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Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

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em sua obra O monismo (1897)150, na 
qual advoga “o regresso à naturalidade” e a “uma ordem social natural” adaptada às leis 
eternas da natureza. Nessa obra preconiza ainda a eugenia e a pena de morte como 
instrumentos de seleção151. Segundo Pelletier (2002), a obra é prefaciada pelo arianista George 
Vacher de Lapouge (1854-1936), que nela sugere substituir o lema “liberdade, igualdade, 
fraternidade” por “determinismo, desigualdade, seleção”. 
Como biólogo, Haeckel teve papel decisivo na formação de toda uma “linhagem” de 
ecólogos de orientação biocêntrica, lançando mesmo, com sua doutrina do monismo, as bases 
de uma ideologia de “retorno à natureza” e de uma indistinção entre o social e o natural – na 
verdade, não exatamente uma tentativa de superar essa dicotomia, mas sim de subordinar a 
primeira à última. Outros nomes influenciados por Haeckel parecem compartilhar as mesmas 
inclinações ideológicas do mestre, e mesmo Frederic Clements é citado por Pelletier. Além 
dele, o geógrafo e aluno de Haeckel Friedrich Ratzel (1844-1904) teoriza em sua biogeografía 
o conceito de “espaço vital” (Lebensraum), que será retomada, de acordo com Pelletier, pelos 
 
150 Sua doutrina do monismo materialista marca todo o naturalismo do século XIX. Segundo sua doutrina, seres 
vivos e matéria inorgânica integram uma única substância eterna e infinita, a Natureza, que está apenas sujeita à 
transformação, dado que não é criada nem poderá ser destruída – o que nega a metafísica, bem como a distinção 
entre natureza e cultura. Mesmo a reflexão fiosófica não passa, para Haekel, de uma fase da evolução biológica 
do cérebro, à qual se seguiria, obviamente, a ciência. Adota uma morfologia estritamente mecanicista, tentando 
uma unificação da filosofia com as ciências da natureza. Aceita, por fim, o determinismo científico e nega 
mesmo o livre-arbítrio humano. 
151 Gunn (1997), mostra a ligação entre ecologia e eugenia na atuação de Haekel, que teria sido, por exemplo, um 
dos membros de um júri em um concurso de monografias organizados pelos industriais Krupp do Ruhr sobre 
medidas práticas de eugenia para melhorar a raça. 
Dos miasmas às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 121 
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geopolíticos nazistas. Teria influenciado ainda o francês Vidal de La Blache, responsável pela 
expressão “geografía humana”, mais neutra do que aquela cunhada por seu contemporáneo 
Elisée Reclus, “geografía social” (Pelletier, 2002). 
Haeckel, ou seu legado, parece ser o elo que permitiria compreender justamente a 
passagem do darwinismo para a ecologia, e desta para a sociologia152. Sua influência 
forneceria uma explicação pelo menos coerente para a adoção da ecologia como modelo 
teórico ao estudo das sociedades, e das cidades em particular – no mínimo, como uma 
analogia viável. A despeito da crise que atravessou na Biologia desde o final do século XIX, 
mencionada anteriormente, o darwinismo manteve-se presente com o recrudescimento da 
ideologia do darwinismo social. Nos Estados Unidos, rendeu frutos com o desenvolvimento 
de uma disciplina que, embora não declaradamente darwinista, aceitava os pontos centrais de 
suas teorias: a chamada Escola de Chicago153. 
A Escola de Chicago: Ecologia? 
Comumente associada a tendências conservadoras, a “ecologia” da Escola de Chicago 
tenta aplicar, por meio de um rebuscado jogo de palavras, alguns conceitos ecológicos 
(advindo do estudo das comunidades bióticas) a processos sociais154. Em termos de acuidade 
teórica na aplicação desses conceitos, a leitura desses autores sobre a literatura ecológica é 
 
