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TEOLOGIA DO ANTIGO 
TESTAMENTO 
AULA 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof. Marcos Henrique de Araújo 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
O Antigo Testamento abre suas portas neste conteúdo para que 
compreendamos informações essenciais para a prática pastoral. 
O leitor do Novo Testamento deve levar em consideração que ele é uma 
interpretação cristã do Antigo Testamento. Enquanto o Antigo Testamento fala das 
promessas divinas, o Novo Testamento atesta a fidelidade divina em cumprir cada 
uma delas. 
Muito além da concepção reducionista dos judeus contemporâneos de Jesus, 
que concebiam o Messias como um libertador militar de Israel, o Novo Testamento 
fala da chegada de um reino eterno e de abrangência universal. 
O Novo Testamento então anuncia a chegada do Salvador que o Antigo 
Testamento aguardava. Os dois Testamentos também indicam uma ordem 
eterna além do mundo que conhecemos, um mundo de glória celestial para 
aqueles que buscam a Deus, mas de julgamento para aqueles cujas vidas 
continuam centradas em si mesmos. (Elwell, 2002, p. 21) 
O Evangelho é a provisão divina para as demandas das justas leis de Deus. 
Até os ritos mais elementares, como o da purificação dos leprosos, apontam para a 
obra de Jesus Cristo, aquele que levou sobre si as enfermidades de seu povo (Isaías 
53.5). 
Champlin (2000) comenta que, na cultura judaica, dos 3 aos 12 anos o menino 
é instruído na lei por seu pai. A partir dos 6 anos ele passa a receber instruções diretas 
dos mestres na sinagoga. Aos 12 anos de idade o menino judeu já era considerado 
responsável por obedecer a lei, tanto em seus aspectos morais como também 
cerimoniais. Depois de inúmeras leituras da Torah o jovem de 18 anos estará pronto 
para assumir sua posição na comunidade religiosa. 
TEMA 1 – GÊNESIS (BERESHIT – NO PRINCÍPIO) 
O primeiro livro do Pentateuco é Gênesis. O título na Bíblia hebraica é Bereshit 
– lit. No princípio. O livro de Gênesis é a introdução da Bíblia inteira. É o livro dos 
princípios, pois narra os começos da criação, do homem, do pecado, da redenção e 
da raça eleita. 
O livro de Gênesis passou por um processo demorado de redação. O resultado 
do trabalho de compilação das toledoths (narrativas das gerações), atribuído a 
Moisés, produziu um livro complexo que se consolidou como a fonte de toda a 
 
 
3 
cosmogonia e antropologia judaicas. A leitura e a compreensão de Gênesis é 
essencial para se compreender os fundamentos da religião e da cultura judaica. 
Gênesis narra como Deus formou um povo para si. Relata a infância da 
humanidade, porém o autor não pretende apresentar a história da raça toda; destaca 
apenas os personagens e sucessos que se relacionam com o plano de redenção 
através da história. O livro traça a linhagem piedosa que transmite a promessa de 
Gênesis 3.15 e vai descartando as linhas colaterais, não lhes dando importância. O 
interesse da narrativa se concentra em Abraão, o pai do povo escolhido. A partir daí, 
toda a história do Antigo Testamento trata, em grande parte, da história de Israel. 
Estrutura do livro de Gênesis 
Esboço de Gênesis segundo Remmers (2022). 
I. O começo da humanidade – 1.1-11.32 
1. Capítulos 1-5: Da criação ao dilúvio 
2. Capítulos 6-11: De Noé a Abraão 
II. A história dos patriarcas – 12.1-50.26 
1. Capítulos 12.1-21.34: Abraão, o pai de todos os crentes 
2. Capítulos 22.1-26.33: Isaque, o filho da promessa 
3. Capítulos 26.34-37.1: Jacó-Israel, ou a educação do Espírito 
4. Capítulos 37.2-50.26: José, tipo do Cristo rejeitado e glorificado 
Temas teológicos de Gênesis 
Mais que uma compilação de narrativas, Gênesis é uma grande exposição das 
bases teológicas nas quais serão construídas as narrativas do Pentateuco e, 
consequentemente, de todo o Antigo Testamento. 
O livro de Gênesis confirma doutrinas fundamentais da fé cristã. Remmers 
(2022) sintetiza os temas teológicos, afirmando: 
Gênesis descreve a criação do mundo, a queda dos primeiros homens no 
pecado e suas consequências, mas não apenas a maldição, mas também o 
primeiro indicador claro para o redentor. Vemos a justiça de Deus no 
julgamento do grande dilúvio, mas também na eleição da graça e da vida de 
fé em Abraão. Na história de Isaque vemos o filho amado do pai que teve que 
ser sacrificado, e na história de José e seus irmãos todo o caminho de Israel 
com seu Messias. Nas biografias dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, 
também somos apresentados à vida pessoal de fé. 
Os capítulos 1 e 2 de Gênesis, sem se ocupar com as supostas provas da 
existência de Deus, iniciam o relato da criação afirmando que Deus criou todas as 
coisas que existem nos céus e na terra. O relato é progressivo e foi escrito de tal forma 
 
