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GEOTERAPIA AULA 2 Prof. Cristiano Alexandre de Andrade Neiva de Lima CONVERSA INICIAL Nesta aula, vamos conhecer como as argilas são formadas e quais são seus minerais constituintes, além de outros minerais que estão inclusos na geoterapia e terapias naturais. Além disso, compreenderemos suas propriedades principais e suas classificações. Bons estudos! TEMA 1 – CONSTITUIÇÃO DAS ARGILAS Vamos aprofundar nossa reflexão e abordar aspectos um pouco mais científicos das argilas, a fim de compreender um pouco mais sobre suas capacidades terapêuticas. As argilas e minerais argilosos são formados pelo intemperismo, ou seja, pela ação de temperatura e pressão (físico-química), bactérias (biológicas) e ações mecânicas das águas e ventos que desfragmentam ou dissolvem as rochas e vão se sedimentando, formando como produto as argilas (Branco, 2014). Podem ser classificadas em primárias e secundárias. As primárias são resultantes da ação físico-química do ambiente e geralmente se apresentam secas, muito finas e em rochas. Já as secundárias são as decorrentes das chuvas e ventos, normalmente têm aspecto mais pastoso, o que chamam de lama (Claudino, 2010). Elas são muito finas (estão na faixa de 2 a 4 micron, variando conforme a nomenclatura da área de estudo) e se constituem principalmente de silicatos de alumínio, ferro e magnésio hidratado. Esses silicatos de argila também podem ser chamados de filossilicatos, pois estão dispostos em camadas. Camadas de silicato (SiO4) com ligações com outros metais tri ou divalentes (ligações covalentes), ou seja, junto a esses silicatos, encontramos outros íons e outras partículas como: quartzo, pirita, calcita, hematita, feldspatos e mica (Buriti et al., 2019). Esses minerais se agrupam em modelos tridimensionais e em camadas, em concentrações de 1:1 (uma camada tetraédrica e 1 octaédrica) ou 2:1 (2 camadas tetraédricas e 1 no meio octaédrica), e formam modelos diferentes. Entre esses grupos, temos caulinita, ilita, esmectita (montmorilonite), clorita, vermiculita, hormitas (paligorskita/atapulgita) e conferem as propriedades de plasticidade da argila (Victoria, 2018). As mais utilizadas na indústria farmacêutica e cosmética são a caulinita, montimorilonita e a paligorskita (Carretero; Gomes; Tateo, 2013). Embora sejam classificadas assim, geralmente estão misturadas em diferentes quantidades de minerais, por isso variam muito de acordo com a localidade extraída. Além dessas classificações, a mica, o talco e o quartzo, embora estejam acima da granulometria exigida (2 a 4 micron), aparecem com frequência nas argilas e possuem as propriedades plásticas da argila, bem como outros minerais, visto que não precisamos trabalhar com tipos puros para utilizar a geoterapia. A identificação das argilas se dá pela granulometria, que é o estudo do tamanho das partículas, sendo estas menor que 0,002 mm, como mencionado; para a identificação da classe da argila, utiliza-se a difratometria por raio-x, ou seja, dá a porcentagem da quantidade de argilas, como caulinita, esmectita, ilita, clorita, vermiculita, quartzo, hematitas etc. A análise da composição química auxilia no fechamento da classificação delas, feita por espectroscopia de fluorescência de raio-x que demonstra graficamente todos os elementos químicos presentes. Os minerais que geralmente aparecem são óxidos: SiO2, TiO2, Al2O3, Fe2O3, MnO, MgO, CaO, Na2O, K2O e P2O5. Por isso, se for trabalhar com geoterapia ou argilas, é importante adquirir uma argila com laudo técnico que mostre quais são os minerais delas, facilitando a escolha terapêutica. A geoterapia inclui também outros materiais que provêm da terra que não seguem a nomenclatura citada. Entre eles, podemos citar o uso das lamas vulcânicas ricas em enxofre, bem como a dolomita e o carvão ativado. TEMA 2 – ARGILOMINERAIS Existem mais de 40 argilominerais, mas poucos são empregados na saúde e também pela prevalência desses argilominerais no solo. A maioria das argilas para uso cosmético ou medicinal contém vários tipos de argilominerais misturados, e varia conforme a produção industrial e adição de substâncias desintoxicantes, estimulantes ou calmantes. Por exemplo, a argila verde pode conter grande porcentagem de montimorilonita e menores concentrações de ilitas, caulinita, quartzo e hematita. 