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Instrumentos de Desenvolvimento Urbano Sustentável CURSO DE EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA Introdução aos Instrumentos para o desenvolvimento urbano sustentável Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Informações: A dimensão do conhecimento para o desenvolvimento urbano sustentável Planejamento: A dimensão territorial para o desenvolvimento urbano sustentável Gestão: A dimensão institucional do desenvolvimento urbano sustentável Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável Monitorar, Avaliar, Criticar e Aprender com o desenvolvimento urbano sustentável Desenvolvimento urbano sustentável e a prática nas cidades brasileiras MÓDULO 1 MÓDULO 2 MÓDULO 3 MÓDULO 4 MÓDULO 5 MÓDULO 6 MÓDULO 7 MÓDULO 8 EXPEDIENTE PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA Presidente Luiz Inácio Lula da Silva MINISTÉRIO DAS CIDADES – MCID Ministro Jader Barbalho Filho Secretaria Nacional de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano Departamento de Estruturação do Desenvolvimento Urbano e Metropolitano Departamento de Adaptação das Cidades à Transição Climática e Transformação Digital GIZ NO BRASIL Diretor Geral Michael Rosenauer O presente trabalho foi desenvolvido no contexto do Projeto APOIO À AGENDA NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO URBANO SUSTENTÁVEL NO BRASIL – ANDUS. O projeto é uma parceria entre o Ministério das Cidades e o Ministério Federal da Economia e Ação Climática (BMWK) da Alemanha como parte da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI). É implementado pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH no contexto da Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável. Mais informações em: www.gov.br/cidades | http://andusbrasil.org.br/ | www.giz.de/brasil http://www.gov.br/cidades http://andusbrasil.org.br/ http://www.giz.de/brasil FICHA TÉCNICA MINISTÉRIO DAS CIDADES – MCID Secretaria Nacional de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano Departamento de Estruturação do Desenvolvimento Urbano e Metropolitano Departamento de Adaptação das Cidades à Transição Climática e Transformação Digital Coordenação e Revisão Técnica Nathan Belcavello de Oliveira Leonardo Rizzo de Melo e Souza Equipe participante da Revisão Técnica Adriana Micheletto Brandão Ana Paula Bruno Cesar Augustus De Santis Amaral Elize Risseko Fujitani Higuti Raquel Furtado Martins de Paula Roberta Pereira da Silva GIZ – DEUTSCHE GESELLSCHAFT FÜR INTERNATIONALE ZUSAMMENARBEIT GmbH Projeto ANDUS – APOIO À AGENDA NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO URBANO SUSTENTÁVEL NO BRASIL Diretora Sarah Habersack Coordenação e Revisão Técnica Anna Carolina Marco Cecília Martins Pereira Matheus de Souza Maia Equipe participante Ana Luísa Oliveira da Silva Marcella Menezes Vaz Teixeira Thomaz Machado Teixeira Ramalho Verena Laura Mattern Viktoria Yasmin Carvalho de Matos ORGANIZAÇÃO E ELABORAÇÃO UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior Vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Diretor Eugenio Fernandes Queiroga Vice-Diretora Maria Camila Loffredo D’Ottaviano LABORATÓRIO DE HABITAÇÃO E ASSENTAMENTOS HUMANOS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO Coordenação do do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos Luciana de Oliveira Royer Coordenação Executiva e Comissão Científica Maria Lucia Refinetti Rodrigues Martins Luciana de Oliveira Royer Ana Gabriela Akaishi Giusepe Filocomo Taís Tsukumo Equipe de Docentes Módulo 1: Rérisson Máximo e Camila Aldigueri Módulo 2: Rose Laila de Jesus Bouças Módulo 3: Fernanda Balestro Módulo 4: Jacy Soares Corrêa Neto Módulo 5: Luan Melo Módulo 6: Raphael Faustino Módulo 7: Patricia Sepe Módulo 8: Ana Gabriela Akaishi, Giusepe Filocomo, Taís Tsukumo, Karina Oliveira Leitão PROJETO GRÁFICO Lara Isa Costa Ferreira Mariana Ribeiro Pardo Ana Luiza Aun Al Makul Mariana Byczkowski Iglecias PROJETO AUDIOVISUAL Streamax Produtora Márcio Coelho Camila Mazzini REVISÃO DOS TEXTOS Lucas Nascimento Pinto TREINAMENTO EM COMUNICAÇÃO E GRAVAÇÃO DE VÍDEOS Natalia Aurélio de Sá APRESENTAÇÃO DOS MÓDULOS Maria Vitória Royer Moura APOIO INSTITUCIONAL Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-HABITAT) Escritório Regional para América Latina e o Caribe (ROLAC) - Brasil e Cone Sul Representante para o Brasil e Cone Sul Alain Grimard Oficial Nacional para o Brasil Rayne Ferretti Moraes Especialista Financeira Claudia Bastos de Mello Analistas de Operações Adriana Carneiro Vanessa Santos Carolina Oliveira Coordenador de Programas Alex Marques Rosa Analistas de Programas Angélica Maria Carnelosso Fernanda Balbino Paula Zacarias Assistentes de Programas Bethânia Boaventura Mariana Nascimento Analista de Dados Harlan da Silva Assistente de Dados Júlio Santos Assistente de Comunicação Jessamine Santos Designer Gráfico Júnior Sávio Araújo Produtor Audiovisual Demétrio Portugal As cidades no Brasil e no mundo inteiro se encontram numa fase marcada por transformações: digital, ambiental, sociodemográfica, econômica e laboral. Para atingir uma maior equidade e enfrentar os processos de transformação, é necessário reorientar as práticas de desenvolvimento urbano. O Projeto ANDUS surgiu como forma de apoiar o governo brasileiro no aprimoramento de políticas para o desenvolvimento urbano sustentável no Brasil a partir da concepção, difusão e implementação de uma nova abordagem, baseada na Agenda 2030, na Nova Agenda Urbana e no Acordo de Paris sobre mudança climática. Ele é uma parceria entre o Ministério das Cidades e o Ministério Federal da Economia e Ação Climática (BMWK) da Alemanha como parte da Iniciativa Internacional para o Clima (IKI). É implementado pela Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH no contexto da Cooperação Brasil-Alemanha para o Desenvolvimento Sustentável. Sobre o Projeto ANDUS ATENÇÃO! Esse logotipo será apresentado na apostila quando o conteúdo didático remeter a processos e produtos ANDUS. A partir do projeto de cooperação técnica intitulado “Apoio à Agenda Nacional de Desenvolvimento Urbano Sustentável no Brasil – ANDUS”, o objetivo desse curso é apoiar as pessoas atuantes na administração pública em nível federal, estadual e municipal na implementação de estratégias de desenvolvimento e gestão urbana sustentável, com capacitação e difusão do conhecimento técnico e especializado. Também, pretende- se ampliar o acesso ao tema e a processos de promoção do desenvolvimento urbano sustentável a pesquisadoras e pesquisadores e pessoas interessadas na temática, de modo geral. Para tal, serão aprofundados aspectos da elaboração, implementação, monitoramento e avaliação de leis, planos, programas e projetos no país. Eventos ambientais extremos estão cada vez mais frequentes em nossas cidades, tais como enchentes, deslizamentos, desmoronamentos e problemas sanitários, que convergem com graves questões sociais e econômicas. Abordar os conceitos e fundamentos do Desenvolvimento Urbano Sustentável e os caminhos para sua promoção é fundamental nesse contexto. Decorre daí o diálogo com a universidade pública, para a preparação de material didático e informativo. As apostilas e as videoaulas foram produzidas por um conjunto de pessoas com experiência na gestão pública e na universidade, fazendo pesquisa e aprendendo nesse diálogo entre ensino, pesquisa e prática. Destaca-se, ainda, que o curso é produzido por meio da articulação remota dessa rede nacional de pesquisadoras, pesquisadores e profissionais. Ele é produto do trabalho coletivo de uma equipe de vários profissionais, que contou com a coordenação do Laboratório de Habitação e Assentamentos Humanos - LABHAB da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e com a participação de mais de 25 convidadas e convidados docentes, profissionais, acadêmicos de todo o país ao longo do curso. E entre as demais instituiçõesparcerias através de mecanismos de cooperação horizontal (intermunicipal) para enfrentar esses desafios, como consórcios e associações. Isso foi muito importante para equilibrar o pacto federativo (CUNHA, 2009). 45 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Segundo Cunha (2009), tanto os consórcios quanto as associações são arranjos que permitem racionalizar os custos e maximizar a utilização dos recursos existentes. A associação entre os municípios é uma forma de atuação complementar da gestão de políticas públicas que amplia a capacidade técnica, econômica e administrativa desses entes. Então, qual é a diferença entre as associações municipais e os consórcios intermunicipais? Os consórcios são formados como pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos. Eles são acordos de cooperação que permitem a “[...] gestão associada de serviços públicos, bem como a transferência total ou parcial de encargos, serviços, pessoal e bens essenciais à continuidade dos serviços transferidos” (art. 241, Constituição Federal de 1988). Os consórcios intermunicipais são acordos de cooperação que permitem a prestação de serviços públicos realizados de forma direta pelo poder público. Normalmente, possuem um tema ou uma área de atuação específica (saúde, meio ambiente, saneamento etc.). Trata-se de um acordo administrativo entre municípios vizinhos que permite a realização conjunta de serviços com redução de custos e compartilhamento de equipamentos e de conhecimento. Isso é feito para atender objetivos comuns por meio de obras, atividades ou serviços na região por eles abrangida (AZEVEDO, 2004; CUNHA, 2009). As associações de municípios são formadas como pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, “[...] para realização de objetivos de interesse comum de caráter político-representativo, técnico, científico, educacional, cultural e social” (art. 1º da Lei 14.341/2022). As associações têm abrangência nacional, estadual ou microrregional. Elas podem representar seus associados em instâncias públicas e desenvolver projetos relacionados às competências dos municípios. Atuam na defesa dos interesses gerais dos municípios e sua agenda pode ser diversificada e abrangente. O representante legal da associação deve ser obrigatoriamente o chefe do Poder Executivo de qualquer ente associado e não deve ser remunerado por suas funções. Os relatórios financeiros anuais devem ser disponibilizados de forma acessível, assim como todas as despesas e receitas da associação, incluindo a folha de pagamento de pessoal, contratos, convênios etc. (Lei 14.341/2022; CUNHA, 2009). 