 
4 
que aquilo que inicialmente é dito estar “sem forma e vazia” assume forma e é 
preenchida de modo que o parecer final de Deus é que ficou tudo “muito bom” (Gn 
1.31). 
O capítulo 3 narra a queda do primeiro casal e mostra como ele, agindo em 
desobediência à ordem divina, afastou-se do plano de Deus e foi expulso do jardim, 
passando a pesar sobre o casal o castigo da morte. No mesmo capítulo que narra a 
queda também se anuncia, de forma embrionária, o plano eterno de salvação por meio 
de Jesus Cristo – a semente da mulher que pisa na cabeça da serpente e por ela é 
ferida em seu calcanhar (Gn 3.15). 
A história da primeira família segue a estrutura de uma tragédia grega. Tudo 
começa em um jardim e se finda em um assassinato que marca o fim da narrativa 
primeva. Adão, Eva, Caim e Abel (capítulos 3 a 5) formam um quadro de decadência 
e ressaltam a necessidade de uma redenção da humanidade decaída. 
A narrativa do dilúvio (Gn 6:5-9:17) reforça a decadência humana e evidencia 
a intenção divina de usar de misericórdia para com a família de Noé, preservando-a 
da destruição. A Torre de Babel (capítulo 11) retoma a temática da corrupção humana 
em sua revolta contra o domínio divino na condução da história humana. Mais uma 
vez Deus preserva a família ao dividir os povos em grupos linguísticos. 
No Antigo Testamento, a eleição de Deus se aplicava particularmente à sua 
escolha de Abraão e, por meio de Abraão, à sua escolha de Israel para ser seu povo 
(Gênesis 12.13; 15.1 a 20; Neemias 9.7-8; Isaías 41.8-9). Desse povo ele produziu 
um homem, Jesus o Messias, escolhido por ele antes da fundação do mundo para ser 
o Salvador do mundo (Lucas 9.35; Atos 2.23; Atos 4.27-28; Efésios 1.9-10; 1 Pedro 
1.20; 1 Pedro 2.4;1 Pedro 2.6) (Fleming, 2004). 
Em Gênesis encontramos algumas alianças celebradas por Deus com pessoas, 
famílias e a nação de Israel. Uma aliança (Heb. Berit – lit. cortar) é um pacto, um 
acordo entre duas ou mais partes com o intuito de cessar uma demanda, uma causa 
ou efetivar um acordo de amizade e cooperação mútua. Nas alianças invariavelmente 
há uma noção de gratuidade, promessas e um rito elaborado em que os parceiros se 
comprometem e, como demonstração de aceitação, trocam seus nomes. As alianças 
divinamente instituídas visam o cumprimento da promessa feita por Deus no jardim 
do Éden (Gn 3.15). No relato de Gênesis encontramos quatro alianças divinamente 
instituídas. 
 
