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AVC HEMORRÁGICO
As doenças vasculares encefálicas incluem algumas das
doenças mais comuns e devastadoras: acidente
vascular encefálico (AVE) isquêmico, AVE hemorrágico
e anomalias vasculares como aneurismas
intracranianos e malformações arteriovenosas (MAV).
Um AVE, ou derrame, é definido por esse início abrupto
de déficit neurológico que é atribuível a uma causa
vascular focal. Assim, a definição de AVE é clínica, e
usam-se os exames laboratoriais, incluindo os
neurorradiológicos, para apoiar o diagnóstico. As
manifestações clínicas do AVE são altamente variáveis
em virtude da anatomia complexa do encéfalo e sua
vasculatura. A hemorragia intracraniana é causada por
sangramento diretamente dentro ou ao redor do
cérebro; produz sintomas neurológicos ao acarretar
um efeito de massa sobre as estruturas neurais, pelos
efeitos tóxicos do sangue, ou por elevação da pressão
intracran1ana.
Portanto, os pacientes e seus familiares devem ser
aconselhados a chamarem o serviço médico de
emergência imediatamente caso apresentem ou
testemunhem o início súbito de qualquer um dos
seguintes sintomas: perda da função sensorial e/ou
motora em um lado do corpo (quase 85% dos pacientes
com AVE isquêmico têm hemiparesia); alteração da
visão, da marcha, ou da capacidade de falar ou
compreender; ou caso sintam cefaleia intensa súbita.
Existem várias causas comuns de sintomas
neurológicos de início súbito que podem simular o AVE,
incluindo crise epiléptica, tumor intracraniano,
enxaqueca e encefalopatia metabólica. Uma vez
definido o diagnóstico de AVE, é necessário um exame
de neuroimagem para determinar se a causa do AVE é
isquemia ou hemorragia (Fig. 27.1). A TC do encéfalo é
a técnica padrão para se detectar a presença ou
ausência de hemorragia intracraniana (ver "Exames de
imagem': adiante). O tratamento clínico para reduzir o
risco de complicações torna-se a próxima prioridade,
seguido de planos de prevenção secundária. Para o
AVE hemorrágico, a hemorragia subaracnóidea (HSA)
por um aneurisma e a hemorragia intracraniana
hipertensiva são duas causas importantes.
As hemorragias são classificadas por sua localização e
pela patologia vascular subjacente. Sangramento
dentro dos espaços subdural e extradural é produzido
principalmente por traumatismo. A HSA é produzida
por traumatismo e ruptura de aneurismas
intracranianos (Cap. 28).
• DIAGNOSTICO A hemorragia intracraniana muitas
vezes é descoberta na TC do crânio sem contraste
durante a avaliação aguda de um AVE. Como é mais
sensível que a RM de rotina para a detecção de sangue
agudo, a TC é o método preferido durante a avaliação
aguda do AVE (Fig. 27.1). A localização da hemorragia
estreita o diagnóstico diferencial a algumas entidades.
O Quadro 27.6 cita as causas e os espaços anatômicos
envolvidos nas hemorragias.
Acidente vascular encefálico na circulação anterior A
artéria carótida interna e seus ramos constituem a
circulação anterior do cérebro. Os vasos podem ser
ocluídos por doença vascular intrínseca (p. ex.,
aterosclerose ou dissecção) ou por oclusão embólica
de uma fonte proximal.
• TRATAMENTO DE EMERG~NCIA Deve-se dar atenção
estreita ao controle das vias respiratórias, pois redução
do nível de consciência é comum e, em muitos casos,
progressiva. A pressão arterial inicial deve ser mantida
até que os resultados da TC sejam revistos. A expansão
do volume de hemorragia está associada a uma
elevação da pressão arterial, porém ainda não foi
esclarecido se a redução da pressão arterial diminui o
crescimento do hematoma. Até que sejam obtidos
mais resultados, recomenda-se manter a pressão
arterial média (PAM) abaixo de 130 mmHg, a não ser
que haja suspeita de elevação da PIC. Em pacientes
com monitores de PIC, as recomendações atuais são de
manter a pressão de perfusão cerebral (PAM-PIC)
acima de 60 mmHg (isto é, deve-se reduzir a PAM para
esse alvo se a pressão arterial estiver elevada). A
pressão arterial deve ser reduzida com fármacos IV não
vasodilatadores, como nicardipino, labetalol ou
esmolo!. Os pacientes com hemorragias cerebelares ou
com depressão do estado mental e evidências
radiográficas de hidrocefalia devem ter avaliação
neurocirúrgica urgente. Com base no exame clínico e
nos achados da TC, podem ser necessários exames de
imagem adicionais, como a RM ou a angiografia. Os
pacientes estuporosos ou comatosos geralmente
recebem tratamento presuntivo para HIC, com
intubação traqueal e hiperventilação, administração de
manitol e elevação da cabeceira do leito enquanto se
solicita um parecer da cirurgia.
• HEMORRAGIA INTRAPARENQUIMATOSA A HIC é o
tipo mais comum de hemorragia intracraniana.
Representa cerca de 10% de todos os AVE e está
associada a uma taxa de letalidade de 50%. As taxas de
incidência são particularmente altas em asiáticos e
negros. Hipertensão arterial, traumatismo e angiopatia
amiloide cerebral causam a maioria dessas
hemorragias. Idade avançada e consumo intenso de
álcool elevam o risco, e o uso de cocaína e
metanfetamina é uma das causas mais importantes no
jovem.