46 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Consórcio Associação Pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos. Pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos. Acordo de cooperação que permite: gestão associada de serviços e transferência total de serviços, encargos e pessoal. Realização de objetivos de interesse comum de caráter político-representativo, técnico, científico, educacional, cultural e social. Realizado entre municípios vizinhos para atender a execução conjunta de serviços com redução de custos. Possui abrangência nacional, estadual ou microrregional. Permite a prestação de serviços públicos. Pode representar os associados em instâncias públicas ou desenvolver projetos. Possui um tema ou área de atuação específica. Sua agenda é diversificada e abrangente. Caso queira saber mais sobre o processo de formação de uma associação comunitária, acesse a cartilha elaborada pela PUC- Minas – Serro (Projeto Ser-Inter) em parceria com o CEDEFES (Projeto Quilombo Vivo). CHIARI, R. (Org.). Associações comunitárias: primeiros passos para criação e regularização. Belo Horizonte: PUC Minas, 2020. Disponível em: https://portal.pucminas.br/imagedb/documen- to/DOC_DSC_NOME_ARQUI20210511155912.pdf APROFUNDE-SE https://portal.pucminas.br/imagedb/documento/DOC_DSC_NOME_ARQUI20210511155912.pdf https://portal.pucminas.br/imagedb/documento/DOC_DSC_NOME_ARQUI20210511155912.pdf 47 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável 4.2 A atuação das associações municipais De acordo com Cunha (2009), muitos países ao redor do mundo adotam o formato de associações intermunicipais com o objetivo de descentralizar e fortalecer a atuação dos governos. A organização Cidades e Governos Locais Unidos (CGLU) está presente em mais de 127 países e é a maior organização mundial de reunião de governos locais. Ela atua no fortalecimento municipal, na promoção da cooperação entre os membros e na consolidação da democracia. A representação da CGLU na América Latina é feita pela Federación Latinoamericana de Ciudades, Municipios y Asociaciones de Gobiernos Locales (FLACMA) e, no Brasil, pela Confederação Nacional de Municípios (CNM). De acordo com Abrucio, Sano e Sydow (2010), as associações possuem grande poder de mobilização e influência sobre as políticas públicas. Os tipos de associações municipalistas organizadas pelos próprios governos locais são: a) Organizações de corte nacional, das quais fazem parte a CNM, fundada em 1946, e a Frente Nacional dos Prefeitos, criada em 1989; b) Associações setoriais, que reúnem secretários da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), da Associação Brasileira das Secretarias de Finanças das Capitais (Abrasf), dentre outras. Estudaremos mais detalhadamente o papel e atuação da CNM na entrevista da Aula 4. AULA 4 MÓDULO 2 Aula 4 - Governança urbana interfederativa: a experiência das associações de municípios Entrevista com Karla França (Confederação Nacional dos Municípios). 48 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável CAPÍTULO 5 – GOVERNANÇA URBANA INTRAMUNICIPAL Neste capítulo, discutiremos o processo de compartilhamento de tomada de decisão e a atuação integrada no território municipal. Para isso, abordaremos os aspectos formais relativos à organização dos conselhos e comitês, e as dimensões da sua atuação prática, inserindo o problema da representatividade do território nos processos de decisão. A governança será debatida no âmbito dos processos participativos, considerando os principais instrumentos da política urbana e orçamentária. Também serão considerados o compartilhamento do processo de tomada de decisão e os desdobramentos sobre o posicionamento dos conselhos e comitês. 5.1 Organização e atuação dos conselhos e comitês nos processos de decisão Os arts. 182 e 183 da CF88 foram regulamentados pelo Estatuto das Cidades (Lei 10257/2001). Ele estabeleceu instrumentos capazes de garantir o direito a cidades sustentáveis, organizadas com base na gestão democrática e na cooperação entre os governos, a PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TEMA VER TAMBÉM OS MÓDULOS 1 E 4. 1 iniciativa privada e a sociedade civil. Cumprir a função social da cidade e da propriedade urbana é dever do poder público. Suas ações devem ser dirigidas para as necessidades de toda a população, buscando a justiça social e o bem-estar coletivo. Nesse sentido, a participação da população nas decisões de interesse público é fundamental para garantir a gestão democrática. O Brasil se tornou um grande laboratório de experiências participativas depois da redemocratização. Em 2014, havia mais de 60.000 conselhos gestores de políticas públicas no país (BRASIL, 2014). A articulação entre o poder público, o setor privado e a sociedade civil na organização, na gestão e no orçamento estão incluídos no entendimento da governança. No âmbito intramunicipal, a participação social é institucionalizada através da formação de comitês e conselhos. Quando eles possuem atuação efetiva, colaboram com propostas mais firmes, podendo participar da criação dos orçamentos e escolher os investimentos. Os comitês são formados por um grupo de pessoas com poder deliberativo (com autoridadepara decidir) ou executivo (com capacidade para executar ações). Elas irão se posicionar em relação a determinados assuntos em nome dos demais. Os conselhos municipais são formados por representantes da sociedade civil que participam de reuniões e discussões periódicas. De acordo com Barros (2011), sua criação é resultado do surgimento da participação direta da sociedade na gestão municipal como 4E 49 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável forma de melhorar a eficiência e a efetividade das políticas públicas. Assim, a criação dos conselhos não depende da determinação do governo em nenhuma de suas esferas. No entanto, estudos mostram que boa parte dos conselhos são criados por iniciativa do poder público, muitas vezes por determinação do governo federal. Isso é feito para condicionar o repasse de verbas para áreas como a da Saúde. Os conselhos deliberativos auxiliam a administração pública a formular políticas públicas, com poder para votar e eleger prioridades. Os conselhos consultivos, como o próprio nome indica, atuam orientando e aconselhando líderes e gestores. Há ainda os conselhos responsáveis pela fiscalização, execução e direcionamento das verbas públicas (BARROS, 2011). O objetivo dos conselhos é promover a participação da sociedade civil na formulação, implementação, monitoramento e avaliação das políticas públicas. Eles são compostos por representantes da sociedade civil e do poder público para qualificar as políticas públicas de determinado tema (TEIXEIRA; TEIXEIRA, 2019). Os conselhos não são abertos à participação de qualquer pessoa interessada num assunto ou discussão. Apenas os representantes eleitos ou indicados podem falar e votar nos conselhos (TEIXEIRA; SOUZA; LIMA, 2012). De acordo com Teixeira e Teixeira (2009), a partir de 2002 o pensamento sobre a participação social começou a ser articulado de forma mais ampla. Isso levou à consolidação de diversas instâncias participativas em diferentes setores de políticas públicas, nas três esferas de governo. Os conselhos de políticas públicas e de direitos começaram a se multiplicar pelos municípios do país. Figura 16: Conselhos I Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. 50 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável No Brasil, existem milhares de conselhos atuantes no âmbito municipal nas mais diversas áreas: educação, saúde, assistência social, segurança alimentar, infância e adolescência, trabalho, direitos da pessoa com deficiência etc. Assim, não é possível pensar em uma política pública sem um conselho gestor (BOULLOSA EL AL, 2014 apud TEIXEIRA; TEIXEIRA, 2019)4. A Constituição Federal de 1988 impulsionou a participação social, o que se expressou em dispositivos que ampliaram e incorporaram essa participação nos processos de decisão e gestão de políticas públicas. Assim, o processo de tomada de decisão pode sofrer a intervenção de atores sociais articulados de diferentes modos, utilizando diferentes mecanismos de participação além dos que a representação eleitoral permite. Esse processo é fruto da luta da sociedade, o que pode ser lembrado com o exemplo do Movimento Nacional pela Reforma Urbana (MNRU). Esse movimento contribuiu de forma valiosa com a política urbana ao participar da criação dos arts. 182 e 183 da CF88. O MNRU se tornou posteriormente o Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU) e passou a integrar o Conselho das Cidades, articulando diferentes atores da sociedade civil (BRASIL et al., 2013; TEIXEIRA; SOUZA; LIMA, 2012). A participação da sociedade nos conselhos ajuda a legitimar as ações governamentais, além de lhes conferir transparência. A eficiência dessa participação está diretamente ligada à representatividade dos diferentes grupos sociais, especialmente 4 Boullosa, R. F.; Araújo, E. T.; Junqueira, Luciano. (2014). Os conselhos gestores municipais no Brasil: o paradoxo do bom moço que pode engessar processos de políticas públicas. In: V Congreso Internacional en Gobierno, Administración y Políticas Públicas, Madrid. ANAIS do V Congreso Internacional en Gobierno, Administración y Políticas Públicas. Madrid: GIGAPP- IUIOG, 2014. v. 1. p. 1-16. Caso queira saber mais sobre o Conselho das Cidades, acesse o artigo Participação, desenho institucional e alcances democráticos: uma análise do Conselho das Cidades. BRASIL, F. de P. D. et al. Participação, desenho institucional e alcances democráticos: uma análise do Conselho das Cidades (ConCidades). Revista de sociologia e política, [s. l.], v. 21, p. 5-18, 2013. Disponível em: https:// www.scielo.br/j/ rsocp/a/fDQGshqt5s- GcWDtCfy6rGFB/ab- stract/?lang=pt APROFUNDE-SE Você conhece ou faz parte de algum conselho no seu município? De qual tipo ele é e em qual frente ele atua? ATIVIDADE PROGRAMADA daqueles historicamente marginalizados: pessoas negras, pessoas com deficiência, mulheres, crianças, pessoas LGBTQIA+, pessoas idosas e povos de comunidades tradicionais (BRASIL, 2021). O envolvimento de participantes desses diferentes grupos deve ser garantido, pois a pluralidade de questões levantadas por eles contribui para ampliar o alcance no atendimento das necessidades e assegurar o direito à cidade. A formação de conselhos é também uma forma de compreender a territorialização da governança e do controle social, principalmente nos casos em que as questões atravessam os limites municipais. Os casos de grupos historicamente marginalizados, como as comunidades quilombolas, merecem uma atenção especial, por conta da sua relação singular com o território. https://www.scielo.br/j/rsocp/a/fDQGshqt5sGcWDtCfy6rGFB/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rsocp/a/fDQGshqt5sGcWDtCfy6rGFB/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rsocp/a/fDQGshqt5sGcWDtCfy6rGFB/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rsocp/a/fDQGshqt5sGcWDtCfy6rGFB/abstract/?lang=pt https://www.scielo.br/j/rsocp/a/fDQGshqt5sGcWDtCfy6rGFB/abstract/?lang=pt 51 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável 5.2 A governança intramunicipal e os conselhos de grupos historicamente marginalizados Em 2019, o IBGE estimou a existência de 5.972 localidades quilombolas no Brasil, espalhadas por 1.672 municípios brasileiros. Dessas localidades, 404 são territórios oficialmente reconhecidos, 2.308 são agrupamentos quilombolas e 3.260 são identificados como localidades quilombolas. A Região Nordeste concentra 3.171 localidades quilombolas, o maior número do Brasil (Figura 3). De acordo com Pedreira e Araújo (2018), a Bahia é o estado com maior população quilombola do país: são 747 comunidades remanescentes de quilombos certificadas pela Fundação Cultural Palmares, das quais 128 ainda não possuem suas respectivas certidões. Figura 17: Total estimado de localidades quilombolas – 2019. Fonte: https://educa.ibge.gov.br/jovens/materias-especiais/21311-quilombolas-no-brasil.html 52 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável As comunidades quilombolas são grupos étnicos que se autodefinem por relações com a terra, com o território, com a ancestralidade e com as tradições culturais particulares. Elas são predominantemente constituídas pela população negra urbana ou rural. Os Conselhos Territoriais Quilombolas se tornaram parte do Programa de Fortalecimento Institucional das Comunidades Quilombolas. Eles se institucionalizaram como um espaço para o desenvolvimento de ações, planos, programas e projetos voltados para a promoção da igualdade racial (PEDREIRA; ARAÚJO, 2018). De acordo com Pedreira e Araújo (2018), os conselhos sempre foram uma tentativa de limitar a hegemonia política através da distribuição da responsabilidade dessa hegemonia. Eles surgiram como uma alternativa de descentralização do poder historicamente concentrado nas classes dominantes. Portanto, o controle social na esfera pública é o exercício da governança, fruto da exigênciada população pela prestação de serviços de maneira efetiva e transparente. Os Conselhos Territoriais Quilombolas buscam criar uma instância de comunicação e participação entre o poder público e uma parte da população secularmente afastada dos processos de decisão. Os Conselhos Territoriais Quilombolas atuam na: • Regularização fundiária dos territórios quilombolas (titulação) e fortalecimento político-institucional das organizações quilombolas. Assim como na criação e no acompanhamento de conselhos municipais, regionais e territoriais. • Controle social, implementação e fiscalização das políticas públicas e das ações afirmativas, sobretudo nas áreas de implantação dos Programas Luz e Água Para Todos. • Implementação do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Quilombola. • Programa Juventude Viva e campanha de combate à violência contra mulheres quilombolas, e capacitação de profissionais de saúde para o tratamento da anemia falciforme. • Assistência técnica (ATER Quilombola) e política de crédito rural; distribuição e fiscalização das cestas básicas, sementes e merenda escolar destinadas às comunidades quilombolas. • Ampliação e fortalecimento da representatividade quilombola nos parlamentos. • Implantação do PAC Quilombola. • Luta contra o impedimento do acesso aos territórios quilombolas promovido pelos grandes proprietários de terra, através da ação conjunta destes Conselhos com o Ministério Público (PEDREIRA; ARAÚJO, 2018). 