2.1 Caulinita A caulinita é um argilomineral do grupo caulinitas e também é conhecida como caulim. É extraída em minas do Amapá, Pará, no sudeste e sul do Brasil e depois vendida a várias empresas do país a fim de ser devidamente preparada para as mais diversas finalidades, incluindo as estéticas. Créditos: RHJPhtotoandilustration / Shutterstock. A caulinita [Al4Si4O10(OH)8] é um filossilicato 1:1, de coloração branca (às vezes pode ter outras cores por apresentar impurezas) e que possui em sua composição em média 40% de óxido de alumínio, 46% de óxido de silício, água 14% (Wilson; Wilson; Patey, 2014). Ela tem pouca capacidade de absorção, de troca catiônica e é bem pouco abrasiva, mas é muito utilizada para cosmética, em cremes, pós, maquiagens, protetores solares e máscaras faciais, principalmente para peles sensíveis e secas. Internamente, pode ser usada como antidiarreico e protetor gástrico. Devido à alta quantidade de alumínio e silício, é antisséptico, cicatrizante e estimulante da circulação, além de possuir uma capacidade alta de retenção de calor, reduzindo o calor da inflamação. Já o silício estimula a produção de colágeno e fibras cicatrizantes e também tem uma ação de preenchimento. Outros minerais das classes das caulinitas são haloisita, diquita e nacrita. 2.2 Montmorilonita A montmorilonita é uma junção de hidróxidos de alumínio [Al(OH)3] com magnésio [Mg(OH)2] – algumas literaturas também indicam ou ferro [Fe(OH)2] com sílica (SiO2) e os cátions estabilizadores são sódio (Na+), cálcio (Ca+2) e/ou magnésio (Mg+2) em diferentes concentrações e água. Ela faz parte de um dos maiores grupos de argilas, as esmectitas. No Brasil é extraída na Paraíba, Bahia e São Paulo. Quando encontrada sozinha, sem outros minerais, ela é denominada bentonita, nome proposto pela Associação Internacional para Estudos das Argilas (Aipea). A montmorilonita possui uma grande variação na coloração, do acinzentado ao vermelho, conforme a quantidade de ferro e outros minerais que são encontrados. Sua composição mineralógica básica é 44% de silicatos (SO2), 18% de óxidos de alumínio (Al2O3), até 6% de magnésio (Mg), 1% de óxido de sódio (Na2O), 1% de óxido de cálcio (CaO) e 30% de água (H2O). É uma argila com estrutura lamelar 2:1, possui propriedades de grande troca de íons (cátions) e grande capacidade de absorção e adsorção (Mouzon; Bhuiyan; Hedlund, 2016). Há certa dificuldade de classificar esse mineral, pois algumas classificações o colocam como classe de vários minerais que possuem a mesma estrutura geométrica e propriedades, por isso apresentam-se de formas tão variadas – umas com estruturas com sódio (Na), outras com magnésio (Mg) e lítio (Li), outras com maior quantidade de cálcio (Ca). Cada uma recebe um nome diferente: beidelita, nontronita, saponita, hectorita, stevensita e sauconita. Créditos: Akvals / Shutterstock. Essa é a argila mais empregada para fins medicinais, como cataplasma e máscaras, com potencial efeito anti-inflamatório, analgésico, cicatrizante, estimulador da energia vital e da circulação. Pode auxiliar na redução de infecções, modificando o meio local e interferindo no metabolismo do microrganismo, além do poder absortivo. Também pode ser utilizada para uso interno como proteção gástrica, antidiarreico e antiácido. Na cosmética, seu emprego está associado com protetor solar e máscaras para peles oleosas e acneicas. Compõe parte da maioria das argilas, em diferentesporcentagens, preta, azul, cinza, verde, amarela e vermelha. 2.3 Ilitas As argilas do tipo ilitas têm estrutura lamelar 2:1, são esverdeadas e possuem praticamente a mesma estrutura geométrica das montimorilonitas; o que irá diferenciar é o cátion potássio (K+). Elas estão entre as mais comuns, junto com as montimorilonitas, e são utilizadas topicamente na pele e para extração de potássio. O uso interno deve ser muito criterioso, visto que consumimos na alimentação, e o excesso de potássio afeta o sistema nervoso e cardiovascular. 