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Prof. Mario Lucio Waltrick - CFNP/Lages 1 O Ser Humano e a Consciência O que é ser humano? O ser humano (Homo sapiens) é o termo utilizado nas ciências para caracterizar a espécie que se destaca das demais por possuir inteligência e raciocínio. Segundo a Teoria da Evolução, os Homo sapiens são o resultado do processo evolutivo dos primatas conhecidos como hominídeos. A espécie humana representa o mais alto nível de complexidade na escala evolutiva. O desenvolvimento do cérebro humano permite a realização de diversas atividades que exigem raciocínio, além da capacidade de elaborar pensamentos criativos, abstratos e teorias. Esse avanço cerebral, combinado com uma estrutura corporal adaptada — tronco ereto, cabeça e membros superiores e inferiores — possibilita aos seres humanos o uso das mãos para manipular ferramentas e objetos, essenciais para sua sobrevivência. Os seres humanos também se destacam entre os animais por suas características celulares, que lhes conferem uma das maiores expectativas de vida; não é raro que um ser humano viva além dos 100 anos. Curiosamente, somos a única espécie que tem consciência da própria morte. Sinônimos de "ser humano" incluem: humano, indivíduo, criatura, pessoa, homem e gente. Características do ser humano Algumas peculiaridades fazem do ser humano uma criatura única, como, por exemplo: • Capacidade de raciocínio lógico • Sabedoria • Autoconsciência da própria existência • Consciência sobre a morte • Racionalidade • Criatividade • Comunicação complexa (fala, escrita, gestual) • Organização em grupos sociais (famílias, nações, etc.) O ser humano na Filosofia Do ponto de vista filosófico, o ser humano é caracterizado como um ser vivo racional, capaz de ser tanto uma unidade quanto uma totalidade ao mesmo Prof. Mario Lucio Waltrick - CFNP/Lages 2 tempo, enquanto matéria. Por meio da racionalidade, ele consegue distinguir e elaborar conceitos. A condição e a existência do ser humano foram (e são) foco de estudo para diversos filósofos, como Jean-Paul Sartre, Friedrich Nietzsche, Aristóteles e Platão. Do ponto de vista sociológico, o ser humano é o indivíduo que vive em sociedade, capaz de conviver com os outros e de influenciar ou ser influenciado por comportamentos sociais. O que é humano? A palavra "humano" tem origem no latim humanus e refere-se ao que é relativo ao Homem como espécie. O ser humano se distingue de outros animais por agir de maneira racional, possuindo uma grande capacidade mental e habilidade para desenvolver utensílios e adquirir conhecimento. A Antropologia é a ciência que estuda a humanidade, seu comportamento, cultura e evolução. Além disso, o termo "humano" é frequentemente usado como adjetivo para descrever qualidades como bondade, generosidade, compreensão e tolerância. Esse uso é comum para caracterizar os profissionais da medicina, que são considerados "humanos" quando tratam seus pacientes com atenção, empatia e carinho. A Palavra Consciência A palavra consciência vem do latim conscientia, que significa "conhecimento de algo partilhado com alguém." O termo “consciência” tem, em português, pelo menos dois sentidos: o reconhecimento ou descoberta de algo, seja de algo exterior, como um objeto, uma realidade, uma situação, etc., ou de algo interior, como as modificações sofridas pelo próprio eu e o conhecimento do bem e do mal. O primeiro sentido de consciência pode desdobrar-se em outros: psicológico, epistemológico e metafísico. Em sentido psicológico, a consciência é a percepção do eu por si mesmo, e este é o conceito mais conhecido. Em sentido epistemológico, a consciência é primeiramente o sujeito do conhecimento. Em termos metafísicos, chamamos muitas vezes a consciência de "Eu." A consciência é uma qualidade da mente, abrangendo qualificações como subjetividade, autoconsciência e a capacidade de perceber a relação entre si e o outro. Alguns filósofos dividem a consciência em: 1. Consciência fenomenal, que é a experiência propriamente dita, ou seja, o estado de estar ciente, como quando dizemos "estou ciente" de algo, tal como quando afirmamos "estou ciente destas palavras"; e Prof. Mario Lucio Waltrick - CFNP/Lages 3 2. Consciência de acesso, que é o processamento das coisas que vivenciamos