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NUTRIÇÃO Ivonilce Venturi OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Identificar as estruturas básicas e as fontes alimentares dos principais carboidratos. > Explicar como os carboidratos são digeridos e absorvidos. > Reconhecer as funções dos carboidratos no organismo. Introdução Os carboidratos são um dos grupos de macronutrientes fundamentais para o funciona- mento do corpo humano. São considerados sua principal fonte de energia e utilizados como combustíveis para o metabolismo de energia celular. Porém, a fim de que seu consumo não se torne danoso à saúde, é importante saber como se comporta química e fisiologicamente no organismo: se consumido em excesso, leva ao aumento da glicose sanguínea, provoca cáries dentárias, predispõe ao sobrepeso e à obesidade, entre outros malefícios. De fato, alguns tipos de carboidratos têm sido associados a processos inflamatórios, a alguns tipos de câncer e a infecções bacterianas e virais. Além disso, alguns problemas também podem ocorrer durante o processo digestivo dos diferentes tipos de carboidratos até que se transformem em porções absorvíveis, causando problemas de saúde. É o caso, principalmente, dos problemas gastrointestinais, como a distensão abdominal decorrente do aumento da produção de gás gerado pela fermentação bacteriana, por exemplo. Porém, novamente é preciso atentar para o fato de que tanto os benefícios quanto os malefícios dos carboidratos estão diretamente relacionados ao tipo e à quantidade ingerida, além de à interação entre nutrientes. Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos Neste capítulo, começaremos pelo básico: apresentaremos os carboidratos e suas estruturas conforme a classificação em monossacarídeo, dissacarídeo, oligossacarídeo e polissacarídeo, e veremos as principais fontes alimentares em cada grupo. Ainda, explicaremos como se dá o processo de digestão e absorção dos carboidratos no organismo humano, identificando as sequências de digestão e as enzimas envolvidas em cada processo. Por fim, descreveremos as funções dos diferentes tipos de carboidratos no organismo humano, de acordo com suas características químicas, destacando-se as funções de fornecimento energético, armazenamento energético e estruturação celular. Estruturas básicas e fontes alimentares dos principais carboidratos Os carboidratos são os constituintes mais numerosos de alimentos como cereais, frutas, vegetais e legumes, consistindo na fonte de energia mais im- portante para a nutrição humana e nas moléculas orgânicas mais abundantes na natureza. Exceto para os carboidratos do leite (lactose) e quantidades mínimas de glicogênio nas carnes, todos os carboidratos que ingerimos são derivados de plantas. São solúveis em água e possuem sabor doce, caracte- rística que, nos primórdios da humanidade, servia para o homem identificar alimentos que fossem fontes seguras de energia (MARIEB; HOEHN, 2009). Como vimos na introdução deste capítulo, os carboidratos fornecem (1) energia para o corpo humano realizar as reações celulares (sobretudo as do cérebro e do sistema nervoso) e (2) suporte estrutural dentro das paredes celulares. Os músculos também usam um suprimento constante de carboidra- tos para obter energia para atividades físicas. Também são importantes para a manutenção da homeostase glicêmica e da saúde gastrointestinal. Além disso, eles contêm micronutrientes, compostos fitoquímicos e antioxidantes (WARDLAW; SMITH, 2013). Ao contrário do que muitas pessoas têm divulgado, a ingestão regular de carboidratos é extremamente importante, porque os estoques de glicogênio (forma de armazenamento da glicose no ser humano) armazenados no fígado se esgotam em até cerca de 18 horas quando não consume carboidrato. Depois desse período, o organismo se obriga a produzir o nutriente, principal- mente a partir da degradação de proteínas, o que pode prejudicar a saúde e perda do tecido muscular (WARDLAW; SMITH, 2013). Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos2 De acordo com sua estrutura química e seu grau de polimerização (ou seja, com número de meros que podem ser verificados na estrutura de uma macromo- lécula), os carboidratos são classificados em mono-, di-, oligo- e polissacarídeos. Os carboidratos nutricionalmente importantes são açúcares e álcoois de açúcar (poliois), sendo estes os mono- e dissacarídeos e seus derivados, e os polissa- carídeos dos amidos e da fibra alimentar. Dependendo dos grupos funcionais, os carboidratos podem ter diferenças na solubilidade e nas reações químicas. Os carboidratos são poli-hidroxialdeídos ou moléculas de cetona e seus derivados, álcoois e ácidos, cuja fórmula química geral é (CH2O)n. A maioria é formada por moléculas de carbono, hidrogênio e oxigênio, mas a estrutura de alguns compostos de carboidratos contém nitrogênio, enxofre e fósforo (COLE; KRAMER, 2016). De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a classificação geral dos carboidratos está estruturada