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Naturalismo e Biologização das Cidades na Constituição da Idéia de Meio Ambiente Urbano

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a formação de uma gama de questões sobre as cidades; ainda hoje, saneamento e 
abastecimento, higiene, controle de doenças e saúde pública, e mesmo reforma urbana são 
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temas fundamentais no trato do ambiente urbano. Já os biólogos, se não tiveram maior 
atuação profissional sobre o espaço das cidades, adquiriram grande importância como 
formuladores de modelos interpretativos, principalmente em métodos de análise da questão 
urbana. Além disso, a contribuição da Biologia, em termos práticos, acabou sendo mediada 
por outras disciplinas, como Sociologia, Matemática e Demografia. 
Sobre o segundo aspecto, ficaram evidentes alguns dos problemas que rondam a 
tentativa de aplicar às cidades concepções trazidas de disciplinas da área biológica e médica. 
Um dos principais deles reside na tentativa de aplicar a cidades ou sociedades conceitos e 
teorias formulados para populações confinadas em um espaço limitado – o que, 
evidentemente, não é fortuito. 
A vasta literatura recente sobre a abordagem sanitarista das cidades vem contribuir, 
além disso, para a melhor compreensão do conteúdo ideológico dessas formulações. Com 
relação à contribuição dos biólogos, ainda não está suficientemente claro se as simplificações 
foram decorrentes de uma interpretação superficial da obra dos primeiros ecólogos, se de uma 
tentativa apressada e pouco crítica de aplicação de alguns métodos analíticos que 
encontravam êxito em outras áreas, ou se podem ser verificados aqui traços de uma 
manipulação ideológica consciente. O que se pode afirmar é que, de fato, tais modos de 
descrever e interpretar a realidade urbana acabaram por se mostrar convenientes para uma 
abordagem que se pretendia (ou se representava como) objetiva, isenta e apolítica. De fato, os 
modelos estatísticos e a representação cartográfica permitiram legitimar uma forma de 
interpretar a cidade – e lhe recomendar soluções – sem necessitar do contato com a complexa 
e desagradável realidade. 
Desde a “desvinculação” entre sanitarismo e higienismo – dito melhor, entre a 
intervenção no espaço físico (dado à competência de engenheiros e urbanistas) e o cuidado 
com a saúde dos indivíduos (assunto para os médicos e educadores), o trato do meio ambiente 
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urbano jamais conseguiu se desvencilhar do estigma sanitarista. Ainda hoje, a questão 
ambiental nas cidades praticamente se limita à questão dos fluxos e da matéria (água, ar, lixo, 
solo...) e, portanto, a um assunto cujo domínio cabe aos engenheiros sanitaristas – ou, 
segundo denominação em voga, engenheiros ambientais. Disso trata a ecologia urbana 
entendida como ecologia das cidades. E nesse sentido, uma concepção ecossistêmica só tem a 
reforçar tal caráter. 
Mas a ecologia urbana também pode ser ecologia nas cidades. Então os estudos 
ecológicos simplesmente adotam a cidade como um ambiente como qualquer outro (poderia 
ser uma área de cerrado, uma floresta. Escolheu-se uma área urbana). A pesquisa se volta 
freqüentemente, então, ao convívio conflituoso entre seres humanos e outras formas de vida, 
especialmente animais. E aqui começa a adoção de concepções altamente temerárias. 
Num sentido, busca-se compreender as alterações comportamentais, fisiológicas ou 
reprodutivas dos animais em ambiente urbano. Facilmente se poderia utilizar politicamente (e 
com argumentos reacionários) os resultados de tais pesquisas para afirmar novamente o 
caráter disgênico das cidades. Noutro sentido, a continuidade das pesquisas em torno das 
doenças infecto-contagiosas pode reafirmar a vinculação entre higiene, salubridade e 
civilidade (como sinônimo de moralidade). 
Então se percebe que um dos principais argumentos defendidos pela literatura 
consultada – de que a institucionalização da medicina social no Brasil se insere numa 
tentativa de dominação e disciplinamento da população (especialmente das camadas mais 
pobres) – acaba sendo reiterada pelas pesquisas aqui apresentadas. Apenas algumas 
considerações adicionais mereceriam ser feitas, as quais não visam contestar as importantes 
questões levantadas pelos autores utilizados, mas ampliar um pouco mais o horizonte de suas 
indagações em outras direções importantes. 
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Ao considerar a atuação dos médicos isoladamente no âmbito da saúde pública, tende-
se a crer que, a partir de meados da década de 1920, esses profissionais abrandaram suas 
posições e iniciativas, deixando de lado a ação repressora característica das campanhas 
sanitaristas das primeiras décadas do século XX em prol de uma maior dedicação à educação. 
Ao colocar lado a lado o higienismo e o eugenismo, a questão pode ser encarada por outra 
perspectiva: uma parcela da elite brasileira, que via no higienismo sanitarista uma via de 
controle social, passou a defender intervenções ainda mais autoritárias e radicais – e a adotar 
um discurso eugenista cada vez mais explícito. À medida que os conflitos sociais e a intensa 
urbanização não apenas não foram controlados pela polícia sanitária, mas, ao contrário, se 
intensificaram entre as décadas de 1920 e 1930, a tentativa de controle social seguiu os 
mesmos caminhos da tentativa anterior de controle da doença: do meio para o indivíduo – 
embora, talvez, não com o mesmo êxito. 
Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a eugenia foi desacreditada como ciência, a 
ponto de se tornar um verdadeiro tabu até recentemente. Entretanto, dificilmente se poderá 
afirmar que alguns elementos de seu discurso não tenham sobrevivido. As doutrinas raciais 
não desapareceram de fato, a tentativa de desqualificar ou mascarar conflitos sociais continua 
tão viva quanto antes, especialmente no trato de questões como da criminalidade, na qual os 
velhos modelos ainda parecem preservar sua credibilidade170. É preciso reconhecer e 
compreender os aspectos em que o discurso eugênico tenha sobrevivido. As recorrentes 
tentativas de explicar comportamentos e conflitos sociais em termos de leis biológicas ou 
“naturais” devem ser encaradas sob essa perspectiva: 
A última década viu o biologismo de uma nova “ciência natural” insinuar-se a passos 
de lobo no discurso acadêmico (...). À primeira vista, tudo indicava que a pesquisa 
genética conseguiria desbancar os despropósitos racistas com argumentos científicos. 
 
170 Um exemplo é uma publicação recente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais: Freitas, Wagner Cinelli 
de Paula. Espaço urbano e criminalidade. Lições da Escola de Chicago. São Paulo: IBCCRIM, 2002. 
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(...) Mas tais constatações curvam-se hoje cada vez mais sob o peso de uma nova 
“biologização” da conduta social, para a qual, aliás, os próprios geneticistas se 
aprestam em fornecer a munição. (...) Trata-se sempre, como sói acontecer, de 
hipóteses não comprovadas que dizem menos da natureza do que da preferência 
ideológica dos cientistas. Tais estudiosos são muitas vezes ingênuos sob a óptica social 
e assim talvez não percebam como suas pesquisas "puramente objetivas" sofrem a 
influência de correntes ideológicas que solapam a sociedade. (...) Em breve nos 
brindarão