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Cultura e multiculturalismo Apresentação Conforme apontam Bulhões e Leão (2024), o multiculturalismo é comumente entendido como a convivência de múltiplas culturas em um mesmo espaço social ou territorial. Ainda que essa definição descreva uma dimensão visível do fenômeno, ela não contempla sua densidade histórica e sociológica. Pesquisadores da área propõem uma leitura mais aprofundada, que reconhece o multiculturalismo como resultado de processos históricos complexos, nos quais se articulam relações entre indivíduos e coletividades. Nessa perspectiva, trata-se de uma dinâmica social marcada por tensões, mediações e reconstruções identitárias que extrapolam a simples coexistência de diferenças culturais para se configurar como um elemento estruturante das interações sociais. No Brasil, essa lógica adquire contornos particularmente significativos. A diversidade cultural que caracteriza o país decorre de uma trajetória histórica singular, em que se entrelaçam distintas matrizes — europeias, indígenas, africanas e afro-brasileiras —, formando uma composição identitária complexa e fluida, como afirmam Jesus e Silva (2021). Mais do que a justaposição de influências, o que se observa é uma trama contínua de intercâmbios e ressignificações que dá forma a um tecido cultural denso e heterogêneo. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar o ser humano enquanto ser cultural, compreender a relação e a distinção entre cultura e tradição, bem como a diversidade cultural brasileira. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o homem enquanto ser cultural.• Explicar a relação e a distinção entre cultura e tradição.• Apresentar a diversidade e pluralidade cultural brasileira: cultura afro-brasileira, indígena e de imigrantes dos diversos continentes. • Infográfico A educação, concebida como um direito universal e um dever estatal, deve ser promovida com o envolvimento ativo da sociedade como um todo, orientando-se à realização plena do potencial humano. No ordenamento jurídico brasileiro, esse direito detém o status de direito fundamental, conforme consta na Constituição Federal de 1988, de modo que o poder público deve garantir sua efetividade a todos os cidadãos, inclusive às comunidades tradicionais. Ao considerar que a efetividade do direito à educação deve ser estendida ao povos indígenas, torna-se imprescindível a adoção de uma matriz interpretativa ancorada no paradigma do multiculturalismo, capaz de reconhecer e incorporar as especificidades culturais, linguísticas e epistemológicas no âmbito das políticas educacionais. De acordo com Oliveira, Carvalho e Urquiza (2023), essa guinada valoriza a alteridade como princípio estruturante dos direitos dos povos originários e fundamenta um preceito constitucional que orienta a formulação e implementação de uma educação específica, sensível às particularidades culturais, linguísticas e epistemológicas desses sujeitos históricos. Neste Infográfico, você vai conferir alguns aspectos importantes sobre a efetivação do direito à educação. A imagem a seguir possui audiodescrição. Para acessar o recurso, clique aqui Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Conteúdo do Livro A natureza cultural do ser humano se revela na capacidade de comunicar, criar e transformar o mundo ao seu redor, como destacam Farias e Vetorazzi (2024). O empenho e a comunicação permitem modificar a natureza, aperfeiçoar formas de sobrevivência e desenvolver campos como o direito, a ciência, a arte e a tecnologia. Tais realizações decorrem do uso da razão, do trabalho e da lógica como fundamentos da ação humana. Esse processo de constituição cultural ocorre sobretudo nas interações sociais, nas práticas linguísticas, nas manifestações simbólicas e nas tradições que se perpetuam entre gerações. É no compartilhamento contínuo de saberes, situado em contextos históricos e sociais específicos, que o ser humano se constitui como sujeito cultural, capaz de produzir, transmitir e ressignificar conhecimentos. De acordo com Vitti (2024), a língua, enquanto sistema social historicamente construído, permite a comunicação de pensamentos e a interação