2.4 Cloritas As cloritas são argilominerais que contêm em sua estrutura o Fe+2 e Fe+3, junto com as estruturas comuns das argilas, silicatos de alumínio e silicatos de magnésio; podem conter hematita (Fe02) e outros minerais combinados com Fe. Outras espécies de cloritas contêm níquel, manganês, cálcio, zinco e lítio – tudo vai depender de sua geologia. Quanto à cor, variam desde preto esverdeado, marrom e cinza, cinza esverdeado, azulados, rosa, vermelhos. Quanto mais vermelho ou escuro, mais se sugere a presença de maior quantidade de ferro. São muito associadas a outras argilas e rochas como caulinita, calcitas, quartzo, hematitas e outros. 2.5 Paligorskita O argilomineral paligorskita, também conhecido como atapulgita, pertence a uma classe de argilas fibrosas ou chamadas interestratificadas. É muito visado nas indústrias, incluindo as cosméticas, devido às suas propriedades de aumentar significativamente de volume na presença de água e à sua estabilidade e viscosidade com altas concentrações de eletrólitos. De coloração branca, constituída de silicatos de alumínio e magnésio, são muito utilizadas pelas indústrias cosméticas internacionais. TEMA 3 – OUTROS MINERAIS Além dos filossilicatos citados anteriormente, junto às argilas encontramos outros minerais com propriedades parecidas e que são muito utilizadas na clínica. Em outros casos, podemos empregar o carvão ativado, que não é encontrado com as rochas, mas sim produzido com a combustão de materiais orgânicos. 3.1 Talco O talco é um mineral de coloração que varia do verde escuro, verde claro, branco amarelado e branco e tem propriedades parecidas com as das argilas. É um filossilicato também e possui muito magnésio (32% aproximadamente). Não apresenta alumínio em sua composição, e para ser encontrado necessita ser extraído de rochas – uma delas é a pedra-sabão –, mas também está presente nas argilas cloritas, vermiculitas, dolomitas, quartzo etc. Ele é muito utilizado na indústria farmacêutica e cosmética pelas propriedades de absorção e espalhabilidade. Além do talco, também se observa o uso de carbonatos (C) e sulfatos (S), que podem ser encontrados associados às argilas. 3.2 Dolomita A dolomita não é classificada como argila, mas muitos geoterapeutas a empregam para uso interno e em máscaras externas. Pertencente ao grupo dos carbonatos, é encontrada em várias rochas, junto com outros minerais; possui várias cores, desde preto, vermelho, marrom, rosa e branco (geralmente a utilizada é a branca). Constitui carbonatos duplos, de cálcio e magnésio [CaMg(CO3)]. No Brasil, foi patenteada como Gran White e é utilizada como suplemento de cálcio e magnésio, até mesmo para auxiliar no tratamento da osteoporose. Contém mais de 20 minerais em pequenas proporções, por isso é utilizada como complemento remineralizante. Estudo realizado em um instituto de ciência em Israel verificou que esse suplemento beneficiava os rins, melhorando a produção de calcitriol, responsável pela absorção do cálcio pelos intestinos. Um grupo de idosos foi acompanhado para verificar a massa óssea (Edelstein et al., 2001). 3.3 Carvão ativado (Carbo activatus) Esse carvão não é o mesmo do carvão de uso doméstico; ele pode ser feito da queima de cortiça, da casca de coco ou outros vegetais. Seu uso é antigo, relatos remetem ao emprego dele no Egito e Grécia para intoxicações e distúrbios digestivos. O carvão ativado é muito utilizado em emergências médicas na intoxicação por paracetamol e pesticidas (organofosforados), mas também pode ser empregado como agente desintoxicante interna e externamente na clínica. O carvão ativado ou carbono ativado também está presente em filtros de água, incluindo tratamentos de esgoto. Ele possui grande capacidade de adsorção, o que caracteriza a absorção e retenção de substâncias tóxicas exógenas ou