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Afrografias da Memória Leda Maria Martins Digitalizado com CamScanner"É, meu povo, dessa vez pensei que a morte me levava. É...! Então pensei: muito pesquisador já me pro- curou, querendo que eu contasse a história do Reinado do Jatobá. E eu nunca quis. Essa história não está nos livros. Ela está na lembrança, no pensamento, na boca da gente. Mas agora que quase senti a minha hora e que os fundamentos estão modifi- cando muito, eu quero contar." É com esse apelo que João Lopes, capitão-mor da Irmandade de Nos- sa Senhora do Rosário, da região do Jatobá, em Belo Horizonte, dirige-se à escritora Leda Martins, pedindo que ela transforme em letra aquilo que é da ordem do corpo, das pul- sações e da voz: histórias do Congado do Reinado do Jatobá. E a escritora, tecendo magistral- mente os fios da lembrança e do es- quecimento, do vivido e do teori- zado, constrói estas Afrografias da Memória: grafias da oralitura, trans- criações, nesse mundo do livro, das inscrições ágrafas que os conga- deiros, em seus rituais, souberam preservar. Assim imersa nesse mundo da magia e do encantamento dos ritu- ais, a escritora deles se permite dis- tanciar, pois, como portadora da le- tra, ocupará também o lugar do escriba que não lê que escreve, masAfrogra Memória Afrografias da Memória Digitalizado com CamScannerLeda Maria Martins Afrografias da Memória 0 Reinado do Rosário Jatobá Edições Capa de EDITORA PERSPECTIVA MAZACopyright 1997 by Maria Martins Dados Internacionais de Catalogação Publicação do Leda Maria Afrografias memória do no / Leda Maria Martins Paulo Perspectiva Belo Horizonte Mazza Edições, 1997. (Coleção Perspectiva) ISBN 1. (Belo Horizonte, MG) 2. afro-brasileiros de do Belo MG) o Reinado do no 97-4099 Indices para 1. Congado Belo Horizonte Religiões Sociologia do Rosário Belo Horizonte Religiões Sociologia In memoriam de Malaquinhas do Formigueiro Virgolino Motta Maria Belmira da Silva (D. Niquinha) reservados em portuguesa à Francisco Lopes (Chico Lopes) EDITORA PERSPECTIVA S.A. Edson Tomaz dos Santos Av. 3025 01401-000 Paulo SP Brasil José dos Anjos Ferreira Telefone (011) E in memoriam de todos os congadeiros MAZZA EDIÇÕES que cantaram 101 30280-410 Belo MG Brasil (031) Digitalizado com CamScannerDigitalizado com CamScanner as gungas do as crianças do reino, Para e aos que ainda vão nascer. à minha mãe, D. Alzira; ao capitão-mor João Lopes; à D. Maria Ferreira; Jatobá; à Irmandade de N.S. do Rosário do aos nossos antepassados; Em homenagemSumário AGRADECIMENTOS 13 INTRODUÇÃO - DEIXA O MEU GUNGA PASSAR 17 1. A ORALITURA DA MEMÓRIA 23 1.1. Os Africanos não Navegaram Sós 24 1.2. Rainha Coroada, Coroa do Rei 32 2. UNDAMBA BERÊ BERÊ 43 2.1. Senhora do Rosário, Rainha do Mar 44 2.2. Gomá, Dambim, Dambá: Fábula Textual 48 2.3. Rituais de Linguagem 63 3. REINOS BANTOS EM TERRAS DE Y-ATA-OBÁ 69 3.1. Essa Gunga é de Mamãe: da Pantana a Virgolino 70 3.2. Anganga Muquiche 87 3.3. Fragmentos de uma Genealogia do Reino do Jatobá 115 4. CANTARES 121 5. AFROGRAFIAS RITUAIS 145 5.1. A Palavra Proferida 146 5.2. Geografias de Imagens e Sons 150 CONCLUSÃO - SE A MORTE NÃO ME MATAR, TAMBORIM 169 IMAGENS 173 FONTES DOCUMENTAIS 191Agradecimentos os congadeiros que me emprestaram a sua voz. A todos membros da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do Jatobá. Ao mestre João Lopes (Alcides André). Ao Sr. Sebastião dos Santos (in memoriam). À D. Maria Ferreira, D. Leonor Pereira Galdino, Sr. Matias da Mata, Sr. José dos Anjos Filho, D. Alzira Germana Martins, D. Iracema Pereira Moreira, D. Edith Ferreira Mota, Sr. Getúlio Ferreira Mota, Sr. Alceu Valério de Lima, Sr. José Apolinário Cardoso, Sr. José Expedito da Luz Ferreira, Sr. Adair Valério de Lima, Srta. Walquíria Kátia Moreira. À D. Maria Barbosa de Souza (D. Lica). À D. Julieta Barbosa André, pelo empréstimo de seu arquivo de fotos antigas. Ao historiador Alexandre Pereira Daves, que em muito contribuiu para a pesquisa de fontes primárias em arquivos e museus. À musicóloga Glaura Lucas, pela transcrição musical dos cantares. À Maria Elisa Rodrigues Moreira, pela cuidadosa digitação dos manuscritos. À Lúcia Castello Branco, pela delicada revisão dos originais. Ao Museu do Ouro de Sabará, à Cúria Metropolitana de Belo Horizonte, ao Arquivo Público Mineiro, ao Museu Abílio Barreto, ao Instituto de Geociências Aplicadas, à PLAMBEL PRODABEL. Ao CNPq pelo fomento a esta pesquisa. À Fundação Cultural Palmares, gestão da Dra. Dulce Maria Pereira, pelo estímulo às pesquisas sobre a cultura afro-brasileira. À Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte, gestão da Dra. Maria Antonieta Antunes Cunha (1993-1996), pelo apoio a esta edição. Digitalizado com CamScannerMoçambiqueiro É bora É bora de viajar É céu, é terra, é mar Moçambiqueiro Na beira do mar Cântico do MoçambiqueIntrodução DEIXA O MEU GUNGA PASSAR Devagarim Devagarim no Rosário eu vou, oiê Devagarim Devagarim no Rosário eu vou, oiá Cântico do Moçambique Digitalizado com CamScannerDA GUNGA PASSAR Afrografias da Memória é um livro de falas, um texto de narrativas, tecido com estilete da memória curvilinea de uma das irmandades narrativas dos congadeiros e a complexidade da representação do Rosário, em Minas E é a coreografia lacunar da memória e lica que se pereniza no tempo, geração após geração? rituais de linguagem encenados que regem os cantares rituais, a João Lopes não me deixou esquecer desafio e, a partir daquele enunciação textual e os saberes transcriados nesse livro. Nessa mês de novembro, por horas, esse narrador do Ro- ria discursiva, a da oralidade e a letra da escritura se entrela. sário confidenciou-me seu profundo saber, contando, cantando, lem- çam, trançando texto da história e da narrativa mitopoética, brando, guiando as respostas e muitas das perguntas. Em seguida, dores do logos em um Reino Negro, da de Nossa Senhora levou-me Sr. dos Santos, na época o membro mais do na região do Jatobá, em Belo lho da Irmandade. Em sua narrativa, Sr. Sebastião, lúcido brinca- Em outubro de João Lopes, capitão-mor dessa congrega- lhão nos seus mais de cem anos, reportou-me à gênese da congrega- ção, adoeceu gravemente. De boca em boca, entre os ção da qual participara desde os seus antes mesmo da corria a da enfermidade desse anganga do Ro- dissidência com Reino de Ibirité. D. Maria Ferreira, mãe de João sário, sacerdote maior do Reinado do Indo em no- Lopes, narrou-me dados mais relevantes sobre o início da capita- vembro, já cair da noite, encontrei-o convalescente, cercado por nia do Sr. Virgolino Motta, seu esposo, que, a partir de 12 de outubro seus familiares e por membros ilustres de sua Irmandade, reis, rai- de 1932, assumiu comando do Reino do D. Leonor Pereira nhas, dançantes e Mesmo abatido, o capitão João Galdino, atual rainha conga, completou esse ciclo inicial de informa- Lopes proseava e ria, enquanto sua esposa, D. Julieta, servia café, Esse coro de vozes forneceu-me os subsídios imediatos que me biscoitinhos e cuidava do neto serelepe. Felizes pela recuperação permitiram imergir e recuar no passado, para delinear origem e a do capitão, as pessoas contavam casos, lembravam histórias do Congado, história da Irmandade do na mesma época, fins de puxavam cantos antigos, fabulavam. Deleitada, eu ouvia as reminiscên- 1993 e início de 1994, a pesquisa das fontes primárias em arquivos e cias dessa nação conga e viajava nos fragmentos das narrativas, lem- bibliotecas, visando mapear a região do rastreando a proce- brando minha anterior vivência nessa congregação, quando, ainda dência étnica dos escravos que habitaram as fazendas do lugar desde o século ança, fora, por dez anos, princesa conga de D. Niquinha e Chico Lopes, saudosos reis congos dessa tribo de Por mais de dois anos, realizei dezenas de entrevistas com Em determinado momento, já muito rouco pelo esforço da fala, membros da Irmandade e com antigos moradores da região e visitei João Lopes disse, sério, mais ou menos assim: tivamente, o repertório de informações, sobre as quais eu refletia com os ternos do Congado outras irmandades, ampliando, significa- meu povo, dessa vez que a morte me Então indagava Os cruzamentos dos registros orais com e muito pesquisador me procurou, querendo que contasse a história do Reinado parcos fragmentos escritos, que eu localizava nos arquivos, aponta- os do E eu nunca Essa história não está nos está na ram-me a antiga e já extinta Fazenda da Pantana, em no pensamento, na boca da gente. Mas agora que quase senti a minha hora e que um dos focos principais de referência sobre os negros naquela como fundamentos estão modificando muito, eu quero contar região. fazenda era de propriedade de D. Pereira vasta Freitas, senhora parda, dona de muitos cabedais, uma das mais de Naquele instante, dirigiu-me fixamente seu olhar, fez uma pausa e temida proprietárias de terras no século XIX, ainda hoje lembrada ricas concluiu rindo: "E quero que você escreva"! Alexandre madrinha da Seguindo essas deduções, como a Naquela noite dormi encantada e Inquieta. Como escrever a Daves, bacharel em história, que muito me em 1994, ria do do Que sabia e sei eu sobre os fundamentos rituais sagrados dos reinados negros? Como alinhavar uma história que arquivos datado do Museu do Ouro de Sabará, o inventário de D. nos pesquisa das fontes primárias e cartoriais, auxiliou na se constitui nos tempos do vivido e do contado? Como apreender, sem de de 1861, e o de seu marido, Alferes Antônio José de reducionismos teóricos, as fabulações da memória que habitam as tros 1833. análise minuciosa desses inventários, cotejados Freitas, quivos dados de que dispunha, conduziu-nos a vários com 1. mestre das cerimônias públicos, museus e cartórios, que nos permitiram trazer outros à luz Digitalizado com CamScannerDA MEMORIA DEIXA MED GUNGA 20 fontes preciosas, algumas das quais referidas no capitu- vezes por interjeições, com coro e transitando to 3 deste orais escritos que mediaram meus passos por seus múltiplos de timbres N. S. do Rosário do algumas pessoas, da Mata, Esses escrevi esta Queria eu desenhar desejo!) uma fulgor melopéia Na Irmandade Lopes, José Expedito da Luz Ferreira e Matias João Lopes assim, letra escrita sinestésica da dentre clas de nativas africanas, identificados por Por fugir que traduzisse na matizes de uma linguagem encantamento imanentes que conju- na falam dialetos da linhagem do Queto do transcrever as performance as gestos, a e e festejos dos gasse palavras, significante dos cantares estilete, referências minha dos falares africanos, com pequenas adptações na como especialidade e a grafia materialidade signica não e elidisse o sujeito e o objeto, outros o matizes sopro 0 uma que Mas escrita se recobre de da modula- do registro o ritmo a quando a recobre sinestésica performance fruição magia, oralidade, Privilegici neste texto ponto de vista narrativo e repertório cognitivo da Irmandade do Rosário do tentando evitar as gene- desvela-nos Eneida Maria de Souza, ato de leitura abre-se ções mesmo outras diferentes possibilidades de do escrito e pois, ralizações que obliteram as nuances de diferença observáveis entre como afirma interpretações, recortando suas letras e recompondo outro diversos festejos de Reinado, disseminados em Minas e em outros dúvi- es- Entretanto, apesar das roupagens diversificadas, sem do a partir dos quais "qualquer (ou não) "a novas pressupondo "um sistema de trocas e do literária pacto com a voz da, confluência no sentido das representações simbólico-rituais, atestada pelo reconhecimento mútuo entre 05 próprios congadeiros. poderá ser de início, simular um foco narrativo similar ao gênero Esse reconhecimento é efeito da comum, compartilhada por todos derivada da da fábula sobre aparecimento da Imaginei, no qual a voz do confidencia narrado imagem de Nossa Senhora do Rosário, da qual emergem as cerimônias Mas são muitos os narradores dessas afrografias e variados registros sagradas e fundamentos rituais. Optei, pois, por um estilo indireto de narração, atuando eu Contextualizei a história da Irmandade de N. S. do Rosário do mesma e como um narrador, bordando a letra do texto com os na linhagem constitutiva dos Reinados negros, visando res- grafites do escrito, intervindo algumas vezes com breves e fugazes saltar a extensão dos rizomas que reterritorializam e transcriam as reflexões, pontuando ouvido e lido, como um que dialoga, culturas africanas na cartografia da nação brasileira. A matriz africana é lida, assim, como um dos significantes constitutivos da textualidade e de toda a produção cultural brasileira, matriz dialógica fundacional Em agosto de quando eu primeira redação do presente dos sujeitos que a encenam e que, simultaneamente, são por ela que alguns dos dados por levantados inventários arquivados no Museu do de dados que comprovavam étnica também Aos atos de fala e de performance dos portanto, das tradições da região do e adjacências, estavam sendo congadeiros denominei matizando neste termo a singular citados por alguns pesquisadores que sequer se preocupavam em mencionar a descoberta inscrição do registro oral que, como littera, letra, grafa sujeito no que dessas fontes (e por confidencialmente mencionada) nos primeiros de 1994 Sim, sei, as fontes são públicas dormem nas dos arquivos e território narratário e enunciativo de uma nação, imprimindo, ainda, museus Nosso trabalho (e nosso consistiu, fundamentalmente, em refletir no neologismo, seu valor de litura, rasura da linguagem, alteração sobre as informações, hipóteses desvelar poucos que nos apontavam significante, constituinte da diferença e da alteridade dos sujeitos, da para essas fontes, localizar 0 órgão patrimonial em que estavam arquivadas, percorrer as cultura e das suas representações dos arquivos, retirando-as do limbo do esmorecimento perplexidade que seguiram, prevaleceram, no entanto, conforto dos A fala dos congadeiros rege as palavras deste Também em do dos amigos que da pesquisa c, principalmente, o estímulo as palavras têm "a força de trazer consigo os seres e os de minha Alzira Germana Martins, que, no momento de maior aflição, lembrou-me um dos cantos de resistência dos âmbitos em que pois delas advém poder que gera e dirige Essa gunga E que não bambeia que não 4. Schipper, no livro Beyond the Boundaries, African Literature and Literary Theory, 3. A Mágica do 115 denomina de orature a presença de registros soluções formais próprias da oralidade em textos da literatura africana Digitalizado com CamScanner22 DA MEMÓRIA canto e a E é pela epifania da linguagem e na linguagem que ser se toma imanente. Se a realidade às vezes se vela, por um processo numinoso de ocultação, é a força da palavra, como alethéa, aparição, não-esquecimento, que propicia fulgor da revelação e da desvelação, fundadora da da axé, do logos, Nesse processo mediado por Mnemosyne, a Memória, e por Lesmosyne, 0 Esquecimento, o narrar, contado e cantado, é a energia e fôlego que presentificam o sujeito, por força de sua nomeação, mantendo coisa nomeada no reino do ser, na luz da presença", já que não-nomeado pertence reino do oblívio e do Nos Congados, a palavra, como hálito, condensa o legado ances- tral, seu poder inaugural, e o movimento prospectivo da transcriação, encenado no ato da evento narrado dramatiza o sujeito num percurso curvilíneo, presença crivada de ausência, memória res- valada de esquecimento, tranças aneladas na própria enunciação do narrado. Assim, na oralitura dos Reinados negros, a memória, insinu- ante, se envieza nas falas, se esvazia e se preenche de sentido, como um lugar numinoso, pletora de significantes, do qual também indaga- mos: "Afinal, que fica das pegadas no chão da memória? Fica o que significa, pode-se pensar. Ou talvez o que significa passa a Os congadeiros do Jatobá emprestaram-me suas palavras e sua me- mória com elas escreveu-se este livro, constituído por muitas falas e timbres e pelas migrações das vozes Em reverência às coroas, tambores, bandeiras, bastões, tamboris e ao rosário de contas negras do Reinado, saúdo a todos os congadeiros e peço licença para contar um pouco da história dos Reinos negros e da de Nossa Senhora 1. do do Jatobá, saravando ser supremo, e Undamba Berê a mãe do Rosário, rainha da terra e senhora do mar: A ORALITURA DA MEMÓRIA um novo dia E um novo dia Deixe o dia clarear Peço licença Com licença Deixa o meu gunga passar, Deus Cântico do Moçambique povo do Queira Queira 5. 6. Torrano, Idem, 30. Mundo como Função das em Teogonia, E hora de navegar 7. Castello Branco, A Traição de 11. Digitalizado com CamScanner24 DA ORALITURA DA MEMORIA 1.1. Os Africanos não Navegaram Sós história, as civilizações e culturas africanas, predominantemente ágrafas, menosprezou sua rica textualidade oral; quis invalidar seus panteões, cosmologias, teogonias; impôs, como verdade absoluta, novos opera- Zum, zum no meio do dores simbólicos, um modus alheio e totalizante de pensar, interpre- rum, zum tar, organizar-se, uma nova visão de mundo, enfim. Objeto de um LA no meio do discurso que a inventava pelo avesso, a África aparecia no canto da europeu como território do primitivo e do selvagem que se contra- que me faz entristecer punha às idéias de e de civilização, definidoras da pretensa Parece que ela adivinha "supremacia" racial e intelectual continente negro de- que senhava-se nos textos nos registros do imaginário europeu como Ajudai-me, do mar continente das tabula rasa a ser prefaciada, inventariada e Ajudai-me, rainha do mar ocupada pela inscrição simbólica "civilizada" das nações européias. Que manda na terra No entanto, a colonização da África, a transmigração de escravos para Que manda no as Américas, o sistema escravocrata e a divisão do continente africano em Ajudai-me, rainha do guetos europeus não conseguiram apagar no corpo/corpus africano e de Zum, zum, zum origem africana os signos culturais, textuais toda complexa constitui- LA no meio do mar... ção simbólica fundadores de sua alteridade, de suas culturas, de sua di- do Congo do versidade étnica, de suas civilizações e No século XIX, um gigantesco baobá erguia-se, ainda majestoso, Rainha da terra Rainha do mar. Senhora das Em muitas em Boma, capital do Reino do Datada de aproximadamente das versões da que recria o aparecimento da imagem de N. 4.000 anos, a árvore assombrava viajantes ocidentais que nele do Rosário, é nas águas que ela surge e é das águas que os pretos do grafavam seus nomes e Sinédoque e do corpus Rosário vão entronizando-a nos seus candombes, seus tam- territorial e cultural africanos, esse baobá testemunha espetacularmen- bores te o vigor das fundações e raízes africanas e a permanência de seus Diásporas. textos, mesmo quando atravessados pelo palimpsesto do Na A história dos negros nas Américas escreve-se numa narrativa de complexidade de sua textualidade oral e na oralitura da memória, os migrações e travessias, nas quais a vivência do sagrado, de modo sin- rizomas africanos inseminaram corpus simbólico europeu e gular, constitui um de resistência cultural e de sobrevivência engravidaram as terras das Como baobá africano, as cultu- étnica, política e ras negras nas Américas como lugares de encruzilha- Os africanos transplantados à força para as Américas, através da das, interseções, inscrições e disjunções, fusões e transformações, con- negra, tiveram seu corpo seu corpus desterritorializados. fluências desvios, rupturas e relações, divergências, multiplicidade, Arrancados de seu domus familiar, esse corpo, individual e coletivo, origens disseminações. viu-se ocupado pelos emblemas e códigos do europeu, que dele se Como nos relembra Gates, africanos que cruzaram Mar Oceano apossou como senhor, nele grafando seus códigos filosó- não viajaram e sofreram Com nossos ancestrais vieram as suas ficos, religiosos, culturais, sua visão de mundo. Assujeitados pelo per- verso e violento sistema tomados estrangeiros, coisificados, Veja Mudimbe, The Invention of Africa Philosophy, and the Order of os africanos que sobreviveram às condições da travessia Knowledge maritima transcontinental foram de sua humanidade, 2. Veja Brantlinger, and Africans The Genealogy of the Dark desvestidos dentais de seus sistemas menosprezados pelos oci- em Gates Race, Writing and Difference 3. Canedo, A da da 4. e reinvestidos por um olhar alheio, do Esse olhar, 4. Gates, The Signifying Monkey, A tradução de todas citações de Gates de amparado numa visão etnocêntrica eurocêntrica, europeu. desconsiderou a minha responsabilidade. Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA 27 ORALITURA DA MEMORIA divindades, seus modos singulares e diversos de visão de mundo, sua que ele representa e transporta, participa forçosamente de Principio alteridade técnica, religiosa, cultural, suas dinâmico de expansão de tudo que existe, sem ele todos os elementos do sistema diferentes formas de organização social e de simbolização do As e seu devir ficariam imobilizados, vida não se Assim como culturas negras que matizaram os territórios americanos, em sua for- representa principio da existência genérica, é da existência mulação e modus constitutivos, evidenciam cruzamento das tradi- diferenciada em de função de elemento dinâmico que leva a ções e memórias orais africanas com todos outros códigos e siste- propulsionar, mobilizar, crescer, a transformar, mas simbólicos, escritos e/ou ágrafos, com que se confrontaram E é Como propiciador de todo processo de semiose, e portanto de pela via dessas encruzilhadas que também se tece identidade afro- produção e comunicação de sentido, é também conhecido num processo vital móvel, identidade esta que pode ser como "intérprete e lingüista do aquele que porta axé, pensada como um tecido e uma textura, nos quais falas e gestos logos, segundo com qual Olodumaré criou universo Seus dos arquivos orais africanos, no processo dinâmico de vários nomes traduzem sua multiplicidade em espiral e sua natureza de interação com outro, transformam-se e reatualizam-se, continuamente, principio Juana Elbein aponta-nos a variada figuração de Exu e em novos e diferenciados rituais de linguagem e de expressão, os seus significantes: Eso dinâmico e coreografando a singularidade e alteridades negras. símbolo complexo que participa de tudo que existe" (p. Esse processo de cruzamento tem engendrado, ao longo da histó- "primeira matéria dotada de forma detentora de existência ria, jogos de linguagem e de performance culturais, modu- (p. "pai-ancestre mas mesmo tempo primeiro nasci- lações semióticas que fundam estratégias de traduzindo-se do" (p. "terceira pessoa, terceiro elemento" (p. 135); numa reengenharia de operação signica plural e plurivalente, instituidora Senhor das Oferendas, que controla, que restauradora de sua regula ebo, a oferenda ritual" (p. 161); Yangi simbolo A cultura negra é uma cultura das encruzilhadas. de desprendimento da matéria genitora, de restauração e restituição, Nas elaborações discursivas e filosóficas africanas e nos registros por meio da qual a energia do axé deslocada e transferida "a um outro culturais delas também derivados, a noção de encruzilhada é um pon- objeto ou a um outro ser com qual ofertante se identifica" (p. 163); to nodal que encontra no sistema filosófico-religioso de origem iorubá Öjisè, o mensageiro, no sentido mais amplo do termo, elemento uma complexa formulação. Lugar de interseções, ali reina senhor de Agbá, "representação coletiva de todos os Esù indivi- das encruzilhadas, portas e fronteiras, Exu Elegbara, princípio dinâmi- duais" (p. 165); Senhor dos Caminhos, que "pode abrir ou que medeia todos os atos de criação e interpretação do conheci- segundo contexto e as (p. 169). Sendo Como mediador, Exu é 0 canal de comunicação que interpreta resultado da interação de um par, água + terra, Oninmilà + a vontade dos deuses e que a eles leva os desejos humanos. Nas nar- é portador mítico do sêmen e do útero ancestral e como princípio de rativas mitológicas, mais do que um simples personagem, Exu figura vida individualizada ele sintetiza dois" (p. 163). Essas designações, como veículo instaurador da própria narração. Juana Elbein dos San- que não esgotam todas as qualidades de Exu, traduzem sua função tos destaca as funções comunicativa e mobilizadora de Exu Bara, prin- nodal como signo do múltiplo e do singular no sistema religioso de cipio dinâmico do saber filosófico no Brasil: ascendência iorubá, disseminado nas Henry Louis Gates assinala, ainda, que, na sintaxe do sistema de De não só relacionado com ancestrais femininos e masculinos e interpretação signica iorubá, regido pela divindade Ifá, Exu funciona com representações coletivas, mas ele também é um elemento constitutivo, na como princípio do qual emergem as possibilidades de criação e realidade o não só de todos seres sobrenaturais, como também de tudo 0 que existe tradução dos Na estrutura retórica do processo interpretativo sentido, como entidade suprema, protomatéria do universo, não pode ser isolado classificado em nenhuma categoria. É um princípio e, como 6 Santos, a 130-131 7. Idem, p. 165 5. Martins, 8. Gates, The Signifying p. Digitalizado com CamScannerAPROGRAFIAS DA MEMÓRIA A ORALITURA DA de Exu "conecta a verdade e o entendimento, o sagrado e profa- no, o texto e sua interpretação, a palavra (como uma forma do verbo encruzilhada, o operador sígnico, que sua emergência, con- ser) que liga o sujeito e seu predicado, ligando a sintaxe da adivi- templando-os com desdobramentos possíveis, mas que neles não se Nessa concepção de encruzilhada discursiva destaca-se, ain- nhação às suas estruturas da, sua natureza móvel e deslizante, no movimento da cultura e dos Nessa concepção religiosa e filosófica da gênese e da produção saberes all instituídos. Ralph Elisson traduz esse traçado espiralar quando espiralada do conhecimento, a encruzilhada é um princípio de cons- afirma: trução retórica e metafísica, um operador semântico pulsionado de significância, ostensivamente disseminado nas manifestações culturais Cada momento verdadeiro de jazz irrompe de um contexto no qual cada e religiosas brasileiras de predominância e naquelas matizadas artista desafia todos os outros em que cada movimento-solo, ou improvisação, pelos saberes termo utilizado como opera- representa (como as sucessivas pinceladas de um pintor) uma definição de sua dor conceitual, oferece-nos possibilidade de interpretação do trânsi- como como membro da coletividade e como um elo na corrente to sistêmico e epistêmico que emergem dos processos inter e da transculturais, nos quais se confrontam e dialogam, nem sempre amis- Nesse movimento, a própria noção de centro se dissemina, na tosamente, registros, concepções e sistemas simbólicos diferenciados medida em que se desloca, ou melhor, é deslocada pela improvisação e e melódica. Diz Elisson: porque jazz encontra seu ponto A encruzilhada, locus tangencial, é aqui assinalada como instância vital numa infindável improvisação sobre materiais tradicionais, jazista simbólica e da qual se processam vias diversas de elabo- deve perder sua identidade, mesmo quando a Assim como rações motivadas pelos próprios discursos que a coabi- jazista, metonímia das culturas negras nas Américas, retece os ritmos Da esfera do rito portanto, da performance, é lugar radial de milenares, transcriando-os dialeticamente numa relação dinâmica e centramento e interseções e desvios, texto e tradu- prospectiva, essa cultura, em seus variados modos de asserção, funda- ções, confluências e influências e divergências, fusões se dialogicamente, em relação aos arquivos das tradições africanas, rupturas, multiplicidade e convergência, unidade e pluralidade, européias e nos jogos de linguagem, intertextuais e gem e Operadora de linguagens e de discursos, a en- interculturais, que performa. diversificada como um lugar terceiro, é geratriz de produção Esse dialogismo tem sido designado, geralmente, por sincretismo, ções e, portanto, de Nessa via de elaboração, as termo que traduz com certa fusão de códigos distintos, em colonial, de sujeito mestiço e liminar, articuladas pela pós- manifestações religiosas e/ou seculares, reduzindo, a meu ver, as pos- podem ser pensadas como indicativas dos efeitos de proces- sibilidades de apreensão de outros processos constitutivos derivados Esses e cruzamentos discursivos diversos, e interculturais. dos cruzamentos simbólicos. Sérgio Ferreti enumera vários sentidos e modos de constituição reconstituição simbólicos advêm da usos do termo sincretismo, dentre eles os que remetem à junção, fu- são, mistura, paralelismo, justaposição, convergência adaptação, englobando-os em grupos semânticos: 9. Ao The de Castro e das banto, Yeda Pessoa Dezenas de palavras podem portanto ser usadas como exemplos ou como em dominio banio compreende diversas linguas faladas em toda esclarecedoras de sentidos de significados do Embora não haja o termo plural Uganda, do equador até a Africa do Sul, entre os etc. que da linha linguas do em 1870 de significa Zimbabwe, foi usado por 11. Sobre concepções de hibridismo, mestiçagem liminaridade, Bhabha falado pelos inicialmente Nation and Serres, Ashcroft, Griffiths, Tiffin, The Empire outro dominio No que 0 quimbundo, parte do território falado pelos Segundo Writes Back Escritor Africano NO Espaço Cultural Literatura de pelo por dialetos constituiria pelos grupos e nigeriano 12. Elisson, Shadow and 229. A tradução para deste trecho de de Castro, esse Presença corrente Cultural no Benin em oriental, territórios mais do precisamente sudoeste no antigo minha responsabilidade. Negro-Africana Mito 13. Digitalizado com CamScanner50 DA MEMÓRIA ORALITURA DA 51 perfeitos, podemos destacando os principais, englobando outros sistemas encostam-se por meio de um espelhamento que produz ele relacionados Temos assim três variantes que abrangem alguns dos significados imagens duais, de dupla face, sendo sempre possível vislumbrar no principais do conceito de sincretismo, que necessitam evidentemente ser Partindo de um caso zero e hipotético de não-sincretismo, teremos então novo sítio de significância não apenas uma imagem através da outra, separação, não-sincretismo (hipotético), mas ambas simultaneamente. No Candomblé baiano, por exemplo, 1 mistura, junção, ou fusão, permanece visivel justaposição de dois panteões e de dois códigos 2 paralelismo ou justaposição, religiosos distintos, o católico (cristão-oci- 3 convergência ou dental). Ali, a justaposição sígnica, articulada por uma analogia perifé- Podemos dizer que existe convergência entre africanas de outras religiões, rica, engendra um jogo ritualístico estratégico de dupla significância: sobre a concepção de Deus ou sobre conceito de que existe ao lado do nome cristão e dos icones católicos (como, por exemplo, paralelismo nas relações entre orixás santos católicos; que existe mistura na observação de certos rituais pelo como batismo e missa de sétimo N.S. da Conceição, São Sebastião, São Lázaro, Jesus Cristo), as divin- dia, e que existe separação em rituais específicos de terreiros, como no tambor de dades Ogun, Omulu, mantêm seus nomes choro ou no arrambam ou no lorogum, que são diferentes dos rituais das próprios, seus atributos sagrados seus fundamentos conceituais ori- outras ginários. Muniz Sodré enfatiza esse jogo duplo significante de forma- ção e fundação dos rituais religiosos afro-brasileiros ao afirmar que, Podemos depreender, assim, que termo sincretismo tem sido desde a época da escravidão, nos espaços considerados "inofensivos" utilizado como um termo abrigando concepções as pelo sistema escravocrata, "05 negros reviviam clandestinamente os vezes dispares. Sem desejar alçar-me a especialista em tão complexa [seus] ritos, cultuavam os deuses e retomavam a linha do relaciona- questão, mas reconhecendo, entretanto, as diferenças de mento numa estratégia "de jogar com as efetivação dos variados processos sígnicos e cognitivos derivados dos do sistema, de agir nos interstícios da coerência Assim, cruzamentos das culturas e dos saberes, opto por empregar termo sincretismo somente como um efeito de fusão e aglutinação de diver- nos territórios do sagrado inscritos no Candomblé, África e Europa encostam-se, friccionam-se e atravessam-se, mas, não, necessariamen- registros simbólicos, distintos em sua origem mas aglutinados em um novo código e em uma nova sintaxe significantes. A Umbanda é te, fundem-se ou perdem-se uma na exemplar desse registro sincrético, fundindo, no seu tecido cognitivo e No processo de não se vislumbraria, como predomi- ritual, elementos de outros sistemas religiosos banto, católico, nantes, a operação de analogia totêmica (do nem a de tupi-guarani, kardecista, numa reformatação fusão sistêmica (a aglutinação umbandista), mas sim um deslocamento Assim concebido, o sincretismo não se confundiria com outros sígnico que possibilitaria traduzir, no caso religioso, devoção de de significância e processos constitutivos, derivados das encruzi- determinados santos católicos por meio de uma gnosis ritual acentua- lhadas dos saberes e engendrados por relações de aproximação damente africana em sua concepção, estruturação simbólicas e na pró- distanciamento diferenciadas. Dentre as várias possibilidades de apre- pria visão de mundo que nos apresenta. Nesse processo incluir-se-iam ensão e designação desses efeitos de cruzamentos, que não se insta- as cerimônias do Reinado de Nossa Senhora do Rosário, popularmen- lam pela via do sincretismo, vislumbramos dois outros: um processo de te conhecidas como Congados, nos quais santos católicos são festeja- analogia, de ressonâncias metafóricas periféricas, e um processo de dos africanamente. deslocamento, similar à Nenhum desses processos reali- Ainda que sejam tomados um pelo outro, termos Congado e za-se pela exclusividade, mas, sim, por sua predominância. Reinado diferenças. Temos ou guardas de podem processo analógico realiza-se pela convivência parelha de códi- existir individualmente, ligados a santos de devoção em comunidades gos e sistemas em si diversos que convivem simultaneamente em um onde não exista 0 Os Reinados, entretanto, são definidos por registro terceiro, mascarando-se de forma mútua, sem que haja, no processo, o ofuscamento total de sua individualidade originária. Aqui A Verdade Seduzida, 124. 16 No léxico próprio dos congadeiros termo guarda ou termo designa um grupo específico de dançantes ou com suas vestes, funções e próprias 14. Ferreti, 0 assim guardas de Congo, Moçambique, Digitalizado com CamScanner33 A ORALITURA DA 32 AFROGRAFIAS DA MEMORIA dos Era uma forma de manutenção aparente de uma organização social dos uma estrutura simbólica complexa e por ritos que incluem não apenas negros, uma sobrevivência que se transformou em fundamentação Na ausência a presença das guardas, mas a instauração de um Império, cuja con- de sua sociedade original, onde os reis tinham a função real de liderança, os negros cepção inclui variados elementos, atos litúrgicos e cerimoniais e narra- passaram ver nos "reis do elementos intermediários para trato com tivas que, na performance mitopoética, reinterpretam as travessias dos negros da África às Élsie Girardelli, consultando a obra de Nina Rodrigues, destaca dados relativos a Pernambuco "que se referem aos congos já em 1706" Segundo as fontes, observa-se ali "a existência do Rei do Congo, de 1.2. Rainha Coroada, Coroa do Rei forma instituída e aprovada socialmente, com papéis definidos, inclu- sive com poderes e controle social sobre seus compatriotas (negros escravos). Encontram-se ainda referências à festa de N. S. do Rosário, do rei De longe avistei com participação ativa do Rei do Palácio do rei Moraes relata, com detalhes, uma cerimônia de coroação de reis De longe negros em 1748, na capela de Nossa Senhora da Lampadosa, no Rio de Rainha coroada Janeiro, situada numa localidade denominada A petição para do rei coroamento dos reis data de 03.12.1748, emitida pela Irmandade do do Congo Santo Rei Baltasar. Movimentando a região e seus arredores, os feste- jos ornamentavam de cores e sons as pequenas vilas: Senhora rainha Chega na janela E pelas ruas, pela cidade, internando-se nas fazendas do Engenho Velho, do Venha ver sua Engenho Novo, do Macaco, de Santa Cruz, nos limites da autorização concedida, Sá rainha levas de pretos, dançando cantando, rufavam caixas de guerra, tangiam instrumentos Eu cheguei com ela músicos de seus climas recebendo esmolas profusas, valiosas, que entravam para o cofre da Irmandade por conta da qual corria despesa da do Congo Na estrutura ritual das cerimônias de Reinado, a rainha e rei A descrição dos adereços e dos movimentos corporais remetem- congos sidindo, representam as nações negras africanas, hierarquicamente nos à coreografia e às vestimentas dos ternos de congos atuais: D. na ordem do sagrado, os ritos e as celebrações pre- do Rosário Leonor Galdino, rainha conga da Irmandade ali dramatiza- E os foliões africanos, de calça suspensórios, de fachas azuis a representa do Jatobá, assim define a simbologia desse de Nossa Senhora com a cabeça adomada de penas peito listrado de vistosas, tamborilavam em sou a autoridade poder, Com a coroa poder: na cabeça "A coroa eu seus tamborins de dança, faziam evoluções com perna para ar, cantavam suas das cantigas bárbaras, que repercutiam avolumadas ou esvaecidas, na proporção Os registros vinculam da coroação de reis congos no Brasil, desde os venerados primórdios, esses eventos à devoção de seus Os instrumentos de percussão abriam cortejo dos reis negros, cumentais diversas por irmandades atestam ou esse confrarias elo, já em religiosas fins do século negras. santos XVII: Fontes católicos, do- orquestrados pelo "rolar surdo das caixas de guerra, som de rapa das macumbas menores) em grande número, a queda so- em reis coroação em de reis Esse do evento Congo tem registro muito antigo no Brasil, com seus foi um utilizado permitindo pelo poder simbolicamente do Estado e da que Igreja os negros para ocorrência tivessem controle 18. Gomes & Pereira, Negras Os p. 182 de video produzido para realizada Channel em também 1993 A 20. Moraes, Festas Tradições Populares do pp. 19. Girardelli, Termos de Congo, pp. Idem, p. Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA MEMÓRIA ORALITURA DA 35 noramente uniforme dos chocalhos aglutinando negros oriun- Cascudo assinala, no século XIX, desenvolvimento de um enre- dos de diferentes nações e etnias que em seus cantos, gestos, danças do particular performado pelos Congados, os autos e as e falares inscreviam a África no solo brasileiro: que tinham por tema celebrar a memória e os feitos da guerreira rai- nha negra angolana Njinga Nbandi, personagem histórica que, no sé- Moçambiques, Benguelas, Rebolos, Congos, Cassanges, Minas, culo XVII, ao domínio por mais de pluralidade finalmente dos representantes de nações escravos no Brasil, exibiam-se autênticos, cada qual com seu característico diferencial, seu tipo próprio, Os pesquisadores que têm se debruçado sobre os arquivos e sua estética repertórios da memória oral sublinham a territorialização dos de congos em grande parte do cotejamento dessas fontes Os cortejos de Reinado em fins do século XX mantêm a mesma atesta que, apesar de nos defron-tarmos com algumas variações, a disposição básica do século XVIII, atestando a permanência de um estrutura ritual e a fundamentação mantêm nessas ma- continuum paradigmático nos elos da tradição e das afrografias dos nifestações um arcabouço e uma fabulação similares que prefiguram um certo continuum que funda a sua textura discursiva e congados: Em sua coreografia ritual, na cosmovisão que tradu- zem e em toda sua tessitura simbólica, os festejos e cerimônias dos Atrás da música caminhavam majestosamente Neuvangue (rei), a Nembanda (rainha), Manafundos (principes), Endoque (feiticeiro), (escravos, congos, em toda sua variedade e diversidade, são microssistemas que vassalos e vassalas do luzido vigoroso grupo daquelas festas tradicionais e vazam, fissuram, reorganizam, africana e agrafamente, tecido cultu- genuinamente africanas, celebradas no Rio de Janeiro no século ral e simbólico brasileiro, mantendo ativas as possibilidades de outras formas de e percepção do real que dialogam, nem sempre Câmara Cascudo acentua o alastramento territorial dos festejos de amistosamente, com as formas e modelos de pensamento privilegia- congos ou congados no século XIX e seu adentramento no século XX, dos pelo assinalando que "Henn Foster assistiu coroamento de um desses No Espírito Santo, Paraíba, Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio, soberanos na de em 1811, como Martius no Tijuco Minas, a canta, a gunga chora, a gunga sarava, cele- (Diamantina) em 1818, pela coroação de D. João Cascudo desta- brando festejando a Senhora das Águas, os santos dos pretos, ca ainda permanência do entre a coroação de reis negros e Rosário de ingomá, fabulando, texturizando, dançando a história e os poderes instituídos, da colônia e da Igreja Católica, e a formação de as estórias dos negros que vieram d'além mar uma certa "nacionalidade" generalizante que condensava nos ritos a Em Minas, os festejos de Reinado constituem e fundam uma das diversidade étnica dos escravos: mais ricas e dinâmicas matrizes textuais da memória banto, que se inscreve e se firma pela reatualização do rito nos grotões mais interio- em todo nordeste, e no Alagoas, Sergipe, Bahia, São Paulo, res, nos sertões mais gerais, assim como nas vias urbanas das grandes Minas Gerais, Mato Grosso, com modificações locais, no sentido da música, cidades. Diogo de Vasconcelos descreve como "verdadeiramente poé- dos bailados e do próprio com ampla documentação, dois grandes tica" a narrativa sobre Chico Rei, africano que, no século XVIII, teria motivos sociais para essas danças que pela extensão e articulamento cênico, dos de Congo, honorários, cerimônia nas igrejas, cortejo, um dos primeiros (senão primeiro) reinos negros nas Ge- visitas protocolares pessoas importantes, b) sincretismo de danças guerreiras rais, em Vila Rica: bantus africanas, reminiscências mais vivas nas regiões de onde escravos foram Congo, Angola, num só os tornado Francisco foi aprisionado com toda a sua tribo e vendido com ela, incluindo sua possivelmente "nacional" mesmo para a escravaria de outras ato raças recordador, e mulher, filhos e súditos. A mulher e todos os filhos morreram no mar, menos um. 22. 26. Idem, pp. 27. Gunga, no léxico dos congados, significa tanto as guardas e Congado, no seu 24 Oral no todo, como guizos que dançantes da guarda de Moçambique usam nos 25 p. 417 28. Zâmbi, deus supremo no panteão Digitalizado com CamScanner16 DA MEMÓRIA DA 57 Vieram restantes para as minas de Resignado à sorte, tida por costume homem inteligente, trabalhou forrou ambos trabalharam forraram assegurando que a relação com as origens é sempre prospectiva, pois, um compatricio; três, um quarto, assim por diante até que, liberta a tribo, passaram como no jazz, funda 0 sujeito em movimento. Essa assimetria, segundo forrar outros vizinhos da mesma nação. Formaram assim em Vila Rica um Estado no Nei Lopes, "mostra que nada do que existe no mundo pode ser fixo ou Francisco era Rei, seu filho principe, nora a princesa, uma segunda mulher Rei para a sua coletividade da Encardideira Cada objeto, mesmo inerte, é animado por um movimento cósmico ou que se exerce segundo um ritmo que 0 artista negro procura Essa energia cósmica esculpe um saber que se expressa na fala, local da antiga e lendária mina de Chico Rei é hoje sítio histórico na dança, no vestuário, em objetos, como os bastões, as caixas, 05 e de visitação turística na cidade de Ouro Preto. Em Sete Lagoas, pró- tambores, adereços, cumprindo uma função ritual que não elide as ximo a Belo Horizonte, uma das majestades do Reinado do lugar per- linguagens das cores, dos sons e dos gestos mas sim, sinestesicamente, sonifica ancestre soberano Chico Rei, afirmando-se seu as conjuga na elaboração de uma fala plural que reveste tempo De março, quando em geral rosários são abertos, até fins de presente com os adereços simbólicos ancestrais, carregando outubro, quando então os Reinos se recolhem se fecham, os tambo- de si uma tradição de ancestralidade, que a cria e a res cantam em Minas e guiam pelas ruelas e pelos asfaltos, pelas cape- Os Congados expressam muito do saber banto, que concebe las e igrejas do Rosário, pelos quintais, as nações do Congo que, com como expressão de um cruzamento ancestrais seus reis e rainhas, seus e marinheiros, rematizam a em fundadores, as divindades e "outras existências grupo terras Como estiletes autografando as desfronteiras social e a série Essa concepção filosófica erige sujeito e deslimites simbólico-geográficos dessas serras gerais, Congos, como signo e efeito de princípios que não elidem história e memó- Moçambiques, Marujos, Catupés, Candombes, Vilões, Caboclos, na sua ria, secular e sagrado, corpo e palavra, som e gesto, a variedade ritmica, e performam cânticos, ges- história individual e a memória coletiva ancestral, divino e huma- tos, ritmos e falas, como aedos e griots que imbricam a história e a no, a arte e concepção esta presente na cosmovisão dos memória, posfaciando discurso cultural brasileiro com os prefácios e reis dos Congados, como um dos substratos das culturas bantos que ali se orquestram. Assim, como afirma Nei Lopes: Esses festejos reatualizam todo um saber filosófico banto, para contrário do que preconiza a etnologia tradicional, os Bantos também quem a força vital se recria no movimento que mantêm ligados o foram agentes civilizatórios, também têm sua filosofia, e sempre sob presente e passado, 0 descendente e seus antepassados, num gesto a égide dos ancestrais divinizados honram C prestigiam a arte e sagrado que funda a própria existência da comunidade, assim saber de seus escultores, seus músicos, seus contadores de histórias, explicitada por Vincent Mulago: "Para 0 banto, a vida é a existência seus dançarinos, seus sacerdotes e seus da comunidade; a participação na vida sagrada (e toda vida é sa- A coroação de reis negros, incorporada pelo sistema escravocrata, grada) dos ancestrais; é uma extensão da vida dos antepassados e como modo de controle dos africanos e de seus é apro- seus uma preparação de sua própria vida para que ela se perpetue nos priada pelo próprio negro que, por meio dela, reterritorializa formas ancestrais de organização social e Os festejos do Rosário, Essa herança ancestral e dos ancestrais ressoa nas expressões da performados sob estandarte de santos católicos da devoção negra, arte de negra, em geral, dos congados, em particular, tendo assimetria Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia, São um seus signos agenciadores. Essa concepção assimétrica na em Nossa Senhora das alastraram-se pelos territórios brasileiros, muito, de um certo pulsar do sujeito em movimento diz, imprimidos de conotações e resoluções que rompem a ordem escravocrata e os códigos ocidentais, transformando aparato 29. Vasconcelos, Sobre as História Antiga de Minas vol. 2, 32. op variedades 260-261 Ribeiro, e variantes dos de congos pp. no Brasil, veja Gomes & 33 Theophile Obenga parafraseado por Lopes, op 131 Mulago, apud Lopes, e Identidade pp 61-65 p. 126 Fagan, apud Lopes, 128 35 Lopes, p. Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA DA MEMORIA institucional em um dos modus operadores e agenciadores de ção de outros processos simbólicos na formação da cultura sua origem étinica som dos tambores funcionava, memó- tam- tanto assim, que abolida em meados do século XIX a estratégia te de como elemento significante que restituía a lembrança, a escravista de eleição do Rei do as celebrações que a bém, ria e a história do sujeito africano, forçadamente exilado de sua pátria: vam, e que eram da iniciativa dos próprios negros, de um objeto material tão importante como propulsor da haviam dança tranformando-se em autos ou danças o uso de seu era, para muitos africanos, não apenas para os que de dor, Esse processo de transgressão da ordem escravista, sua transforma- nascido na presença em uma de seu irrecuperável passado uma fonte ção em modos de agregação e em novas expressões apesar da atmosfera festiva do cas e culturais, é sublinhado por Stuckey Sterling, analisar a coroação E foram essas lembranças do passado, esse choro d'ingoma, essa de reis negros nos Estados Unidos no século XVIII, que nos revela memória fraturada pela desterritorialização do corpo/corpus africano, algumas similaridades com processos no Brasil e em Cuba, por exem- arquivos culturais que fomentaram as novas formas propósito regulador escravista, rei negro coroado melódicas esses e dançarinas do negro nas longínquas Américas, afrografada, nos festivais Pinksters funcionava como agente aglutinador dos escravos afromatizada pelos gestos da oralitura africana. oriundos de diferentes nações e etnias africanas, muitas das quais inimi- Os rituais de coroação de reis negros no Brasil e seus desdobra- gas milenares. Os ritos realizados sob a regência desses reis mentos rompem as cadeias simbólicas instituídas pelo sistema escravista reterritorializavam repertórios culturais africanos, criando novas for- secular religioso, reterritorializando a cosmovisão e sistemas sim- mas de expressão e singulares idiomas artisticos; instituíam uma ordem bólico-rituais africanos, cruzando-os com elementos das tradições hierárquica paralela à escravista; apropriavam-se de um espaço lúdico, européias, neles posteriormente acoplados, tais como as reminiscênci- considerado menos "nocivo" pelos "senhores", fomentando estratégias as das cavalhadas e das embaixadas medievais de Carlos Magno, tra- simbólicas que, sob ritmo dos tambores, reforçavam as tradições cul- ços que renomados pesquisadores como Maynard e Marlyse Meyer turais e sua manifestação: que Rei Pinkster viajava de um identificam nos cortejos do rei congo e da rainha Essas infu- sitio a outro num único dia, numa jornada na qual podia ser acompa- sões de elementos de origem européia nas cenas dos festejos e nas nhado, com facilidade por outros escravos de Albany. [..] Pinkster narrativas das embaixadas dos congos, movimentando processo de em para eles los feriado favorito, pois permitia certo grau de cruzamento discursivo e semiótico que neles se estabelece, não oblitera, que outros feriados não como afirma Nei Lopes, estrutura africana desses que é Segundo Sterling, a música e dança formavam epicentro das "anterior à sua transformação em autos, tendo os catequistas apenas festividades, sendo rei responsável direto pelas ressonâncias melódi- inserido neles esses textos evocativos da Idade Média cas e pelas coreografias que presidia, tocando ele mesmo um grande Ecoando pensamento de Oneyda Alvarenga, Nei Lopes afirma tambor. A dança realizada pelos escravos era uma variante das danças que festas de coroação, com música e dança, seriam não só originárias do Congo, reproduzindo "uma forma que, como outras recriação das celebrações que marcavam a eleição dos reis na África, provenientes da África, tinha em comum movimentos ex- como uma sobrevivência do costume dos reis bantos de, com séquito pressando significados sagrados, desconhecidos pelos escravocratas e aparatoso, fazerem suas incursões e entoando cânticos e pelo rei. Essa conjunção expressiva da música e da dança executando danças Fundamentam essas assertivas relatos como força vital das cerimônias constituiu-se em processo e "meio de de embaixadas de reis africanos, como a ocorrida em 1575, assim realização de uma certa unidade entre os escravos, independentemen- reconstituída por Ralph Delgado (citado por Nei Lopes): Idem, pp. 59-60. p. 150 Idem, 68. de 37. minha Going Through the A tradução das citações seguintes de Sterling Veja Meyer, Caminbos do Imaginário Brasil 42 Lopes, op. pp. 43. Idem, p. Digitalizado com CamScanner40 AFROGRAFIAS DA 41 Trouxeram, com a companhia. Reverendo e apessoado um espaço curvo, que comporte operações de reversibilidade, isto é, de rodeado de uma barulheira em que sobressaiam instrumentos da simbólico, de reciprocidade na troca, de possibilidade de terra (cabaça com seixas, buzina de dente de elefante, uma engoma, espécie de uma gunga, com dois chocalhos juntos, uma viola, parecida com uma A natureza curva dessa cultura agenciaria as estratégias simbólicas, esparrela, uma campainha com dobre jogos ritualísticos de linguagem, operacionalizando a reposição dos Em muitas formas de expressão artísticas e rituais afro-brasileiras, signos e sentidos africanos nas redes discursivas brasileiras, num mo- vimento de reversibilidade e heterogeneidade: repertórios textuais e simbólicos africanos são seu principal impul- constitutivo gerenciador. Essa reinvenção da memória plissa os A reposição cultural negra manteve intactas formas de diferença códices europeus, ritmando as ressonâncias africanas em formas sin- simbólica a iniciação, culto dos mortos, capazes de acomodar gulares de arte e expressão: tanto conteúdos da ordem tradicional africana (orixás, ancestrais ilustres (eguns), narrativas miticas, danças, etc.) como aqueles reelaborados ou amalgamados em território brasileiro. A expansão dos cultos ditos "afro-brasileiros" em todo E assim como grande parte das manifestações da arte afro-brasileira conserva a nacional (apesar da diversidade dos ritos ou das litúrgicas) se deve lembrança das passadas grandezas dos antigos reinos bantos e seus soberanos, várias outras constituem-se de bailados guerreiros, que certamente são dos persistência das formas essenciais em pólos de irradiação, que são as comunidades- terreiros isto que faz com que um santo da Igreja Católica (como São muitos combates travados pelos Bantos na África e no Brasil, como é o caso de Jorge) possa ser cultuado num centro de Umbanda, em São Paulo, como Ogum, Moçambique dos Quilombos. E outras, refletem a disposição atlética do orixá Ou seja, conteúdo católico, ocidental, religioso, mas a forma Banto, autotransformadas que foram, em terra brasileira, de danças em é negra, africana, Ao invés de salvação (finalidade religiosa ou católica), artes marciais como é caso do da chamada "Capoeira de culto a São Jorge se articulará em torno do engendramento de axé À reterritorialização e restituição de formas expressivas da tradi- Interditados pela Igreja Católica em meados do século XIX, os ção africana alia-se a reinterpretação, pelo negro, dos icones religiosos festejos de Reinado, ainda assim, continuaram alastrando-se e vin- cristãos, investidos de novas conotações Nessa via de lei- cando-se pelo Brasil, apesar das perseguições institucionais, da tura, a devoção aos santos reveste-se de instigantes significados, pois tensiva ridicularização da sociedade branca ou da tolerância com- as divindades cristãs transmissores da religiosidade africana, placente, que os via ou vê como manifestações "lúdicas" barrada pelo sistema e pela interdição aos deuses africa- e "inofensivas". No entanto, os valores que traduzem, a visão de Assim, particularidade na interpretação do mundo que tor- mundo que espelham, as formas rituais que performam e a reposi- nou o negro por semelhanças e diferenças um participante da ção cultural que estabelecem vêm d'além mar, como rizomas ágrafos, comunidade dos homens. Sua herança se imbricou na da reinscrevendo perenamente, no palimpsesto textual brasileiro, a le- hagiologia católica modificando-a e modificando-se simultanea- tra africana. Essa estratégia de reversibilidade é acentuada por Muniz Sodré Essas reposição e reversibilidade fundam os festejos do Rei- como um dos modus constitutivos do código das aparências que, se- nado e dos Congados. Em seu universo narrativo-textual, narra-se gundo ele, funda a cultura negra: um saber que traduz o negro como signo de conhecimento e agen- te de No enredo da fábula que organiza Reinado, Aparência não implicará aqui, entretanto, em facilidade ou na simples aparência que uma coisa termo valerá como indicação da possibilidade de outra negro, com seus tambores, retira a Santa do Rosário das e é perspectiva de cultura, de uma recusa do valor universalista de verdade que Ocidente nos tambores negros que ela se senta e dos quais preside as ceri- atribui a seu próprio modo de relacionamento com real, seus regimes de mônias rituais. E são essas águas, travessias encruzilhadas que As aparências não se referem, portanto, a um espaço voltado para a expansão, congadeiros performam em sua liturgia e festejos, celebrando a para continuidade acumulativa, para a linearidade mas à hipótese de Senhora das e Zâmbi, com seus candombes, bastões, gungas, Delgado, apud Lopes, p. 151. 45 Lopes, pp. 47. Sodré, p. 136. 