 
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1. Aliança edênica: aliança com o dia e a noite – Gênesis 2.15 a 20. 
2. Aliança adâmica: aliança do começo – Gênesis 3.14 a 19. 
3. Aliança noética: aliança da preservação – Gênesis 9.1 a 17. 
4. Aliança abraâmica: aliança incondicional – Gênesis 15. 
TEMA 2 – ÊXODO (SHEMÔT – SAÍDAS) 
O livro de Êxodo dá continuidade à história da redenção iniciada em Gênesis. 
Aquilo que foi apresentado como origem em Gênesis ganha forma no relato de Êxodo. 
A promessa de Deus a Abraão, de que ele seria pai de nações, se concretiza no relato 
de Êxodo. As narrativas de Êxodo são pastoralmente bem conhecidas. Elas formam 
um paradigma essencial para judeus e cristãos. A libertação do povo hebreu do 
cativeiro egípcio é uma figura da salvação oferecida por Deus ao seu povo em todas 
as circunstâncias.A ética judaica e, consequentemente, a cristã, tem no Decálogo (dez 
mandamentos – Êxodo 20) seu fundamento. Os capítulos 21 a 24 constituem uma 
aplicação do Decálogo à vida como um todo. Os capítulos 25 a 40 dão detalhes da 
construção do tabernáculo, uma figura muito interessante e instrutiva para se 
compreender o caminho da salvação. 
Estrutura do livro de Êxodo 
Esboço de Êxodo segundo Remmers (2022). 
I. Êxodo 1-13: Israel no Egito 
II. Êxodo 14-18: A jornada de Israel ao Monte Sinai 
III. Êxodo 19-24: Aliança e entrega da lei no Sinai 
IV. Êxodo 25-31: Mandamentos para o santuário e o sacerdócio 
V. Êxodo 32-34: Israel e a graça de Deus 
VI. Êxodo 35-40: O santuário 
Temas teológicos de Êxodo 
De grande relevância para a história da salvação é a teofania de Êxodo 3, em 
que o próprio Deus se manifesta a Moisés em uma sarça ardente e revela a ele seu 
nome. Teofania é uma palavra grega usada no meio teológico que significa “a 
manifestação da glória de Deus diante dos homens”. 
O comentarista e pesquisador bíblico Myer Pearlman (2006, p. 45) afirma que 
Yahveh é o segundo nome na revelação progressiva de Deus. O primeiro nome é 
 
 
6 
Elohim. É o nome mais específico para Deus no Antigo Testamento. Ele eleva o 
conceito de Deus do mero nível de poder para o de relações pessoais. Elohim é um 
termo genérico; Jeová é um nome próprio. Yahveh é uma forma (ativa em vez de 
estática) do verbo ser. Yahveh não é uma palavra real. É uma palavra artificial formada 
pelas quatro consoantes hebraicas YHWH. Portanto, Jeová foi inventado assim, 
adicionando vogais: YaHoWaH, ou Jeová. 
O nome indica a ação e a presença de Deus nos afazeres históricos. O nome 
Jeová tem sua origem no verbo ser e inclui os tempos passado, presente e futuro 
desse verbo. O nome, portanto, significa: Ele que era, que é e que há de ser; em 
outras palavras, o Eterno ou o Ser Absoluto. 
Os filhos de Israel partiram em completa liberdade, como se fossem um exército 
de conquistadores com seus despojos e não escravos que fugiam do cativeiro (ver Gn 
15.14; Êx 3.21; 7.4 e 12.51). A libertação de Israel da escravidão do Egito encontra 
no relato da passagem do Mar Vermelho seu ponto culminante. Ao atravessar o Mar 
Vermelho Israel era, de uma vez por todas, um povo livre (Êx 20.2). 
Pearlman (1964, p. 331) afirma que o tema central do livro de Êxodo é a 
redenção pelo sangue: “Este é o sangue da Aliança que o Senhor fez convosco (Êx 
24:4-8) ”. Tendo sido oprimidos pelos egípcios, os hebreus clamaram por misericórdia 
e Deus lhes proveu libertação. O povo liberto precisava de leis justas que lhe 
fornecesse bases seguras para formar uma nação. Estatutos santos e um local de 
adoração foram providos por Deus e entregues a Moisés. 
Durante a travessia pelo deserto muitos sucumbiram porque, à semelhança de 
faraó, endureceram seus corações e se recusaram a obedecer aos mandamentos de 
Deus. O apóstolo Paulo advertiu seus contemporâneos a não imitar os erros dos 
rebeldes israelitas (1Co 10.1 a 11). 
A viagem, cujo percurso poderia facilmente ser feito em poucos meses, ou no 
máximo em dois anos, durou quarenta anos. A primeira parte, de Gósen ao Sinai, 
durou três meses (Êx 19.1). A narrativa de Êxodo se encerra no sopé do Sinai. É no 
livro de Números que encontramos os relatos da saída do Sinai e a chegada às 
planícies de Moabe. 
Em Êxodo vemos alguns personagens que se destacam na narrativa por suas 
ações e como elas interferiram no desenvolvimento da caminhada de Israel rumo à 
terra prometida. Moisés foi o líder e demonstrou firmeza de caráter e lealdade ao plano 
de Deus. O autor de Hebreus afirmou, a respeito dele, que foi “fiel em toda a casa de 
 