endógenas, incluindo toxinas de bactérias. Algumas indústrias farmacêuticas já o disponibilizam há algum tempo em forma de comprimidos para intoxicações gastrointestinais leves. Pode ser útil também como antidiarreicos e para gases, porém é contraindicado para grávidas e obstruções do trato gastrointestinal, na constipação intestinal e em casos de sangramentos (hemorragias e úlceras). Externamente, pode ser utilizado em máscaras cosméticas e em pequenas quantidades como dentifrício (clareador mecânico dental). Existem também curativos com carvão ativado estéril, que podem ser úteis para feridas, como escaras e úlceras varicosas que apresentam exsudatos e mau odor, e auxiliam muito na recuperação. É encontrado em casas de materiais hospitalares e farmácias. Uma pesquisa realizada na Universidade de Illinois, Chicago, verificou que o uso de carvão ativado junto ao medicamento aciclovir tópico reduziu mais rápido a inflamação e a carga viral (Yadavalli et al., 2019). TEMA 4 – PROPRIEDADES TERAPÊUTICAS As argilas podem ser utilizadas para uso oral (ingestão), tópico (aplicação local) e como excipientes na indústria farmacêutica (para auxiliar na absorção de medicamentos e dar volume). A geoterapia é uma terapia antiga que se desenvolveu com a observação, ou seja, de modo empírico. Apesar de poucos estudos sobre o efeito terapêutico das argilas, seguimos com constatações diárias nas clínicas e spas com os benefícios identificados. Existem muitos trabalhos sobre suas propriedades físico-químicas para a produção de cosméticos, na estética e em outras indústrias como de telhas e cerâmicas; entretanto, no quesito geoterapia, artigos que estejam de acordo com os métodos que a ciência exige atualmente são escassos. Algumas propriedades já conhecidas que podem contribuir com efeitos terapêuticos. Vamos indicá-las a seguir: • Material inócuo – muito pouco tóxico para seres vivos, e consegue ficar estável em um amplo espectro de pH, facilitando a inserção de outras substâncias junto às argilas. Nas terapias, podemos utilizar as infusões, decoctos, óleos essenciais, que não interagem com as argilas no sentido de modificar propriedades. • Proteção da pele – as caulinitas, talcos e esmectitas podem ser adicionadas em cosméticos para auxiliar na proteção da pele (protetores solares), para absorção de secreções e bactérias da pele (efeito leve antisséptico); é útil também na seborreia. • Cosmético – em cremes, bases e pós, auxiliam a diminuir brilho, cobrir manchas e peeling mecânico. • Protetores gastrointestinais – no uso interno, a caulinita e a paligorskita apresentam ação sobre a mucosa gástrica, têm alta espalhabilidade e aderência, além da adsorção que retém toxinas, bactérias e vírus em sua superfície. As esmectitas são mais sensíveis aos ácidos gástricos e por isso não são utilizadas. As argilas não são absorvidas e são eliminadas pelas fezes (Carretero, 2001). • Adsorção – retenção de substâncias na sua superfície. Como mencionado anteriormente, as argilas têm capacidade de reter substâncias em sua superfície, como secreções, gorduras, toxinas, bactérias e vírus. Elas possuem em sua borda atração negativa, atraindo radicais livres carregados positivamente para sua superfície (Vila y Campana, 2000). • Anti-inflamatório – com duas propriedades: a de adsorção, removendo toxinas de qualquer natureza, e de equilíbrio térmico, removendo o excesso de calor.É útil nos casos de acnes, furúnculos e úlceras. • Trocas iônicas – os cátions livres entre as camadas das argilas interagem entre eles e com o meio externo. Por exemplo, ao se utilizarem argilas mais quentes, facilita-se a troca de substância que a pele libera para dentro das argilas, enquanto seus minerais transitam para a pele. • Tixotrópica – facilidade em se transformar em gel e em pó quando seco. • Coloidal – capacidade de misturar fases diferentes, como água e óleo, e manter uma estabilidade. • Absorção – alta capacidade de absorver água e aumentar o seu volume; pode ser útil em casos de inchaços e edemas. • Antitranspirante – pela sua capacidade