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25 MARIANA ROCHA DE MARCHI BENZODIAZEPÍNICOS: USO CRÔNICO, DEPENDÊNCIA, COM FOCO NO DESMAME CORRETO E INCORRETO Teixeira De Freitas - Ba 2022 MARIANA ROCHA DE MARCHI BENZODIAZEPÍNICOS: USO CRÔNICO, DEPENDÊNCIA, COM FOCO NO DESMAME CORRETO E INCORRETO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Anhanguera Educacional, como requisito parcial para a obtenção do título de graduado em Farmácia. Orientador: Rafaela Sirtoli Teixeira de Freitas-Ba 2022 MARIANA ROCHA DE MARCHI BENZODIAZEPÍNICOS: USO CRÔNICO, DEPENDÊNCIA, COM FOCO NO DESMAME CORRETO E INCORRETO Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Anhanguera Educacional, como requisito parcial para a obtenção do título de graduado em Farmácia. BANCA EXAMINADORA Prof(a). Rafaela Sirtoli Prof(a). Me. Jackeline Pires de Souza Prof(a). Esp. Laise Moura Orlandi Teixeira de Freitas – BA de 27 Novembro de 2022 Dedico este trabalho... “Como não dedicar esse momento àqueles que são a minha rocha, a minha fortaleza, onde encontro força todos os dias para continuar, minha filha Manuella, meus pais, meus irmãos, minha família. AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar, а Deus, por nunca ter me desamparado fazendo com que meus objetivos fossem alcançados, durante todos os meus anos de estudos. A minha filha Manuella, meus pais e irmãos, que me incentivaram nos momentos difíceis e compreenderam a minha ausência enquanto eu me dedicava à realização desse sonho. Aos professores, por todos os conselhos, pela ajuda e pela paciência com a qual guiaram o meu aprendizado. A todos que participaram, direta ou indiretamente do desenvolvimento deste trabalho de pesquisa, enriquecendo o meu processo de aprendizado. A faculdade Pitágoras que foi essencial no meu processo de formação profissional, pela dedicação, e por tudo o que aprendi ao longo dos anos do curso. Rocha de Marchi, Mariana. BENZODIAZEPÍNICOS: Uso crônico, dependência, com foco no desmame correto e incorreto. 2022. Pág. 25. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Farmácia) – Unidade: Pitágoras de Teixeira de Freitas - BA, 2022. RESUMO Para este trabalho foi realizado um levantamento de dados científicos, baseado na análise de artigos relacionados ao assunto. As bases de dados pesquisadas foram sem restrição de tipo de publicação. A dependência também é um fator que está diretamente relacionado ao alto consumo, podendo se manifestar em diferentes graus. A dose, tempo de uso e a potência do Benzodiazepínico são fatores determinantes neste grau de severidade, sendo a dependência um risco inerente a qualquer usuário desta classe de medicamentos. Palavras-chave: abuso, benzodiazepínicos, dependência, uso.5 Rocha de Marchi, Mariana. BENZODIAZEPINE: Correct use, dependence, focusing on correct and incorrect weaning. 2022. Page 25. Course Completion Work (Graduate in Pharmacy) – Unit: Pitágoras de Teixeira de Freitas - BA, 2022. ABSTRACT For this work a survey of scientific data was used, based on analysis of articles related to the subject. The databases searched were Google Scholar, PubMed, SciELO, BIREME and Science Direct, without limit of years and restricted type of publication, the dependence is also a factor which is directly related to the high consumption and can be manifested in different degrees. The dose, duration of benzodiazepine use and its power are determining factors in severity, and the dependence is an inherent risk to any user of this class of drugs. With this study it was possible to prove the existence of a growing consumption and an abuse of benzodiazepines, and the factors which trigger the addictive for this class of drugs. Key-words: abuse, benzodiazepine, dependence, use SUMÁRIO introdução.......................................................................................................09 2. Clonazepam e seus efeitos colaterais. 