conforme o Quadro 1 (CUMMINGS; STEPHEN, 2007). Quadro 1. Terminologia e classificação dos carboidratos e seus principais componentes Classe (DP*) Subgrupo Componentes principais Açúcares (1-2) Monossacarídeos Glicose, frutose, galactose Dissacarídeos Sacarose, lactose, maltose, trealose Poliois (álcoois de açúcar) Sorbitol, manitol, lactitol, xilitol, eritri- tol, isomalte, maltitol Oligossaca- rídeos (3-9) (carboidratos de cadeia curta) Malto-oligossacarí- deos (α-glucanos) Maltodextrinas Oligossacarídeos não α-glucana Rafinose, estaquiose, fruto e galacto oligossacarídeos, polidextrose, inulina Polissacarídeos (⩾ 10) Amido (α-glucanos) Amilose, amilopectina, amidos modificados Polissacarídeos sem amido (NSPs) Celulose, hemicelulose, pectina, arabinoxilanos, β-glucanos, glucoma- nanos, gomas vegetais e mucilagens, hidrocoloides * Grau de polimerização, do inglês degree of polymerization, ou número de unidades monoméricas (açúcares simples). Fonte: Adaptado de Cummings e Stephen (2007). Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos 3 A classificação química dos carboidratos ocorre como carboidratos simples e complexo. Veja cada classificação em detalhes a seguir. Carboidratos simples Essa classe de carboidratos é composta pelos mono e dissacarídeos, chamados de açúcares simples, por conterem apenas uma ou duas unidades de açúcar, como os próprios nomes indicam. Monossacarídeos: glicose, frutose e galactose É a forma mais simples de carboidratos e não pode ser hidrolisada em su- bunidades menores; sua riqueza de combinações, porém, confere-lhe uma grande variedade de sabores doces. É formada por apenas um anel de açú- car, dando o nome ao grupo: mono = um; sacarídeo = açúcar. A presença do grupo funcional carbonila (C=O) possibilita classificar os monossacarídeos em cetonas ou aldeídos, recebendo a classificação em cetoses e aldoses, respectivamente. Conforme o comprimento da cadeia, os monossacarídeos se enquadram em várias categorias, consideradas nutricionalmente importantes, como as pentoses (cinco unidades de carbono) e a ribose e hexose (seis unidades de carbono). Portanto, os monossacarídeos são classificados conforme o nú- mero de átomos de carbono que há em seu núcleo. A presença de carbonos assimétricos em monossacarídeos com diferentes grupos funcionais ligados em sua estrutura dá ascensão à atividade ótica, o que significa que, se a luz polarizada passa por uma solução com esses compostos, o plano da luz será girado ou para a esquerda (levogiro ou L) ou para a direita (dextrogiro ou D). Assim, estruturas semelhantes do mesmo composto podem ser chamadas de estereoisomeros (Figura 1). Os monossacarídeos na forma dextrogiro são os mais importantes, pois são mais abundantes na natureza; são mais metabólicos, pois existem enzimas digestivas específicas para esse grupo (STYLIANOPOULOS, 2013; TALAPATRA; TALAPATRA, 2015). Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos4 Figura 1. Moléculas de glicoseapresentadas como cadeia aberta e como cadeia fechada, e anel de piranose cíclico nas configurações α e β. Fonte: Stylianopoulos (2013, p. 266). Os monossacarídeos mais comuns são a glicose, a frutose e a galactose (Figura 2). A glicose é utilizada como principal combustível celular e é encon- trada livre nos tecidos do corpo e em fluidos. É o principal componente de construção de vários polissacarídeos. A galactose e a frutose também são usadas como combustível celular. Figura 2. Fórmula estrutural dos monossacarídeos glicose, frutose e galactose: todos com semelhante número de átomos de carbono, mas com estrutura química diferente. Fonte: Wardlaw e Smith (2013, p. 148). Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos 5 Em sua forma livre, a glicose, também chamada de dextrose, é encontrada em pequenas quantidades em alguns alimentos, mas o processo de digestão do amido e da sacarose constituem grandes fontes de glicose para as células do corpo humano. Assim, os carboidratos são convertidos em glicose para, então, serem utilizados como energia. A glicose está presente em alimentos como o mel e o xarope de milho. Por sua vez, a frutose, também conhecida como “açúcar das frutas”, é o açúcar mais doce de todos os carboidratos de fontes alimentares e é o monossacarídeo mais comum. É encontrada, principalmente, em frutas, vegetais, cereais, mel e em produtos industrializados como suco de caixinha, molho de tomate, etc. Por fim, a galactose, outro monossacarídeo que tem pouca ocorrên- cia em sua forma livre, geralmente está ligada a outros monossacarídeos. É encontrada nas frutas, no mel e no xarope de milho, e é usada como adoçante em diversos produtos, como os refrigerantes. Dissacarídeos: sacarose, lactose e maltose Essa classe é composta por duas unidades (di) de monossacarídeos. Os mais comuns são a maltose, a sacarose e a lactose, todos encontrados em alimentos (GIBSON; NEWSHAM, 2018). A sacarose ocorre com a ligação de unidades de frutose e glicose. É amplamente encontrada em frutas e