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Direito, Meio Ambiente, Emergência Climática, Desastres, Unidades de Conservação Meio Ambiente Fundação Escola Nacional de Administração Pública Diretoria de Desenvolvimento Profissional Conteudista/s Enap, 2021 Fundação Escola Nacional de Administração Pública Diretoria de Desenvolvimento Profissional SAIS - Área 2-A - 70610-900 - Brasília, DF Diego Pereira Frederico Rios Paula Ricardo Cavalcante Barroso SUMÁRIO Módulo 4 Gestão e Desafios das Unidades de Conservação p 01 p 02 p 11 APRESENTAÇÃO 1 O Papel do ICMBio no Licenciamento Ambiental 2 Acordos envolvendo Unidades de Conservação REFERÊNCIAS p 45 3 Visitação pública e agenda de concessões em Unidades de Conservação p 31 01 APRESENTAÇÃO Sejam todos(as) bem-vindos(as)! As Unidades de Conservação (UCs) são essenciais para a preservação da biodiversidade e a manutenção dos serviços ecossistêmicos. No Brasil, um país de extraordinária diversidade biológica, a gestão dessas áreas apresenta desafios jurídicos significativos que exigem políticas públicas eficazes e ações integradas. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) desempenha um papel central nesse contexto, no âmbito federal, lidando com uma série de aspectos complexos, como o licenciamento ambiental, os empreendimentos preexistentes, os direitos de povos e comunidades tradicionais e a visitação pública por meio de concessões. Neste módulo, abordaremos o papel peculiar do ICMBio no licenciamento ambiental em casos de empreendimentos que possam afetar unidades de conservação federais. Em seguida, faremos uma análise do regime que regula o caso de empreendimentos de infraestrutura preexistentes às unidades de conservação. A seguir, será essencialmente importante estudar a forma como é feita a gestão e compatibilização de direitos de povos e comunidades tradicionais existentes em territórios sobrepostos a unidades de conservação, inclusive a partir da noção de dupla afetação do território. Ainda, será fundamental expor os contornos jurídicos das diversas modalidades de pactuações envolvendo unidades de conservação, ocasião em que serão analisados, em especial, 3 (três) acordos relevantes celebrados pelo ICMBio. Trataremos, finalmente, da visitação pública e da agenda de concessões em unidades de conservação como instrumentos associados para alcançar os objetivos desses espaços protegidos. O licenciamento ambiental é um dos principais instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente, conforme previsto no artigo 9º da Lei 6.938/1981, inciso IV, ao lado da criação de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder Público, prevista no inciso VI do mesmo artigo. Esse instrumento é fundamental para assegurar que o desenvolvimento econômico ocorra de forma sustentável, minimizando impactos ambientais. A Resolução n° 237/1997, do Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, estabelece os procedimentos e critérios para o licenciamento, enquanto a Resolução CONAMA n° 1/1986 exige estudos de impacto ambiental para atividades potencialmente degradadoras. Além disso, a Resolução CONAMA n° 428/2010 regula o licenciamento de empreendimentos que afetam unidades de conservação (UCs), exigindo anuência do órgão responsável por sua administração. Nesse contexto, o ICMBio atua como uma autoridade crucial, garantindo que as atividades licenciadas respeitem a integridade das UCs federais, em conformidade com as normativas vigentes. 1. O Papel do ICMBio no Licenciamento Ambiental 02 🎯 Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de compreender o processo de licenciamento ambiental no contexto das unidades de conservação (UCs) e reconhecer a existência de empreendimentos de infraestrutura preexistentes às UCs . O licenciamento de empreendimentos de significativo impacto ambiental, que possam afetar UC federais específica ou sua zona de amortecimento (ZA), assim considerados pelo órgão ambiental licenciador, com fundamento em Estudo de Impacto Ambiental e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA), só poderá ser concedido após autorização do ICMBio. Fonte: Deyves Martins. Wikimedia Commons. Essa participação, apesar de vinculante, deverá se restringir especificamente à análise de impacto sobre a UC gerida pelo órgão manifestante, não sendo permitida pelo legislador, obviamente, uma negativa de autorização baseada em motivos outros ou mesmo com ausência de motivação. A negativa somente poderá ocorrer quando os impactos não puderem ser mitigados ou compensados por eventuais condicionantes. O órgão gestor da UC pode sugerir condições técnicas (condicionantes) para que sua autorização seja emitida, desde que elas guardem relação direta com os impactos adversos e sejam minimamente proporcionais. Se o órgão licenciador não acatá-las, considera-se como não autorizado o licenciamento (Bim, 2015). 03 É a chamada Autorização para o Licenciamento Ambiental (ALA), que encontra fundamento no § 3º do art. 36 da Lei nº 9.985/2000, regulamentado pela Resolução CONAMA nº 428/2010. A ALA, nas hipóteses legalmente exigidas, constitui uma condição de validade do próprio licenciamento ambiental. DESTAQUE O licenciamento ambiental de empreendimentos não sujeitos a EIA/RIMA não é, como regra, autorizável, submetendo-se ao procedimento da ciência, que não é vinculante, e está regrado pelo art. 5º da Resolução CONAMA nº 428/2010. O ICMBio não fica impedido de influir no controle ambiental do empreendimento licenciável, podendo promover interlocução institucional com o órgão ambiental licenciador. Entretanto, eventuais contribuições técnicas não terão caráter vinculante, isto é, poderão ser sugeridas condicionantes, que serão avaliadas pelo órgão ambiental licenciador, a quem compete a gerência do processo de licenciamento ambiental, sobretudo no que toca à função de calibração, de sopesamento, entre o desenvolvimento econômico e o meio ambiente. O olhar do ICMBio é, nos termos da Resolução CONAMA n° 428/2010 (art. 2º, § 3º), restrito à avaliação dos impactos do empreendimento na UC e sua ZA – quando formalmente instituída – e aos objetivos de sua criação, observando-se o que dispõe o respectivo plano de manejo. A Autorização para o Licenciamento Ambiental (ALA) de que trata o § 3º do artigo 36 da Lei nº 9.985/2000, de caráter vinculante, ou a ciência e eventual manifestação não vinculante, no âmbito do processo de licenciamento ambiental, é um meio para atingir tal finalidade. No processo de licenciamento ambiental, o ICMBio tem a responsabilidade de analisar os impactos que um empreendimento pode causar especificamente às UCs federais, utilizando os instrumentos legais disponíveis. As exigências ambientais feitas pelo ICMBio devem estar diretamente relacionadas e ser proporcionais aos impactos nas UCs federais. O órgão responsável pelo licenciamento define o tipo de estudo de impacto ambiental necessário para o empreendimento. O ICMBio pode, de forma justificada, pedir estudos adicionais como parte da análise técnica e eventual autorização, desde que esses estudos estejam diretamente ligados aos impactos nas UCs federais, conforme a Resolução CONAMA n° 428/2010. O artigo 2º da Resolução CONAMA nº 01/1986 serve como guia para avaliar se um empreendimento pode causar impacto ambiental significativo. Não há ilegalidade se o órgão licenciador, ao verificar que o empreendimento não causa degradação significativa ao meio ambiente, definir os estudos ambientais necessários, desde que essa decisão seja fundamentada em análise técnica específica e nos parâmetros legais do CONAMA. 04 O olhar do ICMBio é, nos termos da Resolução CONAMA n° 428/2010 (art. 2º, § 3º), restrito à avaliação dos impactos do empreendimento na UC e sua ZA – quando formalmente instituída – e aos objetivos de sua criação, observando- se o que dispõe o respectivo plano de manejo. A Autorização para o Licenciamento Ambiental (ALA) de que trata o § 3º do artigo 36 da Lei nº 9.985/2000, de caráter vinculante, ou a ciência e eventual manifestaçãoa tutela de espaços ecologicamente relevantes e simultaneamente exigem-se menos recursos dos orçamentos públicos como um todo. O Decreto nº 84.017, de 21 de setembro de 1979, que rege o Regulamento Geral dos Parques no Brasil, já previa em sua origem a possibilidade de exploração econômica compatível com os objetivos da unidade de conservação. Entretanto, a ênfase no modelo é tímida na maior parte das unidades de conservação brasileiras, em contraste com o desenvolvimento já apontado em diversos países (Hubert, 2008). A sistemática de exploração do ecoturismo e seus serviços associados em favor das unidades de conservação possui seu gérmen lançado há décadas no Brasil, como decorrência inclusive do modelo de exploração dos Parques nos Estados Unidos (UNITED STATES, 2019). Uma efetiva dinâmica econômica ambiental demanda o mapeamento de fontes de recursos econômicos não só para a unidade de conservação, mas para toda a comunidade da região em que está o espaço ambiental protegido. A unidade de conservação, vista comumente como restritiva de avanços para uma economia hegemônica e construída em um padrão exploratório de extração de recursos, pode se revelar como fonte muito mais favorável para o enriquecimento e geração de renda, com expressivos ganhos às coletividades à sua volta. 37 Cabe ao órgão gestor da UC identificar quais os serviços e atividades se coadunam com cada unidade, considerando aspectos bióticos, de localização e de acessibilidade e o perfil dos potenciais visitantes, a ser definido no Plano de Manejo ou por regulamentação própria. Simultaneamente, uma concertação com o município e o estado propiciará eficácia a um plano de desenvolvimento que considere a otimização dos fatores positivos proporcionados para o desenvolvimento da economia verde. A contribuição econômica do uso público em unidades de conservação, conforme destacam Rodrigues, Fontoura, Rosa, Medeiros e Young, é apurada por modelos de cálculo, nos quais se destaca a matriz de insumos e produtos (MIP) do Brasil em 2013 (Rodrigues; Fontoura; Rosa; Medeiros; Young, 2018). Os efeitos podem ser destacados como diretos, relativos à “produção de bens e serviços de consumo que são adquiridos por visitantes nos empreendimentos turísticos” (Rodrigues; Fontoura; Rosa; Medeiros; Young, 2018), indiretos, que são ligados à cadeia produtiva, e indutivos, relacionados ao aumento da renda da população positivamente impactada com as atividades ecoturísticas. Dessa forma, as atividades e a relevância da economia verde propiciadas pela exploração sustentável das unidades de conservação abrange toda a região em que ela se encontra. O papel do ICMBio na gestação do modelo de economia verde, em que se encontram envolvidas as unidades de conservação federais, envolve, portanto, tanto uma articulação com outros níveis federativos quanto a operacionalização da exploração sustentável do ecoturismo e serviços associados. Fonte: Reinhard Jahn. Wikipedia. Nesse quadro, a fixação de preços administrativos relacionados a unidades de conservação é originalmente de competência do Ministro de Estado do Meio Ambiente, por força do previsto no art. 17-M da Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981, incluído pela Lei nº 9.960, de 28 de janeiro de 2000. Com o objetivo de mais eficiência e adequação às características de cada unidade de conservação, por meio da Portaria nº 256, de 10 de junho de 2020, o Ministro de Estado do Meio Ambiente estabeleceu diretrizes para cobrança de ingressos, serviços administrativos, técnicos e outros, prestados em unidades de conservação. 