Prévia do material em texto
Enfermagem em saúde coletiva e o trabalho com as famílias Conceitos importantes de epidemiologia, as práticas assistenciais, administrativas e educativas em saúde, as demandas programada e espontânea e o planejamento estratégico no âmbito da saúde coletiva e do trabalho com as famílias. Profª. Raphaela Alves Cipriano 1. Itens iniciais Propósito Saberes e práticas de enfermagem quanto à saúde coletiva e à operacionalização do trabalho com famílias são necessários para atuação em Atenção Primária em Saúde, de modo que o enfermeiro implemente ações de prevenção de doenças e de promoção e recuperação da saúde, desenvolvendo, ainda, um cuidado integral em saúde no território. Objetivos Reconhecer os aspectos e as ferramentas epidemiológicos, bem como o perfil epidemiológico. Identificar as práticas assistenciais, administrativas e educativas. Descrever os conceitos de demanda programada, demanda espontânea e planejamento estratégico. Introdução A porta de entrada principal do usuário no Sistema Único de Saúde (SUS) é a Atenção Básica por meio da Estratégia de Saúde da Família (ESF) que visa, dentre outras coisas, à reestruturação dos serviços de modo a contribuir com uma reorientação do processo de trabalho. Nesse sentido, as ações desenvolvidas pela ESF estão pautadas nos princípios, nas diretrizes e nos fundamentos da Atenção Básica, objetivando ampliar a resolutividade e os impactos na situação de saúde de indivíduos e coletividades. Neste conteúdo, entenderemos a relevância da epidemiologia no processo saúde-doença e como o perfil epidemiológico influenciará nas ações de melhoria de qualidade de vida dos indivíduos e da coletividade. É importante a implementação de práticas assistenciais, administrativas e educativas no processo de trabalho, assim como entender os conceitos de demanda programada e demanda espontânea. Faz-se necessário, ainda, compreender como o planejamento estratégico facilitará a organização e a realização de ações de prevenção de doenças e de promoção e recuperação da saúde. • • • 1. Aspectos e ferramentas epidemiológicas e perfil epidemiológico Aspectos e ferramentas epidemiológicas Como primeiro nível de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS), a Atenção Básica tem como objetivo promover um conjunto de ações de âmbito individual e coletivo, que engloba a proteção e promoção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico e tratamento, a reabilitação e a manutenção da saúde. As equipes multiprofissionais têm responsabilidade sanitária sobre os territórios e população adscrita, sendo, assim, de fundamental importância nas atividades voltadas para o cuidado longitudinal da população. Para falarmos sobre os aspectos e as ferramentas epidemiológicas, é necessário entender o que é epidemiologia. O que é epidemiologia? Comentário A epidemiologia é a ciência que estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas, pesquisando os fatores determinantes das doenças e de sua distribuição, além dos danos à saúde e dos eventos relacionados à saúde da coletividade. Medidas específicas de prevenção, controle ou erradicação de doenças devem ser propostas, fortalecendo indicadores para suporte ao planejamento, administração e avaliação das ações de saúde. Podemos afirmar que os aspectos biológicos dos indivíduos, os aspectos ambientais e os aspectos socioculturais e econômicos da comunidade, influenciam na distribuição da doença na população e, dessa forma, o processo saúde-doença se manifesta de forma desigual entre as populações. A realização de ações pelos profissionais que atuam na Atenção Básica ou na Estratégia de Saúde da Família (ESF) não está limitada às unidades de saúde; devem ocorrer no território, de forma a alcançar os domicílios e demais espaços comunitários, como associações de moradores, escolas, igrejas, entre outros. As unidades de saúde da família baseiam- se no diagnóstico situacional do processo saúde-doença e têm como objetivo tornar claros os conceitos e o uso das ferramentas da epidemiologia. Para que seja possível a realização do diagnóstico situacional, a população da área adscrita deve ser cadastrada, levando em consideração a quantidade de indivíduos e de domicílios. Na Estratégia de Saúde da Família (ESF), existem quatro usos das aplicações da epidemiologia: Diagnóstico da situação de saúde Processo de reconhecimento das condições de saúde da população atendida pela unidade de saúde. Mediante um levantamento mensal de dados, pode-se estimar, por exemplo, o número de consultas para determinado agravo de certa enfermidade que está acometendo a população. Investigação etiológica Identificação da causa do elevado número de casos de determinada doença em uma área específica. Veja um exemplo: O aumento no número de indivíduos diagnosticados com tuberculose em uma área onde as moradias são muito próximas e possuem pouca ou nenhuma ventilação . Determinação de risco Reconhecimento de que determinada parte da população, em comparação com outra parcela, é acometida com maior frequência por uma certa doença. Por exemplo, em relação a covid-19, existe maior risco de gravidade em indivíduos com doença respiratória prévia em comparação a indivíduos sem histórico de doença pré-existente. Também podemos citar como outro exemplo em relação a qualidade de vida, indivíduos que não possuem saneamento básico, tem maior risco de contrair hepatite A, em relação a indivíduos que possuem água e esgoto tratado adequadamente. Planejamento e organização do serviço Processo que equaliza a oferta de serviços de saúde à demanda apresentada pela população atendida. Quando se observa um aumento no número de horas para atender determinada parcela da população, tendo em vista o diagnóstico e a necessidade de atendimento, é necessário planejar e organizar os atendimentos de médicos, enfermeiros e odontólogos. Exemplo: planejar e organizar aumento do número de visitas domiciliares pelo elevado número de pacientes acamados e com dificuldade de locomoção. As ferramentas da epidemiologia são trabalhadas diariamente por todos os profissionais de saúde, seja analisando situações de saúde, gerando dados, intervindo sobre o processo