11 3. prescritos e indicações do benzodiazepínicos 15 4. a importância do desmame correto e incorreto 19 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................22 REFERÊNCIAS 24 8 INTRODUÇÃO Este trabalho de conclusão de curso visa apresentar sobre benzodiazepínicos: uso crônico, dependência, com foco no desmame correto e incorreto. O uso de medicamentos que causam alterações no sistema nervoso tornou-se crescente nas últimas décadas, podendo ou não produzir reações no corpo e na mente. Grande parte da população faz uso de algum psicotrópico e principalmente aqueles que são legais. O clonazepam está entre um dos mais prescritos no mundo, sendo que 10% da população teve contato com o medicamento por ano, com estimativas de que 1 a 3% já os tenha consumido regularmente por mais de um ano (FORSAN, 2010; CARVALHO, 2017). Dessa forma, o consumo excessivo de medicamentos pela população é considerado um problema de saúde pública? Descrever o consumo de clonazepam e seus efeitos colaterais principalmente na memória e cognição. Teve-se como objetivo geral avaliar o consumo de benzodiazepínicos e seus efeitos colaterais principalmente na memória e cognição, incentivando e conscientizando os profissionais a prescrever estes medicamentos de maneira racional. Diante disso, o presente estudo pretende discorrer sobre o desmame correto e incorreto. E como objetivos específicos foram: A) Verificar a prevalência do uso crônico de clonazepam; B) Descrever quais são prescritos e indicações do benzodiazepínicos; C) Conscientizar sobre a importância do desmame correto e incorreto. Espera-se que este trabalho sirva como referência e instigue a necessidade de outros estudos sobre esta temática à comunidade científica. Este estudo trata-se de um estudo documental com fundamentação bibliográfica, composta por dados da dispensação do medicamento obtidos na Anvisa, pesquisa em artigos e revistas científicas relacionados à temática e associando ao curso de farmácia. Objetivou-se discutir o uso indiscriminado de clonazepam e demonstrar a importância da assistência do farmacêutico. Para o desenvolvimento desta pesquisa, foram utilizadas como fonte de dados às contribuições científicas da psiquiatria, saúde mental, com materiais já existentes sobre o tema abordado, analisando e avaliando as contribuições para auxiliar a compreensão do problema objeto da investigação. Quanto aos objetivos, o trabalho foi fundamentado em pesquisa explicativa, pois tem como finalidade identificar os fatores que contribuem para a ocorrência dos fenômenos. Esse tipo de pesquisa é a que mais engloba a realidade, pois vai a busca do porquê das coisas, as suas razões (GIL, 2007). Estudos recentes comprovam o alto índice de prescrição de medicamentos inapropriados na Atenção Primária de Saúde em diferentes localidades do Brasil. A sociedade contemporânea além de cultuar a felicidade como uma obrigação para a normalidade, vê problemas existenciais e angústias como ameaças que devem ser rapidamente silenciadas, de forma a eliminar o sofrimento psíquico (FERREIRA, 2018). Com essa prática, essa condição contribui para o atual aumento exacerbado de transtornos mentais, sobretudo transtornos de ansiedade na população (ANDRADE et al., 2019). Tal contexto se tornou um importante problema de saúde pública (LIRA et al., 2014; PERUCH, 2018; MANGOLINI et al., 2019). Dentre os fatores associados que podem elevar o risco do desenvolvimento de transtornos de ansiedade tem-se: traumas na infância, pessoas que testemunharam eventos traumáticos ao longo da vida e condições crônicas de saúde geradoras de constante preocupação com a saúde e com o futuro. Além disso, situações estressantes rotineiras do dia a dia, em longo prazo, podem contribuir para o desenvolvimento desses transtornos (ANDRADE et al., 2019). 