38 Destacam-se as possibilidades de parcerias com associações representativas das populações tradicionais beneficiárias de unidades de conservação para a exploração de atividades relacionadas ao uso público, inclusive com a repartição dos recursos auferidos, conforme definido no respectivo instrumento, na forma do art. 14-C, §3º, da Lei nº 11.516/2007, incluído pela Lei n° 13.668, de 28 de maio de 2018. O artigo 2º da Portaria dispõe que a cobrança de ingressos e dos serviços de visitação que estão delegados a terceiros pelo Instituto Chico Mendes, sob as modalidades de concessão, permissão ou autorização, será regida pelo contrato entre as partes. Entretanto, os preços de ingressos e serviços concedidos terão respeitados os valores máximos estabelecidos pelo Instituto Chico Mendes. Em sequência, a Portaria delegou ao Presidente do ICMBio a competência para dispor sobre os preços de ingressos, permanência, utilização de áreas, instalações ou equipamentos, serviços e atividades de visitação e serviços técnicos e administrativos nas unidades de conservação federais, bem como sobre situações excepcionais de isenções de cobrança. A regulamentação expõe os critérios de execução das atividades e fixação dos preços de atividades, que devem ser efetuados no interesse da Administração, com base em análise técnica considerando orientações macroeconômicas, localização, meios de acesso, infraestrutura, perfil do visitante e contexto socioeconômico em que a unidade de conservação está inserida, entre outros aspectos considerados relevantes. A exploração por terceiros de serviços inerentes às unidades de conservação pode assumir formas diversas, como concessão, permissão ou autorização. Há, ainda, a possibilidade de celebração de parcerias entre administração pública e organizações da sociedade civil, em regime de mútua cooperação, para a consecução de finalidades de interesse público e recíproco, submetidas ao regime jurídico previsto na Lei n° 13.019, de 31 de julho de 2014, regulamentada pelo Decreto n° 8.726, de 27 de abril de 2016. 39 A solidez do marco regulatório para fins de segurança jurídica alcançou maior densidade por meio da Lei nº 13.668/2018, que incluiu o artigo 14-C na Lei nº 11.516/2007. O dispositivo deixa expressa a possibilidade de concessão e permissão de serviços, áreas ou instalações de unidades de conservação federais para a exploração de atividades de visitação voltadas à educação ambiental, à preservação e conservação do meio ambiente, ao turismo ecológico, à interpretação ambiental e à recreação em contato com a natureza, precedidos ou não da execução de obras de infraestrutura, mediante procedimento licitatório. A parceria visa integrar as populações locais à unidade de conservação, garantindo- lhes um modelo de visitação protagonizado pela própria comunidade e que gera benefícios coletivos. Promove-se a vivência intercultural, a qualidade de vida, a valorização da história e da cultura dessas populações, bem como a utilização sustentável para fins recreativos e educativos dos recursos da unidade de conservação. A linha de condução da gestão do ecoturismo se manifesta a partir do conceito de Turismo de Base Comunitária (TBC) e representa um esforço de reconhecer o protagonismo das comunidades nas práticas de conservação e uso sustentável. Fonte: Valter Campanato. Wikimedia Commons. As concessões de uso público em unidades de conservação, especialmente em áreas de parques nacionais, no que se relaciona ao ecoturismo e às atividades associadas, demandam um marco regulatório para fins de segurança jurídica tanto do Poder Público quanto das pessoas jurídicas de direito privado que explorem as atividades de economia verde. Quanto mais clara e estável for a definição do marco regulatório, maiores as chances e a precisão do sistema para alcançar êxito nos instrumentos econômicos de gestão da unidade de conservação. 40 Essa perspectiva de insegurança até então existente é explicitada pelo Tribunal de Contas da União, no Acórdão nº 2626/2017-Plenário, por ocasião do julgamento de denúncia feita em desfavor do processo licitatório que estava em andamento para a outorga da exploração pelo setor privado do Parque Nacional de Brasília (DF). Na ocasião, a insegurança jurídica pela ausência de marco legal denso foi anotada pelo TCU. O parâmetro de instabilidade em face do pretendido processo licitatório levou o ICMBio a retroagir e não levar adiante a concessão esboçadapela construção hermenêutica e, dessa forma, ocasionou a perda de objeto do controle externo então desenvolvido. A situação é emblemática para configurar o nível de instabilidade proporcionado pela então ausente precisão regulatória. Antes do advento dessa densificação normativa, as parcerias para concessões eram alicerçadas fundamentalmente em construções hermenêuticas que laboravam com textos normativos diversos e bases principiológicas. A base fundamentadora sempre foi existente, mas a abertura para questionamentos em si provocava, de um lado, certa relutância de gestores em adotar os mecanismos de execução indireta e, de outro, afastava interessados da iniciativa privada para a plena e segura assunção dos empreendimentos e seus investimentos. Nessa linha, Alice Serpa Braga já anotava que A Lei estabelece as diretrizes para a gestão das florestas públicas, assim como cria instrumentos de planejamento e prevê o plano anual de outorga florestal. Em linhas gerais, a norma estabelece as bases e o marco regulatório em si da concessão como via de uso eficiente e racional, considerando metas de desenvolvimento sustentável. “há diversas lacunas, mormente quanto à natureza jurídica e consequente regime jurídico aplicável ao desenvolvimento das atividades de turismo.” (Braga, 2013) Até então, apenas as florestas nacionais tinham regulação específica para lidar com a possibilidade de agentes privados auferirem benefício econômico a partir de seu uso. A previsão está contida na Lei nº 11.284, de 2 de março de 2006, que dispõe sobre a gestão dessa categoria de unidade de conservação para a produção sustentável e, entre outras formas de parceria, trata da concessão florestal. 41 O artigo 9, §2º, da Lei nº 9.985/2000 proíbe a visitação pública em estações ecológicas, exceto quando houver objetivo educacional, segundo o plano de manejo ou regulamento específico. Em sintonia, o artigo 10, §2º, estabelece que a visitação pública em reservas biológicas é vedada, salvo em casos em que houver objetivo educacional, de acordo com regulamento específico. Uma perspectiva estreita do ecoturismo levaria a pensamentos adversos em relação à implantação de concessões nessas categorias. Entretanto, atualmente há uma pluralidade de tipos de ecoturismo, inclusive o ecoturismo científico (Andersen; Trentin; Costa; Bechara, 2019). Portanto, a avaliação de adequação de implementação não se faz em abstrato, mas sim em aferição direta do modelo proposto para cada categoria, para cada unidade de conservação específica. O ICMBio editou um novo ato normativo para disciplinar as normas e os procedimentos relativos à gestão dos contratos de concessão de serviços de apoio à visitação em unidades de conservação federais para a exploração de atividades de visitação voltadas à educação ambiental, à preservação e conservação do meio ambiente, ao turismo ecológico, à interpretação ambiental e à recreação em contato com a natureza. É a Instrução Normativa nº 4, de 15 de fevereiro de 2024, a qual identifica a concessão como o A disciplina estatuída no artigo 14-C na Lei nº 11.516/2007, a partir da Lei nº 13.668, supera as indefinições de gestão e de segurança jurídica em favor de um modelo específico e plástico que se ajusta às necessidades e potencialidades de cada unidade de conservação, considerados sua categoria e seus objetivos. O marco regulatório confere respaldo legal necessário para a exploração do uso público em unidades de conservação. Nenhuma categoria de unidade de conservação pode ser excluída a priori do modelo estabelecido. O critério da abertura à visitação pública, sem dúvida, é definidor de potencialidades, mas não configura uma exclusão determinante sem que sejam aferidas as potencialidades da unidade de conservação em si. Nessa perspectiva, é possível que unidades de conservação das categorias estação ecológica ou reserva biológica possam também formular projetos de concessão específicos e coerentes com seus objetivos. 42 A norma publicada estabelece o monitoramento e a fiscalização dos contratos de concessão, a fim de garantir que seus termos sejam cumpridos pela concessionária. Cada contrato de concessão traz obrigações referentes à instalação de infraestrutura e fornecimento dos serviços de apoio, sendo importante o monitoramento e a fiscalização para verificar o cumprimento dos compromissos assumidos para a concessão em cada UC. “ato administrativo por meio do qual o ICMBio delega a uma pessoa jurídica ou consórcio de empresas, por tempo determinado, a execução e/ou operação de serviços de apoio à visitação, para que o faça em seu próprio nome, conforme cláusulas estabelecidas em contrato.” A gestão dos territórios protegidos pelas UC onde há concessão dos serviços de apoio à visitação permanece sob responsabilidade do ICMBio, que mantém suas atribuições tais como fiscalização ambiental, monitoramento e conservação da biodiversidade, manejo integrado do fogo, gestão socioambiental e análise de empreendimentos, licenciáveis ou não, que gerem impactos às áreas protegidas. Atualmente possuem contratos de concessão de serviços de apoio à visitação o Parque Nacional da Tijuca, o Parque Nacional do Iguaçu, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, o Parque Nacional de Fernando de Noronha, o Parque Nacional do Itatiaia e os Parques Nacionais de Aparados da Serra e da Serra Geral, que figuram entre os mais visitados no Brasil. E, em 2024, foram realizadas licitações para as concessões no Parque Nacional de Jericoacoara e no Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, conforme tabela abaixo. Lista das unidades de conservação com contratos de concessão vigentes: É importante reforçar que as concessões de serviços de apoio à visitação nas UC visam à melhoria da infraestrutura nas unidades e o aprimoramento da experiência dos visitantes, e não devem ser confundidas com a privatização do patrimônio natural brasileiro. 