o casamento, a masturbação, e até mesmo o uso de odores fétidos, ao mesmo tempo em que se aplicavam na região vaginal aromas agradáveis (para “atrair” o útero de volta ao seu local anatômico)! Estes e outros mitos persistiram de modo intenso e irredutível até Freud, embora antes dele alguns pesquisadores já anotassem inclusive a existência da histeria masculina, como Charles Lepois e Thomas Sydenham, no século XVIII, e Briquet, em meados do século XIX. Mesmo assim, por muito tempo Freud foi ridicularizado e menosprezado por seus colegas, ao tentar mostrar as suas conclusões, em especial por falar abertamente sobre a histeria em homens! (Freud, 1925). Os “grandes ataques histéricos”, tão comuns à época das investigações Freudianas, tornaram-se raros no pós-guerra e nas décadas seguintes (Cf. Fenichel, 1981, pág. 204), mas têm voltado INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 32 32 NEUROSES a se tornarem frequentes, hoje principalmente na forma dos Transtornos de Conversão e de Somatização, mas também como Transtornos Dissociativos. Uma Descrição Freudiana de Uma Paciente Histérica Vale a pena, para iniciarmos o estudo dos sintomas histéricos e de sua gênese, reproduzir aqui trechos da descrição feita por Freud do caso da Srta. Bertha Pappenheim (cujo pseudônimo, utilizado por Breuer e Freud em seus escritos, era “Ana O.”), na primeira das “Cinco Lições de Psicanálise” (1910): A paciente do Dr. Breuer, uma jovem de 21 anos, de altos dotes intelectuais, manifestou no decurso de sua doença, que durou mais de dois anos, uma série de perturbações físicas e psíquicas mais ou menos graves. Tinha uma paralisia espástica de ambas as extremidades do lado direito, com anestesia, sintoma que se estendia por vezes aos membros do lado oposto; perturbações dos movimentos oculares e várias alterações da visão; dificuldade em manter a cabeça erguida; tosse nervosa intensa; repugnância pelos alimentos e impossibilidade de beber durante várias semanas, apesar de uma sede martirizante; redução da faculdade de expressão verbal, que chegou a impedi-la de falar ou entender a língua materna; e, finalmente, estados de “absence” (ausência), de confusão, de delírio e de alteração total da personalidade, aos quais voltaremos mais adiante a nossa atenção. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 33 33 NEUROSES Podemos também acrescentar, consoante a história clínica, não só que a afecção lhe apareceu quando estava tratando do pai, que ela adorava e cuja grave doença havia de conduzi-lo à morte, como também que ela, por causa de seus próprios padecimentos, teve de abandonar a cabeceira do enfermo. ... Havia-se notado que nos estados de “absence” (alteração da personalidade acompanhada de confusão), costumava a doente murmurar algumas palavras que pareciam relacionar-se com aquilo que lhe ocupava o pensamento. O médico, que anotava essas palavras, colocou a moça numa espécie de hipnose e repetiu-as, para incitá-la a associar ideias. A paciente entrou, assim, a reproduzir diante do médico as criações psíquicas que a tinham dominado nos estados de “absence” e que se haviam traído naquelas palavras isoladas. Eram fantasias profundamente tristes, muitas vezes de poética beleza – devaneios, como podiam ser chamadas – que tomavam habitualmente como ponto de partida a situação de uma jovem à cabeceira do pai doente. Depois de relatar certo número dessas fantasias, sentia-se ela como que aliviada e reconduzida à vida normal. Esse bem-estar durava muitas horas e desaparecia no dia seguinte para dar lugar a nova “absence”, que cessava do mesmo modo pela revelação das fantasias novamente formadas. É forçoso reconhecer que a alteração psíquica manifestada durante as “absences” era conseqüência da excitação proveniente dessas fantasias intensamente afetivas. A própria paciente, que nesse período da moléstia só falava e entendia inglês, deu a esse novo gênero de INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 34 34 NEUROSES tratamento o nome de “talking cure” (cura de conversação), qualificando-o também, por gracejos, de “chimney sweeping” (limpeza da chaminé). Verificou-selogo, como por acaso, que, limpando-se a mente por esse modo, era possível conseguir alguma coisa mais que o afastamento passageiro das repetidas perturbações psíquicas. Pode-se também fazer desaparecer sintomas quando, na hipnose, a dente recordava, com exteriorização afetiva, a ocasião e o motivo do aparecimento desses sintomas pela primeira vez. Tinha havido, no verão, uma época de calor intenso e a paciente sofria de sede horrível, pois sem que pudesse explicar a causa, viu-se, de repente, impossibilitada de beber. Tomava na mão o cobiçado copo de água, mas assim que o tocava com os lábios, repetia-o como hidrófoba. Nesses poucos segundos, ela se achava evidentemente em estado de absence. Para mitigar a sede que a martirizava, vivia somente de frutas, melões etc. Quando isso já durava perto de seis semanas, falou, certa vez, durante a hipnose, a respeito de sua “dama de companhia” inglesa, de quem não gostava, e contou então com demonstrações de maior repugnância que, tendo ido ao quarto dessa senhora, viu, bebendo num copo, o seu cãozinho, um animal nojento. Nada disse, por polidez. Depois de exteriorizar energicamente a cólera retida, pediu de beber, bebeu sem embaraço grande quantidade de água e despertou da hipnose com o copo nos lábios. A perturbação desapareceu definitivamente. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 35 35 NEUROSES ... as perturbações visuais da doente remontavam a situações como aquelas em que, estando a paciente com os olhos marejados de lágrimas, junto ao leito do enfermo, perguntou-lhe este, de repente, que horas eram, e, não podendo ela ver distintamente, forçou a vista, aproximando dos olhos o relógio, cujo mostrador lhe pareceu então muito grande – devido à macropsia e ao estrabismo convergente. Ou se esforçou em reprimir as lágrimas para que o enfermo não as visse. Todas as impressões patogênicas provinham, aliás, do tempo em que ela se dedicava ao pai doente. Uma noite revelava muito angustiada junto ao doente febricitante e estava em grande ansiedade porque se esperava de Viena um cirurgião para operá-lo. Sua mãe ausentara-se por algum tempo e Anna, sentada à cabeceira do doente, pôs o braço direito sobre o espaldar da cadeira. Caiu em estado de semissono e viu, como se viesse da parede, uma cobra negra que se aproximava do enfermo para mordê-lo. (É muito provável que no campo situado atrás da casa algumas cobras tivessem de fato aparecido, assustando anteriormente a moça e fornecendo agora o material de alucinação). Ela quis afastar o ofídio, mas estava como que paralisada; o braço direito, que pendia no espaldar, achava-se “adormecido”, insensível e parético, e, quando ela o contemplou, transformaram-se os dedos em cobrinhas cujas cabeças eram caveiras (as unhas). Provavelmente procurou afugentar a cobra com a mão direita paralisada e por isso a anestesia e a paralisia da mesma se associaram com a alucinação da serpente. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 36 36 NEUROSES Quando esta desapareceu, aterrorizada, quis rezar, mas não achou palavras em idioma algum, até que, lembrando-se duma poesia infantil em inglês, pode pensar e rezar nessa língua. Com a reconstituição dessa cena durante a hipnose foi removida a paralisia espástica do braço direito, que existia desde o começo da moléstia, e teve fim o tratamento. Esta é apenas uma descrição parcial do caso, sendo fortemente recomendada a leitura e estudo do caso “na íntegra”, como apresentado em “Estudos Sobre a Histeria” (Breuer e Freud, 1895). As Múltiplas Apresentações da Histeria O caso de “Anna O.” mostra apenas alguns aspectos clínicos do que era englobado no diagnóstico da histeria, talvez os aspectos mais conhecidos, hoje denominados de Transtornos de Conversão. No entanto, eram também consideradas histéricas as pacientes com múltiplas queixas somáticas, hoje classificadas sob o nome de Transtornos de somatização, e as com dissociações nos seus diversos “níveis de intensidade”, classificados hoje no grupo dos Transtornos Dissociativos. Vamos, então, relembrar cada um desses aspectos, separadamente. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 37 37 NEUROSES Transtornos de Somatização No Transtorno de Somatização, o paciente apresenta múltiplos sintomas somáticos, que não podem ser explicados por exames físicos e exames auxiliares. A multiplicidade de sintomas, e os múltiplos sistemas orgânicos “afetados” o diferenciam dos demais transtornos somatoformes, principalmente no transtorno conversivo. Caracteristicamente, é um transtorno crônico, que leva o paciente a múltiplas consultas médicas, com múltiplos especialistas, e a submeter-se a múltiplos exames auxiliares, muitas vezes bastante dolorosos, ou no mínimo desconfortáveis, o que pode aumentar ainda mais o sofrimento do paciente. Para o diagnóstico de Transtorno de Somatização, é necessário o aparecimento de vários sintomas, entre eles a dor (pelo menos em quatro locais ou relacionada a funções diferentes), sintomas gastrointestinais (pelo menos dois sintomas diferentes), sintomas sexuais (que não há dor), e sintomas “pseudoneurológicos” (também não limitados à dor), com início antes da idade de 30 anos, ocorrendo por um período de vários anos. Falta de ar (não relacionada a esforço) e “palpitações” também são comuns. Na somatização, o sintoma não traduz uma simbologia a respeito do conflito que o origina, mas sim uma alexitimia, ou seja, uma dificuldade inerente da pessoa em representar verbalmente ou simbolicamente os seus sofrimentos. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 38 38 NEUROSES Isso contrasta diretamente com a conversão, aonde podemos identificar nos sintomas uma expressão simbólica do conflito emocional inconsciente. Transtorno de Conversão O Transtorno Conversivo caracteriza-se pela presença de um ou mais sintomas neurológicos, que não podem ser explicados por uma condição neurológica conhecida, nem detectada por exames auxiliares. A especificidade dos sintomas, exclusivamente neurológicos, diferencia a conversão da somatização, onde podem existir sintomas neurológicos, porém sempre acompanhados de sintomas relativos a outros órgãos ou sistemas. Os sintomas, como paralisias, cegueira, distúrbios da fala, tonturas, ou convulsões, entre outros, podem tornar difícil a diferenciação com patologias realmente neurológicas, tornando obrigatória a avaliação por um especialista, que muitas vezes pode ter dificuldade para descartar completamente algum distúrbio neurológico orgânico. O Transtorno Conversivo tende a ser agudo (contrastando com a Somatização), com a resolução espontânea dos sintomas, quase sempre em alguns dias, ou no máximo em um mês. Em aproximadamente 25% dos casos o transtorno é recorrente, INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 39 39 NEUROSES sendo indicado o tratamento psicanalítico. Muitas vezes, no entanto, uma abordagem mais breve, mesmo de inspiração psicanalítica, abordando apenas os aspectos