vegetais, como a cana-de-açúcar e a beterraba, conferindo-lhes o sabor doce. O refinamento da cana-de-açúcar ou da beterraba consegue produzir o açúcar de mesa a partir da sacarose. Por sua vez, a lactose ocorre com a ligação entre glicose e galactose durante a síntese do leite. Portanto, as principais fontes de lactose são o leite e seus derivados não fermentados, principalmente. Os produtos lácteos fermentados, a exemplo da maioria dos iogurtes e queijos, contêm menos lactose, porque, durante a fermentação, parte dela é convertida em ácido lático (DAMODARAN; PARKIN, 2019). Por fim, a maltose é composta pela ligação de duas unidades de glicose. É comum ocorrer no processo de fermentação para a produção do álcool. A maltose também é conhecida como o “açúcar do malte”. Na indústria, é obtida pela fermentação de cereais em germinação, como a cevada. Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos6 Outro dissacarídeo relevante é a trealose, encontrado, sobretudo, em leveduras e fungos (cogumelo) e, em pequenas quantidades, em alimentos como o pão e mel. É usado na indústria de alimentos como um substituto da sacarose quando se deseja obter um sabor menos doce, mas com propriedades tecnológicas semelhantes. Também é capaz de estabilizar e proteger enzimas e outras proteínas durante processos de aquecimento e congelamento, de reduzir a retrogradação do amido cozido e de estender a vida de produtos de panificação (DAMODARAN; PARKIN, 2019). Poliois Os poliois são alcoóis de glicose ligada a outro açúcar; logo, são estru- turalmente similares aos açúcares simples (DAMODARAN; PARKIN, 2019). São encontrados naturalmente em algumas frutas e, também, produzidos comercialmente usando a aldose redutase para converter o grupo aldeído da molécula de glicose em álcool. Os poliois são usados na indústria de alimentos como adoçantes em produtos que não levam o açúcar em sua composição, mas precisam ser adoçados. Entre eles, estão algumas gomas de mascar, doces, sorvetes, geleias de frutas. Carboidratos complexos Os carboidratos desse grupo são assim classificados pela ligação entre várias unidades de monossacarídeos. Assim, são divididos em oligossacarídeos e polissacarídeos. Oligossacarídeos São compostos nos quais unidades de monossacarídeos são unidas por ligações glicosídicas. Em geral, estão ligadas entre três a 10 unidades de monossacarídeos. A ocorrência mais frequente está nos compostos cuja estrutura contém dissacarídeos como a maltose, a lactose e a trealose. São encontrados, na forma livre, em frutas, mel, vegetais e leite. Também são obtidos por hidrólise química ou enzimática do amido e da celulose. Fazem parte dos oligossacarídeos o frutooligossacarídeo, o xilooligossa- carídeo, o galactooligossacarídeo e a rafinose. Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos 7 Os frutooligossacarídeos, ou “FOs”, ocorrem naturalmente em vegetais e são conhecidos como açúcares não convencionais. A formação dos FOs ocorre por ligações de oligômeros de frutose composto por 1-kestose, nistose e frutofuranosil ligadas na posição beta-2,1 da sacarose. Os FOs também podem ser obtido industrialmente por hidrolise enzimática (BEMILLER, 2019). Por sua vez, os xilooligossacarídeos, ou XOs, também são conhecidos como açúcares não convencionais, não possuem calorias e não são metabolizados pelo organismo. A obtenção ocorre industrialmente por meio de tratamento enzimático da hemicelulose, composto presente na casca de arroz, na palha de cevada, no talo de algodão de trigo, etc. Já os galactooligossacarídeos são cadeias formadas pelas ligações de unidades de lactose e galactose, formando compostos de tri a hexassacarí- deos. Não são digeríveis e são resistentes às enzimas digestivas; porém, são fermentados por bifidobactérias. Por fim, a rafinose é um carboidrato bastante conhecido entre os oligos- sacarídeos. É gerada pela hidrólise das unidades de d-glicose, d-frutose e d-galactose. Encontrada na beterraba e no feijão, entre outros alimentos, a rafinose não é digerível, produzindo lactato e gases. Polissacarídeos São compostos que possuem uma longa cadeia de monossacarídeos ligados por ligações glicosídicas (poli = muitos). Em geral, sua estrutura possui mais de 10 unidades de monossacarídeos. Podem apresentar cadeia ramificada ou não ramificada. O peso molecular dos polissacarídeos pode ser de 100.000 daltons ou mais, dependendo no número de monômeros unidos. São en- contrados na natureza como biopolímeros. Os polissacarídeos possuem estruturas compostas por cadeias poliméricas com ligações O-glicosídicas de unidades de monossacarídeos. Os polissacarídeos podem ser de origem vegetal, animal ou microbiana, ou provenientes de algas marinhas. Entre exemplos de origem vegetal, estão o amido, a celulose e a goma arábica; de algas marinhas, o alginato, os ga- lactanos e a carragenina; de origem animal, a quitina, a quitosana e o ácido hialurônico. As fontes de origem microbiana são o dextrano, o pululano e a goma xantana (SHARIATINIA, 2019). Veja, no Quadro 2, um resumo com alguns polissacarídeos nutricionalmente importantes para o homem. Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos8 Quadro 2. Terminologia e classificação de alguns carboidratos e seus prin- cipais componentes Classe Subgrupo Função Glucanos Amido Polissacarídeo de armazenamento em plantas Glicogênio Forma de armazenamento de curto prazo de glicose em tecidos animais Celulose Principal componente estrutural das paredes das células vegetais Galactanos — Principais constituintes da matriz não celulósica da parede celular vegetal Xilanos — Constituintes de tecidos vegetais maduros Mananos — Forma de armazenamento em várias plantas Uronanos Galacturonano Principais componentes da fração péctica solúvel em água das plantas Manuronano Componentes de polissacarídeos de algas Guluronano Componentes de polissacarídeosde algas Fonte: Adaptado de Stylianopoulos (2013). Os glucanos são polímeros de glicose e os principais polissacarídeos da dieta humana. Os mais importantes são o amido, o glicogênio e a celulose. O amido é uma forma de armazenamento de açúcares nas plantas. Assim, o amido é considerado o polissacarídeo mais abundante das plantas. As plantas são capazes de sintetizar glicose; o excesso de glicose, além das necessidades imediatas de energia das plantas, é armazenado como amido, principalmente nas raízes e sementes. O amido é formado por dois polissacarídeos distintos: a amilose e a amilopectina. Contem em sua estrutura unidades de α-d-glicose que se repetem, ligadas entre si por ligações α-(1,4)-glicosídicas e até certo ponto por ligações α-(1,6)-glicosídicas. Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos 9 O amido é a reserva nutricional e de energia predominante das plantas superiores. Assim, fornece de 70% a 80% das calorias con- sumidas pelos seres humanos no mundo todo, de forma que constitui a maior parte dos carboidratos digeríveis da dieta humana (DAMODARAN; PARKIN, 2019). Por sua vez, o glicogênio é um polissacarídeo de glicose que serve como forma de armazenamento de energia. Apresenta estrutura composta por uni- dades de glicose ligadas por ligações α-(1,4)-glicosídicas e α-(1,6)-glicosídicas, possuindo muitas ramificações. Já a celulose é considerada o biopolímero mais abundante. É composta por monômeros de glicose unidos por ligações glicosídicas β1,4, chegando a 700 a 25.000 unidades de glicose. A parede celular das plantas é feita, principalmente, de celulose, fornecendo um suporte estrutural para a célula. Exemplos de produtos de natureza celulósica incluem a madeira e o papel. Também é encontrada em alguns organismos inferiores, como as algas ma- rinhas e bactérias. Outro polissacarídeo bastante conhecido é a goma guar, um polissa- carídeo obtido pela moagem do endosperma de sementes de Cyamopsis tetragonolobus. Entre as gomas naturais comercializadas, é a que produz maior viscosidade. É solúvel em água e é formado por cadeias lineares de unidades de (1→4)-β-d-manopiranosil com unidades de α-d-galactopiranosil unidas por ligações (1→6) (DAMODARAN; PARKIN, 2019). A quitina e quitosana são outros exemplos de polissacarídeos. São atóxicos, biodegradáveis, biocompatíveis e produzidos por fontes naturais renováveis, com propriedades que vêm sendo exploradas em aplicações industriais e tecnológicas há muitos anos. A quitina, estruturalmente análoga à celulose, é formada por monômeros 2-acetamido-2-desoxi-β-d-glicose ligados via conexões β-(1→4). É encontrada em crustáceos, paredes celulares de fungos e outros materiais biológicos. A quitosana, por sua vez, é derivada da quitina e possui atividade antimicrobiana contra diferentes microrganismos patogê- nicos e de deterioração. É linear, formada por monômeros de d-glucosamina com substituintes N-acetilglucosamina, localizados aleatoriamente, ligados a β-(1→4) (DAMODARAN; PARKIN, 2019; YADAV; KARTHIKEYAN, 2019). O polissacarídeo goma xantana, largamente utilizado na indústria alimen- tícia como espessante e estabilizante, é obtido pela fermentação da bactéria Xanthomonas campestris, muito encontrada nas folhas das plantas da família da couve. Esse carboidrato possui cadeia ramificada e é formado por unidades Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos10 de celobiose, com cadeias laterais compostas por trissacarídeos contendo d-manose (β-1,4), ácido d-glucurônico (β-1,2) e d-manose, unidos a resíduos alternativos de glicose por meio de ligações α-1,3 (DAMODARAN; PARKIN, 2019). Fibras É importante ressaltar que as fibras alimentares são classificadas como carboidratos complexos formados a partir de longas cadeias de unidades de açúcares, unidas por ligações β-glicosídica e α-glicosídica, sendo que as fibras de celulose possuem a de ligação β-glicosídica e as fibras de amilose possuem as de ligação α-glicosídica. Ou seja, as fibras diferem dos amidos na medida em que não podem ser digeridas pelas enzimas humanas no trato gastrointestinal, em decorrência das ligações β. Atualmente, as fibras são classificadas