43 Para saber mais, acesse os materiais complementares abaixo: Concessão em Unidades de Conservação Clique para assistir ao vídeo produzido por AGU Explica. SAIBA MAIS Serviços de apoio à visitação Clique para saber mais sobre os serviços de apoio à visitação. Ao longo deste módulo, exploramos os desafios e as complexidades da gestão das Unidades de Conservação (UCs) no Brasil, abordando, nas 5 (cinco) unidades acima, aspectos como o licenciamento ambiental, a compatibilização de empreendimentos preexistentes, os direitos de povos e comunidades tradicionais, os acordos institucionais e a visitação pública. A efetividade dessas áreas protegidas depende de um equilíbrio entre conservação ambiental, segurança jurídica e desenvolvimento sustentável, exigindo abordagens integradas e soluções inovadoras. A atuação do ICMBio tem sido central nesse contexto, garantindo que as atividades desenvolvidas nas UCs respeitem as normas ambientais e conciliem interesses diversos. A evolução da legislação e a adoção de instrumentos consensuais, como os acordos relevantes acima exemplificados, demonstram um avanço na governança ambiental, permitindo maior previsibilidade e segurança jurídica para todos os envolvidos. Dessa forma, a compreensão desses temas é essencial para profissionais e gestores da área ambiental, pois possibilita uma atuação mais eficiente e fundamentada. https://youtu.be/Y_6RbyEWlsE?si=wSwZEoOjG4uGawbM https://youtu.be/Y_6RbyEWlsE?si=wSwZEoOjG4uGawbM https://www.gov.br/icmbio/pt-br/acesso-a-informacao/concessao-de-servicos-de-apoio-a-visitacao 44 ADÃO, Clara de Oliveira. Reflexões estéticas para decolonizar as áreas protegidas no Brasil. Atuação: Revista Jurídica do Ministério Público Catarinense, v. 17, p. 246, 2022. ANDERSEN, N. S.; TRENTIN, B. E.; COSTA, C. D. P.; BECHARA, F. C. Scientific Ecotourism in Brazil. Revista Brasileira de Ecoturismo, São Paulo, v. 12, n. 4, ago./out. 2019, p. 581-592. ARAÚJO, Marcos Antônio Reis. Unidades de Conservação: sua importância e sua história no mundo e no Brasil. In: NEXUS. Unidades de Conservação no Brasil: o caminho da gestão para resultados.1. ed. São Carlos: RiMa Editora, 2012. p. 25-50. BARAGWANATH, Kathryn; BAYI, Ella. Collective property rights reduce deforestation in the Brazilian Amazon. Disponível em: https://www.pnas.org/content/pnas/117/34/20495.full.pdf. Acesso em: 06 out. 2021. BARBOSA, Erivaldo Moreira; BARBOSA, Maria de Fátima Nóbrega. O Direito Ambiental em perspectiva: da hermenêutica sistêmica ao saber ambiental. Veredas do Direito: Direito Ambiental e Desenvolvimento Sustentável, Belo Horizonte, v. 10, n. 20, abr. 2014, p. 179-186. BIM, Eduardo Fortunato. Licenciamento Ambiental. 2. ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2015. p. 128. BINENBOJM, Gustavo. A consensualidade administrativa como técnica juridicamente adequada de gestão eficiente de interesses sociais. Revista Eletrônica da Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro - PGE-RJ, Rio de Janeiro, v. 3, n. 3, set./dez. 2020. BINENBOJM, Gustavo. Poder de polícia, ordenação, regulação: transformações político-jurídicas, econômicas e institucionais do direito administrativo ordenador. 2. ed. Belo Horizonte: Fórum, 2017. p. 89-90. BINENBOJM, Gustavo. Uma teoria do Direito Administrativo. 2. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2008. p. 86. BRAGA, Alice Serpa. Parques Nacionais: participação privada na viabilização do uso público. Curitiba: Editora CRV, 2013. p. 93. DIEGUES, Antonio Carlos Sant'ana. O mito moderno da natureza intocada. 6. ed. São Paulo: Hucitec; NUPAUB/USP, 2008. v. 1. 198 p. FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu Editora, 2022. GUERRA, Sérgio; PALMA, Juliana Bonacorsi de. Art. 26 da LINDB – Novo regime jurídico de negociação com a Administração Pública. Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, Edição Especial: Direito Público na Lei de Introdução às Normas de Direito Brasileiro – LINDB (Lei nº 13.655/2018), p. 146-154, nov. 2018. KOKKE, Marcelo; PAULA, Frederico Rios. Acordos substitutivos de multa ambiental: redefinindo os limites da consensualidade no processo sancionador. In: AZEVEDO, Marcelo; MALTA, Bruno (Org.). Direito do ambiente em perspectiva. 1. ed. Belo Horizonte; São Paulo: D'Plácido, 2020. v. 1, p. 73-74. REFERÊNCIAS https://www.pnas.org/content/pnas/117/34/20495.full.pdf 45 OLIVEIRA, R. C. R. A releitura do Direito Administrativo à luz do pragmatismo jurídico. Revista de Direito Administrativo, v. 256, 2011, p. 135. Povos Indígenas no Brasil. Sobreposições em números. Disponível em: https://pib.socioambiental.org/pt/Sobreposi%C3%A7%C3%B5es_em_n%C3%BAmero s. Acesso em: 04 abr. 2024. RODRIGUES, Camila Gonçalves de Oliveira; FONTOURA, Leandro Martins; ROSA, Cláudia Rodrigues; MEDEIROS, Rodrigo; YOUNG, Carlos Eduardo Frickmann. Turismo e uso público. In: YOUNG, Carlos Eduardo Frickmann; MEDEIROS, Rodrigo (Coord.). Quanto vale o verde: a importância das unidades de conservação brasileiras. Rio de Janeiro: Conservação Internacional, 2018. p. 75-99. STF. Pet 3388, Relator(a): Carlos Britto, Tribunal Pleno, DJe 01 jul. 2010. STF. RE 1017365, Relator(a): Edson Fachin, Tribunal Pleno, julgado em 27 set. 2023, publicado em 15 fev. 2024. https://pib.socioambiental.org/pt/Sobreposi%C3%A7%C3%B5es_em_n%C3%BAmeros https://pib.socioambiental.org/pt/Sobreposi%C3%A7%C3%B5es_em_n%C3%BAmerosnão vinculante, no âmbito do processo de licenciamento ambiental, é um meio para atingir tal finalidade. Se houver discordância do ICMBio sobre a classificação de um empreendimento, o órgão não deve penalizar o empreendedor, já que não é ele quem classifica o empreendimento ou solicita a autorização para o licenciamento ambiental. Da mesma forma, o ICMBio não deve penalizar o órgão licenciador ou seu representante por decisões administrativas dentro de suas competências legais. As divergências no licenciamento ambiental devem ser resolvidas, sempre que possível, de forma consensual. Recorrer à justiça requer prova de ilegalidade ou abuso de poder por parte do órgão licenciador. Quando há desacordo técnico sobre um aspecto essencial do controle ambiental, o órgão licenciador tem a prerrogativa de escolher uma das posições técnicas possíveis. O simples desacordo do ICMBio não basta para caracterizar ilegalidade ou abuso de poder, o que ocorre quando a decisão do órgão licenciador é manifestamente absurda ou desprovida de fundamentação técnico-científica adequada. 05 O ICMBio pode, no entanto, contribuir com análises técnicas e sugerir medidas para mitigar ou compensar os impactos nas UCs federais, conforme a Resolução CONAMA n° 428/2010, mas essas sugestões não são obrigatórias. Por fim, qualquer declaração de ilegalidade ou abuso de poder por parte do ICMBio em relação ao licenciamento ambiental deve ser feita pela autoridade máxima do Instituto, após diálogo prévio com o órgão licenciador e baseada em uma manifestação técnica detalhada e parecer jurídico. Para saber mais, acesse o material complementar abaixo: Resolução CONAMA nº 01/1986 Dispõe sobre critérios básicos e diretrizes gerais para a avaliação de impacto ambiental SAIBA MAIS Resolução CONAMA nº 237/1997 Dispõe sobre a revisão e complementação dos procedimentos e critérios utilizados para o licenciamento ambiental https://conama.mma.gov.br/?id=745&option=com_sisconama&task=arquivo.download https://conama.mma.gov.br/?id=745&option=com_sisconama&task=arquivo.download https://conama.mma.gov.br/?id=237&option=com_sisconama&task=arquivo.download https://conama.mma.gov.br/?id=237&option=com_sisconama&task=arquivo.download 06 Resolução CONAMA nº 428/2010 Dispõe, no âmbito do licenciamento ambiental sobre a autorização do órgão responsável pela administração da Unidade de Conservação (UC), de que trata o § 3º do artigo 36 da Lei nº 9.985 de 18 de julho de 2000, bem como sobre a ciência do órgão responsável pela administração da UC no caso de licenciamento ambiental de empreendimentos não sujeitos a EIA-RIMA e dá outras providências Portaria nº 2, de 16 de novembro de 2023 Aprovou a revisão da ORIENTAÇÃO JURÍDICA NORMATIVA PFE/ICMBio nº 7/2011, que trata sobre a delimitação do papel do ICMBio no licenciamento ambiental 1.1 Empreendimentos de infraestrutura preexistentes às unidades de conservação Os empreendimentos de infraestrutura de utilidade pública e interesse social preexistentes à criação das UCs federais são aqueles cujos usos e finalidades conflitam ou são incompatíveis com a categoria ou os objetivos de criação da área protegida, tais como rodovias, estradas, ferrovias, hidrovias, sistemas de abastecimento de água, linhas de distribuição e transmissão de energia, estação transmissora de radiocomunicação, rede de telecomunicações, gasodutos e oleodutos. Isso representa um desafio crítico para a gestão de UCs, uma vez que sua presença pode comprometer os objetivos de conservação. Quando uma área é designada como UC, é necessário revisar as atividades em curso e avaliar sua compatibilidade com o novo status de proteção. https://cetesb.sp.gov.br/licenciamentoambiental/wp-content/uploads/sites/32/2019/05/Resolu%C3%A7%C3%A3o-CONAMA-n%C2%BA-428-2010.pdf https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-n-2-de-16-de-novembro-de-2023-525921134 07 Há que se considerar que muitas UCs foram criadas anteriormente à Lei do SNUC de 2000 e à Constituição Federal de 1988. Como não havia um regramento claro sobre a forma de criação e gestão dessas áreas, o conjunto de nomes dados a elas foi bastante variável (Araújo, 2012). Veja alguns dos nomes dados a essas áreas: Parques nacionais; Reservas naturais; Reservas ecológicas; Parques florestais; Áreas de proteção ambiental; Estações naturais. Fonte: Canva.; Governo do Estado de São Paulo. Wikimedia Commons; Ricardo Stuckert. Flickar. Diz-se nomes, e não categorias, justamente para frisar que, ao longo do século XX, não chegaram a ser estabelecidos no Brasil instrumentos normativos amplos e detalhados que sistematizassem objetivos, funções ou quaisquer outras características relacionadas a possíveis categorias de áreas protegidas. Isso só veio a acontecer efetivamente no início do século XXI, justamente no ano 2000, com a criação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC, pela Lei nº 9.985. A categorização posterior promovida pela chamada Lei do SNUC para UCs criadas anteriormente a tal regime jurídico trouxe problemas. É como se as unidades criadas sob a lógica anterior, sem a sistematização do SNUC, pautadas em regulamentos de baixíssima densidade normativa e ampla indeterminação dos conceitos jurídicos, tivessem que se adaptar da noite para o dia à nova roupagem jurídica. Essa situação deve ser ponderada pelo aplicador do direito, pelo administrador e pelo gestor das UCs. A ausência de efetividade da Lei n° 9.985/2000 pode ser representada pela distância entre o idealismo legislativo e a realidade. 08 No caso de alguns empreendimentos preexistentes de infraestrutura de interesse público no interior de UCs, onde não são, em regra, admitidos, os diversos valores e interesses consagrados e protegidos no texto constitucional, denotam a impossibilidade de existência de preferências normativas absolutas, abrindo caminho para a ponderação no caso concreto (Oliveira, 2011). Há uma situação peculiar na REBIO União, a existência dos empreendimentos elencados no parágrafo 2º do artigo 1º do Decreto s/n° de 05 de junho de 2017 que estão expressamente excluídos dos seus limites, isto é, encravados no seu "interior", mas desafetados do seu regime jurídico ambiental. São "ilhas" dentro da UC. Não se trata de revisão do juízo de ponderação (mediante a correção de sua insuficiência) de atos cuja revisão juridicamente admitida se dá por meio de lei. Na verdade, é a atuação do administrador, do órgão gestor da UC, de resolução do caso concreto, de forma consensual, do juízo de ponderação dos Poderes Executivo ou Legislativo manifestamente ineficiente quando da criação de determinadas UCs diante da realidade dos fatos. Se a revisão no plano normativo se der por meio de lei com a exclusão do empreendimento preexistente, como na situação peculiar da Reserva Biológica da União, no Decreto s/n° de 05 de junho de 2017, que a ampliou, ou sua recategorização, não exclui a possibilidade de resolução, no caso concreto, dos problemas decorrentes do distanciamento da lei formal da realidade fática. O Estado democrático de direito é um Estado de ponderação, que se legitima pelo reconhecimento da necessidade de proteger e promover, ponderada e razoavelmente, os interesses (Binenbojm, 2008) tanto dos empreendimentos preexistentes de infraestrutura como os interesses gerais da coletividade ao meio ambiente ecologicamente equilibrado por meio da criação de UCs. Até porque, alguns desses empreendimentos são destinados aos serviços públicos em geral de sistema viário, abastecimento de água e saneamento, energia, telecomunicações, radiodifusão etc., os quais também atendem aos interesses gerais da coletividade. O que se chamará interesse público é o resultado final desse jogo de ponderações que, conforme as circunstâncias normativas e fáticas, ora apontará para a preponderância relativa de um interesse, ora determinará a prevalência parcial de outro. 