53 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável A importância do fortalecimento dos Conselhos Territoriais Quilombolas se insere na necessidade de defesa de um território, fruto da luta da população negra contra a escravidão. Trata-se de um direito à terra constantemente ameaçado por invasões (PEDREIRA; ARAÚJO, 2018). Garantir que essas terras permaneçam com seus donos legítimos e que eles tenham acesso à infraestrutura que permita o seu desenvolvimento sustentável é garantir o direito à terra e/ou à cidade para uma população historicamente marginalizada. O Território Kalunga, no nordeste do estado de Goiás, está inserido nos Municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre. É um dos maiores do Brasil, ocupando 261 mil hectares. Em 2021, o Território Kalunga foi o primeiro a ser reconhecido como TICCA (Territórios e Áreas Conservadas por Comunidades Indígenas e Locais) pela ONU, por ser um território preservado que conserva alternativas sustentáveis de desenvolvimento, como o plantio de baixo carbono que dispensa o uso de agrotóxicos. PEDUZZI, P. Comunidade kalunga recebe reconhecimento inédito da ONU. Agência Brasil, Brasília, 6 de fev. 2021. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-02/ comunidade-kalunga-recebe-reconhecimento-inedito-da-onu. Acesso em: 22 ago 2022. INFORMAÇÃO EXTRA: Para conhecer mais sobre o Território Kalunga, acesse o site da associação: https://www.qui- lombokalunga.org/cultura.php ESTUDO DE CASO AULA 5 MÓDULO 2 Aula 5 - Governança urbana intramunicipal: compartilhamento de decisões e atuação integrada no território municipal. https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-02/comunidade-kalunga-recebe-reconhecimento-inedito-da-onu https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2021-02/comunidade-kalunga-recebe-reconhecimento-inedito-da-onu https://www.quilombokalunga.org/cultura.php https://www.quilombokalunga.org/cultura.php 54 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável CAPÍTULO 6 – AVANÇANDO NA PRÁTICA: CONTRIBUIÇÕES E EXPERIÊNCIAS PARA UMA AGENDA LOCAL DE GOVERNANÇA – PARTE 1 A atuação da sociedade civil nas questões de interesse público passa pelo monitoramento e pelo controle social. São formas de acompanhar a efetividade das políticas nos territórios e o uso correto do dinheiro público. Neste capítulo, trataremos especificamente da experiência de uma cidade do Grupo 2 (centros de zona e centros locais), que estabelecemos no Capítulo 2 deste módulo de acordo com as categorias da REGIC. O Município de Madalena (Figura 18) é um centro local situado no Sertão Central do Ceará. De acordo com dados do IBGE, sua população projetada para 2021 é de 20.031 habitantes. As atividades que mais geram empregos no município são a administração pública, a criação de bovinos para produção de leite e a produção de roupas. Embora seja um município pequeno, Madalena conta com um Observatório de Contas Públicas. Ele é fruto da iniciativa da sua população, que busca mais transparência nas contas públicas. Ela procura conseguir isso acompanhando a aplicação dos recursos repassados pelos governos federal e estadual, e as arrecadações feitas pelo próprio município, como o IPTU. O estudo de caso sobre o Município de Madalena poderá ser acessado na entrevista da Aula 6. PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TEMA VER TAMBÉM O MÓDULO 6. 6 AULA 6 MÓDULO 2 Aula 6 - Avançando na prática: contribuições de experiências para uma agenda local de governança – Parte 1 Apresentação: Joelmir Pinho, coordenador do Observatório de Contas Públicas de Madalena, Ceará 55 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Figura 18: Localização do município de Madalena-CE. Fonte: https://www.anuariodoceara.com.br 56 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável CAPÍTULO 6 – AVANÇANDO NA PRÁTICA: CONTRIBUIÇÕES E EXPERIÊNCIAS PARA UMA AGENDA LOCAL DE GOVERNANÇA – PARTE 2 De acordo com Aragão (2018), uma metrópole se comporta como um único organismo social que possui uma dinâmica urbana com suas próprias singularidades. Sua governabilidade possui complexidades por causa da presença de diferentes agentes políticos e por sua interconexão com as políticas setoriais. Neste capítulo, trataremos especificamente da experiência de uma cidade do Grupo 1 (metrópoles, capitais regionais e centros sub-regionais), estabelecido no Capítulo 2 de acordo com as categorias da REGIC. A experiência de institucionalização da Região Metropolitana de Belo Horizonte (Figura 19), no estado de Minas Gerais, é uma importante referência por seu processo de construção democrático e participativo. Figura 19: Região Metropolitana de Belo Horizonte. Fonte: http://www.agenciarmbh.mg.gov.br/mapa-conheca-os-municipios/ 57 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável O processo de metropolização de Belo Horizonte se iniciou nos anos 1940. Na década de 1970, o município assumiu os efeitos da aceleração do crescimento demográfico causado pela urbanização impulsionada pela industrialização. Esse processo estimulou o desenvolvimento do seu entorno e levou a questão metropolitana para a discussão em nível nacional. Atualmente, a Região Metropolitana de Belo Horizonte possui 34 municípios e um Colar Metropolitano formado por municípios situados no seu entorno (ARAGÃO, 2018). O detalhamento do estudo de caso sobre a experiência da Região Metropolitana de Belo Horizonte e a sua contribuição para governança poderá ser acessado na palestra da Aula 7. AULA 7 MÓDULO 2 Aula 7 - Avançando na prática: contribuições de experiências para uma agenda local de governança – Parte 2. Apresentação: Prof. Dr. João Tonucci (Cedeplar/FACE/ Universidade Federal de Minas Gerais). 58 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável CONSIDERAÇÕES FINAIS Os tópicos desenvolvidos neste módulo estão longe de esgotar ou apresentar uma fórmula única para a complexidade de questões do exercício da governança. Eles são um instrumento para ampliar o seu conhecimento e lhe ajudar a entender algumas bases conceituais e históricas fundamentais. Com isso, você poderá avançar nas propostas para o seu município ao ocupar um cargo público ou exercer a sua cidadania. Trouxemos o pacto federativo e os avanços propostos pela Constituição Federal de 1988 para mostrar que ainda podemos avançar, apesar das limitações e dos desafios. Nessesentido, entender o posicionamento de cada município na rede urbana, os instrumentos da governança e os avanços em nossa legislação é essencial para pensarmos em formas de alcançar uma maior cooperação entre União, estados e municípios. No campo político, a discussão da governança gira em torno especialmente do enfrentamento das desigualdades regionais historicamente construídas. Como é possível alcançar um maior nível de cooperação entre os entes federativos? Como os municípios podem, juntos, alcançar melhorias para as questões que lhes são de interesse comum? A articulação entre o recurso, a comunidade e a prática promovem a constituição do comum de forma contínua (HARVEY, 2014). Nesse sentido, os municípios têm a capacidade de construir relações de confiança mútua para resolver questões de interesse comum, isto é, que ultrapassam as necessidades locais e fortalecem a identidade regional. Isso mostra que a interdependência não exclui a autonomia. É possível traçar novos rumos governamentais pautados na cooperação com o objetivo de beneficiar a população, mesmo num caminho onde existam obstáculos. 59 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRUCIO, F. L.; SANO H.; SYDOW, Cristina. Radiografia do associativismo territorial brasileiro: tendências, desafios e impactos sobre as regiões metropolitanas. In: KLINK, J. (Org.). Governança das Metrópoles: conceitos, experiências e perspectivas. São Paulo: Annablume, 2010. p. 21-47. ABRUCIO, F. L. A coordenação federativa no Brasil: a experiência do período FHC e os desafios do governo Lula. Revista de Sociologia e Política, n. 24, jun. 2005. ACSELRAD, H. 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GLOSSÁRIO APRESENTAÇÃO INTRODUÇÃO CAPÍTULO 1 - CONTEXTO FEDERAL E A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA NO FINANCIAMENTO FISCAL DO DESENVOLVIMENTO URBANO SUSTENTÁVEL CAPÍTULO 2 - PLANEJAMENTO, GESTÃO E EXECUÇÃO DO ORÇAMENTO PÚBLICO E OS TIPOS DE FUNDOS ORÇAMENTÁRIOS CAPÍTULO 3 – INSTRUMENTOS E MECANISMOS PARA AMPLIAÇÃO DA ARRECADAÇÃO MUNICIPAL CAPÍTULO 4 – COOPERAÇÃO SUPRANACIONAL, FINANÇAS VERDES E O TERCEIRO SETOR CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASenvolvidas, destacam-se a Escola Nacional de Administração Pública, a ENAP, e o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, o ONU-Habitat, parceiros fundamentais na elaboração deste projeto. Assim, o presente Curso de Educação à Distância trata dos Instrumentos de Desenvolvimento Urbano Sustentável com atenção especial às diferentes realidades das cidades brasileiras. Ou seja, a promoção do desenvolvimento urbano sustentável no Brasil deve, sem sombra de dúvidas, considerar e partir dos problemas reais das cidades brasileiras. A sensibilidade interdisciplinar, intersetorial, socioespacial e socioambiental é ponto de partida para que as políticas sociais olhem e atuem de forma mais efetiva com atenção Sobre o curso às diversidades e desigualdades regionais brasileiras. O curso é assim orientado por uma forte noção de justiça socioambiental, ao mesmo tempo que visa apoiar a formulação de políticas públicas mais equitativas. Durante o curso refletiremos sobre os instrumentos de desenvolvimento urbano sustentável a partir de diferentes lentes de análise, metodologias e dinâmicas de ensino-aprendizagem à distância. Os 8 módulos, 8 apostilas e diversas videoaulas foram planejados de forma a potencializar o caráter informativo, instrumental, reflexivo, crítico e propositivo do curso. Neste sentido, o público-alvo desta iniciativa são gestoras, gestores, técnicas e técnicos da administração pública, assim como pesquisadoras e pesquisadores, agentes privados e do terceiro setor com interesse e atuação na temática urbana e ambiental. O curso abordará os instrumentos urbanísticos apresentados pelo Estatuto da Cidade e irá além, articulando conceitos de governança, dados e informações, planos e programas, capacidades administrativas e de gestão, geração de receitas e recursos financeiros, monitoramento e avaliação da atuação estatal. Além de apresentar experiências regionais distintas sobre práticas adotadas nas cidades brasileiras. Introdução aos Instrumentos para o desenvolvimento urbano sustentável Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Planejamento: A dimensão territorial para o desenvolvimento urbano sustentável Gestão: A dimensão institucional do desenvolvimento urbano sustentável Financiamento: A dimensão financeira para o desenvolvimento urbano sustentável Monitorar, Avaliar, Criticar e Aprender com o desenvolvimento urbano sustentável Desenvolvimento urbano sustentável e a