saúde-doença, seja no planejamento e avaliação de intervenções em saúde. Os indicadores de saúde são utilizados para nortear ações a serem desenvolvidas nos territórios e podem ser classificados como: Positivos Indicam a expectativa de vida. Negativos Falam sobre as taxas de mortalidade. Esses indicadores podem ser definidos como os dados que representam uma situação de saúde, ou seja, um instrumento utilizado para mensurar situações de saúde para que o planejamento, a execução, o gerenciamento e a avaliação dos serviços e ações de saúde ocorram de forma a contemplar as necessidades de determinada população. Nesse caminhar, cada unidade de saúde definirá os indicadores que melhor atendem aos seus interesses específicos, geralmente determinados pelos profissionais de saúde, gestores e população. Vamos entender como os indicadores de saúde são divididos! Mortalidade e sobrevida Os indicadores de mortalidade apontam a proporção de óbitos ocorridos por determinada doença em uma área delimitada. Os mais utilizados para avaliar o nível de saúde de uma população estabelecida são referentes à mortalidade materna, infantil e geral, mas existem muitos outros coeficientes de mortalidade também utilizados, que poderão variar de acordo com a área a ser avaliada. Já o indicador de sobrevida avalia a incidência de determinada doença, a possibilidade de ocorrência, o número de casos ou a frequência em que ocorre determinada doença, podendo o tipo de estudo epidemiológico a ser realizado interferir na escolha do coeficiente que será utilizado. Morbidade ou taxa de morbilidade Indispensáveis para o controle das doenças, são indicadores calculados de acordo com a taxa de portadores de determinada doença em relação à população geral, podendo ser em determinado momento ou área. Nutrição, crescimento e desenvolvimento Sãoindicadores utilizados frequentemente na avaliação de crianças e adolescentes, realizados por meio da análise de medidas antropométricas (peso e altura). Aspectos demográficos Tem como objetivo propiciar o conhecimento da população para facilitar o desenvolvimento de ações voltadas para planejamento, coordenação e avaliação de políticas públicas. Crescimento populacional, índice de envelhecimento e taxa de fecundidade e natalidade são exemplos de indicadores demográficos. Condições socioeconômicas Por meio da geração de dados, é possível identificar os principais problemas de uma área ou população, bem como as características básicas de desenvolvimento. Dessa forma, é possível a implementação de ações que irão impulsionar esse desenvolvimento. Os indicadores mais utilizados para essa avaliação são: produto interno bruto (PIB), renda per capita, nível de desemprego, índice de desenvolvimento humano (IDH) e oferta de serviço público à população. Saúde ambiental Avalia aspectos que tenham relação com o meio ambiente e a saúde. Serviços de saúde Indicadores utilizados para medir a qualidade e a quantidade de serviços de saúde ofertados à população. Consequentemente, baseiam o planejamento de ações a serem desenvolvidas para o alcance de bons resultados nestes indicadores. Os sistemas de informações são grandes aliados da saúde pública, pois possibilitam a extração de informações que demonstram a realidade, auxiliando na ordenação dos serviços de saúde mediante a coleta de dados e viabilizando informações sobre os cenários epidemiológicos atuais. Para cada necessidade de informação, é utilizado um sistema de informação específico. Veja um exemplo! Exemplo Para os casos de mortalidade, é utilizado o Sistema de Informação de Mortalidade (SIM), já para os casos de nascidos vivos, utilizamos o Sistema de Informação de Nascidos Vivos (Sinasc). Além desses, também são utilizados para as necessidades de notificações relacionadas a doenças ou agravos à saúde o Sinan, Sistema de Informação de Agravos de Notificação. Nesse sistema, as notificações podem ser imediatas ou semanais, de acordo com a doença ou o agravo a ser notificado. Outros exemplos de sistema de informações são o Sistema de Informação Hospitalar (SIH), o Sistema de Informação Ambulatorial (SIA), o Sistema de Informação em Saúde da Atenção Básica (Sisab), o prontuário eletrônico nas unidades de Atenção Básica (E-SUS AB — E-SUS Atenção Básica). As equipes da Atenção Básica, por meio das ferramentas de vigilância, desenvolvem competências para a execução do planejamento e da programação, de forma a ordenar ações programadas e de atenção à demanda espontânea, garantindo assim o acesso da população a diferentes ações e atividades de saúde, o que impacta progressivamente os indicadores de saúde e modifica a qualidade de vida da população. Perfil epidemiológico O perfil epidemiológico é um levantamento feito para verificar o quadro de saúde de determinada população. Demonstrar um perfil epidemiológico é importante em unidade de Atenção Básica, pois possibilita construir e traçar metas específicas, visando à melhora na qualidade do atendimento e à maior satisfação dos usuários, além de verificar as necessidades e planejar soluções para os problemas, conduzindo, dessa forma, as ações de saúde para dificuldades evidenciadas. Por meio dos dados dos usuários, é possível traçar estratégias para alcance de medidas de prevenção e promoção de saúde. A vigilância em saúde é uma estratégia que facilita a implementação dessas ações e é feita a partir dos seguintes âmbitos: vigilância de doenças transmissíveis, vigilância das doenças e agravos não transmissíveis, vigilância da situação de saúde, vigilância ambiental em saúde, vigilância de saúde do trabalhador e a vigilância sanitária. Cabe falar que a vigilância epidemiológica apresenta outro ponto importante: por estar relacionada a mudanças significativas nos perfis epidemiológicos da população, tem como objetivo fornecer orientação para que os profissionais consigam decidir sobre a execução de ações de controle de doenças e agravos, de forma individual ou coletiva. A vigilância epidemiológica tem como principais funções: Realizar a coleta e o processamento dos dados. Promover a análise dos dados coletados. Promover a investigação epidemiológica de casos e surtos. Recomendar medidas apropriadas, promovendo as ações