09 A definição da postura institucional do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) em relação aos empreendimentos que impactamUCs federais exige uma análise criteriosa de valores em conflito no caso concreto. Para tanto, é essencial considerar as características do empreendimento, como o impacto ambiental, a viabilidade de alternativas técnicas e locacionais, o valor de uma possível indenização em caso de descomissionamento, e a relevância social e econômica do serviço ou produto em questão. Essas considerações devem ser confrontadas com os componentes fundamentais da UC, seu propósito, significância e recursos especialmente protegidos. Nesse processo de ponderação, o ICMBio deve necessariamente incluir a participação de outros órgãos do poder público com competência sobre a política pública envolvida, para garantir a identificação e mensuração integral e precisa dos valores e interesses em conflito. A decisão final, devidamente fundamentada, poderá resultar em uma das seguintes alternativas: A alternativa escolhida será formalizada por meio de um acordo entre o ICMBio e o empreendedor, com base no art. 26 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB). O órgão licenciador será convidado a intervir no processo para que o ajuste afete o licenciamento ambiental. Nos casos das alternativas que preveem a desafetação ou o descomissionamento, o ICMBio deve notificar o órgão licenciador, enviando cópia do acordo e outros documentos relevantes. Se o licenciamento ambiental exigir a autorização do ICMBio de que trata o § 3° do art. 36 da Lei n° 9.985/2000, a admissão da continuidade do empreendimento preexistente será formalizada por meio deste ato. 1.a admissão provisória da continuidade da atividade com proposta de alteração legislativa para desafetação ou recategorização da unidade; 2.a admissão provisória com prazo e condições para descomissionamento; ou 3.a admissão da continuidade mediante assentimento expresso do ICMBio. Art. 26 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (LINDB) Para eliminar irregularidade, incerteza jurídica ou situação contenciosa na aplicação do direito público, inclusive no caso de expedição de licença, a autoridade administrativa poderá, após oitiva do órgão jurídico e, quando for o caso, após realização de consulta pública, e presentes razões de relevante interesse geral, celebrar compromisso com os interessados, observada a legislação aplicável, o qual só produzirá efeitos a partir de sua publicação oficial. § 1º O compromisso referido no caput deste artigo: 10 I - buscará solução jurídica proporcional, equânime, eficiente e compatível com os interesses gerais; II – (VETADO); III - não poderá conferir desoneração permanente de dever ou condicionamento de direito reconhecidos por orientação geral; IV - deverá prever com clareza as obrigações das partes, o prazo para seu cumprimento e as sanções aplicáveis em caso de descumprimento. § 2º (VETADO). Além disso, a continuidade da atividade pode ser condicionada a medidas ambientais que assegurem a preservação dos atributos que justificaram a criação da UC. Também pode ser previsto um regime de transição para os casos de admissão provisória. Por fim, o ICMBio e o empreendedor podem acordar formas de compensação ambiental específicas em favor da UC impactada. Art. 36 da Lei n° 9.985/2000 Nos casos de licenciamento ambiental de empreendimentos de significativo impacto ambiental, assim considerado pelo órgão ambiental competente, com fundamento em estudo de impacto ambiental e respectivo relatório - EIA/RIMA, o empreendedor é obrigado a apoiar a implantação e manutenção de unidade de conservação do Grupo de Proteção Integral, de acordo com o disposto neste artigo e no regulamento desta Lei. (...) § 3 Quando o empreendimento afetar unidade de conservação específica ou sua zona de amortecimento, o licenciamento a que se refere o caput deste artigo só poderá ser concedido mediante autorização do órgão responsável por sua administração, e a unidade afetada, mesmo que não pertencente ao Grupo de Proteção Integral, deverá ser uma das beneficiárias da compensação definida neste artigo. (...) o Para saber mais, acesse o material complementar abaixo: PORTARIA ICMBio nº 1.002, de 5 de abril de 2024 Aprovou a ORIENTAÇÃO JURÍDICA NORMATIVA PFE/ICMBIO Nº 38/2024, que trata sobre empreendimentos de infraestrutura de utilidade pública e/ou interesse social preexistentes à criação das unidades de conservação federais SAIBA MAIS https://conama.mma.gov.br/?id=745&option=com_sisconama&task=arquivo.download https://conama.mma.gov.br/?id=745&option=com_sisconama&task=arquivo.download 11 2. Acordos envolvendo Unidades de Conservação 🎯 Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de entender os casos de acordos envolvendo unidades de conservação (UCs) e e analisar a dupla afetação de povos e comunidades tradicionais em UCs Um dos objetivos do Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza - SNUC é justamente o de “proteger os recursos naturais necessários à subsistência de populações tradicionais”, (art. 4º, XIII, da Lei nº 9985/2000) 2.1 Povos e comunidades tradicionais, dupla afetação e sua relação com as unidades de conservação além de ter como diretriz garantir “às populações tradicionais cuja subsistência dependa da utilização de recursos naturais existentes no interior das unidades de conservação meios de subsistência alternativos ou a justa indenização pelos recursos perdidos” . (art. 5º, X, da Lei nº 9985/2000) Há duas categorias de Unidades de Conservação do Grupo de Uso Sustentável que são verdadeiros Territórios Tradicionais: as Reservas Extrativistas (art. 18) e as Reserva de Desenvolvimento Sustentável (art. 20). 12 A presença de populações tradicionais que se beneficiam da exploração dos recursos naturais de maneira sustentável representa elemento fundamental de criação de unidades dessas categorias. Fonte: Bruno Kelly. Flickar. Há, nesses casos, a realização concomitante e indissociável de duas vertentes do conceito moderno de meio ambiente: ao tempo em que se tutela determinado espaço territorial como ambientalmente protegido (art. 225, § 1°, III, da Constituição Federal), isso é feito garantindo-se a manutenção e perpetuação do meio de vida tradicional, promovendo a reprodução cultural, social e econômica da respectiva comunidade, inerente ao direito fundamental à cultura (art. 216, II, da Constituição Federal). Nas Florestas Nacionais, é admitida expressamente a permanência de populações tradicionais que a habitam quando de sua criação (art. 17, § 2°). Admite- se também em Área de Proteção Ambiental (art. 15) e em Área de Relevante Interesse Ecológico (art. 16) ocupação humana, inclusive de populações tradicionais, mas, em regra, essas outras categorias de Unidades de Conservação de Uso Sustentável não são criadas em razão delas, por elas, e sim com elas, quando presentes. Mas e nas Unidades de Conservação do Grupo de Proteção Integral? A concepção do modelo conservacionista brasileiro, com viés preservacionista, foi permeada por um pensamento técnico-racional mítico e simbólico de um mundo natural selvagem, intocado e intocável. Na chamada "proteção integral", a preservação é intensa, buscando-se a manutenção dos ecossistemas livres de alterações causadas por interferências humanas, admitindo-se apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, aquele que não envolve consumo, coleta, dano ou destruição (Lei n° 9.985/2000 nos arts. 2°, VI e IX, e 7°, § 1°). 13 Esse neomito foi transposto dos Estados Unidos para o Brasil, onde a situação é ecológica, social e culturalmente distinta. Aqui, mesmo nas florestas tropicais aparentemente vazias, vivem populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas, extrativistas e pescadores artesanais, portadores de uma cultura tradicional, cuja relação com o mundo natural é distinta das existentes nas sociedades urbano-industriais (Diegues, 2008). Ao longo da História, a criação de áreas protegidas de proteção integral ignorou a preexistência de povos e comunidades tradicionais em um processo de verdadeira invisibilização. Da noitepara o dia, o Poder Público passou a impor diversas limitações ao exercício das atividades essenciais e caracterizadoras da tradicionalidade, violando os modos de vida e as fontes de subsistência dessas populações. A compreensão dessa questão passa por uma visão decolonial da conservação das áreas protegidas brasileiras. Em 2018, havia, em todo o país, 77 casos de sobreposição territorial envolvendo 42 Terras Indígenas (TIs) e 34 Unidades de Conservação (UCs) de Proteção Integral (19 federais e 15 estaduais). Na Amazônia Legal, há 22 TIs sobrepostas a 20 UCs de Proteção Integral (13 federais e 7 estaduais). Entre estas, apenas quatro unidades (2 federais e 2 estaduais) foram criadas a partir do ano 2000, quando foi instituído pela Lei n° 9.985 o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) (PIB, 2018). São exemplos, o Parque Nacional Monte Pascoal com a Terra Indígena Barra Velha, na Bahia; o Parque Nacional do Pico da Neblina com a Terra Indígena Yanomami, no extremo norte do Amazonas e em fronteira com a Venezuela; e o Parque Nacional do Juruena com a Terra Indígena Apyaká, no Mato Grosso. No mesmo sentido, há casos de sobreposição de UCs de Proteção Integral e Territórios Quilombolas (TQ). Pelo menos 7 deles foram tratados no âmbito da Câmara de Mediação e de Conciliação da Administração Pública Federal da Advocacia-Geral da União (CCAF/AGU), entre os anos 2008 e 2015, conforme quadro abaixo: Fonte: Elaborado pelo autor. 14 Quanto aos demais povos e comunidades tradicionais, não há previsão constitucional expressa, lócus estatal específico, tal como indígenas (Fundação Nacional dos Povos Indígenas – FUNAI) e quilombolas (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA e Fundação Cultural Palmares), tampouco procedimento de identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras por eles ocupadas. Isso torna o desafio ainda mais complexo. Do art. 42 da Lei n.º 9.985/2000 e do art. 39 do Decreto Federal n° 4.340/2002, depreende-se um duplo direito das populações tradicionais residentes em UCs de Proteção Integral, nas quais sua permanência não seja admitida: o direito de serem indenizadas ou compensadas pelas benfeitorias existentes e, cumulativamente, o direito de serem reassentadas pelo Poder Público. Em outra perspectiva, verifica-se que: 1.não se prevê a hipótese de manutenção permanente de populações tradicionais; 2.