entre indivíduos dentro de uma comunidade, sendo fundamental na construção da identidade cultural e social. No capítulo Cultura e multiculturalismo, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar o ser humano enquanto um ser cultural, os conceitos e as relações entre cultura e tradição, além de alguns aspectos da diversidade e pluralidade cultural brasileira. Boa leitura. Os elementos gráficos deste capítulo possuem audiodescrição. Para acessar o recurso, clique aqui FUNDAMENTOS DA SOCIOLOGIA E DA ANTROPOLOGIA Carolina Bessa Ferreira de Oliveira Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 10 09/03/2018 16:56:47 Cultura e multiculturalismo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o homem enquanto ser cultural. Explicar a relação e a distinção entre cultura e tradição. Apresentar a diversidade e pluralidade cultural brasileira: cultura afro- -brasileira, indígena e de imigrantes dos diversos continentes. Introdução O estudo sobre a cultura e o multiculturalismo é fundamental para com- preendermos o ser humano, as suas interações e o seu desenvolvimento nas diferentes sociedades. Como cultura, podemos identificar tudo aquilo que é produzido pelo ser humano, entendido como ser cultural; já o multiculturalismo remete à existência de diferentes culturas. No caso do Brasil, observamos uma grande diversidade cultural. Neste capítulo, você vai ler sobre o homem — ser humano — enquanto ser cultural, compreender a relação e a distinção entre cultura e tradição, bem como estudar a diversidade cultural brasileira. Homem enquanto ser cultural O que caracteriza o homem — o ser humano — e o diferencia dos demais animais? Como podemos defi ni-lo? O aspecto cultural, a partir das interações e manifestações humanas, é, sem dúvida, a sua principal característica. Mas o que é cultura? Segundo o autor François Laplantine, antropólogo francês, na obra Aprender antropologia (1989), a cultura pode ser compreendida como o próprio social considerado a partir das diferenças: Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 1 09/03/2018 16:56:39 O social é a totalidade das relações (relações de produção, de exploração, de dominação [...]) que os grupos mantêm entre si dentro de um mesmo conjunto (etnia, região, nação [...]) e para com outros conjuntos, também hierarquizados. A cultura, por sua vez, não é nada mais que o próprio social, mas considerado dessa vez sob o ângulo dos caracteres distintivos que apresentam os compor- tamentos individuais dos membros desse grupo, bem como suas produções originais (artesanais, artísticas, religiosas [...]) (LAPLANTINE, 1989, p. 120). Nesse sentido, o autor afirma que a cultura distingue o ser humano dos demais seres, como, por exemplo, os animais. Enquanto sociedade, os ani- mais também podem conviver e ter sociabilidade, mas a produção cultural, a comunicação, a troca e o trabalho são especificamente humanos, como citado a seguir: [...] o que distingue a sociedade humana da sociedade animal, e até da socie- dade celular, não é de forma alguma a transmissão das informações, a divisão do trabalho, a especialização hierárquica das tarefas (tudo isso existe não apenas entre os animais, mas dentro de uma única célula!), e sim essa forma de comunicação propriamente cultural que se dá através da troca não mais de signos e sim de símbolos, e por elaboração das atividades rituais aferentes a estes. Pois, pelo que se sabe, se os animais são capazes de muitas coisas, nunca se viu algum soprar as velas de seu bolo de aniversário (LAPLANTI- NE, 1989, p. 121). O ser humano é cultural, pois há uma comunicaçãoque é cultural, isto é, produzida pelos homens e entre eles, que transforma a natureza, o seu meio, aperfeiçoa meios de sobrevivência, desenvolve técnicas, como o direito, a arquitetura, a tecnologia, a música, a ciência, a arte, entre outros, por meio do uso da razão, do trabalho e da lógica. O desenvolvimento da cultura e do homem como ser cultural se dá, eminentemente, por meio da interação, das manifestações culturais, da linguagem, do processo de ensino e das tradições, que são passados entre gerações e grupos em um determinado contexto social. Várias formas de diferença e