para controle, de forma a minimizar os impactos obtidos. Em resumo, a vigilância epidemiológica consiste em ações que possibilitam a identificação, o conhecimento e a prevenção de qualquer mudança que vá impactar a vida do indivíduo ou de uma coletividade. Vejamos um exemplo de como essa vigilância ocorre na prática para melhor compreensão: • • • • Pandemia da covid-19 Diante da pandemia da covid-19 e com o intenso aumento do número de infectados, a Estratégia de Saúde da Família tem papel fundamental nas ações desenvolvidas na Atenção Básica. É importante que os profissionais tenham conhecimento do seu território e saibam quais áreas têm maior vulnerabilidade e probabilidade de avanço da doença, seja por falta de saneamento básico, condições precárias de moradia, ou até mesmo por baixa escolaridade. Para cada caso de suspeita de covid-19 ou síndrome gripal, após avaliação pela equipe de saúde, deve-se realizar uma notificação, a coleta de exame específico, o rastreio dos contatos e o acompanhamento do caso, com posterior encerramento. A notificação deve ser realizada em um sistema de informações do Ministério da Saúde (MS), no qual é possível quantificar, para cada área, município, estado ou para o país como um todo, a quantidade de casos positivos, bem como o número de internações e óbitos, entre outras informações. O rastreio dos contatos irá possibilitar a identificação precoce de novos casos, evitando a ocorrência de agravos e o aumento no número de novos contaminados, visto que aqueles que tiveram contato serão orientados a manter medidas de higiene e de distanciamento ou isolamento social. O monitoramento do caso é importante, pois permite que a equipe tenha conhecimento dos sinais e sintomas, visto que é uma doença cujo agravamento pode ocorrer de forma repentina, elevando o número de internações e óbito. Com a coleta de dados, também é possível identificar casos de surto, como em escolas ou espaços coletivos, por exemplo, e desenvolver ações de forma a minimizar os riscos. Mediante as ações de vigilância em saúde e vigilância epidemiológica, pode-se traçar um perfil epidemiológico da população, o que possibilitará ações de saúde voltadas para o monitoramento contínuo de determinada população, bem como medidas de prevenção e promoção de saúde. Dessa forma, são priorizadas questões relevantes que contribuam para um planejamento de saúde mais abrangente. Epidemiologia aplicada à Atenção Básica Veja a seguir as ações desenvolvidas e as ferramentas utilizadas para traçar um perfil epidemiológico. Vamos lá! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Perfil epidemiológico Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Mortalidade e sobrevida (indicadores de saúde) Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 A epidemiologia é a ciência que estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas, e alguns mecanismos são utilizados na epidemiologia para que seus objetivos sejam alcançados. Marque a alternativa que corresponde a uma ferramenta utilizada na epidemiologia. A Sistema de informação educacional. B Indicadores de mortalidade. C Sistema de informação da vigilância. D Indicadores de enfermagem, crescimento e desenvolvimento. E Sistema de informação gestacional. A alternativa B está correta. Os indicadores de saúde e sistemas de informações são ferramentas utilizadas pelos profissionaispara nortear o desenvolvimento e a implementação de ações voltadas a situações de saúde. Os principais sistemas de informação são: Sistema de Informação sobre Mortalidade; Sistema de Informação de Nascido Vivo; Sistema de Informação de Agravos de Notificação; Sistema de Informação Hospitalar; Sistema de Informação Ambulatorial; Sistema de Informação em Saúde da Atenção Básica; e E-SUS AB (E-SUS Atenção Básica). Já os indicadores de saúde são divididos em: mortalidade e sobrevida; morbidade ou taxa de morbilidade; nutrição, crescimento e desenvolvimento; aspectos demográficos; condições socioeconômicas; saúde ambiental; e serviços de saúde. Questão 2 Considerando a preocupação com o processo saúde-doença por parte da epidemiologia, quais medidas específicas são adotadas por essa ciência? A Enfraquecimento de indicadores para suporte ao planejamento. B Prevenção, controle ou erradicação de doenças. C Administração e avaliação das ações sem relação com a saúde. D Promoção desigual entre as populações. E Cadastro da população de área não delimitada. A alternativa B está correta. A epidemiologia estuda o processo saúde-doença em coletividades humanas por meio da pesquisa dos fatores determinantes das doenças e suas distribuições, visando à identificação de danos e eventos relacionados à saúde da coletividade. Para que a vigilância epidemiológica atue de forma mais eficaz, medidas específicas de prevenção, controle ou erradicação de doenças devem ser propostas, de modo a fortalecer os indicadores que dão suporte ao planejamento, à administração e à avaliação das ações de saúde. 2. Práticas assistenciais, administrativas e educativas Práticas assistenciais, administrativas e educativas As equipes de saúde da família são compostas por multiprofissionais, como: médico generalista ou preferencialmente especialista em saúde da família ou médico de família e comunidade; enfermeiro generalista ou preferencialmente especialista em saúde da família; técnico de enfermagem; e agentes comunitários de saúde (ACS). Comparada aos modelos tradicionais, a ESF é capaz de estimular mudanças nas práticas, impactando a saúde da população. Nesse panorama, a Política Nacional de Atenção Básica descreve de modo geral as características comuns e as atribuições específicas de cada trabalhador das equipes de saúde da família para orientação de práticas assistenciais integrais. As equipes têm o papel de desenvolver ações pautadas nas diretrizes da Atenção Primária em saúde, sendo responsáveis por realizar visitas domiciliares, análise do território adscrito, acolhimento à demanda e busca ativa com avaliação de vulnerabilidade, de forma a possibilitar um dimensionamento biológico, subjetivo e social por meio da promoção de uma clínica ampliada e compartilhada com usuário. Além disso, essas equipes devem