mais diretamente ligados àquela “crise” específica, é suficiente para a resolução do problema. Os médicos tendem a desprezar as crises de conversão, e tal atitude não se modificou muito desde a época de Freud. Vejamos um trecho das “Cinco Lições de Psicanálise” (Freud, 1910), e comparemos com a atitude que pode ser observada na grande maioriados atendimentos médicos atuais: Ao terem notícia de semelhante quadro mórbido, os senhores tenderão, mesmo não sendo médicos, a supor que se trate de uma doença grave, provavelmente do cérebro, com poucas esperanças de cura, e que levará rapidamente o enfermo a um desenlace fatal. Os médicos podem, entretanto, assegurar-lhes que, numa série de casos com fenômenos da mesma gravidade, justifica-se outra opinião muito mais favorável. Quando tal quadro mórbido é encontrado em indivíduo jovem do sexo feminino, cujos órgãos vitais internos (coração, rins, etc.) nada revelam de anormal ao exame objetivo, mas que sofreu no entanto violentos abalos emocionais, e quando, em certas minúcias, os sintomas se afastam do comum, já os médicos não consideram o caso tão grave. Afirmam que não se trata de uma afecção cerebral orgânica, mas desse enigmático estado que desde o tempo da INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 40 40 NEUROSES medicina grega é denominado histeria e que pode simular todo um conjunto de graves perturbações. Nesses casos não consideram a vida ameaçada e até acham provável o restabelecimento completo. ... Não devem os senhores esperar que o diagnóstico de histeria, em substituição ao de afecção cerebral orgânica grave, possa melhorar consideravelmente para o doente a perspectiva de um auxílio médico. Se a medicina é o mais das vezes impotente em face das lesões cerebrais orgânicas, diante da histeria o médico não sabe, do mesmo modo, o que fazer, tendo de confiar à providencial natureza a maneira e a ocasião em que se há de cumprir seu esperançoso prognóstico. Com o rótulo de histeria pouco se altera, portanto, a situação do doente, enquanto para o médico tudo se modifica. Pode-se observar que este se comporta para com o histérico de modo completamente diverso que para com o que sofre de uma doença orgânica. Nega-se a conceder ao primeiro o mesmo interesse que dá ao segundo, pois não obstante as aparências, o mal daquele é muito menos grave. Mas acresce outra circunstância: o médico, que, por seus estudos, adquiriu tantos conhecimentos vedados aos leigos, pode formar uma ideia da etiologia das doenças e de suas lesões, como, por exemplo, nos casos de apoplexia ou de tumor cerebral, ideia que até certo ponto deve ser exata, pois lhe permite compreender os pormenores do quadro mórbido. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 41 41 NEUROSES Em face, porém, das particularidades dos fenômenos histéricos, todo o seu saber e todo o seu preparo em anatomia, fisiologia e patologia deixam-no desamparado. Não pode compreender a histeria, diante da qual se sente como um leigo, posição nada agradável a quem tenha em alta estima o próprio saber. Os histéricos ficam, assim, privados de sua simpatia. Ele os considera como transgressores das leis de sua ciência, tal como os crentes consideram os hereges: julga-os capazes de todo mal, acusa-os de exagero e de simulação, e pune-os com lhes retirar seu interesse. Talvez algumas características comuns às pessoas histéricas (ou melhor, com Transtorno de Conversão) facilitem esta atitude lamentável. Uma delas, embora não seja exclusiva deste transtorno nem estar presente em todos os indivíduos “conversivos”, é a chamada belle indifférence, uma atitude inadequadamente altiva do paciente diante de um sintoma sério. Outro fator que pode incitar o “repúdio” da maioria dos médicos é a tendência à “teatralidade” dos histéricos, o que dá, em conjunto com a belle indifférence, uma falsa impressão de simulação, como se o paciente estivesse voluntariamente e conscientemente produzindo aqueles sintomas. O fato de sempre haver um ganho secundário, ou seja, vantagens e benefícios evidentes que o paciente obtém com seus sintomas (diferentes do ganho primário, que é a manutenção do conflito básico fora do alcance da consciência), como dispensa do trabalho, atenção e carinho das pessoas próximas, contribui ainda mais para que os INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 42 42 NEUROSES profissionais de saúde se sintam “enganados”, quando na verdade o sofrimento do paciente é real e intenso. Transtornos Dissociativos Também incluídos no quadro da histeria estavam os Transtornos Dissociativos, incluindo a Amnésia e a Fuga Dissociativas, o Transtorno Dissociativo de Identidade (Personalidades Múltiplas), o Transtorno de Despersonalização, e o Transe Dissociativo. Como vimos em Psiquiatria, a dissociação patológica surge, provavelmente, como uma defesa psíquica contra um trauma, seja físico ou emocional. O grau de dissociação, e a maneira individual de cada paciente reagir, determinam a formação de síndromes distintas. Poderíamos imaginar uma “escala de gravidade” entre os sintomas dissociativos, desde os mais “leves”, como o transe e a despersonalização (chamadas de “absences” no caso de “Anna O.”, acima), até o mais grave, a Personalidade Múltipla. Todos estes, no entanto, são aspectos de um mesmo problema, de origem aparentemente psicodinâmica “exclusiva”, não havendo evidências até agora que apontem para uma causa “orgânica”, mesmo no Transtorno Dissociativo de Identidade, embora a gravidade e exuberância do quadro lembrem a esquizofrenia e outros quadros “psicóticos”. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 43 43 NEUROSES Recordando os quadros específicos, o transtorno de despersonalização caracteriza-se por episódios persistentes e recorrentes, ego-distônicos, em que os pacientes se sentem mecânicos, em sonho, ou distanciados do próprio ego, mas percebem a irrealidade de seus sintomas. As sensações podem incluir alterações corporais, como sentir que suas extremidades estão maiores ou menores que o normal, ou até duplicação, sentindo-se “fora do corpo” ou até em dois lugares ao mesmo tempo. O transe dissociativo é caracterizado por perturbações episódicas ou isoladas do estado de consciência, identidade ou memória, com ou sem a substituição do sentimento costumeiro de identidade pessoal por uma nova identidade (“possessão”), que não seja aceito como componente normal de uma prática cultural ou religiosa. Envolve o estreitamento da consciência, movimentos ou comportamentos estereotipados “involuntários”, ou amnésia (total ou parcial) para o evento. Na amnésia dissociativa os fenômenos de dissociação estão limitados à memória. Basicamente, o paciente perde a capacidade para recordar informações já armazenadas em sua memória, geralmente aquelas que dizem respeito a um evento traumático ou estressante. A capacidade para aprender novas informações, no entanto, é mantida. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 44 44 NEUROSES Na fuga dissociativa o paciente, além de perder a memória de seu nome, família, passado, etc., afasta-se fisicamente de seu lar habitual, trabalho e locais costumeiramente frequentados, muitas vezes assumindo uma identidade completamente nova, embora essa identidade, em geral, seja menos completa do que as personalidades alternativas vistas no transtorno dissociativo de identidade, além de não haver uma alternância entre as identidades antiga e nova. O paciente, durante o período de fuga, tem completa amnésia para a sua vida e ligações passadas, mas não tem consciência plena de ter se esquecido de algo, e não perde capacidades anteriores aprendidas. Em geral, não dá mostras de estar comportando-seque incluíam evitar certos prédios enquanto atravessava o campus, sentar-se sempre no terceiro assento da quinta fileira em INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 56 56 NEUROSES sua sala de aula e alinhar seus livros e lápis em uma certa configuração sobre, antes de estudar. CASO 7 (Fenichel, 1981) Um rapaz de dezessete anos tornou-se neurótico em virtude do conflito que teve com a masturbação. Durante certo tempo, masturbou-se sem sentimento algum de culpa, chegando até, muitas vezes, a olhar para os companheiros de escola que se compraziam na masturbação mútua. Depois ouviu um sacerdote proferir um sermão em que aconselhava todos a se afastarem de quem quer que se masturbasse. Visto que sua genitalidade infantil fora inibida por medo excessivo da castração, o paciente tomou muito a sério o sermão e resolveu seguir-lhe o conselho, deixando de falar com um rapaz que, segundo sabia, se masturbava muito. Conseguiu, durante algum tempo, manter a resolução formada, mas, depois, para evitar o contato com o rapaz, desenvolveu certas fobias e procedimentos compulsivos que mantivessem a distância. Primeiramente, sempre que encontrava o outro, tinha de cuspir; a análise nunca chegou a clarificar uma resolução obsessiva quanto ao número de vezes que tinha de cuspir. A fobia disseminou-se; o paciente absteve-se de todo contato com a família e os amigos do “Evitado”. (O paciente deu ao outro rapaz este nome para não ter que usar-lhe o nome). A seguir, como o Evitado era filho de um barbeiro, passou a evitar as barbearias. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 57 57 NEUROSES Mais adiante, chegou a evitar contato com pessoas que frequentavam barbearias; e sentiu-se obrigado a não passar no bairro da cidade onde se localizava a barbearia do pai do “Evitado”. Daí por diante, a neurose inteira desenvolveu-se com rapidez em “neurose de isolamento”. O rapaz estabeleceu, compulsivamente, que os membros da família, principalmente as mulheres (avó, mãe e irmã) não devia passar naquela vizinhança proibida, o que o fez sofrer muito porque as parentes não se dispuseram a aceitar esta restrição da sua liberdade. O paciente seguiu implicitamente a sua própria proibição, mas quanto mais estritamente limitava seus atos, mais intensamente era obrigado a pensar, obsessivamente, no bairro proibido da cidade. Não é difícil compreender que isso o fez sofrer, mas a explicação que deu do seu sofrimento foi inesperada: era penoso, disse ele, porque em casa via a mãe e a avó, daí por que não devia pensar nos locais nem nas pessoas proibidas. Se bem que percebesse a relação entre a sua doença e a masturbação, a conexão lhe escapava. Deixara de masturbar-se sem maior dificuldade aparente, mas, no lugar dela, cada vês se tornou mais nítido o esforço neurótico que fazia para manter a ideia “membro da família” separada das pessoas e locais desagradáveis ou “incompatíveis”, esforço que visava a isolar estas ideias umas das outras. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 58 58 NEUROSES O isolamento veio a tornar-se o tópico principal da neurose. O paciente considerava lícito pensar nas coisas “incompatíveis”, mas procurava não pensar nas pessoas “compatíveis” ao mesmo tempo, desta forma demonstrando que o Complexo de Édipo era o conteúdo da atividade masturbatória. A elaboração deste esforço por parte do ego, que queria defender-se contra o complexo de Édipo mediante o isolamento, levou o paciente, dentro de poucos meses, a neurose, obsessiva das mais severas. O paciente assemelhava-se ao homem da peça de Wedekind que, segundo se supunha, não devia pensar em urso. Sempre que pensava no “Evitado”, pensava imediatamente, na avó, sintoma tormentoso que denominou de “conexão”. Conseguiu usar uma defesa com que o manipular, a saber, uma chamada “desconexão”, o que constitui um bom exemplo do mecanismo de “anulação”. Depois de haver pensado, ao mesmo tempo, num local proibido e numa pessoa compatível, desde que conseguisse, porém, formar uma imagem mental da coisa incompatível completamente isolada e liberta de todos os anexos compatíveis, tudo entrava nos eixos novamente e o paciente acalmava-se. Não tardou muito a deixar-se absorver na construção de “desconexões” o dia inteiro. Surgiram, a seguir, dois outros componentes que tenderam a aumentar a severidade da neurose obsessiva disseminada: INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 59 59 NEUROSES extensão imensa do campo da sintomatologia e invasão dos sintomas pelos impulsos rejeitados. A divisão dos objetos em compatíveis e incompatíveis pouco a pouco veio a abranger todas as pessoas, todos os lugares. Assim, por exemplo, os “colegas” tornaram-se “incompatíveis”; os parentes tornaram-se “afins”; todas as outras pessoas, mediante associações superficiais, foram colocadas numa ou noutra categoria, sujeitas, por conseguinte, a conexões e desconexões. Sofrida que fosse uma conexão, o paciente não conseguia sair do lugar onde por acaso estava, nem conseguia interromper a atividade em que estivesse, no momento, empenhado, sem ter, antes, completado a desconexão, situação esta que lhe era muito angustiante. Assim, sempre se mostrava problemática a possibilidade de levantar-se do divã, terminada a entrevista analítica; e durante a hora inteira que esta tomava, torturava-o o medo de vê-la acabar justamente entre uma conexão e uma desconexão. Enfim, a própria defesa veio a exprimir os impulsos rejeitados. A compulsão a desconectar obrigava o paciente a ter bastante pessoas, lugares e coisas compatíveis à sua disposição. O desejo de acabar rapidamente com a tensão tormentosa fez voltar da repressão o material reprimido. O paciente pôs-se a frequentar lugares incompatíveis, anotando com cuidado as pessoas incompatíveis, de modo a tê-las sempre à disposição em caso de necessidade. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 60 60 NEUROSES Mas não lhe foi possível fazer a mesma coisa com todos os objetos incompatíveis. O Evitado, por exemplo, continuou a ser evitado. Com o tempo, o paciente veio a ter uma série graduada de diferenciações: haviam objetos que eram fobicamente evitados por serem de todo incompatíveis; mas haviam outros menos incompatíveis que ele procurava e que precisava ter à disposição; mais ainda: objetos um tanto indiferentes, ligeiramente compatíveis e absolutamente compatíveis. Por fim, conscientemente, esforçou-se por só pensar em objetos incompatíveis na esperança de que, assim, produziria com mais facilidade a desconexão. Como a ideia de “objetos incompatíveis” representava “masturbação”, o paciente estava, então, inconscientemente, a masturbar-se de maneira incessante. Aliás, quando máxima lhe era a tensão e não conseguia produzir desconexão malgrado todos os esforços, acontecia-lhe, às vezes, para sua grande surpresa, ter uma ejaculação. CASO 8 (Freud, 1886): O paciente, ..., gravador de 29 anos, é a pessoa que está diante dos senhores: um homem inteligente, que de pronto se ofereceu para ser examinado por mim, na esperança de uma rápida recuperação. Permitam-me que comece por um relato de sua história familiar e de sua história pessoal. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 61 61 NEUROSES O paido paciente, aos 48 anos de idade, morreu da doença de Bright; trabalhava numa adega, bebia muito e tinha temperamento violento. Sua mãe morreu, aos 46 anos, de tuberculose. Soube-se que ela sofria muito de dores de cabeça, quando jovem: o paciente nada tem a dizer sobre ataques convulsivos ou algo semelhante. O casal teve seis filhos, dos quais o primeiro levou uma vida irregular e faleceu de uma afecção sifilítica cerebral. O segundo filho tem interesse especial para nós; ele desempenha um papel na etiologia da doença do seu irmão e parece que ele próprio era histérico. Contou ao nosso paciente haver sofrido de ataques convulsivos; e, por uma estranha coincidência, nesse mesmo dia, encontrei um colega de Berlim que tratara desse irmão, em Berlim, durante uma enfermidade, e havia diagnosticado que ele sofria de histeria – diagnóstico este que também foi confirmado num hospital daquela cidade. O terceiro filho desapareceu desde que desertou do exército; o quarto e o quinto morreram em tenra idade, e o último é o nosso paciente. Nosso paciente teve um desenvolvimento normal na infância, nunca sofreu convulsões infantis e teve as doenças comuns de crianças. Aos oito anos, teve a infelicidade de ser atropelado na rua; sofreu ruptura do tímpano direito, com permanente déficit da audição do ouvido direito, e foi acometido de uma doença que durou diversos meses, durante a qual sofria frequentes desmaios, cuja natureza atualmente já não é possível descobrir. Esses desmaios continuaram por uns dois anos. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 62 62 NEUROSES Desse acidente adveio um certo embotamento intelectual, que o paciente afirma ter sido notado em seu rendimento escolar, e uma tendência a sensações vertiginosas sempre que, por alguma razão, se sentia indisposto. Mais tarde, completou o curso primário; após a morte dos pais, passou a aprendiz de gravador; um dado que fala muito a favor de seu caráter é o fato de ter permanecido como artífice e empregado do mesmo mestre de ofício durante 10 anos. Considera-se pessoa cujos pensamentos estavam total e unicamente voltados para a perfeição de seu habilidoso ofício e que, com esse fim em vista, leu muito e exercitou-se no desenho, não se permitindo relacionamentos sociais nem divertimentos. Via-se obrigado a refletir muito acerca de si mesmo e de suas ambições e, por fazê-lo com tanta frequência, caía num estado de excitada fuga de ideias, no qual ficava alarmado a respeito de sua saúde mental; seu sono muitas vezes era agitado e sua digestão fazia-se lenta por causa de seu modo de vida sedentário. Sofreu de palpitações durante os últimos nove anos; mas, afora isto, era sadio e jamais precisou interromper seu trabalho. Sua doença atual começou há uns três anos. Nessa época, teve um desentendimento com o irmão que levava uma vida desregrada, porque este se recusou a lhe pagar uma soma em dinheiro que o paciente lhe emprestara. O irmão ameaçou apunhalá-lo e avançou contra ele com uma faca. Isto causou ao paciente um medo indescritível; sentiu um zumbido na cabeça, como se ela fosse estourar; correu para casa, sem poder contar como foi que INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 63 63 NEUROSES chegou lá, e caiu no chão, inconsciente, em frente à porta de casa. Depois, ouviu dizer que, durante duas horas, tinha tido violentos espasmos, durante os quais falara da cena com seu irmão. Quando voltou a si, sentia-se muito fraco; durante as seis semanas seguintes, sofreu de violentas dores no lado esquerdo da cabeça e pressão intracraniana. Parecia-lhe alterada a sensibilidade na metade esquerda do corpo, e seus olhos se cansavam facilmente no trabalho, que ele retomou em seguida. Com algumas oscilações, seu estado ficou sendo este durante três anos, até que, há sete semanas, uma nova agitação causou uma mudança para pior. O paciente foi acusado de roubo por uma mulher, teve palpitações violentas e, por uns quinze dias, esteve tão deprimido que pensou em suicídio; ao mesmo tempo, um tremor muito intenso tomou conta de seus membros esquerdos. A metade esquerda de seu corpo ficou como se tivesse sido afetada por um pequeno acidente cerebral; seus olhos se enfraqueceram muito e frequentemente faziam-no ver tudo cinza; seu sono era interrompido por aparições terrificantes e sonhos nos quais pensava estar caindo de uma grande altura; começaram a surgir dores no lado esquerdo da garganta, na virilha esquerda, na região sacra e em outras áreas; seu estômago, com frequência, estava “como se tivesse estourado”, e ele se viu obrigado a parar de trabalhar. Outra piora em todos esses sintomas data da última semana. Além disso, o paciente está sujeito a dores violentas no joelho esquerdo e na planta do pé esquerdo, quando caminha durante algum tempo; tem uma sensação peculiar na garganta, como se a língua estivesse presa, ouve frequentes zumbidos nos ouvidos, e outras coisas dessa natureza. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 64 64 NEUROSES Sua memória está prejudicada quanto aos acontecimentos ocorridos durante sua doença; quanto aos eventos anteriores à doença, porém, não apresenta problemas. Os ataques sob forma de convulsões repetiram de seis a nove vezes durante os três anos; contudo, a maior parte deles foi muito benigna; somente um ataque, à noite, no último mês de agosto, acompanhou-se de “agitação” com bastante gravidade. Agora examinemos o paciente: um homem bastante pálido, de compleição média. O exame de seus órgãos internos nada revela de patológico, exceto bulhas cardíacas abafadas. Quando comprimo o ponto de saída dos nervos supra-orbital, infra-orbital ou no mento, do lado esquerdo, o paciente volta a cabeça por uma expressão de dor intensa. Podemos, portanto, supor que há uma alteração nevrálgica do trigêmeo esquerdo. Também a abóbada craniana é muito sensível à percussão na sua metade esquerda. A pele da metade esquerda da cabeça comporta-se, no entanto, de modo muito diferente do que esperávamos: está completamente insensível a estímulos de qualquer espécie. Posso aplicar-lhe alfinetada, beliscá-la, torcer o lobo da orelha entre meus dedos, sem que o paciente chegue sequer a perceber o contato. Aqui, pois, existe um grau muito elevado de anestesia; esta, contudo, atinge não só a pele como também as membranas mucosas, conforme lhes mostrarei no caso dos lábios e da língua do paciente. Se introduzo um rolinho de papel em seu canal auditivo externo esquerdo e depois em sua narina esquerda, não se produz nenhuma reação. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 65 65 NEUROSES Repito agora a experiência no lado direito e mostro que aqui a sensibilidade do paciente é normal. Em consonância com a anestesia, os reflexos sensoriais também estão abolidos ou diminuídos. Assim, posso introduzir meu dedo e tocar todos os tecidos faríngeos do lado esquerdo, sem que resultem ânsias de vômito; os reflexos faríngeos do lado direito, contudo, também se encontram diminuídos; apenas quando toco a epiglote no lado direito é que se dá uma reação. O toque da conjuntiva palpebral e ocular mal produz o fechamento das pálpebras; por outro lado, o reflexo corneano está presente, embora muito reduzido. Aliás, os reflexos conjuntivais e corneano do lado direito também estão diminuídos, embora em grau menor; e esse comportamento dos reflexos é suficiente para me possibilitar a conclusão de que os distúrbios da visão não se limitam necessariamentea um olho (o esquerdo). E, realmente, quando pela primeira vez examinei o paciente, ele mostrava em ambos os olhos a peculiar poliopia monocular dos pacientes histéricos e distúrbios da sensibilidade às cores. Com o olho direito, reconhecia todas as cores, exceto o roxo, que dizia ser cinzento; com o olho esquerdo, reconhecia apenas o vermelho-claro e o amarelo-claro, ao passo que considerava todas as outras cores como cinzento, quando eram claras, e como preto, quando escuras. O Dr. Konigstein teve a gentileza de submeter o paciente a um minucioso exame oftalmológico e posteriormente relatará suas conclusões. Passando aos outros órgãos dos sentidos, o olfato e o paladar estão inteiramente anulados do lado esquerdo. Somente a audição foi poupada da hemianestesia cerebral. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 66 66 NEUROSES Convém lembrar que a acuidade do ouvido direito ficou seriamente prejudicada desde que o paciente sofreu um acidente, aos oito anos de idade; seu ouvido esquerdo é o melhor; a redução da audição nele presente é (segundo uma gentil comunicação do Professor Gruber) suficientemente explicada por uma visível e substancial afecção da membrana timpânica. Se procedermos agora a um exame do tronco e dos membros, verificaremos também uma anestesia absoluta, sobretudo no braço esquerdo. Como vêem, consigo espetar a ponta de uma agulha numa dobra da pele sem que o paciente reaja. As estruturas profundas – músculos, ligamentos e articulações – também devem estar insensíveis em grau igualmente elevado, pois posso mover a articulação do punho e estirar os ligamentos sem provocar qualquer sensação no paciente. É consoante com essa anestesia das estruturas profundas o fato de que o paciente, quando seus olhos são vedados, também não tem noção da posição do seu braço esquerdo no espaço, nem de qualquer movimento que executo com ele. Passo uma venda em seus olhos e depois lhe pergunto o que fiz com sua mão esquerda. Ele não consegue dizer. Peço-lhe que, com a mão direita, segure o polegar, o cotovelo ou o ombro esquerdo. Ele tateia às cegas, confunde sua própria mão com a minha, que lhe estendo, e então admite que não sabe a quem pertence a mão que segurou. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 67 67 NEUROSES Deve ser particularmente interessante descobrir se o paciente é capaz de encontrar as partes da metade esquerda de sua face. Seria de supor que isso não lhe oferecesse quaisquer dificuldades, pois, afinal, a metade esquerda do rosto está, digamos, firmemente cimentada à metade direita, intacta. Mas a experiência mostra o contrário. O paciente erra o alvo no olho esquerdo, no lobo da orelha esquerda, e assim por diante; na verdade, parece sair-se pior ao tatear com a mão direita as partes anestesiadas do rosto do que se estivesse tocando uma parte do corpo de alguma outra pessoa. A causa disso não é uma perturbação na mão direita, que ele está usando para apalpar, pois os senhores podem ver com que certeza e rapidez ele encontra os pontos em que lhe digo para tocar a metade direita do rosto. A mesma anestesia está presente no tronco e na perna esquerda. Observamos aí que a perda das sensações tem seu limite na linha média, ou se estende um pouco além desta. Para mim, parece haver um interesse especial na análise dos distúrbios do movimento que o paciente mostra em seus membros anestesiados. Acredito que esses distúrbios do movimento devem ser atribuídos, inteira e unicamente, à anestesia. Certamente não existe paralisia do braço esquerdo, por exemplo. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 68 68 NEUROSES Um braço paralisado ou cai flacidamente, ou se mantém rígido, devido às contraturas em posições forçadas. Aqui a coisa se passa de modo diverso. Se eu vendar os olhos do paciente, seu braço esquerdo permanecerá na posição que tinha assumido anteriormente. Os distúrbios da mobilidade são mutáveis e dependem de diversas condições. Em primeiro lugar, aqueles dentre os senhores que tiverem notado como o paciente se despiu com ambas as mãos e como fechou sua narina esquerda com os dedos da mão esquerda, não terão tido a impressão de qualquer distúrbio grave do movimento. A um exame mais acurado, verificar-se-á que o braço esquerdo, em especial os dedos, são movimentados mais lentamente e com menos habilidade, como se estivessem entorpecidos, e com um leve tremor. Todos os movimentos, até os mais complicados, são, todavia, executados, e isso acontece sempre que a atenção do paciente é desviada dos órgãos do movimento e dirigida unicamente para o objetivo do movimento. As coisas se passam diversamente quando lhe peço que efetue movimentos isolados com o braço esquerdo, sem qualquer objetivo mais remoto – como, por exemplo, dobrar o braço na articulação do cotovelo enquanto segue o movimento com os olhos. Nesse caso, seu braço esquerdo parece muito mais inibido do que antes, o movimento é feito com muita lentidão, incompletamente, em estágios diferentes, como se houvesse uma grande resistência a ser vencida, e é acompanhado de um nítido tremor. Os movimentos dos dedos são extraordinariamente débeis nessas circunstâncias. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 69 69 NEUROSES Uma terceira espécie da perturbação do movimento, a mais grave, surge, finalmente, quando o paciente é solicitado a efetuar movimentos isolados com os olhos fechados. Por certo, algo se passa no membro que está absolutamente anestesiado, pois, como veem, a inervação motora é independente de qualquer informação sensitiva do tipo que normalmente procede de um membro que vai ser movimentado; esse movimento, no entanto, é mínimo, de modo algum dirigido a um determinado segmento, e não determinável quanto à sua direção por parte do paciente. Não suponham, porém, que esse último tipo de perturbação do movimento seja uma consequência necessária da anestesia; é precisamente com relação a esse aspecto que se encontram marcantes diferenças individuais. Observamos, no Salpêtrière, pacientes com anestesias que, de olhos fechados, conservam um controle muito mais acentuado de membros que tivessem sido eliminados da consciência. A mesma influência da atenção desviada e do olhar aplica-se à perna esquerda. Hoje, durante pelo menos uma hora, o paciente caminhou a meu lado pelas ruas, a passos rápidos, sem olhar para seus pés enquanto andava. E tudo o que pude notar foi que pisava com o pé esquerdo girando-o um pouco para fora e que, muitas vezes, arrastava-o pelo chão. Mas quando lhe ordeno que ande, ele tem que acompanhar com os olhos cada movimento da perna anestesiada, e os movimentos faz-se lento e hesitante, cansando- o com muita facilidade. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 70 70 NEUROSES Por fim, com os olhos fechados, ele caminha completamente inseguro e se desloca mantendo ambos os pés em contato com o chão, como faria qualquer um de nós se caminhasse no escuro em local desconhecido. Ele também tem grande dificuldade em permanecer de pé apenas sobre a perna esquerda; quando fecha os olhos nessa posição, cai imediatamente ao chão. Prosseguirei com a descrição do comportamento de seus reflexos. Estes são, em geral, mais vivos do que o normal e, além disso, mostram pequenas coerência entre si. Os reflexos do tríceps e do extensor são efetivamente maisvivos na extremidade direita, não anestesiada. O reflexo patelar parece mais vivo na esquerda; o reflexo do tendão de Aquiles é igual em ambos os lados. Também é possível obter uma discreta reação patelar, mais nitidamente observável à direita. Os reflexos do cremaster estão ausentes; por outro lado, os reflexos abdominais são rápidos, sendo que o esquerdo está intensamente aumentado de modo que o mais leve toque numa área da pele do abdômen provoca uma contração máxima do músculo reto-abdominal esquerdo. Em conjugação com uma hemianestesia histérica, nosso paciente mostra, tanto espontaneamente como sob pressão, áreas dolorosas nesse lado do corpo que é, em outros aspectos, o lado insensível – o que se conhece como “zonas histerógenas”, embora nesse caso sua conexão com a provocação dos ataques não seja acentuada. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 71 71 NEUROSES Assim o nervo trigêmeo, cujos ramos terminais, como lhes mostrei anteriormente, são sensíveis à pressão, é a sede de uma zona histerógena desse tipo; também o são uma estreita área na fossa cervical média esquerda, uma faixa mais larga na parede esquerda do tórax (onde a pele também é sempre sensível), a parte lombar da coluna e a parte mediana do osso sacro (a pele é sensível também sobre a porção anterior dessas). Finalmente, o cordão espermático esquerdo está muito sensível à dor, e essa zona se prolonga no trajeto do cordão espermático, pela cavidade abdominal, até a área que, nas mulheres, frequentemente é sede da “ovaralgia”. Devo acrescentar dois comentários referentes aos desvios que nosso caso apresenta em relação ao quadro típico da hemianestesia histérica. O primeiro diz respeito ao fato de que o lado direito do corpo do paciente também não está livre da anestesia, ainda que não seja em grau intenso e pareça afetar apenas a pele. Há, portanto, uma zona de diminuição da sensitividade à dor (e à temperatura) sobre a saliência do ombro direito; uma outra estende-se em forma de faixa ao redor da extremidade distal do antebraço; a perna direita apresenta hipoestesia no lado externo da coxa e na panturrilha. Um segundo comentário refere-se ao fato de que a hemianestesia de nosso paciente mostra muito nitidamente a característica da instabilidade. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 72 72 NEUROSES Assim, num teste para sensitividade elétrica, contrariando minha expectativa, tornei sensível uma área da pele no cotovelo esquerdo; e testes repetidos mostraram que a extensão das zonas dolorosas do tronco e as perturbações do sentido da visão oscilavam de intensidade. É nessa instabilidade do distúrbio da sensitividade que baseio minha esperança de ser capaz de restaurar a sensitividade normal do paciente, dentro de pouco tempo. INSTITUTO INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO E SAÚDE Todos os direitos reservados © 2018 – Mariana Sabbag C ap ít u lo : X X I 73 73 NEUROSES REFERÊNCIAS Fadiman, J. e Frager, R., 1976. Teorias da Personalidade. São Paulo, Harbra, 1986. Fenichel, O., 1981. Teoria Psicanalítica das Neuroses. Rio de Janeiro/São Paulo, Atheneu, 1981. Freud, S., 1886. Observação De Um Caso Grave De Hemianestesia Em Um Homem Histérico. Vol. I da Edição Standard (Eletrônica) Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, Imago, 1997. ________, 1895ª. Estudos Sobre a Histeria. Vol. II da Edição Standard Eletrônica. ________, 1895b. Obsessões e Fobias: Seu Mecanismo Psíquico e Sua Etiologia. Vol. III da Edição Standard Eletrônica. ________, 1909. Análise de uma Fobia em um Menino de Cinco Anos. 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