 
7 
Deus” (3.5), citando o líder como um exemplo de fé (Hb 11.24 a 27). 
Arão, o irmão mais velho de Moisés, foi seu porta-voz perante faraó e 
posteriormente foi escolhido por Deus como sumo sacerdote. Ele e seus filhos 
lideraram os ritos do santuário. Assim como Moisés, Arão foi leal a Deus, exceto no 
caso do bezerro de ouro (Êx 32). Miriã, irmã de Moisés, tem papel importante na 
preservação da vida do bebê Moisés (Êx 2), e depois da passagem do Mar Vermelho 
celebrou a vitória de Deus sobre os exércitos de faraó (Êx 15.20 e 21). 
Josué e Calebe foram leais à liderança de Moisés e Arão e se tornaram 
referenciais de lealdade a Yahweh em circunstâncias adversas. Jetro, sogro de 
Moisés, deu sábios conselhos a seu genro e colaborou para que Israel tivesse um 
sistema legislativo efetivo (Êx 18). 
No Sinai, Deus deu a Moisés o documento que se tornaria a Constituição da 
nação de Israel (Êx 20.22-23:19). Nesse documento está a vontade de Yahweh, pelo 
qual Ele governa seu povo, e por meio dessa vontade Israel se tornaria uma nação 
inigualável (Pearlman, 1964, p. 34). 
Von (1973, p. 193), a respeito do texto de Êxodo 19 a 24, observa que “não há 
no Antigo Testamento nenhuma outra passagem da tradição tão vasta e formada por 
tantas porções sucessivas, dependentes todas de um único e mesmo fato, como a 
revelação de Deus no Sinai”. 
Não devemos esperar que o código de leis contido em Êxodo seja uma 
elaboração requintada no nível das constituições federativas atuais. Ele era um código 
de direito de uma sociedade agropastoril. Muitos comentaristas observam que nele há 
alguns paralelos inegáveis com códigos mesopotâmicos. Daí surgirem algumas 
controvérsias a respeito de sua originalidade. 
A respeito da natureza do ordenamento jurídico de Êxodo, opondo as opiniões 
de dois importantes comentaristas, Champlin menciona: 
Albrecht Alt, o estudioso que sugeriu a divisão das leis do Antigo Testamento 
nesses dois tipos, é de opinião que as leis casuísticas do Pentateuco foram 
extraídas das leis cananitas, enquanto as leis apodícticas são de origem 
especificamente judaica. Alegando que ambos os tipos de leis são 
encontrados também nos tratados hititas e nas leis da Ásia Menor, 
Mendenhall refuta essa declaração. As porções seculares das leis indicam 
contatos com as leis de períodos anteriores; contudo, segundo os 
conservatistas, esse fato não coloca em questão a autenticidade das leis 
recebidas por Moisés. (Champlin, 2001, p. 301) 
A questão envolvendo especialmente a originalidade do Decálogo tem sido 
motivo de variadas controvérsias. Porém, segundo alguns eruditos, há um evidente 
 
 
8 
desenvolvimento entre os códigos mesopotâmicos e o Decálogo de Moisés. O 
Decálogo é mais sintético e possui um rigor semântico mais evoluído. Os códigos de 
leis anteriores a Êxodo possuem “natureza estritamente secular” enquanto Êxodo é 
“pesadamente religioso” (Champlin, 2001, p. 301). 
TEMA 3 – LEVÍTICO (WAYYIQRA – ELE CHAMOU) 
O livro de Levítico foi intencionalmente colocado no centro da Torah. Esse fato 
realça sua importância como elemento didático e religioso. Essa obra, inicialmente 
dedicada a um público seleto, contém códigos de suma importância para a vida 
religiosa de toda a nação recém-constituída. O conteúdo de Levítico aponta para a 
suprema necessidade da expiação dos pecados (Lv 16) e de uma vida marcada por 
santidade ao Senhor (Lv 19 a 26). 
Estrutura do livro de Levítico 
Clarke (2022) nos fornece um breve resumo dos capítulos de Levítico. 
Capítulos 1 a 3 – Prescrições relativas aos holocaustos, às ofertas pacíficas e 
das primícias 
Capítulos 4 a 7 – Prescrições relativas às ofertas, injúrias e pecados 
intencionais 
Capítulos 8 e 9 – Descrição do rito da consagração de Arão e seus filhos 
Capítulo 10 – O incidente envolvendo Nadabe e Abiú 
Capítulo 11 – Relação dos animais limpos e imundos 
Capítulos 12 a 15 – Prescrições relativas às variadas purificações 
Capítulo 16 – Prescrições relativas ao Dia da Expiação 
Capítulo 17 – Proibições de oferecer sacrifícios em outro lugar além do 
tabernáculo 
Capítulo 18 – Prescrições relativas aos matrimônios permitidos e proibidos 
Capítulo 19 – Recapitulação de diversos mandamentos e adição de novosCapítulo 20 – Proibições de diversas práticas pagãs 
Capítulos 21 a 24 – Prescrições diversas 
Capítulo 25 – Recapitulação de algumas leis; prescrições relativas ao ano 
sabático, ao ano do jubileu e prescrições diversas a respeito da caridade mútua 
Capítulo 26 – Proibição da idolatria; bênção aos obedientes e maldições aos 
desobedientes à Lei do Senhor 
 