prática nas cidades brasileiras MÓDULO 1 MÓDULO 2 MÓDULO 3 MÓDULO 4 MÓDULO 5 MÓDULO 6 MÓDULO 7 MÓDULO 8 Os módulos funcionam de forma independente, tem sua autonomia e podem despertar interesse específico do público participante. No entanto, incentivamos fortemente acompanhar a sequência toda dos módulos, que trazem elementos complementares para o desenvolvimento urbano sustentável. Por fim, convidamos para que desfrutem do seu conteúdo e usufruam de suas ferramentas, explorando seu potencial enquanto catalisador de novas comunidades e redes profissionais e de pesquisa. Desejamos a todas e todos uma boa leitura! Informações: A dimensão do conhecimento para o desenvolvimento urbano sustentável As apostilas que compõem o nosso material didático são interativas. Ao clicar nos links apresentados ao longo delas, você será direcionado(a) a materiais e informações complementares. Destacam-se ainda as referências bibliográficas apresentadas ao final de cada apostila de módulo, elas permitem o aprofundamento adicional no conteúdo do curso. Como utilizar esta apostila Sempre que aparecer o ícone ao lado você poderá clicar e acessar o conteúdo indicado de forma direta. O simbolo ao lado, presente ao final de cada página, permite que você retorne ao sumário com um clique! ATENÇÃO! Sumário 12 GLOSSÁRIO 13 APRESENTAÇÃO 14 INTRODUÇÃO 16 CAPÍTULO 1 - O DESENVOLVIMENTO URBANO SUSTENTÁVEL NO CONTEXTO FEDERATIVO BRASILEIRO 27 CAPÍTULO 2 - GOVERNANÇA URBANA INTERFEDERATIVA: CONCEITOS E DEFINIÇÕES GERAIS 36 CAPÍTULO 3 – GOVERNANÇA URBANA INTERFEDERATIVA: A EXPERIÊNCIA DOS CONSÓRCIOS PÚBLICOS INTERMUNICIPAIS 44 CAPÍTULO 4 – GOVERNANÇA URBANA INTERFEDERATIVA: A EXPERIÊNCIA DAS ASSOCIAÇÕES DE MUNICÍPIOS 48 CAPÍTULO 5 –GOVERNANÇA URBANA INTRAMUNICIPAL 54 CAPÍTULO 6 –AVANÇANDO NA PRÁTICA: CONTRIBUIÇÕES E EXPERIÊNCIAS PARA UMA AGENDA LOCAL DE GOVERNANÇA – PARTE 1 56 CAPÍTULO 6 –AVANÇANDO NA PRÁTICA: CONTRIBUIÇÕES E EXPERIÊNCIAS PARA UMA AGENDA LOCAL DE GOVERNANÇA – PARTE 2 58 CONSIDERAÇÕES FINAIS 59 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Urbanista e mestra em Arquitetura e Urbanismo, com 10 anos de atuação como consultora de planos, projetos e estudos urbanísticos. Como educadora, atua no nível superior em cursos de graduação e EAD, e como educadora social, na mobilização de agentes da sociedade civil. Para conhecer o currículo detalhado acesse LATTES : http://lattes.cnpq.br/6306508327007243 LINKEDIN: https://www.linkedin.com/in/urbanista-laila- boucas/ Laila Bouças Sobre a autora https://www.linkedin.com/in/urbanista-laila-boucas/ https://www.linkedin.com/in/urbanista-laila-boucas/ 12 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável GLOSSÁRIO Aglomeração urbana: unidade territorial urbana constituída pelo agrupamento de dois ou mais municípios limítrofes, caracterizada por complementariedade funcional e integração das dinâmicas geográficas, ambientais, políticas e socioeconômicas (art. 2º, I, Lei nº 13.089/2015). Capital social: segundo Caldas (2008), o conceito inclui a capacidade institucional previamente instalada nos municípios e a rede de atores sociais e políticos dispostos a firmarem relações de confiança. Controle institucional: competência da própria Administração Pública, realizado por servidores em exercício de suas funções. Controle social: competência da sociedade civil. Ele é realizado através de associações, conselhos e fóruns com o objetivo de acompanhar e fiscalizar as ações governamentais. Conurbação: zona urbanizada que envolve mais de uma zona urbana de forma contínua. Trata-se da fusão de duas ou mais zonas urbanizadas (FERRARI, 2004). Metrópole: espaço urbano com continuidade territorial que tem influência nacional ou sobre uma região por causa da sua população e da sua importância política e socioeconômica. A região deve ter no mínimo a área de influência de uma capital regional, de acordo com os critérios adotados pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (art. 2º, V, Lei nº 13.089/2015). Funções Públicas de Interesse Comum (FPICs): representam os interesses metropolitanos. São as ações de planejamento, coordenação, controle, programação, fiscalização e execução realizadas de forma integrada para incluir as necessidades de todos os entes federados envolvidos. Governança interfederativa: compartilhamento de responsabilidades entre entes da Federação em termos de organização, planejamento e execução de funções públicas de interesse comum (art. 2º, IV, Lei 13.089/2005). Pacto Federativo: a Constituição Federal é o contrato que orienta a federação, já que é o instrumento que define e garante a autonomia e a soberania de cada esfera de governo, determinando suas funções, direitos, autoridade e limites. Portanto, ela cria um pacto entre as unidades territoriais com o objetivo de formar uma unidade nacional capaz de garantir a integridade e a liberdade de cada parte deste pacto (CUNHA, 2008) Regiões metropolitanas: grupo de municípios vizinhos, criado para integrar a organização, o planejamento e a execução das funções públicas de interesse comum (art. 2º, VII, Lei 13.089/2015). 13 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável APRESENTAÇÃO O Brasil é um país com dimensões continentais e o federalismo é a forma como organiza o governo para distribuir os recursos e para desenvolver suas diferentes regiões. A partir da Constituição Federal de1988, o desenvolvimento ganhou muitas dimensões, indo além do plano econômico até os campos social, ambiental, cultural, político e ético. É necessário que se estabeleça a cooperação entre a União, os estados e os municípios para alcançarmos o desenvolvimento sustentável. A governança interfederativa pressupõe, portanto, o planejamento, a organização e a execução das funções públicas de interesse comum (FPICs), compartilhando responsabilidades e ações entre os entes federativos, sem que estes percam sua autonomia. Alcançar esses objetivos é muito desafiador, mas também traz oportunidades que serão analisadas ao longo deste módulo. Estudaremos as competências dos entes federativos, as funções públicas de interesse comum e os instrumentos da governança urbana interfederativa. Apoiaremos a nossa discussão no entendimento da rede urbana brasileira a partir dos estudos sobre as Regiões de Influência das Cidades (REGIC), desenvolvidos pelo IBGE. Isso nos ajudará a entender que municípios com tamanhos diferentes podem ter experiências inspiradoras no campo da governança. Nesse sentido, o papel dos governos e a atuação da sociedade civil não poderão ser deixados de fora, motivo pelo qual trataremos das experiências das associações municipais e da organização dos comitês e conselhos nos processos de decisão, consulta e controle popular. 14 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável INTRODUÇÃO A cidade é como um ímã capaz de reunir e concentrar pessoas. Ela impõe seu tempo e seu ritmo, capaz de transformar a sociedade como um todo (ROLNIK, 1988). As aglomerações urbanas se tornaram protagonistas na configuração do espaço no tempo em que vivemos. A densidade de funções, atividades e serviços em algumas delas pode se assemelhar a “nós”, ligando as cidades em uma rede e formando hierarquias entre elas. Criar soluções integradas e uma governança que organize melhor essas necessidades é cada vez mais necessário para tratar das diferentes questões urbanas compartilhadas entre os municípios. A governança para Melchiors e Campos (2016) é formada por um conjunto de ferramentas, mecanismos e instrumentos capazes de organizar e permitir o desenvolvimento de ações coletivas, tanto para resolver problemas quanto para favorecer o dinamismo dos territórios. Isso não é uma tarefa fácil e exige que se crie diversos arranjos, com suas possibilidades e desafios. Para Bichir (2018) o conceito de governança envolve duas questões principais: democratização e participação social, de um lado, eficiência e reforma do Estado, de outro. O objetivo dessa leitura é que se entenda melhor o conceito, considerando a interação entre atores estatais e não estatais na produção de políticas públicas. Ela aponta ainda para uma abordagem de governança multinível, ou seja, capaz de considerar as diferentes escalas, dinâmicas e níveis de interação entre os agentes envolvidos. Isso ampliará a discussão sobre o federalismo e as políticas públicas. O sistema federativo brasileiro adotou a separação das fontes tributárias a partir da Constituição Federal de 1988. Com isso, diferenciou os impostos cobrados pela União, pelos estados, pelos municípios e pelo Distrito Federal. A forma de arrecadar impacta diretamente na distribuição dos recursos nos municípios e, conforme Arretche (2004), isso cria desigualdades entre os governos subnacionais, já que municípios de mesmo tamanho em um mesmo estado têm arrecadações muito diferentes. A organização do sistema federativo, suas competências, limites e oportunidades serão tratados no primeiro capítulo deste módulo, o que ajudará a contextualizar o entendimento sobre a governança interfederativa e a sua relação com o desenvolvimento urbano sustentável. A escala espacial é fundamental para a ação humana. Ela se relaciona com as práticas realizadas pelos diferentes sujeitos e objetos que constituem este espaço, e articulam ações entre si. Os objetos são aqueles que possuem elaboração social e adquirem valor apenas através das relações. Podem ser edifícios, casas, ruas, infraestruturas etc. A ação humana é o que os anima e lhes dá conteúdo. A produção do espaço se dá, portanto, por meio do trabalho socialmente despendido ao se criar algo útil e pelas interações daí decorrentes (SANTOS, 2012). A produção do espaço não é homogênea e pacificada. Ela contém contradições estruturais contadas pelos processos históricos e pelas suas modificações ao longo do tempo. No processo de produção do espaço as ações dos diferentes agentes sociais se destacam e assim podemos identificá-los: produtores imobiliários, movimentos sociais, estado, 15 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável AULA MAGNA MÓDULO 2 Aula Magna do Módulo 2 - Palestra com o Prof. Dr. João Sette Whitaker Ferreira etc., cada um com seus interesses, estratégias e práticas particulares. O conteúdo da aula magna que abre este módulo é justamente a ação desses agentes em diferentes escalas e contextos territoriais. São discutidos os seus impactos sobre o espaço urbano, ou seja, sobre a soma dos elementos naturais com aquilo que é produzido pela ação humana. No desenvolvimento da aula são apresentados exemplos de ações dos agentes mencionados em diferentes contextos sociais, bem como mecanismos que possibilitam analisar e entender a ação de cada agente. Agentes privados representados por grandes empresas tendem a pressionar os governos estaduais e municipais para flexibilizar as normas ambientais num cenário de liberalização e desregulamentação econômica. Usam como meio de barganha a criação de empregos e receitas fiscais, por exemplo. Esse processo vivenciado por diversas cidades tem impactos negativos na produção do espaço, além de aumentar as diferenças entre os entes federados. Assim, é necessário criar arranjos institucionais na administração pública entre eles como consórcios públicos e associações entre municípios, por exemplo (ACSERALD, 2017; ROCHA; BARRETO, 2019). A problematização e o desenvolvimento de alguns desses arranjos serão apresentados nos Capítulos 2, 3 e 4 deste módulo. Neles, apresentaremos conceitos, definições gerais e exemplos de diferentes municípios brasileiros, definidos com base em seu posicionamento na hierarquia das cidades. Além do nível interfederativo, o nível intramunicipal também será discutido, uma vez que os processos de tomada de decisão para se atuar no território devem contar com a participação social, conforme está indicado no Estatuto das Cidades e nos artigos 182 e 183 da Constituição Federal de 1988. A organização dos conselhos e comitês, e os níveis de atuação prática serão tratados no Capítulo 5, onde a discussão sobre a governança