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CÂNCER DE TIREOIDE . O câncer de tireoide é o câncer de cabeça e pescoço mais comum no Brasil. As projeções do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam cerca de 13.780 novos casos por ano no Brasil, com 1.830 em homens e 11.590 em mulheres, demonstrando que é muito mais frequente em mulheres. Representa 1% de todas as neoplasias. Em geral, apresenta bom prognóstico, especialmente nos carcinomas diferenciados (papilífero e folicular), que podem ter uma taxa de sucesso de tratamento de até 97%. No entanto, suas formas anaplásicas e medulares exigem uma abordagem mais agressiva. Em mulheres, é o quinto tipo de câncer mais incidente. Células e Fisiopatologia A tireoide possui dois tipos principais de células: Células dos Folículos Tireoidianos: ➔ Produzem e armazenam hormônios (T3 e T4) e uma proteína chamada tireoglobulina. ➔ São a origem dos carcinomas bem diferenciados (papilífero e folicular) e indiferenciados (anaplásico). Células C (Parafoliculares) Tireoidianas: ➔ Produzem calcitonina, um hormônio que regula o metabolismo do cálcio. ➔ Dão origem ao carcinoma medular. A etiologia do câncer de tireoide é multifatorial, envolvendo fatores genéticos e ambientais. Ocorre um distúrbio irreversível no equilíbrio de sinais celulares através de mutações em moléculas chave. Os nódulos podem ser únicos ou múltiplos, benignos ou malignos, sendo 90% a 95% benignos. Principais mutações iniciais na tireoide BRAF V600E (carcinoma papilífero – CPT): Ativa constitutivamente a via MAPK (RAS → RAF → MEK → ERK) → proliferação celular descontrolada. RET/PTC: Fusão gênica que ativa a via MAPK (mais comum em crianças e pacientes expostos à radiação). RAS (H-, K-, N-RAS): Ativa tanto a via PI3K/AKT/mTOR quanto a MAPK (mais associado a carcinoma folicular e variante folicular do CPT). PAX8/PPARγ: Translocação cromossômica típica de carcinoma folicular, relacionada à proliferação e inibição da apoptose. TP53: perda do controle de checkpoints → instabilidade genômica. TERT: reativação da telomerase → imortalidade celular. PI3K (ganho de função) e PTEN (perda de função) → ativação constante da via AKT/mTOR → mais crescimento e sobrevivência. Principais vias moleculares envolvidas MAPK (mitogen-activated protein kinase) Ativadores na tireoide: ● BRAF (especialmente V600E) ● RAS ● RET/PTC ● NTRK1 (fusões com ativação da via) Função: estimula proliferação e diferenciação celular. PI3K/AKT/mTOR Ativadores na tireoide: ● RAS ● PI3K mutada ● PTEN deletado Função: promove sobrevivência celular, metabolismo, síntese de proteínas. PAX8/PPARγ Alterações na diferenciação e proliferação. TP53 Guardião do genoma; mutação remove checkpoint G1/S e G2/M. Fatores de risco incluem Gênero e Idade: A incidência em mulheres é três vezes maior que em homens, possivelmente devido à presença de receptores de estrogênio na tireoide que podem aumentar a proliferação celular. Embora possa ocorrer em qualquer idade, é mais comum entre 30 e 50 anos, com picos entre 40-50 anos para mulheres e 60-70 anos para homens. A taxa de malignidade em nódulos é maior em indivíduos com menos de 14 anos ou mais de 70 anos. Exposição à Radiação: Crianças que fizeram tratamento com radiação na região da cabeça e pescoço (radioterapia para câncer como linfoma de Hodgkin) têm maior risco. Alta exposição à radiação devido à ocupação profissional também é um fator. Curiosamente, isso não ocorre com adultos que fazem radioterapia. Isso porque existe uma alta taxa de mitose e diferenciação celular na infância: Dieta: Dieta pobre em iodo aumenta o risco. O consumo excessivo de iodo também é um fator de risco. A deficiência de iodo leva ao hipotireoidismo, que por sua vez leva ao aumento compensatório do TSH. O TSH cronicamente elevado estimula a proliferação das células foliculares da tireoide. Isso pode levar a: ● Hiperplasia da glândula (bócio endêmico). ● Maior chance de mutações em células proliferativas, aumentando o risco de neoplasia folicular. Tipos de Câncer de Tireoide e Características Carcinoma Papilífero (CPT): ➔ Mais comum: Representa mais de 80% dos casos. ➔ Origem: Células foliculares. ➔ Crescimento: Geralmente lento e de baixo grau de malignidade. ➔ Localização: Quase sempre atinge um único lobo da tireoide, mas pode ter múltiplos focos (multicêntrico) em 10% a 80% dos casos, sendo geralmente bilateral. ➔ Disseminação: Pode atingir os gânglios linfáticos (linfonodos) do pescoço, utilizando a via linfática. Metástases cervicais são encontradas em quase 40% dos casos, e microscópicas são ainda mais frequentes. Metástases a distância (pulmões e ossos) ocorrem entre 1% e 10%. ➔ Prognóstico: Geralmente favorável, com tratamento bem-sucedido e raramente evolução desfavorável. ➔ Genes: BRAF, RET, RAS e NTRK1 Carcinoma Folicular (CFT): ➔ Prevalência: Representa 10-15% dos casos. É raro no Brasil devido ao consumo de sal iodado; mais comum em regiões com deficiência de iodo. Por isso é associado ao bócio endêmico. ➔ Origem: Células foliculares. ➔ Crescimento: Mais agressivo que o papilífero. ➔ Disseminação: Pode atingir pulmões e ossos. A disseminação é via hematogênica. ➔ Variante de Células de Hürthle: Mais agressiva, comum em pacientes mais velhos (média de 55 anos). Pode se tornar hiperfuncional após mutações. ➔ Prognóstico: Um pouco pior que o papilífero, especialmente em casos avançados. ➔ Genes: RAS e PAX8-PPARy A PAAF nesse caso não consegue diferenciar entre um adenoma ou carcinoma folicular Carcinoma Medular (CMT): ➔ Prevalência: Cerca de 4-7% dos casos. ➔ Origem: Células C (parafoliculares). ➔ Sintomas: Pode ser assintomático, apresentar nódulo palpável no pescoço. Sintomas relacionados ao excesso de calcitonina (rubor, diarreia, perda de peso, síndrome de Cushing). ➔ Disseminação: Pode se disseminar para linfonodos, pulmões, fígado antes mesmo do nódulo primário ser diagnosticado. ➔ Prognóstico: Mais agressivo que os bem diferenciados. A sobrevida em 10 anos é de 90% para doença confinada à tireoide, 70% com linfonodos e 20% com metástases a distância. O tipo familiar (MEN 2A) tem melhor prognóstico. ➔ Genes: RET ou é genético Carcinoma Anaplásico: ➔ Prevalência: Cerca de 1-2% dos casos, sendo cada vez menos diagnosticado. ➔ Origem: Geralmente por indiferenciação de outros tumores de longa duração; células foliculares. ➔ Crescimento: Muito rápido e agressivo. ➔ Sintomas: Aumento rápido da massa tireoidiana, sintomas de compressão mecânica ou invasão de estruturas adjacentes (estridor, dispneia, rouquidão, disfagia). ➔ Disseminação: Metástases cervicais e a distância (pulmões, fígado) em quase metade dos pacientes. ➔ Prognóstico: O pior entre os carcinomas da tireoide, com mortalidade quase universal e morte ocorrendo normalmente dentro de 3-6 meses após o diagnóstico, quase todos em 1 ano. Todos os pacientes são classificados como estágio IV. Classificação do câncer de tireoide ESTADIAMENTO CLÍNICO: SISTEMA TNM TNM = Tumor (T), Linfonodo (N), Metástase (M) T – Tumor primário T DEFINIÇÃO T1 Tumor ≤ 2 cm, limitado à tireoide T1a ≤ 1 cm T1b > 1 cm e ≤ 2 cm T2 > 2 cm e ≤ 4 cm, limitado à tireoide T3a > 4 cm, ainda limitado à tireoide T3b Qualquer tamanho com invasão mínima de musculatura extratireoidiana (ex: músculos infra hioideos) T4a Invasão de estruturas adjacentes (traqueia, laringe, nervo laríngeo, esôfago) T4b Invasão de coluna vertebral, grandes vasos N – Linfonodos cervicais N DEFINIÇÃO N0 Sem metástase linfonodal N1a Metástase para linfonodos centrais (nível VI) N1b Metástase para linfonodos laterais (níveis II-V) ou mediastinais M – Metástase à distância M DEFINIÇÃO M0 Sem metástase à distância M1 Com metástase (ex: pulmão, osso e fígado) O ESTADIAMENTO É CIRÚRGICO, DURANTEA RETIRADA O MÉDICO DEFINE NA HORA O ESTADIAMENTO. SÓ É CLÍNICO EM CASOS ONDE NÃO PODE OCORRER A CIRURGIA IMEDIATA Diagnósticos e Rastreio O câncer de tireoide pode ser diagnosticado mesmo antes de apresentar sintomas, em um exame médico de rotina ou teste genético para familiares de pacientes com carcinoma medular. Mulheres são a maioria dos casos, e ginecologistas frequentemente detectam nódulos suspeitos. O passo seguinte é procurar um especialista em cabeça e pescoço. Sintomas a Conhecer: ● Nódulo no pescoço (firme, indolor e com crescimento rápido) ● Tosse persistente não causada por outras infecções ● Rouquidão ou mudança no timbre de voz ● Disfagia (dificuldade para engolir) ● Dispneia (dificuldade para respirar) ● Dor