 
9 
Capítulo 27 – Prescrições relativas aos votos e juramentos; coisas consagradas 
e os dízimos consagrados ao serviço do tabernáculo 
Temas teológicos de Levítico 
No escopo de Levítico a vida humana, sob o poder do pecado, precisa de 
constante purificação. Segundo Rad, hoje se pensa que o pecado 
vai além do indivíduo e de sua vida íntima. [...] Esse ato tem consequências 
más para quem o pratica, emaranhando-o de uma e de outra forma nas redes 
do mal em que se meteu. Mas essas consequências são mais ou menos 
acidentais e ninguém se admira quando a punição não vem logo para o 
culpado. Para os antigos, porém, o pecado era um fenômeno muito mais 
amplo. O mau ato era um simples aspecto da questão, pois através dele 
liberava-se o poder maligno que mais cedo ou mais tarde se voltaria contra o 
culpado e contra os seus. Segundo essa concepção as “represálias” que 
atingem aquele que pratica o mal não são um fato secundário, de caráter 
jurídico, [...] mas constituem a emanação do mal liberado pelo pecado, o 
prosseguimento de sua ação. (Rad, 1973, p. 260) 
Essa “concepção sintética da vida” não nos permite ver a questão do pecado 
como algo puramente individual, pelo contrário: sempre haverá uma consideração 
coletiva do assunto. O povo era, nesse sentido, sempre devedor. Daí a necessidade 
de uma expiação coletiva do pecado todos os anos por ocasião do Yom Kipur, o Dia 
da Expiação (Lv 16). 
O salmista celebra a dádiva do perdão em Salmo 32.1, afirmando: “Bem-
aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto”. O pecado, 
segundo a teologia de Levítico, só é coberto por meio de um sacrifício substitutivo. 
A teoria retributiva encontra em Levítico sua primeira expressão e, no 
Deuteronômio, sua explicitude. Segundo essa teoria não há uma distinção clara entre 
pecado e castigo ou, segundo Rad (1973, p. 261), comentando o texto de Nm 12.11, 
“no hebraico é uma só e a mesma coisa, o ato e a consequência má que ‘achará’ 
Israel, recaindo sobre ele”. Se o pecado não for assumido pelo substituto, o culpado 
sofrerá as consequências, no caso, o povo todo. 
Os adeptos da teoria crítica opinam que o Pentateuco, consequentemente 
Levítico, foi uma produção tardia. A essa produção eles denominam código ou 
redação sacerdotal. 
[...] os capítulos 17-26, que constituem o Código de Santidade, distinguem-
se do Código Sacerdotal em muitas formas. No material de S as leis são 
colocadas num quadro de exortação no qual as passagens têm por tema a 
santidade de Jeová e a necessidade de santidade por parte de Seu povo, que 
deve guardar seus estatutos. Israel deve lembrar-se da intervenção divina e 
evitar a infiltração de coisas impuras, principalmente a idolatria cananita. O 
tema da santidade é tratado também em outros códigos, mas em nenhum 
 
 
10 
outro é tão difundido como nessa passagem de Levítico. (Champlin, 2001, p. 
299 e 477) 
Os críticos opinam que a semelhança de abordagem entre Levítico e o livro 
profético de Ezequiel reforça a teoria de uma produção tardia, aventando até a 
possibilidade de que Ezequiel tenha sido seu compilador. 
TEMA 4 – NÚMEROS (BAMIDBAR – NO DESERTO) 
Apesar de Orígenes nutrir certa aversão à leitura e à aplicação do conteúdo de 
Números, pastoralmente o texto de Números é pouco explorado, embora tenha 
histórias muito conhecidas, como a condenação aos quarenta anos no deserto (Nm 
13-14), a serpente de bronze (Nm 21, 4-9) ou a história de Balaão (Nm 22-24). Uma 
leitura detida e profunda do texto de Números nos ajuda a compreender as 
dificuldades que a nação recém-formada teve em cumprir fielmente os estatutos e as 
leis dadas a ela por Deus no Sinai. 
Estrutura do livro de Números 
Exell (2022) apresenta um esboço detalhado do livro de Números. 
Seção I – Preparações para a grande marcha – 1.1 a 4.4 
Seção II – Material adicional às prescrições levíticas – 5.1 a 6.2 
Seção III – Eventos até a chegada ao deserto de Cades – 7.1 a 14.4 
Seção IV – Segundo material adicional às prescrições levíticas – 15.1 a 41 
Seção V – Narrativa da revolta contra o sacerdócio araônico – 16.1 a 17.13 
Seção VI – Terceiro material adicional às prescrições levíticas – 18.1 a 19.22 
Seção VII – Narrativa de acontecimentos da última viagem – 20.1 a 22.1 
Seção VIII – História de Balaão – 22.2 a 24.25 
Seção IX – Narrativa de eventos nas planícies de Moabe – 25.1 a 27.11 
Seção X – Quarto material adicional às prescrições levíticas – 28.1 a 30.16 
Seção XI – Narrativa de outros eventos nas planícies de Moabe – 31.1 a 32.42 
Seção XII – O itinerário da peregrinação – 33.1 a 49 
Seção XIII – Instruções finais – 33.50 a 36.15 
Temas teológicos de Números 
O livro de Números realça a temática da fidelidade de Deus. Deus é sempre fiel 
à sua aliança, tanto em recompensar a obediência como em punir a desobediência 
(Lv 26 e Dt 28). A respeito disso, Champlin observa: 
 