atuar nas ações de saúde coletiva, tais como prevenção de doenças e promoção da saúde no território, possibilitando a participação social, a inserção das equipes na comunidade e a organização dos serviços. Saiba mais Conforme descrito na Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), aprovada pela Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017, poderemos ver as atribuições de todos os profissionais da equipe. Tendo isso em vista, faça o download para acessar a listagem com as atribuições ao clicar aqui. Práticas assistenciais Na Estratégia de Saúde da Família (ESF), os profissionais devem ser resolutivos, de modo que o processo de trabalho e as práticas assistenciais sejam adequados para prover as necessidades da população, possibilitando a coordenação dos cuidados, a posição e integração à rede de serviços, a gestão do trabalho e a intersetorialidade. Entende-se por práticas assistenciais o grupo de atividades rotineiras e prioritárias desenvolvidas em nível microssocial. Tais atividades são realizadas no processo de trabalho da ESF e contemplam as características específicas da Atenção Primária à Saúde (APS), que são: porta de entrada principal, longitudinalidade, relação de serviços, coordenação, enfoque familiar e orientação para comunidade. O nível de robustez das práticas assistenciais revela a amplitude da finalidade do cuidado, na perspectiva de práticas integrais. Em outras palavras, indica o quanto as ações das ESF conseguem acolher a demanda organizada, mantendo oportuna a demanda espontânea, produzindo atividades clínicas voltadas às pessoas em diferentes ciclos da vida e com distintas necessidades de saúde, admitindo ações individuais e coletivas não privativas à unidade de saúde da família e dividindo o cuidado entre os diferentes membros da equipe. A qualidade com que são desenvolvidas as práticas assistenciais irá impactar nas questões voltadas para o planejamento, gestão e educação permanente. Imagem ilustrativa de prática assistencial. As práticas assistenciais integrais organizam serviços pautados na produção do cuidado e são dispositivos para a consolidação de uma APS abrangente, modelando a micropolítica do trabalho em saúde. No primeiro momento do encontro entre trabalhador e usuário, já é realizado o cuidado em saúde, pois as relações interpessoais são importantes, com predomínio dos atributos relacionados ao acesso, à comunicação, à informação e à efetividade da atenção. Uma boa organização dos serviços da APS contribui para a eficiência do sistema e para efeitos positivos à saúde da população. Práticas administrativas Na Atenção Básica, os enfermeiros são líderes de equipes e coordenadores do processo assistencial dos usuários de sua área de abrangência, sendo responsáveis pela gestão do cuidado que envolve o desempenho planejado de atividades assistenciais e gerenciais. Em função das atribuições descritas, o enfermeiro assume posição de destaque na equipe de saúde da família, o que lhe permite expor estratégias que potencializam o trabalho em equipe e a organização do ambiente assistencial, visando à qualificação do cuidado prestado. A gerência do cuidado qualifica-se pela integração entre as dimensões assistencial e gerencial no trabalho do enfermeiro. Ela decorre de uma combinação da: Tecnologias duras Utilização de equipamentos e procedimentos. Tecnologias leve-duras Do uso de saberes estruturados, como clínica, epidemiologia. Tecnologias leves Do espaço intersubjetivo do profissional e do paciente. Atenção O cuidado voltado para o paciente e suas necessidade são o ponto de partida para implementação dessas tecnologias. Uma das dimensões inerentes ao trabalho em equipe é a articulação, por exemplo, de tecnologias leves da gerência do cuidado, correspondendo às situações de trabalho em que o profissional constitui conexões e coloca em evidência as correlações entre as diversas intervenções executadas. Práticas educativas É por meio do trabalho em equipe que as ligações entre os saberes e as práticas de profissionais são possíveis. Trabalhar em equipe significa construir pensamentos comuns relacionados aos objetivos e resultados a serem alcançados pelo conjunto dos profissionais, bem como associados à maneira mais apropriada para atingi-los. Para isso, é necessário relacionar processos de trabalho distintos, com base na comunicação entre os agentes envolvidos, na compreensão e no reconhecimento mútuo de saberes e autoridades. As ações educativas na área da saúde não eram vistas como prioritárias e, quando colocadas em prática, seu objetivo era condicionar as pessoas a cumprirem as normas de conduta. Em razão desse cenário, os trabalhadores da saúde tiveram poucas possibilidades de refletir sobre as práticas educativas por eles prestadas nos serviços de saúde. Saiba mais Em 1996, essa situação foi tema de críticas na X Conferência Nacional de Saúde e, diante do exposto, as propostas formuladas enfatizaram a importância de uma formação dos trabalhadores da saúde conduzida pelas necessidades e problemas sociais em saúde da população e pela mudança das relações entre usuários e profissionais, trazendo diálogo permanente com todas as formas de conhecimento,em especial com a cultura popular. Quando as equipes de saúde trabalham com ênfase no atendimento médico e na visão biologicista, ou seja, com foco na doença e em um modelo de atenção pautado em práticas curativas e hospitalocêntricas, condicionam sua prática educativa a ações que visam apenas modificar condutas inadequadas, e o objetivo não é esse. Veja, a seguir, a diferença entre ações educativas e educação em saúde. Ações educativas São centradas na mudança de comportamentos, condutas e prescrição de tratamentos, e a ação pedagógica privilegia a transmissão de conhecimentos pontuais. As técnicas mais utilizadas são as palestras organizadas sobre temas previamente definidos pelos profissionais que devem ser voltadas, preferencialmente, para as necessidades da população. Educação em saúde Já a educação em saúde é uma prática social que deve ser centrada na valorização da experiência dos indivíduos e da coletividade, na leitura de diferentes realidades e na problematização do cotidiano. Os objetivos