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Cultura e multiculturalismo
Apresentação
Conforme apontam Bulhões e Leão (2024), o multiculturalismo é comumente entendido como a 
convivência de múltiplas culturas em um mesmo espaço social ou territorial. Ainda que essa 
definição descreva uma dimensão visível do fenômeno, ela não contempla sua densidade histórica e 
sociológica. Pesquisadores da área propõem uma leitura mais aprofundada, que reconhece o 
multiculturalismo como resultado de processos históricos complexos, nos quais se articulam 
relações entre indivíduos e coletividades. Nessa perspectiva, trata-se de uma dinâmica social 
marcada por tensões, mediações e reconstruções identitárias que extrapolam a simples 
coexistência de diferenças culturais para se configurar como um elemento estruturante das 
interações sociais.
No Brasil, essa lógica adquire contornos particularmente significativos. A diversidade cultural que 
caracteriza o país decorre de uma trajetória histórica singular, em que se entrelaçam distintas 
matrizes — europeias, indígenas, africanas e afro-brasileiras —, formando uma composição 
identitária complexa e fluida, como afirmam Jesus e Silva (2021). Mais do que a justaposição de 
influências, o que se observa é uma trama contínua de intercâmbios e ressignificações que dá forma 
a um tecido cultural denso e heterogêneo.
Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar o ser humano enquanto ser cultural, 
compreender a relação e a distinção entre cultura e tradição, bem como a diversidade cultural 
brasileira. 
Bons estudos.
Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Identificar o homem enquanto ser cultural.•
Explicar a relação e a distinção entre cultura e tradição.•
Apresentar a diversidade e pluralidade cultural brasileira: cultura afro-brasileira, indígena e de 
imigrantes dos diversos continentes.
•
Infográfico
A educação, concebida como um direito universal e um dever estatal, deve ser promovida com o 
envolvimento ativo da sociedade como um todo, orientando-se à realização plena do potencial 
humano. No ordenamento jurídico brasileiro, esse direito detém o status de direito fundamental, 
conforme consta na Constituição Federal de 1988, de modo que o poder público deve garantir sua 
efetividade a todos os cidadãos, inclusive às comunidades tradicionais.
Ao considerar que a efetividade do direito à educação deve ser estendida ao povos indígenas, 
torna-se imprescindível a adoção de uma matriz interpretativa ancorada no paradigma do 
multiculturalismo, capaz de reconhecer e incorporar as especificidades culturais, linguísticas e 
epistemológicas no âmbito das políticas educacionais. De acordo com Oliveira, Carvalho e Urquiza 
(2023), essa guinada valoriza a alteridade como princípio estruturante dos direitos dos povos 
originários e fundamenta um preceito constitucional que orienta a formulação e implementação de 
uma educação específica, sensível às particularidades culturais, linguísticas e epistemológicas 
desses sujeitos históricos.
Neste Infográfico, você vai conferir alguns aspectos importantes sobre a efetivação do direito à 
educação.
A imagem a seguir possui audiodescrição. Para acessar o recurso, clique aqui
Aponte a câmera para o 
código e acesse o link do 
conteúdo ou clique no 
código para acessar.
 
Conteúdo do Livro
A natureza cultural do ser humano se revela na capacidade de comunicar, criar e transformar o 
mundo ao seu redor, como destacam Farias e Vetorazzi (2024). O empenho e a comunicação 
permitem modificar a natureza, aperfeiçoar formas de sobrevivência e desenvolver campos como o 
direito, a ciência, a arte e a tecnologia. Tais realizações decorrem do uso da razão, do trabalho e da 
lógica como fundamentos da ação humana.