152 Os caminhos para a penetração do darwinismo no pensamento norte-americano mereceriam um estudo 
detalhado. Dada a proximidade e intercâmbio cultural entre os Estados Unidos e Reino Unido, é compreensível 
uma grande difusão direta das idéias de Darwin. Além disso, porém, deve-se considerar o alcance da influência 
de Haeckel na Alemanha (Radl, 1988:217), e a possível repercussão das idéias darwinianas no pensamento de 
sociólogos que acabaram tendo papel formador decisivo para a chamada “Escola de Chicago”, tais como Georg 
Simmel. 
153 O interesse principal, nesse ponto, será avaliar alguns conceitos e teorias, herdadas da ciência ecológica então 
em desenvolvimento, que se buscará aplicar também ao estudo das cidades, bem como suas implicações. Para 
melhor apreciação das contribuições da Escola de Chicago para o estudo das cidades, vide Eufrásio, Mario. 
Estrutura urbana e ecologia humana: a escola sociológica de Chicago (1915-1940). São Paulo: Editora 34, 
1999. 
154 Acot menciona, por exemplo, uma tentativa de comparar a imigração em Chicago com um processo de 
“invasão”, no sentido dado pela ecologia vegetal. 
Dos miasmas às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 122 
Naturalismo e biologização das cidades na constituição da idéia de meio ambiente urbano 
normalmente tida como simplista – o que tem contribuído para seu descrédito tanto do lado da 
sociologia quanto da ecologia. 
Entretanto, os sociólogos tentam de fato aproximar suas formulações sociológicas de 
conceitos como o de comunidade vegetal, de Eugen Warming, para derivar sua análise 
centrada nas comunidades humanas (particularmente urbanas). É verdade que os autores não 
tentaram, em nenhum momento, efetuar a “travessia” nas duas direções – pensando também o 
natural a partir do social, e que buscaram manter claramente o vínculo de suas pesquisas com 
a sociologia. Ainda assim, é significativo que tenham empreendido uma tentativa, bastante 
decidida, de reconhecer a aplicabilidade de conceitos da ecologia ao estudo dos agrupamentos 
humanos. Nesse sentido, corre-se o risco de incorrer num anacronismo dizer que não é 
ecologia de fato – porque efetivamente pretendeu, e tentou, ser ecologia. 
Mesmo como sociologia, evidentemente, a Escola de Chicago é digna de críticas. A 
derivação de idéias biológicas para a sociologia, neste caso, deslocou a análise da relação 
entre classes sociais para grupos raciais e étnico-culturais155, e permitiu a formulação dos 
conflitos em termos de “competição” e “seleção”. É clara a tentativa de “biologização” das 
cidades, desde a adoção da metáfora orgânica (a cidade apresentada como um “organismo 
vivo”), passando pela grande ênfase aos aspectos “étnicos” e raciais das populações 
estudadas, até o ponto de equiparar o processo de formação de “guetos” a uma “sucessão 
ecológica”, representada graficamente no famoso diagrama de círculos concêntricos de 
Burgess. 
A concepção ecológica primordial das cidades, desenvolvida pelos sociólogos de 
Chicago, pode ser encontrado num artigo de Robert Ezra Park de 1918, no qual compara as 
 
155 Szmrecsanyi (1988) nota a relação entre essa forma de leitura do espaço urbano e a presença, cada vez mais 
marcante, dos imigrantes, tanto europeus quanto latinos, e dos migrantes do sul dos Estados Unidos, 
particularmente os negros. 
Dos miasmas às moscas – a naturalização da cidade pela Medicina e Biologia 123 
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comunidades humanas às vegetais e animais. Essa comparação se dá essencialmente em 
termos de certos atributos fundamentais: localização geográfica definida; interdependência 
entre os elementos; e a idéia de “sucessão”, através da qual “cada comunidade precede e 
prepara o caminho para sua sucessora” (apud Eufrásio, 1999:57). 
Em 1921, uma formulação mais explícita é apresentada quando Park e Burgess 
definem a concepção ecológica da sociedade