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ANA BAHIA BOCK ODAIR FURTADO MARIA DE LOURDES TRASSI TEIXEIRA PSICOLOGIAS UMA INTRODUÇÃO AO ESTUDO DE PSICOLOGIA LIVRO PARA ANÁLISE DO PROFESSOR VENDA PROIBIDA Editora Saraiva ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDITORES DE LIVROSCAPÍTULO 1 A as psicologias CIÊNCIA E SENSO COMUM Quantas vezes, no nosso dia-a-dia, ouvimos termo psicolo- gia? Qualquer um entende um pouco dela. Poderíamos até mesmo dizer que "de psicólogo e de louco todo mundo tem um pouco". O dito popular não é bem este ("de médico e de louco todo mundo tem um pouco"), mas parece servir aqui perfeitamente. As pessoas em geral têm a "sua psicologia". Usamos termo psicologia, no nosso cotidiano; com vários "de psicólogo e sentidos. Por exemplo, quando falamos do poder de persuasão do de louco todo vendedor, dizemos que ele usa de "psicologia" para vender seu pro- mundo um duto; quando nos referimos à jovem estudante que usa seu poder pouco". de sedução para atrair rapaz, falamos que ela usa de "psicologia"; e quando procuramos aquele amigo, que está sempre disposto a ouvir nossos problemas, dizemos que ele tem "psicologia" para en- tender as pessoas. Será essa a psicologia dos psicólogos? Certamente não. Essa psicologia, usada no cotidiano pelas pessoas em geral, é denomina- da de psicologia do senso comum. Mas nem por isso deixa de ser uma psicologia. O que estamos querendo dizer é que as pessoas, normalmente, têm um domínio, mesmo que pequeno e superfi- cial, do conhecimento acumulado pela Psicologia científica, que lhes permite explicar ou compreender seus problemas cotidianos de um ponto de vista psicológico. É a Psicologia científica que pretendemos apresentar a você. Mas, antes de iniciarmos o seu estudo, faremos uma exposição da relação ciência/senso comum; depois falaremos mais detalhada- mente sobre ciência e, assim, esperamos que você compreenda me- lhor a Psicologia científica.16 PSICOLOGIAS A psicologia ou as psicologias 17 o SENSO COMUM: O fato é que a dona de casa, quando usa a garrafa CONHECIMENTO DA REALIDADE térmica para manter café AGENCIA ESTADO quente, sabe por quanto tempo ele permanecerá ra- Existe um domínio da vida que pode ser entendido como vida zoavelmente quente, sem por excelência: é a vida do cotidiano. É no cotidiano que tudo flui, fazer nenhum cálculo com- que as coisas acontecem, que nos sentimos vivos, que sentimos a rea- plicado e, muitas vezes, des- lidade. Neste instante estou lendo um livro de Psicologia, logo mais conhecendo completamen- estarei numa sala de aula fazendo uma prova e depois irei ao cine- te as leis da termodinâmica. ma. Enquanto isso, tenho sede e tomo um refrigerante na cantina Quando alguém em casa re- da escola; sinto um sono irresistível e preciso de muita força de von- clama de dores no fígado, tade para não dormir em plena aula; lembro-me de que havia pro- ela faz um chá de boldo, metido chegar cedo para almoço. Todos esses acontecimentos de- que é uma planta medicinal nunciam que estamos vivos. Já a ciência é uma atividade eminente- já usada pelos avós de nos- mente reflexiva. Ela procura compreender, elucidar e alterar esse SOS avós, sem, no entanto, conhecer princípio ativo de suas fo- Mesmo não cotidiano, a partir de seu estudo sistemático. dispondo de lhas nas doenças hepáticas e sem nenhum estudo farmacológico. instrumentos, a ciência abstrai Quando fazemos ciência, baseamo-nos na realidade cotidiana E nós mesmos, quando precisamos atravessar uma avenida movi- sabemos a realidade para e pensamos sobre ela. Afastamo-nos dela para refletir e conhecer mentada, com tráfego de veículos em alta velocidade, sabemos avaliar a compreendê-la além de suas aparências. O cotidiano e conhecimento científico distância e a perfeitamente medir a distância e a velocidade do automóvel que melhor... 