48. Idem, Digitalizado com CamScanner42 DA MEMÓRIA tambores e tamborins, cantando Rosário de contas negras, que é quizumba e quizumba é: Angola Angola Essa gunga vai Essa gunga vai Corrê mundo corrê mar Cântico do 2. UNDAMBA BERÊ BERÊ Essa noile nós andemo À procura de um luar Encontrei Senhora do Rosário Hoje só que eu pude Dim dim rim dim Eu quero ver Dim dim rim dim Eu quero ver Cântico do Congo45 DA 44 2.1. Senbora do Rosário, do Mar Nos textos das narrativas dos congadeiros, a história do apareci- mento resgate da imagem da santa metamorfoseia-se em muitas ver- sões que guardam, entre si, um núcleo Transmitidas oral- do mente, essas narrativas revelam modalidades de recriação do tema, com Tu uma recorrências, supressões acréscimos próprios dos processos de trans- Tu és de ansor missão oral, vestindo-se sempre com as estórias, cores, matizes tim- 0 Senhora do Rosário bres dos lugares e do contexto que as assimilam, recriam e reproduzem. Alembra de alembra Uma das versões mais recorrente em Minas nos conta que, no Alembra de alembra tempo da escravidão, negros escravos viram uma imagem da santa Alembra de alembra vagando nas águas do mar³. Os brancos a resgataram e entronizaram 0 do numa capela pelos escravos, mas na qual os negros não podiam entrar. Apesar dos hinos, preces e oferendas, no dia seguinte do do Congo imagem desaparecia do altar e voltava ao mar. Após várias tentativas frustradas de manter a santa na capela, os brancos rendem-se insis- Nos substratos de antigas linguas africanas nativas, faladas ainda tência dos escravos permitem que eles rezem para a imagem, à hoje como dialetos por algumas comunidades negras Minas Gerais Uma guarda de Congo dirige-se, então, para a praia e com e por membros mais velhos dos de Congados, Nossa Senhora seu saltitante, sua coreografia suas cores vistosas, para- do Rosário saudada com a frase "undamba berê, berê, de mentos brilhantes e fitas coloridas canta e dança para a divindade. A calunga que, em quimbundo, significa "mulher bonita, senhora imagem movimenta-se nas águas, alça-se sobre mar, mas não das águas do Para essa divindidade que surge nas águas se acompanha. Vêm, então, os moçambiqueiros, pretos velhos, pobres, organizam as cênico-rituais dos Reinados negros nas terras com vestes simples, descalços, que trazem seus três tambores sa- das Minas Gerais, e é para ela que congadeiro canta e dança: grados, candombes, feitos de madeira revestidos por folhas de inhame e Com seu canto grave glutal, seu ritmo pau- sado denso, as gungas, seus patangomes e sua fé telúrica, cativam a santa que, sentada no tambor maior, Santana ou Chama, acompa- Okunda otunda undamba nha-os, devagar, sempre de will Nas festividades, ou guarda de Moçambique é que con- duz as majestades, as coroas e os coroados, e que representa o Os festejos do Reinado apresentam uma estrutura organizacional poder espiritual maior nos rituais reencenados anualmente, poder esse complexa, disseminada em tessitura ritual que desafia e ilude que emana dos tambores sagrados e que guia o rito comunitário. qualquer interpretação apressada de toda a sua simbologia e Levantação de mastros, novenas, cortejos solenes, coroa- de reis cumprimento de promessas, folguedos, leilões, 3. Em variantes da lenda recolhidas por pesquisadores em outras regiões do cantos, danças, coletivos, são alguns dos muitos elementos imagem ora no deserto ou sobre uma Veja Van der Poel, dos Homens Pretos que as celebrações dramatizadas em toda Minas 4. termo candombe designa tanto três tambores sagrados que retiram a imagem A fábula que organiza 05 eventos, enredo seu desdobramento das guarda formada por bem como rituais sagrados performados articula-se em tomo de uma figura matriz: Nossa Senhora do Rosário. com três 5. Gungas são pequenas cabaças ou recheadas de chumbo ou pedras, guizos, amarradas nos tomozelos, utilizadas como instrumentos de ritmo pelos moçambiques No presas um pouco abaixo dos instrumentos de ritmo Lopes, entrevista realizada em manual, de forma arredondada e formas de recheadas por pedras "Eu quero realizada 12.01.94 mulher senhora eu quero chumbo, tocadas por ambas as Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA UNDAMBA Durante as celebrações, esse mito fundador é recriado e aludido Todos os congadeiros trazem, além do terço, cruzado nos cortejos, falas, cantos, danças e fabulações, em um enredo no peito, seu signo mais visualmente característico, multifacetado, em cujo desenvolvimento 0 místico se Os estandartes das guardas, mastros, cruzeiro no adro das capelas hibridizam com outros temas e narrativas que recriam história de e igrejas do candombes, dentre outros, são elementos travessias do negro africano e seus descendentes Os prota- sagrados no código ritual, investidos da força e energia que asseguram gonistas do evento são diversos, dependendo da região tradição das cumprimento dos Assim, no Moçambique bastão é símbolo comunidades Como já balizamos no 1, em Minas, a diversi- maior de comando dos principais e no Congo tamboril e/ou a dade de guardas engloba, dentre outros, Congos, Moçambiques, Ma- espada cumprem a mesma função. rujos, Catupés, Candombes, Vilões Durante as celebrações, os reis e as rainhas são os do Dentre todas, duas guardas, no entanto, destacam-se Congo cerimonial, numa estrutura de poder embasada em posições Ambos vestem-se de calças e camisas brancas Os rígidas. Atualmente, algumas comunidades apresentam Congos, entretanto, além dos saiotes, geralmente de rosa ou azul, um grande séquito composto por rainha congos, reis perpétuos, usam vistosos capacetes ornamentados por flores, espelhos e fitas rainha de Santa Efigênia, rainha de N. S. das Mercês, rei de São coloridas. Movimentam-se em duas alas, no meio das quais postam- Benedito, reis festeiros, além de príncipes e princesas. No passado, se capitães, e performam coreografias de movimentos rápidos e entretanto, apenas os pares de reis congos e reis festeiros eram saltitantes, vezes de encenação bélica e ritmo Cantam comuns no Império dos congados. Com exceção dos reis festeiros, grave dobrado e representam a vanguarda, os que iniciam substituídos a cada ano, todas as demais majestades são vitalícias e cortejos e abrem caminhos, rompendo, com suas espadas e/ou de linhagem tradicional no congado. Nessa hierarquia, destacam-se longos bastões coloridos, Um dos seus cantos traduz rei congo e a rainha conga, as majestades mais importantes e as esse espírito coroas mais Enquanto os outros reis e rainhas representam N.S. do Rosário e outros santos do panteão católico, os reis congos Esse gunga que não bambeia simbolizam, além dessa representação, as nações negras Esse gunga é que não Essa ascendência é traduzida pelo papel impar e singular que que não bambeia que não desempenham nos rituais e funções, pelo poder com que sua coroa e paramentos são investidos. Assim, segundo capitão João Já Moçambique, senhor das coroas, recobre-se, geralmente, de Lopes, outros reis e rainhas podem ser até brancos, mas os reis azuis, brancos ou rosa por sobre a roupa toda branca, turbantes congos devem ser nas cabeças, gungas nos tomozelos e utilizam tambores maiores, de Tendo uma forma de organização social distintiva os Reinados sons mais surdos e Dançam agrupados, sem nenhuma negros podem ser lidos como um micro-sistema que opera no interior coreografia de passo Seu movimento é lento de do macro-sistema, dramatizando um modo de reelaboração secular tambores ecoa um ritmo vibrante e sincopado. Os e seus dos religioso diverso, inscrito no cotidiano das comunidades, expressão de vibra moçambiqueiros nunca se afastam muito da terra e sua pés uma cosmovisão e de uma vivência do sagrado singulares. A sintaxe curvados por todo corpo, exprime-se, nos dança, que que organiza ritos e toda a representação simbólica deriva-se da e nos Seus acentuam, na enunciação ombros lírica meio e narrativa fundadora, tecida pelo cruzamento do texto católico com a pulsação de seus movimentos: repertórios textuais de arquivos ágrafos africanos, reencenados, como um texto terceiro, pela tradição vamos Moçambiqueiro não pode Moçambiqueiro não pode Olé devagar 6. Lopes, entrevista realizada em Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA MEMORIA 49 Gomá, Dambim, Fábula Textual A devoção à N. S. do em África e sua entronização como padroeira dos negros teriam sido pulsionadas pela aparição de vum imagem da santa em Argel, possivelmente no deserto, inaugurando, em YOU relação a essa divindade católica, todo um processo de reelaboração Coroa Santa que se estende da África ao Brasil: levar Mas se entende que negros tenham assimilado mediante a reelaboração do Congo de suas fundamentações Nessa reelaboração se manifestaram as forças potenciais de uma mitologia religiosa própria dos habitantes de determinada região As contas do rosário São de resgate de Argel remete para trabalho do homem negro, mergulhado em popular mesmo e no mundo para reconstruir religiosidade dos antepassados, ameaçada pela violência dos culto à Nossa Senhora do Rosário é difundido na Europa e na No Brasil, as várias versões da lenda fundacional constituem um através dos dominicanos. Segundo Van der Poel, há do rico tecido textual de variações em tomo de um mesmo Como uso do de Maria pelos em 1090, tendo sido sua as narrativas mitopoéticas da antiguidade de todos os povos, a divulgação e expansão obra de "São Domingos de Gusmão (1170- transcriação da fábula pelos congadeiros funda-se num ato criador fundador da ordem dos Nos séculos seguin- textual coletivo que produz uma teia discursiva, em movimento conti- tes, a devoção do rosário esteve sempre ligada à vitória nas batalhas nuo. Ao contar cantando, congadeiro alude ao tema primevo, mas que os cristãos moviam aos considerados hereges pela Igreja Católica: dele também se distancia, imprimindo-lhe novas modulações textuais, ritmos e timbres diferenciados. Nesse texto em movimento, 0 narrar, poder da do foi séculos confirmado mais uma vez cantado e dançado, é sempre um ato de constituição e construção pela não menos sobre perto de Lepauto (hoje Naupaktos, norte de Patros Golfo de na simbólicas de identidade coletiva, na medida em que reagrupa Papa Pio V dominicano, criou festa do em sujeitos e os investe de um agenciador. texto da atuali- de noesa querida Senhora da za, assim, em todas as suas versões, fundamento maior do rito ali encenado, a figuração do negro como agente no enredo que tem À Senhora do Rosário associava-se, então, não apenas a vitória por objeto, numa grafologia articulada pela performance da transmis- contra "inimigos" como também libertação dos escravos, proces- são oral e pelo arranjo semiótico e semântico das veias de conheci- sada após Segundo Van der Poel: mento de saber ali tecidas. devoção do foram atribuidas vitórias como a libertação de Viena das tropas em 1683 por imperador dos Romanos, e Narrativa do principe sobre em 1716 perto de Neusatz no perto de Nesta Papa Clemente XI estendeu Candome é quando Nossa Senhora apareceu no Ela tirada com festa do para toda colocando-a no primeiro domingo de outubro. Em Candome, porque não havia caxa que tirasse 1913 Papa para du 7 de Ninguém tinha liberdade, que era tempo da o povo era Então Nossa Senhora apareceu, nas Os rico foi pra ela, com banda de música, ela num quis. Quando padre foi celebrá missa, falano palavra, ela só mexeu um mucadim mas Porque Nossa Senhora num E foro aqueles fazendero com muito luxo, coisa pra pô ela ali dentro, aquele Ela Eles ela parada nas Eles então 9 62 10. Gomes & Pereira, Arturos, Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA 50 UNDAMBA viu tudo, com companhero Candome um desafio, uma brincadeira de gente forte, que põe ponto, lembrano com 0 se o dé nós a liberdade de nós com ele nós pedi ele se ele dexa nós pelejá LA prá Nós falamo que a moça os eles achava que era mentira, descubriro que era Eles foro com banda Geraldo Artur Camilo, congo de Minas patriarca da comunidade Arturos, de música, foi padre, foi ricaço com tudo quanto há dos Arturos (Sr Contagem, apud. Gomes & Pereira, Negras Raizes Mineiras: Os Ah, mas cumé que nós vai pp. 118-121) Ah, tem aquele pau curado, nós põe um pedaço de coro ali no tampo dele nós vão cantano nossa linguage Às vez quem sabe? nós Narrativa 2 fazê nossas oração, levá nossos terço de conta de (Eles fazia terço era de hora que tava descansano tava fazeno). Quando Nossa Senhora apareceu no mar veio muitas entidades pra tirar liberdade ela do E assim foi com seu sinhô né? E conseguiu, e os pretos cativos, eles não tinha Ah, nego, ocês quereno é coro! Pois se nós foi com uma banda de música, mar, fazer nada assim de idéia deles não, eles fazia as coisas tudo às escondidas, primero nós padre, fomo com tudo tão organizado e ela num Agora de sair, que os donos, os senhores recolhia é que eles formava aquele grupinho ocês é que deles depois e que rezar, distrair, tocar viola. Então por alto que eles ficaram E escravo sabendo que no mar, longe daquela região, parecia uma santa dentro do mar, então Não, num poblema. Se dá licença, nós Se consegui, bem. Se eles interessaram ver, confirmar se era verdade, ou se não era, então associaram num consegui um grupo de pretos não tinha instrumento nem nada, eles fizeram 05 Mas nós fizemo igreja, oratore, tudo enfeitado de tudo que nós podia, agora instrumentos deles mesmo, eles mesmo fabricaram instrumentos com toda Não, nós vamo fazê a nossa oração Se nós a graça, muito se simplicidade e foram tentar. Quando eles chegaram à beira-mar, que eles tocaram nós num nós volta pra sanzala e vamo instrumentos deles e cantaram do jeito deles, Nossa Senhora aluiu de onde ela E foi ele disse: chegou pra mais perto, eles ficaram muito entusiasmado, ajoelharam no Cês Se ela num vié, caboco, cês perdeu vez, cês vai entrá é no chão, rezaram reza que eles sabiam, porque ninguém ensinava, eles era criados Eles pegaro seus que era um par de três Chegaro fizero junto com branco, eles não tinha, não tinha direito de lugar nenhum, oratore de sapé, pusero arco de bambu enfeitado pra ela passá e foro bateno os Então eles não tinha direito nem de rezar vontade deles, então eles ficaram naquele cantano, dançano pra deu um passo. Eles a cantá, cantano entusiasmo e vieram embora, conversaram entre si, uns com 0 outro, não vamos demais, ela vino devagarzim, que na otra vez Eles cantano, falar não, porque se nóis contar esse segredo, nós seremos castigado, vamos ficar cantano. caladinho, então, eles, de outra vez ele tornaram formar, deixou passar uns dias, Ah, os branco Quando ela na berada, eles ela. Com as com medo de ser descoberto aquele segredo, eles ficaram com medo, né? E tornaram banda de música, foguete, essas Tudo de novo. Ela quetinha: pegaro ela, a reunir na mesma turma e tornaram fizeram um andor, tudo fora de hora, de fizero uma capelinha, pôs ela Os nego, esses foi ficano pra trás noite, tudo às escondidas, porque se senhor descobrisse eles eram castigados, indo tudo pra sanzala fizeram um andor todo, com toda simplicidade foram pra beirada do e cantaram Quando foi no otro dia, eles abriro a capela, ela? Tinha voltado pro novamente os mesmos hinos, ficaram ali cantando, tocando os Os mesmo instrumentos que eles faziam com as próprias mãos deles era os reco-reco, era os Oh, que Nós foi com banda de música os nego é que ela na instrumentuzinhos marrados na perna que era de tradição, usava era as cabacinha, berada da nós botamo ela no ela dos nego, levamo pra umas cabacinhas, os tambores que elés mesmos faziam de pau, de couro de bicho capela santa num mais de pau, então eles batiam aquilo tudo fora de hora, tudo escondido. Quando eles Voltaro tudo pra a santinha no mei do mar, parada. chegaram com aqueles apetrechos na beirada do no Nossa Senhora veio devagarinho, Os nego a capelinha deles cá no ponto de pobre, de pé no chão, eles colocaram ela em cima do andor e vieram trazendo até caminho; então otros de precata, cantano, ela vei vino, eles seu Tudo no ponto de senhor descobriu, eles faziam novena, eles mesmos, eles, sem participação de pobre ela no de nego, humilde ela eles fizero a igrejinha dela e ela nunca que ninguém estranho e, ultimamente por fim, brancos foram descobrindo e não Então seno tambô sagrado, ele Num tambô ela vei castigaram eles não, porque a fé deles era tanta que não deixou eles sofrer por sentada, igual andó Santana Por isso nós começa Candome assim: causa disso não. Então foi assim que Nossa Senhora apareceu no meio dos tamborete tanto que ela é mais da raça negra que dos branco; 05 branco hoje tem muita estima Com licença, por Nossa Senhora do tem muita veneração, porque ela veio, ela veio de desafia Nossa Senhora parece quem que ele Mas ganha é nego Porque véio. Igual com Por isso nego é que e nós bate brincano, igual branco Portugal pro Brasil, essa doutrina de Portugal, foi de que a irmandade, de Portugal para Brasil, os primeiros que fizeram essa festa negra foi em Portugal, depois que veio pro Brasil, onde ela muito venerada no Brasil, mas a raiz mesmo dos branco, dos branco de Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA MEMORIA 52 Então aceitaram que 05 negro tinha feito cultuou e vamos existe até hoje festa maravilhosa, que nós todos fizemos parte, que muito com Deus, enquanto a gente existir gente tem aquele amor, aquela veneração pelas Vamos coisas do reinado segurando naquele eles conseguiu puxar ela pra fora do mar, forraram (D Leonor Galdino, 80 conga da Irmandade de do Rosdrio do então dos tambor com um pano branco que eles carregava no e ela sentou Entrevista gravada em em cima daquele em cima do tambor Nossa Senhora do Rosário está sentada E ela ficou sendo padroeira de toda a negra, nossa nossa E água indo pra eles vindo pra Por Moçambique dono de porque Narrativa 5 Nossa Senhora do mar e sentou ela nos seus tambor E eles carregaram Antigamente, minha falecida que Deus tenha, contava pra nós estórias de devagarim, devagarim, Ela contava lenda que na época dos escravos aconteceu de Uma Nossa Senhora do Rosário apareceu para escravo, era na época da escravidão vamo vamo Um escravo mandou seu filho à mina que ficava perto do mar, buscar Moçambique não pode Quando 0 menino chegou na mina ele uma luz muito forte no mar. Ele Moçambique não pode olhou, olhou e parou olhar bem. Ele sentiu que moça com uma criança vamo no colo que estava dentro do Ele voltou correndo, chamou pelo pai, e disse na lingua deles que tinha uma senhora no mar, se afogando com criança no Germana 65 de das Mercês da pai dele não acreditou nele e foi verificar. Ele chegando, avistou a senhora no do do gravadas em mar, a coroa dela brilhava demais, parecia uma luz muito Então aquele escravo foi na fazenda do e comunicou não acreditou nele mandou dar chibatada ele pode pode me dar chibatada, mas a Narrativa 4 virgem afogano no 0 então preparou uma romaria só de gente branca pra retirar santa do Quando chegaram e viram santa se afogando Eu ouvi quando contava negos véios, qual eu era criança nessa época, contando sobre a lenda do reinado nóis sobrevivemos no reinado de Nossa Senhora começaram rezar cantar em alta pra Conseguiu tirar ela do mar levar ela pra fazenda, fez um altar e colocou ali a Depois da foram dormir No como a lenda. Assim contava que Nossa Senhora apareceu no mar menino, outro dia ele procurou pela santa 2 santa não Achou que escravo tinha uma criança filha dos nego foi a primeira que a santa, santa viu uma roubado a santa mandou bater nos Quando escravo, chorando, disse coisa muito coisa brilhando em cima da cabeça Ele não sabia distinguir que não era eles, ele voltou mar que santa estava quase se De que que era, porque estava muito longe. Voltou em casa e contou a seus pais que novo levou pro altar ela a Quando viu que ela não queria aceitar eles, tinha visto uma mulher muito bonita sentada na pedra dentro do mar e com uma luz deixou escravo na cabeça. o pai do menino falou pro menino que não admitia que ele contasse Os se e fez forrado com folha de inhame. Eles pegaram mentira, que preto não conta mentira, que ele abrisse boca pra falar a verdade, madeira, cortaram redondo, trançaram com embira de banana, foram no brejo bateu no menino e menino ficou brincando, dai a pouco ele tornou pegaram folha de inhame pra cobrir Primeiro foi guarda de Congo, mesma coisa, no mar. enfeitou-se bem dançar pra ela, mas ela não saiu da água. Ela achou muito Nesse meio de tempo 05 branco viu Nossa Senhora sentada no mar, então velho bonito mas ela não Então escravo mais velho ajuntou todos escravo, juntou os padre assim contado pelos nego essa lenda. novo, preparou uma guarda de Moçambique e foi dançar pra Era E foram prá tirar santa, levaram banda de música, levaram coral, fizeram uma mesma gente, as as mas canto dança era diferente. Quando igrejinha bonita foram de canoa tiraram a santa de dentro do mar, colocou ela olhou dançaram pra ela, no jeito diferente que tem Moçambique de dançar, ela dentro da Quando foi no outro dia que eles voltaram, ela não estava bastão muito pra Eles foram entrando no mar, cantando pra ela, levando estava sentada na mesma pedra; pessoal começou a fazer e juntando perto Eles cantavam pra ela marujos, pro mar, tudo pra ver Nossa Senhora, tirava ela colocava ela na e tomou voltar pro mesmo lugar onde ela menino ver vem tomou outro coro, quando foi na terceira vez que ele falou que tinha visto a mulher com bonita dentro da do mar, pais dele foram até time certa distância viram Vem Maria santa viu multidão de gente que estava fazendo romaria e pelejando pra ver se a Nossa Senhora ficava fora da nego véio pediram seus senhor, que E foi quando chegando, ela segurou foi chegando com eles bastão cantou perto pra dela, ela: assim, e ela segurou no eles eram escravos, se eles podiam la santa na beira do Então senhor deles como, vocês não têm instrumentos, eles disseram se ele Digitalizado com CamScannerMEMORIA 55 dava permissão deles cortar a madeira, pegar a madeira pra fazer pra poder cantar pra Nossa senhor deles desde que vocês essa lenda a lenda do aparecimento da imagem da 2 retirada dela forem no mato não cortarem nenhuma madeira em nenhuma verde pra da No da segunda festa dela, que primeira não foi na fazer os seus instrumentos, pode pode cantar pra visitar a primeira Cambinda, nego da Guiné, tinha todas nações, não tinha Quando feita no tinha do Congo, nego de nego da Costa, eles juntou sete homens, homens uma mulher, eles foram pro mato cortaram nego grupo de pra tirar Nossa Senhora eles fizeram uma cabos no mato, pegaram folha de africana colocou na boca daquele pay ajuntaram guarda de Candombe de Nossa Senhora do Porque que ocado então se diz que preto é