2. Clonazepam e seus efeitos colaterais Clonazepam é um estimulante de GABA, um neurotransmissor inibidor neurossináptico, que tem sua atuação através do controle da abertura dos canais de cloro (Cl-),portanto, há entrada de carga negativa nas células e ocorre a diminuição da despolarização, inibindo assim as sinapses, são geralmente utilizados na forma de comprimidos pela via oral, e líquidas. (LOPES, 2019; SILVA, 2003). O medicamento possui como principal propriedade farmacológica inibição leve das funções do sistema nervoso central (SNC), portanto, permite o uso terapêutico como anticonvulsivante, sedação, relaxamento muscular e efeito ansiolítico. Clonazepam possui rápida absorção, com média de uma a quatro horas para obter máxima concentração plasmática, uma meia-vida longa de aproximadamente de 30 a 40 horas, 90% de biodisponibilidade, uma alta afinidade com proteínas plasmáticas com cerca de 82% a 86%. É metabolizado pelas enzimas do citocromo P-450 e cerca de 70% eliminado na sua forma inativa através da filtração glomerular, os outros 30% são eliminados pelas fezes. (CLONAZEPAM BULA; ANDREATINI, 2001; MENDONÇA, 2005). Segundo a análise das falas das entrevistas por meio da Técnica de Análise de Conteúdo Temático Categorial (SILVA; FOSSÁ, 2015), foi possível compreender que os principais fatores que induziram o uso de benzodiazepínicos se relacionaram com a busca da anestesia emocional como forma de lidar com os problemas vivenciados e a consequente e necessária forma de induzir o sono durante a noite. O consumo desses medicamentos foi mantido por longos períodos, de forma irracional. Nesse sentido, são apresentados a seguir as principais categorias de fatores que motivaram as pessoas a usarem benzodiazepínicos e as percepções desses indivíduos sobre o uso do medicamento. Sabe-se que no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), os números de categorias de diagnósticos se multiplicaram ao longo do tempo. Esse aumento expressivo se relaciona com o processo ativo da medicalização (SOALHEIRO; MOTA, 2014). Nesse contexto, cada vez mais pessoas estão procurando por medicamentos psicofármacos para lidar com o sofrimento cotidiano. Essa prática caracteriza a medicalização da saúde mental, isto é, o uso de medicamentos para anestesiar sentimentos e certos comportamentos de forma a buscar o bem-estar físico, mental e social (ZANELLA et al., 2016; AZEVEDO, 2019). Com a concepção de que toda forma de sofrimento deve ser silenciada ou medicada (SOALHEIRO; MOTA, 2014). Dentre esses medicamentos, destacam-se os benzodiazepínicos, fármacos indicados para o tratamento de transtornos de ansiedade em curto prazo. Esses fármacos estão entre os mais utilizados no mundo todo, principalmente em transtornos de ansiedade e distúrbios de sono (LIRA et al., 2014; XAVIER et al., 2014; CONSUELO et al., 2015; BIGAL, 2016; CRUZ, 2016; FRIDMAN, 2018; POTOCNJAK et al., 2018). Com o passar dos anos, notou-se que esses fármacos, quando utilizados por período prolongado, apresentavam efeitos colaterais, tais como: sonolência diurna, tontura, déficit de memória, desordens psicomotoras, além de desenvolvimento de dependência e tolerância a esses medicamentos. Com isso, sua utilização se tornou uma grande preocupação de saúde pública (FIRMINO et al., 2011; FIORELLI; ASSINI, 2017. De acordo com Silva (1999), as benzodiazepinas substituíram largamente os barbitúricos nas suas utilizações. Ao contrário daqueles, não têm ação depressora do centro respiratório, sendo por isso de uso mais seguro, além de terem maior especificidade sobre a sintomatologia ansiosa. · Ansiedade simples ou secundária; · Insônias; · Convulsões; · Epilepsia: só algumas; · Indução da hipnose; · Delirium tremens; · Como adjuvante na indução da anestesia geral; · Em procedimentos médicos invasivos para acalmar o doente (endoscopia); · Como relaxante muscular. Os principais efeitos colaterais desses fármacos são sedação, diminuição da atividade psicomotora, prejuízo da memória, desinibição paradoxal e comprometimento