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Maria Paula Carlos - Beta XVII AULA 4 - CÂNCER DE COLORRETAL: CASO CLÍNICO INICIAL ● Paciente masculino, 62–63 anos. ● Apresentou quadro de peritonite difusa, mas com estado geral relativamente preservado. ● Tomografia evidenciou sinais de pneumo peritônio. ● Paciente encaminhado para cirurgia. ● Durante laparotomia: ○ Grande quantidade de pus na cavidade peritoneal. ○ Ceco com sofrimento importante e perfuração cercada. ○ Cólon bastante dilatado. ○ Área de estenose importante no cólon transverso (tumor). ○ Porção proximal dilatada, distal de calibre normal. Procedimento cirúrgico ● Colectomia direita estendida (incluindo ângulo hepático e parte do cólon transverso). ● Fechamento do cólon descendente no grampeador. ● Exteriorização da alça proximal como ileostomia terminal. ● Indicação: quadro grave com peritonite fecal. EPIDEMIOLÓGICA ● Câncer colorretal é frequente e cada vez mais reconhecido devido a casos em celebridades (ex.: Pelé). ● Exemplo comparativo: ○ Pelé: excelente condição física e acesso a tratamento completo → evolução fatal em 50 anos. ○ Crescente incidência em 100 pólipos no cólon. ● Frequência: 1 caso a cada 5.000–18.000 pessoas. ● Representa aproximadamente 1% dos casos de câncer colorretal. ● O tumor extra-colônico mais frequente associado ao PAF é o adenoma duodenal. ● Risco de câncer colorretal: 100% ao longo da vida. ● Início do rastreamento: familiares de 1º grau devem iniciar colonoscopia aos 10–12 anos. ● Tratamento: proctocolectomia total (remoção de todo o cólon e reto). ○ Anastomose íleoanal com bolsa em “J” para reservatório. Variantes da PAF (pólipos são adenomatosos, com risco de 100% do paciente ter CA colorretal): 1. PAF Atenuada ○ Menor número de pólipos. 2. Síndrome de Gardner ○ PAF + tumores associados: ■ Osteomas. ■ Dentes supranumerários. ■ Lipomas. ■ Tumores desmóides. ■ Tumores de partes moles. ■ Adenomas gástricos e duodenais. 3. Síndrome de Turcot ○ PAF + tumores cerebrais (principalmente meduloblastoma). Síndrome de Peutz-Jeghers ● Tipo de pólipo: hamartoma (não adenoma). ● Pólipos no cólon e em outros segmentos do trato GI. ● Características clínicas: ○ Manchas melanocíticas na mucosa (principalmente lábios e boca). ● Risco aumentado para câncer em: ○ Estômago, intestino delgado, cólon, pâncreas, ovário, útero, testículo e pulmão. ● Incidência: 1 caso a cada 25.000–300.000 pessoas. ● História natural: ○ Manchas melanocíticas desde o nascimento. ○ A partir dos 18–20 anos, aumenta risco de câncer. Maria Paula Carlos - Beta XVII ● Comparação com PAF: ○ Maior risco relativo na PAF (100% para câncer colorretal). ○ Peutz-Jeghers aumenta risco, mas não é certeza absoluta. ● Conduta: ○ Rastreamento e acompanhamento intensivo. ○ Colectomia indicada se todo o cólon estiver comprometido. Síndrome de Lynch (Câncer Colorretal Hereditário Não-Polipoide) ● Poucos ou nenhum pólipo. ● Critérios diagnósticos (Critérios de Amsterdã): ○ Pelo menos 3 familiares com câncer colorretal ou câncer relacionado (endométrio, renal, intestino delgado). ○ Um dos familiares deve ser parente de 1º grau dos outros dois. ○ Pelo menos 2 gerações afetadas. ○ Pelo menos um caso diagnosticado antes dos 50 anos. ○ Excluir PAF. ● Epidemiologia: ○ Causa mais frequente de câncer colorretal hereditário. ○ Representa 5–10% dos cânceres colorretais. ● Genes envolvidos: mutações em genes de reparo de DNA. ● Tratamento: colectomia total com anastomose íleo-retal. ● Neoplasias associadas: endométrio, intestino delgado, trato urinário, estômago. Comparativo do Risco ● População geral: aumento progressivo do risco a partir da