é permitido apenas o diálogo e o acordo de vontades no que se refere ao local e às condições da realocação; e 3.é estabelecido um regime transitório de compatibilização até que seja possível efetuar o reassentamento, por meio da celebração de um instrumento precário (termo de compromisso). A solução definitiva é indenização/compensação de benfeitorias e reassentamento. Há, ainda, populações tradicionais não residentes, quando o perímetro da UC de Proteção Integral não englobou os locais de moradia da comunidade, onde se situam as casas das famílias, mas incorporou parcela do território tradicional, o que pode incluir áreas de extrativismo, pesca, roçado, locais sagrados, de lazer, perambulação, entre outros. Toda área de vida da comunidade, onde se dão as suas práticas tradicionais, compõe o território tradicional, e não apenas os locais de moradia. Kathryn Baragwanath e Ella Bayi, ao analisarem dados de satélites no período entre 1982 e 2016, apontam que as terras indígenas, quando finalizado o processo de demarcação, são eficazes na redução significativa do desmatamento, em comparação com áreas não demarcadas. 15 Esses territórios cumprem não apenas um papel de direitos humanos, mas também são uma forma econômica de governos preservarem suas áreas florestais e atingirem as metas climáticas (Baragwanath, Kathryn; Bayi, Ella). Fonte: TI Vale do Javari. Flickar. Em caso de sobreposição, há que se considerar sinergias benéficas decorrentes da presença das comunidades tradicionais nas UCs. Reciprocamente, as unidades podem contribuir para a proteção das comunidades tradicionais, ao tempo em que protegem os territórios tradicionais e seu patrimônio biocultural. Assim, as áreas sobrepostas, se geridas na perspectiva da compatibilização de direitos, representariam uma soma de proteções. A compatibilidade entre meio ambiente e terras indígenas foi afirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento da Pet 3388/RR (STF. Pet 3388) (caso Raposa Serra do Sol), em 19/03/2009, cujo caso concreto envolvia a sobreposição entre a Terra Indígena Raposa Serra do Sol e o Parque Nacional de Monte Roraima. Foi consignada haver compatibilidade seja no caso de área de conservação (uso sustentável), seja no de preservação ambiental (proteção integral), explicitando-se a dupla afetação, sob a administração do competente órgão de defesa ambiental, o que não exclui a participação de outros órgãos. Ponderando valores envolvidos, o STF resolveu harmonizar os direitos dos índios com os interesses difusos de toda a sociedade na proteção da sociobiodiversidade, em vez de reduzir a TI ou a UC para eliminar a sobreposição. Nesse sentido, o STF entendeu que: Há perfeita compatibilidade entre meio ambiente e terras indígenas, ainda que estas envolvam áreas de "conservação" e "preservação" ambiental. Essa compatibilidade é que autoriza a dupla afetação, sob a administração do competente órgão de defesa ambiental. [Pet 3.388, rel. min. Ayres Britto, j. 19-3-2009, P, DJE de 1º-7-2010.] 16 As normas e os fatos, a meu sentir, reafirmam a convergência de propósitos e princípios entre as afetações que resultam nas Unidades de Conservação e nas Terras Indígenas, e tal qual previsto nas normas citadas, considero que a gestão nas áreas com dupla afetação deve ser compartilhada entre as unidades ambiental e indígena, com participação direta dos povos afetados. Acompanho o Relator, no ponto, sugerindo a inclusão expressa do direito de exercício das atividades tradicionais e da previsão atinente à gestão compartilhada na área sob dupla afetação entre os órgãos ambiental e indígena, com necessária participação da comunidade indígena nas deliberações respectivas. Em 27 de setembro de 2023, o STF fixou a Tese de Repercussão Geral no RE nº 1.017.365/SC (STF, RE 1017365) referente à definição do estatuto jurídico- constitucional das relações de posse das áreas de tradicional ocupação indígena à luz das regras dispostas no artigo 231 do texto constitucional. Reafirmou, no item XII, a compatibilidade da ocupação tradicional das terras indígenas com a tutela constitucional ao meio ambiente, sendo assegurado o exercício das atividades tradicionais dos indígenas. Na ocasião, o Ministro Dias Toffoli concluiu pela necessidade de que a gestão das áreas com dupla afetação seja compartilhada pelos órgãos ambiental (ICMBio) e indígena (FUNAI), com participação direta dos povos afetados. Destaca-se o seguinte trecho: Desse modo, tenho que há compatibilidade entre a ocupação tradicional das terras indígenas e a tutela constitucional ao meio ambiente, assegurado o exercício das atividades tradicionais dos indígenas, sob gestão compartilhada da área pelos órgãos ambiental e indígena, com participação direta dos povos originários nas decisões que os afetem.” (grifo nosso). Nesse sentido, o STF entendeu que: “As políticas de proteção ambiental não podem interferir no exercício das atividades tradicionais dos índios, a uma, porque não se configuram em ações predatórias ao meio ambiente, a duas, porque os usos, costumes e tradições indígenas consistem no núcleo do reconhecimento da tradicionalidade da ocupação tutelada pelo artigo 231 do texto constitucional.” (Edson Fachin) 17 Nos conflitos gerados pela implantação de Unidades de Conservação de Proteção Integral federais em territórios tradicionais, o ICMBio vem buscando a harmonização proporcional entre, de um lado, o direito difuso ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, inclusive por meio da proteção aos espaços territoriais especialmente protegidos (art. 225, § 1°, III, CF) e, de outro, os direitosoriginários indígenas sobre as terras que tradicionalmente ocupam (art. 231, CF) e o direito de propriedade definitiva das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos (art. 68, ADCT/CF), associados aos direitos culturais destas e territoriais de outros povos e comunidades tradicionais assim reconhecidos (arts. 215 e 216, CF), considerando-se as especificidades de cada situação e suas circunstâncias práticas, bem como os obstáculos e as dificuldades reais e as exigências das respectivas políticas públicas. É o que sustentou a Advocacia-Geral da União (AGU), por meio do PARECER nº 00175/2021/CPAR/PFE-ICMBIO/PGF/AGU. O PARECER nº 00175/2021/CPAR/PFE- ICMBIO/PGF/AGU foi aprovado pelo DESPACHO nº 00635/2021/GABINETE/PFE- ICMBIO/PGF/AGU nos autos do processo administrativo n° 00810.001628/2020-40. Nesse sentido, a manifestação jurídica propôs uma releitura da Lei n° 9.985/2000, especialmente nas regras relativas ao art. 42, passando por um filtro constitucional e convencional (Convenção OIT nº 169) e interpretação sistemática em relação ao ordenamento jurídico vigente, com fundamento central na dignidade da pessoa humana. Isso possibilita a permanência de Povos e Comunidades Tradicionais inerentes à diversidade biocultural afeta às Unidades de Conservação de Proteção Integral que dependam desse espaço necessário e inamovível para a afirmação da sua identidade e a garantia dos seus modos de criar, fazer e viver. Tal possibilidade de permanência via compatibilização de direitos não significa obrigatoriedade, o que depende de avaliação técnica específica do caso concreto diante da viabilidade da conformação dos interesses em jogo, sem prejuízo de que a solução definitiva venha a ser a desafetação do regime jurídico ambiental (art. 225, § 1°, III, CF), a recategorização ou o reassentamento. 18 Para saber mais, acesse os materiais complementares abaixo: PARECER nº 00175/2021/CPAR/PFE-ICMBIO/PGF/AGU Manifestação jurídica elaborada pela Procuradoria Federal Especializada junto ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com o objetivo de analisar a compatibilidade entre a permanência de povos e comunidades tradicionais em Unidades de Conservação (UCs) de Proteção Integral e os objetivos dessas unidades. SAIBA MAIS ICMBio passa a aceitar permanência de tradicionais em unidades de conservação de proteção integral Clique para ler a reportagem na íntegra. A partir dessa verdadeira mudança de paradigma, o órgão da AGU sugeriu que o ICMBio reavaliasse os termos de compromisso até então celebrados com populações tradicionais inerentes, sob a lógica da transitoriedade, sem que se frustre a confiança legítima depositada nos atos administrativos já praticados. Igualmente, recomendou a conformação no plano de manejo, em zoneamento específico, da gestão e do manejo dos recursos naturais do espaço territorial em regime de dupla afetação. Manual de atuação do Ministério Público Federal (MPF) - Territórios de Povos e Comunidades Tradicionais e as Unidades de Conservação de Proteção Integral Clique para acessar o manual na íntegra. https://www.gov.br/mda/pt-br/acesso-a-informacao/povos-e-comunidades-tradicionais/repositorio-de-marcos-regulatorios-de-regularizacao-fundiaria-de-povos-e-comunidades-tradicionais/federais/orgaos-publicos/agu-2021_parecer_compatibilidade-comunidades-tradicionais-e-unidade-de-conservacao-de-protecao-integral.pdf https://www.gov.br/mda/pt-br/acesso-a-informacao/povos-e-comunidades-tradicionais/repositorio-de-marcos-regulatorios-de-regularizacao-fundiaria-de-povos-e-comunidades-tradicionais/federais/orgaos-publicos/agu-2021_parecer_compatibilidade-comunidades-tradicionais-e-unidade-de-conservacao-de-protecao-integral.pdf https://oeco.org.br/reportagens/icmbio-passa-a-aceitar-permanencia-de-tradicionais-em-unidades-de-conservacao-de-protecao-integral/ https://oeco.org.br/reportagens/icmbio-passa-a-aceitar-permanencia-de-tradicionais-em-unidades-de-conservacao-de-protecao-integral/ https://oeco.org.br/reportagens/icmbio-passa-a-aceitar-permanencia-de-tradicionais-em-unidades-de-conservacao-de-protecao-integral/ https://oeco.org.br/reportagens/icmbio-passa-a-aceitar-permanencia-de-tradicionais-em-unidades-de-conservacao-de-protecao-integral/ https://www.mpf.mp.br/atuacao-tematica/ccr6/documentos-e-publicacoes/manual-de-atuacao/docs/manual-de-atuacao-territorios-de-povos-e-comunidades-tradicionais-e-as-unidades-de-conservacao-de-protecao-integral/at_download/file https://www.mpf.mp.br/atuacao-tematica/ccr6/documentos-e-publicacoes/manual-de-atuacao/docs/manual-de-atuacao-territorios-de-povos-e-comunidades-tradicionais-e-as-unidades-de-conservacao-de-protecao-integral/at_download/file https://www.mpf.mp.br/atuacao-tematica/ccr6/documentos-e-publicacoes/manual-de-atuacao/docs/manual-de-atuacao-territorios-de-povos-e-comunidades-tradicionais-e-as-unidades-de-conservacao-de-protecao-integral/at_download/file 19 A legislação ambiental contempla, sob a denominação de termo de compromisso de ajustamento de conduta, comumente chamado TAC, e suas variações, instrumentos jurídicos cujos traços comuns convergem, em regra, ao objetivo geral de estipular condições de tempo, lugar e modo de reconformação de ações ou omissões de determinado sujeito para fins de compatibilizá-las aos padrões de juridicidade admitidos. Diferenciam-se seja porque distintos os legitimados, o fundamento legal, o objeto específico ou os requisitos para sua celebração. A previsão do TAC contida no § 6° do art. 5° da Lei n° 7.347/1985 está imbuída desse norte referencial, cujo objeto, por aplicação do art. 1° da mesma Lei, pressupõe a existência de um dano, efetivo ou potencial, ao meio ambiente. Isso limita o escopo de sua utilização na gestão ambiental para situações e finalidades diversas, como, por exemplo, para tratar de casos em que não há necessariamente uma conduta em desconformidade a ser ajustada às exigências legais. Há vários outros instrumentos de consensualidade ambiental denominados termos de compromisso, podendo ser mencionados os seguintes: 1.termo de compromisso previsto no art. 79-A da Lei n° 9.605/1998; 2.termo de compromisso disposto no art. 72, § 4°, da Lei n° 9.605/1998 e regulamentada pelos arts. 139 e seguintes do Decreto n° 6.514/2008, com as alterações promovidas pelo Decreto n° 9.179/2017, que instituiu o procedimento e a forma do Programa de Conversão de Multas Ambientais (PCMA), bem como pelo Decreto n° 9.760/2019, pelo Decreto n° 11.080/2022 e pelo Decreto n° 11.373/2023 ; 3.termo de compromisso previsto nos §§ do art. 59 da Lei n° 12.651/2012, no âmbito dos Programas de Regularização Ambiental (PRA) de posses e propriedades em áreas rurais consolidadas até 22 de julho de 2008 em Áreas de Preservação Permanente, de Reserva Legal e de uso restrito; 4.termo de compromisso previsto no § 1° do art. 21 da Lei n° 9.985/2000 para tratar do gravame de perpetuidade da Reserva Particular de Patrimônio Natural (RPPN), devendo ser averbado à margem da inscrição no Registro Público de Imóveis, conforme regulamentado pelo Decreto n° 5.746/2006; e 5.termo de compromisso que regula as condições de permanência das populações tradicionais em Unidade de Conservação de Proteção Integral enquanto não forem reassentadas, com base no art. 39 do Decreto n° 4.340/2002 e na Instrução Normativa ICMBio n° 26/2012. 