Hemorragia intraparenquimatosa hipertensiva
Fisiopatologia A hemorragia intraparenquimatosa
hipertensiva geralmente resulta de ruptura
espontânea de uma pequena artéria penetrante
profunda do cérebro. Os locais mais comuns são os
núcleos da base (especialmente o putame), o tálamo, o
cerebelo e a ponte. Quando as hemorragias ocorrem
em outras áreas cerebrais ou em pacientes não
hipertensos, deve-se dar maior consideração a
distúrbios hemorrágicos, neoplasias, malformações
vasculares e outras causas. As artérias pequenas nessas
áreas parecem ser mais propensas a lesão vascular
induzida por hipertensão. A hemorragia pode ser
pequena, ou um coágulo grande pode formar-se e
comprimir o tecido adjacente, causando herniação e
morte. O sangue pode dissectar até o espaço
ventricular, o que aumenta substancialmente a
morbidade e pode causar hidrocefalia. A maioria das
hemorragias intraparenquimatosas hipertensivas
desenvolve-se ao longo de 30 a 90 minutos, enquanto
aquelas associadas a terapia anticoagulante pode
evoluir por até 24 a 48 horas. Em 48 horas, os
macrófagos começam a fagocitar a hemorragia na sua
superfície externa. Após 1 a 6 meses, a hemorragia em
geral terá se resolvido até uma cavidade alaranjada em
forma de fenda, revestida com cicatriz glial e
macrófagos repletos de hemossiderina.
Manifestações clínicas Embora não esteja
particularmente associada ao esforço, as HIC quase
sempre ocorrem enquanto o paciente está acordado e,
às vezes, durante o estresse. A hemorragia geralmente
apresenta-se como o início abrupto de um déficit
neurológico focal. Crises epilépticas são incomuns.
Geralmente, o déficit focal piora de maneira contínua
durante 30 a 90 minutos e está associado em nível de
consciência decrescente e sinais de HIC, como cefaleia
e vômitos. O putame é o local mais comum de
hemorragia hipertensiva, e a cápsula interna adjacente
geralmente é lesionada (Fig. 27.17). Portanto,
hemiparesia contralateral é o sinal sentinela. Quando
leve, a face enfraquece em um lado durante 5 a 30
minutos, a fala torna- -se incompreensível, o braço e a
perna enfraquecem gradualmente e os olhos desviam-
se para o lado oposto da hemiparesia. A paralisia pode
piorar até que os membros afetados se tornem flácidos
ou em extensão rígida. Quando as hemorragias são
grandes, a sonolência leva ao estupor à medida que
surgem sinais de compressão do tronco encefálico
superior. Sobrevém coma, acompanhado de respiração
profunda, irregular e intermitente, pupila ipsilateral
dilatada e fixa e rigidez de descerebração. Nos casos
mais leves, o edema no tecido cerebral adjacente pode
causar deterioração progressiva ao longo de 12 a 72
horas.
As hemorragias talâmicas também produzemhemiplegia ou hemiparesia contralateral por
compressão ou dissecção até a cápsula interna
adjacente. Em geral, há um déficit sensorial
proeminente envolvendo todas as modalidades.
Afasia, frequentemente com repetição preservada,
pode ocorrer após hemorragia no tálamo dominante, e
apraxia construcional ou mutismo ocorre em alguns
casos de hemorragia não dominante. Também pode
haver um defeito dos campos visuais homônimos. As
hemorragias talâmicas causam várias perturbações
oculares típicas em virtude da extensão inferiormente
para o mesencéfalo rostral. Essas perturbações
incluem desvio dos olhos para baixo e para dentro, de
modo que eles parecem estar olhando para o nariz,
pupilas anisocóricas com ausência da reação dos vasos
após trombectomia bem-sucedida 8 h depois do início
dos sintomas de AVE (painel à direita). O. Coágulo
removido com um dispositivo de trombectomia (L5,
Concentric Medical, lnc.). E. TC do encéfalo 2 dias
depois; observe o infarto na região prevista em B mas
preservação da região da penumbra pela
revascularização bem-sucedida. fotomotora, desvio
assimétrico para baixo e medialmente do olho oposto
à hemorragia, síndrome de Horner ipsilateral, ausência
de convergência, paralisia do olhar vertical e nistagmo
de retração. Os pacientes podem depois apresentar
uma síndrome de dor contralateral crônica (síndrome
de Déjerine-Roussy).
Nas hemorragias pontinas, geralmente ocorre coma
profundo com tetraplegia em questão de minutos.
Com frequência, há rigidez de descerebração
proeminente e pupilas "puntiformes" ( 1 mm) que
reagem à luz. Há comprometimento dos movimentos
oculares horizontais reflexos suscitados por rotação da
cabeça (manobra oculocefálica ou dos olhos de
boneca) ou por irrigação das orelhas com água gelada
(Cap. 17). Hiperpneia, hipertensão arterial grave e
hiperidrose são comuns. A morte com frequência
ocorre em algumas horas, mas pequenas hemorragias
são compatíveis com a sobrevida.