0 que velocidade que temos da realidade aproximam-se e se afastam: aproximam-se permite a vem em nossa direção. Até hoje não conhecemos ninguém que de um veículo construção do porque a ciência se refere ao real; afastam-se porque a ciência abs- usasse máquina de calcular ou fita métrica para essa tarefa. Esse quando conhecimento trai a realidade para compreendê-la melhor, ou seja, a ciência afas- tipo de conhecimento que vamos acumulando no nosso cotidia- atravessamos científico sobre ta-se da realidade, transformando-a em objeto de investigação a rua. no é chamado de senso comum. Sem esse conhecimento intuiti- 0 real. que permite a construção do conhecimento científico sobre real. vo, espontâneo, de tentativas e erros, a nossa vida no dia-a-dia se- Para compreender isso melhor, ria muito complicada. pense na abstração (no distanciamento e A necessidade de acumularmos esse tipo de conhecimento es- Sem esse trabalho mental) que Newton teve de fa- pontâneo parece-nos óbvia. Imagine termos de descobrir diaria- conhecimento zer para, partindo da fruta que caía da mente que as coisas tendem a cair, graças ao efeito da intuitivo, árvore (fato do cotidiano), formular a lei termos de descobrir diariamente que algo atirado pela janela ten- espontâneo, de da gravidade (fato científico). tentativas e erros, de a cair e não a subir; que um automóvel em velocidade vai se a nossa vida no Ocorre que, mesmo o mais espe- aproximar rapidamente de nós e que, para fazer um aparelho ele- dia-a-dia seria cializado dos cientistas, quando sai de trodoméstico funcionar, precisamos de eletricidade. muito complicada. seu laboratório, está submetido à dinâ- O senso comum, na produção desse tipo de conhecimento, mica do cotidiano, que cria suas pró- percorre um caminho que vai do hábito à tradição, a qual, quando prias "teorias" a partir das teorias cientí- estabelecida, passa de geração para geração. Assim, aprendemos ficas, seja como forma de "simplificá- com nossos pais a atravessar uma rua, a fazer liqüidificador fun- las" para uso no dia-a-dia, ou como cionar, a plantar alimentos na época e de maneira correta, a con- F = G M.m sua maneira peculiar de interpretar fa- quistar a pessoa que desejamos e assim por diante. d² tos, a despeito das considerações feitas pela ciência. Todos nós estudantes, E é nessa tentativa de facilitar dia-a-dia que senso comum psicólogos, físicos, artistas, operários, teólogos vivemos a produz suas próprias "teorias"; na realidade, um conhecimento maior parte do tempo esse cotidiano e as suas teorias, isto é, acei- que, numa interpretação livre, poderíamos chamar de teorias mé- tamos as regras do seu jogo. dicas, físicas, psicológicas etc.18 PSICOLOGIAS A psicologia ou as psicologias 19 SENSO COMUM: UMA VISÃO-DE-MUNDO conhecimentos denominado filosofia. A formula- ção de um conjunto de pensamentos sobre a ori- Esse conhecimento do senso comum, além de sua produção gem do homem, seus mistérios, princípios morais, LAURENI FOCHETTO característica, acaba por se apropriar, de uma maneira muito singu- forma um outro corpo de conhecimento humano, lar, de conhecimentos produzidos pelos outros setores da produ- conhecido como religião. No Ocidente, um livro ção do saber humano. O senso comum mistura e recicla esses ou- muito conhecido traz as crenças e tradições de nos- tros saberes, muito mais especializados, e reduz a um tipo de teo- SOS antepassados e é para muitos um modelo de ria simplificada, produzindo uma determinada visão-de-mundo. conduta: a Bíblia. Esse livro é registro do conheci- O que estamos querendo mostrar a você é que senso co- mento religioso judaico-cristão. Um outro livro se- melhante é livro sagrado dos hindus: Livro dos Vedas. Veda, em sâns- Registro de mum integra, de um modo precário (mas é esse seu modo), co- crito (antiga língua clássica da Índia), significa conhecimento. crenças e nhecimento humano. É claro que isto não ocorre muito rapida- tradições mente. Leva um certo tempo para que conhecimento mais sofis- Por fim, homem, já desde a sua pré-história, deixou marcas para as futuras ticado e especializado seja absorvido pelo senso comum, e nunca o de sua sensibilidade nas paredes das cavernas, quando desenhou a gerações. é totalmente. Quando utilizamos termos como "rapaz complexa- sua própria figura e a figura da caça, criando uma expressão do co- do", "menina "ficar estamos usando termos nhecimento que traduz a emoção e a sensibilidade. Denominamos homem, já definidos pela Psicologia científica. Não nos preocupamos em de- arte a esse tipo de conhecimento. desde a sua finir as palavras usadas e nem por isso deixamos de ser entendidos Arte, religião, filosofia, ciência