2.2 Acordos em torno das Unidades de Conservação 20 O regime jurídico de atuação consensual instituído pela chamada Lei da Segurança Jurídica (Lei n° 13.655/2018) ampliou o escopo de utilização de instrumentos de consensualidade ambiental para além da irregularidade e do ajustamento de conduta. Com a inclusão do art. 26 à Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro - LINDB (Decreto-Lei n° 4.657/1942), pela Lei n° 13.655/2018, há, agora, um permissivo geral para que a Administração Pública possa celebrar um compromisso de caráter finalístico, direcionando à resolução de circunstâncias práticas que o legitimam, isto é, para eliminar não só irregularidade,mas também incerteza jurídica e situação contenciosa na aplicação do Direito Público (Guerra; Palma, 2020), do qual faz parte o Direito Ambiental e a Lei n° 9.985/2000. Apresenta vocação mais abrangente do que o TAC previsto no § 6° do art. 5° da Lei n° 7.347/1985. “percorre um caminho paradoxal na medida em que rejeita o conhecimento cartesiano-positivista, mas aceita se comunicar com o conhecimento contextual-sistêmico”. (Barbosa; Barbosa, 2014) A eliminação de “incerteza jurídica” está ligada primordialmente aos conceitos jurídicos indeterminados, ou seja, é fruto da opção político-jurídica pelo balizamento da ação administrativa por normas que exigem valorações ou avaliações técnico- científicas dos órgãos ambientais para a sua concretização. Por seu conteúdo vago, esses conceitos não amarram a decisão administrativa em termos de uma simples subsunção dos fatos, apresentando zonas de certeza (positiva e negativa) e uma zona de incerteza (Binenbojm, 2017). Isso gera grande dificuldade de subsunção da norma ambiental – regulatória ou sancionadora – à realidade fática. Esse panorama ganha complexidade na seara ambiental em face da inerente transdisciplinaridade do Direito Ambiental, que, para proteger o meio ambiente, adota os conceitos das Ciências Biológicas ou Naturais, externalizando os conceitos jurídicos indeterminados. O saber ambiental Por sua vez, a transversalidade das questões ambientais evidencia a necessidade de integrar princípios de sustentabilidade em todas as áreas da sociedade, reconhecendo a conexão dos desafios ambientais, como mudanças climáticas, poluição e perda de biodiversidade, com aspectos sociais, culturais e econômicos. Essa perspectiva demanda ações coordenadas entre setores e níveis de governança, conciliando a proteção do meio ambiente com outros valores constitucionais. É fundamental que esses valores sejam ponderados no caso concreto, buscando soluções consensuais para mitigar conflitos, levando em conta os obstáculos e desafios enfrentados pelos gestores públicos e as exigências das políticas sob sua responsabilidade, sem comprometer os direitos dos administrados. 21 A matriz jurídica até aqui radiante no ordenamento jurídico brasileiro está alicerçada em um pensamento jurídico restrito ao binômio legal/ilegal, como se fosse possível em toda e qualquer circunstância determinar se uma atividade é ou não regular ou irregular, se configura uma infração ambiental. A dúvida que se manifesta em alguns casos práticos na vida jurídica passa exatamente pelo inverso. Há situações em que uma zona cinzenta se manifesta, uma dimensão de incerteza jurídica se revela no exercício do poder de polícia ambiental, sobretudo no ordenamento administrativo de áreas protegidas. Tanto o órgão ambiental quanto o particular ficam em uma situação de incerteza jurídica quanto à ocorrência de uma infração ambiental, à aplicação da norma no caso concreto, aos diretos e deveres das partes. A indefinição é prejudicial tanto para o sistema ambiental quanto para os envolvidos. A questão, por sua complexidade, pode derivar para uma custosa judicialização que tende a se prolongar por anos sem qualquer certeza probabilística do resultado (Kokke; Paula, 2020). Essa incerteza jurídica pode estar configurada, entre outros, nos seguintes casos: 1.ausência de previsibilidade sobre o conteúdo da decisão do ICMBio, como, por exemplo, o que é permitido/proibido, a depender do regime jurídico de cada unidade; 2. indefinição quanto ao tempo de tomada de decisão do ICMBio, com risco de inviabilizar o próprio pleito do particular (perigo da demora); 3.risco de a decisão do ICMBio não ser clara e precisa ou, ainda, não ser a mais eficiente no caso concreto (desconexão da análise técnico-administrativa com a realidade fática); 4.alto potencial de impacto da incerteza jurídica sobre a efetivação de direitos e garantias fundamentais; 5. inviabilidade de o ICMBio apresentar uma resposta clara, definitiva, concreta e uniforme diante da incerteza jurídica; e 6.risco de utilização excessiva da sanção como mecanismo de gestão, escalando conflitos entre ICMBio e os particulares e dificultando uma relação mais dialógica. A discussão permeia a segurança jurídica, decorrência necessária do Estado de Direito, traduzida na faculdade do indivíduo de poder conduzir, planejar e conformar sua vida de maneira autônoma e responsável à luz do ordenamento jurídico. Esse princípio pode ser visto sob duas perspectivas. A insegurança jurídica que um acordo, com base no art. 26 da LINDB, pretende suprimir está ligada tanto à uma perspectiva objetiva, fundada na certeza e na previsibilidade do ordenamento, quanto a uma perspectiva subjetiva, relacionada com a proteção da confiança e das expectativas legítimas do indivíduo. 22 Em síntese, há situações de incerteza jurídica tão intensas na atuação dos órgãos ambientais que se justifica a composição, por meio de um acordo, que não desampare a tutela ambiental (Kokke; Paula, 2020). Nessas situações, caberá à Administração Ambiental exercer a sua prerrogativa e margem de avaliação, mediante a devida motivação, tomando a decisão que entender mais adequada (Binenbojm, 2017), em busca do melhor interesse público no caso concreto pela via da consensualidade. Nesse sentido, podemos citar três acordos emblemáticos que objetivaram eliminar situações contenciosas de incerteza jurídica na gestão ambiental de unidades de conservação. União, ICMBio e Estado de Pernambuco: gestão integrada e ordenamento territorial e urbanístico- ambiental do Arquipélago de Fernando de Noronha Fonte: Elisangela Rocha. Wikimedia Commons. 23 Em março de 2022, a União ajuizou Ação Cível Originária (ACO) 3568 perante o Supremo Tribunal Federal (STF), requerendo o reconhecimento da titularidade federal sobre o Arquipélago de Fernando de Noronha e a observância, pelo estado de Pernambuco, do contrato de cessão de uso em condições especiais da ilha. A União alega que o contrato, celebrado em 2002, não estaria sendo cumprido pelo ente federativo. Na ação, a Advocacia-Geral da União (AGU) sustenta que o governo estadual está embaraçando a atuação da Secretaria de Patrimônio da União (SPU) e de órgãos ambientais federais na gestão da área, por entender que o artigo 15 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) atribuiu a propriedade do arquipélago a Pernambuco. De acordo com a União, o descumprimento de cláusulas do contrato estaria evidenciado pela concessão de autorizações indevidas para edificações na faixa de praia e permissões de uso sem autorização da SPU, pelo crescimento irregular de rede hoteleira, com várias denúncias apresentadas ao Ministério Público Federal, pela ocorrência de conflitos de competência entre Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e a Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco, entre outras irregularidades identificadas pela Controladoria-Geral da União (CGU) e pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Também não estaria sendo cumprida a obrigação de prestação de contas anual das atividades desenvolvidas no arquipélago e os pagamentos mensais à União. Na ação, a União alega que houve tentativa de solução consensual da controvérsia no âmbito da CGU, sem sucesso. Ainda de acordo com a argumentação, em novembro do ano passado, o estado de Pernambuco pediu que fosse interrompida a demarcação de terrenos de marinha na ilha pela União. Segundo a AGU, o estado, ao não reconhecer o domínio da União sobre o arquipélago, teria esvaziado os termos do contrato de cessão, “mormente no tocante às competências constitucionais do ente central para gestão de bem público de sua titularidade”. 