As hemorragias cerebelares costumam desenvolver-se
ao longo de várias horas e se caracterizam por cefaleia
occipital, vômitos repetidos e ataxia da marcha. Nos
casos leves, pode não haver outros sinais neurológicos
além de ataxia da marcha. A tontura ou vertigem pode
ser proeminente. Com frequência há paresia do olhar
lateral conjugado em direção ao lado da hemorragia,
desvio forçado dos olhos para o lado oposto, ou
paralisia do sexto nervo ipsilateral. Sinais oculares
menos frequentes incluem blefarospasmo,
fechamento involuntário de um olho, oscilação ocular
e desvio assimétrico. Podem ocorrer disartria e
disfagia. A medida que as horas passam, o paciente
frequentemente torna-se estuporoso e depois
comatoso por compressão do tronco encefálico ou
hidrocefalia obstrutiva; uma evacuação cirúrgica
imediata antes de compressão do tronco encefálico
pode salvar a vida do paciente. A hidrocefalia por
compressão do quarto ventrículo é aliviada por
drenagem ventricular externa, mas a evacuação
definitiva do hematoma é essencial para a sobrevida.
Se os núcleos cerebelares profundos forem poupados,
é comum recuperação plena.
Hemorragia lobar Os sinais e sintomas aparecem
durante vários minutos. A maioria das hemorragias lo
bares é pequena e causa uma síndrome clínica restrita,
a qual simula um êmbolo para uma artéria que supre
um lobo. Por exemplo, o principal déficit neurológico
de uma hemorragia occipital é hemianopsia; de uma
hemorragia temporal esquerda, afasia e delirium; de
uma hemorragia parietal, hemiperda sensorial; e de
uma hemorragia frontal, fraqueza do braço. As
hemorragias grandes podem estar associadas a
estupor ou coma se comprimirem o tálamo ou o
mesencéfalo. A maioria dos pacientes com
hemorragias lobares tem cefaleias focais, e mais de
metade apresenta vômitos ou sonolência. Rigidez de
nuca e crises epilépticas são incomuns.
Outras causas de hemorragia intracerebral A
angiopatia amiloide cerebral é uma doença do idoso na
qual ocorre degeneração arteriolar e o amiloide
deposita-se nas paredes das artérias cerebrais. A
angiopatia amiloide causa hemorragias lobares únicas
e recorrentes e provavelmente é a causa mais comum
de hemorragia lobar no idoso. Responde por algumas
hemorragias intracranianas associadas a trombólise IV
instituída para um IAM. Pode- -se suspeitar desse
distúrbio em pacientes que se apresentam com várias
hemorragias (e infartos) ao longo de alguns meses ou
anos, ou em pacientes com "micro-hemorragias" vistas
nas sequências de RM cerebral sensíveis a
hemossiderina, mas ele é diagnosticado
definitivamente por demonstração patológica à
coloração com vermelho do Congo de amiloide nos
vasos cerebrais. Atualmente, não há tratamento
específico, porém os agentes antiplaquetários e
anticoagulantes costumam ser evitados.
A cocaína e a metanfetamina constituem causas
frequentes de AVE em pacientes jovens (menos de 45
anos). A HIC, o AVE isquêmico e a HSA estão associados
ao uso de estimulantes. Os achados angiográficos
variam desde artérias totalmente normais à oclusão ou
estenose de grandes vasos, vasospasmo, ou alterações
compatíveis com vasculopatia. O mecanismo do AVE
relacionado com simpaticomiméticos é desconhecido,
mas a cocaína aumenta a atividade simpática,
causando hipertensão aguda e, às vezes, grave, e isto
pode provocar hemorragia. Pouco mais de metade das
hemorragias intracranianas relacionadas com
estimulantes é intracerebral, e as demais são
subaracnóideas. Nos casos de HSA, geralmente é
identificado um aneurisma sacular. Supõe-se que a
hipertensão aguda cause a ruptura do aneurisma.
O traumatismo cranianoencefálico muitas vezes causa
hemorragia intracraniana. Os locais comuns são
intracerebrais (especialmente os lobos temporal e
frontal inferior) e nos espaços subaracnóideo, subdural
e extradural. Deve-se considerar traumatismo em todo
paciente com déficit neurológico agudo inexplicado
(hemiparesia, estupor ou confusão), particularmente
se o déficit tiver ocorrido no contexto de uma queda
(Cap. 36).
As hemorragias intracranianas associadas à terapia
anticoagulante podem ocorrer em qualquer
localização; com frequência são lobares ou subdurais.
As HIC relacionadas com anticoagulação podem evoluir
lentamente, durante 24 a 48 horas. A coagulopatia e
trombocitopenia devem ser revertidas rapidamente,
conforme descrevemos adiante. Uma HIC associada a
distúrbios hematológicos (leucemia, anemia aplásica,
púrpura trombocitopênica) pode ocorrer em qualquer
local e apresentar-se como inúmeras HIC.
Sangramento na pele e nas mucosas costuma ser
evidente e oferece um indício do diagnóstico.
Hemorragia dentro de um tumor cerebral pode ser a
primeira manifestação de neoplasia. O coriocarcinoma,
melanoma maligno, carcinoma de células renais e
carcinoma broncogênico estão entre os tumores
metastáticos mais comuns associados a HIC. O
glioblastoma multiforme em adultos e o
meduloblastoma em crianças também podem ter áreas
de HIC
A encefalopatia hipertensiva é uma complicação da
hipertensão maligna. Nesta síndrome aguda, a
hipertensão grave está associada a cefaleia, náuseas,
vômitos, crises epilépticas, confusão, estupor e coma.