cheio de mandinga mas não tem Nossa Senhora do mar junto do Candombe, ficou assim pai nada disso, preto só tem, quando ele uma coisa faz de amor e de coração com de todos os reinados aqui da terra ficou definido entre poro do Congo aquela viva que eles tinha que if pra Nossa Senhora, colocaram aquela de que 0 Candombe que puxaria mas como candombe de naquele pau ocado foi cantar pra Nossa Senhora na beira do mar. instrumento muito de único pessoal que adaptou bater Quando eles chegaram na beira do mar que eles okunda otunda instrumentos um como ou menos semelhança que candombe foi de di akunda akunda di carunga eles seu grupo, formaram grupo seus tambores E começaram a cantar, mulher que tava na frente, ela levou um ramo, um formatam guarda de Moçambique e ficou assim definido entre eles que galho de oliveira começou a balançar pra santa nego cabeça Moçambique puxaria Congo seria de limpando cantando nos dos seus tambor tambor grande, Santana, do caminho, cantando assim que eles canta agudo e canta grave, limpando meio chamava Santaninha pequenino chamava E que tocava os caminhos as proteção que passasse trono das simbolizando outro que tocava chocalho, abaixaram ali começaram cantar, tava coroa de Nossa Senhora do cantando, quando eles levantaram cabeça Nossa senhora tava no meio Nesse meio de tempo branco revoltaram com nego e mandou seus capataz bater (Sr. João Lopes, capitão-Mor da de N 5. do do nos nego, dançando cantando pra Nossa Senhora capataz começou bater Entrevista gravada 12.01.94) neles de As chicotadas que dava no nego, nego não sentia nem um pouquinho de dor, branco que começou a sentir dor fizeram aquele grande Narrativa 5 que se fala confusão, aquele danado, aquela mexida toda. Nossa Senhora do vendo que nego tava de coração puro de memória Apareceu Nossa Senhora no mar Isso era na época da Os portugueses, contrita, fiel a começou a chorar pelo que branco tava fazendo com senhores, donos da foram imagem levaram pra uma capela. No dia Nesse momento que chorou dos seus olhos correram água, essas água seguinte eles foram na imagem não estava mais tinha voltado pro os escravos reuniram num tipo dum batido mais rápido, que hoje é Congo, foram que correram dos seus no chão, dessa água que calu no chão nasceu cantando pra tirar a imagem do mar. que também não outros de capim, desse pé de capim nasceu as frutinhas, dessas frutinhas em diante escravos, com batido das caixas mais compassado, que hoje é Moçambique, nego fez os de Nossa Senhora, seus dos sete E até naqueles cantou pra Nossa Senhora ela acompanhou Por isso que na tradição momento eles usava colar de conta de noz, contas de frutas de palmeira que eles Moçambique é que vem puxando coroa, que dono de coroa. usava nesses colar, dali eles levaram santa pra fazenda onde eles o senhor colocou eles na prisão, na senzala e botou santa separada, falou com eles (Walquiria 25 guarda-coroa da que não podia it visitar a santa de N. 5. do do Entrevista gravada em 06.04.96) Quando foi no outro dia que senhor foi onde é que a santa tava ela não tava mais, ela tinha desaparecido, senhor apertou nego disse que botar eles na roda do chicote, naquela roda de navalha se eles não falasse onde Narrativa 6 que tinha escondida a foi menino disse pro por que não na beira do mar pra ver se a santa não voltou pra Quando ele chegou Um dos negos foi pescar beira do mar. ele viu Nossa Senhora do santa tava dentro de um ranchinho de que os nego tinha feito pra guardar nas águas do Ali ele chamou nego, que foram cantar rezar pra batendo seus instrumentos pra cantar pra Nossa Senhora do A Nossa Senhora foi acompanhando Eles fizeram uma choça coberta de eles pelejaram de toda maneira, ela naquela casa de sapé, que casa de Então 0 chefe deles viu mandou bater neles Nossa Senhora do Rosário Nossa Senhora, por mais bonita que seja a mais de todas as igrejas de eles apanhando começou chorar pingou uma lágrima no nasceu uma flor, nesse meio de tempo que leve aquela confusão toda, Nossa Senhora aquela flor era um pé de Por isso que o terço de Nossa do Rosário, até que resolvia a confusão, sentou no tambor Santana ele ficou Senhora do considerado para congadeiros para todo 0 pessoal que faz reinado, tamborete sagrado aonde ela sentou pela primeira vez no meio dos preto. E desse dia em diante (Ubirajara de Lima Ferreira, 8 anos, dançante de Moçambique Irmandade de N. do Rosário do Entrevista gravada em 07/04/96) nego começou a fazer a segunda festa de Nossa Senhora do Rosário, baseada nos quinze mistério do de Maria Digitalizado com CamScanner56 AFROGRAFIAS DA MEMÓRIA UNDAMBA As variantes da lenda aqui reproduzidas, cotejadas com outras Numa perspectiva que transcende 0 contexto simbólico-religioso, das sões das mais diversas regiões brasileiras, permitem sublinhar nú- ato de deslocamento induz à possibilidade de reversibilidade cleo comum através do qual se processa essa reengenharia de saberes esse do domínio em outros níveis. Cresce, portanto, em significância nações e poderes na estrutura dos Reinados negros. Há, basicamente, nessas posições fato de as narrativas realçarem agrupamento de diferentes tribais. narrações, três elementos que insistem na rede de enunciação e na 0 etnias africanas, sobrepondo-se às divergências e rivalidades formas construção do seu enunciado: a descrição de uma situação de e coletivo superpõe-se, pois, ao particular, como operador de enuncia- repressão vivida pelo negro escravo; a reversão simbólica dessa de e enfrentamento do poder Tanto no situação com a retirada da santa das águas ou da pedra, capitaneada do da narração quanto nos cortejos que cenicamente 0 repre- pelos tambores; instituição de uma hierarquia e de um outro sentam, a superação parcial das diversidades étnica e tribal funda poder, fundados pelo arcabouço ethos e ato coletivo negro como estratégias de força e organização Os dois elementos iniciais instituem primeiro movimento da nar- contra inimigo comum. Conforme nos relembra Moraes, descre- rativa do interior para 0 exterior, que coloca em opo- ver cortejo e séquito de reis negros em 1748: sição brancos opressores e negros oprimidos, escravidão e a luta pela liberdade, olhar branco que coisifica o sujeito negro 0 negro como campo de São Domingos, nas proximidades da capela, opulentava-se Rebolos, de um espetáculo variado estranho em que Moçambiques, Cabundás, Benguelas, agente de sua rehumanização. retirar a santa das águas, imprimindo- Cassanges, Minas, a pluralidade finalmente dos representantes de nações lhe movimento, negro escravo performa um ato de repossessão, in- Congos, escravos no Brasil, exibiam-se autênticos, cada qual com seu diferencial, vertendo, no contexto da hagiologia religiosa, as posições de poder seu tipo próprio, sua estética entre brancos e A linguagem dos tambores, investida de um Homens, mulheres e crianças, em largo regozijo da liberdade de um dia, sagrado, agencia os cantares e dança, que metonimicamente se esqueciam por instantes as palmeiras de sua terra, os fetiches de seu país, aguar- dando a coroação do soberano projetam como icones e na complexa rede de relações invertendo na letra do mito o alfabeto do sagrado, prefigurando uma possível, assim, ler nas entrelinhas da enunciação fabular subversão da ordem e hierarquias escravistas. Esse deslocamento inter- gesto pendular: canta-se a favor da divindade e celebram-se as fere na sintaxe do texto católico, inseminado agora por uma linguagem majestades negras e, simultaneamente, canta-se e dança-se contra autóctone diversa da uma linguagem que se realiza e pulsa arresto da liberdade e contra a opressão. na conjugação do som dos tambores, do canto e da dança, que interagem Desse gesto emerge segundo movimento dramatizado nas narra- na articulação da fala e da de timbres africanos. próprio funda- tivas: o estabelecimento de uma estrutura de poder interna que reor- mento do texto mítico católico é rasurado, nele se introduzindo, como ganiza as relações tribais negras e as posições estratégicas imbricadas. um palimpsesto, as divindades africanas: As guardas de Congo abrem os cortejos e limpam os caminhos, como uma força guerreira de vanguarda. Moçambique, alçado como lider Segundo a orientação da Igreja, 0 mito de Nossa Senhora do Rosário manteria sua enquanto a divindade permanecesse fora do alcance humano dos ritos sagrados e guardião das coroas que representam as nações estatuto se alimentava dessa presença e ausência da fazendo delas o africanas e a Senhora do Rosário, conduz reis e rainhas. timbre de distanciava-se que não deles poderia ser a Santa homens mas em seguida seus tambores representaria, numa relação especular engendrada pela fábula, a voz mais genuinamente africana, a reminiscência da origem Santa numa gruta ou capela. Ao trazer divindade Congo, do Os do negros, mar a dos cantos do Candombe, do Moçambique e do retiraram que, iconicamente, traduziria a memória de Dono das coroas e Isso estatuto do mito esvaziando-o em sua para perto guardião dos mistérios, Moçambique é a força telúrica também que sobre vestigios do culto católico reinaugurasse tensão mundo das guerreira que gerencia continuum africano, reorganizando as rela- a Mie Terra vinda de uma África se ções de poder, nem sempre amistosas, entre os povos negros dispersos & 101-102 12. Moraes, 226 Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA 59 pela Estabelecem-se, portanto, na estrutura paralela de rela- ções espaciais dos Reinados negros, novas hierarquias fundadoras do que correram dos seus olhos cairam no dessa água que calu no o pé de capim, desse pé de nasceu as frutinhas, frutinhas em até micro-sistema social, que operacionalizam as redes de comunicação e nasceu diante nego fez de Nossa Senhora, seus rosário dos sete E as relações de poder entre os próprios negros. Assim, como ressoam naqueles momento usava colar de conta de contas de frutas de palmeira nos cantares, 0 Congo que não mas Moçambique é o "dono de Esse relato nos enuncia dois movimentos substitutivos de naturezas Esse complexo de reelaboração sintática e semântica do mito in- diferenciadas. primeiro diz respeito à substituição dos opelês, abun- terfere, no enunciado do texto cristão, inseminando a dantes na pelas mais comuns em todo o Bra- cosmologia católica de outras referências, na medida em que a senho- sil, o que atesta o processo de imbricação dos sistemas simbólicos afri- do Rosário, por analogias periféricas, pode ter sido associada a canos nos códigos Os opelês se reterritorializam nas contas outras divindades dos panteões africanos, dentre elas Ifá, do sistema brasileiras, adaptando universo simbólico africano no seio mesmo da religioso hagiologia revestindo-a de novas inscrições e sentidos. Nesse processo de substituição, os elementos da terra, as contas-de-lágrimas, A identificação entre Nossa Senhora do Rosário a tradição de religiosidade são dotados e investidos de novos significados, repondo, por analogia e africana não faz pela semelhança entre colar do e as contiguidade, frutos do solo africano, mesmo movimen- contas de com as quais antepassados se comunicavam com os to é encenado na fabricação dos tambores, numa alquimia instrumental particularidade na interpretação do mundo que o negro por semelhanças diferenças um participante da comunidade dos homens Sua herança se significante que adapta conhecimento, barrando, assim, esvazia- da hagiologia católica, modificando-a e modificando-se mento da memória. No artesanato dos tambores, máscaras, bastões e objetos de culto, 0 ato de reminiscência opera como instru- mento que recentra sujeito. E é todo esse complexo sistema vivencial Nesse sentido, as relações metafóricas entre os opelês do que engravida de África as terras americanas, posfaciando no corpo/ e as contas do rosário crescem em ape- corpus coletivo negro os rizomas africanos, realizando, no âmbito da sar de a tradição do Reinado ser fundamentalmente banto: produção de sentido signica, mas não apenas neste, o dito popular: "As contas do meu rosário são balas de adivinhos africanos faziam um com quatro de Por outro lado, choro da Santa, sua atitude piedosa, mais serrados o de compunha-se portanto de oito metades de confortadora que guerreira, nos oferece margem a algumas hipóteses fileira de palha da costa, terminada na extremidade "macho" cocos, indiretamente tecidas pela enunciação das narrativas do resgate da exclusivo do na extremidade por uma franja. "pai do por um imagem. Como testemunha Frei Francisco Van der Poel, em seus primórdios, a devoção à N. S. do Rosário esteve associada, ostensiva- A substituição das sementes de palmeiras (opelês ou opás) pelas mente, a vitórias em batalhas campais, principalmente contra os efeito contas de é dramatizada nas narrativas dos congadeiros Tanto é assim que vitória passa a ser, então, um seu do sofrimento da Santa ao presenciar a tragédia dos negros como substantivado. 0 papa Pio V, no século XVI, refere-se a ela como querida Senhora da Ora, na maior parte das variantes da fábula, no Brasil, o sucesso nas batalhas e a vitória contra o inimigo fiel do a vendo que nego ali, de e são eclipsados pelo alçamento de outras virtudes da santa: compreen- começou pelo coração puro de são e sofrimento pelos negros escravos, preferência por estes em detri- com momento que ela chorou dos olhos que correram branco água, mento dos brancos, atuação indireta, via Princesa Isabel, na revogação da A batalha, antes louvada na via do confronto direto, é Popular de e Machado sobre Negro associação, Garimpo em 14 Comes João Lopes, entrevista realizada em op p. 61. Digitalizado com CamScannerDA MEMORIA UNDAMBA substituida por uma atuação indireta da santa, não mais no plano ria dos negros africanos, quando continua vivo e poderoso nas lem- teneno, mas no espiritual. Nessa via de leitura, as narrativas se reves- branças dos descendentes dos escravos no Ressaltando es- tem de uma e ambivalência duplamente significativas, pírito guerreiro e empreendedor dessa rainha, além de sua sagacida- pois ainda que naquelas a santa abdique de sua natureza de, imponência e beleza, Cascudo acrescenta: negro reelabora, semanticamente, a estrutura do mito e repõe seus sentidos. Nas narrativas há um evidente jogo sígnico entre olhar e ver, A rainha Ginga, Njinga Nbandi, existiu realmente, com imensa projeção para querer e poder, submissão e resistência, passividade e transgressão, determinados povos Foi a última soberana que resistiu ferozmente transparência e ocultamento. Em todas as narrativas sintagmas ver, português no XVII, fazendo e desfazendo alianças, violenta, sagar, impressionante de inteligência majestade poder, resistir, insistir, transgredir, aparentar e lutar são atributos do negro em oposição 20 branco que quer, olha, agride, é vencido. D. Leonor Galdino, rainha conga da Irmandade de N. S. do Rosá- branco olha a imagem, mas negro que a branco quer entronizar no do Jatobá reafirma esse poder paralelo instituído nos Reinados a Santa, mas ela se senta nos tambores negros. negros, resumindo as ressonâncias que a coroa da rainha conga impri- Fazendo-se agente de ações afirmativas que transgridem a ordem me: "A coroa representa poder. Majestade! Autoridade! Com a coroa do sistema escravocrata, negro esvazia, de modo indireto, a na cabeça eu sou a autoridade máxima" superposição do atributo passivo da Santa, reinvestindo-a de seu sen- Moraes, na descrição dos festejos ocorridos em 1748, acentua, em tido primevo, da luta e do combate. No âmbito de sua simbologia, várias passagens, esse poder agregador que soberano negro institula: discurso narrado pela tradição e performado pela transmissão movi- menta o código das aparências, não apenas na transgressão do sistema os negros das fazendas dos jesultas, escravos das casas fidalgas, alcançando simbólico dominante, mas também na inscrição de uma perspectiva por isso consentimento, avultavam aos bandos, no campo de São Domingos, em de mudança nas posições do negro na ordem alegre algazarra, postando-se nas imediações do amplo quadrado, rufos das A fábula nos revela a oposição entre "não" do escravocrata repe- de batidas ao os pandeiros, 05 tambores, as macumbas, os canzás, as marimbas, precedendo a multidão, anunciavam estrugindo entrada triunfal dos lido pelo "sim" do escravo, a insistência do último, tanto no tecido da Congos nos festejos profanos da coroação de um Rei dicção retórica de afirmação étnica, como no agenciamento e na bus- ca de meios para objetivos comuns. Assim, escravos fabricam seus A instituição desse poder paralelo, que ainda hoje atravessa a vida próprios tambores, utilizando-se dos elementos de que dispõem, fo- cotidiana de muitas comunidades negras, contribuía no passado para e troncos, e das contas, no lugar dos Essa instrumentalização a reunião de escravos de diferentes nações e etnias, muitas delas ini- sublinhada nas narrativas dos congadeiros traduz processos de migas seculares em África, nas gigantescas batalhas surdas através das de sistemas simbólicos africanos no Brasil e a quais negros foram muito mais agentes na derrocada do sistema ressemantização dos elementos da religiosidade católica, assim como escravista do que a história oficial nos dá No contexto da a criação de estratégias retóricas e instrumentos de resistência bélica, sociedade escravocrata, que procurava ignorar toda a história das civi- que propiciaram as revoltas dos escravos, a atuação efetiva dos lizações africanas, a apropriação pelos negros dos rituais de celebra- quilombolas, de outras manifestações negras contra sistema ção de seus antigos reis e de sua história própria, fraturada pelas inva- e posições do sujeito negro na sociedade brasileira. A sões européias e pela deportação de seus nativos, possibilitou pro- da própria atual representação da rainha Ginga, de cuja figura deriva a figura cesso de reinvestimento identificatório, necessário na constituição de como rainha conga, atesta essa natureza guerreira dos qualquer sujeito ou cultura. Nei Lopes, ratificando a importância desse reencenando focos de resistência e de reelaboração social congados, aparato celebratório, ecoa Câmara Cascudo, afirmar: arrastou as batalhas que a célebre rainha angolana e religiosa, Nbandi cortejos de contra império português no século Njinga os representação Congos da em várias regiões brasileiras, Descrevendo a 17. Cascudo, op 419 século, rainha Ginga, de norte Cascudo destaca Idem, 19. D. Leonor Galdino, entrevista realizada em considerando "natural que seu nome a sul não do se País, apague no na início memó- do 20. Moraes, Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA MEMÓRIA UNDAMBA 62 Segundo mestre potiguar, embora os sudaneses tivessem constituído Estados gnosis africana, resultado de uma filosofia telúrica que reconhece na da mais alta grandeza haja vista a legenda dos tunka do Antigo Gana, natureza uma certa medida do humano, não de forma mas dos mansa do Antigo Mali, dos askia do Império de Gao, dos de Benin, como expressão de uma complementaridade cósmica necessária, que dos alafin de Oyó, dos oni de para citar apenas exemplos mais conhecidos na quanto no Brasil, é entre Bantos e sua descendência que não elide o sopro divino a matéria, em todas as formas e elementos imagem ostensiva de majestade, severa, imperiosa, Rei coroado, supremo titulo da physis E é como efeito dessa complexa arquitetura de subjugador" (Cascudo, aflora E quando se quer falar em "rei cruzamentos conceituais e performáticos que, africanamente, nas bantas recriadas em fala-se principalmente congadeiro celebra Nossa Senhora do Rosário, iconizada, no Reinado, em Rei do Congo, projeção simbólica dos grande Muene Kongo, 05 Manicongos com como sua maior quem portugueses credenciais diplomáticas presentes, de igual para em primeiras expedições Africa Negra Assim é que um de Moçambiqueiro manifestações da arte afro-brasileira