 
11 
O propósito aparente do livro foi registrar o início do efeito exterior que o pacto 
exerceu na vida dos israelitas. Números registra as modificações e os 
ajustamentos na estrutura das estipulações pactuais, bem como a reação do 
povo israelita a tais estipulações. Os temas de fé e obediência são centrais 
em Números, que é considerado "o livro do servir e do caminhar do povo 
redimido de Deus”. Champlin (2001, p. 602) 
O fracasso de Israel em cumprir as estipulações pactuais realça a importância 
da introdução do sistema sacrificial. As dificuldades no caminho tornam a servidão 
mais atraente e demonstraram como a geração do deserto ainda estava dominada 
pelo espírito de escravidão. Eles, invariavelmente, tinham saudades dos tempos em 
que estavam sob o jugo de faraó. 
E o populacho que estava no meio deles veio a ter grande desejo das comidas 
dos egípcios; pelo que os filhos de Israel tornaram a chorar e também 
disseram: Quem nos dará carne a comer? Lembramo-nos dos peixes que, no 
Egito, comíamos de graça; dos pepinos, dos melões, dos alhos silvestres, das 
cebolas e dos alhos. Agora, porém, seca-se a nossa alma, e nenhuma coisa 
vemos senão este maná. (Nm 11.4 a 6) 
Tal disposição de espírito os impediu de entrar na terra prometida. 
Até quando sofrerei esta má congregação que murmura contra mim? Tenho 
ouvido as murmurações que os filhos de Israel proferem contra mim. Dize-
lhes: Por minha vida, diz o SENHOR, que, como falastes aos meus ouvidos, 
assim farei a vós outros. Neste deserto, cairá o vosso cadáver, como também 
todos os que de vós foram contados segundo o censo, de vinte anos para 
cima, os que dentre vós contra mim murmurastes; não entrareis na terra a 
respeito da qual jurei que vos faria habitar nela, salvo Calebe, filho de Jefoné, 
e Josué, filho de Num. Mas os vossos filhos, de que dizeis: Por presa serão, 
farei entrar nela; e eles conhecerão a terra que vós desprezastes. Porém, 
quanto a vós outros, o vosso cadáver cairá neste deserto. (Nm 14.27 a 32) 
Diferentemente do povo rebelde, Moisés foi fiel em sua vocação e ministério. 
Pela fé, Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha 
de Faraó, preferindo ser maltratado junto com o povo de Deus a usufruir 
prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio de Cristo 
por maiores riquezas do que os tesouros do Egito, porque contemplava o 
galardão. Pela fé, ele abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a 
cólera do rei; antes, permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível. 
(Hb 11.24 a 27) 
Um dos temas recorrentes na narrativa de Números é a presença divina em 
meio a seu povo. A disposição das tribos de Israel, tendo o tabernáculo no centro,reforçava ao povo a importância de se manterem santos porque Deus, que é Santo 
está entre eles. Balaão observou isso em seu discurso: “Não viu iniquidade em Jacó, 
nem contemplou desventura em Israel; o SENHOR, seu Deus, está com ele, no meio 
dele se ouvem aclamações ao seu Rei” (Nm 23.21). 
 