Na maioria dos casos, a PIC e os níveis de proteína do
LCS estão elevados. A RM do cérebro mostra um
padrão de edema cerebral posterior (occipital>
frontal), que é reversível e denominado
leucoencefalopatia posterior reversível. A hipertensão
pode ser essencial ou secundária a doença renal
crônica, glomerulonefrite aguda, toxemia aguda da
gravidez, feocromocitoma ou a outras causas. A
redução da pressão arterial reverte o processo, mas
pode ocorrer um AVE, especialmente se a pressão
arterial for reduzida com rapidez excessiva. O exame
patológico revela edema cerebral multifocal a difuso e
hemorragias de vários tamanhos, de petequiais amaciças. A microscopia, há necrose das arteríolas,
infartos cerebrais diminutos e hemorragias. A
expressão encefalopatia hipertensiva deve ser
reservada para esta síndrome, e não para cefaleias
recorrentes crônicas, tontura, AIT recorrentes, ou AVE
pequenos que muitas vezes ocorrem associados a
hipertensão arterial.
Avaliação laboratorial e neurorradiológica Os pacientes
devem realizar exames rotineiros de bioquímica
sanguínea e testes hematológicos. A contagem
plaquetária e o TAP/PTT são importantes para a
identificação de coagulopatias. A TC detecta de
maneira confiável hemorragias focais agudas no
espaço supratentorial. Hemorragias pontinas
pequenas podem não ser identificadas em virtude do
movimento e de artefato induzido pelo osso, que
obscurece as estruturas na fossa posterior. Após as
primeiras 2 semanas, os valores de atenuação dos raios
X do sangue coagulado diminuem até que ele se torna
isodenso com o cérebro circundante. O efeito de massa
e o edema podem permanecer. Em alguns casos, uma
orla circundante de captação de contraste aparece
após 2 a 4 semanas e pode persistir por meses.
A RM, a angio-TC e a angiografia convencional são
usadas quando a causa da hemorragia intracraniana é
incerta, particularmente se o paciente for jovem ou
não tiver hipertensão e o hematoma não estiver em um
dos 4 locais habituais de hemorragia hipertensiva. A TC
pós-contraste pode revelar realce do hematoma
agudo, significando a ocorrência de sangramento por
ocasião do exame; esse "sinal do ponto" prevê um
aumento da mortalidade. Alguns centros realizam
rotineiramente a TC e a angiografia por TC com TC pós-
-contraste em uma sessão para identificar rapidamente
qualquer etiologia macrovascular da hemorragia e
fornecer, ao mesmo tempo, informações de
prognóstico. Como os pacientes apresentam sinais
neurológicos focais e rebaixamento da consciência, e
muitas vezes exibem sinais de HIC, deve-se evitar a
punção lombar, pois esta poderia induzir herniação
cerebral.
TRATAMENTO Hemorragia intracraniana
TRATAMENTO AGUDO Quase 50% dos pacientes com
HIC hipertensiva morrem, mas outros têm uma
recuperação boa a total se sobreviverem à hemorragia
inicial. O sistema de escore para HIC (Quadro 27.7) é
uma medida validada, que tem utilidade para predição
da mortalidade e desfechos clínicos. Qualquer
coagulopatia identificada deve ser revertida tão logo
possível. Em pacientes em uso de AVK, pode-se obter
reversão mais rápida da coagulopatia por infusão de
concentrados de complexo da protrombina, que
podem ser administrados rapidamente, seguidos de
plasma fresco congelado e vitamina K. Quando a HIC
está associada a trombocitopenia (contagem
plaquetária 3 cm precisará de evacuação cirúrgica. Se o
paciente estiver alerta, sem sinais focais do tronco
encefálico e se o hematoma tiver diâmetrosangramento de malformação vascular
(malformação arteriovenosa ou fístula arterial-venosa
dural) e extensão para o espaço subaracnóideo de
hemorragia intracerebral primária. Algumas HSA
idiopáticas são localizadas nas cisternas
perimesencefálicas e são benignas; provavelmente
têm origem venosa ou capilar e a angiografia nada
revela.