alcançará o campo dos processos participativos, considerados os principais instrumentos da política urbana e orçamentária. Por fim, nos Capítulos 6 e 7 falaremos sobre a prática, estudando com mais detalhes a contribuição de algumas experiências para a construção de uma agenda local de governança. As propostas-inspiração dos capítulos tratarão especificamente da experiência de cidades com características diferentes, escolhidas de acordo com as categorias das Regiões de Influência das Cidades (REGIC) e o Estatuto das Metrópoles. No Capítulo 6, apresentaremos o caso da cidade de Madalena, no interior do Ceará, município caracterizado como um centro local com influência mais limitada ao seu próprio território. No Capítulo 7, apresentaremos o caso da cidade de Belo Horizonte, caracterizada como uma metrópole nacional. O processo de institucionalização da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) e a criação do seu Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI), em estágio de aprovação na Assembleia Legislativa, destacam-se pelo processo de construção democrático e participativo, sendo uma importante referência para o país. 16 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável CAPÍTULO 1 – O DESENVOLVIMENTOURBANO SUSTENTÁVEL NO CONTEXTO FEDERATIVO BRASILEIRO Neste capítulo, mostraremos de que forma o desenvolvimento urbano sustentável está inserido no pacto federativo brasileiro. O primeiro subcapítulo trata da organização do sistema político brasileiro, cujo poder encontra-se descentralizado em três níveis de governo: federal, estadual e municipal. A organização das competências desses níveis de governo foi estabelecida pela Constituição Federal de 1988, que determina as obrigações financeiras, as formas de arrecadação de recursos e os campos de atuação de cada um dos entes federados. Assim, trataremos da forma como se organizam as competências nas diferentes esferas do poder político, observando as situações em que a concorrência e a cooperação estão presentes. A governança territorial encontra limites e oportunidades em função da organização das competências dos entes federados. No segundo subcapítulo, veremos como se distribuem os recursos e como ocorre a dotação orçamentária em função das hierarquias governamentais. Veremos também como as questões político-partidárias influenciam a autonomia dessas instituições e as possibilidades de construção coletiva para se executar a governança. Os exemplos apresentados mostram ainda a separação entre a competência regulatória e de titularidade sobre as políticas setoriais e o orçamento do órgão, além de tratar sobre o papel dos institutos de planejamento para orientar/apoiar a coordenação de políticas urbanas em pequenos municípios. Figura 1: Pacto Federativo Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. 17 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável 1.1 As competências federativas Ao observar como as cidades brasileiras se consolidaram, podemos constatar que sua formação tem forte relação tanto com a colonialidade do poder quanto com o racismo estrutural1. Eles estão expressos no espaço urbano sob diferentes formas, uma delas é a desigualdade de oportunidades para as populações das diferentes regiões do país. As cidades que mais se destacaram e se projetaram historicamente foram justamente aquelas que se consolidaram como sedes 1 Ver conceitos em: 1) QUIJANO, A. Colonialidade do poder, Eurocentrismo e América Latina. In: A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais – perspectivas latino- americanas. Buenos Aires: Clacso, 2005; 2) MIGNOLO, W. D. Colonialidade: o lado mais escuro da modernidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, [s. l.], v. 32, n. 94, jun. 2017; e 3) SOUZA, J. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017. PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TEMA VER TAMBÉM O MÓDULO 1. 1 do capital comercial, herança de um período em que o caráter agroexportador favoreceu a urbanização brasileira, antes mesmo da chegada da indústria. A industrialização redefiniu o que era o urbano no Brasil, que passou a se apresentar como sede de um novo aparelho produtivo e não só corresponder à sede dos aparelhos burocráticos. A polarização herdada das monoculturas e latifúndios é fundamental para entendermos a concentração de poder em determinadas cidades. Isso coincide com seu posterior desenvolvimento industrial e a dificuldade de o país gerar uma rede urbana de grande magnitude, ao mesmo tempo em que desenvolveram-se grandes cidades com um padrão de urbanização pobre (OLIVEIRA, 1982). Num longo caminho de colônia a regime democrático representativo, o Brasil adotou o modelo federativo para sua divisão territorial de governo. As combinações desse modelo atravessaram até mesmo períodos de autoritarismo. De acordo com Souza (2005), os sistemas federativos têm de maneira geral como principais características a divisão territorial do poder governamental e o desenho institucional correspondente. No caso brasileiro, o federalismo não surge como uma resposta a uma divisão social causada por conflitos religiosos, étnicos ou linguísticos, como em outros países. Ele é causado pela grande diferença econômica entre as regiões, o que impõe desafios importantes na distribuição de recursos e no desenvolvimento das diferentes regiões do país. Ao todo foram sete Constituições que orientaram as instituições brasileiras. Esses marcos estão indicados na linha do tempo a seguir, elaborada com base em Souza (2005), onde podemos observar as principais características de cada uma dessas Cartas Constitucionais para o federalismo. 18 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Figura 2: Linha do Tempo das Cartas Constitucionais Brasileiras. Fonte: Elaborado pela autora, com base em Souza (2005). Elaboração gráfica do LabHab. 2022. 19 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Um passo importante foi dado a partir da Constituição Federal de 1988 (CF88), apesar do passado colonial e de seus desdobramentos na organização e no funcionamento da sociedade e das cidades brasileiras. Com relações governamentais não hierarquizadas e não submissas a um governo central, no Brasil os governos subnacionais (estaduais e municipais) têm autonomia e compartilham com a União competências na formulação de políticas públicas, por exemplo. Nesse sentido, a CF88 avança na distribuição de recursos entre os entes federados, assim como nas leis criadas posteriormente para complementá-la e fortalecê-la no sentido de ampliar a cooperação intergovernamental (ARRETCHE, 2004; LACZYNSKI; ABRUCIO, 2013). Enquanto as Constituições anteriores foram consequências de um processo de ruptura política, a de 1988 foi parte do processo de transição democrática. Além disso, a CF88 destinou mais recursos para as esferas subnacionais (estados e municípios), ampliou controles institucional e social nos três níveis de governo e as competências dos demais poderes (legislativo e judiciário). A Constituição também reconheceu os movimentos sociais como atores legítimos de controle dos governos e universalizou serviços sociais como a saúde, a educação e a assistência social (SOUZA, 2005). Entender como se operacionalizam as competências dos entes federados é importante para discutirmos como os arranjos entre eles ocorrem, assim como os desafios que são consequência dessa relação. De acordo com Mohn (2010), a distribuição de competências é o que torna possível a operacionalização da complementariedade de ações entre os entes federados. É também o que determina os graus de centralização e descentralização do poder da União. Desse entendimento derivam as concepções de federalismo dual (separação de competência entre estados e União) e de federalismo cooperativo (graus diferentes de participação de uma esfera sobre a outra). Figura 3: Controle Social e Controle Institucional. Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. 20 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Ainda segundo o mesmo autor, a divisão das competências pode ocorrer de forma horizontal ou vertical nos dois modelos adotados. A forma horizontal é operada tratando as competências dos entes federativos de maneira radicalmente separada, cada um com uma atribuição exclusiva. A repartição das competências acontece de forma material, com a exclusão da participação dos demais entes. Já a forma vertical, criada após a Primeira Guerra Mundial, estabelece uma ação coordenada entre as esferas federativas. Daí vêm as competências comuns (administrativas) e concorrentes (legislativas), com a possibilidade de atuação de diferentes entes federativos. Figura 4: Federalismo e Competências. Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. Se observarmos as competências de cada ente federativo no Brasil, constataremos que a União tem o maior e mais importante conjunto de competências, cujas matérias são de interesse nacional. São da competência dos estados as matérias de interesse regional e, dos municípios, as matérias de interesse local. Ascompetências estabelecidas no sistema da CF88 assumem a forma horizontal, da União, e vertical, aplicadas onde existe concorrência entre os entes federativos (SOUZA, 2005; MOHN, 2010). 21 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Figura 5: Competências. Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. O desenho constitucional das competências dos entes federados é bastante complexo, pois a existência de poderes compartilhados levou à compreensão de competências concorrentes. Portanto, a CF88 tratou de forma separada as competências concorrentes de natureza comum para as esferas federal, estadual e municipal, e as competências concorrentes legislativas para as esferas federal e estadual (MOHN, 2010). Competências concorrentes de natureza comum – esferas federal, estadual e municipal De acordo com Mohn (2010), as competências concorrentes de natureza comum (materiais) possibilitam uma responsabilidade compartilhada entre os níveis da federação, favorecendo a cooperação. Por exemplo, o art. 23, § 11 apresenta como competência comum “[...] registrar, acompanhar e fiscalizar as concessões de direitos de pesquisa e exploração de recursos hídricos e minerais em seus territórios” (CF88, art. 23, § 11). Para a realização dessas atividades, a União deve emitir autorização ou concessão e os estados, Distrito Federal e municípios podem participar da exploração dos recursos no respectivo território. 22 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Competências concorrentes legislativas – esferas federal e estadual De acordo com Mohn (2010), as competências concorrentes legislativas tornam possível que mais de um ente federativo legisle sobre um mesmo domínio. Elas podem ser classificadas como cumulativas e não cumulativas. A competência legislativa concorrente é cumulativa quando não existe um limite anterior para o seu funcionamento por parte de um dos entes federados envolvidos. Nesse caso, havendo conflito de interesses prevalece a norma do ente mais bem posicionado na hierarquia União-estados-municípios. O Brasil adota a competência legislativa concorrente não cumulativa, na qual há uma equivalência entre a abrangência da legislação e o nível federativo. Nesse caso, cabe à União dispor a respeito de normas gerais e aos estados adotar normas suplementares, dirigidas aos campos específicos de atuação. São exemplos de competências legislativas concorrentes não cumulativas a proteção ao patrimônio histórico, cultural, artístico, turístico e paisagístico (CF88, art. 24, § 7o) e a proteção à infância e à juventude (CF88, art. 24, § 15). A cooperação entre os entes federados prevista na Constituição brasileira não se efetivou como um arranjo institucional, o que se expressa na desigualdade regional, social e econômica do país. Nesse sentido, o modelo federativo que adotamos coloca desafios para se coordenar ações entre os entes federados, descentralizando a gestão e compatibilizando autonomias na busca da diminuição dessas desigualdades (ABRUCIO, 2005; SOUZA, 2005; OLIVEIRA, 2010). 