de absorção de umidade e também pela presença de minerais que auxiliam no efeito antisséptico e oclusivo. • Antidiarreica – a caulinita e a paligorskita apresentam grande capacidade de absorção, removendo o excesso de água das fezes; podem absorver também o excesso de gases. • Laxativa – argilas ricas em sódio (Na), como são algumas esmectitas, podem provocar efeito laxativo osmótico e faz com que a água seja concentrada em maior quantidade para os intestinos, aumentando volume das fezes e provocando peristalse. Esse efeito deve ser usado apenas para casos leves; em situações de constipação grave ou obstrução de intestinos, não deve ser utilizada (Carreteiro, 2001). • Retenção térmica – as argilas em geral têm capacidade de retenção de calor; mesmo aplicada fria, irá remover o calor interno e posteriormente equilibrará, trazendo sensação de bem-estar. Em casos deficientes de calor corpóreo, utilizaremos as argilas quentes. • Remineralizante – devido à capacidade de troca iônica, conforme os minerais presentes, estes podem ser levados para dentro do tecido cutâneo. • Plasticidade – facilmente moldável. • Baixo custo – facilidade para comprar com vistas a realizar tratamentos. Para Vila y Campana (2000), as argilas favorecem a cicatrização, reduzem cicatrizes, é antisséptica e bactericida, analgésica e anti-inflamatória, miorrelaxante, sedativa, equilibrador energético, equilibrador térmico. Cita Raymond Dextreit, comentando sobre as propriedades das argilas como catalisadoras de reações orgânicas, muito além das propriedades termodinâmicas e das substâncias que contêm (Vila y Campana, 2000). Para Dornellas e Martins (2009), as argilas possuem também propriedades de estimular a microcirculação cutânea, regulação sebácea e queratinização, analgésica, cicatrizante, tonificante e antirreumática. Para Medeiros (2020) e muitos outros terapeutas de geoterapia, as argilas possuem propriedades energéticas. Utilizando o efeito piezelétrico, produzidos pelas estruturas dos silicatos e dos minerais da argila quando hidratadas e agitadas para adquirir o ponto de gel, faz com que os íons produzam certa condutibilidade de propriedade elétrica, o que também estimula as trocas com a pele. Estudo realizado no departamento da Unisul demonstrou que os potenciais elétricos produzidos pelas argilas são compatíveis com as diferenças de potenciais da membrana celular; a ação de um campo elétrico mínimo para atuar na pele é de 10mV, e a argila apresentou 15mV. Peretto (2000) cita Raymond Dextreit, que relata a capacidade de absorver acúmulo de radiações no corpo ou energizar o corpo que necessita. Acreditamos que o que ele esteja comentando sobre energizar é a capacidade de melhorar o campo eletromagnético das células. Dextreit usava um aparelho para verificar a radiação, o contador Geiger-Muler, empregado até os dias de hoje (Peretto, 2000). A empresa brasileira TerraMater Active Minerals, com sede em Santa Catarina e que vende argilas para cosméticas, desenvolve uma série de ensaios a respeito dos efeitos das argilas sobre a pele e cabelos. Um dos estudos produzidos tem como avaliação a produção de colágeno e elastina, a proteção dos fios de cabelo e a redução na produção de melanina. Recentemente, se evidenciou uma ação biológica, influindo na ação da expressão gênica inflamatória da pele, além de ações antioxidantes e hidratantes. TEMA 5 – MICRONUTRIENTES E MACRONUTRIENTES Micronutrientes ou oligoelementos são minerais encontrados em pequenas quantidades no corpo humano e responsáveis por catalisar nosso metabolismo. Embora estejam em pequenas quantidades exercem muitas ações enzimáticas. Jacques Menetrier é o criador da oligoterapia, cujo objetivo é ativar determinado oligoelemento para determinada rota metabólica. Os oligoelementos também são usados na nutrição (para prevenção) e na farmacologia (auxiliando no tratamento de doenças). Esses micronutrientes se classificam em essenciais e não essenciais: zinco, cobre, cobalto, selênio, molibdênio, bromo, lítio, ferro, iodo, manganês, boro, flúor, arsênio, enxofre, vanádio, níquel, zinco