Aneurisma sacular Estudos de necropsia e angiografia
concluíram que cerca de 2% dos adultos abrigam
aneurismas intracranianos, levando a uma prevalência
de 4 milhões de indivíduos nos EUA; há 25.000 a 30.000
casos por ano de rompimento de aneurisma
produzindo HSA. Para os pacientes que chegam vivos
ao hospital, a taxa de mortalidade é de 45% durante o
primeiro mês. Daqueles que sobrevivem, mais de
metade permanece com déficits neurológicos
significativos em decorrência de hemorragia inicial,
vasoespasmo cerebral com infarto, ou hidrocefalia. Se
o paciente sobreviver, mas o aneurisma não for
obliterado, a taxa de ressangramento é de cerca de
20% nas primeiras 2 semanas, 30% no primeiro mês e
depois 3% por ano. Com estes números alarmantes, a
prioridade terapêutica é a prevenção das complicações
precoces previsíveis da HSA. Os aneurismas íntegros
assintomáticos são bem menos perigosos que o
aneurisma recentemente rompido. O risco anual de
ruptura para aneurismas com 10 mm é de cerca de 0,5 a 1
%; a taxa de morbidade cirúrgica excede em muito
essas porcentagens. Em razão do maior tempo de
exposição ao risco de ruptura, os pacientes mais jovens
com aneurismas de tamanho> 10 mm podem
beneficiar-se do tratamento profilático. A exemplo do
tratamento da estenose carotídea assintomática, a
relação risco/benefício depende muito da taxa de
complicações do tratamento. Os aneurismas gigantes,
aqueles com diâmetro > 2,5 cm, ocorrem nos mesmos
locais (ver adiante) dos pequenos e respondem por 5%
dos casos. As três localizações mais comuns são artéria
carótida interna terminal, bifurcação da artéria
cerebral média (ACM) e o ápice da artéria basilar. O
risco de ruptura é de aproximadamente 6% no primeiro
ano após a identificação, e se mantém alto
indefmidamente. Em muitos casos produzem sintomas
por compressão do cérebro ou nervos cranianos
adjacentes. Os aneurismas micóticos costumam
localizar-se distalmente à primeira bifurcação das
principais artérias do polígono de Willis. A maioria
resulta de êmbolos infectados provenientes de
endocardite bacteriana, causando degeneração
séptica das artérias e dilatação e ruptura
subsequentes. Há controvérsia quanto a melhor
conduta: reparar as lesões ou permitir que se resolvam
espontaneamente. Fisiopatologia Os aneurismas
saculares ocorrem nas bifurcações das artérias
intracranianas de tamanho grande a médio; ocorre
ruptura para dentro do espaço subaracnóideo nas
cisternas basilares e, com frequência, para dentro do
parênquima cerebral adjacente. Cerca de 85% dos
aneurismas ocorrem na circulação anterior, a maioria
no polígono de Willis. Cerca de 20% dos pacientes
apresentam múltiplos aneurismas, muitos em locais
espelhados bilateralmente. A medida que se
desenvolve, o aneurisma forma um colo com uma
cúpula. A extensão do colo e o tamanho da cúpula
variam sobremodo e são fatores importantes no
planejamento da obliteração neurocirúrgica ou da
embolização endovascular. A lâmina elástica interna
arterial desaparece na base do colo. A túnica média
afma-se, e o tecido conectivo substitui as células
musculares lisas. No local de ruptura (mais
frequentemente a cúpula), a parede afina-se, e a
laceração que origina o sangramento muitas vezes tem
comprimento 7 mm e os localizados
no ápice da artéria basilar e na origem da artéria
comunicante posterior estão sob risco mais alto de
ruptura. Manifestações clínicas A maioria dos
aneurismas intracranianos íntegros é totalmente
assintomática. Os sintomas em geral decorrem da
ruptura e resultante HSA, porém alguns pacientes com
aneurisma íntegro se apresentam com efeito de massa
sobre nervos cranianos ou parênquima cerebral. No
momento da ruptura do aneurisma com HSA franca, a
PIC sobe abruptamente. Isto explica a perda transitória
súbita da consciência que ocorre em quase metade dos
pacientes. A perda súbita da consciência pode ser
precedida por um breve momento de cefaleia
excruciante, porém a maioria dos pacientes queixa-se
pela primeira vez de cefaleia ao recuperar a
consciência. Em 10% dos casos, a hemorragia pelo
aneurisma é grave o suficiente para causar perda da
consciência durante vários dias. Em cerca de 45% dos
casos, a cefaleia intensa a um esforço é a queixa
principal. Com frequência, o paciente refere-se à
cefaleia como "a pior dor de cabeça da minha vidà';
contudo, a característica mais importante é o início
súbito. As vezes, essas rupturas se apresentam como
cefaleia de intensidade apenas moderada ou alteração
no padrão habitual de cefaleias do paciente. A cefaleia
costuma ser generalizada, muitas vezes com rigidez da
nuca, e os vômitos são comuns. Embora cefaleia súbita
com ausência de sintomas neurológicos focais seja a
marca da ruptura de um aneurisma, déficits
neurológicos focais podem ocorrer. Os aneurismas na
artéria comunicante anterior ou bifurcação da ACM
podem romper-se para dentro do cérebro adjacente ou
para o espaço subdural e formar um hematoma grande
o suficiente para produzir efeito de massa. Dentre os
possíveis déficits resultantes estão hemiparesia, afasia
e abulia. Em alguns casos, sintomas prodrômicos
sugerem a localização de aneurisma íntegro
progressivamente maior. A paralisia do terceiro nervo
craniano, particularmente quando associada à
midríase, perda do reflexo fotomotor ipsilateral (com
preservação do reflexo contralateral) e dor focal acima
ou atrás do olho, pode ocorrer em pacientes com
aneurisma expansivo na junção na artéria comunicante
posterior ou carótida interna. A paralisia do sexto
nervo pode indicar aneurisma no seio cavernoso, e
defeitos dos campos visuais podem acompanhar
aneurisma expansivo nas artérias carótidas
supraclinoide ou cerebral anterior. Dor occipital e dor
cervical posterior podem indicar aneurisma nas
artérias cerebelar inferior posterior ou cerebelar
inferior anterior (Cap. 27). Dor intra ou retro-ocular e
dor na têmpora inferior podem ocorrer com aneurisma
expansivo da ACM. A cefaleia "em raio" é uma variante
da enxaqueca que simula HSA. Antes de concluir que
um paciente com cefaleia intensa e súbita tem
enxaqueca "em raio': é preciso realizar investigação
definitiva para aneurisma ou outra patologia
intracraniana. Os aneurismas podem sofrer pequenas
rupturas com extravasamento de sangue para o espaço
subaracnóideo, os chamados sangramentos sentinelas.