 
12 
TEMA 5 – DEUTERONÔMIO (DEVARIM – AS PALAVRAS) 
O último livro do Pentateuco apresenta os três grandes discursos de Moisés 
proferidos nas campinas de Moabe, do outro lado do Jordão. Esses discursos 
aprofundam a dimensão ética e moral do Antigo Testamento. Neles encontramos leis 
com carga bastante afetiva, como se pode notar na oração do Shemá: "Ouve, Israel, 
o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR. Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, 
de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força" (Dt 6:4-5). 
Neste último tópico aprofundaremos o grande Código do Deuteronômio, 
presente entre os capítulos 12 e 26 do livro. Finalmente, discutiremos alguns pontos 
sobre a autoria do Pentateuco, abrangendo a interpretação clássica e críticas 
propostas nos últimos séculos. 
Estrutura do livro de Deuteronômio 
Os discursos de Moisés dividem-se naturalmente em três seções. Pearlman 
(1964, p. 52) captou a ênfase das divisões, respectivamente: "Recorda!"; "Obedece!"; 
"Cuidado!". 
Exell (2022) nos fornece uma visão geral do conteúdo do livro: “ O livro consiste 
principalmente em três discursos longos, proferidos por Moisés aos filhos de Israel do 
lado oriental do Jordão, depois de terem obtido a posse pela conquista da região que 
se estende para o norte, desde as fronteiras de Moabe até Harã (Damasco)”. 
1. Primeiro discurso – Dt 1.6-4.43 
No primeiro discurso Moisés traz à lembrança do povo alguns detalhes 
importantes em sua história, na intenção de prepará-los para as admoestações e 
injunções que virão a seguir (Deuteronômio 1.6-3.29), uma série de exortações à 
obediência às ordenanças divinas e advertências contra a idolatria e o abandono de 
Jeová (Deuteronômio 4.1-40) e um breve aviso histórico da nomeação de três cidades 
de refúgio no lado leste do Jordão (vers. 41-43). 
2. Segundo discurso – Dt 4.44-26.19 
O segundo discurso é introduzido por um breve aviso das circunstâncias em 
que foi proferido (Deuteronômio 4.44-49), uma exortação geral à obediência 
(Deuteronômio 5.1-33) e admoestações à ordem de destruir todos os objetos de culto 
dos cananeus (Deuteronômio 6.1 a 7.26). A parte final reforça a eleição graciosa de 
Deus em agir a favor de seu povo (Deuteronômio 8.1 a 10.5). 
Novas exortações ocorrem quanto a como se portarem na terra cuja posse 
 
 
13 
tomariam em breve. Ao obedecer ao Senhor eles seriam abençoados, porém, ao 
desobedecer aos seus mandamentos, seriam amaldiçoados (10.6 a 26.19). 
3. Terceiro discurso – Dt 27.1-29.20 
Em seu terceiro discurso, depois de instruir que a Lei deveria ser inscrita em 
dois pilares de pedra, determinou que as bênçãos e as maldições deveriam ser 
proferidas nos montes Ebal e Gerizim. As bênçãos deveriam ser proferidas no Monte 
Gerizim e as maldições no Monte Ebal (Deuteronômio 27.1-26). Moisés expõe mais 
completamente as bênçãos que deveriam vir sobre o povo se dessem ouvidos à voz 
do Senhor e as maldições que cairiam sobre eles caso negligenciassem sua palavra 
ou se recusassem a obedecê-la (Deuteronômio 28.1-68). Moisés recapitulou o que o 
Senhor fez por Israel e conjurou o povo a aceitar a aliança que Deus graciosamente 
celebrou com eles (Deuteronômio 29.1-30.20). 
4. Atos finais da vida de Moisés – 31.1-34.12 
Moisés nomeia Josué seu substituto e orienta o povo a obedecê-lo e 
reconhecê-lo como o escolhido do Senhor para liderar Israel em suas batalhas. Logo 
em seguida, escreve uma canção. Esse cântico possui um tom de celebração e 
exortação. Moisés profere bênçãos sobre os filhos de Israel. O capítulo 34 é um escrito 
posterior que relata as circunstâncias da morte de Moisés. 
Temas teológicos de Deuteronômio 
O livro de Deuteronômio, como o nome em latim sugere (outras leis) retoma 
parte do Código da Aliança e amplia seu escopo e aplicação à nação de Israel, que 
estava prestes a possuir a terra prometida. Davidson (1997, p. 367) observa que há 
em Deuteronômio uma insistência em "ouvir" e obedecer (Dt 4.30; 8.20; 9.23; 13.4,8; 
15.5; 26.14,17; 27.10; 28.1-2,15,45,62; 30.2,8,10,20). Israel deve obedecer aos juízos 
(mishpat), às deliberações divinas que exprimem sua vontade perfeita (Dt 1.16-17). 
Os estatutos (huqqim) divinos devem ser seguidos (Dt 12.1-26.19) e seus 
mandamentos obedecidos em todas as circunstâncias (Dt 4.5,8,14; 5.1,31; 6.1; 7.11; 
8.11; 11.1; 12.1; 26.16-17). 
No código deuteronômico se percebe uma injunção incomum que vincula o 
culto a um lugar geográfico específico. Segundo Davidson (1997, p. 361) “todos os 
presentes e sacrifícios serão levados ao ‘lugar’ que Ele ‘escolher’ para ‘ali fazer habitar 
o Seu nome’ (Dt 12.5,11) e aí todos ‘se poderão alegrar’ diante dele (Dt 12.7)”. 
Os filhos de Israel, segundo o código deuteronômico, devem respeitar-se as 
propriedades (Dt 19.14), pagar-se os justos salários (Dt 24.15), ter pesos e medidas 
 