Esse processo de constituição cultural ocorre sobretudo nas interações sociais, nas práticas 
linguísticas, nas manifestações simbólicas e nas tradições que se perpetuam entre gerações. É no 
compartilhamento contínuo de saberes, situado em contextos históricos e sociais específicos, que o 
ser humano se constitui como sujeito cultural, capaz de produzir, transmitir e ressignificar 
conhecimentos. De acordo com Vitti (2024), a língua, enquanto sistema social historicamente 
construído, permite a comunicação de pensamentos e a interação entre indivíduos dentro de uma 
comunidade, sendo fundamental na construção da identidade cultural e social.
No capítulo Cultura e multiculturalismo, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai 
estudar o ser humano enquanto um ser cultural, os conceitos e as relações entre cultura e tradição, 
além de alguns aspectos da diversidade e pluralidade cultural brasileira.
Boa leitura.
Os elementos gráficos deste capítulo possuem audiodescrição. Para acessar o recurso, 
clique aqui
FUNDAMENTOS DA 
SOCIOLOGIA E DA 
ANTROPOLOGIA
Carolina Bessa
Ferreira de Oliveira
Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 10 09/03/2018 16:56:47
Cultura e multiculturalismo
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
  Identificar o homem enquanto ser cultural.
  Explicar a relação e a distinção entre cultura e tradição.
  Apresentar a diversidade e pluralidade cultural brasileira: cultura afro-
-brasileira, indígena e de imigrantes dos diversos continentes.
Introdução
O estudo sobre a cultura e o multiculturalismo é fundamental para com-
preendermos o ser humano, as suas interações e o seu desenvolvimento 
nas diferentes sociedades. Como cultura, podemos identificar tudo aquilo 
que é produzido pelo ser humano, entendido como ser cultural; já o 
multiculturalismo remete à existência de diferentes culturas.
No caso do Brasil, observamos uma grande diversidade cultural. Neste 
capítulo, você vai ler sobre o homem — ser humano — enquanto ser 
cultural, compreender a relação e a distinção entre cultura e tradição, 
bem como estudar a diversidade cultural brasileira.
Homem enquanto ser cultural
O que caracteriza o homem — o ser humano — e o diferencia dos demais 
animais? Como podemos defi ni-lo? O aspecto cultural, a partir das interações 
e manifestações humanas, é, sem dúvida, a sua principal característica. Mas 
o que é cultura?
Segundo o autor François Laplantine, antropólogo francês, na obra Aprender 
antropologia (1989), a cultura pode ser compreendida como o próprio social 
considerado a partir das diferenças:
Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 1 09/03/2018 16:56:39
O social é a totalidade das relações (relações de produção, de exploração, de 
dominação [...]) que os grupos mantêm entre si dentro de um mesmo conjunto 
(etnia, região, nação [...]) e para com outros conjuntos, também hierarquizados. 
A cultura, por sua vez, não é nada mais que o próprio social, mas considerado 
dessa vez sob o ângulo dos caracteres distintivos que apresentam os compor-
tamentos individuais dos membros desse grupo, bem como suas produções 
originais (artesanais, artísticas, religiosas [...]) (LAPLANTINE, 1989, p. 120).
Nesse sentido, o autor afirma que a cultura distingue o ser humano dos 
demais seres, como, por exemplo, os animais. Enquanto sociedade, os ani-
mais também podem conviver e ter sociabilidade, mas a produção cultural, 
a comunicação, a troca e o trabalho são especificamente humanos, como 
citado a seguir:
[...] o que distingue a sociedade humana da sociedade animal, e até da socie-
dade celular, não é de forma alguma a transmissão das informações, a divisão 
do trabalho, a especialização hierárquica das tarefas (tudo isso existe não 
apenas entre os animais, mas dentro de uma única célula!), e sim essa forma 
de comunicação propriamente cultural que se dá através da troca não mais 
de signos e sim de símbolos, e por elaboração das atividades rituais aferentes 
a estes. Pois, pelo que se sabe, se os animais são capazes de muitas coisas, 
nunca se viu algum soprar as velas de seu bolo de aniversário (LAPLANTI-
NE, 1989, p. 121).