em (Quadro 3) (WARDLAW; SMITH, 2013): 1. não fermentáveis (insolúveis) e/ou não viscosas; 2. fermentáveis (solúveis) e/ou viscosas. Quadro 3. Classificação das fibras Tipo Componente(s) Efeito(s) fisiológico(s) Principais fontes alimentares Não fermentáveis: formam não carboidrato e for- mam carboidrato Lignina (não carboidrato), celulose e hemiceluloses Aumentam o bolo fecal e diminuem o tempo de trânsito intestinal Cereais integrais, farelo de trigo, todas as verduras, produtos derivados de trigo, centeio, arroz e vegetais Fermentáveis: for- mam carboidrato Pectinas, gomas, mucilagens e alguns tipos de hemicelulose Retardam o esva- ziamento gástrico, desaceleram a produção de glicose e podem diminuir o coles- terol sanguíneo Frutas cítricas, maçã, banana, alimentos à base de aveia, cenoura, cevada, leguminosas e espessantes adicio- nados aos alimentos Fonte: Adaptado de Wardlaw e Smith (2013). As fibras não fermentáveis são assim chamadas porque não são facil- mente fermentadas pelas bactérias do intestino. Também são referidas como “insolúveis” porque não se dissolvem em água. Por sua vez, as fibras Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos 11 fermentáveis são aquelas que as bactérias do cólon conseguem fermentar ou degradar em ácidos graxos de cadeia curta com liberação de gás. O termo “viscoso” se refere à capacidade de certas fibras formar uma consistência semelhante a um gel espesso. A maioria dos alimentos contém ambos os tipos de fibras, embora os rótulos não costumem distingui-los. As denominações mais co- muns encontradas nas informações nutricionais são “fibras totais” e “fibras alimentares”, que se referem tanto aos tipos que vimos nesta seção quanto às fibras funcionais, que são acrescentadas aos alimentos por seus comprovados benefícios à saúde humana (WARDLAW; SMITH, 2013). Processo de digestão e absorção de carboidratos Em geral, os carboidratos deveriam compor de 45% a 65% da ingestão ca- lórica humana diária. Os carboidratos dietéticos incluem uma variedade de carboidratos simples e complexos, sendo que parte deles é digerível no trato digestório. Em geral, os carboidratos são hidrolisados a unidades de monossacarídeos para, então, serem absorvidos pelo organismo. A seguir, vamos ver cada etapa do processo de digestão dos carboidratos. Da boca ao estômago A digestão mecânica e química dos carboidratos começa já na boca. A mas- tigação é o processo que fragmenta os alimentos ricos em carboidratos em pedaços cada vez menores. As glândulas salivares da cavidade oral secretam saliva, que reveste as partículas de alimentos. A saliva contém a enzima amilase salivar, que quebra as ligações entre as unidades monoméricas de açúcares de dissacarídeos, oligossacarídeos e amidos. Também quebra a ami- lose e a amilopectina em cadeias menores de glicose, chamadas de dextrinas e maltose. A amilose salivar, portanto, começa a decomposição química dos carboidratos, fazendo a quebra das ligações em unidades monoméricas de açúcar. A Figura 3 demonstra as glândulas salivares na boca e os locais onde ocorre a quebra da cadeia de um polissacarídeo (WARDLAW; SMITH, 2013). Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos12 Figura 3. Glândulas salivares e um amido com indicações de onde ocorre a quebra em fragmentos menores. Fonte: Digestion... (2018, documento on-line). O aumento da concentração de maltose na boca, resultante da degrada- ção mecânica e química dos amidos em grãos inteiros, é o que aumenta sua doçura. Apenas cerca de 5% dos amidos são decompostos na boca (WARDLAW; SMITH, 2013). Quando os carboidratos chegam ao estômago, não ocorre mais decompo- sição química, porque a enzima amilase não funciona nas condições ácidas do estômago. Noentanto, as contrações peristálticas do estômago misturam os carboidratos mais uniformemente com o quimo. Do estômago para o intestino delgado O quimo é expelido gradualmente para a parte superior do intestino delgado. Após a entrada do quimo no intestino delgado, o pâncreas libera suco pan- creático através de um duto. Esse suco pancreático contém a enzima amilase pancreática, que reinicia a quebra das dextrinas em cadeias cada vez mais curtas de carboidratos. Além disso, enzimas são secretadas pelas células intestinais. Essas enzimas são conhecidas como sacarase, maltase e lactase: a sacarase quebra a sacarose em moléculas de glicose e frutose; a maltase atua sobre a maltose para formar duas moléculas de glicose; a lactase atua Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos 13 sobre a lactose para produzir glicose e galactose. Depois que os carboidratos são decompostos quimicamente em unidades simples de açúcar, eles são transportados para o interior das células intestinais. A Figura 4 apresenta um resumo de como as enzimas quebram os carboi- dratos para sua posterior absorção. Figura 4. Enzimas envolvidas no processo de quebra dos carboidratos. Fonte: Adaptada de Kohlmeier (2015). Absorção: para a corrente sanguínea As células do intestino delgado possuem membranas que contêm muitas proteínas de transporte para levar os monossacarídeos e outros nutrientes para o sangue, onde podem ser distribuídos para o resto do corpo. A frutose é absorvida por difusão facilitada, enquanto a glicose e a galactose são ativamente transportadas. O primeiro órgão a receber glicose, frutose e galactose é o fígado. O fígado as recebe e converte galactose em glicose, quebra a frutose em unidades ainda menores, contendo carbono, e armazena glicose como glicogênio ou a exporta de volta para o sangue. Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos14 Quando as pessoas não produzem suficiente enzima lactase, a lactose não é suficientemente decomposta, resultando em uma condição chamada de intolerância à lactose. A lactose não digerida segue para o intestino grosso, onde é fermentada pelas bactérias. A digestão bacteriana da lactose produz gases que levam a sintomas como diarreia, distensão e cólicas abdo- minais. A intolerância à lactose geralmente ocorre em adultos e está associada à etnia: afrodescendentes, hispano-americanos, índios e asiáticos são mais propensos a desenvolver a intolerância, enquanto os descendentes do Norte da Europa são menos propensos. A maioria das pessoas com intolerância à lactose pode tolerar certa quanti- dade de laticínios em sua dieta. A gravidade dos sintomas depende da quantidade de lactose consumida e do grau de deficiência de lactase. De qualquer forma, atualmente, há muitas opções de alimentos sem lactose e comprimidos que contém a enzima lactase e podem ser utilizados antes do consumo de laticínios. Os níveis de glicose no sangue são rigorosamente controlados, pois o excesso ou a falta de glicose no sangue pode ter sérias consequências para a saúde. A glicose regula seus níveis no sangue por meio de um processo chamado de feedback negativo, em que o corpo detecta os níveis de glicose no sangue e mantém esses níveis dentro de uma faixa-alvo. Quando as células secretoras de insulina no pâncreas percebem o aumento da glicose no sangue, liberam o hormônio insulina na corrente sanguínea. A insulina envia um sinal às células do corpo para remover a glicose do sangue, transportando-a para as células de diferentes órgãos ao redor do corpo e usando-a para produzir energia. No caso do tecido muscular e do fígado, a insulina envia a mensagem biológica para armazenar a glicose na forma de glicogênio. A presença de insulina no sangue significa, para o corpo, que a glicose está disponível como combustível. Conforme a glicose é transportada para as células ao redor do corpo, os níveis de glicose no sangue diminuem. A insulina tem um hormônio oposto, chamado de glucagon. As células secretoras de glucagon no pâncreas percebem a queda na glicose e, em resposta, liberam glucagon no sangue. O glucagon se comunica com as células do corpo para parar de usar toda a glicose. Mais especificamente, ele sinaliza ao fígado para quebrar o glicogênio e liberar a glicose armazenada no sangue, de modo que os níveis de glicose fiquem dentro da faixa desejada e todas as células obtenham o combustível necessário para funcionar corretamente. Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos 15 Os processos de transporte nos enterócitos intestinais não podem rece- ber qualquer molécula maior que monossacarídeos. Assim, o processo de digestão e absorção envolve a secreção de a-amilases salivares e pancre- áticas, que digerem ligações α-1,4-glucosídicas em amidos e oligossacari- dases, e sacaroses localizadas na borda em escova, que, então, degradam os produtos de degradação do amido em glicose. O produto de glicose pode, então, ser transportado pelo carreador específico de glicose, uma glicoproteína de borda em escova integrada expressa apenas no intestino delgado e com alta afinidade para monossacarídeos. A força motriz para o transporte ascendente de glicose para o enterócito é fornecida pela ATPase de sódio-potássio, que bombeia o Na + intracelular através da membrana basolateral. Quase todos os carboidratos, exceto a fibra alimentar e os amidos resistentes, são digeridos com eficiência e absorvidos pelo corpo. Alguns dos carboidratos indigeríveis restantes são decompostos por enzimas liberadas por bactérias no intestino grosso. Os produtos da digestão bacteriana desses carboidratos de liberação lenta são os ácidos graxos de cadeia curta e alguns gases. Os ácidos graxos de cadeia curta são usados pelas bactérias para produzir energia e crescer, e são eliminados nas fezes ou são absorvidos pelas células do cólon, com uma pequena quantidade sendo transportada para o fígado. As células do cólon usam os ácidos graxos de cadeia curta para apoiar algumas de suas funções (KONING; SIBLEY; RINGS, 2019). O fígado também pode metabolizar os ácidos graxos de cadeia curta em energia celular. A produção de energia da fibra dietética é cerca de 2 quilocalorias por grama, mas é altamente dependente do tipo de fibra, com fibras fermentáveis e amidos resistentes produzindo mais energia que fibras não fermentáveis. Como a fibra alimentar é digerida muito menos no trato gastrointestinal do que outros tipos de carboidratos (açúcares simples e muitos amidos), o aumento da glicose no sangue após comê-los é menor e mais lento. Esses atributos fisiológicos dos alimentos ricos em fibras (ou seja, grãos inteiros) estão ligados a uma diminuição no ganho de peso e do risco de doenças crônicas, como diabetes melito do tipo 2 e doenças cardiovasculares. Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos16 Funções dos carboidratos no organismo As funções principais dos carboidratos no corpo humano resumem-se em: 1. produção de energia; 2. armazenamento de energia; 3. construção de macromoléculas; 4. economia de proteínas; 5. assistência no metabolismo lipídico. De acordo com as recomendações da Dietary Reference Intake (NATIONAL ACADEMY OF SCIENCES, 2001), em torno de 45% a 65% do total das calorias da dieta humana devem ser provenientes de carboidratos. Amidos e açúcares são os principais carboidratos fornecedores de energia: fornecem 4 quilocalorias por grama. Os poliois fornecem 2,4 quilocalorias (o eritritol não é digerido e, portanto, fornece 0 calorias) e as fibras dietéticas fornecem 2 quilocalorias. A seguir, veremos, em detalhes, cada uma das funções dos carboidratos no organismo humano. Produção e armazenamento de energia A principal função dos carboidratos é fornecer energia a todas as células do corpo. Muitas células preferem a glicose como fonte de energia em comparação a outros compostos, como os ácidos graxos. Algumas células, como os glóbulos vermelhos, só são capazes de produzir energiacelular a partir da glicose. O cérebro também é altamente sensível a baixos níveis de glicose no sangue, porque usa apenas glicose para produzir energia. Cerca de 70% da glicose que entra no corpo a partir da digestão é redistribuída pelo fígado de volta ao sangue para uso por outros tecidos. As células que requerem energia removem a glicose do sangue com uma proteína de transporte em suas membranas. A energia da glicose vem das ligações químicas entre os átomos de car- bono. As células do corpo quebram essas ligações e capturam a energia para realizar a respiração celular. A respiração celular é, basicamente, uma queima controlada de glicose versus uma queima descontrolada. Uma célula usa muitas reações químicas em várias etapas enzimáticas para retardar a liberação de energia e capturar de forma mais eficiente a energia contida nas ligações químicas da glicose. Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos 17 O primeiro estágio na quebra da glicose é chamado de glicólise. A glicólise, ou divisão da glicose, ocorre em uma intrincada série de dez etapas de reação enzimática. O segundo estágio da quebra da glicose ocorre nas organelas das mitocôndrias. Um átomo de carbono e dois átomos de oxigênio são removidos, gerando mais energia. A energia dessas ligações de carbono é transportada para outra área da mitocôndria, tornando a energia celular disponível em uma forma que as células possam usar (YADAV; KARTHIKEYAN, 2019). Os monossacarídeos são absorvidos diretamente pelo intestino delgado na corrente sanguínea, de onde são transportados para as células necessitadas. Vários hormônios, incluindo insulina e glucagon, também fazem parte do sistema digestivo. Eles mantêm nossos níveis de açúcar no sangue removendo ou adicionando glicose à corrente sanguínea conforme necessário. Se não for usado diretamente, o corpo converte glicose em glicogênio, um polissacarídeo como o amido, que é armazenado no fígado e nos músculos como uma fonte de energia prontamente disponível. Quando necessário, por exemplo, entre as refeições, à noite, durante estímulos à atividade física ou durante curtos períodos de jejum, o corpo converte o glicogênio de volta em glicose para manter um nível constante de açúcar no sangue. O Quadro 4 apresenta algumas das funções dos monossacarídeos de importância nutricional. Quadro 4. Alguns monossacarídeos nutricionalmente importantes e os derivados de monossacarídeos Classe Espécies Principais atribuições Hexoses d-glicose Principal combustível celular, não ligado em fluidos e tecidos corporais, bloco de cons- trução de vários polissacarídeos d-frutose Combustível celular, constituinte da sacarose d-galactose Combustível celular, constituinte da galactose d-manose Constituinte de polissacarídeos da parede celular vegetal e gomas (Continua) Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos18 Classe Espécies Principais atribuições Pentoses l-arabinose, d-xilose Constituinte de polissacarídeos da parede celular vegetal d-ribulose, d-silulose Metabólito na via das pentoses d-ribose Constituinte de RNA Ácidos urônicos d-glucurônicos, d-galacturônico Constituinte de polissacarídeos da parede celular vegetal d-manurônico, d-gulurônico Constituinte de polissacarídeos de algas Álcoois de açúcar d-glucitol, d-xilitol Ingrediente alimentar d-galactitol Metabólito de galactose Açúcares desoxi d-desoxirribose Constituinte