desigualdade convivem na sociedade contem- porânea. Ao longo de suas trajetórias de vida, os indivíduos se identificam e se diferenciam dos outros das mais diversas maneiras. [...] Os marcadores sociais da diferença são sistemas de classificação que organizam a experi- ência ao identificar certos indivíduos com determinadas categorias sociais (ZAMBONI, 2015, p. 13). Cultura e multiculturalismo2 Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 2 09/03/2018 16:56:40 Para saber mais sobre marcadores sociais, acesse o link abaixo ou o código ao lado: https://goo.gl/6Kt12P Diversas ciências se ocupam do estudo do homem enquanto ser cultural, das suas manifestações, distinções, interações e dos seus comportamentos, como é o caso da antropologia, da sociologia e da psicologia. Outras áreas — como arquitetura, letras, pedagogia e Direito — têm como objeto manifestações próprias do ser humano, como a linguagem escrita e falada, o processo de ensino e aprendizagem, o desenvolvimento de técnicas, estruturas e ocupação, bem como o universo jurídico, tomando o Direito como manifestação de uma cultura e sociedade, que se modifica ao longo do tempo. No campo de estudo da antropologia, que é uma ciência que considera o homem em todas as suas dimensões, há uma área, ou ramo específico, que se ocupa de estudar as manifestações culturais dos seres humanos. Trata-se da antropologia cultural, que estuda as características que distinguem as condutas dos seres humanos e os faz identificar ou pertencer a uma mesma cultura, considerando os diferentes tempos e espaços de presença humana. O seu principal meio de pesquisa e estudo é a observação direta dos comportamentos dos indivíduos, das suas interações com outras pessoas e com o meio em que vivem, o que inclui hábitos, costumes, rituais, transmissão de conhecimentos e adoção de normas de uma ou mais culturas. O termo aculturação é utilizado nos casos em que duas ou mais culturas entram em contato e desencadeiam mudanças em uma delas ou ambas, que podem adotar costumes reciprocamente. Ocorre, ainda, nos casos de imposição de uma cultura sobre a outra, como, por exemplo, em alguns processos de colonização de um povo sobre outro. Cultura e tradição A partir da compreensão do ser humano como ser cultural, verifi camos que o conceito de cultura é de fundamental importância, assim como o de tradição. Isso 3Cultura e multiculturalismo Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 3 09/03/2018 16:56:41 porque ambos se relacionam no que diz respeito à transmissão de conhecimento, práticas e comportamentos entre gerações. No entanto, há diferenças conceituais importantes na forma como se compreende cada categoria e as suas manifestações. O Quadro 1 elucida a distinção entre cultura e tradição. Cultura Tradição O que é Do latim cultura, culturae, que significa “ação de tratar”, “cultivar” ou “cultivar a mente e os conhecimentos”. A palavra culturae se originou a partir de outro termo latino: colere, que quer dizer “cultivar as plantas” ou “ato de plantar e desenvolver atividades agrícolas”. A palavra tradição é mais dinâmica do que parece à primeira vista. Traditio, em latim, é a ação de entregar, de transmitir algo a alguém, de confiar algo valioso a outra pessoa. Uma pessoa tradicional é aquela que recebeu (e precisar transmitir depois) um conhecimento, uma herança ou uma responsabilidade do passado. Como pode se manifestar Com o passar do tempo, a palavra cultura foi colocada de modo análogo entre o cuidado na construção e tratamento do plantio, com o desenvolvimento das capacidades intelectuais e educacionais das pessoas. Cultura popular, cultura organizacional e antropologia cultural. A tradição revela um conjunto de costumes, crenças, práticas, doutrinas, leis, que são transmitidos de geração em geração, em dado grupo social, e que permite a continuidade de uma cultura ou de um sistema social. No direito, a tradição consiste na entrega real de uma coisa para efeitos da transmissão contratual da sua propriedade ou da sua posse entre pessoas vivas. A situação jurídica resulta de uma situação de fato: a entrega. Entretanto, a tradição poderá não ser material, mas apenas simbólica. Tradição