1.2 Limites e oportunidades para a governança territorial A governança, relembrando os conceitos de Bichir (2018) e Melchiors e Campos (2016) que abrem este módulo, está relacionada à capacidade de apresentar respostas administrativas para as demandas sociais. Mas não somente: ela insinua também que a descentralização das decisões e a capacidade de proposição, implementação e acompanhamento de políticas públicas devem ser compartilhadas entre o poder público, os setores econômicos e a sociedade civil. Os aspectos das competências dos entes federados que vimos anteriormente limitam o exercício da governança territorial. Esses aspectos incluem desde questões orçamentárias 23 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável e de distribuição de recursos, até questões político-partidárias capazes de influenciar a autonomia das diferentes escalas de governo. Vejamos algumas situações. Os municípios tornaram-se soberanos a partir da CF88 e sua autonomia é fruto de uma construção histórica e política. Isso ocorreu devido à diminuição da esfera de atuação dos estados que se veem comprimidos entre as esferas municipal e federal, assumindo competências administrativas e financeiras. Portanto, os estados têm uma estrutura enfraquecida, mas por lei complementar podem instituir regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões. Já os municípios encontram dificuldades de cooperação intermunicipal e limitações na gestão metropolitana, embora tenham mais autonomia administrativa e financeira do que antes (BARRETO; LOSADA, 2019; MOHN, 2010; CLEMENTINO, 2018). A incompatibilidade entre as atribuições de estados e municípios e os recursos que foram descentralizados comprometeram a efetivação dos direitos sociais previstos na CF88. Com poucos dispositivos de cooperação intergovernamental, criou-se um desequilíbrio na repartição do bolo tributário entre União, estados e municípios. A possibilidade de uma gestão financeira das metrópoles com um caráter redistributivo de investimentos, por exemplo, PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TEMA VER TAMBÉM O MÓDULO 6. 6 pode ser uma perspectiva promissora no sentido de favorecer um desenvolvimento mais equilibrado. Isso, se for possível adotá-la como instrumento para a gestão fiscal metropolitana (SANTOS, 2018). A disputa por recursos federais e os conflitos federativos aumentaram à medida que os municípios tiveram mais poder de barganha e os estados enfrentaram dificuldades para obter recursos em função da política de ajuste fiscal. Soma-se a isso uma complexa relação de dependência política e financeira entre as diferentes esferas de governo, em um contexto de grandes desigualdades regionais e de poucos mecanismos de equalização fiscal. Dessa forma, mantém-se as diferenças econômicas e sociais historicamente construídas entre as regiões do país (SOUZA, 2003). De acordo com Barroso (2013), a descentralização fiscal elevou o grau da autonomia financeira entre as esferas do governo. Com isso, estados e municípios puderam arrecadar seus próprios tributos e decidir como aplicá-los. Ainda assim, a União transfere muitos recursos para as esferas subnacionais, ao que devemos somar a pulverização político-partidária presente desde a aprovação da CF88. PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TEMA VER TAMBÉM O MÓDULO 6. 6 24 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Como vimos, a desigualdade na distribuição dos recursos possui uma complexidade estrutural. Ela está vinculada ao desenvolvimento desigual das cidades brasileiras com diferentes capacidades de arrecadação. A pressão por mais recursos está associada ainda ao fato de, no desenho do federalismo brasileiro, não se ter incorporado mecanismos de equalização fiscal entre as unidades federativas, o que favorece a aplicação de regras constitucionais (formais) e negociadas caso a caso (informais), por meio de emendas parlamentares (BARROSO, 2013; SOUZA, 2003). Caso queira saber mais sobre os conflitos distributivos no federalismo brasileiro, leia o artigo indicado. Ele apresenta um comparativo entre os estados da Bahia, Ceará e Paraná. SOUZA, C. Federalismo e conflitos distributivos: disputa dos estados por recursos orçamentários federais. Dados, v. 46, p. 345-384, 2003. Disponível em: https://www.scielo. br/j/dados/a/Ls9zGkQ9TNM4VCKF- WbZHpGt/?lang=pt APROFUNDE-SE A discussão do equilíbrio orçamentário passa pelo equilíbrio na distribuição dos recursos e é complementada pelo estabelecimento de limites para a realização das despesas. A Lei Complementar nº101/2000, conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), estabeleceu regras para ajustar as finanças públicas entre os entes federados. A lei estabeleceu limites para despesas pessoais, operações de crédito, controle do endividamento, limitações de empenho,renúncia de receita e controle de despesas de caráter continuado. Além disso, as informações fiscais passaram obrigatoriamente a ser publicadas regularmente. Com a LRF, os municípios precisaram buscar maneiras de se adequarem tanto no que se refere à gestão fiscal-financeira, quanto às limitações regulatórias impostas por ela. A complexidade na destinação de recursos e da dotação orçamentária envolve um controle maior das despesas públicas após a LRF. Todo aumento de despesa sem estimativa de impacto orçamentário pode ser considerado irregular, lesivo ao patrimônio ou até mesmo não autorizado. A adoção da Lei Orçamentária Anual (LOA), da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e do Plano Plurianual (PPA) é necessária tanto para o estabelecimento do planejamento financeiro quanto para a admissão de cronogramas de desembolso mensal dos recursos orçamentários. VOCÊ SABIA ? Os instrumentos de controle, transparência e participação, por sua vez, contribuem como um incentivo à participação popular. Eles permitem que aconteçam experiências como a do Observatório de Contas Públicas de Madalena no Ceará, caso que será estudado no Capítulo 6 desta apostila. Trevas (2013) pontua que o federalismo brasileiro possui alguns desafios importantes. Eles são consequência do processo de descentralização política e envolvem a sustentabilidade https://www.scielo.br/j/dados/a/Ls9zGkQ9TNM4VCKFWbZHpGt/?lang=pt https://www.scielo.br/j/dados/a/Ls9zGkQ9TNM4VCKFWbZHpGt/?lang=pt https://www.scielo.br/j/dados/a/Ls9zGkQ9TNM4VCKFWbZHpGt/?lang=pt 25 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável 2 Discutiremos os consórcios públicos no Capítulo 3. 3 Os sistemas de infraestrutura urbana aqui são compreendidos em dois grandes grupos: infraestrutura técnica (esgotamento sanitário, abastecimento de água, drenagem pluvial, etc.), entendida como aquela que se organiza em redes físicas que dão suporte à vida cotidiana, geridas por sistemas de gestão e infraestrutura social (escolas, creches, postos de saúde, teatros, parques, etc.) (CHOGUILL, 1996; IPEA, 2010). de um projeto de governo que busca superar as desigualdades sociais e regionais, por exemplo. Esses desafios revelam a falta de mecanismos capazes de possibilitar a coordenação e cooperação entre os entes federados, e muitos deles estão associados à complexidade da relação entre as competências de cada um desses entes nas diferentes esferas de governo. De acordo com Clementino (2018), criar mecanismos capazes de facilitar a integração metropolitana pode incentivar a ação em favor do interesse comum. Além disso, pode direcioná-los para a coordenação de políticas públicas setoriais para resolver problemas de escala metropolitana. Esses instrumentos não garantem por si só resultados satisfatórios, nem o engajamento e a cooperação entre os agentes municipais. No caso da Região Metropolitana de Natal, por exemplo, a falta de estruturas de coordenação e de planejamento é um problema crucial para a governança metropolitana. A gestão compartilhada realizada por meio dos consórcios2 ainda é um desafio. Por um lado, muitos municípios ainda não utilizam esse mecanismo, por outro, há dificuldades financeiras para subsidiar ações conjuntas. Some-se a isso a falta de uma coordenação legitimada pelos entes municipais, submetidas muitas vezes às questões político-partidárias. Clementino (2018) chama atenção para a falta de apoio legislativo, já que a atuação dos deputados em alguns casos está alheia a essa realidade e pode estar muito focada em sua base eleitoral. A atuação de forma cooperada, sobretudo entre os pequenos municípios, pode contribuir para diminuir as desigualdades entre os governos locais. Dessa forma, serviços públicos como coleta de lixo e saúde podem ser oferecidos a partir da participação em consórcios. Laczynski e Abrucio (2013) pontuam ainda que a formação dos técnicos e gestores públicos pode ser enriquecida por meio dessa participação. Isso favorece uma mudança cultural e institucional no debate sobre a cooperação intermunicipal. Nesse contexto, vale pontuar que a atuação dos institutos de planejamento é muito oportuna, uma vez que eles podem ajudar a fortalecer e dar apoio às políticas públicas desses municípios. Para Melchiors e Campos (2016) as interações que se estabelecem e são necessárias entre os diferentes municípios pedem por ações conjuntas. Assim, podem se tornar mais eficazes para resolver questões urbanas compartilhadas, a exemplo dos sistemas de infraestrutura técnica e social3 que muitas vezes ultrapassam a 26 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável esfera municipal. Portanto, considerando a formação histórica dos municípios e estados brasileiros, a forma como se organizam de acordo com seu posicionamento na rede urbana brasileira é fundamental para pensarmos em possibilidades de conduzir práticas mais efetivas de governança. Desse modo, seguiremos no próximo capítulo avançando no estudo sobre o compartilhamento de interesses e responsabilidades para efetivação da gestão democrática e do desenvolvimento urbano sustentável. AULA 1 MÓDULO 2 Aula 1 - Desenvolvimento Urbano Sustentável no contexto federativo brasileiro - limites e oportunidades para a governança territorial O federalismo no Brasil e na Argentina possui uma origem comum: o federalismo estadunidense. A forma como se desenvolveram guarda as singularidades de processos sociais, econômicos e históricos distintos, mas que se aproximam quando observamos as dinâmicas de centralização e descentralização, por exemplo. Durante a pandemia de COVID-19, o governo argentino implementou uma política que envolveu e articulou diferentes entes federados. O programa argentino “El Barrio Cuida al Barrio” foi uma importante experiência de gestão. Ele buscou nas forças comunitárias suporte para implementação de ações coordenadas de cuidado. BARRIENTOS, M. Federalismo comparado entre Brasil e Argentina: o poder dos governa- dores desde a redemocratização. 2009. Dissertação (Mestrado) – Instituto de Filosofia e Ciên- cias Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009. ARGENTINA. Carolina Brandariz: “El Barrio Cuida al Barrio es un programa que fortalece las medidas de aislamiento comunitario”. [s. l.], 22 jul. 2020. Disponível em: https://www.argentina. gob.ar/noticias/carolina-brandariz-el-barrio-cuida-al-barrio-es-un-programa-que-fortalece- las-medidas-de. Acesso em: 03 nov. 2021. INFORMAÇÃO EXTRA: O impacto da pandemia nos bairros populares preocupou muito o governo argentino, que bus- cou alternativas para gerar renda através do Ministério das Mulheres, Gênero e Diversidade. Essa foi uma iniciativa bastante recente na Argentina e tornou possível a criação das políticas de cuidado. https://www.youtube.com/watch?v=6j4GhvV-eMQ ESTUDO DE CASO https://www.argentina.gob.ar/noticias/carolina-brandariz-el-barrio-cuida-al-barrio-es-un-programa-que-fortalece-las-medidas-de https://www.argentina.gob.ar/noticias/carolina-brandariz-el-barrio-cuida-al-barrio-es-un-programa-que-fortalece-las-medidas-de https://www.argentina.gob.ar/noticias/carolina-brandariz-el-barrio-cuida-al-barrio-es-un-programa-que-fortalece-las-medidas-de https://www.youtube.com/watch?v=6j4GhvV-eMQ 27 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável CAPÍTULO 2 – GOVERNANÇA URBANA INTERFEDERATIVA: CONCEITOS E DEFINIÇÕES GERAIS Vimos que o pacto federativo estabelecido no Brasil a partir da CF88 propôs a descentralização do governo, expandindo os controles institucionais e da sociedade nas esferas federal, estadual e municipal. Avanços significativos ocorreram a partir da Carta Magna, como o reconhecimento dos movimentos sociais e a universalização do sistema de saúde. Porém, alguns desafios continuam a existir, sobretudo em relação a mecanismos capazes de permitir a efetiva cooperação entre os entes federadosnum país com dimensões continentais e estruturalmente desigual. Entender a dinâmica da governança nesse contexto envolve conhecer minimamente como se configura a rede urbana brasileira, bem como alguns conceitos e suas aplicações em cada caso. Eles serão tratados neste capítulo de acordo com o estabelecido pelas Regiões de Influência das Cidades (REGIC) e pelo Estatuto das Metrópoles. 