Cefaleia súbita inexplicável em qualquer localização
deve levantar suspeita de HSA e ser investigada, em
razão da possibilidade de hemorragia iminente. As
manifestações clínicas iniciais da HSA podem ser
graduadas usando-se os esquemas de classificação de
Hunt-Hess ou da World Federation ofNeurosurgical
Societies (Quadro 28.3). Para aneurismas rotos, o
prognóstico de evolução favorável cai à medida que o
grau aumenta. Por exemplo, é incomum que um
paciente no grau 1 de Hunt-Hess venha a óbito se o
aneurisma for tratado, mas a taxa de mortalidade dos
pacientes nos graus 4 e 5 pode chegar a 80%.
Déficit neurológico tardio Há quatro causas principais
de déficit neurológico tardio: rerruptura, hidrocefalia,
vasoespasmo e hiponatremia. 1. Rerruptura. A
incidência de rerruptura de aneurisma não tratado no
primeiro mês após a HSA é de aproximadamente 30%,
com pico n os primeiros 7 dias. A rerruptura está
associada à taxa mortalidadede 60% e prognóstico
reservado. O tratamento precoce elimina este risco. 2.
Hidrocefalia. A hidrocefalia aguda pode causar estupor
e coma e é atenuada com a instalação de dreno
ventricular externo. Com maior frequência, a
hidrocefalia aguda desenvolve-se ao longo de alguns
dias ou semanas e causa sonolência progressiva ou
raciocínio lento (abulia) com incontinência. A
hidrocefalia é diferenciada de vasoespasmo cerebral
com TC, angio-TC, ultrassom com Doppler
transcraniano (DTC), ou angiografia conven cional por
raios X. A hidrocefalia p ode remitir espon -
taneamente ou exigir dren agem ventricular
temporária. A hidrocefalia crônica pode desenvolver-
se semanas a meses após a HSA e manifestar-se como
dificuldade da marcha, incontinência, ou raciocínio
deficiente. Dentre os possíveis sinais sutis estão
ausência de iniciativa na conversação ou incapacidade
de recuperar a independência. 3. Vasoespasmo. O
estreitamento das artérias na base do cérebro após
HSA causa isquemia e infarto sintomáticos em cerca de
30% dos pacientes, e é a principal causa de morbidade
e morte tardias. Os sinais de isquemia aparecem 4 a 14
dias após a hemorragia, mais frequentemente após 7
dias. A intensidade e a distribuição do vasoespasmo
determinam se haverá infarto. Acredita-se que o
vasoespasmo tardio resulte de efeitos diretos do
sangue coagulado e seus produtos de degradação
sobre as artérias dentro do espaço subaracnóideo. Em
geral, quanto maior a quantidade de sangue
circundando as artérias, maior a chance de
vasoespasmo sintomático. O espasmo de grandes
artérias produz sintomas atribuíveis ao território
vascular pertinente (Cap. 27). Todos estes sintomas
focais podem surgir abruptamente, ter caráter
flutuante, ou instalar-se ao longo de alguns dias. Na
maioria dos casos, o espasmo focal é precedido de
declínio do estado mental. O vasoespasmo é
detectável de maneira confiável por angiografia
convencional por raios X, mas este procedimento
invasivo tem alto custo e implica risco de acidente
vascular encefálico e outras complicações. A
ultrassonografia com DTC baseia-se no princípio de que
a velocidade do fluxo sanguíneo dentro de uma artéria
aumenta à medida que o diâmetro de sua luz diminui.
Por meio da varredura dos trajetos de ACM e segmento
proximal da artéria cerebral anterior (ACA), carótida
terminal, vertebral e basilar, em exames diários ou em
dias alternados, pode-se detectar vasoespasmo de
maneira fidedigna e instituir o tratamento para
prevenir isquemia cerebral (ver adiante). A angio-TC é
outro método capaz de detectar vasoespasmo. O
edema cerebral grave em pacientes com infarto por
vasoespasmo p ode elevar suficientemente a PIC para
reduzir a pressão de perfusão cerebral. O tratamento
inclui manitol, hiperventilação e hemicraniectomia; a
hipotermia moderada também pode ser indicada. 4.
Hiponatremia. A hiponatremia pode ser intensa e
desenvolver-se rapidamente nas primeiras 2 semanas
após a HSA. Há natriurese e depleção de volume com a
HSA, de modo que os pacientes evoluem com
hiponatremia e hipovolemia. Os peptídios natriuréticos
atrial e cerebral participam da gênese dessa "síndrome
cerebral de perda de sal': Em geral, o problema se
resolve ao longo de 1 a 2 semanas e, no contexto de
HSA, não deve ser tratada com restrição de água livre,
em razão do maior risco de acidente vascular
encefálico (ver adiante). Avaliação laboratorial e
neurorradiológica (Fig. 28.8.) A marca da ruptura de
aneurisma é a presença de sangue n o LCS. Em mais de
95% dos casos há sangue suficiente para ser visualizado
com TC sem A B e D Figura 28.8 Hemorragia
subaracnóidea. A. Angiografia por TC revelando
aneurisma da artéria cerebelar superior esquerda. 8.
TC sem contraste ao nível do terceiro ventrículo
revelando sangue no espaço subaracnóideo
(híperdenso) na fissura de Sylvius esquerda e dentro do
ventrículo lateral esquerdo. C. Angiografia
anteroposterior convencional de raios X das artérias
vertebral direita e basilar revelando um grande
aneurisma. O. Angiografia convencional após
embolização do aneurisma com coíls (mola). Neste
procedimento, o corpo do aneurisma é preenchido
com coí/s de platina através de microcateter
introduzido pela artéria femoral até o colo do
aneurisma. contraste de alta qualidade obtida em 72 h.