na frente do pescoço que pode irradiar para os ouvidos. Exame Físico O exame físico é uma etapa crucial no diagnóstico do câncer de tireoide, permitindo a detecção de nódulos e a avaliação de sinais de disseminação da doença. Palpação do Pescoço e Nódulos na Tireoide: Nódulos na tireoide são bastante comuns e podem ser sentidos pelos médicos e até pelos próprios pacientes com uma simples palpação do pescoço devido à sua localização. A palpação cuidadosa da região cervical e dos linfonodos deve ser feita rotineiramente. No exame clínico, é possível detectar nódulos maiores que 1 cm e que estejam na parte anterior da tireoide. O exame físico também avalia o tamanho e o componente (sólido ou cístico) do nódulo. A incidência de malignidade em lesões sólidas é de 68% dos casos. Aproximadamente 90% a 95% desses nódulos são benignos. Ultrassonografia (USG) de Tireoide: É o melhor exame de imagem e de baixo custo para avaliar nódulos e metástases cervicais. Não confirma malignidade, mas seleciona pacientes para biópsia. Características indicativas de malignidade à USG são: Hipoecogenicidade ➔ O que se vê: O nódulo aparece mais escuro que o parênquima tireoidiano normal. ➔ Por que ocorre: Nódulos malignos têm alta densidade celular e pouco coloide, o que diminui a capacidade de refletir as ondas de ultrassom. As células tumorais são menos organizadas e formam estruturas mais sólidas → menos reflexão de som = hipoecogênico. Fisiologia normal: A tireoide normal tem bastante coloide e células organizadas → boa reflexão → imagem mais clara (isoecogênica). Resumo: Quanto mais desorganizado e celular for o tecido (como no câncer), mais escuro ele aparece. Contornos mal definidos (margens irregulares ou infiltrativas) ➔ O que se vê: Bordas do nódulo são irregulares, anguladas ou "estreladas". ➔ Por que ocorre: Células tumorais invadem tecidos adjacentes em vez de crescerem de forma expansiva. Ao invés de formarem um nódulo encapsulado, elas se infiltram no estroma, destruindo o plano de clivagem entre nódulo e parênquima. Isso dá o aspecto de “margem imprecisa” e indica comportamento invasivo. Resumo: Contornos irregulares = invasão local típica de neoplasias malignas. Microcalcificações ➔ O que se vê: Pontos hiperecogênicos (brilhos) muito pequenos no interior do nódulo. ➔ Por que ocorre: Representam corpúsculos de Psammoma, depósitos concêntricos de cálcio formados por necrose celular gradual e deposição distrófica de cálcio. São característicos do carcinoma papilífero da tireoide. Fisiopatologia: Células tumorais sofrem apoptose/necrose → cálcio se deposita em camadas → forma microcalcificações. No laudo da ultrassom, É usado o ACR TI-RADS O ACR TI-RADS é um sistema de classificação padronizado criado para avaliar nódulos da tireoide por ultrassonografia, ajudando a decidir quando indicar punção aspirativa por agulha fina (PAAF) e o seguimento adequado. Punção Aspirativa com Agulha Fina (PAAF ): O método mais simples e padrão-ouro para diagnóstico definitivo. É guiada por USG. Realizada em nódulos maiores ou iguais a 1 cm com características suspeitas. É capaz de dar diagnóstico definitivo de cânceres papilíferos, medulares e anaplásicos, mas não do folicular. Para o folicular, o resultado é "Padrão Folicular" ou "Padrão de Células de Hürthle", considerado suspeito e que geralmente exige cirurgia para diagnóstico definitivo. Amostras são analisadas para citologia, usando a Classificação de Bethesda para definição de conduta (Categorias I a VI, onde V e VI são suspeitos para malignidade e malignos, respectivamente). Exames de Sangue: Importante: nenhum exame de sangue confirma o câncer de tireoide por si só, mas eles ajudam no diagnóstico diferencial, no acompanhamento pós-tratamento e na detecção precoce de recidiva. TSH (Hormônio Estimulante da Tireoide) Valores de referência: ● Adultos: 0,4 – 4,0 μUI/mL (pode variar um pouco entre laboratórios). No contexto de câncer de tireoide: ● Pré-operatório: avalia função da tireoide e suspeita de hipo ou hipertireoidismo. ● Pós-tireoidectomia total: o TSH é mantido baixo (supressão com levotiroxina) para evitar estímulo de crescimento de possíveis células tumorais residuais. T4 Livre ➔ Função: hormônio produzido pela tireoide; regula