2.1 A rede urbana brasileira e a contribuição do estudo das regiões de influência das cidades (REGIC) De acordo com Corrêa (2006), a rede urbana é um reflexo e uma condição para a divisão territorial do trabalho. As vantagens de cada local se diferenciam à medida que uma estrutura se cria com uma especialização funcional e caracterizadora. É o que nos leva a identificar uma cidade como industrial, portuária etc. No caso das cidades brasileiras, foi justamente o caráter agroexportador que fez com que determinadas cidades se desenvolvessem mais do que outras, já que se consolidaram como sedes do capital comercial. Forma-se uma rede complexa à medida que as funções das cidades se articulam umas com as outras. Ela viabiliza a produção industrial, a circulação e o consumo de mercadorias. Podemos entender a rede urbana como a maneira como as cidades estão dispostas no território e as relações que mantêm entre si e com seu entorno através de fluxos de informação, de capital, de pessoas e de mercadorias. 28 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável As cidades maiores produzem bens e atuam como pontos de distribuição. Os bens e os serviços das grandes cidades são distribuídos para as de tamanho médio, que por sua vez os distribuem para as menores. Quem vive em cidades menores precisa muitas vezes se deslocar para acessar determinados serviços mais especializados ou para estudar, por exemplo. Quanto mais funções uma cidade realiza, maior é a sua zona de influência. Essa organização forma uma hierarquia. Uma série de cidades menores dependem da cidade principal, e delas dependem outras cidades ainda menores. Como podemos supor, as relações de uma cidade não são sempre iguais. Elas dependem das funções que cada cidade realiza dentro dessa rede, e essas funções são definidas levando em consideração a demanda da população, sua zona de influência e os recursos financeiros disponíveis para financiar o desenvolvimento. A pesquisa Regiões de Influência das Cidades (REGIC) foi feita para identificar e analisar a rede urbana brasileira. Ela foi capaz de revelar os eixos de integração no território e os padrões de distribuição das centralidades urbanas no país e tornou-se assim um importante instrumento para tomada de decisões e planejamento. De acordo com a REGIC (IBGE, 2018), a rede urbana brasileira é estruturada em duas dimensões. A primeira considera a hierarquia dos centros urbanos e está organizada em cinco níveis. A segunda dimensão considera as regiões de influência e pode ser identificada por uma ligação das cidades de menor para as de maior hierarquia. A unidade urbana utilizada no estudo é composta por um conjunto que agrega municípios e seus arranjos populacionais. Essa escolha foi feita por se levar em conta que vários municípios podem ser inseparáveis como unidade urbana. É o caso dos municípios conurbados ou que apresentam forte movimento pendular, numa integração que permite considerá-los como um único nó na rede urbana. Na REGIC, a classificação da rede urbana considera duas questões principais: a) O papel de comando na gestão pública somado às funções de gestão sobre os outros municípios; b) O alcance que esse comando possui e a atratividade do território, que delimitam sua área de influência. 29 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Figura 6: Níveis de hierarquia da REGIC. Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. 30 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Assim se estabelece a hierarquia entre os centros urbanos com base nas funções de gestão que as cidades exercem umas sobre as outras, considerando o alcance desse comando. Para fins didáticos, este módulo agrupará esses municípios da seguinte forma: Grupo 1: metrópoles, capitais regionais e centros sub-regionais; Grupo 2: centros de zona e centros locais. A disposição da hierarquia que acabamos de apresentar pode ser observada a seguir. Figura 7: Rede urbana – Brasil, 2018. Fonte: IBGE, Diretoria de Geociências, Coordenação de Geografia, Regiões de Influência das Cidades (2019). in Regiões de influência das cidades: 2018 / IBGE, Coordenação de Geografia. - Rio de Janeiro: IBGE, 2020. 31 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Se observarmos que a REGIC considera em conjunto os municípios e os arranjos populacionais por conta das suas integrações e influência, já podemos supor que existam situações desafiadoras para os limites territoriais. Devemos ainda lembrar que segundo a CF88 (art. 25, § 3º), os estados podem instituir: [...] regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, constituídas por agrupamentos de municípios limítrofes, para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum. A partir do conhecimento trazido até aqui, identifique em qual nível de hierarquia o seu município está enquadrado e descreva como é a rede de influência com os outros municípios. ATIVIDADE PROGRAMADA Nos deparamos então, de uma só vez com uma série de conceitos, mas o que significa cada um deles? No próximo subcapítulo trabalharemos detalhando esses conceitos para avançarmos sobre a complexidade que envolve a governança interfederativa, dessa vez levando em conta o Estatuto das Metrópoles. 2.2 As funções públicas de interesse comum e o Estatuto das Metrópoles A população urbana brasileira passou de 56% na década de 1970 para 85% em 2015 (PNAD, 2015). Mesmo com a intensificação e o crescimento da urbanização, somente com o Estatuto da Metrópole (Lei nº 13.089/2015) orientações nacionais específicas foram estabelecidas para os instrumentos de gestão interfederativa. Um dos seus avanços mais importantes é definir os conceitos que orientam hoje o entendimento e as ações dos grupos acadêmicos e da administração pública. Inicialmente, a metrópole não deve ser confundida com a aglomeração urbana. De acordo com Estatuto da Metrópole, a definição de metrópole é: [...] espaço urbano com continuidade territorial que, em razão de sua população e relevância política e socioeconômica, tem influência nacional ou sobre uma região que configure, no mínimo, a área de influência de uma capital regional, conforme os critérios adotados pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. (art. 2º, V, Lei nº 13.089/2015). Já as aglomerações urbanas são definidas como: [...] unidade territorial urbana constituída pelo agrupamento de 2 (dois) ou mais Municípios limítrofes, caracterizada por complementariedade funcional e integração das dinâmicas geográficas, ambientais, políticas e socioeconômicas. (art. 2º, I, Lei nº 13.089/2015). 32 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Sendo assim, o que diferencia a aglomeração urbana da região metropolitana vai além da noção de aglomerações que estabelecem relações complementares entre si. A metrópole exige um nível de influência que envolve outros territórios num nível regional ou nacional. À medida que pessoas circulam em busca de bens, serviços e/ou oportunidades de trabalho, há a conurbação entre os municípios. Esse é um processo relativamente comum, já que cidades diferentes podem se especializar ou possuir atrativos diferentes. Essa conformação orgânica demanda soluções regionais para resolver questões como a do transporte, e pode dar origem ao que conhecemos por Regiões Metropolitanas. As regiões metropolitanas já estavam previstas pela legislaçãobrasileira desde a Constituição Federal de 1967. Com a Lei Complementar nº 20/1974, foram instituídas as primeiras regiões metropolitanas no Brasil: as Regiões Metropolitanas de São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador, Curitiba, Belém e Fortaleza. Com o Estatuto das Metrópoles, seu conceito passou a ter contornos mais definidos. Quando os estados passaram a ter a competência de instituir as regiões metropolitanas, elas puderam ser estabelecidas com intencionalidades específicas. Não são mais necessariamente fruto de um processo, como acontece no fenômeno de conurbação. Há casos como o da RM da Grande São Luís (MA) em que as RMs foram criadas em territórios descontínuos, onde havia baixa densidade sociodemográfica e econômica. Assim, a partir do Estatuto da Metrópole as regiões metropolitanas são entendidas como uma unidade regional instituída pelos estados por meio de uma lei complementar. Elas são formadas por um agrupamento de municípios limítrofes, de modo a integrar a organização, o planejamento e a execução das funções públicas de interesse comum (art. 2º, VII, Lei nº 13.089/2015). Cite exemplos de uma metrópole e de três casos de aglomeração urbana no seu estado. Como eles se diferenciam? Como é a governança desses territórios? ATIVIDADE PROGRAMADACaso queira se aprofundar mais no assunto, acesse a Série Governança Metropolitana no Brasil, desenvolvida pelo IPEA. MARGUTI, B. O.; COSTA, M. A.; FAVARÃO, C. B. (Org.). Brasil metropolitano em foco: desafios à implementação do Estatuto da Metrópole. Brasília: Ipea, 2018. (Série Rede Ipea. Projeto Governança Metropolitana no Brasil, 4). Disponível em: http:// brasilmetropolitano.ipea.gov.br/#biblioteca APROFUNDE-SE Figura 7: Conurbação. Fonte: Elaboração gráfica do LabHab. 2022. http://brasilmetropolitano.ipea.gov.br/#biblioteca http://brasilmetropolitano.ipea.gov.br/#biblioteca 33 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável De acordo com Moreira e Guimarães (2015), o que fundamenta a constituição das regiões metropolitanas é a necessidade de se atender a demandas urbanas específicas com vistas ao planejamento, à integração e à execução das funções públicas de interesse comum (FPICs). Isso indica o interesse de cumprir o planejamento integrado do território, levando em conta tanto os interesses dos municípios que as compõem quanto os do estado no qual está inserida. Ou seja, as funções públicas de interesse comum são os interesses metropolitanos, ações de planejamento, coordenação, controle, programação, fiscalização e execução realizados de forma integrada para incluir as necessidades de todos os entes federados envolvidos. A função pública de interesse comum é definida no Estatuto da Metrópole como “[...] política pública ou ação nela inserida cuja realização por parte de um município, isoladamente, seja inviável ou cause impacto em municípios limítrofes” (art. 2º, II, Lei 13.089/2015). Estão relacionadas às atividades que causam impacto nos municípios e ultrapassam seus limites territoriais, como sistema viário, saneamento básico, uso do solo, defesa civil, preservação ambiental e recursos hídricos. Figura 8: Funções públicas de interesse comum. Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. Já o “[...] compartilhamento de responsabilidades entre entes da Federação em termos de organização, planejamento e execução de funções públicas de interesse comum” (art. 2º, IV, Lei 13.089/2005) é justamente o que define a governança interfederativa. 34 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Figura 9: Governança interfederativa. Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. 35 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável A governança interfederativa foi uma das inovações mais importantes do Estatuto da Metrópole. Ela se refere à formalização das regiões metropolitanas, aglomerações urbanas e microrregiões, integrando o planejamento, a organização e a execução das funções públicas de interesse comum (ARAÚJO; FERNANDES, 2014). Portanto, quando falamos de governança interfederativa, devemos considerar que todos os entes federados de uma região metropolitana devem compartilhar as ações de planejamento, organização e execução das funções públicas de interesse comum. Ou seja, trata-se de uma gestão compartilhada (ARAÚJO; FERNANDES, 2014; MOREIRA; GUIMARÃES, 2015). De acordo com Moreira e Guimarães (2015), esse instrumento é importante, porque através dele os municípios determinam em sua articulação as diretrizes de parcelamento, uso e ocupação do solo urbano. Nesse caso, os municípios devem adequar o Plano Diretor com o Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado da unidade territorial, seja ela uma região metropolitana ou aglomeração urbana. O Estatuto da Metrópole é um instrumento de grande importância. Ele traz avanços na definição e organização das responsabilidades dos entes federados, preservando sua autonomia e fazendo com que o interesse comum prevaleça. Orienta para a gestão democrática, para a efetividade do uso dos recursos públicos e para o desenvolvimento sustentável através da governança interfederativa. Nos Capítulos 3 e 4 a seguir, trataremos especificamente das experiências dos consórcios públicos e das associações dos municípios. AULA 2 MÓDULO 2 Aula 2 - Governança urbana: conceitos básicos. 36 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável CAPÍTULO 3 – GOVERNANÇA URBANA INTERFEDERATIVA: A EXPERIÊNCIA DOS CONSÓRCIOS PÚBLICOS INTERMUNICIPAIS Neste capítulo trataremos da solidariedade e das responsabilidades dos agentes envolvidos na governança urbana interfederativa. Pensando na sustentabilidade, também é importante tratar do uso dos recursos comuns em sua área de interação com a questão ambiental e com a valorização das comunidades tradicionais. Nesse sentido, apresentaremos os consórcios públicos capazes de favorecer e fortalecer a colaboração interfederativa. As motivações iniciais que permitiram o consorciamento e as variáveis que favoreceram esse tipo de organização ilustrarão as possibilidades de aplicação e de desmistificação da complexidade de formação de consórcios. 3.1 Os instrumentos da governança interfederativa e o desenvolvimento sustentável A partir da CF88 o desenvolvimento sustentável passou a ser ao mesmo tempo um valor supremo e um princípio constitucional. É a síntese que concentra dimensões múltiplas: ambiental, social, econômica, jurídico-política e ética. Consequentemente, exige um completo reajuste do modelo de desenvolvimento ainda restrito ao plano econômico (ROCHA; BARRETO, 2019). De acordo com Rocha e Barreto (2019), as normas que regulamentam as ações de proteção ambiental são frequentemente associadas a obstáculos para o desenvolvimento. Elas refletem a necessidade de se pensar em soluções em que a cooperação entre os entes assegure a proteção ambiental. Deve-se considerar principalmente as responsabilidades expressas no art. 23 da CF88, que apresenta as competências comuns dos entes federados. 37 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável A Lei Complementar 140/2011 especifica a gestão ambiental compartilhada, democrática e descentralizada. Assim como os instrumentos de cooperação que podem ser implementados para garantir o desenvolvimento sustentável no âmbito das políticas de governo. Figura 10: Lei complementar 140/2011. Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. O Estatuto da Metrópole foi criado em 2015 com o objetivo de estabelecer as diretrizes gerais para o planejamento, a gestão e a execução das funções públicas de interesse comum em regiões metropolitanas e em aglomerações urbanas. Ele lista alguns instrumentos de governança interfederativa: 38 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Não iremos tratar especificamente de cada um dessesinstrumentos, pois essas são apenas algumas referências do que pode ser aplicado. No entanto, no caso de municípios em região metropolitana ou aglomeração urbana, o Plano Diretor deve ser compatibilizado com o Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado, conforme será tratado pelo Módulo 4 deste Curso. Neste capítulo, continuaremos a falar especificamente dos consórcios públicos. Eles são uma alternativa adotada com mais frequência pelos entes federados para fomentar a governança interfederativa. PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TEMA VER TAMBÉM O MÓDULO 4. 4 Se o seu município estiver inserido em uma região metropolitana, há instrumentos de governança interfederativa que já foram instituídos? Quais? Eles funcionam? No caso de não haver, quais instrumentos seriam pertinentes à aplicação? ATIVIDADE PROGRAMADA Figura 11: Lei complementar 140/2011. Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. 39 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável 3.2 Os consórcios públicos intermunicipais Em 2015, um importante marco legal e institucional foi promulgado no Brasil. Ele representa uma tentativa de superar os limites político-administrativos da federação brasileira e os seus complexos problemas locais e regionais. A Lei dos Consórcios Públicos (Lei 11.107/2015) veio da longa tradição dos consórcios na história intermunicipal e seu objetivo era criar uma articulação governamental capaz de dar conta dos mais diversos tipos de problemas, ainda que não fossem legalizados (FONSECA, 2013). De acordo com Trevas (2013, p.21), os consórcios públicos podem ser definidos como “[...] arranjo institucional de cooperação e coordenação federativas. É uma autarquia associativa, ou seja, cuja função é operar as competências a ela delegadas”. Assim, não há competências originárias para o consórcio público, isso significa que por meio dele os entes associados exercem suas próprias competências, numa manifestação de sua autonomia. Os entes federados somam esforços para atender os interesses comuns ao se consorciarem. Dessa forma, podem ter sua autonomia ainda mais respeitada. Quando se enfrenta em conjunto as fragilidades e as dificuldades existentes nos municípios de pequeno porte, seus habitantes podem ser ainda mais beneficiados. Portanto, essa forma de cooperação contribui para a efetivação do direito à cidade, já que favorece o acesso às políticas públicas. Um desafio que se apresenta aos consórcios é, no entanto, a fragilidade de sua contratualização, já que é necessário que as lideranças políticas se comprometam a assumir acordos e compromissos que podem ultrapassar o tempo de seu mandato (BARRETO; LOSADA, 2019; TREVAS, 2013). 40 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Figura 12: Consórcio Público. Fonte: Elaborado pela autora, com base em Fonseca (2013). Elaboração gráfica do Labhab, 2022. Fonseca (2013) assinala que os consórcios são determinados de acordo com os parâmetros dos seus entes federados, segundo os parâmetros legais da CF88. Dados levantados pelo Observatório dos Consórcios da CNM (2022) mostram que existem no Brasil 4.745 municípios consorciados. Desses municípios, 34% (1.612) estão na Região Sudeste, 30% (1.405) na Região Nordeste, 24% (1.134) na Região Sul, 8% (379) na Região Centro-Oeste e 4% (215) na Região Norte. Figura 13: Distribuição dos municípios consorciados no Brasil. Fonte: https://consorcios.cnm.org.br/ 41 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Caldas e Cherubine (2013) propõem uma tipologia para identificar os consórcios públicos: Figura 14: Consórcios Públicos. Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. 42 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável O seu município faz parte de algum consórcio? Como você o classificaria? ATIVIDADE PROGRAMADA Algumas condições especiais são necessárias e compõem o objetivo básico para a criação de um consórcio. Caldas e Cherubine (2013) indicam as três condições que mais se destacam: o estímulo (interno ou externo) ao consorciamento, a existência do capital social e a existência de uma liderança territorial. PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TEMA VER TAMBÉM O MÓDULO 5. 5 Para que os consórcios públicos tenham resultados satisfatórios é fundamental que agreguem capacidades técnicas e gerenciais efetivas e consistentes. Para isso, sua direção política deve selecionar um corpo técnico qualificado, comprometido e sensível à inovação. Trevas (2013) também destaca a necessidade de se compartilhar recursos entre os entes federados consorciados, minimizando a dependência de recursos externos. Os projetos formulados devem ser consistentes para garantir a sua execução. Assim, destinar recursos próprios é uma forma de transmitir credibilidade e compromisso com o objetivo a ser alcançado. Figura 15: Capital Social. Fonte: Elaborado pela autora. Elaboração gráfica do LabHab. 2022. 43 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável Caso queira saber mais sobre o processo de formação de um consórcio, acesse o passo a passo disponibilizado pela CNM. CNM – Confederação Nacional de Municípios. Consórcios Públicos Intermunicipais: Uma Alternativa à Gestão Pública. Brasília: CNM, 2016. Disponível em: https://www.cnm.org.br/biblioteca/ exibe/2214 APROFUNDE-SE AULA 3 MÓDULO 2 Aula 3 - Governança urbana interfederativa: a experiência dos consórcios públicos intermunicipais. Entrevista com a Profª Ms. Adriana Carneiro da Silva (Universidade do Estado da Bahia) sobre o Consórcio Público de Desenvolvimento Sustentável Portal do Sertão. Os consórcios possuem um caráter inovador e são uma estratégia de desenvolvimento regional com papel importante na afirmação de gestões participativas e descentralizadas, política e administrativamente (CARVALHO; XAVIER; PINTO, 2016). São muitos os exemplos de consórcios ativos e atuantes, como o Consórcio Público de Desenvolvimento Sustentável Portal do Sertão, em Feira de Santana-BA (SILVA, 2015). Ele será tema da Aula 3. https://www.cnm.org.br/biblioteca/exibe/2214 44 Governança: A dimensão política do desenvolvimento urbano sustentável CAPÍTULO 4 - GOVERNANÇA URBANA INTERFEDERATIVA: A EXPERIÊNCIA DAS ASSOCIAÇÕES DE MUNICÍPIOS Na esfera municipal estão alguns dos maiores desafios para o exercício da governança. Como destacamos no primeiro capítulo deste módulo, os municípios ganharam mais autonomia política e administrativa a partir do pacto federativo implementado pela Constituição Federal de 1988. Porém, eles também se depararam com a necessidade de resolver problemas complexos, apesar de frequentemente ter uma capacidade institucional limitada para implementar as políticas nacionais. Um dos meios para efetivar a cooperação entre os entes federativos é formar consórcios, como vimos no Capítulo 3. Porém, essa não é a única possibilidade. Os municípios também podem se aliar por meio de associações para dar conta dos problemas que vão além dos seus limites territoriais. Vamos aprender um pouco mais sobre essa modalidade de cooperação. PARA MAIS INFORMAÇÕES SOBRE O TEMA VER TAMBÉM O MÓDULO 5. 5 4.1 O que é uma associação de municípios e como ela se diferencia dos consórcios intermunicipais De acordo com Azevedo (2004), a organização dos municípios, a definição de suas atribuições e a organização da estrutura dos poderes eram competências dos estados até 1988. Antes disso, só alguns municípios nos estados do Rio Grande do Sul e as capitais do Paraná e da Bahia tiveram autonomia para criar suas próprias leis orgânicas. Com o aumento das responsabilidades, os municípios passaram a lidar com a limitação de recursos materiais, financeiros e humanos para cumprir suas funções. Além disso, eles passaram a ter de lidar com problemas que antes eram da competência da União ou dos estados. Os municípios formaram