conserva a lembrança das grandezas passadas Na beira do mar no Antigo Congo de seus Saravá Nossa Senhora coroa Um canto da guarda de Congo traduz, minimalística substantiva- Cântico do Moçambique mente, não apenas essa reminiscência, mas o sentido de valor colado a coroa dos reis, símbolo de uma autoridade que descentra, em vários níveis, poder institucional hegemônico: 2.3. Rituais de Linguagem La na de no fundo da horta Nas narrativas aqui transcriadas, nos cantares e em toda a paisa- policia me prende rainha me solta gem textual dos congadeiros, cuja diversidade e variedade não almejo recobrir ou mesmo reduzir, alguns elementos que fundam modos do Congo de enunciação da oralitura da memória se sobressaem, dentre eles: texto da fábula matriz rege, pois, toda a liturgia dos rituais do Reinado, em cuja representação congadeiro vivencia, de modo sin- A vinculação do narrador a um universo narratário que antecede gular, sua Através da representação simbólica, são esta- mas que, simultaneamente, constitui e nele o inclui. A voz da belecidos canais de negociação entre arquivos distintos, afri- narração, articulada no momento evanescente da enunciação, canos e europeus, metonímias de arkhés também diversas. A presentifica narrado os narradores antepassados, mas também dos congadeiros insemina código católico, mas não o exaure ou singulariza o performeratual. Nesse ritual de apropriação execução, esvazia, pois 0 congadeiro, em geral, se reconhece como católico e se a questão da autoria não se coloca e só pode ser abordada de define como devoto de São Benedito, Santa Efigênia, N.S. das Mercês forma secundária. Singular é a performance da fala, pois a fala é e, em particular, de N. S. do Essa devoção à santa católica e, coletiva, legada pelos ancestrais. Da convergência da voz coletivizada, simultaneamente, à tradição ritual e cosmovisão legadas pelos africa- a da tradição, com a particular do narrador, emerge narrado. nos traduz-se numa engenhosa maneira de coreografar certos modos Narrar e cantar são, assim, jogos de improvisação (como no jazz de vivência do sagrado, de apreensão e interpretação do tradicional) sobre motes e temas na série curvilinea e espiralar Na narrativa nos cantares, gestos e danças e em da tradição. A narração é, pois, sempre movediça, ponte entre todas as derivações do cerimonial do Reinado, o congadeiro individual e coletivo, plural e 0 singular. As histórias e cantos não Zämbi, canta a divindade católica com ela, as nanãs das águas africanas, são executados de um único modo pelo narrador, pois ele imprime supremo Deus banto, antepassados e toda a sofisticada uma gestos, movimentos corporais e modulações tonais diferenciados em cada execução. Sua marca indelével de autoria só se exprime pela sua maior ou menor capacidade de estabelecer Identidade 150 esse diálogo entre passado e presente. Por isso vezes se ouve: Digitalizado com CamScanner65 AFROGRAFIAS DA MEMORIA UNDAMBA "Ninguém canta mais como capitão Edson", ou "Só João sabe 0 sereia, tirar esse vínculo do narrador aos elos da tradição é realçado em do fundo do mar Venha cá na areia Esse narrativas. João Lopes assinala: "Eu ouvi quando nós contava Cântico do Moçambique todas as D. Leonor Galdino reitera: entendo tem nego do Reinado é desde que eu me por gente, Essa gunga na beira do mar conhecimento mais ou menos nove anos e já acompanhava os meus avós eu teria Alzira G. Martins assegura: minha Quem Balanceia mora no fundo do mar E sereia no mãe, que Deus a tenha, contava pra nós histórias de Cântico do Moçambique falecida Esse procedimento discursivo assegura, ainda, veracidade do testemunho e delega autoridade narrador. d. recurso a expressões vocativas, geralmente no final da sentença, por b. A repetição de certos sintagmas e expressões idênticos ou análogos meio das quais narrador dirige-se diretamente ao seu ouvinte, reifica o narrado, cria a sua realidade, e modula a enunciação e a incluindo-o no texto narrado, como testemunha do saber pronunciado. D. Maria Ferreira diz em sua fala: "Eu não sou esteio não, esteio é dinâmica do ato de narrar. Na narrativa de João Lopes, ouve-se: 0 menino, uma criança, filho dos nego véio, foi a primeira Nossa Senhora do minha viu e a santa, viu a santa e viu uma coisa uma coisa brilhando Os cantares oferecem uma variedade extensa de recursos que em cima da cabeça Essa reiteração dramatiza também os figurativos e semânticos. Destacarei, apenas, o valor sim- movimentos essenciais do ato narrado, como exemplifica a narração bólico da água, como signo de reminiscência e de evocações da me- de D. Alzira: "E foi chegando, foi chegando com o bastão perto mória do negro, condensadas em cantos que traduzem: dela, assim, e ela segurou no bastão; quando ela segurou no bastão, eles cantou pra ela Na lírica dos cantares essa reificação se a. Reminiscências da travessia e lembranças das terras de expressa na repetição do verso e na própria resposta coral. 0 capitão origem: "tira" tom e canto, cujo refrão apropriado é repetido pela guarda, Envém do mar que deve saber a resposta coral exigida para cada canto. Envém do mar Povo de Nossa Senhora A recorrência de expressões figuradas de forte efeito discursivo, Envém do mar metaforicamente realçam 0 significado da fala ou condensam enigma, de duplo sentido, que desafia ouvinte. Ao se referir ao Cântico do Moçambique mal que a cachaça pode causar congadeiro, João Lopes refere-se Angola à bebida como fulminante que tem pra derrubar Angola Alguns cantares são enigmáticos e da ordem do segredo, Essa gunga vai girá pois seu sentido se esconde em imagens que não se deixam decifrar Essa gunga girá facilmente: mundo 0 corrê mar Eu calcei meu Cântico do Moçambique E senti meu pra morro véio, auê Morro véio quer me Na beira do mar Com fumaça dambiá, auê Senhora do Rosário Eu que viro aué coroa! Cântico do Moçambique Cântico do Moçambique66 AFROGRAFIAS DA MEMORIA 67 Moçambiqueiro É hora de cantos, talvez as mais expressivas aliteração e como ima- É hora de Na sejam tapeçaria as que são figuradas na articulação do repetido modulação É céu gem como a própria estrofe em muitos cantares. Sua condensando, terra anáfora timbre ou traduzem um variado prisma de significados, do É mar Moçambiqueiro e seu melódicos, os múltiplos tons nos percursos saudade, negro: Na beira do mar em lamento, seus a celebração, a alegria, a dor, o encantamento, a Cântico do Moçambique a luta, a resistência e a reminiscência: b. Evocação das divindades, na aflição das dificeis travessias: mi choringomá 0 mi choringomá mi Zum, zum, zum no meio do mar Gunga de mamãe Mi Zum, zum, zum no meio do mar Cântico do Moçambique É canto da sereia Que me faz Parece que ela adivinha 0 que acontecer Ajudai-me, rainha do mar Ajudai-me, rainha do mar Que manda na terra Que manda no mar Ajudai-me, rainha do mar do Congo e do Moçambique C. Alusão perigos inusitados e à dor: a bandeira no mar a bandeira no mar baleia, sereia Eu vou Cântico do Moçambique Chorei, Chorei, Ai eu chorei Pelo balanço do mar Ai eu chorei Pelo balanço do mar Cântico do Moçambique3. REINOS BANTOS EM TERRAS DE Y-ATA-OBÁ viva o rei viva a rainha Viva as três coroas E agora, Maria, mais Desse nosso imperial Virgolino vai ser Congo desse Cântico do Congo José Basil de 1932DA 70 BANTOS KM TERRAS 3.1. Essa Gunga é de Mamãe: da Pantana a Virgolino Da leitura dos códices cartoriais e paroquiais depreende-se que, em meados do século XIX, a região do Jatobá é confluência e divisa das fazendas Pantana, Barreiro, Riacho, Boa Vista, Olaria, zonas de Minha mãe não gosta De de no terreiro cultivo de café, milho, arroz, e de criação de gado. Sua me faz extensão territorial recobriria hoje uma distância aproximada das divi- Meus sas do início do Barreiro ao Bairro do Sol Nascente, do atual Vale do Tempo do cativeiro Jatobá à Lindéia. do Moçambique A região recobre, atualmente, bairros Tirol, Vale do Jatobá, Marilândia, Piratininga e Itaipu. No bairro Itaipu localiza-se a sede da De 1932 a ano em que faleceu, Sr. Virgolino Motta coman- dou Reinado de Nossa Senhora do do Jatobá, região hoje No século XIX e até os anos 60 do século XX, toda essa vasta integrada ao municipio de Belo Todos os anos, no último região era nomeada por um só nome, domingo de agosto, época da festa, centenas de devotos se dirigiam Jatobá, de y-ata-obá, expressão tupi-guarani que designa a árvore para os terrenos do capitão Virgolino, cujo nome sempre estivera as- frutifera "que tem dura a casca ou a sociado ao Reinado. Contam os antigos que, nos tempos d'antanho, os tropeiros e via- No entanto, os festejos de N. S. do Rosário na região do Jatobá jantes que atravessavam as fazendas da região paravam para descansar antecedem à capitania do Mestre Virgolino e suas origens se distanciam e pousar debaixo de uma garbosa árvore de jatobá, nas cercanias da em um passado mais remoto, às tentativas cronológicas futura Colônia do Jatobá, onde hoje se situa a Escola Estadual Cláudio exatas, e só se deixa capturar em raros e preciosos fragmentos que se Brandão, um dos muitos vales nas terras do jatobá. Da seiva da enovelam no paiol da memória dos mais antigos. No relato dos mais se extraía um licor saboroso que os viajantes apreciavam. Por aquela velhos, as lacunas da memória reencenam tempos mitopoéticos do região se multiplicavam troncos dos jatobás, nomeando todo um narrado, numa delicada tessitura por onde Mnemosyne e Lesmosyne, a vasto território e mesmo a fazenda mais tarde ali recortada, a Fazenda lembrança e esquecimento, se deslocam e se espelham, velando e do Jatobá. Em 1893, a região do é citada como limite oeste do antigo desvelando os fios da história. no desalinho da memória que vamos encontrar os registros da Curral Del Rey, distrito origem da atual capital mineira, Belo Horizon- agrafologia que nos informam a longevidade da Irmandade e a proce- dência de seus testemunhos dos parentes e dos moradores mais antigos da região, por volta de 1888 Ele Ao contrário de muitas de pretos que surgem em Minas, faleceu em dezembro de 1995 com aproximadamente 107 segundo essas nos séculos XVIII e XIX, formalmente instituídas com regulamentos e Assistiu ao início dos festejos do Reinado no tendo participado deles, na função de estatutos registrados desde sua fundação, a de Nossa Senho- meirinho, até década de 60. Gravamos entrevista com em e seu testemunho é nossu fonte oral mais em relação da de do Rosário do Jatobá, institui-se sem vínculos formais com os poderes N.S. do Rosário, no pesquisa de fontes primárias, em arquivos museus, religiosos ou seculares, só vindo a ser registrada e formalizada em 1976. nos registros de nascimento, morte inventários de alguns proprietários de da rastreamento de sua história, cujo esboço aqui traçamos, baseia-se região, fundamentais para esboço cartográfico da localidade hoje como onde se localiza a Nesse esforço de rastreamento documentação e fundamentalmente no registro oral de seus membros mais antigos, no contei com extraordinária colaboração do historiador Alexandre Pereira cruzamento de datas de nascimento e falecimento de reis e rainhas, que, seguindo minhas interpretações dos registros orais, ajudou-me localizar nos quando disponíveis, e na minuciosa dos inventários dos proprie- do Museu do Ouro de na Cúria Metropolitana de Belo Horizonte, no Arquivo Público Mineiro, na PLAMBEL em outros centros de documentação das fontes tários das fazendas que, nos séculos XVIII e XIX, ali primárias aqui Souza, Barreiro de da Argila 35. de Minas Gerais, Anno III, is páginas A de identidade do Sr. da Silva registra data de seu nascimento nome indigena e corrompido da expressão tupi to que tem durs em 25.10.1895 Membro mais velho da teria nascido, entretanto, segundo ou superficie), segundo interpreta Theodoro Digitalizado com CamScannerDA MEMORIA BANTOS TERRAS DE fundada em "Media o seu distrito, de a Sul, isto é, do 1. dos bens de Francisca Maria de Jesus casada alto da Serra do Curral Ribeirão da Pampulha, 18 do com 0 Tenente Guarda-Mor Rodrigues da Silva, falecida sem Nascente ao Poente ou seja da fazenda do Freitas alto do testamento em moradora da Fazenda da Boa Vista, freguesia do media 22 Curral Del Rey Nas fazendas que prosperaram na região oeste do Curral Del Rey, dentre elas a Fazenda a Fazenda do Pião, a Fazenda Relação de Escravos Boa Vista, Fazenda do Riacho, a Fazenda a maior de todas, a Fazenda da Pantana, escravos benguelas, Nacionalidade Idade Valor angolas, cabindas, congos e os cabedais Custódio angola anos 20.000 dos e plantavam a riqueza dos Como em toda extensão das Américas escravistas, escravos resistiam, de angola 70 anos Domingos modos diversos, desterro, ao trabalho forçado, à chibata e à vio- Manoel angola 40 anos 30.000 enfim, do sistema Histórias de violência e angola 20 40.000 agressividade por parte dos "senhores" eram muitas aleijado de pé de Ainda hoje circulam na boca do povo, como de Matias, um escravo Ventura angola 60 formigueiro na velho, com mais de sessenta anos, pertencente ao dono da Fazen- na garganta. da Barreiro, o Major Cândido Apesar de naquele ano de anos com um queima no angola todo enxado 1878 a vigorar a Lei dos Sexagenários, que obrigava a libertação dos escravos maiores de sessenta anos, major Brochado não só angola 47 50.000 a lei como ainda vendeu Matias fugiu, mas Paulo angola anos voltou para vingar-se: Francisco angola 52 anos 30.000 Vicente angola 70 anos 25.000 As escravas mantinham escondido matas próximas, alimentando-o sobre todos do Major, até que, sabendo de sua viagem uma angola 56 unos chamada Freitas Choje caminho de aguardou no João angola 40 anos alto sobre vitima, desferiu-lhe golpes de José angola 40 consumando vingança. tempo depois foi encontrado morto na prisão Isso em der anos antes da abolição da benguela 80 Como velho Matias, muitos outros escravos Isabel angola 52 anos muitas as terras e muitos escravos, em sua maioria de ascendência banto, advindos do antigo império do Congo, de Angola São listados, ainda, "3 escravos crioulos, uma mulata e dois e Os inventários arquivados no Museu do Ouro de Sabará atestam essa procedência, arrolando nome do escravo, de, idade seu valor monetário, expresso em réis: 5. designação dada ao escravo nascido no Arquivo do Bello 7. Histórica pp. 167-168. Museu do Ouro de Casa Borba IPHAN Fundo do Segundo Oficio CSO Doravante, nas notas desse arquivo, apenas último Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA 74 REINOS BANTOS EM TERRAS DE 75 2. 1800. Inventário de Antônio José Gomes, falecido aos 29/12/ congo 30 anos 190.000 1800. Fazenda Capela Nova do Betim, freguesia do Curral Del Rey. Manoel angola 120.000 Francisco congo 25 anos 200.000 Relação de Escravos Fidelis crioulo 20 anos 180.000 Nacionalidade Idade Valor em Réis Nome Francisco 50.000 angola 60 anos 40.000 Lourenço João congo 22 anos 180.000 Casador benguela 40 Josefa cabinda 18 anos 130.000 (Capador) conga 16 anos 180.000 Damilo angola 35 anos 150.000 angola 25 anos 160.000 Feliz E, ainda, 1 escravo pardo, 4 crioulos, sendo 1 de 6 meses, "avalia- angola 25 anos 160.000 do" em 30.000 réis, e um de 1 ano, "avaliado" em 96.000 angola 50 anos 100.000 4. 1833. Inventário do alferes Antônio José de Freitas, casado com Pedro angola 40 anos 110.000 D. Pulquéria Pereira de Freitas, falecido sem testamento, em 17 de ju- Jouquim angola 20 anos lbo de Joana angola 36 100.000 Relação de Escravos Ana benguela 25 anos 130.000 Francisca benguela 8 anos 130.000 Nome Nacionalidade Idade Valor cabinda 36 anos 180.000 E, ainda, 2 crioulos, Nataria e Geraldo, de 10 e 2 anos, respectiva- Silvéria 28 anos 420.000 Francisco angola cego Maria angola 40 anos 100.000 3. 1820. Inventário de Dona Maria Joaquina de Avelar, falecida em Francisca benguela 25 anos 350,000 23/01/1820. Fazenda do Riacho, distrito de Contagem, freguesia do Curral Del Rey. Mateus moçambique 26 anos 550.000 Antônio congo 25 anos 540.000 Relação de Escravos Joaquim monjolo 26 anos 550.000 Nome Nacionalidade Idade Valor em Miguel congo 28 anos 540.000 Antônio 16 anos 180.000 Rafael moçambique 24 anos 560.000 cabinda 10 anos 165.000 Manoel cabinda 24 anos 525.000 Lourenço cabinda 9 anos 160.000 Paulo congo 24 anos 220.000 Manoel congo 95.000 Bernardo cabinda 26 anos (aleijado) cabinda 9 anos 140.000 Joaquim benguela 40 anos 400.000 Pedro Grande congo 30 anos 190.000 Mateus congo 550.000 Pedro Pequeno congo 18 anos 200.000 6. CSO 7. CSO (19)62 Digitalizado com CamScannerAPROGRAFIAS DA MEMÓRIA BANTOS EMTERRAS DE José Antônio moçambique 24 anos 250.000 moleque 60 anos 400.000 30 anos 550.000 Romualdo crioulo 58 anos Geraldo angola Cassimiro africano cabinda 220.000 36 anos vendido José Francisco moleque anos 350.000 Miguel monjolo 25 anos 550.000 Miguel baçungis 60 anos 400.000 E, ainda, 30 escravos crioulos, mestiça, 1 parda e 6 sem denomi- Quintino crioulo 12 anos nação de Jacinto 10 anos 1:500.000 crioulo 10 anos 5. 1840. Inventário de João Ferreira da Silva, casado com D. Joaquim 8 anos Joaquina do Nascimento. do Onça, ao pé do (caseiro) Fortunato crioulo 36 anos Relação de Escravos Bias pardo 10 anos Nacionalidade Idade Valor Réis João de Deus 9 800.000 Pedro congo 34 anos 500.000 Joaquim crioulo anos José benguela 32 anos 100.000 Domingos crioulo 6 João congo 30 anos 550.000 pardo 24 anos Joaquim congo 29 anos 550.000 pardo 25 2:000.000 congo 40 anos 180.000 André africano 20 anos Mariana angola 40 anos 380.000 José moleque 28 anos pardo 26 anos E, ainda, 3 escravos Felipe crioulo 18 anos africano 46 anos 6. 