cognitivo (RANG, 2012). Porém, esses sintomas passam rapidamente com o aparecimento da tolerância, que consiste no estado de adaptação que se desenvolve com o uso repetido, sendo necessário o aumento gradual da dose (LIMA, 2004). O uso de BZDs com álcool e outras drogas depressoras do SNC podem aumentar esses efeitos colaterais, como foi citado anteriormente (GRAEFF, 2005; LEONARD, 2006). O prejuízo da memória está ligado à memória anterógrada, pois afeta a informação assimilada após a administração. Todos os BZDs causam este efeito, embora o início, magnitude e duração variem de fármaco para fármaco (LIMA, 2004; GRAEFF, 2005). Os BZDs prejudicam o desempenho psicomotor, a atenção e a vigilância, interferindo em atividades que exigiam precisão e rapidez de reflexos. Há evidências de que esta piora no desempenho psicomotor causada pelo uso de BZDs está associada ao número de acidentes automobilístico, tanto pelo efeito sedativo quanto 21 associações com outras drogas (GRAEFF, 2005; KASSAM e PATTEN, 2006). Apesar de serem fármacos com menor risco de superdosagem em relação a outros fármacos ansiolítico-hipnóticos, os BZDs associados a outros depressores do SNC, principalmente o álcool, podem causar depressão respiratória grave ou até causar a morte (LIMA, 2004). Porém, os BZDs possuem um antagonista eficaz para neutralizar os efeitos de superdosagem aguda, o flumazenil (RANG, 2012). Para atingir o objetivo proposto, realizou-se uma revisão sistemática da literatura através de um levantamento exclusivamente eletrônico nas bases de dados utilizadas foram coletadas nas seguintes plataformas: Scientific Electronic Library Online (SCIELO), Periódicos Capes, Pubmed, Google Acadêmico, Biblioteca Virtual de Saúde (BVS). Entende-se através deste estudo, que o uso de clonazepam está em um nível preocupante de acordo com as pesquisas utilizadas. A busca por medicamentos que aliviam os sintomas de problemas de saúde mental e a falta de informações suficientes tem gerado um uso indiscriminado, trazendo como principal consequência a dependência. Acredita-se que o farmacêutico deve ter conhecimento e preparo suficiente para atuar diminuindo o uso de clonazepam, junto com a equipe multiprofissional. É necessário um olhar minucioso pelos profissionais da saúde, fornecendo as orientações necessárias aos pacientes, principalmente quando se trata de substâncias relacionadas com o SNC. Nesse sentido, um melhor conhecimento sobre a ação desse medicamento como causador de dependência química, bem como a participação do profissional de farmacêutico, podem contribuir significativamente prevendo e minimizando efeitos danosos, desenvolvendo novas estratégias e programando ações preventivas e eficazes, fundamentadas no conhecimento científico, fornecendo informações sobre o modo correto de utilizar o medicamento, bem como os males que os mesmos podem acarretar para a saúde, trata-se de estratégias para minimizar o uso incorreto do medicamento, buscando a melhoria da qualidade de vida dos pacientes, com ênfase na segurança e bem-estar. 3. prescritos e indicações do benzodiazepínicos Os ansiolíticos-hipnóticos do grupo dos benzodiazepínicos são prescritos com grande frequência para adultos por serem eficazes em quadros de ansiedade e bons indutores do sono (BRASIL & BELISÁRIO FILHO, 2000). Vários fatores contribuem para o uso irracional de ansiolíticos benzodiazepínicos. Em um estudo realizado no município de São Paulo foram entrevistadas 19 pessoas, sendo eles profissionais de saúde, médicos de diferentes especialidades, psicólogos, agentes da vigilância sanitária, farmacêuticos e usuários de benzodiazepínicos. Entre os usuários, haviam cinco pacientes crônicos, que consumiam a medicação entre o período de dois à mais de 20 anos . Os pacientes no estudo relataram não terem sido alertados sobre o tempo total de tratamento ao iniciar a administração do medicamento. Observaram-se