religiosa. Quadro 1. Distinção entre cultura e tradição. Cultura e multiculturalismo4 Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 4 09/03/2018 16:56:43 Os termos cultura e tradição possuem diferentes usos na linguagem falada, coloquial. É importante observar que, no campo da sociologia e antropologia, possuem uma conceituação própria, específica, como produto da manifestação e construção humana, constituindo-se um conjunto de bens materiais e imateriais produzidos. Com relação à palavra cultura, por exemplo, por vezes fazemos referência, na oralidade, a uma sociedade ou uma determinada época: a cultura indiana ou a cultura dos antigos. Ademais, falamos que algo é cultural quando diz respeito a determinado grupo, que o torna distinto e específico, diferente, e que permite ser reconhecido, como a cultura sertaneja ou cultura erudita. Outra expressão é choque cultural para se referir a diferentes culturas ou pessoas de locais diferentes que se encontram e intercambiam, lembrando que não podemos comparar culturas, mas evidenciar as suas diferenças. De forma popular, a palavra cultura também pode ser utilizada como algo que faz referência ao conhecimento, ao que é elevado, desenvolvido e/ou artístico. A palavra tradição, por sua vez, remete a coisas remotas, antigas, que dizem respeito ao passado e, em boa parte das ocasiões em que é pronunciada, é associada a algo obsoleto ou costumeiro em um determinado grupo ou tempo. A relação entre cultura e tradição coloca-se a partir de uma visão de mani- festação humana e comportamento tipicamente do homem, como as lendas, as crenças e os costumes. Os elementos da tradição — como formas de se vestir, ritos de passagem, organização de trabalhos, cerimônias e religiões — podem passar a fazer parte de uma dada cultura. Por isso, a cultura se refere, de modo geral, aos modos de vida de uma sociedade ou grupo, pois inclui tanto os aspectos materiais e tangíveis (como símbolos, objetos e tecnologias) quanto imateriais ou intangíveis (como crenças, valores e ideias). Além disso, o costume é considerado uma fonte do Direito, ao lado de outras, como a lei e a jurisprudência, lembrando que o Direito se modifica à medida que a sociedade e o homem também são modificados. Assim, no campo do Direito, os fatores culturais e da tradição estão relacionados à evolução do Direito e às suas fontes. De acordo com Sergio Cavalieri Filho (2015), ao considerar a concepção sociológica do Direito como produto de múltiplas influências sociais, viven- ciamos regras sujeitas a constantes modificações, porque se originam dos grupos sociais, que também se transformam ao longo do tempo. Assim, entre os principais fatores que concorrem para a evolução do direito, o autor elenca: fatores econômicos; fatores políticos; 5Cultura e multiculturalismo Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 5 09/03/2018 16:56:44 fatores culturais; fatores religiosos. Em relação aos fatores culturais, o autor afirma que: Cada povo tem sua peculiaridade, sua tendência ou dom natural. A Grécia, por exemplo, notabilizou-sepela arte, pela cultura; os hebreus pela religião; os fenícios pela navegação; Roma pelo direito. Pois o direito de cada um desses povos reflete o aspecto cultural em que mais se desenvolveram, e quando a cultura de um é colocada em contato com a do outro, há influências recíprocas sobre o direito de cada um. A conquista da Grécia, como é sabido por todos, exerceu influência decisiva, não apenas nas artes e na literatura romanas, mas também nas suas instituições jurídicas. [...] A maior evidência de ser o Direito uma manifestação de cultura social, um fenômeno cultural, está no fato de surgirem novos ramos do Direito à medida que se expande o mundo cultural do povo. Falamos hoje em Direito Espacial, Nuclear, das Telecomunicações etc. [...] (CAVALIERI FILHO, 2015, p. 56-57). Diferentes matrizes culturais no Brasil: diversidade e pluralidade afro-brasileira, indígena e de imigrantes dos diversos continentes O Brasil é formado por diferentes matrizes culturais. Os diferentes grupos étni- cos, tanto os que aqui já habitavam antes da chegada dos colonizadores quanto os próprios colonizadores, passaram a