1861. Inventário de D. Pulquéria Pereira de Freitas, Fazenda da Ana Mugunda crioula 50 anos 700.000 Maria Vitória crioula 30 anos Relação dos Escravos crioula 10 anos Nome Nacionalidade Idade Valor em Réis crioula 46 anos Albinei africano 30 anos pardo 3 anos João crioulo 20 anos crioula 25 anos Joaquim mina 25 anos (aleijado) parda 35 anos Zacarias mina 20 anos Angélica crioula 17 anos Samuel africano 35 anos 1:300.000 Ana Rita parda 2 anos Box Ventura africano 25 anos Maria benguela 30 anos crioula 13 anos Eva 14 crioula 8. CSO 9. CSO Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA 78 crioulo 14 anos rança, após o falecimento do Com efeito, a menção mais antiga crioula 60 300.000 Gertrudes à Fazenda aparece em 1855, quando todos os proprietários da crioula 40 anos Província de Minas Gerais são obrigados a registrar suas cumprin- crioula 34 anos do disposto na Lei 601, sancionada a 18 de setembro de 1850 e regu- Lauriana lamentada pelo decreto 1318 de 30 de junho de 1854. Nesses regis- tros, a Fazenda aparece como divisa das fazendas Barreiro (de Segundo a tradição oral, era nas terras da Pantana, uma das da Costa Pacheco), Olaria (de João Damasceno) e Pantana (de res e mais ricas fazendas da província, que se iniciaram festejos de Pulquéria Pereira de D. Clara Maria da Conceição declara-se em Congado e de Reinado da região. Donos da fazenda, alferes Antônio 03/08/1855 proprietária da Fazenda nos termos José de Freitas e a célebre Pulquéria Pereira de Freitas, a madrinha da Pantana, ambos pardos e pais de dez filhos, Jacintho, Manuel, Anastácio, Dona Clara Maria da Conceição em observância ao disposto no artigo noventa Antônio, Hilário, Carlota, Joaquina, Eulália, Maria e hum Ley de Registros terras declara que possue nesta do Curral Del Rey arrolamento dos bens patrimoniais do Alferes Antônio José de huma de Cultura denominada cujas terras dividem com as do Damazo da Costa Pacheco, João Damasceno, do capitão José Maria de Oliveira e da Freitas revela a vastidão de seus domínios e a extensão da herança de Fazenda do Pantana qual Fazenda levará duzentos e quarenta alqueires de D. Pulquéria. Dentre as muitas terras do alferes, arrolavam-se: entre cultura e Curral de El dous de Agosto de Mil Cinquenta e sinco. A rogo da sobredita, Damazo da Costa He que continha na dita Terras da Olaria do alto da Maravilha e extremo do Onça e Pintado que cédula que aqui C. Rey, 3 de Agosto de levarão a 150 alqueires Trinta alqueires de campos nas extremas da Onça Maravilhas, Olaria Os campos que estão no Capão do Bálsamo até a estrada do Os registros de D. Pulquéria, relativos Pantana, corroboram a sertão até alto da Serra Terras da Fazenda que pela estrada que segue para existência, em meados do século, da Fazenda Jatobá: Contagem até a estrada que segue para Contagem até a estrada do sertão até os capões do Mato Grosso, Barreiro Bálsamos, Capão dos Porcos, do Urubu até Declaração que fazem em cumprimento da Lei, D. Pulquéria Pereira Freitas, com estrada do Sertão Terras da Fazenda a extrema da Maravilha até a Olaria canal filhos, Genros da Fazenda pelo bocaina acima até as extremas do Riacho, estrada do Sertão, as estradas Os abaixo assinados declarão que possuem nesta paróquia, Fazenda Pantana que desce para Fazenda Os campos pela estrada que vai para Contagem até a estrada do Sertão e por esta até extremo do Riacho Capão dos Porcos que compõem de Matos, Capoeiras, Campos, leva novecentos alqueires de planta de milho, qual divide pelo nascente com a Fazenda pelo sul com Serra de Capão dos Bálsamos Capão dos Barreiros 0 campo entre o Capão do Urubo e dos Porcos Dois capões abaixo do Capão dos Barreiros José pelo poente com as Fazendas Mato Grosso, e Maravilha, Onça, pelo norte com as Boa Vista, Pintado Pantana, 5 de de Por mim a rogo de D. Pulquéria Pereira de Freitas José Cândido Dias Manoel José de Muitas outras terras e bens imóveis são arrolados no inventário, Hilário José de Joaquim Francisco Joaquina do como, por exemplo, "uma morada de casas no arraial de Antônio José de E nada mais continha a dita declaração me foi apresentada A análise dos limites dessa sesmaria nos revela que Alferes detinha de Março de um território que, de leste a oeste, iria hoje da região alta do Barreiro (chegando a Nova Lima) aos limites de Betim (antiga Capela Nova) e, No inventário de D. Pulquéria arrola-se, também, "Hum dito de norte a sul, das fronteiras do Riacho aos confins de Ibirité (ex- treito do Capão do Jatobá seguindo a estrada para esta fazenda, por Vargem da Pantana) e um outro lado até 0 vale do alto da mesma Nesse vasto domínio, os registros ainda não mencionam a Fazenda Jatobá, possivelmente desmembrada dessas terras, como dote ou he- Arquivo Público Livro de Registros Folha 6 Arquivo Público Mineiro. Centro de Documentação Livro de Registros Arquivo Histórico do Museu do de Casa Borba Gato. AHMOS CBO Paróquia de São Gonçalo de Contagem, 1855-1856, registro folha Fundo Cartório do Primeiro Oficio de Notas, Arquivo A, Maço 25, Caixa 25. 5, e registro 21, folha 6. CSO 15. Arquivo Histórico do Museu do Ouro de Casa Borba AHMOS CSO (64)14 Fundo Cartório do Primeiro de Notas, Arquivo A, Maço 25, Caixa Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS DA MEMÓRIA BANTOS Morto Alferes em 1833, D. Pulquéria toma-se uma das mais ricas to: Maria Alves Firmo da Costa, Francisco Firmo de Matos, Bárbara proprietárias de terras e cabedais de Minas, conforme comprova inventário de seus bens, realizado em A da Augusto de Matos, Maria Francisca, Ana Cândido de Matos e Rita Cân- dido de Na partilha dos bens, então esposo, Antônio Ferreira chegara a possuir, além da Fazenda da Pantana, com 900 alqueires, a Prado, avoca a si direito de herdar, além de parte dos imóveis no Fazenda Mato Grosso, de 200 Era ainda proprietária das Riacho, outra metade dos mesmos bens, 0 cafezal do terras onde hoje se localiza a Mina de Morro Velho, em Nova Lima, Em 1909 uma parte da antiga fazenda do Jatobá é adquirida pelo arrendadas ou vendidas aos ingleses. falecer, em 1860, D. Estado para instalação da Colônia do Jatobá, na Grande, foi enterrada na Capela Mor da Igreja Matriz de Contagem, local privi- onde se instalam colonos europeus (franceses, italianos e alemães). legiado geralmente só ocupado pelos prelados da Igreja pelas figu- No alto do Jatobá, fragmentação territorial avançava. ras mais importantes da época: Em 1919, as terras do Jatobá são atravessadas pelos trilhos do trem de ferro. Vindo do Funil, passando pela antiga Várzea da Pantana, a trinta dias do mês de Septembro de mill sessenta annos falecendo Maria Fumaça embarca e desembarca passageiros na pequena Estação com todos sacramentos Dona Pulquéria Pereira de Freitas, parda, viúva de setenta annos, foi solenemnente accompanhada, e sepultada na Capella do refazendo no seu o percurso e as travessias do Mor desta Matriz da Reinado: De fins do XIX ao do séc. XX, com a morte dos antigos Aproximando-se, deixando Sarzedo, trem cortava córregos de Peroba proprietários a subseqüente partilha venda dos seus bens, toda a Cachoeira Alta, no 602,860 atravessava a ponte do Engenho Seco sobre região fragmentou-se e os grandes pouco a pouco desapa- Onça km 606,571 nome do córrego atravessado pela linha pau, toro, tronco, grande, verdadeiro) está situado na receram. sede do distrito do mesmo nome, outrora Vargem do trem vem, passa sob Em 1899, parte expressiva da região do é arrolada como uma ponte que liga abas de pequeno corte e atravessa adiante Rola- propriedade de Dona Francisca Silveira da Costa, que, após sua morte, Moça pela ponte das Parcas Arqueja vencendo a rampa exaustiva do divisor das tem seus bens inventariados por um de seus filhos, Francisco Firmo do Paraopeba do no das Velhas atinge aquele divisor na garganta do de Nesse inventário, são listadas as propriedades de D. Francisca Novato, onde transposto túnel do Seiscentos metros depois, a estação. nessa Nessa época, o pertencia ainda Vargem da Pantana, que mil duzentos noventa e dois ares de terras de cultivo no Jatobá, dentro das avaliadas a cento sessenta e quatro réis cada hum are todos eles por dispor desde 1919 integrava Município de São Gonçalo de Contagem. Nes- hum conto e trinta hum mil oitenta oito réis se ano povoado do Jatobá contava com "58 habitações e 334 habi- Dois mil quatrocentos vinte ares de campos no mesmo lugar, avaliados Em 1938 a Vargem e seus povoados (Onça, e Maravi- cinquenta dois réis todos por cento cinco mil oitocentos quarenta lha) passam a integrar de Betim, antiga Ca- réis pela Em 1962, a Vargem da Pantana conquista autonomia como Uma chácara de café no mesmo lugar, avaliada por quinhentos mil réis município sob a designação, já popular desde início do século, de Casada em segundas núpcias com Antônio Ferreira Prado, D. Francisca deixou, no entanto, filhos e herdeiros do primeiro casamen- Na década de 20, quem de Belo Horizonte para Ibirité (ex- Vargem da Pantana) deparava-se, depois do do Jatobá, à sua direita, com uma bela casa, localizada em terras onde outrora floresce- a Fazenda Os campos ainda eram vastos e por eles pastavam de de São Gonçalo de folha 17. Metropolitana de Centro de Documentação Informação 400 folhas 34 Observe-se que 100 equivalem hectare um are do Museu do Ouro de Cartório do Primeiro Oficio de 20. Souza, op 35. 21. Fonseca, Contagem Perante a História, pp. Digitalizado com CamScannerDA REINOS búfalos, Novato, apelido de Francisco Salles Barbosa, casado com importados da do de propriedade passado mais remoto, todas aquelas terras fizeram parte da sesmaria de Chico Maria de Ele, alto, ela, pre- do Alferes Antônio José de Além disso, Reinado que Virgolino da lendária Madrinha da Pantana, D. Pulquéria Pereira de Motta liderava viera de Ibirité, a ex-Vargem da Pantana, tendo sido bisneta D. Eulália era filha do Sr. João Ferreira de Araújo e de iniciado na Fazenda da Pantana, comandada com punhos de ferro Freitas Maria de Esta última era, possivelmente, a filha pela tataravó do Sr. Vandi, memorável senhora parda, filha de escra- Pulquéria de D. Eulália Joaquina do Nascimento, que, por sua vos, D. Pulquéria Pereira de Freitas. segundo rei congo do Reinado era mais filha jovem de Pulquéria Pereira de Freitas e do Alferes Antônio José de do José Basil de Freitas, era, também, parente afastado dos senhores da No Jatobá, as linhagens de parentesco e de tradi- terreno dos Barbosa atravessava a ferrovia e chegava atual ção se misturam e se confundem, ecoando canto do Congado: 0 do Em 1929 falece D. Eulália em 1930, Chico Vale de suas terras é herdada por um dos filhos, Vanderlei Salles Essa gunga de papai Essa gunga de mamãe Barbosa, Parte casado com D. Juvercina Realina de Sítio ou Essa gunga é de vovó Sitio do Vandi, ficava à esquerda da estrada que vinha de Belo Quando chega no e era uma das últimas reminiscências da antiga Fazenda Essa gunga é uma só Nos zonte, anos foi desapropriado pelo Estado para a edificação Na sede da Fazenda da Pantana havia uma pequena Era do recente Distrito Industrial do Jatobá. Região fronteiriça entre três municípios, Contagem, Ibirité e Belo ali que, possivelmente, os escravos, desde muito longe, celebravam Reinado do Os batuques, catumbis, candombes seriam Horizonte, os limites do Jatobá guardam ainda as consequências dessa confluência. Alguns bairros da região pertencem a Ibirité, outros a performados nas senzalas, ou nas sombras das matas, reminiscências reatualizadas de suas terras de origem e de seus ritos e Por Contagem e a Belo Horizonte. 0 atual bairro Itaipu, onde se localiza todas as Minas, os reinos negros eram uma tradição de raiz e não havia hoje a nova Capela do e a sede da Irmandade, já pagou tribu- embargo que abafasse a dos congos nesses grotões tos a Betim, Contagem e Ibirité, confinando-se, posteriormente, Na época da festa do Rosário, celebrada possivelmente em outu- de Belo Antes de tornar-se já fora Grota bro, negros forros e seus descendentes deviam se deslocar para a do Jacaré, Vila Jardim Barreiro e Piratininga. Vargem da Pantana para celebrar Undamba Berê Berê, a Senhora das Até fins dos anos 70, à direita do do Vandi, em linha paralela à Águas, a Virgem do Rosário. Também em Capela Nova de Betim e em estrada que vinha de Belo Horizonte, hoje Av. Júlio César de Mesquita, São Gonçalo de Contagem assim se uma outra gleba se destacava: sítio de Virgolino Motta, capitão da Nos primeiros anos do século XX, a Vargem da Pantana já se Irmandade de Nossa Senhora do A propriedade fora adquirida autonomeava Ibirité e 0 povo do pequeno arraial do Jatobá para lá se aos poucos, de seus ex-proprietários, os Severiano, Rocha, Esses dois sitios, o do Vandi e de Virgolino, mantiveram por décadas uma vizinhança histórica e de laços emblemáticos, pois, no 20) A dos registros de batismo da época, dos livros de óbitos e dos inventários da parece comprovar que Maria de Freitas é uma das filhas de Joaquina do Nascimento João Ferreira da Silva, conforme inventário deste último, 22. Cúria Metropolitana de Belo Centro de Documentação Informação falecido em 1840 (CSO Joaquina do Nascimento, por sua é filha do Livro de Batismos, de São Gonçalo de Contagem, 1854-1871, folha Alferes Antônio José de Freitas e de Pulquéria Pereira de Freitas, o que se comprova nos $ inventários encontrados no Arquivo do Museu do Ouro de CSO (64)14 23. Batizada em 5 de outubro de 1866 pelo Francisco de Paula e Silva (Livro de 24 Esta informação é atestada pelos Livros de Batismo do Século XIX, relativos Batismo da Paróquia de Gonçalo de Contagem, de 1854 1871, folha Eulália Maria Paróquia de São Gonçalo de Contagem, arquivados na Metropolitana de Belo de é filha de Pulquéria Maria de Freitas João Ferreira de Em 25 de julho de Horizonte, que mencionam os coletivos realizados capela da casada com Francisco de Salles Barbosa, batiza sua filha nascida em de A partir de meados do século XIX, a Católica, por meio de éditos papais, julho de 1884, que por padrinhos os avós (Livro de Batismos da Paróquia de tenta, sem sucesso, proibir as cerimônias de coração dos reis negros a realização dos São Gonçalo de de 11 de de 1882 a 4 de fev. de 1889, livro registro festejos, considerados, então, profanos. Digitalizado com CamScannerDA dissidência dentre eles com Malaquinhas Congado do de Reino Raivoso, Malaquinhas, um grande lider, "africano da convoca que, após de sua era do realizado em então a nação do Congo e parte Reinado Um outro reino, do no contava Segundo testemunho Ibirité Na origem com a participação efetiva do povo oral, a cisão com um mas se funda e uma nova genealogia de reis e ergue sua corte nos capões de Nunca mais, desde esse ato divisor, os queno arraial. nos do século fruto de desentendimentos reinos negros de Ibirité e de serão um só, ainda que por muitos e muitos anos se acontecido entre do dos Santos, e de membro da Irmandade de Nossa Sr. desde sua fundação, ser em 1993 que capitão fez foi pra fora bater o pito na boca chamar o pessoal pessoal Ele partiu povo al nóis viemo Reinado nhora do do Jatobá tinha mais de cem anos, depois desse belo partiu tudo que tinha na Desceu rei, E também arrumou rainha, e fez Mais mocado de um mocado quem em de cem Sei Essa festa foi começada de for E mestre fundador do Reino em Jatobá, Malaquinhas do sociedade com Malaquinho um Esse Malaquinho foi um nego daqueles da Formigueiro, era um homem velho quando "partiu Era baixo, Malaquinho, foi eu Conhect muito pouco, mas magro e tinha rosto todo coberto por cicatrizes, de chicotadas recebidas no tempo da escravidão: "A cara dele era tudo sociedade com Ibirité implicava a permuta dos reis pois A dava um ensaio, botava um rei de Ibirité e uma marcada, como quem apanhou muito. Ele tinha as marcas igual foi de pancada, né? A cara toda vesgada, toda cheia de muchibas com rainha ele daqui do trocava, botava uma rainha de la e um nanz pemalonga não aparecia muita coisa não, daqui. Todo ano era Se vinha da região do Jatobá, é provável que fosse nascido em Malaquinhas do Formigueiro, segundo nosso narrador, era muito uma das fazendas da Sr. Joaquim Ferreira, pai de D. Maria Durante uma cerimônia em Ibirité, na casa de Jorge implicante. Guardachave, esposo da rainha, surgiu uma discussão. Malaquinhas Ferreira e do Sr. José dos Anjos Ferreira, fora capataz na Fazenda Pião, tomat a coroa da rainha e foi impedido pelo Sr. Jorge 0 Sr dos Ali, segundo 0 atual rei congo, Sr. José dos Anjos Filho, seu pai José dos Anjos Ferreira aprendeu a falar em Sebastião, queria rapaz na época, estava com a turma do Jatobá e com negros ex-escravos que trabalhavam nas roças e lavouras da re- pou do gião, sendo um dos seus mestres 0 arisco Após a cisão com Ibirité, Malaquinhas constitui, pois, novo Rei- empregado nesse antão nóis pra E esse Malaquinho implicado, Muito implicado, porque ele gostava de tirar umas cantigas no no coroando, como Reis Congos José Laureano, antigo daqueles muito cardume véio e implicavam com ele e vinha até uma Teve morador da região e D. Dodora, que vivia no Capoeirão, atual bairro belo que marcaram um ensaio pra casa de um tal de Jorge Guardachave você um falar E então disse que eles tinha combinado de tomar a coroa de tomar lugar dele. Malaquinho não sei não, 0 que eu sei é que um outro outro fala, formaram uma brigaiada que a coisa tava feia da Silva, moradora de como rainha conga do Até sua morte, Maria em 29. Em 1950, laços de novo se estreitam, com coroação de D. Niquinha, ela portou as coroas dos reinos de e de querendo no Malaquinho e dar no Porque Jorge Guardachave Sr. dos Santos, entrevista realizada em 07.11.93 disse que tinha ido coroa da mulher dele e ele não entregava e mulher 31 dele é que rainha, ele não entregava e aquela bosoca 32 D. Maria Ferreira, entrevista realizada em Sr. José dos Anjos Filho, entrevista realizada em Nos livros de batismos do relativos Paróquia de São Gonçalo de arquivados no Centro de Documentação e Informação, da Metropolitana de Belo Sebastião dos Santos, entrevista realizada em três registros de batizado de crianças nomeadas Malaquias, filhos de escravos e nascidos na segunda metade do XIX, em fazendas da dentre a Fazenda Pião, dos 27. Foi-me, no entanto, confirmar hipótese, que considero muito 28 de ser uma dessas crianças célebre Malaquinhas do fundador do Reino negro do Digitalizado com CamScannerAFROGRAFIAS Segundo todos testemunhos recolhidos, foi esse par de reis congos do Jatobá, inaugurando os festejos do José Em 1932 Virgolino Motta assumiu a capitania maior do Reinado do Basil de Freitas, avô da atual rainha conga D. Leonor Pereira Jatobá, como desfecho de outra grande crise no Reino. com um dos mais tradicionais habitantes daquela região, parente afastado Virgolino um novo ciclo dos reinos bantos em terras de Sob de D. Pulquéria Pereira de Freitas, participava ativamente dos festejos, seu comando e hegemonia Reino cresce, ganha majestade e ascen- dência em Em com a contribuição dos moradores do ocupando o cargo de general, ordenança do rei congo. Em Sr. José Laureano, muito avançado na idade, passa a lugar, ergue-se a Capela do em sua propriedade, inaugurada com pompas em 1950. Sob a batuta de Virgolino Motta têm início os coroa de rei para o Sr. José Basil de Freitas que, assumir esse cargo, tempos históricos do Reino negro, do com registro datado de consolida sua liderança hegemonia. Ao lado de José lendários reis, rainhas e que marcaram época, a formação de Basil reinou por 36 Poucas têm de Malaquinhas, após fundação do Reino em uma corte hierarquicamente bem organizada, podendo-se, com segu- rança maior, desfiar a cronologia dos mestres que fundamentaram as Sabe-se apenas que teve um fim Variou a cabeça e tradições, negros sacerdotes do Rosário, os sábios anganga pelos Morreu sozinho, varado de chuva, tocando seu tambor Eu me ele ficou meio doido. Eles acharam ele morto. Ele sala com uma 3.2. Anganga caixa, batendo pros matos, pros batendo então ele desceu pro aquele ele desceu pra batendo essa caixa e quando foi de deu uma chuva de pedra, uma chuva braba 3.2.1. Capitão Virgolino, mestre do Reinado chuva ele buraco Eles acharam ele Com a morte de Malaquinhas, mestre fundador, José Basil de Freitas Chora gunga di Okunda di passa chefiar Reinado. "Mandava em tudo", conta o Sr. Meu povo de Moçambique Desses tempos não há registros escritos e é a memória dos mais velhos No gunga agora quero ve que retece a oralitura do ciclo protohistórico. Até fins da segunda década do século não havia nenhuma do Moçambique capela naquelas redondezas. Muitas crianças nascidas na região eram, eventualmente, batizadas em bloco, na casa do Sr. Antônio Ferreira, e Os ouvidos mais atentos contam que ainda hoje, quando se apro- outras nem batizadas Em 1917 é construída uma capela, no ximam as vésperas da festa do Reinado do Jatobá, pode-se ouvir o alto da Boa Vista, em terras da antiga Fazenda Boa Vista, atual Lindéia, das caixas dos antigos, rufando no local onde ficava a primei- onde, por muitas décadas, os habitantes do Jatobá iam rezar novenas capelinha do Rosário, inaugurada em 1950 e demolida em 1985. Os e celebrar mês de Em 1919, o Sr. Francisco Salles Barbosa, antigos, e mesmo os mais novos, ouvem, e alguns até vêem, os velhos Chico Novato, construiu em sua propriedade, a Capela de Santo Antô- reis, rainhas, celebrando seus ritos, chamando para Reina- nio, cumprindo uma promessa. As relações do Congado com clero do que vai recomeçar. No domingo do mês de agosto, que eram conturbadas e a Igreja Católica não permitia que os congadeiros antecede em uma semana o domingo da festa maior, o Mastro do celebrassem suas cerimônias no templo. Os festejos eram, assim, reali- Aviso é levantado, às 18:00 A bandeira é buscada pelo cortejo zados nas casas dos reis e e, esporadicamente, redor do solene, na casa do rei congo. mastro anuncia a festa que vai come- dali a sete dias, conclamando os vivos e os antepassados para o ato cruzeiro, no adro das capelas. sagrado e para festejos daquele ano. E hora de levantar bandeira, de reunir as energias positivas aos pés do cruzeiro, de alumiar no de Sr. dos entrevista realizada em 07.11.93 Livro de Paróquia de Gonçalo de Contagem, 1904 1911. levantamento dos mastros é um ato litúrgico que