da educação em saúde são possibilitar que as pessoas participem da vida da comunidade de uma maneira construtiva e desenvolver nas pessoas o senso de responsabilidade pela sua própria saúde e pela saúde da comunidade a qual pertençam. Diante do que vimos sobre a atuação das equipes de saúde da família relacionada às práticas assistenciais, gerenciais e educacionais, podemos resumir que tais práticas são atividades desempenhadas pelas equipes com o objetivo de garantir um cuidado adequado aos usuários e a organização dos seguintes serviços: Atividades individuais na unidade de saúde da família: atendimento às demandas espontâneas, consultas clínicas individuais à população cadastrada e aos grupos prioritários e atendimentos de urgência. Ações de educação em saúde. Atividades em grupo e comunitárias. Visitas domiciliares. Atividades de capacitação e gerenciais: atividades de administração e gerência, reuniões de equipe, atividades de capacitação da equipe e reunião com a coordenação/supervisão, bem como a supervisão do trabalho de auxiliares e técnicos de enfermagem e de agentes comunitários de saúde. Práticas educacionais realizadas na APS Acompanhe a seguir uma demonstração sobre a importância das práticas educativas e a forma como elas se desenvolvem no âmbito da saúde coletiva. Com a palavra, a professora Raphaela Cipriano. Vamos lá! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Práticas assistenciais integrais Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Práticas educativas Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 As equipes de saúde da família são multiprofissionais e seus membros têm por responsabilidade o desenvolvimento de ações pautadas nas diretrizes da Atenção Primária. Sinalize a alternativa que indica uma atribuição de todos os profissionais da equipe. • • • • • A Participar do processo de territorialização e mapeamento da área de atuação da equipe, identificando grupos, famílias e indivíduos expostos a riscos e vulnerabilidades. B Desenvolver ações que busquem a integração entre a equipe de saúde e a população adscrita à UBS, considerando as características e as finalidades do trabalho de acompanhamento de indivíduos e grupos sociais ou coletividade. C Cumprir com as atribuições atualmente definidas para os ACS em relação à prevenção e ao controle da malária e da dengue. D Supervisionar e executar ações para capacitação dos agentes comunitários de saúde e auxiliares de enfermagem, com vistas ao desempenho das funções. E Executar as ações de assistência integral à criança, à mulher, ao adolescente, ao adulto e ao idoso. A alternativa A está correta. É papel das equipes de saúde da família o desenvolvimento de ações pautadas nas diretrizes da Atenção Básica. Ações como visitas domiciliares, análise do território adscrito, acolhimento à demanda e busca ativa com avaliação de vulnerabilidade, são de responsabilidade dos integrantes das equipes. Essas ações possibilitam um dimensionamento biológico, subjetivo e social por meio da promoção de uma clínica ampliada e compartilhada com usuários. A atuação nas ações de saúde coletiva realizadas no território tem como objetivo possibilitar a participação social, a inserção das equipes na comunidade e a organização dos serviços com os usuários. Questão 2 Marque a alternativa que sinaliza as atividades desempenhadas pelas equipes com o objetivo de garantir um cuidado adequado aos usuários e à organização dos serviços. A Agendamento da demanda espontânea e atendimento coletivo. B Atividades coletivas exclusivamente nas unidades e educação em saúde bucal. C Atividades de educação em saúde e visitas domiciliares. D Atendimento às demandas de PSE e atividade de capacitação somente com ACS. E Capacitação dos técnicos de enfermagem e atendimento exclusivo à demanda programada. A alternativa C está correta. As ações educativas são centradas na mudança de comportamentos, condutas e prescrição de tratamentos. A ação pedagógica privilegia a transmissão de conhecimentos pontuais e as visitas domiciliares visam à continuidade do cuidado pelas equipes de saúde. 3. Demanda programada, demanda espontânea e planejamento estratégico Demanda programada versus espontânea e o planejamento estratégico O Programa de Saúde da Família é uma estratégia criada pelo Ministério da Saúde (MS) em 1994, com o objetivo de proporcionar a reorganização na Atenção Básica e expandir o acesso aos serviços de saúde, tornando-se referência de porta de entrada principal para a população. O trabalho desenvolvido nas Unidades Básicas de Saúde conta com a participação de equipes multiprofissionais que são responsáveis por territórios delimitados e pelo acompanhamento de um número definido de famílias ali residentes. Essa atuação tem como princípios fundamentais a integralidade do cuidado, a qualidade da assistência prestada à população, a equidade e a participação social. As equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF) têm a possibilidade de se vincular, se responsabilizar e atuar no desenvolvimento de ações de promoção da saúde, prevenção de doenças e agravos, recuperação e reabilitação de doenças e agravos mais frequentes, bem como na manutenção da saúde dessa população ou comunidade. Atenção É fundamental que os profissionais que atuam na Atenção Básica entendam seu papel como ordenadores do cuidado, de modo a atender às necessidades de saúde da população de forma integral. De acordo com o artigo 2º da Política Nacional de Atenção Básica (BRASIL, 2017), o conceito de Atenção Básica está ligado a um conjunto de ações de saúde individuais, familiares e coletivas que vão envolver ações de promoção, prevenção, proteção, diagnóstico, tratamento, redução de danos, cuidado paliativos e vigilância em saúde, desenvolvidas por meio de práticas de cuidado integral e gestão qualificada. Conforme já dito, todas essas ações são realizadas por uma equipe multiprofissional no território definido. A Atenção Básica é desenvolvida objetivando a descentralização e a capilaridade, com maior proximidade da vida das pessoas, estabelecendo vínculos importantes para a possibilidade de mudança de vida individual e coletiva. É considerado o contato prioritário