queixas na falta de orientação médica sobre os riscos da terapia com benzodiazepínicos (ORLANDI & NOTO, 2005). Um fator que parece favorecer a popularidade dos benzodiazepínicos é o preço, conforme a afirmação de uma das usuárias entrevistadasno trabalho: ―Não tem nada mais barato (usuária de 68 anos). Os profissionais confirmam a ideia de que o baixo custo seria um dos fatores que propicia a banalização do uso desses medicamentos. Pacientes apontaram duas principais funções para o uso de benzodiazepínicos: o tratamento dos distúrbios do sono e o tratamento dos transtornos da ansiedade. Os médicos descreveram dois perfis predominantes de usuários: idosos que buscam o efeito hipnótico da medicação e mulheres de meia idade que buscam o efeito ansiolítico (ORLANDI & NOTO, 2005). Quanto à dependência causada por benzodiazepínicos, nota-se os fatores: idade maior que 45 anos; consumo por período maior que um ano; a farmacologia da droga; fatores intrínsecos do paciente; distúrbios de personalidade; disforia crônica; insônia crônica; doenças crônicas; história prévia de dependência a substâncias. A dependência a alguns benzodiazepínicos pode desenvolver-se em dias ou semanas. Os principais sintomas de descontinuação do uso são geralmente opostos ao efeito terapêutico esperado da droga ou é uma intensificação da recorrência dos sintomas originais. O rebote é o retorno do sintoma original, só que mais intenso, sendo transitório. A recorrência (ou recaída) apresenta o mesmo padrão anterior de intensidade e apresentação dos sintomas, e é mais persistente. A síndrome de abstinência após a descontinuação do uso da substância consiste, portanto, no aparecimento de novos sinais e sintomas e piora dos pré-existentes (POYARES et al., 2005). Orlandi & Noto (2005), notaram que em relação ao desenvolvimento de dependência, os médicos de um modo geral consideraram-se aptos a identificar um dependente, embora muito menos frequentemente tenham relatado êxito no tratamento dessa dependência. Entre os usuários de benzodiazepínicos, apenas um se autodenominou dependente, sendo que a grande maioria referiu que o uso da medicação era benéfico e estava sob controle. Todos os farmacêuticos relataram no trabalho, com base na sua experiência em dispensação, a constante solicitação de medicação sem receita apropriada. No entanto, a maioria dos usuários afirmou que, embora essa prática fosse possível, eles não compravam medicação sem receita, nem a obtinham em mercado clandestino. Os profissionais entrevistados foram unânimes em constatar que a preparação adquirida ao longo da graduação em medicina é falha no que diz respeito à prescrição de benzodiazepínicos. Essa desinformação resultaria tanto em subprescrição, pelo menos em relação aos efeitos da medicação quanto em superprescrição pelo desconhecimento dos riscos que acompanham o uso do medicamento. Um médico estende esta crítica à prescrição dos demais psicotrópicos: ―Os médicos têm um preparo muito ruim para prescrever, qualquer droga psicotrópica, não é só benzodiazepínico (psiquiatra de 52 anos). Uma neurologista apontou com indignação a falta de acompanhamento no tratamento pelo prescritor inicial como falha fundamental. Irregularidades de prescrição e dispensação foram mencionadas por todos os profissionais entrevistados, principalmente pelos farmacêuticos, mas os usuários negaram qualquer tipo de estratégia nesse sentido. De uma maneira geral, os profissionais concordam que é importante controlar a dispensação, até porque, além do risco de dependência associado ao uso crônico da medicação, há o risco de intoxicação letal pelo medicamento. No entanto, a maioria deles acha que entre os principais problemas estão: · A má indicação clínica; · A desinformação do médico · A falta de conscientização tanto da parte do médico quanto do farmacêutico. (ORLANDI & NOTO, 2005). A maioria dos idosos consome, ao menos, um medicamento