durante a experiência. A consciência é uma qualidade psíquica, ou seja, pertencente à esfera da psique humana. Portanto, também se diz que ela é um atributo do espírito, da mente ou do pensamento humano. Ser consciente não é exatamente a mesma coisa que perceber-se no mundo, mas sim ser no mundo e do mundo; para isso, a intuição, a dedução e a indução são fundamentais. A consciência, provavelmente, é a estrutura mais complexa que se pode imaginar atualmente. António Damásio, em O Mistério da Consciência, divide a consciência em dois tipos: consciência central e consciência ampliada. Inspirados pela tese damasiana, entende-se que essa faculdade é constituída por uma espécie de anatomia, que pode ser dividida, didaticamente, em três partes: 1. DIMENSÃO FONTE - onde as coisas acontecem de fato, o "aqui e agora": o meu ato de escrever e dominar o ambiente e os equipamentos dos quais faço uso, o ato do internauta de ler, compreender a leitura e o ambiente que o envolve a todo instante, etc. Essa dimensão da consciência não retrocede muito ao passado e, da mesma forma, não avança para o futuro; ela se limita a registrar os atos presentes, com um espaço-tempo (passado/futuro) suficiente para que os momentos (presentes) tenham continuidade. 2. DIMENSÃO PROCESSUAL - amplitude de um sistema que abriga expectativas, perspectivas, planos e quaisquer registros mentais em aberto; questões que causam ruídos e impulsionam o ser humano à busca de soluções. Essa amplitude de consciência permite observar questões do passado e investigar também um pouco do futuro. 3. DIMENSÃO AMPLA - região de um sistema que, sem ser um dispositivo de memória, alberga os conhecimentos e experiências que uma pessoa incorpora na existência. Engloba todos os conhecimentos do passado e as experimentações pelas quais o ser atravessou na vida: uma antiga profissão da qual não se tem mais habilidades, que guarda registros importantes que servirão como experiência em outras práticas. Assim como a dimensão processual, essa amplitude da consciência permite examinar o passado e avançar no futuro - tudo dentro de limites impostos pelo próprio desenvolvimento mental do indivíduo. Além da anatomia de constituição listada acima, a consciência humana também abriga alguns estados: condições de consciência (vigília normal, Prof. Mario Lucio Waltrick - CFNP/Lages 4 vigília alterada e sono com sonhos), modos de consciência (passivo, ativo e ausente) e focos de consciência (central, periférico e distante). Consciência, Autoconsciência e Autoconhecimento 1. Consciência pressupõe autoconsciência. Não há como alguém estar consciente de alguma coisa sem estar consciente de que está consciente dessa coisa. 2. A autoconsciência é pré-reflexiva. Se a autoconsciência fosse o resultado da reflexão, então só teríamos autoconsciência após termos consciência de alguma coisa que fosse dada à reflexão. Mas isso não pode ser o caso, pois, como dissemos antes, consciência pressupõe autoconsciência. Logo, a autoconsciência é anterior à reflexão. 3. Autoconsciência e consciência são logicamente distintas, mas funcionam de maneira unitária. 4. O autoconhecimento, isto é, a consciência reflexiva ou consciência de segunda ordem, pressupõe a consciência pré-reflexiva, isto é, a autoconsciência. De acordo com o esquema acima, a autoconsciência é o elemento fundamental da consciência. Sem ela, não há consciência nem reflexão sobre a consciência.A Questão da Natureza Humana Os Múltiplos Olhares sobre a Natureza Humana Desde a Antiguidade, filósofos buscam interpretar e definir um conceito particular para a natureza humana. Ao longo dos séculos, ideias e concepções influentes avolumaram-se, ora desenvolvendo, ora contestando radicalmente as visões precedentes. Começando pela Grécia Antiga, o Platonismo defendia a existência de uma alma imortal habitando o corpo humano, onde os instintos animais permanecem. Caberia aos seres humanos manter controle sobre os instintos para que fosse possível o cultivo da alma racional, por meio da contemplação do belo, da justiça e do conhecimento das ciências. Com a chegada da morte, a alma deixaria o mundo dos sentidos físicos para retornar ao mundo das ideias. Essa dualidade entre corpo e alma influenciou, mais tarde, o Cristianismo, segundo o qual