O ser humano é cultural, pois há uma comunicaçãoque é cultural, isto é, 
produzida pelos homens e entre eles, que transforma a natureza, o seu meio, 
aperfeiçoa meios de sobrevivência, desenvolve técnicas, como o direito, a 
arquitetura, a tecnologia, a música, a ciência, a arte, entre outros, por meio 
do uso da razão, do trabalho e da lógica. O desenvolvimento da cultura e 
do homem como ser cultural se dá, eminentemente, por meio da interação, 
das manifestações culturais, da linguagem, do processo de ensino e das 
tradições, que são passados entre gerações e grupos em um determinado 
contexto social.
Várias formas de diferença e desigualdade convivem na sociedade contem-
porânea. Ao longo de suas trajetórias de vida, os indivíduos se identificam 
e se diferenciam dos outros das mais diversas maneiras. [...] Os marcadores 
sociais da diferença são sistemas de classificação que organizam a experi-
ência ao identificar certos indivíduos com determinadas categorias sociais 
(ZAMBONI, 2015, p. 13).
Cultura e multiculturalismo2
Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 2 09/03/2018 16:56:40
Para saber mais sobre marcadores sociais, acesse o link 
abaixo ou o código ao lado:
https://goo.gl/6Kt12P
Diversas ciências se ocupam do estudo do homem enquanto ser cultural, das 
suas manifestações, distinções, interações e dos seus comportamentos, como 
é o caso da antropologia, da sociologia e da psicologia. Outras áreas — como 
arquitetura, letras, pedagogia e Direito — têm como objeto manifestações 
próprias do ser humano, como a linguagem escrita e falada, o processo de 
ensino e aprendizagem, o desenvolvimento de técnicas, estruturas e ocupação, 
bem como o universo jurídico, tomando o Direito como manifestação de uma 
cultura e sociedade, que se modifica ao longo do tempo.
No campo de estudo da antropologia, que é uma ciência que considera o homem em 
todas as suas dimensões, há uma área, ou ramo específico, que se ocupa de estudar 
as manifestações culturais dos seres humanos. Trata-se da antropologia cultural, 
que estuda as características que distinguem as condutas dos seres humanos e os faz 
identificar ou pertencer a uma mesma cultura, considerando os diferentes tempos e 
espaços de presença humana.
O seu principal meio de pesquisa e estudo é a observação direta dos comportamentos 
dos indivíduos, das suas interações com outras pessoas e com o meio em que vivem, 
o que inclui hábitos, costumes, rituais, transmissão de conhecimentos e adoção de 
normas de uma ou mais culturas. O termo aculturação é utilizado nos casos em que 
duas ou mais culturas entram em contato e desencadeiam mudanças em uma delas 
ou ambas, que podem adotar costumes reciprocamente. Ocorre, ainda, nos casos de 
imposição de uma cultura sobre a outra, como, por exemplo, em alguns processos 
de colonização de um povo sobre outro.
Cultura e tradição
A partir da compreensão do ser humano como ser cultural, verifi camos que o 
conceito de cultura é de fundamental importância, assim como o de tradição. Isso 
3Cultura e multiculturalismo
Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 3 09/03/2018 16:56:41
porque ambos se relacionam no que diz respeito à transmissão de conhecimento, 
práticas e comportamentos entre gerações. No entanto, há diferenças conceituais 
importantes na forma como se compreende cada categoria e as suas manifestações.
O Quadro 1 elucida a distinção entre cultura e tradição.
Cultura Tradição
O que é Do latim cultura, culturae, 
que significa “ação de 
tratar”, “cultivar” ou 
“cultivar a mente e os 
conhecimentos”. A palavra 
culturae se originou a partir 
de outro termo latino: 
colere, que quer dizer 
“cultivar as plantas” ou “ato 
de plantar e desenvolver 
atividades agrícolas”. 
