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DIREITO DAS OBRIGAÇÕES Profa. Katy Brianezi OBRIGAÇÃO NEGATIVA (obligatio non faciendum) Das Obrigações de Não Fazer ou Obrigações negativas São aquelas em que a abstenção do devedor, o silêncio, ou uma tolerância, caracterizam-se a obrigação do devedor. A prestação pode ser uma inércia, um silêncio, uma tolerância. Objetiva que o devedor não emita vontade. Nas Obrigações de Não Fazer, enquanto inerte, o devedor está cumprindo a obrigação e, quando age, está inadimplindo. Aliás, todos nós estamos submetidos a uma obrigação de não fazer. Todos estamos obrigados a não causar dano a outrem por prática de ato ilícito. Trata-se de uma obrigação legal (186 e 927, CC/02) "Art. 186. Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito. (…) Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.” Temos ainda o direito real (1.225,CC) faz nascer para os membros da sociedade uma obrigação negativa, ou seja, de não violar o direito real do seu titular. (obrigação legal). "Art. 1.225. São direitos reais: I - a propriedade; II - a superfície; III - as servidões; IV - o usufruto; V - o uso; VI - a habitação; VII - o direito do promitente comprador do imóvel; VIII - o penhor; IX - a hipoteca; X - a anticrese. XI - a concessão de uso especial para fins de moradia; XII - a concessão de direito real de uso; e XIII - a laje." INADIMPLEMENTO DAS OBRIGAÇÕES NEGATIVAS Sem culpa do devedor no inadimplemento da obrigação negativa ela se resolve sem perdas e danos. Neste sentido dispõe o artigo 250 CC/02. "Art. 250. Extingue-se a obrigação de não fazer, desde que, sem culpa do devedor, se lhe torne impossível abster-se do ato, que se obrigou a não praticar. " Exemplo: O advogado recebe do cliente documentos valiosos, segredos que para o cliente são de valor inestimável, não podem ser conhecidos pelos demais membros da sociedade. O advogado então coloca esses documentos no cofre do seu escritório, tranca o escritório e toma todas as cautelas, só que de madrugada o escritório e arrombado e abre o cofre com uma explosão e retira todos os documentos do cofre. No dia seguinte o segredo do cliente esta estampada na primeira página do jornal. Neste caso não houve culpa do devedor (advogado), não podendo se exigir perdas e danos. Com culpa do devedor, poderá: 1.º) O cumprimento forçado da obrigação (a abstenção do ato), por meio de tutela específica, com a possibilidade de fixação de multa ou “astreintes” (art. 497 do CPC e art. 84 do CDC). Em casos urgentes, poderá mandar desfazer independente de autorização judicial e pleitear o ressarcimento do gasto perante o devedor. 2.º) Não interessando mais a obrigação de não fazer, o credor poderá exigir perdas e danos (art. 251, caput, do CC). "Art. 251. Praticado pelo devedor o ato, a cuja abstenção se obrigará, o credor pode exigir dele que o desfaça, sob pena de se desfazer à sua custa, ressarcindo o culpado perdas e danos. Parágrafo único. Em caso de urgência, poderá o credor desfazer ou mandar desfazer, independentemente de autorização judicial, sem prejuízo do ressarcimento devido. " Exemplo: Não construir acima de determinada altura. E aí o devedor inadimplindo esta obrigação constrói acima da altura permitida. Então, neste caso além das perdas e danos poderá exigir do devedor proceda à demolição do prédio. Importante: O Código diz que é absolutamente possível pedir o credor da obrigação negativa pedir o desfazimento do ato, e em caso de urgência fazer diretamente. Porém o que se pergunta é se é absoluto o direito do credor de exigir o desfazimento do ato? Esta questão já suscitou controvérsias nos Tribunais. Caso concreto: Havia uma obrigação negativa de não construir acima de determinada altura. Só que o devedor desta obrigação negativa inadimpliu e construí um prédio de 12 andares, tirando a vista do credor. O devedor alienou as frações ideais do prédio. O credor só tomou conhecimento do fato quando regressou de viagem e intentou ação de execução de obrigação de não fazer e pediu ao juiz a demolição do prédio e pediu perdas e danos O juiz de primeiro grau julgou parcialmente o pedido, condenando o réu a indenizar o autor, mas negou o pedido de demolição. Houve recurso, e o STF manteve a sentença de primeiro grau. O STF entendeu que não é absoluto o direito ao pedido de desfazimento, entende que prevalece o direito do adquirente de boa fé, vez que como era uma obrigação negativa isto não é registrável. Se a obrigação negativa não vai a registro, os adquirentes daquelas unidades estavam de absoluta boa-fé, eles não sabiam que haviam uma obrigação negativa. Portanto, o direito do credor de pedir o desfazimento do ato não é absoluto. Nos casos concretos o juiz deverá aplicar o princípio da proporcionalidade. Qual é o bem jurídico mais importante? O direito do credor que é inegável ou o direito dos compradores de boa fé desses imóveis? STF decidiu que os devedores estavam de boa-fé e não tinham conhecimento da obrigação negativa. Portanto, apenas determinou o pagamento de perdas e danos, sem desfazer a construção já realizada. Portanto, a regra do desfazimento da obrigação de não fazer, não é absoluta e deverá ser analisada caso a caso perante o Poder Judiciário. Obrigação de Dar Dinheiro ou Obrigações Pecuniárias Obrigações pecuniárias ou obrigações de dar dinheiro devem observar o valor nominal da moeda. Nesse sentido, dispõe o art. 315 do Código Civil de 2002: “As dívidas em dinheiro deverão ser pagas no vencimento, em moeda corrente e pelo valor nominal, salvo o disposto nos artigos subsequentes”. Trata-se do princípio do nominalismo: o devedor de uma quantia em dinheiro libera-se entregando a quantidade de moeda mencionada no contrato ou no título da dívida. Atenção: ainda que desvalorizada pela inflação, ou seja, mesmo que a referida quantidade não seja suficiente para a compra dos mesmos bens que podiam ser adquiridos, quando contraída a obrigação, a obrigação de dar pagamento estará cumprida. Exemplo: Se Caio emprestou a Tício R$ 100,00 para que este devolvesse a quantia em sessenta dias, a mesma quantidade de moeda deverá ser devolvida (R$ 100,00), mesmo que sua expressão econômica não seja mais a mesma, isto é, não seja mais suficiente para a compra dos mesmos bens que podiam ser adquiridos na época da celebração do contrato de empréstimo (mútuo). Ressalva-se as relações contratuais de natureza internacional. No entanto, a doutrina criou o conceito das dívidas de valor. Estas dívidas não teriam por objeto o dinheiro em si, mas o próprio valor econômico (aquisitivo) expresso pela moeda. Nestes tipos de obrigações é possível a revisão judicial do valor defasado. Exemplo: Obrigação de prestar alimentos, o devedor é obrigado a fornecer não determinada soma em dinheiro, mas sim o que for necessário à mantença do alimentando. Assim, se o valor nominal da pensão estiver defasado, é possível a sua revisão judicial.