24 Em busca de solução consensual do conflito, o ICMBio foi incluído no processo por ser gestor de duas unidades de conservação federais no arquipélago. O objeto do acordo é afastar a discussão dominial e implementar gestão integrada do Arquipélago de Fernando de Noronha, tendo por parâmetro o zoneamento do arquipélago previstono Plano de Manejo da APA Federal de Fernando de Noronha, aprovado pela Portaria ICMBio nº 384 de 08 de junho de 2017. A União e o estado de Pernambuco, por intermédio de seus órgãos e autarquias competentes, comprometem-se ao cumprimento das obrigações constantes no acordo relacionadas à gestão territorial, ao licenciamento ambiental e ao zoneamento, especialmente voltadas a: 1.garantir a observância das regras e princípios da Política Nacional do Meio Ambiente, prevista na Lei n° 6.938, de 31 de agosto de 1981, e do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), previsto na Lei n° 9.985, de 18 de julho de 2000; 2.garantir o cumprimento dos objetivos gerais e específicos das APAs federal e estadual, notadamente a proteção da diversidade biológica, o disciplinamento do uso do solo e a sustentabilidade do uso dos recursos naturais; 3.compatibilizar a gestão administrativa e a gestão urbanística do uso do solo, previstas na Lei Estadual nº 11.304/95 com a gestão ambiental do território e com sua exploração como importante expoente de fomento à atividade turística do estado de Pernambuco; 4.buscar o bem-estar dos habitantes do arquipélago por meio de um planejamento territorial que ampare as atuais e futuras gerações; e 5.não ampliar o perímetro urbano atualmente existente. Quanto à gestão, o estado de Pernambuco ficará responsável por gerir as zonas urbana, histórico-cultural, de visitação e portuária, nos termos do acordo. Já o ICMBio, pelas demais zonas da APA federal e pelo Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha. As partes se comprometem em aprovar em conjunto os Estudos de Capacidade de Suporte, os indicadores de sustentabilidade e os planos de ordenamento territorial que estão em elaboração, bem como estabelecem anuência mútua da elaboração e revisão dos respectivos planos de manejo das APAs federal e estadual sobrepostas. No que toca ao licenciamento, pretende-se alinhar os procedimentos autorizativos e de interveniência do ICMBio, nos termos da Resolução CONAMA n° 428/2010 e do art. 46 da Lei do SNUC. 25 O acordo possui prazo indeterminado, podendo ser substituído apenas por novo acordo entre as partes, igualmente submetido à homologação do STF, para que produza seus efeitos legais. O acordo prevê a criação de um Comitê de Acompanhamento e Gestão do Acordo, com representação paritária entre União, ICMBio e estado de Pernambuco, tendo por objetivo dar cumprimento ao seu objeto, prevenir disputas ou controvérsias e promover articulação interinstitucional. Trata-se de mecanismo eficaz para promover uma relação mais dialógica entre as partes, saneando problemas que eventualmente surjam na gestão do arquipélago de Fernando de Noronha. Qualquer irregularidade constatada no cumprimento das obrigações decorrentes do acordo será comunicada, por ofício, à outra parte, para que proceda ao saneamento ou à apresentação de justificativas, informações e esclarecimentos a respeito da irregularidade, que poderão ser encaminhadas aos órgãos de controle. Em caso de descumprimento reiterado dos termos do acordo, que não possa ser resolvido pelo Comitê de Acompanhamento e Gestão do Acordo, as partes podem acionar a Câmara de Mediação e Arbitragem da Administração Pública Federal e, não obtido acordo, peticionar ao STF, solicitando, preliminarmente, a submissão do litigio ao Centro de Soluções Alternativas de Litígios (CESAL/STF), criado pela Resolução n° 790, de 22 de dezembro de 2022, ou providências específicas, objetivando a garantia da integral observância e cumprimento das obrigações postas no acordo. A elaboração do acordo contou com a participação ativa dos órgãos jurídicos da AGU e da área técnica da União e do ICMBio em interlocução direta com os órgão e entidades do estado de Pernambuco, inclusive no âmbito do STF. O acordo foi celebrado entre a União, o ICMBio e o estado de Pernambuco e homologado, em março de 2023, nos autos da Ação Civil Originária 3568 por decisão do ministro Ricardo Lewandowski, do STF. Além de pacificar um conflito federativo de grande repercussão entre os entes federal e estadual, promove a gestão integrada das unidades de conservação que afetam o arquipélago e a cooperação em favor da proteção da biodiversidade, do uso sustentável dos recursos naturais, do adequado ordenamento do uso do solo e do planejamento territorial. Certamente, influenciará, como modelo de pacificação, outros casos semelhantes no país. 26 O ICMBio e a Mitra Arquiepiscopal do Rio de Janeiro estabeleceram um acordo para o ordenamento do Alto do Corcovado, com foco na compatibilização entre a gestão ambiental do Parque Nacional da Tijuca e a administração do Santuário Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. O termo de compromisso, assinado em abril de 2022, tem duração de dez anos e busca fortalecer a integração entre valores ambientais, culturais, históricos e religiosos, promovendo previsibilidade e segurança jurídica na gestão conjunta da área. ICMBio e Igreja Católica: ordenamento do Alto do Corcovado para compatibilização da gestão ambiental do Santuário Cristo Redentor Fonte: Mucio Scorzelli. Wikimedia Commons. Entre as medidas previstas, o acordo define as responsabilidades de ambas as partes, com o objetivo de harmonizar aspectos urbanos, sociais, econômicos e comerciais da região, promovendo a sustentabilidade e o manejo adequado do Santuário, localizado no Morro do Corcovado, dentro do Parque Nacional da Tijuca. O documento assegura à Igreja Católica a continuidade das atividades religiosas, culturais e sociais no Santuário, enquanto preserva a prerrogativa do ICMBio de realizar ações voltadas à conservação ambiental, respeitando a sacralidade do local. Também foram estabelecidas regras específicas para o acesso ao alto do Corcovado, como a liberação de autoridades eclesiásticas fora dos horários de visitação e a circulação de veículos para serviços de manutenção exclusivamente fora do período de funcionamento do parque. 27 Adicionalmente, o acordo exige aprovação prévia do ICMBio e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para instalações que interfiram no monumento tombado, prevendo ainda a criação de um Comitê de Monitoramento e Avaliação. Outras determinações incluem o respeito à lotação máxima de 1,2 mil pessoas, o compartilhamento de imagens do sistema de monitoramento e a elaboração de um estudo técnico para definir o limite de decibéis permitidos em eventos no local. O entendimento, desenvolvido no âmbito da Advocacia-Geral da União (AGU), envolveu análises técnicas e pareceres que precederam a mediação formal. Além de pacificar uma antiga disputa na unidade de conservação federal mais visitada do Brasil, o acordo reforça o compromisso do Estado com a proteção da liberdade religiosa e a segurança jurídica, alinhando-se às diretrizes constitucionais sobre o tema. Fonte: Ana Carolina Padovani. Wikimedia Commons. Como parte da gestão integrada, o ICMBio mantém concessões de serviços de transporte, bilheteria, alimentação e venda de souvenirs no alto do Corcovado, garantindo uma experiência de qualidade para os visitantes. O acordo representa um avanço significativo na pacificação entre as instituições e na promoção de uma convivência harmônica entre as dimensões ambiental, cultural e espiritual do local. ICMBio, empresas de telecomunicação e MPF: ordenamento do Morro do Sumaré Fonte: Imfernandes. Flickar. 28 Em agosto de 2020, o ICMBio e representantes de emissoras de rádio e TV formalizaram os primeiros acordos, com a interveniência do Ministério Público Federal (MPF), cujo objetivo principal foi regularizar o funcionamento de torres de transmissão no Morro do Sumaré, localizado no Parque Nacional da Tijuca, no Rio de Janeiro. O termo de compromisso definiu que as ocupações seriam regularizadas mediante o pagamento de uma compensação indenizatória ao ICMBio, proporcional à área ocupada e à altura das torres, calculada pela Secretaria de Patrimônio da União (SPU). O montante, estimado em mais de R$ 5 milhões anuais,leva em conta o valor de mercado dos terrenos no entorno e o volume das estruturas instaladas. Além disso, o acordo estipula que, em até dez anos, as emissoras apresentem projetos para reduzir áreas e estruturas ocupadas, promovendo a remoção de torres, antenas e abrigos. A recuperação ambiental das áreas liberadas também foi incluída nas obrigações. Desde a assinatura do acordo, houve avanços significativos. Quatro torres foram removidas, devolvendo 965 m² ao parque para recomposição da vegetação. Empresas que não prestam serviços públicos, como rádio-táxi e comunicação empresarial, tiveram que desocupar a área, resultando na saída de 62,6% dos operadores de telecomunicações identificados em 2011. Os serviços que permanecem devem atender aos critérios das Portarias ICMBio nº 40/2016 e nº 828/2017, alinhadas ao Plano de Manejo do parque. A medida buscou solucionar um impasse que perdurava desde a década de 1990, quando um decreto extinguiu autorizações de radiodifusão na área, criando uma situação de incerteza jurídica. O acordo também representou um esforço para mitigar os impactos ambientais e paisagísticos das estruturas, conciliando preservação ambiental com a continuidade dos serviços de radiodifusão e telecomunicações. O acordo evitou a judicialização do caso, que poderia envolver disputas longas com 21 emissoras diferentes. Ele também reforça o compromisso com a preservação ambiental e garante a continuidade dos serviços de radiodifusão e telecomunicações essenciais à população. O Morro do Sumaré é ocupado por torres desde os anos 1950, mas a ausência de regulamentação clara gerou conflitos ao longo das décadas. A formalização do acordo em 2020 representa um marco ao alinhar a conservação ambiental com o uso sustentável da área. 29 Fonte: Edvaldo LL Souza. Wikimedia Commons. Ações concretas também foram estabelecidas para regularizar e reduzir impactos no local. Equipamentos de operadores que não se enquadram nos critérios definidos seguem no cronograma de remoção. Fonte: Alexandra Maria Estrella. Wikimedia Commons. 30 Com 3.953 hectares, o Parque Nacional da Tijuca é uma das principais unidades de conservação do Brasil, protegendo ecossistemas da Mata Atlântica e proporcionando serviços ambientais fundamentais para o Rio de Janeiro, como a manutenção de mananciais hídricos e o controle da poluição. Criado em 1961, o parque é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e reconhecido pela Unesco como Reserva da Biosfera e Patrimônio Mundial na tipologia de Paisagem Cultural. Apesar de sua importância ecológica, o parque enfrenta desafios como ocupações irregulares, poluição e degradação ambiental. O Acordo Sumaré se insere nesse contexto como uma iniciativa que promove a conservação e a sustentabilidade de uma área historicamente impactada, conciliando interesses ambientais e econômicos. Para saber mais, acesse os materiais complementares abaixo: Acordo de gestão compartilhada de Fernando de Noronha é marco de um novo federalismo, diz advogado-geral da União Clique para ler a notícia na íntegra. SAIBA MAIS Acordo firma gestão integrada de Fernando de Noronha entre União e estado de Pernambuco Clique para ler a notícia na íntegra. Como acordo que contou com participação da AGU irá aprimorar visitação ao Cristo, no Rio Clique para ler a notícia na íntegra. AGU participa de acordo que prevê o aprimoramento de visitas ao Cristo Redentor Clique para assistir ao vídeo produzido por Rádio e TV Justiça. https://www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/acordo-de-gestao-compartilhada-de-fernando-de-noronha-e-marco-de-um-novo-federalismo-diz-advogado-geral-da-uniao https://www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/acordo-de-gestao-compartilhada-de-fernando-de-noronha-e-marco-de-um-novo-federalismo-diz-advogado-geral-da-uniao https://www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/acordo-de-gestao-compartilhada-de-fernando-de-noronha-e-marco-de-um-novo-federalismo-diz-advogado-geral-da-uniao https://oeco.org.br/noticias/acordo-firma-gestao-integrada-de-fernando-de-noronha-entre-uniao-e-estado-de-pernambuco/ https://oeco.org.br/noticias/acordo-firma-gestao-integrada-de-fernando-de-noronha-entre-uniao-e-estado-de-pernambuco/ https://www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/como-acordo-que-contou-com-participacao-da-agu-ira-aprimorar-visitacao-ao-cristo-no-rio https://www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/como-acordo-que-contou-com-participacao-da-agu-ira-aprimorar-visitacao-ao-cristo-no-rio https://www.gov.br/agu/pt-br/comunicacao/noticias/como-acordo-que-contou-com-participacao-da-agu-ira-aprimorar-visitacao-ao-cristo-no-rio https://youtu.be/gg6OUstPBXE?si=3GTLOxSDi9nJELJy https://youtu.be/gg6OUstPBXE?si=3GTLOxSDi9nJELJy https://youtu.be/gg6OUstPBXE?si=3GTLOxSDi9nJELJy 31 O art. 225, §1º, da Constituição Federal impõe ao Poder Público o dever tanto de definir espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos quanto promover a educação ambiental e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente. A atuação visa assegurar a concretização do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e sua preservação para as presentes e futuras gerações. 