metabolismo celular. ➔ Valores de referência: 0,8 – 1,9 ng/dL (ou 10 – 24 pmol/L). ➔ No contexto oncológico: Ajuda a monitorar se a dose de levotiroxina no pós-operatório está adequada para manter supressão de TSH. Geralmente mantido na faixa alta do normal em pacientes em supressão. Tireoglobulina (Tg) ➔ O que é: proteína produzida exclusivamente por células tireoidianas normais e pela maioria dos carcinomas diferenciados (papilífero e folicular). ➔ Valores de referência em indivíduos com tireoide:Remove apenas o lobo comprometido da tireoide. Pode ser considerada para carcinomas papilíferos com menos de 1 cm, sem sinais de comprometimento de órgãos próximos. Dissecção de Linfonodos (Linfadenectomia): Realizada se houver linfonodos palpáveis ou atingidos pela doença. Pode ser esvaziamento da cadeia linfática central/cervical seletivo (para câncer medular ou tumores >4 cm) ou radical modificada (remove tecido linfático e adiposo lateral da carótida, preservando o esternocleidomastóideo e o nervo acessório, para carcinoma papilífero, folicular ou medular com linfadenomegalia cervical palpável). Risco de paralisia temporária ou definitiva do músculo trapézio. Espera Vigilante (Observação sem tratamento): Pode ser uma opção considerada para casos selecionados, como microcarcinomas papilíferos. Iodoterapia (Radioiodoterapia): Tratamento complementar após a cirurgia para matar células cancerosas que não foram removidas ou que se espalharam para linfonodos e outros órgãos. É eficaz porque a tireoide absorve quase todo o iodo do organismo, com pouco efeito sobre outras células saudáveis. Antes da iodoterapia, o paciente pode receber injeção de TSH ou ficar sem reposição de hormônio tireoidiano para elevar o TSH e estimular as células a absorver o iodo radioativo. O paciente pode precisar ficar isolado por um ou dois dias devido à radioatividade. Quimioterapia: Raramente utilizada para a maioria das formas de câncer de tireoide, mas pode ser benéfica para o tumor anaplásico, frequentemente combinada com radioterapia. Também pode ser usada para outros cânceres avançados que não respondem a outros tratamentos. Administrada por via venosa ou oral. Efeitos colaterais incluem perda de cabelo, inflamações na boca, náuseas, vômitos, diarreia, infecções, hematomas/hemorragias e fadiga. Terapia Hormonal: Após a tireoidectomia, pacientes precisam de reposição hormonal com comprimidos pelo resto da vida (levotiroxina), pois não produzem mais os hormônios da glândula. É importante que os níveis de TSH se mantenham baixos para reduzir o risco de recidiva do câncer, pois o TSH estimula o crescimento da tireoide e provavelmente das células cancerosas. Importância do Suporte Biopsicossocial O diagnóstico e tratamento do câncer de tireoide são emocionalmente desafiadores tanto para o paciente quanto para seus familiares e cuidadores. Para o Paciente: 1. Ansiedade e Medo: Em relação ao tratamento, prognóstico e mudanças na qualidade de vida. 2. Alterações de humor: Insônia, diminuição da energia, alterações no apetite e depressão. 3. Autoestima e Estigma: Preocupações com a imagem corporal e o estigma da doença. 4. Medo da Recidiva: Presente mesmo após o tratamento. Para Familiares e Cuidadores: 1. Preocupação e Carga Emocional: Medo da perda e sobrecarga emocional. 2. Alterações na Rotina: Demandas de tempo e energia que afetam atividades e relacionamentos pessoais. 3. Estresse Financeiro: Devido aos custos do tratamento, impactando sua própria saúde mental. 4. Isolamento Social: Devido ao apoio contínuo ao paciente. É crucial o apoio psicológico, bem-estar espiritual e suporte social para todos os envolvidos no processo. Centros de referência oncológica adotam um modelo integrado de cuidado, onde o paciente é avaliado por uma equipe multidisciplinar, incluindo Psico-oncologia, Nutrição, Fisioterapia, Fonoaudiologia e Serviço Social, desde o diagnóstico até a reabilitação. Células e Fisiopatologia Principais vias moleculares envolvidas Tipos de Câncer de Tireoide e Características O ESTADIAMENTO É CIRÚRGICO, DURANTE A RETIRADA O MÉDICO DEFINE NA HORA O ESTADIAMENTO. SÓ É CLÍNICO EM CASOS ONDE NÃO PODE OCORRER A CIRURGIA IMEDIATA Diagnósticos e Rastreio Exame Físico Tratamentos