conviver e a constituir a população. Em linhas gerais, podemos dizer que a população do Brasil é formada por indígenas, europeus e negros — africanos e afro-brasileiros. Os membros da comunidade africana foram trazidos violentamente ao Brasil, durante o processo de colonização, e submetidos a trabalhos forçados e escravos. Muitos resistiram e imprimiram a sua cultura no Brasil, como a comida, música e arte. Com relação aos imigrantes, a presença de europeus se deu na formação da população brasileira por meio dos portugueses colonizadores, além da chegada no século XIX de populações italianas e asiáticas — cuja maioria veio em busca de melhores formas de vida e trabalho. A partir dessa formação, a cultura brasileira recebeu diversas influências e matrizes culturais que originaram a diversidade e a pluralidade presentes na história e no contemporâneo brasileiro. Essa formação diversificada Cultura e multiculturalismo6 Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 6 09/03/2018 16:56:45 pode ser identificada nas diferentes manifestações culturais presentes no País, nos traços presentes na população e nas diferenças de culturas e tradições regionais. A Constituição Federal de 1988, ao tratar, no art. 215, do direito à cul- tura, visou proteger as diferentes manifestações e patrimônios culturais que integram a formação social do País, ao afirmar que “o Estado apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais” e que “pro- tegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional” (BRASIL, 1988). Além disso, a Carta Magna reconhece como patrimônio cultural brasileiro os bens materiais e imateriais, como o próprio conceito de cultura nos informa, incluindo ações e memória dos diferentes grupos em relação às formas de expressão, modos de criar e viver, criações científicas e artísticas, obras, objetos, documentos e edificações, entre outros, definidos no art. 216. Os Centros de Tradições Gaúchas e os Centros de Tradições Nordestinas espalhados pelo Brasil são exemplos de instituições culturais que visam manter registros, atividades e práticas voltados a tradições específicas da cultura brasileira, seja no campo da música, da gastronomia, da religião ou da arte em geral. Outro exemplo é o Museu da Imigração do Estado de São Paulo, que mantém acervos visando à preservação da memória das pessoas que chegaram ao Brasil e ao aprofundamento sobre o processo migratório, valorizando as diferenças e o encontro das múltiplas histórias e origens. Há, também, o Museu Afro-Brasil, que destaca a perspectiva africana na formação do patrimônio, da identidade e da cultura brasileira, e o Memorial da América Latina, um espaço de acervo e atividades concebido para promover a integração cultural e política dos povos de língua portuguesa e hispano-americana. Ainda, o Museu Afro-digital da Memória Africana e Afro-brasileira disponibiliza docu- mentos digitais, visando promover o reconhecimento e a preservação do patrimônio africano e afro-brasileiro em formato digital para reafirmar a sua presença na cultura nacional. Acesse os links: Centro de Tradições Nordestinas — https://goo.gl/CKbem2 Museu da Imigração do Estado de São Paulo — https://goo.gl/r1zxB Museu Afro — https://goo.gl/9seQ1 Memorial Espaço Público de Cultura — https://goo.gl/V5p95 Museu Afro-digital — https://goo.gl/CRx3dM 7Cultura e multiculturalismo Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 7 09/03/2018 16:56:45 O antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, ao abordar a história do Brasil e a formação do povo brasileiro, apresenta aspectos-chave para compreender a formação étnica e cultural do Brasil. É preciso compreender que, para além da rica mistura cultural, também ocorreu um processo histórico violento e opressor em relação às etnias indígenas e à população negra — povos africanos e afro-brasileiros. Ambos foram escravizados e tiveram oprimidas as suas culturas, por meio de estratégias de separação de populações que não puderam preservar o seu patrimônio cultural. Assim, o africano que chegou forçado ao Brasil teve a sua identidade negada e marginalizada. Para o antropólogo, a contribuição da cultura negra para a identidade brasileira