A palavra tradição é mais 
dinâmica do que parece à 
primeira vista. Traditio, em 
latim, é a ação de entregar, 
de transmitir algo a alguém, 
de confiar algo valioso a 
outra pessoa. Uma pessoa 
tradicional é aquela que 
recebeu (e precisar transmitir 
depois) um conhecimento, 
uma herança ou uma 
responsabilidade do passado. 
Como pode 
se manifestar
Com o passar do tempo, a 
palavra cultura foi colocada 
de modo análogo entre o 
cuidado na construção e 
tratamento do plantio, com 
o desenvolvimento das 
capacidades intelectuais e 
educacionais das pessoas.
Cultura popular, cultura 
organizacional e 
antropologia cultural.
A tradição revela um conjunto 
de costumes, crenças, 
práticas, doutrinas, leis, que 
são transmitidos de geração 
em geração, em dado grupo 
social, e que permite a 
continuidade de uma cultura 
ou de um sistema social.
No direito, a tradição 
consiste na entrega real de 
uma coisa para efeitos da 
transmissão contratual da 
sua propriedade ou da sua 
posse entre pessoas vivas. 
A situação jurídica resulta 
de uma situação de fato: a 
entrega. Entretanto, a tradição 
poderá não ser material, 
mas apenas simbólica.
Tradição religiosa. 
Quadro 1. Distinção entre cultura e tradição.
Cultura e multiculturalismo4
Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 4 09/03/2018 16:56:43
Os termos cultura e tradição possuem diferentes usos na linguagem falada, coloquial. 
É importante observar que, no campo da sociologia e antropologia, possuem uma 
conceituação própria, específica, como produto da manifestação e construção humana, 
constituindo-se um conjunto de bens materiais e imateriais produzidos.
Com relação à palavra cultura, por exemplo, por vezes fazemos referência, na 
oralidade, a uma sociedade ou uma determinada época: a cultura indiana ou a cultura 
dos antigos. Ademais, falamos que algo é cultural quando diz respeito a determinado 
grupo, que o torna distinto e específico, diferente, e que permite ser reconhecido, 
como a cultura sertaneja ou cultura erudita. Outra expressão é choque cultural para 
se referir a diferentes culturas ou pessoas de locais diferentes que se encontram e 
intercambiam, lembrando que não podemos comparar culturas, mas evidenciar as suas 
diferenças. De forma popular, a palavra cultura também pode ser utilizada como algo 
que faz referência ao conhecimento, ao que é elevado, desenvolvido e/ou artístico.
A palavra tradição, por sua vez, remete a coisas remotas, antigas, que dizem respeito 
ao passado e, em boa parte das ocasiões em que é pronunciada, é associada a algo 
obsoleto ou costumeiro em um determinado grupo ou tempo.
A relação entre cultura e tradição coloca-se a partir de uma visão de mani-
festação humana e comportamento tipicamente do homem, como as lendas, as 
crenças e os costumes. Os elementos da tradição — como formas de se vestir, 
ritos de passagem, organização de trabalhos, cerimônias e religiões — podem 
passar a fazer parte de uma dada cultura. Por isso, a cultura se refere, de modo 
geral, aos modos de vida de uma sociedade ou grupo, pois inclui tanto os 
aspectos materiais e tangíveis (como símbolos, objetos e tecnologias) quanto 
imateriais ou intangíveis (como crenças, valores e ideias).
Além disso, o costume é considerado uma fonte do Direito, ao lado de 
outras, como a lei e a jurisprudência, lembrando que o Direito se modifica à 
medida que a sociedade e o homem também são modificados. Assim, no campo 
do Direito, os fatores culturais e da tradição estão relacionados à evolução do 
Direito e às suas fontes.
De acordo com Sergio Cavalieri Filho (2015), ao considerar a concepção 
sociológica do Direito como produto de múltiplas influências sociais, viven-
ciamos regras sujeitas a constantes modificações, porque se originam dos 
grupos sociais, que também se transformam ao longo do tempo. Assim, entre 
os principais fatores que concorrem para a evolução do direito, o autor elenca:
  fatores econômicos;
  fatores políticos;
5Cultura e multiculturalismo
Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 5 09/03/2018 16:56:44
  fatores culturais;
  fatores religiosos.