galvaniza as 50 52. Metropolitana de Belo Centro de Documentação Informação forças dos vivos, dos mortos, de seus descendentes, firman- Digitalizado com CamScannerDA MEMORIA BEINOS BANTOS TERRAS DE 89 para bom andamento dos festejos. Segundo D. Maria ladeira é ingreme. Fecha-se um ciclo da festa, em Ibirité, terra de do o terreiro "o mastro dá sinal, se vai haver alguma coisa errada naquele onde veio Congado do Jatobá, terra de antigos a velha Ferreira, mastro treme tomba de lado, ele deixa a aba dele cair no ano o mastro treme, se gente põe a mão no mastro a gente sente Pantana. Muitos capitães e mestres famosos, de várias regiões minei- chão mastro o tremer. mastro tem muitos significados, o mastro dá vida e ras, estão presentes, acompanhando as guardas e ladeando esquife. Mas é João Lopes, então segundo capitão de Moçambique, que ordena tira 0 vida do Congado às caixas que batam toque serra-abaixo e que tira canto que vai Os também a eles se dirige, no continuum de uma celebração antepassados presentificam-se e são evocados, pela levar pai: no ato remonta que a tempos 0 conhecimento e saber vêm papal que desses antepassados, ancestrais cuja energia revitaliza presente. Os Sua mãe te chamando mais antigos lembram e rezam em silêncio por essas presenças, numa Sua mãe tá chamando galeria de mestres, sacerdotes do rosário, anganga muquiches como capitão Virgolino, capitão Edson Tomaz dos Santos, capitão Na pulsação lenta, densa e grave do serra-abaixo, a gunga chora, Claudionor, Zé Basil, capitão Franquelino, capitão João Marciano, ca- chora ingoma e toma a chorar. Solenes, lacrimosos, caixas, gungas, pitão Belmiro, capitão Juvenal, capitão Dimas, reis e rainhas também patangomes, reco-recos e coro de todas as vozes ressoam ladeira já falecidos como Chico Lopes, D. Niquinha, D. Cininha. acima, devagar, como é de feitio do Moçambique, sempre devagar. De 1932 a quando faleceu, Sr. Virgolino Motta, mestre maior Mais tarde, já próximo à sepultura, filho-capitão, tomado pela emo- da Irmandade e seu antepassado mais celebrado, comandou feste- ção, chora. Então grande capitão Edson Tomaz dos Santos, amigo de jos de Reinado do No dia de novembro de 1974, seu esquife Virgolino, também ele um dos mais respeitados mestres do Reinado já adentrava os portões do cemitério de Ibirité e, no Jatobá, a quase em toda Minas, figura já então no pega bastão e cinco quilômetros de distância, carros, ônibus e caminhões ainda saí- comanda canto ritual. Tira um cantar gutural, rouco, em tom de am para acompanhar 0 enterro. Centenas de pessoas se acotovelavam lamento: no centro de Ibirité, na ladeira que conduz ao cemitério e no próprio cemitério para acompanhar cortejo Congadeiros de toda Minas Gerais enviaram seus representantes, reis, capitães, dançantes, Chora ingoma para homenagear grande Olha chorar Aos pés da ladeira que leva ao campo santo, as guardas se for- Gente mam, todas vestidas de branco, paramentadas para enterro do anganga de todos. Os tambores soam, a gunga gira, pois na morte também a ingoma canta. Fora esse último desejo do capitão Morto capitão Virgolino Motta, da Irmandade, fecha-se filho João Lopes, no hospital: um ciclo no Reinado que veio lá das terras da Pantana. No início do não quero que ninguém faça nenhum enterro chorando, eu quero no meu século, Malaquinhas do Formigueiro comandara a cisão, partira 0 povo que você reunir meu pessoal da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do ao meio, fundando Reino do Jatobá. primeiro par de reis fora João Jatobá, a Irmandade dos Arturos de Contagem e de todos os meus conhecidos Laureano e D. Dodora. Morto Laureano, José Basil de Freitas, coroado congadeiros pra acompanhar no enterro E eu quero as minhas duas guardas rei congo em 1910, liderava os festejos. comando de Virgulino advém batendo, puxando meu de outra cisão interna, narrada com detalhes pelos mais idosos. Fora em José Marciano, de Ibirité, era capitão primeiro do José Basil e D. Dodora eram os reis congos. Virgolino, casado com D. Maria Ferreira, tocava viola na guarda de Congo. Era Ferreira, entrevista realizada em 14.11.93 um tempo de muita miçanga, de muita engrisia. Capitães vinham de 37. Lopes, entrevista realizada em Digitalizado com CamScannerDA MEMORIA BANTOS EMTERRAS DE 91 desafiar uns aos outros, mandingavam, botavam os mais longe para dormir. Era tempo de muita demanda, conforme relata o Sr. José Basil fixa olhar em D. Maria e ordena que pegue bastão e acompanhe. Segundo Sr. José Basil tinha muita bastião: autoridade e era que mandava no Antes de assumir a fun- festa, era o seguinte, quando fazia a vinha aqueles ção de rei congo, havia sido general, ordenança do rei congo", seu chegava de todo lado, com trofiada que aqueles capitão mesmo sabia, substituto imediato em qualquer necessidade É descrito pe- vinha aqueles muambeiros de longe, não igual hoje, que hoje não los mais velhos como sendo alegre e comunicativo: "Ah, José Basil era Acabou, um homem esparramado às vezes estava conversando baixo Acabou aquilo. numa distância daqui na casa dele a gente Ele era muito vinha de longe pra pra se sabia do que porque se eles não soubesse mais do que eles, arreava festa alegre. Fazia umas orações bonitas, né? Tinha uma voz Sr. José Basil convenceu D. Maria a acompanhar as coroas até sua qualquer tocava era Não festa ne Ali, após ser descoroado, ele colocou a coroa aos de Nossa Parava E fazia aquela trofia e tocavam um feitiço na rainha e no rei Senhora do numa pequena mesa da sala. A guarda do Congo era matado, en trofia ainda batia à sua porta, quando velho rei pediu a Maria que lhe desse bastão, revelando sua determinação de atribuir Sr. Virgolino Naqueles tempos, Virgolino Motta era apenas alferes de guia e e a ela a responsabilidade de congos daquele lugar, tornando-os tocador de viola no Congo. José Marciano, muito "murrinha" uma nação encrenqueiro, era capitão do Nesses idos, todas as cele- brações realizavam-se nas casas da rainha conga e dos reis festeiros, os Ele colocou coroa no pé de Nossa Senhora do Rosário virou e falou pares de majestade, e que havia litigio com clero, que proibi- Então me bastão, Eu dei ele bastão, ele o bastão encostado as cerimônias nas igrejas. D. Dodora e Sr. José Basil, reis congos, em Nossa Senhora do assim me pôs mão no ombro e me falou e agora, Maria, daqui por mais Virgolino vai ser Congo desse comandavam festejos. seu senhor doido! E sim, minha ocê e Virgolino vai Em 12 de outubro de 1932, as guardas de Congo e Moçambique conta desse bastão, se ele iam entregar as na casa do Sr. José Graciano e na casa do Sr. Juscelino. Sr. Juventino de Claudionor, capitaneava Quando a guarda descansou instrumentos, Sr. José Basil pe- o Congo e José Marciano, Moçambique. Surgiu, então, uma discór- diu que todos entrassem na salinha e perguntou a Virgolino "se ele era dia na guarda de Moçambique e seu chefe, José Marciano, jogou capaz de pegar aquele bastão e manobrar a guarda de uma nação bastão no chão, ato de conotação grave na simbologia do Congado, Ao que Virgolino Motta respondeu: Senhor José Basil, se por ser bastão investido de poder na condução dos rituais. D. Maria Nossa Senhora me achar que sou suficiente, me dar vida e saúde, Ferreira, esposa de Virgulino, relembra, "como se fosse hoje", ges- enquanto eu viver eu tenho certeza que eu to do capitão, que estabelece uma nova gênese do Reinado na "Ocê toma conta, Virgolino?", perguntou ainda José Basil, ao que Virgolino reafirmou que sim. A partir inaugura-se uma nova munidade: genealogia e uma nova estrutura na realização do Reinado negro na região do já sob a organização e o comando dos Ferreira. e então o Zé Marciano, que era chefe de Moçambique, ele teve uma desconcorda dentro das guarda, eu não sei porque que foi, e ele pegou o bastão jovem tocador de viola do Congo, então com apenas 27 anos, foi aos dele jogou na frente, entre guarda de Congo Então Moçambique) poucos alçando-se como um dos grandes mestres do Rosário de toda parou, guarda do Congo seguiu as coroa ficou parada, lançador falou assim Minas Gerais, respeitado por outros mestres lendários como José como se fosse um monte de galinha ser jogado fora esparramado largou bastão Aristides, Geraldo Arthur, de Contagem, e Edson Tomaz dos Santos, no 40. 41. D. Maria Ferreira, entrevista realizada em 38. Sr. entrevista realizada em 7.11.93 42. 39. Digitalizado com CamScanner92 DA MEMORIA BANTOS da cidade de Oliveira, por De 1932 a 1974, quando capitão Virgolino comandou com mão-de-ferro, sabedoria e uma capitão Virgolino colocara em seu lugar D. Filomena, que no simpatia festejos e rituais. Com autoridade deu forma à Barreirinho, de D. foi rainha por apenas um ano, organização anual do Reinado, congregou comunidade, atraiu, com em 1946. Com a morte do rei congo, vago também o lugar da rainha seu carisma e simplicidade, a colaboração de membros importantes de conga, Reinado foi suspenso por três anos, de 1947 a 1949 outros Reinos, capitaneando nação negra que lhe fora entregue pelo Fechado Reinado, ainda assim, nesses três anos, na época de ato refundador de José Teve em José dos Anjos Ferreira, realização da festa, Virgolino, sozinho, cumpria suas obrigações de de D. Maria, um grande aliado e cultivou amizade com os pitão-mor. Em fins de 49, ele seu cunhado, José dos Anjos Ferreira, único outro Reinado do qual participava com suas organizaram uma folia de reis, recolhendo fundos para a construção da Alto, magro, era rigoroso na observação dos fundamentos rituais capela do em sua propriedade: e na exigência dos atos e funções de todos os membros da Irmandade em fim de meu pai, mais meu José Ferreira tinha organizado uma Alferes, juízas, meirinhos, guarda-coroas, dançantes, de todos de reis aqui em comunidade que tinha pouca casa, então todo eram exigidas disciplina e ordem. As coroas nunca andavam mundo com suas esmolas, uns uma peça de desacompanhadas e bebida alcoólica era proibida, a não ser as uns dava uma fechadura, outros dava prego beberagens rituais, preparadas sob sua orientação. Impunha disciplina Em 1950 a capela ficou pronta e nesse mesmo ano Sr. Virgolino e só confabulava com os reis congos e com outros mestres de sua reabriu Reinado, já todo reestruturado. D. Niquinha, Maria Belmira confiança, como o capitão José dos Anjos Ferreira, capitão. Claudionor da Silva, sua comadre, residente em Ibirité, assumiu a coroa conga do Venâncio, o capitão Edson Tomaz dos Santos e o Sr. José Basil da Jatobá. Como rei congo, foi coroado Sr. Francisco Lopes, membro Silva, de seu capitão-regente e Não permitia que tradicional da Irmandade, residente no Jatobá. Sr. José Basil da mulheres integrassem as guardas como dançantes e Silva, de esposo de D. Niquinha, assumiu a função de capitão- exemplarmente, punições aos que desobedeciam os preceitos e Regente. Sr. Claudionor Venâncio era, então, mestre do Congo e o tradições dos rituais. Paramentado, nenhum dançante podia afastar-se Sr. Franquelino, primeiro do Sr. José Artur foi das guardas, a não ser com ordens de seu superior nomeado chefe dos guarda-coroas e os demais cargos de alfe- Próximo à realização da festa maior, que, devido às chuvas, res de bandeira, mordomos, carregadores do reordenados en- antecipou de outubro para último domingo de agosto, enviava tre membros da comunidade. Sr. José Amador e sua par- meirinhos com os convites para toda a região do Jatobá, agradecendo ticipavam ativamente da congregação, colaborando com Virgolino. as contribuições e os leilões que ajudavam na realização dos Foram reis festeiros naquele ano duas crianças: Inácio dos Santos e No domingo da festa, as porteiras de seu terreno abriam-se para todos 05 devotos de Nossa Senhora do Rosário e sua casa transbordava Enérgica e D. Niquinha ocupou com dignidade impar a po- de visitantes e guardas de outras regiões, que se hospedavam. Na sição de rainha conga de 1950 a 1994, quando faleceu, com mais de época, as relações com a Igreja Católica eram tumultuadas, como afirma noventa Em 1988, com a saúde precária, ordenou a João Lopes, capitão João Lopes: naquele tempo, igreja fechou as portas pro então capitão-mor, que coroasse D. Leonor Pereira Galdino como sua Congado, então quem tinha propriedade fazia a festa na sua substituta, já que não tinha mais condições de acompanhar to- Em 1946 velho rei congo José Basil de Freitas faleceu, 96 dos os festejos. Manteve, entretanto, título de rainha conga até sua morte. Todos os anos, em julho, as guardas se deslocavam até A velha rainha conga, D. Dodora, já há três anos mudara-se para Nova após desentendimentos "com capitania do para visitar a velha rainha, que, mesmo abatida pela doença e pela idade, orgulhava-se da função que exercera por mais de quarenta 43 o Sr. Virgolino nasceu no dia 22.08.1908 e faleceu em Ibidem Não confundir com José de rei congo, falecido em Pano suspenso por conduzido pelas para proteger reis do 45 entrevista realizada em 05.12.93 Digitalizado com CamScannerDA MEMORIA REINOS BANTOS DE dessas visitas, alguém perguntou se fora rainha e eu me lembro que nessa época, quando chegava a ser véspera das festas, A Numa que parecia meio adormecida, levantou cabeça respondeu tinha o negócio de acender uma todos dias, ajoelhar perante altiva: não! Eu rainha conga!" dele e ficar uns cinco dez minutos fazendo semana da "Fui, de sua corte, D. Niquinha impunha respeito pelo saber festa, papai não gostava de porta de de roda de companheiros Do detinha alto pela autoridade que demonstrava. saía Exigia disciplina mudava assim modo dele de dentro de nas vésperas da um que de seu e séquito de todo reino e nunca em cortejo se preceito que ele rigida não estivesse armado e cada um dos acompanhantes em pálio Muito respeitada pelo capitão Virgolino, Nos cuidados com seu bastão, José dos Anjos Ferreira traduzia sua reverência aos fundamentos sua dia posição ele as responsabilidades pelas punições necessárias e pelas decisões com mais graves. Em sua no Ibirité, e durante festejos ele tinha daquilo, não permitia por a Trazia ele era procurada e assediada por muitas pessoas que sempre guardado canto do Acabava festa ele no tavam conselhos, benzeções, Reinou em harmonia com ele, aquele bastão, amarrava aquele papel por fora guardava Se mamãe fosse Chico Lopes, sábio rei congo, falecido em 1969. Os reis congos e fazer uma limpeza no guarda-roupa, se falasse com ele, ele bastão, não Virgolino formaram maior e mais venerado triunvirato da história nem ela a mão tinha assim aquele que aquilo era da Irmandade, tendo sido responsáveis pelo restabelecimento dos fundamentos e regência das tradições seculares dos Congados na Temido dentre os congadeiros era, no entanto, capitão de região do Moçambique, Edson Tomaz dos Santos, de Oliveira, Temido e Dois outros grandes mestres foram amigos e colaboradores de amado. Filho do capitão Belmiro, que vinha de longe para celebrar Virgolino, seu cunhado, José dos Anjos Ferreira, e lendário capitão Rosário do Jatobá, a fama do capitão Edson ultrapassou as fronteiras de Moçambique, Edson Tomaz dos Santos, originário de José de Vinte anos após sua morte, ainda hoje se fala dele com dos Anjos Ferreira, capitão de Moçambique, era um dos maiores admiração e desinência nos reinos negros das Negro retinto, nhecedores de preceitos fundamentos do Alegre extrover- de altura mediana, dentes largos e muito claros, olhos grandes, sorriso tido, gostava de brincar com as pessoas, conversar, contar casos e paramentava-se com cuidado. A roupa branca, piadas. Adquirira grande saber com mestres do passado, pois convive- de linho ou e turbantes azuis, argolas grandes de ra com da protohistória da Irmandade, vira muitas das ouro nas orelhas, sua figura impressionava. Cantava com graça e contendas e disputas dos Sabia as rezas todas, até para encan- gor. Trouxe para a região de Belo Horizonte ritmo serra-abaixo, tar cobras, conhecia os fundamentos e os mistérios, sabia das forças e toque mais grave e pausado do Moçambique que, até então, só batia dos perigos, que respeitava e José dos Anjos conheceu serra-acima, ritmo mais ligeiro e vibrante. Falava e cantava em africano Malaquinhas do Formigueiro, lendário capitão, dissidente do Reino de e tinha fama de hipnotizar inimigos com olhar e de encantar as Ibirité, que trouxera Congo para Jatobá. Com ele, e outros ex- mulheres, pelo sorriso largo e pelos olhos graúdos. Ainda vivo escravos, com quem trabalhara nos das grandes fazendas da re- já era uma lenda, respeitado e temido, por jovens e velhos. As crianças, gião, como a do no hoje Barreiro, aprendeu a falar em africano, adquiriu os conhecimentos das memórias de África, soube os precei- assustadas por sua fama e jeito, passavam ao largo. Corriam longe as histórias de suas conquistas e das incontáveis situações em que colocara Era um grande contador de "causos" e de histórias da tradição do para dormir. Congado. Ensinou José Expedito, capitão "Preta", e João Lopes a falar em de nego". reverenciado por João Lopes como seu Dizem que uma vez, chegando com a guarda de Virgolino em Contagem, capitão Edson puxava 0 Moçambique. Uma jovem olhou mestre, a pessoa que lhe ensinou os dialetos africanos e uma grande parte do saber que hoje detém. para ele e riu. Ela olhava e E capitão Edson ria de volta. Quando Naturalmente brincalhão, na época do Reinado, José dos Anjos metamorfoseava-se, conforme relata seu filho, também José dos Anjos, atual rei José dos Anjos Filho, entrevista realizada em 06.02.94 Digitalizado com CamScannerDA REINOS BANTOS EMTERRAS comando, capitão, como se brincasse, negativa abordou da a Minas Gerais passou o perguntou. "Estou mijado?" Face à "Estou branco dos olhos que saltavam da pele tanto!" retinta, Dizem ele teria mindi sacramento assustada pelo que estivesse, pois senhora ria que a No quipungue di manganá afirmado: um ataque de riso histérico, incontrolável e caiu Ovini de Zambi, Ovini mindé moça teve tinha chegado à casa dos Arturos e ela não Não tomin, aué A guarda desse jeito. Chamaram e rainhas para benzê-la e No tato de nidamba di Zambiá houve Por quem convocaram 0 capitão Edson. Ele olhou para a moça e nada. "Deixa ela mais um pouco!" Contam que à Minas Gerais disse: a guarda se despedia, é que o capitão Edson acordou a moça, aconselhando-a quando a nunca mais rir do que não entendia. Contam, assim, Ovipunga No oquepa di omindiz ainda hoje as memórias do capitão Manganá di menha menha Puxando coroa, capitão Edson gostava de cantar, em marcha bem Mi cum manganá Zambi di mimbanda, auê lenta: Zambi, vamos Olé, Minas Gerais Moçambique não pode Moçambique não pode Cântico do Moçambique vamos carrero Foi um dos idealizadores e organizadores da missa conga e de vim muitos dos cantares que acompanham essa Eu sou carrero Provocava outros capitães, cantando em africano, o que levou Vim jovem João Lopes, filho de Virgolino, aprender os dialetos para res- Minha nova ponder aos desafios do sábio anganga Muito amigo de Sobe morro Virgolino, era figura constante no Reinado do Jatobá. Apoiou João Minha nova Sobe morro devagá Lopes na capitania, após a morte do pai. Mas faleceu dois anos após a morte do amigo e seu enterro, como de Virgolino, comoveu os À meia galo cantô congadeiros de muitas e longes terras. noite, galo Quando foi de madrugada Virgolino Motta faleceu em 1974. Edson Tomaz dos Santos em Meu gunga 1976 e José dos Anjos Ferreira em 1977. Com eles encerra-se um ciclo do e outro se abre. Se em vida eram admirados como anganga muquiche, mortos, são venerados como antepassados. A todos eles a gunga cele- Um de seus cantares preferidos é célebre Minas Gerais: bra, cantando: Minas Gerais Minas Gerais Minas Gerais o de Maria E ni maravia DI Zambi que nakunda Cântico do Moçambique caripó aripuquisanto Reino no canjira da chita dingombe É di di Zambi Digitalizado com CamScanner

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