estaria principalmente nas crenças religiosas, na música e na gastronomia. A mistura cultural, de referências e influências no Brasil, gerou uma nova identidade — brasileira — a partir de mesclas, como com os afro-brasileira, a fim de acolher as variadas populações, mas que passou pela anulação e indiferenciação das especificidades culturais e étnicas. Por fim, vale destacar que Darcy Ribeiro (1995) aborda a presença de cinco grandes culturas no País, como: o Brasil crioulo, influenciado pelo continente africano; o Brasil caboclo, influenciado pelos indígenas; o Brasil sertanejo, influenciado pelo sertão; o Brasil caipira, influenciado pelo centro-oeste e sudeste; o Brasil sulino, influenciado por mamelucos, gaúchos e cultura europeia. Cultura e multiculturalismo8 Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 8 09/03/2018 16:56:46 BRASIL. Constituição. (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Dispo- nível em: . Acesso em: 31 jan. 2018. CAVALIERI FILHO, S. Programa de sociologia jurídica. Rio de Janeiro: Forense, 2015. LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 1989. RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. ZAMBONI, M. Marcadores sociais. 2015. Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018. Leituras recomendadas GOMES, N. L. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: uma breve discussão. 2012. Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018. SILVÉRIO, V. R. (Coord.). Síntese da coleção história geral da África: pré-história ao século XVI. Brasília: Unesco, 2013. Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018. SILVÉRIO, V. R. (Coord.). Síntese da coleção história geral da África: século XVI ao sé- culo XX. Brasília: Unesco, 2013. Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018. WOLKMER, A. C.; LEITE, J. R. M. Os “novos” direitos no Brasil: natureza e perspectivas. São Paulo: Saraiva, 2003. 9Cultura e multiculturalismo Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 9 09/03/2018 16:56:46 Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra. Dica do Professor A formaçãodo povo brasileiro e de sua identidade nacional decorre de um processo histórico e social profundamente atravessado pela confluência de distintas matrizes culturais — indígenas, africanas, afro-brasileiras, europeias e de imigrantes de diversas origens, conforme apontam Jesus e Silva (2021). Essa diversidade constitutiva moldou uma cultura cuja identidade não se apresenta como unitária ou autêntica no sentido essencialista, mas como um mosaico plural, construído por múltiplos grupos sociais no decorrer de diferentes períodos históricos. Essa pluralidade identitária reflete a convivência entre diferentes heranças culturais e os conflitos, as tensões e assimetrias de poder que marcaram e marcam a história brasileira. A cultura nacional, nesse contexto, não pode ser compreendida como um bloco homogêneo, mas como um campo dinâmico de disputas simbólicas, em que diferentes grupos anseiam por visibilidade, reconhecimento e pertencimento. Nesta Dica do Professor, você vai explorar os principais aspectos dessa diversificada composição cultural, que é fundamental para a compreensão do multiculturalismo, assim como a discussão sobre o mito da democracia racial no Brasil. As imagens do vídeo a seguir possuem audiodescrição. Para acessar o recurso, clique aqui Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Exercícios 1) A cultura é frequentemente apontada como o elemento que singulariza a existência humana. Laplantine (1989) propõe que, embora existam traços de organização social e comunicação entre os animais, o que distingue de fato a sociedade humana é a capacidade de construir significados, conferindo sentido às ações e aos vínculos sociais. Considerando essa perspectiva, analise o cenário a seguir: Uma antropóloga observa um grupo humano celebrando uma colheita de cereais. Nesse contexto, há troca de presentes simbólicos, discursos que remetem à ancestralidade e práticas coletivas que reforçam valores compartilhados. Ela percebe que, mesmo sem utilidade prática imediata, essas ações têm profundo valor para o grupo. Com base nessa observação e nas ideias de