de DNA d-desoxigalactose Constituinte de polissacarídeos de algas l-frutose Constituinte de polissacarídeos bacterianos L=ramnose Constituinte de polissacarídeos de plantas pécticas Aminoaçú- cares d-glucosamina, d-galactosanima Constituinte de aminosaminoglicanos e cartilagem Fonte: Adaptado de Stylianopoulos (2013). Economia de proteínas como fonte de energia O suprimento adequado de carboidratos também tem a função de evitar que o corpo utilize proteína como fonte de energia. Em condições nutricionais na qual o organismo não tem glicose suficiente para atender às necessidades corporais, esta é sintetizada a partir de aminoácidos presentes no tecido muscular; ou seja, como não há molécula de armazenamento de aminoácidos, esse processo requer a destruição de proteínas, principalmente do tecido muscular. Quando o corpo utiliza proteína para a produção de energia, ocorre uma redução da massa muscular, pois a proteína presente nos músculos é degra- dada para a produção de energia, levando à formação de corpos cetônicos (LEONG et al., 2019). (Continuação) Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos 19 A cetose é uma condição metabólica resultante de uma elevação dos corpos cetônicos no sangue. Os corpos cetônicos são uma fonte alternativa de energia que as células podem usar quando o suprimento de glicose é insuficiente, como durante o jejum. Os corpos cetônicos são ácidos e grandes elevações no sangue podem fazer com que ele se torne muito ácido. Isso é raro em adultos saudáveis, mas pode ocorrer em alcoólatras, pessoas desnutridas e em indivíduos com diabetes melito do tipo 1. A quantidade mínima de carboidratos na dieta necessária para inibir a cetose em adultos é de 50 gramas por dia. Assistência no metabolismo lipídico Os níveis de glicose no sangue, quando aumentados, inibem a utilização de gordura como fonte de energia; ou seja, a glicose tem a função de poupar a utilização de lipídios como fonte energética. Isso ocorre porque um aumento na glicose no sangue estimula a liberação do hormônio insulina, que envia uma mensagem às células para usarem a glicose no lugar de lipídios para a produção de energia. Níveis adequados de glicose no sangue também evitam o desenvolvimento de cetose. Construção de macromoléculas Apesar de a maior parte da glicose absorvida ser usada para produzir energia, parte dessa glicose é convertida em ribose e desoxirribose, produzidas a partir da glicose via pentose-fosfato, que são blocos de construção essenciais de macromoléculas importantes, como RNA (ácido ribonucleico), DNA (ácido desoxirribonucleico) e ATP (adenosina trifosfato). Adicionalmente, a glicose é utilizada para fazer a molécula NADPH (dinu- cleótido de nicotinamida e adenina na forma reduzida), que é importante para a proteção contra o estresse oxidativo e é usada em muitas outras reações químicas no corpo. Quando toda a energia, a capacidade de armazenamento de glicogênio e as necessidades de construção de células corporais são atendidas, o excesso de glicose pode ser usado para a produção de gordura. É por isso que uma dieta muito rica em carboidratos e calorias pode levar ao aumento de gordura corporal. Nutrientes calóricos e balanço energético: carboidratos20 Prevenção de doenças Carboidratos complexos, como as fibras, têm sido associados a diversas funções no corpo humano, como à diminuição do risco de doenças cardiovasculares, ao retardo do esvaziamento gástrico (dando a sensação de saciedade, importante para os indivíduos que precisam reduzir peso), à melhora do funcionamento do intestino (aumentando o volume e a maciez das fezes, prevenindo constipação, hemorroidas, diverticulite e câncer de colón e reto) e à redução da absorção da glicose e do colesterol. Além de prevenir doenças, o consumo de fibras estimula a mastigação, a salivação e a produção do suco gástrico. O β-glucano, o principal componente da fibra solúvel nos grãos de aveia, foi inicialmente associado a uma redução do colesterol plasmático. A fibra alimentar também pode melhorar a glicemia, a resistência à insulina e a perda de peso, este último devido ao aumento da saciedade (ALEIXANDRE; MIGUEL, 2016; SOLIMAN, 2019). As fibras também são usadas na manutenção do trato gastrointestinal, atuando na formação do bolo fecal e auxiliando na hidratação das fezes, o que impede a constipação intestinal. É importante destacar que o consumo de fibras deve seguir o consumo de água. O consumo regular de fibras também tem sido apontado como prevençãodo desenvolvimento de vários tipos de câncer, como de cólon, bexiga, ovário e estômago. Referências ALEIXANDRE, A.; MIGUEL, M. Dietary fiber and blood pressure control. Food Funct, v. 7, º. 4, p. 1864–1871, 2016. BEMILLER, J. N. Starches. In: ______________. Carbohydrate chemistry for food scien- tists. 2nd ed. Verlag: WPACIP, 2019. p. 191–221. COLE, L. A.; KRAMER, P. R. Macronutrients. In: _____________. Human physiology, biochemistry and basic medicine. 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