e estanho. Atualmente existem estudos de outros microelementos, mas esses são os mais conhecidos. Os elementos minerais que fazem parte da composição da argila acabam sendo absorvidos e atuando como oligoelementos, colaborando nos tratamentos de saúde e estéticos; por isso, é importante conhecer os argilominerais presentes. Conforme a revisão sistemática de Ramirez et al. (2014) e as observações de Dornellas e Martins (2009), alguns oligoelementos e suas ações são: • Cobre (Cu): presente em vários processos gerais, nas funções do sistema nervoso central, desenvolvimento de vasos sanguíneos, síntese da hemoglobina e desenvolvimento do tecido conjuntivo; interfere na absorção do ferro, se deficiente (anemia hipocrômica). É observado em carnes, nozes, mariscos, grãos integrais. • Cromo (Cr): participa do metabolismo da glicose, atua sobre o metabolismo de colesterol e triglicerídeos. Presente em uvas, carnes, fígado, pimenta preta e ostras. Sua deficiência pode causar intolerância a açúcar e alteração do metabolismo dos lipídios. • Manganês: participa na formação dos ossos, é antioxidante, atua no metabolismo dos macronutrientes (proteínas, carboidratos e lipídeos), na biossíntese do colágeno, tem ação anti-infecciosa, cicatrizante e antialérgica; é encontrado em legumes, cereais, frutas secas, chá e café. Sua deficiência pode influenciar a formação óssea, o crescimento e gerar anomalias ósseas, além de afetar as glândulas reprodutoras. Excesso pode provocar alterações neurológicas. • Ferro: fundamental para a respiração celular e transferência de elétrons. Na pele, a falta desse mineral se manifesta por uma epiderme fina, seca e sem elasticidade. A falta de ferro é uma das causas de anemia. • Cobalto (Co): faz parte da cianocobalamina (vitamina B12), atuando na formação dos glóbulos vermelhos e na síntese do DNA. A deficiência da vitamina B12 pode ocasionar anemia (sintomas comuns, fadiga, fraqueza, palidez) e doenças neurológicas (perda de sensibilidade, dormência, confusão mental, perda de reflexos). Está presente em carnes vermelhas, moluscos, levedura de cerveja e repolho. • Zinco (Zn): faz parte de enzimas que interagem com o oxigênio (O2) e as que interferem no metabolismo do DNA e RNA. É encontrado em champignon, levedura de cerveja, germe de trigo, leite, nozes, maçãs, feijões e gema de ovo. É um elemento importante para grávidas, e sua deficiência atua nos metabolismos citados; alguns estudos referem sua deficiência em alguns tipos de câncer. Pode estar deficiente também o cobalto. • Lítio (Li): atua no metabolismo do ácido fólico, na vitamina B12 e no DNA, inibe o glicogênio (glicose armazenada no fígado) e a ação do hormônio estimulante da tireoide. Está presente em água potável, leite e laticínios, ovos, batatas e cereais. • Selênio (Se): atua como antioxidante, cardioprotetor e na regulação da tireoide, bem como neutraliza metais pesados. É encontrado em proteínas, legumes, cereais e frutas secas. • Iodo (I): síntese de hormônios da tireoide, metabolismoenergético e produção de calor. Está presente em frutos do mar e alimentos iodados. Sua deficiência pode causar bócio, deficiência mental, aumento de abortos e malformação congênita. Não está presente na maioria das argilas, mas pode ser encontrado em algumas lamas especiais, como lama do mangue ou a lama do Mar Morto. • Silício (Si): desempenha papel importante na reconstituição dos tecidos cutâneos e na defesa do tecido conjuntivo. Tem ação hemostática, purificante, adstringente e remineralizante. Possui efeito hidratante na pele e reduz as inflamações, além de favorecer a elasticidade da pele, atuando em flacidez cutânea. Os elementos que geralmente são tóxicos e que às vezes podem ser encontrados em argilas são: • Cádmio (Cd): interfere na absorção de cálcio, ferro e cobre e pode ter um efeito estrógeno conforme a dose; presente em comida refinada (arroz e farinhas brancas). É um oligoelemento tóxico, se acumula no organismo, pode afetar os rins, os pulmões, mucosas e alterar a