Laplantine, qual elemento está mais diretamente ligado à especificidade da cultura humana? Assinale a alternativa correta: A) Hierarquia funcional estruturada. B) Especialização por competências. C) Transmissão genética de saberes. D) Comunicação simbólica ritualizada. E) Cooperação em atividades grupais. O ser humano é essencialmente cultural, pois transforma seu meio com a razão, a linguagem, o trabalho e a interação social. No decorrer de suas trajetórias, os indivíduos constroem sua identidade na relação com o outro, e isso ocorre dentro de sistemas de classificação que atribuem significados sociais às diferenças. Com base nesse entendimento, analise a seguinte situação: Durante pesquisa etnográfica em um centro urbano, um grupo de pesquisadores observa como as pessoas se organizam em torno de elementos simbólicos comuns, como a religião, a estética e a culinária. Ao mesmo tempo, percebem que certos grupos enfrentam obstáculos no acesso a serviços públicos, sendo frequentemente associados a categorias como “raça”, “gênero” ou “território”. Com base nessa observação, qual conceito teórico contribui de forma mais precisa para compreender a articulação entre identidade, cultura e desigualdade nessa experiência? 2) Assinale a alternativa correta: A) Representações sociais estruturadas. B) Comunicação de ordem técnica. C) Patrimônio cultural comunitário. D) Marcadores sociais da diferença. E) Interações discursivas informais. 3) Os termos "cultura" e "tradição" são frequentemente empregados no senso comum com significados variados. Contudo, nas ciências sociais, esses conceitos ganham contornos específicos. Considere o seguinte cenário: Em pesquisa de campo em uma comunidade do interior, uma equipe interdisciplinar observa um festival anual em que famílias locais encenam narrativas antigas, utilizam vestimentas típicas e preparam alimentos conforme receitas transmitidas oralmente. Durante as entrevistas, os moradores referem-se ao evento como uma forma de “manter a tradição viva”, mas também como um momento de “celebração da cultura local”, aberto a adaptações e influências externas. Com base nesse contexto e nos conceitos antropológicos e sociológicos de cultura e tradição, qual afirmação expressa corretamente a leitura teórica da situação? A) Tradição indica costumes populares. B) Cultura expressa identidade coletiva. C) Tradição exclui mudanças culturais. D) Cultura preserva formas fixas. E) Tradição rompe com o presente. Na perspectiva sociológica do Direito, entende-se que as normas jurídicas não se originam exclusivamente da legislação formal, mas também de influências sociais mais amplas. Sérgio Cavalieri Filho (2015) aponta que a evolução do Direito está relacionada a fatores econômicos, políticos, culturais e religiosos. Nessa abordagem, costumes e tradições são considerados expressões culturais que contribuem para a produção e transformação do Direito no decorrer do tempo. 4) Com base nesse entendimento, qual afirmativa representa corretamente a função dos costumes no campo jurídico? A) Os costumes são registros morais fixos. B) A tradição jurídica bloqueia mudanças. C) Os fatores culturais moldam a legislação. D) A jurisprudência substitui práticas sociais. E) A lei ignora valores comunitários. 5) A Constituição Federal de 1988 inovou ao estabelecer a cultura como um direito fundamental e bem coletivo a ser protegido pelo Estado. Com base nessa diretriz constitucional, qual das afirmações a seguir expressa de forma adequada a compreensão jurídica da cultura e do patrimônio cultural no Brasil? A) Reconhecimento jurídico vinculado à diversidade. B) Preservação restrita a bens tangíveis. C) Expressões culturais subordinadas à estética. D) Patrimônio cultural desvinculado da memória. E) Valorização condicionada à alta cultura. Na prática A compreensão dos direitos culturais como dimensão coletiva da cidadania se impõe como eixo fundamental para a análise jurídica das dinâmicas territoriais em sociedades plurais. A Constituição Federal (Brasil, 1988), ao reconhecer a cultura como um dos pilares da identidade nacional (artigo 216), institui a obrigação do Estado de promover sua preservação em todas as suas formas de