dos usuários, a porta de entrada preferencial e o centro de comunicação da rede de atenção à saúde. Nesse sentido, a Atenção Básica se organiza pelos princípios da universalidade, equidade e integralidade, com base nas diretrizes de regionalização, hierarquização, territorialização, população adscrita, cuidado centrado no indivíduo, resolutividade, longitudinalidade do cuidado, coordenação do cuidado, ordenação da rede e participação da comunidade. Antes de entendermos a diferença entre demanda espontânea e programada, vamos entender o queseria acolhimento na Atenção Primária em Saúde (APS)? O acolhimento ao usuário é de responsabilidade de todos os membros da equipe, porém é realizado com maior frequência pelo profissional enfermeiro. No acolhimento, é necessário desenvolver uma escuta qualificada a fim de entender as necessidades do usuário e direcioná-lo para o atendimento proposto para cada situação, podendo ser um atendimento de demanda programada ou espontânea. Nesse processo, são estabelecidas as prioridades de atendimento, e os profissionais devem ter uma postura ética e respeitosa no cuidado com o usuário. Para facilitar a compreensão sobre o que é acolhimento, veremos um exemplo: Exemplo Sr. Manoel é morador da comunidade e trabalha como marceneiro na garagem da sua casa, é cadastrado na clínica da família e faz acompanhamentos regulares. Passou a noite anterior em claro com cefaleia e tontura. Antes de iniciar o seu dia de trabalho, decidiu buscar atendimento em uma unidade de pronto atendimento (UPA), aguardou 30 minutos para ser atendido pela classificação de risco e, então, foi orientado a procurar a clínica da família mais próxima sem qualquer orientação sobre suas queixas. Sr. Manuel se encaminhou para a unidade de saúde onde era cadastrado e foi recepcionado pelo agente comunitário de saúde que, mesmo não sendo o responsável pela área de moradia, o encaminhou para atendimento pela enfermeira. A profissional que o atendeu questionou o motivo da procura pela unidade, verificou os sinais vitais e o informou que estariam todos normais. Por não estar queixando de cefaleia ou tontura no momento, a enfermeira classificou a demanda como não urgente, orientou o usuário sobre os sinais e sintomas e agendou consulta com enfermeiro da equipe para dali a 10 dias. Percebemos que o acolhimento se inicia desde o contato com o primeiro profissional ao entrar na unidade até a resolução do caso. Uma escuta de qualidade e eficaz faz diferença no plano de cuidado que será traçado, cria novas alternativas que tiram de foco somente a realização de consultas médicas, facilita o acesso do usuário aos serviços de saúde e minimiza os obstáculos a serem ultrapassados para que o usuário tenha a assistência desejada. Dentre os vários fundamentos, princípios e diretrizes da Atenção Básica, está a coordenação da integralidade em seus vários sentidos: integrando as ações programáticas e de demanda espontânea; possibilitando acesso universal e contínuo a serviços de saúde de qualidade e resolutivos; acolhendo os usuários; e promovendo a vinculação e corresponsabilização pela atenção às suas necessidades de saúde. Comentário A organização das demandas atendidas nas unidades, tanto as programadas quanto espontâneas, é um desafio para a equipe multiprofissional e para gestores de saúde, sendo necessário um acolhimento humanizado que garanta acesso qualificado e resposta à necessidade dos usuários. Sabemos que o território é delimitado e que as equipes multiprofissionais são responsáveis por um número definido de famílias, então como lidar com o aumento no número de atendimentos devido à procura por demanda espontânea? O planejamento e a organização do processo de trabalho permitirão que as ações voltadas para o acolhimento aconteçam de forma resolutiva. Entende-se que as pessoas que procuram os serviços de saúde devem ser atendidas, dando assim acessibilidade universal. Nesse sentido, o acolhimento segue três princípios, invertendo a lógica de organização e funcionamento do serviço de saúde: acolher, escutar e dar uma resposta positiva de forma a resolver os problemas de saúde da população; promover a reorganização do processo de trabalho, trazendo o olhar para uma equipe multiprofissional e retirando o enfoque do profissional médico; qualificar a relação entre profissional e usuário. Demanda espontânea Demanda espontânea é a gerada pelo usuário que comparece à unidade de forma inesperada, seja por motivos que o paciente julgue como necessidade de saúde ou por queixas agudas. A Atenção Básica deve realizar o acolhimento dessas demandas, por conseguir ser resolutiva na maior parte dos problemas de saúde; fortalecer e proporcionar a criação de vínculo; promover a reorganização do serviço e oportunizar a invenção de novas estratégias de cuidado; e possibilitar a criação de planos de cuidado em conjunto com o paciente. A ESF possui equipes definidas responsáveis por usuários e famílias de determinada região que, a partir do diagnóstico situacional do território, têm conhecimento prévio das necessidades da população e de suas condições de vida e saúde. Desse modo, as equipes têm acesso aos registros em prontuário eletrônico anteriores à queixa aguda, o que diferencia o seu acolhimento à demanda espontânea do atendimento de urgência prestado nas unidades de pronto atendimento. Ainda, o atendimento à demanda espontânea realizado pelas equipes de saúde da família possibilitam o acompanhamento do quadro e o estabelecimento de vínculo, o que facilita a continuidade do cuidado, e não somente um atendimento pontual. Para se ter um atendimento à demanda espontânea de qualidade, são necessários uma classificação de risco eficaz, a identificação de vulnerabilidades e o trabalho em equipe. A classificação geral dos casos de demanda espontânea na Atenção Básica são divididos em: situação não aguda, situação aguda ou crônica agudizada. Veja a seguir: Situações não agudas As situações não agudas podem ser a realização de teste de gravidez e imunização. Situações agudas São aquelas com uma trajetória curta e que se manifestam de forma previsível, necessitando de um tempo de resposta oportuno. São exemplos doenças como