Em relação aos fatores culturais, o autor afirma que:
Cada povo tem sua peculiaridade, sua tendência ou dom natural. A Grécia, 
por exemplo, notabilizou-sepela arte, pela cultura; os hebreus pela religião; os 
fenícios pela navegação; Roma pelo direito. Pois o direito de cada um desses 
povos reflete o aspecto cultural em que mais se desenvolveram, e quando a 
cultura de um é colocada em contato com a do outro, há influências recíprocas 
sobre o direito de cada um. A conquista da Grécia, como é sabido por todos, 
exerceu influência decisiva, não apenas nas artes e na literatura romanas, mas 
também nas suas instituições jurídicas. [...] A maior evidência de ser o Direito 
uma manifestação de cultura social, um fenômeno cultural, está no fato de 
surgirem novos ramos do Direito à medida que se expande o mundo cultural 
do povo. Falamos hoje em Direito Espacial, Nuclear, das Telecomunicações 
etc. [...] (CAVALIERI FILHO, 2015, p. 56-57).
Diferentes matrizes culturais no 
Brasil: diversidade e pluralidade 
afro-brasileira, indígena e de 
imigrantes dos diversos continentes
O Brasil é formado por diferentes matrizes culturais. Os diferentes grupos étni-
cos, tanto os que aqui já habitavam antes da chegada dos colonizadores quanto 
os próprios colonizadores, passaram a conviver e a constituir a população.
Em linhas gerais, podemos dizer que a população do Brasil é formada por 
indígenas, europeus e negros — africanos e afro-brasileiros. Os membros 
da comunidade africana foram trazidos violentamente ao Brasil, durante 
o processo de colonização, e submetidos a trabalhos forçados e escravos. 
Muitos resistiram e imprimiram a sua cultura no Brasil, como a comida, 
música e arte.
Com relação aos imigrantes, a presença de europeus se deu na formação 
da população brasileira por meio dos portugueses colonizadores, além da 
chegada no século XIX de populações italianas e asiáticas — cuja maioria 
veio em busca de melhores formas de vida e trabalho.
A partir dessa formação, a cultura brasileira recebeu diversas influências 
e matrizes culturais que originaram a diversidade e a pluralidade presentes 
na história e no contemporâneo brasileiro. Essa formação diversificada 
Cultura e multiculturalismo6
Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 6 09/03/2018 16:56:45
pode ser identificada nas diferentes manifestações culturais presentes 
no País, nos traços presentes na população e nas diferenças de culturas e 
tradições regionais.
A Constituição Federal de 1988, ao tratar, no art. 215, do direito à cul-
tura, visou proteger as diferentes manifestações e patrimônios culturais 
que integram a formação social do País, ao afirmar que “o Estado apoiará e 
incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais” e que “pro-
tegerá as manifestações das culturas populares, indígenas e afro-brasileiras, 
e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional” 
(BRASIL, 1988).
Além disso, a Carta Magna reconhece como patrimônio cultural brasileiro 
os bens materiais e imateriais, como o próprio conceito de cultura nos informa, 
incluindo ações e memória dos diferentes grupos em relação às formas de 
expressão, modos de criar e viver, criações científicas e artísticas, obras, 
objetos, documentos e edificações, entre outros, definidos no art. 216.
Os Centros de Tradições Gaúchas e os Centros de Tradições Nordestinas espalhados 
pelo Brasil são exemplos de instituições culturais que visam manter registros, atividades 
e práticas voltados a tradições específicas da cultura brasileira, seja no campo da 
música, da gastronomia, da religião ou da arte em geral. Outro exemplo é o Museu 
da Imigração do Estado de São Paulo, que mantém acervos visando à preservação da 
memória das pessoas que chegaram ao Brasil e ao aprofundamento sobre o processo 
migratório, valorizando as diferenças e o encontro das múltiplas histórias e origens.