imunidade. • Titânio (Ti): em microdoses, estimula o crescimento, porém tem efeito carcinogênico e estimula o efeito tóxico de elementos mercúrio (Hg) e chumbo (Pb). • Mercúrio (Hg): presente em alguns pescados, pode ser encontrado em lamas contaminadas. Bloqueia o transporte de açúcar e causa danos cerebrais e no feto. Outros elementos não são considerados oligoelementos, mas estão presentes no corpo em maior quantidade. Como estão presentes nas argilas, vale citá-los: • Sódio (Na) e potássio (K): ajudam a preservar o equilíbrio iônico das células; atuam no funcionamento de todas as células, nervos e músculos. • Potássio (K): possui uma estreita concentração no sangue, geralmente encontra-se dentro das células. Sua deficiência pode ser causada por vômitos, diarreia, uso excessivo de laxantes ou diuréticos. É importante destacar aqui que se descobriu que quem sofre de hipocalemia (deficiência de potássio) não deve ingerir argila bentonita junto com os alimentos ou suplementos, pois ela se liga ao potássio no intestino. Essas deficiências podem causar fraqueza, arritmias cardíacas, hipotensão e hipoventilação, entre outros sintomas. Alguns medicamentos como salbutamol, medicamentos para diabetes (hipoglicemiantes) e digoxina também podem levar à deficiência de potássio. • Alumínio (Al): inibe cofatores para a formação de neurotransmissores; se consumido ou inalado, é prejudicial, causando alterações neurológicas e imunológicas. Em ínfimas quantidades, é eliminado pelas fezes, um pouco pelos rins e pela vesícula. Externamente possui uma atividade biológica interessante, estimula a cicatrização, podendo inibir até o crescimento de algumas bactérias como a Staphylococcus aureus em feridas. Importa lembrar que as argilas não possuem alumínio livre, mas faz parte das estruturas intrínsecas delas; o que é liberado geralmente são seus cátions. NA PRÁTICA Cada argila possui vários tipos de argilominerais e oligoelementos. Seu poder principal de adsorção, absorção e retenção térmica são seus efeitos mais evidentes. Se a argila apresenta maior quantidade em caulinita, pode ser utilizada internamente para azia e gastrite leve, e para peles sensíveis e inflamações (externamente). As argilas com montmorilonitas são as mais empregadas para a geoterapia e se distinguem conforme o local de onde são retiradas, pois assim variam os seus cátions; em geral, ferro, sódio, cálcio e magnésio são os cátions presentes. Com esses macronutrientes e todas as propriedades citadas, trazem muitos benefícios ao corpo. FINALIZANDO Vimos que as argilas provêm de rochas sedimentares e também são denominadas filossilicatos. Podem estar estruturadas em camadas, principalmente entre silício e alumínio, em formatos 1:1 ou 2:1, o que lhes confere maior ou menor propriedade. Apresentam entre essas camadas cátions que se intercalam entre suas estruturas e podem ser doadas para estruturas externas, como a pele por exemplo. Cada argila possui uma combinação de argilominerais, dependendo do solo formado e das condições climáticas. Os principais argilominerais utilizados na prática da geoterapia estão as caulinitas e as esmectitas (montmorilonitas). Cada uma tem base de aluminossilicato, variando seus cátions e estruturas, conferindo maior ou menor capacidade de absorção, adsorção e trocas iônicas. Vimos também que, nas argilas, os cátions que interagem com a pele podem ser absorvidos e agir como oligoelementos ou elementos que estimulam enzimas e funções orgânicas. Desse modo, se pudermos escolher o tipo de argila, poderemos fazê-lo conforme sua matéria-prima. REFERÊNCIAS BRANCO, P. M. Minerais argilosos. Serviço Geológico do Brasil – CPRM, 2014. Disponível em: . Acesso em: 20 fev. 2021. BURITI, B. M. A. B. et al. Characterization of clays from the State of Paraíba, Brazil for aesthetic and medicinal use. Cerâmica, São Paulo, v. 65, n. 373, p. 78- 84, jan. 2019. Disponível em: . Acesso em: 2 fev. 2021. CARRETERO, M. I. Clay minerals and their beneficial effects upon human health. 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