e cerca de um terço consomem cinco ou mais simultaneamente. Há vinte fármacos contra indicados para os idosos, entre os quais os benzodiazepínicos (ROSENFELD, 2003). Segundo Lopes et al., (2016) em seu trabalho sobre medicamentos inapropriados para idosos, as classes terapêuticas de medicamentos mais consumidos são antiinflamatórios não esteroidais, agentes cardiovasculares, benzodiazepínicos e antidepressivos. Serão excluídos da intervenção os pacientes acamados e os pacientes com diagnóstico de epilepsia, de doenças demenciais (como o Alzheimer) e de doenças psiquiátricas que cursem com surto psicótico (esquizofrenia, transtorno bipolar de humor, entre outros), uma vez que o desmame pode descompensar a patologia base de forma a piorar o controle da mesma e, por consequência, a qualidade de vida do usuário e de seus acompanhantes/cuidadores. Elaboração do questionário a ser preenchido na primeira abordagem ao paciente usuário de BDZ, sendo que é importante conter em tal questionário a identificação do paciente (sexo, idade e profissão), qual o BDZ usado, a indicação do mesmo, caso o paciente saiba, a posologia e a quanto tempo, aproximadamente, o paciente faz uso de tal medicação. É igualmente importante identificar as comorbidades e demais medicações utilizadas pelo paciente, para que se possa elaborar um plano de tratamento individualizado. O questionário poderá ser utilizado para fins estatísticos ao final do projeto. Elaboração da ficha de desmame que servirá de referência ao paciente, para que o mesmo possa se situar no tempo exigido para que o BDZ seja reduzido gradualmente. A ficha deve conter espaço para o nome do paciente, para as datas que o paciente deve cumprir, e para a quantidade do comprimido a ser ingerida no período de tempo específico: Ex para quem faz uso de 01 comprimido de Clonazepam 2mg, à noite: Nome do Paciente Desmame de Clonazepam 2mg De 10/10 a 24/10 - Tomar 1/2 comprimido de Clonazepam, à noite (metade do comprimido); De 25/10 a 08/11 - Tomar 1/4 de comprimido de Clonazepam à noite (metade da metade do comprimido); De 09/11 a 23/11 - Tomar 1/4 de comprimido de Clonazepam à noite (metade da metade do comprimido) em dias alternados (dia sim, dia não); Em 24/11 - Encerrar desmame. Como as estratégias sugeridas incluem fracionamentos de doses, pode-se lançar mão das diversas formulações disponíveis para benzodiazepínicos (comprimidos de diferentes dosagens e formulações líquidas). 4. a importância do desmame correto e incorreto A retirada de um benzodiazepínico deve ser feita de forma gradual, ao longo de algumas semanas, para minimizar a emergência de sintomas de abstinência. Embora um período de 4 a 8 semanas seja suficiente para a maioria das pessoas, a velocidade da redução costuma ser determinada pela capacidade do indivíduo de tolerar os sintomas secundários ao processo de suspensão. Períodos longos (superiores a 6 meses) devem ser evitados para que a retirada do benzodiazepínico não se torne o foco maior de preocupação em saúde da pessoa. Por mais que exista a possibilidade de ajustar a velocidade do processo de suspensão, deve ser estabelecido desde o início um calendário de retirada, buscando firmar um compromisso entre médico e paciente quanto à retirada do fármaco (LADER, 2009). Embora não haja uma fórmula universal, algumas estratégias de redução foram recomendadas e podem servir de parâmetro. Para doses baixas (como até 10 mg de Diazepam ou 0,5 mg de Clonazepam) e/ou quem tem facilidade em tolerar a retirada: Reduzir a dose em 50% a cada semana. Para doses moderadas a altas e/ou quem tem dificuldade em tolerar a retirada: Reduzir a dose entre 10% e 25% a cada 2 semanas; ou Reduzir a dose em no máximo o equivalente a 5 mg de Diazepam (ou 0,25 mg de Clonazepam) por semana, ajustando a velocidade da redução de acordo com a tolerância da pessoa. Quando a dose diária estiver abaixo do equivalente a 20 mg de Diazepam (ou 1 mg de Clonazepam), tornar o processo mais lento, reduzindo o equivalente a 2 mg de Diazepam (ou 0,1 mg de Clonazepam) por semana; ou Reduzir 10% da dose original a cada 1 a 2 semanas até que seja atingida uma dose de 20% da original. Então, reduzir a uma taxa de 5% da dose original a cada 2 a 4 semanas (LADER, 2009). Como as estratégias sugeridas incluem fracionamentos de doses, pode-se lançar mão das diversas formulaçõesdisponíveis para benzodiazepínicos (comprimidos de diferentes dosagens e formulações líquidas). A mudança de um benzodiazepínico de curta ação para outro de longa ação, embora sugerida por alguns autores, não apresenta vantagens claras. Sabe-se que a retirada de benzodiazepínicos de curta ação apresenta menores índices de sucesso em comparação com a retirada dos de longa ação, mas a mudança de um fármaco de meia-vida curta para um de meia-vida longa não está associada a melhores desfechos. Doses muito altas (equivalentes a 100 mg ou mais de Diazepam) podem requerer hospitalização para sua retirada, em função do risco de sintomas graves de abstinência (MCMASTER UNIVERSITY, 2017). Não há medicações aprovadas para o tratamento da dependência de benzodiazepínicos. Se houver sintomas sindrômicos específicos (como ansiedade ou depressão), o transtorno subjacente deve ser avaliado e tratado. Transtornos do sono associados podem ser tratados através de medidas não farmacológicas. Quais as medidas não farmacológicas estão indicadas no tratamento da insônia? A Terapia cognitiva comportamental é a primeira escolha de intervenção usada no tratamento da insônia crônica, uma vez que as pessoas insones geralmente desenvolvem pensamentos e comportamentos negativos em relação ao sono. A Terapia cognitiva comportamental consiste em uma abordagem psicoterapêutica específica e focada nas causas e sintomas da insônia, sendo realizada por uma série de visitas a um psicólogo especializado nesse tipo de tratamento. O objetivo desta terapia é instrumentalizá-lo, com técnicas cognitivas e comportamentais que o permite resolver os problemas relacionados a suas dificuldades com o sono, criando um ambiente de sono mais tranquilo, atitudes positivas e assertivas, bem como modificando as associações negativas relacionadas ao sono em associações mais realistas e positivas ou ainda através de outros fármacos com potencial sedativo, como antidepressivos e anti-histamínicos, tendo o cuidado de não trocar a dependência de um fármaco pela dependência de outro (SOYKA, p. 1147-1157, 2007). Intervenções breves na atenção primária (como aconselhamento e folhetos informativos) podem facilitar a redução do uso de benzodiazepínicos. A psicoeducação, ou seja, dar informações sobre os efeitos e riscos do uso em longo prazo de benzodiazepínicos e alternativas possíveis, é sempre um passo inicial recomendado. Outras estratégias psicológicas, como psicoterapia cognitivo-comportamental e psicoterapia de grupo, podem também ser úteis. Parar de tomar remédio psiquiátrico por conta própria é um grande risco para o paciente e para a sua família, pois as consequências são perceptíveis em pouco tempo. Os medicamentos tarja preta, como ansiolíticos e antidepressivos, após interrupção brusca, podem causar crises de choro, irritabilidade e abstinência, por exemplo. Os motivos da interrupção são diversos, principalmente relacionados ao imediatismo que as pessoas querem sobre os efeitos desses produtos, que não são observados nas primeiras semanas de uso. Além disso, a falta de informações verídicas e os relatos de outras pessoas sobre os efeitos colaterais dos remédios psiquiátricos acabam influenciando aqueles indivíduos que já estão destinados a parar de tomar. Isso porque, como já mencionamos, o remédio psiquiátrico atua no cérebro e demora até quatro semanas para readaptar as funções do sistema nervoso. Por isso, não se percebe muita alteração do estado emocional do paciente nesse