Se a TC não definir o diagnóstico de HSA e não for
encontrada nen huma lesão de massa ou hidrocefalia
obstrutiva, deve-se realizar punção lombar para
confirmar a presença de sangue subaracnóideo. A lise
de eritrócitos e subsequente conversão de
hemoglobina em bilirrubina tinge o líquido
cerebrospinal de amarelo em 6 a 12 h. Este LCS
xantocrômico atinge intensidade máxima após 48 h e
dura 1 a 4 semanas, de acordo com a quantidade de
sangue no espaço subaracnoideo. A extensão e a
localização do sangue subaracnóideo na TC sem
contraste ajudam a localizar o aneurisma subjacente,
identificar a causa de qualquer déficit n eurológico e
predizer vasoespasmo tardio. Observou-se alta
incidência de vasoespasmo sintomático n a ACM e ACA
quando a TC inicial mostra coágulos subaracnóideos >
5 X 3 mm nas cisternas basilares, ou camadas de
sangue com espessura > 1 mm nas fissuras cerebrais. A
TC prediz vasoespasmo com menor fidedignidade nas
artérias vertebral, basilar, ou cerebral posterior.
Indica-se punção lombar antes de exame
neurorradiológico somente quando não houver
disponibilidade de TC no momento da suspeita de HSA.
Uma vez que haja suspeita diagnóstica de hemorragia
por ruptura de aneurisma sacular, geralmente realiza-
se angiografia convencional por raios X dos quatro
vasos (artérias carótidas e vertebrais) para localizar e
definir os detalhes anatômicos do aneurisma e
determinar se existem outros aneurismas íntegros (Fig.
28.8C). Em alguns centros, o aneurisma roto é tratado
por meio de técnicas endovasculares no momento da
angiografia inicial como uma forma de acelerar o
tratamento e reduzir o número de procedimentos
invasivos. A angio-TC é um método alternativo para
localizar o aneurisma e pode ser suficiente para
planejar o tratamento definitivo. -:::::J ....... CD :::::J cn
-· 3 C') p.) • • •
239 o Cf) ..-+ e- ...., O" --º Cf) e.. o (/) ~ CD 3 p:) z CD .....,
aneurisma pode ser "grampeado" por neurocirurgião
ou receber um coil ("molà') introduzido por cirurgião
endovascular. O reparo cirúrgico envolve a colocação
de grampo de metal através do colo do aneurisma,
eliminando imediatamente o risco de ressangramento.
Esta conduta requer craniotomia e retração do
cérebro, associada a morbidade neurológica. As
técnicas endovasculares consistem na instalação de
coils de platina, ou outro material embólico, dentro do
aneurisma por intermédio de um cateter introduzido a
partir da artéria femoral. O aneurisma é preenchido
apertadamente para aumentar a trombose e com o
tempo é excluído da circulação (Fig. 28.SD). O único
ensaio prospectivo randomizado comparando cirurgia
com tratamento endovascular para aneurisma roto,
International Subarachnoid Aneurysm Trial (ISAT), foi
interrompido precocemente quando se constatou que
24% dos pacientes tratados por técnica endovascular
estavam mortos ou dependentes após 1 ano em
comparação com 31 % daqueles tratados
cirurgicamente, ou seja, redução relativa significativa
de 23%. Após 5 anos de seguimento, o risco de morte
mostrou-se menor no grupo tratado com embolização
com molas, embora a proporção de sobreviventes com
vida independente fosse a mesma em ambos os
grupos. O risco de ressangramento foi baixo, mas os
episódios foram mais frequentes no grupo tratado com
embolização com molas. Considerando que alguns
aneurismas possuem morfologia que não permite
tratamento endovascular, a cirurgia continua a ser uma
opção terapêutica importante. Os hospitais que
combinam recursos endovasculares e neurocirúrgicos
provavelmente oferecem os melhores resultados aos
pacientes, e há dados sólidos mostrando que os
centros especializados no tratamento de aneurismas
possuem menores taxas de mortalidade. O tratamento
clínico da HSA enfatiza proteção das vias respiratórias,
controle da pressão arterial antes e após o tratamento
do aneurisma, prevenção de ressangramento antes do
tratamento, tratamento do vasoespasmo, tratamento
da hidrocefalia e da hiponatremia bem como
prevenção de embolia pulmonar. A hipertensão
intracraniana após ruptura de aneurisma decorre de
sangue no espaço subaracnóideo, hematoma
parenquimatoso, hidrocefalia aguda ou perda da
autorregulação vascular. Os pacientes que estejam em
estupor devem ser submetidos a ventriculostomia de
emergência para medir a PIC e tratar a HIC a fun de
prevenir isquemia cerebral. As medidas clínicas
destinadas a combater a HIC (p. ex., hiperventilação
leve, manitol e sedação) também podem ser usadas, se
necessário. A HIC refratária ao tratamento é sinal de
prognóstico reservado. Antes do tratamento definitivo
do aneurisma roto, é necessário ter cautela para
manter perfusão cerebral adequada e, ao mesmo
tempo, evitar elevação excessiva da pressão arterial. Se
o paciente estiver alerta, é razoável reduzir a pressão
arterial a níveis normais por meio de nicardipino,
labetalol, ou esmolo!. Se o paciente estiver com
depressão do nível de consciência, deve-se medir a PIC
a fim de manter pressão de perfusão cerebral entre 60
e 70 mmHg. Se houver cefaleia ou dor no pescoço
intensa, prescrevem-se sedação leve e analgesia. Evita-
se sedação extrema para não obscurecer alterações do