gripe, dengue, apendicite e traumas. Crônica agudizada Ocorre quando há um curso mais ou menos longo ou permanente e deve ser tratada de forma proativa com controle efetivo, eficiente e com qualidade. São exemplos: emergência hipertensiva, descompensação diabética e crise asmática. Quais são as queixas mais comuns no atendimento à demanda espontânea e urgência/emergência em UBS? Comentário As queixas mais comuns são: anafilaxia, descompensação do diabetes mellitus, disúria, hipertensão arterial, mordedura de animais, cefaleia, diarreia e vômito, doença de pele, intoxicações agudas, queimaduras, epilepsia, dispneia, dores, tonturas e vertigens, síndromes gripais, urgências odontológicas, atenção em saúde mental, violências, hiperutilizadores e parada cardiorrespiratória. Para facilitar o entendimento sobre demanda espontânea, vamos a um exemplo fictício: Dona Maria, moradora da área e cadastrada na clínica da família, relata que está com tosse há mais ou menos 20 dias e por esse motivo resolveu buscar atendimento na unidade, mesmo sem ter consulta agendada. Ao chegar na porta de entrada, foi abordada pelo ACS, que a questionou o motivo do atendimento. Dona Maria informa que, além da tosse, ela está apresentando sudorese noturna e diz estar preocupada. O profissional informa que mesmo sem agendamento prévio, entende que a necessidade de saúde de Dona Maria é uma situação aguda e sinaliza ao médico responsável pelo atendimento no turno, que imediatamente o orienta a colocá-la na lista de atendimento. Demanda programada Demanda programada consiste no atendimento agendado previamente, ou seja, toda demanda assistencial trazida pelo usuário gerada de ação prévia à consulta. É um importante instrumento para a Atenção Básica, pois possibilita o planejamento das agendas de atendimentos dos profissionais, a realização de ações de medidas preventivas e um melhor processo de vinculação com o usuário. Para se organizar a demanda programada, é imprescindível que o tempo de atendimento seja previsto, levando em consideração a possibilidade de ocorrer atendimentos às demandas espontâneas e seus encaminhamentos. Na Atenção Básica, os atendimentos às demandas programadas são majoritariamente voltados para as linhas de cuidado, pois permitem a promoção, a prevenção, o rastreamento, o diagnóstico precoce, o suportee os cuidados paliativos, possibilitando, desse modo, o cuidado integral e contínuo ao usuário. As principais linhas de cuidado na Atenção Básica são: Mulher Assistência ao pré-natal e saúde da mulher. Criança e adolescente Assistência à saúde da criança e do adolescente. Adulto Assistência à saúde do adulto. Idoso Assistência à saúde do idoso. Dentro dessas linhas de cuidado, estão inseridos os programas de assistência à hipertensão, ao diabetes, às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), de imunização, entre outros. Lembra-se da Dona Maria, aquela usuária que buscou atendimento por demanda espontânea na clínica da família? Vamos dar continuidade ao caso. Dona Maria foi atendida pela equipe médica em primeiro atendimento por demanda espontânea. Nesse atendimento, a equipe achou necessário iniciar investigação para tuberculose, então foram solicitados exames e oferecidas orientações sobre o possível diagnóstico. Para dar continuidade à investigação, a equipe agendou atendimento para dali a 15 dias, a fim de reavaliar os sinais e sintomas e verificar os exames realizados. No retorno à consulta programada, Dona Maria foi informada sobre o diagnóstico de tuberculose, foram prescritas medicações e solicitados novos exames. A paciente foi orientada sobre a necessidade de acompanhamento de saúde e agendou-se nova avaliação para dali a 30 dias. Planejamento estratégico Para iniciarmos um planejamento estratégico, devemos ter três perguntas em mente: Aonde queremos chegar? Quais objetivos queremos alcançar? Qual situação consideramos ideal? Planejar nos faz pensar em continuidade de processo a partir da análise da situação em que nos encontramos e possibilita a busca de uma situação almejada. Para alcançarmos os objetivos, uma das ferramentas mais utilizadas é o planejamento, pois nos permite identificar os problemas que nos distanciam dos objetivos, e após a identificação, permite a elaboração de ações para realizá-los. Para que o planejamento ocorra adequadamente e sejam elaboradas ações pertinentes ao alcance dos objetivos finais, devemos analisar a situação atual, avaliar os recursos políticos, econômicos, administrativos e cognitivos, e compreender o posicionamento dos profissionais que dominam esses recursos. O planejamento estratégico situacional, intimamente relacionado à análise da realidade, orienta-se por situações problemas e possibilita implementar soluções para resolução de problemas e reinventar ações voltadas à assistência em saúde. Já o planejamento normativo se orienta por planos setoriais, possibilitando a execução dos processos a longo prazo, contudo, não permite a análise da realidade, o que pode tornar esse tipo de planejamento ineficaz. Vimos que o planejamento estratégico situacional é o mais adequado a ser realizado nas ações em saúde, para uma implementação eficaz do planejamento estratégico, alguns passos devem ser seguidos e devem estar contextualizados em quatro momentos do planejamento: • • • Momento explicativo Corresponde ao momento do diagnóstico, no qual são identificados os problemas ( atuais e futuros ) e os fatores que contribuem para a situação observada. Momento normativo Após compreender a situação, através da descrição e explicação dos problemas, deve-se identificar e definir prioridades de intervenção para implementar soluções. Momento estratégico Momento em que são definidas estratégias ou cursos de ação que possam ser seguidos para solucionar os problemas e definir os responsáveis pelo desenvolvimento dessas ações. Momento tático operacional Momento em que ocorre a implantação do plano em si, determinação dos procedimentos de avaliação e monitoramento da implementação da ação para avaliar se o que foi proposto está adequado aos objetivos e se os resultados são os esperados. Veja um exemplo de como o planejamento auxilia na identificação de problemas e na elaboração de ações para intervenções. O que é demanda programada na Estratégia de Saúde da Família Acompanhe a seguir os conceitos de demanda programada, descritos pela professora Raphaela. Vamos lá! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Problema • Poucos profissionais no acolhimento, aumentando o tempo de espera. • Registros não estão sendo realizados devido à grande demanda de atendimento. • Maior demanda em alguns horários específicos. • Poucos conhecem os fluxos de atendimentos. Solução • Aumentar o número de profissionais no atendimento. • Avaliar a implementação de novo sistema para registros, analisar medidas para os registros em horário de pico. • Organizar a equipe e estabelecer escalonamento de horários para atendimento dos pacientes. • Providenciar capacitação dos profissionais. Demanda espontânea Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Linhas de cuidado Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 Na Atenção Básica, os atendimentos às demandas programadas são majoritariamente voltados para as linhas de cuidado. Marque a alternativa que indica uma linha de cuidado prioritária em Atenção Básica. A Saúde da mulher e pré-natal. B Saúde da cardiopatia. C Saúde da coletividade. D Saúde do indivíduo. E Saúde da população. A alternativa A está correta. As linhas de cuidado permitem a promoção, a prevenção, o rastreamento, o diagnóstico precoce, o suporte e os cuidados paliativos, possibilitando, desse modo, o cuidado integral e contínuo ao usuário. São linhas de cuidado: saúde do idoso; saúde da criança e do adolescente; saúde do adulto; e saúde da mulher e pré- natal. Questão 2 O planejamento estratégico situacional envolve vários momentos para que ocorra de forma resolutiva. Assinale a alternativa que corresponde a um momento do planejamento estratégico. A Momento prescritivo B Momento admissional C Momento normativo D Momento intencional E Momento laboral A alternativa C está correta. O planejamento estratégico situacional se orienta por situações problemas e está intimamente relacionado à análise da realidade. Na Atenção Básica, possibilita definir estratégias, implementar soluções para resolução de problemas e reinventar ações voltadas para assistência em saúde. O momento normativo ocorre após compreensão da situação. Por meio da descrição e da explicação dos problemas, deve-se identificar e definir prioridades de intervenção para implementar soluções. 4. Conclusão Considerações finais Neste conteúdo, vimos que a determinação do perfil epidemiológico de uma população possibilitará a realização de ações específicas para assistência à saúde e melhoria de vida. As ferramentas epidemiológicas são instrumentos que auxiliam no planejamento estratégico situacional e estão intimamente relacionadas à análise da realidade. Foi possível compreender que o principal objetivo da gerência do cuidado é qualificar a integração entre as dimensões assistencial e gerencial no trabalho do enfermeiro. Entendemos que ações educativas em saúde são fundamentais, pois possibilitam que as pessoas participem da vida da comunidade de maneira construtiva e desenvolvem nas pessoas o senso de responsabilidade, ou seja, o protagonismo individual, oportunizando uma mudança coletiva e, consequentemente, uma melhora na qualidade de vida. Vimos também como as práticas administrativas influenciam no processo de trabalho e na organização dos serviços de saúde, de forma a garantir acesso à população de forma integral. Já as práticas assistenciais, por meio do uso de tecnologias duras, leves-duras e leves, possibilitam uma gerência do cuidado mais eficaz e voltada para as necessidades do usuário do sistema de saúde. Nesse caminhar, entendemos que a forma como o usuário busca os serviços de saúde não deve ser um entrave, uma limitação. O acesso deve ser ofertado de forma que garanta a continuidadedo cuidado, estabelecendo um planeamento estratégico que assegure os atendimentos tanto das demandas espontâneas como das programadas. Podcast Para encerrar, ouça sobre a diferença entre os tipos de demandas atendidas na estratégia de saúde da família e a importância do planejamento estratégico. Vamos lá! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. Explore + Para dar continuidade aos seus estudos, leia os seguintes artigos, disponíveis no portal da SciELO Brasil: Práticas assistenciais das Equipes de Saúde da Família em quatro grandes centros urbanos, de Adriano Maia dos Santos e colaboradores, publicado em 2012 na revista Ciência & Saúde Coletiva, v. 17, n. 10. As práticas educativas em saúde e a estratégia de saúde da família, de Gehysa Guimarães Alves e Denise Aerts, publicado em 2011 na revista Ciência & Saúde Coletiva, v. 16, n. 1. Referências BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea: queixas mais comuns na Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. (Cadernos de Atenção Básica n. 28, v. II). • • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Vigilância em saúde: dengue, esquistossomose, hanseníase, malária, tracoma e tuberculose. Brasília: Ministério da Saúde, 2007. (Série A. Normas e Manuais Técnicos) (Cadernos de Atenção Básica, n. 21). BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância à Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Diretrizes nacionais da vigilância em saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. (Série F. Comunicação e Educação em Saúde) (Série Pactos pela Saúde 2006; v. 13). BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Atenção Básica. Brasília: Ministério da Saúde, 2012. (Série E. Legislação em Saúde). BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria nº 2.436, de 21 de setembro de 2017. Aprova a Política Nacional de Atenção Básica, estabelecendo a revisão de diretrizes para a organização da Atenção Básica, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, n. 183, p. 68-76, 22 set. 2017. BUSTAMANTE-TEIXEIRA, M. T.; FAERSTEIN, E.; LOTORRE, M. R. Técnicas de análise de sobrevida. Cadernos de Saúde Pública, v. 18, n. 3, p. 579-594, 2002. STARFIELD, B. Atenção Primária: equilíbrio entre necessidades de saúde, serviços e tecnologia. Brasília: Unesco: Ministério da Saúde, 2002.