e senso comum são domínios pré-história, deixou marcas de pelo outro. Podemos até estar muito próximos do conceito cientí- do conhecimento humano. sua sensibilidade fico mas, na maioria das vezes, nem sabemos. Esses são exemplos nas paredes das da apropriação que O senso comum faz da ciência. cavernas. A PSICOLOGIA CIENTÍFICA ÁREAS DO CONHECIMENTO Apesar de reconhecermos a existência de uma psicologia do sen- comum e, de certo modo, estarmos preocupados em defini-la, é Os gregos já Somente esse tipo de conhecimento, porém, não seria suficiente com a outra psicologia que este livro deverá ocupar-se a Psicologia dominavam para as exigências de desenvolvimento da humanidade. O homem, científica. Foi preciso definir senso comum, para que leitor pudes- complicados desde tempos primitivos, foi ocupando cada vez mais espaço neste se demarcar campo de atuação de cada uma, sem confundi-las. cálculos planeta, e somente esse conhecimento intuitivo seria muito pouco para Entretanto a tarefa de definir a Psicologia como ciência é bem matemáticos. que ele dominasse a Natureza em seu próprio proveito. Os gregos, por mais árdua e complicada. Comecemos por definir O que entende- volta do século 4 a.C., já dominavam complicados cálculos matemáti- mos por ciência (que também não é simples), para depois explicar- cos, que ainda hoje são considerados difíceis por qualquer jovem cole- mos por que a Psicologia é hoje considerada uma de suas áreas. gial. Os gregos precisavam entender esses cálculos para resolver seus problemas agrícolas, arquitetônicos, navais etc. Era uma questão de so- QUE É CIÊNCIA brevivência. Com tempo, esse tipo de conhecimento foi-se especiali- zando cada vez mais, até atingir nível de sofisticação que permitiu ao A ciência compõe-se de um conjunto de conhecimentos sobre No Ocidente, homem atingir a Lua. A este tipo de conhecimento, que definiremos um livro muito fatos ou aspectos da realidade (objeto de estudo), expresso por conhecido traz com mais cuidado logo adiante, chamamos de ciência. meio de uma linguagem precisa e rigorosa. Esses conhecimentos as crenças e Mas senso comum e a ciência não são as únicas formas de devem ser obtidos de maneira programada, sistemática e controla- tradições conhecimento que homem possui para descobrir e interpretar a da, para que se permita a verificação de sua validade. Assim, pode- de nossos realidade. antepassados mos apontar objeto dos diversos ramos da ciência e saber exata- e é para muitos Povos antigos, e entre eles cabe sempre mencionar gregos, mente como determinado conteúdo foi construído, possibilitando um modelo de preocuparam-se com a origem e com significado da existência hu- a reprodução da experiência. Dessa forma, saber pode ser trans- conduta: a Bíblia. mana. As especulações em torno desse tema formaram um corpo de mitido, verificado, utilizado e desenvolvido.20 PSICOLOGIAS A psicologia ou as psicologias 21 um novo Essa característica da produção científica possibilita sua con- O mesmo não ocorre com a Psicologia, que, como a Antropo- conhecimento é tinuidade: um novo conhecimento é produzido sempre a partir de logia, a Economia, a Sociologia e todas as ciências humanas, estu- produzido sempre algo anteriormente desenvolvido. Negam-se, reafirmam-se, desco- da homem. a partir de algo brem-se novos aspectos, e assim a ciência avança. Nesse sentido, a anteriormente Certamente, esta divisão é ampla demais e apenas coloca a desenvolvido. ciência caracteriza-se como um processo. Psicologia entre as ciências humanas. Qual é, então, o objeto espe- Pense no desenvolvimento do motor movido a álcool hidrata- cífico de estudo da Psicologia? do. Ele nasceu de uma necessidade concreta (crise do petróleo) e Se dermos a palavra a um psicólogo comportamentalista, ele Qual é, então, 0 foi planejado a partir do motor a gasolina, com a alteração de pou- dirá: objeto de estudo da Psicologia é comportamento huma- objeto específico COS componentes deste. No entanto, os primeiros automóveis mo- no". Se a palavra for dada a um psicólogo psicanalista, ele dirá: de estudo da vidos a álcool apresentaram muitos problemas, como seu mau objeto de estudo da Psicologia é inconsciente". Outros dirão que Psicologia? funcionamento nos dias frios. Apesar