estado neurológico. Há necessidade de hidratação
adequada para evitar hipovolemia, que predisporia à
isquemia cerebral. As crises convulsivas são incomuns
no quadro inicial de ruptura de aneurisma. Os
tremores, abalos e postura extensora que muitas vezes
acompanham a perda da consciência provavelmente
estão relacionados com elevação abrupta da PIC ou,
talvez, avasoespasmo agudo generalizado, e não
representam crise convulsiva. Contudo, algumas vezes
administram-se anticonvulsivantes como tratamento
proftlático, uma vez que uma crise convulsiva poderia
teoricamente promover ressangramento. Os
glicocorticoides ajudam a reduzir a cefaleia e a dor
cervical causadas pelo efeito irritativo do sangue no
espaço subaracnóideo. Não há evidências de que
reduzam o edema cerebral, sejam neuroprotetores, ou
reduzam a lesão vascular e, portanto, seu uso rotineiro
não é recomendado. Os antifibrinolíticos não são
prescritos rotineiramente, mas podem ser
considerados em pacientes cujo aneurisma não possa
ser tratado imediatamente. Seu uso foi associado à
redução na incidência de rerruptura de aneurisma, mas
também à maior incidência de infarto cerebral tardio e
trombose venosa profunda (TVP). O vasoespasmo
continua a ser a principal causa de morbidade e
mortalidade após HSA por aneurisma. O tratamento
com o antagonista do canal de cálcio nimodipino (60
mg VO 4/4 h) melhora o prognóstico, talvez por
prevenir lesão isquêmica e não por reduzir o risco de
vasoespasmo. A nimodipino causa hipotensão
significativa em alguns pacientes, o que pode agravar a
isquemia cerebral naqueles com vasoespasmo. O
vasoespasmo cerebral sintomático também pode ser
tratado com aumento da pressão de perfusão cerebral
produzido por elevação da pressão arterial média e por
expansão do volume plasmático assim como com o uso
criterioso de agentes vasopressóricos, em geral a
fenilefrina ou a norepinefrina. A elevação da pressão
de perfusão foi associada a melhora clínica em muitos
pacientes, porém a hipertensão arterial pode
promover ressangramento de aneurismas
desprotegidos. O tratamento com hipertensão e
hipervolemia induzidas geralmente exige monitoração
das pressões arterial e venosa central; a infusão de
agentes pressóricos é melhor realizada através de
cateter venoso central. A expansão do volume ajuda a
prevenir hipotensão, aumenta o débito cardíaco e
diminui a viscosidade sanguínea ao reduzir o
hematócrito. Este método denomina-se terapia do
"tríplice H" (hipertensão, hemodiluição e
hipervolemia).
Se o vasoespasmo sintomático persistir a despeito do
tratamento clínico ideal, devem ser considerados os
vasodilatadores intra-arteriais e a angioplastia
transluminal percutânea. A vasodilatação por
angioplastia direta parece ser permanente, permitindo
que a terapia do tríplice H seja reduzida mais cedo. Os
efeitos dos vasodilatadores farmacológicos (verapamil
e nicardipino) n ão duram mais do que cerca de 24 h,
portanto é possível que haja necessidade de várias
doses até que o sangue subaracnóideo seja
reabsorvido. Embora a papaverina intra-arterial seja
um vasodilatador eficaz, há evidências de que possa ser
neurotóxica; por este motivo seu uso em geral deve ser
evitado. A hidrocefalia aguda pode causar estupor ou
coma. É possível haver remissão espontânea ou
necessidade de drenagem ventricu- lar temporária.
Nos casos que evoluem com hidrocefalia crônica, a
derivação ventricular é o tratamento de escolha. A
restrição de água livre está contraindicada nos
pacientes com HSA e risco de vasoespasmo uma vez
que haveria possibilidade de hipovolemia e hipotensão
de precipitar isquemia cerebral. Muitos pacientes
mantêm redução do sódio sérico apesar da
administração parenteral de soro fisiológico a 0,9%.
Frequentemente, a suplementação de sal por via oral
com administração de solução salina a 0,9% minoram a
hiponatremia, porém muitos pacientes também
necessitam de solução salina hipertônica. Deve-se ter a
cautela de não corrigir o sódio sérico com rapidez
excessiva nos pacientes com hiponatremia intensa
presente há vários dias, o que poderia precipitar
mielinólise pontina central. Todos os pacientes devem
usar meias de compressão pneumática para prevenir
embolia pulmonar. A heparina não fracionada,
administrada por via subcutânea para profilaxia de
TVP, pode ser iniciada imediatamente após o
tratamento endovascular e alguns dias após
craniotonia com ligadura cirúrgica, e é uma medida
adjuvante útil ao uso de meias compressivas
pneumáticas. O tratamento da embolia pulmonardepende de o aneurisma já ter sido tratado ou não e se
o paciente foi submetido à craniotomia. A
anticoagulação sistêmica com heparina está
contraindicada nos pacientes com aneurismas rotos e
não tratados. Há contraindicação relativa por vários
dias após craniotomia, e seu uso pode retardar a
trombose de um aneurisma tratado com embolização
com mola. Após a craniotomia, dá-se preferência ao
uso de filtros na veia cava inferior para prevenir
êmbolos pulmonares adicionais, enquanto a
anticoagulação sistêmica com heparina é preferível
após tratamento endovascular bem-sucedido.