período. Outra consequência de interromper o remédio psiquiátrico por conta própria é a possibilidade de ocorrer o efeito rebote, caracterizado por uma exacerbação dos sintomas que estão sendo tratados. Ou seja, se a pessoa parar de usar um ansiolítico, poderá ter mais ansiedade do que tinha antes de iniciar o tratamento, além de outros sintomas associados, como insônia, perda de memória e concentração, entre outros. Dependendo do tipo do remédio e do tempo de tratamento, o indivíduo pode sofrer também de outras reações corporais, como: · Coração acelerado; · Transpiração excessiva; · Aumento da pressão arterial; · Tonturas; · Náuseas; · Dores de cabeça; · Alterações no humor; · Tremores, pensamentos negativos e suicidas. Os riscos de aparecimento de efeitos colaterais existem, mas podem ser prevenidos ou avaliados precocemente ao manter um acompanhamento contínuo com uma equipe especializada e multidisciplinar. 1. CONSIDERAÇÕES FINAIS O uso indiscriminado de benzodiazepínico é um problema de saúde pública, e, portanto o levantamento do número e perfil dos usuários é de grande importância para que medidas possam ser criadas com o intuito de disseminação da informação (riscos dos benzodiazepínicos), promoção e prevenção da saúde dos pacientes. Os principais fatores identificados nesse estudo que induziram as pessoas a utilizarem benzodiazepínicos se relacionaram com a dificuldade em lidar com as adversidades da vida e problemas inseridos em seu contexto social. Acredita-se que a facilidade de aquisição dos medicamentos benzodiazepínicos na forma da prática constante de renovar as receitas de medicamentos controlados sem um acompanhamento médico adequado contribuiu para o uso irracional desses fármacos, uma vez que a faz com que a comunicação entre médico e paciente seja insuficiente. Devido ao uso prolongado de BZD pelos participantes deste estudo, é lícito pensar que exista grande probabilidade de que estas pessoas já tenham desenvolvido dependência, tolerância e sintomas de abstinência, o que contribuiu para a necessidade de perpetuação de seu uso/prescrição. Decorrente deste ciclo vicioso, o uso crônico leva ao aparecimento de certos efeitos colaterais, como o déficit cognitivo, o que afeta negativamente a qualidade de vida daqueles que o utilizam a longo prazo. Porém, mesmo sofrendo com as desvantagens decorrentes da dependência de BZD, os indivíduos assumiam os riscos de seu uso em função da experiência dos benefícios do medicamento. Assim, uma vez instalada a dependência, a descontinuação do medicamento parece se tornar um grande desafio para o usuário e para seu médico. Observou-se que importante papel tem o farmacêutico no âmbito da saúde mental por meio do acompanhamento farmacoterapêutico objetivando alcançar o uso racional de BZD de forma a inserir e empoderar o paciente em seu processo de cuidado para auxilia-lo nesta experiência. Através da análise crítica de diversos artigos relacionados à utilização de benzodiazepínicos, pode-se perceber a existência de um crescente consumo desta classe de medicamentos por parte da população, que é observado principalmente entre idosos e mulheres. Atrelado a isso, surge a questão do comprovado uso abusivo, e da dependência, consequência característica do consumo elevado destes medicamentos, que são reforçados pela contínua prescrição médica, pela falha na orientação, tanto médica quanto farmacêutica, e pelo apelo do próprio usuário, que podem figurar como possíveis responsáveis por esta realidade. REFERÊNCIAS ANDRADE J.V. et al. Ansiedade, um dos problemas do século XXI. Revista de Saúde da ReAGES. Paripiranga-Bahia, n.4, v.2, p. 34-39. 2019. Disponível em: https://www.faculdadeages.com.br/uniages/wp-content/uploads/2019/07/p.-34- 39.pdf. Acesso em: 10 abri. 2022. FERREIRA, M.S. Medicalização da vida: sobre o processo de biologização da existência. 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