disso, esse tipo de motor foi- é a consciência humana, e outros, ainda, a personalidade. se aprimorando. A ciência tem ainda uma característica fundamental: ela as- pira à objetividade. Suas conclusões devem ser passíveis de verifi- DIVERSIDADE DE OBJETOS DA PSICOLOGIA cação e isentas de emoção, para, assim, tornarem-se válidas para A diversidade de objetos da Psicologia é explicada pelo fato todos. Assim, a de este campo do conhecimento ter-se constituído como área do concepção de A ciência tem Objeto específico, linguagem rigorosa, métodos e técnicas es- conhecimento científico só muito recentemente (final do século homem que 0 ainda uma pecíficas, processo cumulativo do conhecimento, objetividade fa- 19), a despeito de existir há muito tempo na Filosofia enquanto pesquisador característica zem da ciência uma forma de conhecimento que supera em muito traz consigo fundamental: ela preocupação humana. Esse fato é importante, já que a ciência se "contamina" conhecimento espontâneo do senso comum. Esse conjunto de aspira à caracteriza pela exatidão de sua construção teórica, e, quando uma inevitavelmente a objetividade. características é que permite que denominemos científico a um ciência é muito nova, ela não teve tempo ainda de apresentar teo- sua pesquisa em conjunto de conhecimentos. rias acabadas e definitivas, que permitam determinar com maior Psicologia. precisão seu objeto de estudo. Jean-Jacques Rousseau OBJETO DE ESTUDO DA PSICOLOGIA filósofo Um outro motivo que contribui para di- ficultar uma clara definição de objeto da Psi- Como dissemos anteriormente, um conhecimento, para ser con- cologia é o fato de cientista o pesquisa- siderado científico, requer um objeto específico de estudo. O objeto dor confundir-se com objeto a ser pes- da Astronomia são OS astros, e objeto da Biologia são OS seres vivos. quisado. No sentido mais amplo, objeto de Essa classificação bem geral demonstra que é possível tratar objeto estudo da Psicologia é homem, e neste caso dessas ciências com uma certa distância, ou seja, é possível isolar o pesquisador está inserido na categoria a ser objeto de estudo. No caso da Astronomia, cientista-observador estudada. Assim, a concepção de homem que está, por exem- Observatório pesquisador traz consigo "contamina" ine- Nacional plo, num observa- Rio de Janeiro. tório, e astro ob- vitavelmente a sua pesquisa em Psicologia. Estudar o Isso ocorre porque há diferentes concepções servado, a anos- fenômeno físico de homem entre os cientistas (na medida em luz de distância é pensar sobre que estudos filosóficos e teológicos e mesmo algo externo ao de seu telescópio. homem. Esse cientista não doutrinas políticas acabam definindo ho- Estudar mem à sua maneira, e cientista acaba ne- corre mínimo homem é cessariamente se vinculando a uma destas pensar sobre si risco de confun- crenças). É caso da concepção de homem mesmo. dir-se com fenô- natural, formulada pelo filósofo francês meno que está es- tudando. Rousseau, que imagina que o homem era SALOMON CYTRYNOWICZ/PULSAR puro e foi corrompido pela sociedade, e que22 PSICOLOGIAS A psicologia ou as psicologias 23 cabe então ao filósofo reencontrar essa pureza perdida (veja capítulo nhecimentos distintos e específicos a respeito dela. A Psicologia co- 10). Outros vêem homem como ser abstrato, com características de- labora com estudo da subjetividade: é essa a sua forma particular, finidas e que não mudam, a despeito das condições sociais a que este- específica de contribuição para a compreensão da totalidade da ja submetido. Nós, autores deste livro, vemos esse homem como ser da- vida humana. tado, determinado pelas condições históricas e sociais que cercam. Nossa matéria-prima, portanto, é homem em todas as suas é 0 homem- Nós, autores Na realidade, este é um "problema" enfrentado por todas as expressões, as visíveis (nosso comportamento) e as invisíveis (nos- corpo, homem- deste livro, vemos ciências humanas, muito discutido pelos cientistas de cada área e SOS sentimentos), as singulares (porque somos que somos) e as pensamento, esse homem genéricas (porque somos todos assim) é homem-corpo, ho- homem-afeto, até agora sem perspectiva de solução. Conforme a definição de ho- homem-ação e como ser datado, mem