 
14 
justas (Dt 25.13), manifestar a máxima generosidade para com os pobres (Dt 15.7-8) 
(Davidson, 1997, p. 378). 
Autoria do Pentateuco 
Champlin (2001, p. 5) afirma que “a unidade de composição não só do livro de 
Gênesis, mas de todos os livros do Pentateuco, tem sido um tema polêmico entre os 
críticos”. Segundo ele, há divergências sérias entre os pontos de vista conservativo e 
crítico. A interpretação clássica aponta para a autoria mosaica. Sobre isso Champlin 
(2001, p. 5) opina que “a matéria tratada de Êxodo a Deuteronômio exige uma 
subestrutura como Gênesis. Sentindo essa necessidade, Moisés talvez tenha usado 
o material disponível da época e feito uma compilação dessa matéria na forma de 
tradição antiga.” 
O autor, porém, observa que “passagens como João 5.46 e ss., em que Jesus 
se refere aos ‘escritos de Moisés’, podem ser interpretadas como escritos meramente 
atribuídos a Moisés. Por outro lado, essas passagens podem igualmente ser 
interpretadas como pronunciamentos da autoria mosaica desses escritos” (Champlin, 
2001, p. 5). 
Quanto à exegese histórico-crítica, Champlin comenta: 
Empregando o método de análise do texto, os críticos modernos afirmam que 
pelo menos três fontes distintas serviram de base para o livro de Gênesis: P, 
E e J. Alguns fanáticos no estudo das fontes literárias têm fragmentado essas 
fontes em subfontes, contudo, como essas subdivisões não os têm conduzido 
a nenhuma conclusão importante, nos limitaremos ao tratamento das três 
fontes citadas acima, as quais foram provavelmente baseadas no tradicional. 
A fonte P(S), de caráter basicamente formal e estatístico, relata o tipo de 
material que os sacerdotes cultivavam, como, por exemplo, Levítico 1-16. 
Contudo, momentos de grandeza são também encontrados nesta fonte, a 
saber, Cantares 1. P é a fonte mais recente das três, provavelmente 
pertencendo ao período entre os séculos V e VI A.C. (Champlin, 2001, p. 5) 
NA PRÁTICA 
O Pentateuco apresenta temas sensíveis às nossas comunidades: problemas 
familiares, afastamento de Deus e a distorção que a falta de amor (o pecado) traz a 
nossas realidades humanas. Mas, sobretudo, traça um projeto de salvação com a 
promessa da terra, que ilumina a caminhada e dá esperança para seguir. 
O estudo do Pentateuco em nossas comunidades, bem como a leitura espiritual 
de seus textos, ilumina os fiéis para integrarem os conflitos e problemas no caminho 
a um plano maior de Deus, construído no amor e não no medo. A mensagem teológica 
do Pentateuco segue atual e capaz de fortalecer os passos do cristão. Sem que 
 
 
15 
façamos “alterações” ao texto bíblico, podemos atualizar sua mensagem e, assim, 
aprimorar as leituras teológicas do Pentateuco, ajudando-a ao contexto e práticas 
pastorais da atualidade. 
FINALIZANDOQuestões para reflexão 
O monoteísmo e a santidade da vontade divina são as bases religiosas da 
religião judaica. 
A experiência de libertação é o elemento norteador da caminhada, que sustenta 
os pés no caminho pelo deserto. 
A ética do Sinai se mostra no Pentateuco como expressão máxima da perfeita 
vontade de Deus para seu povo. 
A esperança de chegar à terra prometida alimenta um novo espírito que, por 
sua vez, gera nos israelitas um novo coração. 
 
 
 
16 
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