meia-idade. ● PAF: risco começa precocemente (20 anos) e atinge 100%. ● Síndrome de Lynch: risco aumentado precoce, mas com menos pólipos. TUMORES DO CÓLON E RETO – SINAIS, DIAGNÓSTICO E RASTREAMENTO ALTERAÇÃO DO HÁBITO INTESTINAL ● Um paciente com hábito intestinal previamente regular que passa a apresentar constipação intestinal ou diarreia súbita deve levantar suspeita para neoplasia colorretal. Maria Paula Carlos - Beta XVII ● Alteração súbita do hábito intestinal → pensar em neoplasia de cólon esquerdo, pois essa localização tende a provocar sintomas mais rapidamente. ● Hematoquezia (sangue vivo nas fezes): ○ Mais comum no câncer de reto. ○ Pode ocorrer também no câncer de cólon, especialmente no sigmoide. ● Outros sintomas possíveis: ○ Dor abdominal. ○ Perda ponderal significativa. ○ Anemia ferropriva devido à perda crônica de sangue não visível (pesquisar com pesquisa de sangue oculto positiva). ○ Massa abdominal palpável, mais frequente em tumores de cólon direito. ○ Obstrução intestinal. DIFERENÇA CLÍNICA: TUMORES DE CÓLON DIREITO VS. ESQUERDO ● Cólon direito: ○ Tumores mais silenciosos. ○ Anemia por sangramento crônico. ○ Massa abdominal palpável. ○ Geralmente diagnosticados tardiamente. ● Cólon esquerdo: ○ Alteração rápida do hábito intestinal. ○ Diagnóstico mais precoce. ○ Pode evoluir para obstrução intestinal. ■ Em pacientes>50 anos sem história de cirurgia abdominal prévia, pensar em neoplasia como causa principal. DIAGNÓSTICO a) Colonoscopia ● Exame principal: ○ Permite visualização direta da mucosa. ○ Possibilita biópsia de lesões suspeitas. ○ Realizar preparo intestinal adequado (limpeza total). ○ Pode também permitir polipectomia. ● Limitações ○ Anatomia pode impedir exame completo. ○ Nesses casos, indicar colonoscopia virtual. b) Colonoscopia virtual Maria Paula Carlos - Beta XVII ● Realizada por tomografia. ● Necessita preparo intestinal semelhante. ● Não permite biópsia. ● Útil para identificar lesões intraluminais. c) Enema opaco ● Raio-X contrastado do cólon. ● Hoje em desuso, mas ainda útil onde não há colonoscopia disponível. ● Importante para megacólon ou avaliação contrastada de doenças como Doença de Chagas. d) Tomografia de abdome e tórax ● Auxilia no diagnóstico e estadiamento. ● Avalia fígado (principal local de metástase) e pulmões. ● Importante: ○ Tumor maligno mais frequente no fígado → metástase colorretal. ○ Tumor maligno primário mais comum do fígado → carcinoma hepatocelular. e) PET-Scan (Dotec Scan) ● Detecta metástases pequenas pela atividade metabólica aumentada. ● Útil no estadiamento e acompanhamento. 4. Marcadores tumorais ● CEA (antígeno carcinoembrionário): ○ Mais útil para seguimento pós-tratamento, não para rastreamento inicial. ○ Elevação após cirurgia pode indicar recidiva. OBSERVAÇÃO: CA 72.4: ○ Marcador menos específico; pode estar elevado em outras doenças. 5. Estadiamento TNM – Resumo ● T (tumor primário): ○ Tis: carcinoma in situ (mucosa). ○ T1: invade submucosa. ○ T2: invade muscular própria. ○ T3: invade tecidos pericólicos/perirretais. ○ T4a: invade serosa. ○ T4b: invade órgãos adjacentes. ● N (linfonodos): Maria Paula Carlos - Beta XVII ○ N0: sem comprometimento linfonodal. ○ N1/N2: com comprometimento linfonodal. ● M (metástases): ○ M0: sem metástases. ○ M1: com metástases à distância. RASTREAMENTO DO CÂNCER COLORRETAL ● Objetivo: detectar lesões precocemente em pacientes assintomáticos. ● Exemplo de rastreamento em outras neoplasias: ○ Próstata: PSA + toque retal a partir de 50 anos (45 em casos selecionados). ○ Mama: mamografia periódica. ○ Colo uterino: Papanicolau. ● No câncer colorretal: ○ Colonoscopia periódica é o exame