a alma seria uma graça de Deus aos homens. Para Aristóteles, o ser humano é um animal social, político e mimético (que imita usando a imaginação, criando, assim, a arte). A razão, segundo ele, não só o distingue como o leva à busca do aprimoramento constante. Prof. Mario Lucio Waltrick - CFNP/Lages 5 A Natureza Humana Após o Iluminismo O Iluminismo foi uma corrente de pensamento nascida na Europa do século XVIII. Em oposição aos dogmas da Idade Média (dos séculos V ao XV), ela defendia a ciência e a racionalidade como ferramentas filosóficas para a construção de uma explicação moderna sobre o mundo e o homem. René Descartes (1596-1650), com sua célebre frase “cogito, ergo sum” (o popularmente conhecido “penso, logo existo”), estabeleceu o ato de questionar, duvidar e observar criticamente o mundo como a prova da existência humana. Uma vez que apenas seres pensantes podem formular pensamentos, a natureza humana seria definida fundamentalmente pela inseparabilidade entre pensamento e “ser pensante.” Hegel (1770-1831), utilizando o método dialético, apontou como parte constitutiva da natureza humana o conflito incessante entre o homem e seu conhecimento sobre o mundo, que mudaria sempre que o homem acreditasse tê-lo enfim dominado. Assim como Descartes ou Immanuel Kant (1724-1804), ele defendia que a natureza humana, gerida pela racionalidade, estabeleceria as bases para a ordem social, sobre as quais se tornaria possível o pleno desenvolvimento da inclinação humana natural para a aquisição de novos conhecimentos. Com sua Teoria Social, Karl Marx (1818-1883), defendendo a influência dos eventos históricos e econômicos sobre o intelecto, estabeleceu que a natureza humana evolui a partir da luta constante entre classes sociais. Já o pai da psicanálise, Sigmund Freud, acreditava que, por trás desse “verniz” social e classista (da ótica marxista), ocultava-se um conflito mais primordial, de “embate” entre as figuras de “pai” e de “filho” dentro dos clãs familiares. Conceito de Natureza Humana Se considerarmos o significado das palavras, o conceito de natureza humana expressa a própria dimensão do homem, ou seja, sua verdadeira essência. Os diferentes pontos de vista sobre a natureza humana representam uma tentativa de responder à pergunta: O que é o homem? Diversas Teorias sobre a Natureza Humana Para Platão, a natureza do homem está formada por um corpo perecível e uma alma eterna que pode alcançar o conhecimento. A alma apresenta três dimensões ou partes: uma que atende aos desejos e às vontades do indivíduo; uma parte racional e uma que rege nosso temperamento. Embora cada uma dessas dimensões da alma cumpra uma função específica, é a parte racional que deve reger o indivíduo. Prof. Mario Lucio Waltrick - CFNP/Lages 6 De acordo com a visão do Cristianismo, a natureza humana é uma criação de Deus, que nos fez para que possamos fazer parte Dele. Consequentemente, o fim da vida humana é cumprido quando amamos nosso Criador. Nosso livre-arbítrio sobre o bem e o mal é o que nos define como indivíduos, permitindo-nos, por sua vez, alcançar a vida eterna. Não temos uma resposta definitiva sobre a pergunta: o que é o homem? A questão sobre nossa natureza tem um significado ou outro em função da perspectiva de cada indivíduo. O cristianismo vê Deus em nós, o biólogo destaca a dimensão genética e evolutiva, e o psicanalista acredita que somos uma combinação de estruturas mentais conscientes e inconscientes que estão presas em um corpo. Apesar de todos os avanços, seguimos ignorando quem realmente somos. No entanto, sabemos que há certas necessidades que devem ser atendidas: a necessidade de compartilhar, de amar e ser amado, além de entender o que nos rodeia. ATIVIDADE – O SER HUMANO E A CONSCIÊNCIA 1. O que é ser humano? 2. Quais são as características do ser humano? 3. Qual é a visão filosófica do ser humano? 4. O que é consciência? Como os filósofos a dividem? 5. Quais são as dimensões da consciência? 6. Qual é a relação entre consciência e autoconsciência? 7. Como diferentes filósofos interpretaram a natureza humana ao longo da história? 8. Qual é a importância da consciência na experiência humana? 9. Existe uma relação entre a consciência e o livre-arbítrio? 10. Como a ciência aborda o estudo da consciência humana?