Há, também, o Museu Afro-Brasil, que destaca a perspectiva africana na formação 
do patrimônio, da identidade e da cultura brasileira, e o Memorial da América Latina, 
um espaço de acervo e atividades concebido para promover a integração cultural e 
política dos povos de língua portuguesa e hispano-americana.
Ainda, o Museu Afro-digital da Memória Africana e Afro-brasileira disponibiliza docu-
mentos digitais, visando promover o reconhecimento e a preservação do patrimônio 
africano e afro-brasileiro em formato digital para reafirmar a sua presença na cultura 
nacional. Acesse os links:
  Centro de Tradições Nordestinas — https://goo.gl/CKbem2
  Museu da Imigração do Estado de São Paulo — https://goo.gl/r1zxB
  Museu Afro — https://goo.gl/9seQ1
  Memorial Espaço Público de Cultura — https://goo.gl/V5p95
  Museu Afro-digital — https://goo.gl/CRx3dM
7Cultura e multiculturalismo
Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 7 09/03/2018 16:56:45
O antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro, ao abordar a história do Brasil e 
a formação do povo brasileiro, apresenta aspectos-chave para compreender a 
formação étnica e cultural do Brasil. É preciso compreender que, para além 
da rica mistura cultural, também ocorreu um processo histórico violento 
e opressor em relação às etnias indígenas e à população negra — povos 
africanos e afro-brasileiros. Ambos foram escravizados e tiveram oprimidas 
as suas culturas, por meio de estratégias de separação de populações que 
não puderam preservar o seu patrimônio cultural.
Assim, o africano que chegou forçado ao Brasil teve a sua identidade 
negada e marginalizada. Para o antropólogo, a contribuição da cultura negra 
para a identidade brasileira estaria principalmente nas crenças religiosas, na 
música e na gastronomia. A mistura cultural, de referências e influências no 
Brasil, gerou uma nova identidade — brasileira — a partir de mesclas, como 
com os afro-brasileira, a fim de acolher as variadas populações, mas que 
passou pela anulação e indiferenciação das especificidades culturais e étnicas.
Por fim, vale destacar que Darcy Ribeiro (1995) aborda a presença de cinco 
grandes culturas no País, como:
  o Brasil crioulo, influenciado pelo continente africano;
  o Brasil caboclo, influenciado pelos indígenas;
  o Brasil sertanejo, influenciado pelo sertão;
  o Brasil caipira, influenciado pelo centro-oeste e sudeste;
  o Brasil sulino, influenciado por mamelucos, gaúchos e cultura europeia.
Cultura e multiculturalismo8
Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 8 09/03/2018 16:56:46
BRASIL. Constituição. (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Dispo-
nível em: . Acesso em: 31 jan. 2018.
CAVALIERI FILHO, S. Programa de sociologia jurídica. Rio de Janeiro: Forense, 2015.
LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 1989.
RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia 
das Letras, 1995.
ZAMBONI, M. Marcadores sociais. 2015. Disponível em: . 
Acesso em: 31 jan. 2018.
Leituras recomendadas
GOMES, N. L. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no 
Brasil: uma breve discussão. 2012. Disponível em: . Acesso 
em: 31 jan. 2018.
SILVÉRIO, V. R. (Coord.). Síntese da coleção história geral da África: pré-história ao 
século XVI. Brasília: Unesco, 2013. Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018.
SILVÉRIO, V. R. (Coord.). Síntese da coleção história geral da África: século XVI ao sé-
culo XX. Brasília: Unesco, 2013. Disponível em: . Acesso em: 31 jan. 2018.
WOLKMER, A. C.; LEITE, J. R. M. Os “novos” direitos no Brasil: natureza e perspectivas. 
São Paulo: Saraiva, 2003.