3 Visitação pública e agenda de concessões em Unidades de Conservação No plano infralegal, a Lei nº 9.795, de 27 de abril de 1999, que dispõe sobre a educação ambiental e institui a Política Nacional de Educação Ambiental, determina o incentivo ao ecoturismo como atividade de educação ambiental não formal. O ecoturismo se volta para a sensibilização da coletividade sobre as questões ambientais, com estímulo à sua organização e participação na defesa da qualidade do meio ambiente. O ecoturismo pode ser, portanto, compreendido como instrumento econômico na tutela de uma cultura ambiental positiva. Causa da exploração econômico-ambiental, o capitalismo desenfreado e irresponsável passou a ser porta-voz de injustiças pelo clima. Estas podem ser explicadas pela percepção de que muitas pessoas estão sujeitas a "maldades" e iniquidades advindas do clima de forma desproporcional. O tema do turismo ecológico tem relevo no cenário internacional, com ênfase no seu potencial de contribuição para a conscientização sobre a preservação ambiental e para a promoção do desenvolvimento sustentável. A ele correlacionados, destacam- se: Declaração de Haia sobre Turismo (1989) Código de Ética Mundial para o Turismo (1999) Declaração de Quebec sobre Ecoturismo (2002) Declaração de Davos (2007) Organização Mundial do Turismo (ONU) 🎯 Objetivo de aprendizagem Ao final desta unidade, você será capaz de compreender a visitação pública em UCs e suas modalidades de implementação. 32 O valor turístico dos bens ambientais e toda a relevância das unidades de conservação para fins de bem-estar e qualidade de vida são manifestações dos serviços ecossistêmicos ou serviços ambientais (Nusdeo, 2012). A operacionalização dos serviços ecossistêmicos dos bens ambientais em uma unidade de conservação por meio de seu valor turístico compreende não somente uma perspectiva de bem- estar e fruição do ser humano, mas uma integração de qualidade de saúde e qualidade ambiental, cultura ecológica e aprendizado científico e educacional, lazer e construção de memória identitária. O viés do ecoturismo como instrumento econômico de proteção ambiental é encontrado ainda em referência na Convenção sobre Diversidade Biológica, que ingressou no ordenamento brasileiro por meio do Decreto n° 2.519, de 16 de março de 1998, e do Decreto Legislativo nº 2, de 3 de fevereiro de 1994. O ecoturismo se projeta como uma via tanto de valorização quanto de suporte para a conservação e preservação da biodiversidade (Miranda, 2018). A via econômica verde pode se conformar como via de proteção da diversidade biológica por integrar o valor da biodiversidade em uma componente tanto de valor de existência quanto de valor de fruição. Por meio de programas de fomento adequados, o bem ambiental pode assumir a função de usodireto pelo ser humano e ainda ser guarnecido em seu valor de existência (Siqueira, 2017). Proceder à aplicação de componentes econômicos, afetos tanto à economia ambiental (Callan; Thomas, 2016) quanto à economia ecológica (Derani; Duarte, 2019), na formatação de institutos do marco legal do ecoturismo em unidades de conservação federais viabiliza tanto o alavancamento de recursos para áreas ambientalmente relevantes como fomento para concretização de princípios e regras presentes em normas internas e internacionais regentes da proteção ecológica e da qualidade ambiental. A proteção dos ecossistemas ganha aspectos de reforço que vão para além de componentes de instigação puramente morais, em que se auferem estímulos de uma cultura construída em bases econômicas de uma ética ecológica. Em plano prospectivo, o ecoturismo é previsto na Agenda 21 Global. A promoção de uma consciência pública fomenta não somente a educação e o valor ecológico em termos de cultura ambiental positiva, mas uma vertente econômica real que logre benefícios sociais com uma lógica econômica verde e sustentável. A perspectiva abrange tanto o meio ambiente natural quanto o meio ambiente cultural, mas destacam-se em relevância as áreas ecológicas especialmente protegidas. 33 O contraste que se manifesta advém justamente de um sistema de proteção ambiental carente de recursos, mas dotado de ampla capacidade de geração de potencial arrecadatório verde (Weiss, 2019). Isso não significa converter o ideal de tutela ambiental em um bem de consumo. Ao inverso, promover a geração de riqueza ligada à sustentabilidade abre espaços para atividades produtivas sustentáveis, modificando os cursos usuais de uma economia poluidora e que visualiza os recursos naturais como simples insumos produtivos, devolvendo ao meio ambiente resíduos e rejeitos por vezes repletos de potencial contaminante. Nesse quadro, surgem os potenciais econômicos ou de economia ecológica fornecidos pelo ecoturismo em unidades de conservação, regidas pela Lei nº 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação - SNUC. Fonte: Renato Augusto Martins. Wikipedia. Um dos pressupostos na compreensão do ecoturismo é o repertório de atividades, serviços e instalações que acompanham sua prática, por si ligada à visitação dos espaços protegidos. A instalação de infraestrutura e oferecimento de serviços de apoio à visitação, dada a finalidade ambiental envolvida, figura entre as atribuições do Estado, conforme previsto na Lei do SNUC (art. 4º, XII). A operacionalização dessa função está prevista na Lei nº 11.516, de 28 de agosto de 2007. Nela, se atribui ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) a tarefa de promover e executar, em articulação com outras entidades, programas recreacionais, de uso público e de ecoturismo nas unidades de conservação, onde essas atividades sejam permitidas (art. 1°, V). 34 Em uma vertente voltada para a efetiva adoção de instrumentos econômicos na gestão ambiental das unidades de conservação, o novo Decreto nº 12.258, de 25 de novembro de 2024, que entrou em vigor em 11 de maio de 2020, reafirma a competência do ICMBio para promover a execução direta ou indireta de serviços ecoturísticos e do potencial econômico verde da unidade de conservação. A execução indireta franqueia uma relevante discussão jurídico-ecológica e econômica, ligada à exploração dos serviços ecoturísticos, com reversão de benefícios econômicos à própria unidade de conservação. Essa possibilidade está prevista no artigo 33 da Lei nº 9.985/2000. DESTAQUE Terceiros podem explorar produtos, subprodutos e serviços relacionados ao uso público em unidades de conservação, com sujeição ao pagamento de contrapartida pecuniária. Imaginem-se restaurantes, passeios de trilha, cursos de fotografia, entre outros. A construção de um roteiro econômico e de consumo verde nas unidades de conservação se revela como uma vocação apta a reverter a perspectiva degradadora, comprometendo voluntariamente as teias do mercado em favor da proteção ambiental. A regulamentação do dispositivo legal se concentra no Decreto nº 4.340, de 22 de agosto de 2002, que rege a autorização para exploração de serviços inerentes às unidades de conservação e compatíveis com seus objetivos, a englobar o ecoturismo e os usos econômicos verdes dos serviços ambientais. A exploração econômica verde das atividades de uso comum público não é somente uma alternativa, é uma via de concretização a ser tomada para aplicação existencial da unidade de conservação, resguardando-se seus fins e a avaliação de compatibilidade. Fonte: Marcello Nicolato. Instituto Mamirauá. 35 A autorização deve considerar as previsões e regulamentações do Plano de Manejo, além de depender de decisão motivada do órgão gestor da unidade. Prever e orquestrar um marco regulatório para operar o ecoturismo e serviços associados não é abrir mão da preservação ou da conservação ambientais, pois compreende justamente um projeto de governança estruturado de interlocução econômica verde e proteção ecológica. A decisão deve estar alicerçada em avaliação ou Estudo de Viabilidade Econômica e Investimento – EVEI. O estudo tem por finalidade projetar a evolução financeira de um determinado capital (investimento) por um período determinado. Por meio do EVEI, se permite analisar a executoriedade e avaliar se os retornos projetados são factíveis e mesmo maiores que o mínimo esperado pelo investidor, ao intento de garantir solidez no projeto de exploração sustentável. O planejamento e a gestão ambientais ganham uma conotação de diálogo com o mercado, de modo que os estudos ambientais necessitados pela unidade de conservação podem ser inclusive financiados pelo concessionário com vistas a retornos futuros. Suponha-se uma unidade de conservação com traços de pinturas rupestres. Estudos ambientais e planos de ação de mapeamento podem projetar a unidade de conservação e, com isso, seu valor ecoturístico agregado, que se reverterá por decorrência ao empreendedor que explore sustentavelmente trilhas e passeios voltados para o contato de pessoas com a arte rupestre. A participação comunitária também é estimulada. O Conselho da unidade deve ser ouvido, assim como se deve oportunizar a participação dos interessados, tanto pessoas físicas quanto jurídicas, em conformidade com os princípios regentes da Administração Pública. Deve-se, principalmente, conscientizar a população de que a autorização ou execução terceirizada não constitui privatização, mas exercício da economia ecológica. Rompem-se assim resistências infundadas que podem por vezes minar a eficácia de instrumentos econômicos. A execução indireta remete ao processo de integração de particulares para sua execução, reclamando a disciplina de sistemática de seleção entre os eventuais interessados em explorar economicamente os potenciais ecoturísticos. A obrigatoriedade de prévia realização de procedimento de seleção, seja licitação, chamamento público ou qualquer outra denominação que se queira atribuir, em nada se relaciona com previsão de contraprestação pecuniária ou repasse de recursos no instrumento que se pretenda celebrar. Ela decorre da existência de mais de um interessado em firmar avença com a Administração Pública, sem que se possa com todos celebrar parceria, já que, se isso fosse viável, seria hipótese de credenciamento. 36 A obrigatoriedade de um processo seletivo advém da possibilidade de competição e remete tanto à isonomia quanto à seleção da proposta mais vantajosa. A vantajosidade é compreendida não somente pelo viés exclusivamente econômico, mas pela correspondência ao atendimento ao interesse público. Os recursos obtidos com os serviços ecoturísticos e com a exploração econômica verde, a englobar também as taxas de visitação, que se somam a outras rendas derivadas de serviços e atividades da própria unidade, são revertidos para finalidades inerentes ao sistema de unidades de conservação, como previsto no artigo 35 da Lei do SNUC. Viabiliza-se