expressão, compreendendo-a como patrimônio dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. Nesse sentido, o patrimônio cultural imaterial assume centralidade não apenas enquanto bem jurídico tutelado, mas também como prática social enraizada na memória coletiva e nas relações simbólicas de grupos específicos, exigindo políticas públicas de salvaguarda que considerem sua continuidade dinâmica. Paralelamente, a consolidação do direito à cidade, cuja formulação contemporânea encontra respaldo normativo no Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001), evidencia a interdependência entre justiça territorial e justiça cultural. O direito à cidade não se reduz ao acesso físico ao espaço urbano, mas envolve o reconhecimento das expressões culturais e dos modos de vida que ali se desenvolvem, como explicam Saule Júnior e Libório (2021). Em meio a esse cenário, os embates entre reestruturação urbana e práticas culturais populares revelam o potencial do direito como instrumento de mediação entre a lógica mercadológica, o poder público e os territórios simbólicos das comunidades. Neste Na Prática, você vai descobrir como os conhecimentos jurídico e intercultural podem convergir para a resolução de conflitos envolvendo direitos culturais. A imagem a seguir possui audiodescrição. Para acessar o recurso, clique aqui Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Saiba mais Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Ética, inclusão e interculturalidadeem educação Leia o artigo, cuja origem é uma inquietação sobre a frequente confusão em torno dos significados atribuídos aos termos ética, inclusão e interculturalidade. Embora pertencentes a campos conceituais distintos, essas categorias têm sido, de modo recorrente, utilizadas como se fossem equivalentes ou intercambiáveis. Tal imprecisão terminológica não apenas compromete a clareza dos discursos em que se inserem como também obscurece as especificidades epistemológicas e operacionais de cada uma, prejudicando sua aplicação crítica e contextualizada nos âmbitos acadêmico, educativo e social. Nesse material, você vai compreender melhor a distinção desses conceitos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Multiculturalismo e diversidade: uma análise crítica em dissertações voltadas para a educação Nesse artigo, confira uma análise de dissertações acadêmicas, com o objetivo de compreender de que modo as políticas de formação docente podem ser reconfiguradas a fim de favorecer práticas educacionais mais inclusivas e responsivas à complexidade cultural presente nos contextos escolares. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Lei no 13.445, de 24 de maio de 2017 Confira, na íntegra, a lei de migração que dispõe sobre direitos e deveres do migrante e do visitante, regula a entrada e estada no país e estabelece princípios e diretrizes para as políticas públicas para o emigrante. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Movimentos sociais na cultura digital e formação humana Nesse artigo, encontre e explore uma investigação dedicada a examinar o papel desempenhado pelos indivíduos engajados em movimentos sociais no contexto da cultura digital, bem como a maneira pela qual essa participação se articula com os processos de formação da cidadania e do desenvolvimento humano. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. A educação escolar na perspectiva da interculturalidade Na contemporaneidade, observa-se o acirramento das questões relacionadas à diversidade cultural que se expressam de modo crescente no tecido social. No cotidiano, a presença de distintos grupos socioculturais historicamente marginalizados e discriminados confronta a sociedade com desafios urgentes. Esse cenário evidencia a necessidade de uma proposta educativa que vá além de práticas excludentes e preconceituosas, as quais se revelam com frequência crescente no ambiente escolar, refletindo as dinâmicas sociais vigentes. Nesse artigo, explore uma pesquisa que surgiu da problematização desse contexto após a indagação sobre o papel e a relevância da educação intercultural no âmbito da formação escolar. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.