9Cultura e multiculturalismo
Cap_2_Fundamentos_da_Sociologia_e_da_Antropologia.indd 9 09/03/2018 16:56:46
Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para 
esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual 
da Instituição, você encontra a obra na íntegra.
 
Dica do Professor
A formaçãodo povo brasileiro e de sua identidade nacional decorre de um processo histórico e 
social profundamente atravessado pela confluência de distintas matrizes culturais — indígenas, 
africanas, afro-brasileiras, europeias e de imigrantes de diversas origens, conforme apontam Jesus e 
Silva (2021). Essa diversidade constitutiva moldou uma cultura cuja identidade não se apresenta 
como unitária ou autêntica no sentido essencialista, mas como um mosaico plural, construído por 
múltiplos grupos sociais no decorrer de diferentes períodos históricos.
Essa pluralidade identitária reflete a convivência entre diferentes heranças culturais e os conflitos, 
as tensões e assimetrias de poder que marcaram e marcam a história brasileira. A cultura nacional, 
nesse contexto, não pode ser compreendida como um bloco homogêneo, mas como um campo 
dinâmico de disputas simbólicas, em que diferentes grupos anseiam por visibilidade, 
reconhecimento e pertencimento.
Nesta Dica do Professor, você vai explorar os principais aspectos dessa diversificada composição 
cultural, que é fundamental para a compreensão do multiculturalismo, assim como a discussão 
sobre o mito da democracia racial no Brasil.
As imagens do vídeo a seguir possuem audiodescrição. Para acessar o recurso, 
clique aqui
Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar.
Exercícios
1) 
A cultura é frequentemente apontada como o elemento que singulariza a existência humana. 
Laplantine (1989) propõe que, embora existam traços de organização social e comunicação 
entre os animais, o que distingue de fato a sociedade humana é a capacidade de construir 
significados, conferindo sentido às ações e aos vínculos sociais. 
Considerando essa perspectiva, analise o cenário a seguir:
Uma antropóloga observa um grupo humano celebrando uma colheita de cereais. Nesse 
contexto, há troca de presentes simbólicos, discursos que remetem à ancestralidade e 
práticas coletivas que reforçam valores compartilhados. Ela percebe que, mesmo sem 
utilidade prática imediata, essas ações têm profundo valor para o grupo.
Com base nessa observação e nas ideias de Laplantine, qual elemento está mais diretamente 
ligado à especificidade da cultura humana? Assinale a alternativa correta: 
A) Hierarquia funcional estruturada. 
B) Especialização por competências. 
C) Transmissão genética de saberes.
D) Comunicação simbólica ritualizada. 
E) Cooperação em atividades grupais.
O ser humano é essencialmente cultural, pois transforma seu meio com a razão, a linguagem, 
o trabalho e a interação social. No decorrer de suas trajetórias, os indivíduos constroem sua 
identidade na relação com o outro, e isso ocorre dentro de sistemas de classificação que 
atribuem significados sociais às diferenças.
Com base nesse entendimento, analise a seguinte situação:
Durante pesquisa etnográfica em um centro urbano, um grupo de pesquisadores observa 
como as pessoas se organizam em torno de elementos simbólicos comuns, como a religião, a 
estética e a culinária. Ao mesmo tempo, percebem que certos grupos enfrentam obstáculos 
no acesso a serviços públicos, sendo frequentemente associados a categorias como “raça”, 
“gênero” ou “território”.
Com base nessa observação, qual conceito teórico contribui de forma mais precisa para 
compreender a articulação entre identidade, cultura e desigualdade nessa experiência? 
2) 
Assinale a alternativa correta: 
A) Representações sociais estruturadas.
B) Comunicação de ordem técnica.
C) Patrimônio cultural comunitário. 
D) Marcadores sociais da diferença.
E) Interações discursivas informais. 
3) 
Os termos "cultura" e "tradição" são frequentemente empregados no senso comum com 
significados variados. Contudo, nas ciências sociais, esses conceitos ganham contornos 
específicos. 