padrão para rastreio. Importância do rastreio do câncer colorretal ● É uma causa importante de neoplasia, tanto em homens quanto em mulheres. ● Alta prevalência torna o rastreio custo-efetivo. ● Comparação com outros cânceres: ○ Pâncreas: não se faz rastreio populacional devido à baixa frequência. ○ Fígado: só rastrear se houver fatores de risco específicos. ○ Esôfago: não é custo-efetivo para rastreio populacional. ○ Colorretal: é custo-efetivo pela frequência. População-alvo para rastreio ● Idade mínima: ○ Antigamente: 50 anos. ○ Hoje: 45 anos (recomendação da Associação Americana de Gastroenterologia). ● Idade máxima: até 75–80 anos. ○ Após os 80 anos: só investigar se houver sintomas (não é rastreio). ● Baixo risco: único fator de risco é a idade. ● Alto risco: ○ História familiar em parente de primeiro grau de câncer colorretal. ○ Doença inflamatória intestinal. ○ Histórico de radioterapia pélvica prévia. ○ Histórico de pólipos adenomatosos prévios. Maria Paula Carlos - Beta XVII Métodos de rastreio a) Colonoscopia (padrão-ouro) ● Permite: ○ Visualizar todo o cólon. ○ Coletar material para biópsia. ○ Realizar polipectomia. ● Limitações: ○ Custo e logística inviabilizam realização em toda a população-alvo. ● Estratégia: ○ Priorizar colonoscopia para pacientes de alto risco. ○ Pacientes de baixo risco podem iniciar com métodos menos invasivos. b) Teste de sangue oculto nas fezes ● Tipos: ○ Guaiaco: sujeito a falsos positivos (carne vermelha, vitamina C, ferro). ○ Imunológico: mais específico, sem essas interferências. ● Coleta: 3 amostras. ● Características ○ Alta sensibilidade (identifica mais casos). ○ Baixa especificidade (pode dar positivo por outras causas). ● Prática clínica citada: ○ Uso empírico de antiparasitário (ex.: albendazol) antes da coleta para reduzir falso positivo por parasitoses. ○ Repetir teste um mês após antiparasitário. ○ Se positivo → encaminhar para colonoscopia. c) Retossigmoidoscopia ● Útil quando não há acesso à colonoscopia. ● Exame sem sedação, pode ser feito em consultório. ● Avalia reto e sigmóide (locais mais comuns de tumor). ● Não exige preparo intestinal completo. Indicação do método conforme risco ● Baixo risco (45–80 anos, sem outros fatores): ○ Iniciar com sangue oculto. ○ Se positivo → colonoscopia. ● Alto risco: Maria Paula Carlos - Beta XVII ○ Colonoscopia diretamente. Periodicidade do rastreio a) Exame normal ● Sangue oculto: anual. ● Colonoscopia: a cada 5 a 10 anos. ○ 10 anos: paciente jovem (45–50 anos) com exame normal. ○ 5 anos: paciente mais idoso (65–70 anos) para aproveitar antes dos 80. ● Enema opaco: a cada 5 anos. b) Colonoscopia com pólipo ● Depende do tipo histológico: ○ Hiperplásico ou hamartomatoso: ■ Considerar como se fosse colonoscopia normal. ■ Repetir em 5–10 anos. ○ Adenoma (displasia de baixo grau, margens livres): ■ Repetir colonoscopia em 3 anos. ○ Situações que indicam intervalo menor (6 meses a 1 ano): ■ Mais de 5 pólipos. ■ Pólipo de base larga. ■ Pólipo grande. ■ Margens não avaliadas ou comprometidas no exame anatomopatológico. TRATAMENTO DO CÂNCER COLORRETAL (RESUMO) ● Principal: colectomia com finalidade oncológica. ○ Detalhes serão aprofundados em aula futura. ● Casos avançados: ○ Colectomia paliativa (buscando reduzir os sintomas, e não a cura). ● Tumor inoperável: ○ Descompressão com colostomia derivativa. ● Tratamento complementar: ○ Quimioterapia adjuvante após cirurgia. ○ Quimioterapia neoadjuvante: ainda em estudo. Maria Paula Carlos - Beta XVII ○ Radioterapia: rara no cólon, mais usada no câncer de reto. CIRURGIAS COLORRETAIS CONFORME LOCALIZAÇÃO DO TUMOR Tumor de cólon direito ● Procedimento: hemicolectomia direita. ○ Remove a parte direita do cólon, ângulo hepático e início do transverso. ● Anastomose: ○ Conecta o íleo terminal ao cólon transverso. ○ Importante: só fazer se houver condições cirúrgicas seguras (cromo-colonoscopia realizada). ● Limitações: ○ Em urgências, a mastomoroconstrução pode não ser indicada. Tumor de cólon transverso ● Procedimento: transversectomia. ○ Resseca todo o cólon transverso. ● Anastomose: conecta o cólon direito ao cólon descendente. Tumor de cólon esquerdo e ângulo esplênico ● Procedimento: hemicolectomia esquerda. ● Anastomose: cólon descendente ao reto. Tumor de sigmoide ● Procedimento: sigmoidectomía (ou hemicolectomía sigmoide-retal). ● Anastomose: cólon ao reto (colorretal) Tumor de reto médio ● Procedimento: retossigmoidectomia ● Anastomose: colorretal. Tumor de reto inferior ● Procedimento: retossigmoidectomia. ● Anastomose: colorretal (porção final do reto, quase cólon anal ), com técnica especial de preservação distal. ● Casos avançados (atinge cerca de 5 cm do ânus): ○ Cirurgia amputação abdominoperineal (APR): remove reto inferior, preservando segurança oncológica. Maria Paula Carlos - Beta XVII ANATOMIA CIRÚRGICA E VASOS ● Vasos arteriais e venosos devem ser ligados na base, na origem. ● Objetivo: trazer os linfonodos, ressecção oncologicamente adequada. ● Colostomia: ○ Pode ser temporária, com duas “bocas”. ○ Usada em casos complexos ou paliativos. METÁSTASES HEPÁTICAS E MANEJO Considerações gerais ● A presença de metástase hepática isolada permite cirurgia curativa (metastasectomia), desde que: ○ Exclusiva do fígado. ○ Não haja comprometimento em outros órgãos. CAPACIDADE DE RESSECÇÃO HEPÁTICA ● Até 75–80% do fígado pode ser ressecado se a função residual for preservada.● Técnica de hepatectomia planejada: ○ Identifica lóbulos com maior carga de metástases. ○ Embolização da artéria hepática do lobo a ser ressecado → induz atrofia do lobo doente. ○ Lobo contralateral hipertrofia → garante função hepática pós-cirurgia. AVALIAÇÃO E PREPARO CIRÚRGICO ● Preparação detalhada da musculatura e das peças anatômicas. ● Estudos históricos e revisões (1964–2015) mostram aumento de publicações em câncer colorretal. ● Técnicas modernas incluem: ○ Avaliação do número e localização de metástases. ○ Estratégias para preservar a função hepática. Maria Paula Carlos - Beta XVII ASPECTOS PREVENTIVOS E FARMACOLÓGICOS ASPIRINA E CÂNCER COLORRETAL ● Estudo recente (agosto 2024, Janus Cológico): ○ Uso regular de aspirina associado a menor incidência de câncer colorretal. ○ Redução de risco mais significativa em pacientes com estilo de vida menos saudável. ● Implicação: aspirina pode ter papel preventivo, mas não substitui rastreio ou tratamento. Fatores de risco relacionados ● Sedentarismo, tabagismo e dieta não saudável aumentam risco de câncer colorretal. ● Estudos colaboram com prevenção farmacológica e hábitos de vida saudáveis. AULA 4 - CÂNCER DE COLORRETAL: CASO CLÍNICO INICIAL EPIDEMIOLÓGICA EPIDEMIOLOGIA MUNDIAL EPIDEMIOLOGIA NO BRASIL FATORES DE RISCO GENÉTICA E CARCINOGÊNESE PÓLIPOS E HISTOLOGIA SÍNDROMES GENÉTICAS RELACIONADAS AO CÂNCER COLORRETAL PRINCIPAIS SÍNDROMES TUMORES DO CÓLON E RETO – SINAIS, DIAGNÓSTICO E RASTREAMENTO ALTERAÇÃO DO HÁBITO INTESTINAL DIFERENÇA CLÍNICA: TUMORES DE CÓLON DIREITO VS. ESQUERDO DIAGNÓSTICO RASTREAMENTO DO CÂNCER COLORRETAL TRATAMENTO DO CÂNCER COLORRETAL (RESUMO) CIRURGIAS COLORRETAIS CONFORME LOCALIZAÇÃO DO TUMOR ANATOMIA CIRÚRGICA E VASOS METÁSTASES HEPÁTICAS E MANEJO CAPACIDADE DE RESSECÇÃO HEPÁTICA AVALIAÇÃO E PREPARO CIRÚRGICO ASPECTOS PREVENTIVOS E FARMACOLÓGICOS ASPIRINA E CÂNCER COLORRETAL