Considere o seguinte cenário: 
Em pesquisa de campo em uma comunidade do interior, uma equipe interdisciplinar observa 
um festival anual em que famílias locais encenam narrativas antigas, utilizam vestimentas 
típicas e preparam alimentos conforme receitas transmitidas oralmente. Durante as 
entrevistas, os moradores referem-se ao evento como uma forma de “manter a tradição 
viva”, mas também como um momento de “celebração da cultura local”, aberto a adaptações 
e influências externas.
 Com base nesse contexto e nos conceitos antropológicos e sociológicos de cultura e 
tradição, qual afirmação expressa corretamente a leitura teórica da situação?
A) Tradição indica costumes populares.
B) Cultura expressa identidade coletiva. 
C) Tradição exclui mudanças culturais.
D) Cultura preserva formas fixas.
E) Tradição rompe com o presente. 
Na perspectiva sociológica do Direito, entende-se que as normas jurídicas não se originam 
exclusivamente da legislação formal, mas também de influências sociais mais amplas. Sérgio 
Cavalieri Filho (2015) aponta que a evolução do Direito está relacionada a fatores 
econômicos, políticos, culturais e religiosos. Nessa abordagem, costumes e tradições são 
considerados expressões culturais que contribuem para a produção e transformação do 
Direito no decorrer do tempo.
4) 
Com base nesse entendimento, qual afirmativa representa corretamente a função dos 
costumes no campo jurídico?
A) Os costumes são registros morais fixos.
B) A tradição jurídica bloqueia mudanças.
C) Os fatores culturais moldam a legislação. 
D) A jurisprudência substitui práticas sociais.
E) A lei ignora valores comunitários. 
5) 
A Constituição Federal de 1988 inovou ao estabelecer a cultura como um direito 
fundamental e bem coletivo a ser protegido pelo Estado. Com base nessa diretriz 
constitucional, qual das afirmações a seguir expressa de forma adequada a compreensão 
jurídica da cultura e do patrimônio cultural no Brasil?
A) Reconhecimento jurídico vinculado à diversidade. 
B) Preservação restrita a bens tangíveis.
C) Expressões culturais subordinadas à estética.
D) Patrimônio cultural desvinculado da memória.
E) Valorização condicionada à alta cultura.
Na prática
A compreensão dos direitos culturais como dimensão coletiva da cidadania se impõe como eixo 
fundamental para a análise jurídica das dinâmicas territoriais em sociedades plurais. A Constituição 
Federal (Brasil, 1988), ao reconhecer a cultura como um dos pilares da identidade nacional (artigo 
216), institui a obrigação do Estado de promover sua preservação em todas as suas formas de 
expressão, compreendendo-a como patrimônio dos diferentes grupos formadores da sociedade 
brasileira. Nesse sentido, o patrimônio cultural imaterial assume centralidade não apenas enquanto 
bem jurídico tutelado, mas também como prática social enraizada na memória coletiva e nas 
relações simbólicas de grupos específicos, exigindo políticas públicas de salvaguarda que 
considerem sua continuidade dinâmica. 
Paralelamente, a consolidação do direito à cidade, cuja formulação contemporânea encontra 
respaldo normativo no Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257/2001), evidencia a interdependência 
entre justiça territorial e justiça cultural. O direito à cidade não se reduz ao acesso físico ao espaço 
urbano, mas envolve o reconhecimento das expressões culturais e dos modos de vida que ali se 
desenvolvem, como explicam Saule Júnior e Libório (2021). Em meio a esse cenário, os embates 
entre reestruturação urbana e práticas culturais populares revelam o potencial do direito como 
instrumento de mediação entre a lógica mercadológica, o poder público e os territórios simbólicos 
das comunidades. 
Neste Na Prática, você vai descobrir como os conhecimentos jurídico e intercultural podem 
convergir para a resolução de conflitos envolvendo direitos culturais.
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