adotada, teremos uma concepção de objeto que combine mem-pensamento, homem-afeto, homem-ação e tudo isso está sin- tudo isso está determinado com ela. Como, neste momento, há uma riqueza de valores sociais tetizado no termo subjetividade. sintetizado no pelas condições históricas e que permitem várias concepções de homem, diríamos simplificada- A subjetividade é a síntese singular e individual que cada termo subjetividade. sociais que 0 mente que, no caso da Psicologia, esta ciência estuda "diversos um de nós vai constituindo conforme vamos nos desenvolvendo cercam. homens" concebidos pelo conjunto social. Assim, a Psicologia hoje e vivenciando as experiências da vida social e cultural; é uma se caracteriza por uma diversidade de objetos de estudo. síntese que nos identifica, de um lado, por ser única, e nos igua- Por outro lado, essa diversidade de objetos justifica-se porque la, de outro lado, na medida em que os elementos que a consti- fenômenos psicológicos são tão diversos, que não podem ser tuem são experienciados no campo comum da objetividade so- acessíveis ao mesmo nível de observação e, portanto, não podem cial. Esta síntese a subjetividade é mundo de idéias, sig- ser sujeitos aos mesmos padrões de descrição, medida, controle e nificados e emoções construído internamente pelo sujeito a interpretação. O objeto da Psicologia deveria ser aquele que reu- partir de suas relações sociais, de suas vivências e de sua consti- nisse condições de aglutinar uma ampla variedade de fenômenos tuição biológica; é, também, fonte de suas manifestações afeti- psicológicos. Ao estabelecer padrão de descrição, medida, con- vas e comportamentais. trole e interpretação, psicólogo está também estabelecendo um O mundo social e cultural, conforme vai sendo experienciado determinado critério de seleção dos fenômenos psicológicos e as- por nós, possibilita-nos a construção de um mundo interior. São di- sim definindo um objeto. versos fatores que se combinam e nos levam a uma vivência muito Esta situação leva-nos a questionar a caracterização da Psi- particular. Nós atribuímos sentido a essas experiências e vamos nos cologia como ciência e a postular que no momento não existe constituindo a cada dia. uma psicologia, mas Ciências psicológicas embrionárias e em de- A subjetividade é a maneira de sentir, pensar, fantasiar, so- senvolvimento. nhar, amar e fazer de cada um. É que constitui nosso modo de ser: sou filho de japoneses e militante de um grupo ecológico, de- testo Matemática, adoro samba e black music, pratico ioga, tenho A SUBJETIVIDADE COMO OBJETO DA PSICOLOGIA vontade mas não consigo ter uma namorada. Meu melhor amigo é filho de descendentes de italianos, primeiro aluno da classe em Considerando toda essa dificuldade na conceituação única do Matemática, trabalha e estuda, é corinthiano fanático, adora co- objeto de estudo da Psicologia, optamos por apresentar uma defi- mer sushi e navegar pela Internet. Ou seja, cada qual é que é: sua nição que lhe sirva como referência para os próximos capítulos, singularidade. uma vez que você irá se deparar com diversos enfoques que trazem Entretanto, a síntese que a subjetividade representa não é ina- Criando e definições específicas desse objeto. (o comportamento, incons- ta ao indivíduo. Ele a constrói aos poucos, apropriando-se do ma- transformando 0 ciente, a consciência etc.). terial do mundo social e cultural, e faz isso ao mesmo tempo em mundo (externo), 0 A identidade da Psicologia é que a diferencia dos demais ra- que atua sobre este mundo, ou seja, é ativo na sua construção. homem constrói e transforma a si mos das ciências humanas, e pode ser obtida considerando-se que Criando e transformando mundo (externo), homem constrói e próprio. cada um desses ramos enfoca homem de maneira particular. As- transforma a si próprio. sim, cada especialidade a Economia, a Política, a História etc. Um mundo objetivo, em movimento, porque seres humanos trabalha essa matéria-prima de maneira particular, construindo co- 0 movimentam permanentemente com suas intervenções; um24 PSICOLOGIAS A psicologia ou as psicologias 25 mundo subjetivo em movimento porque os indiví- se modificar, pois as experiências sempre trarão novos elementos duos estão permanentemente se apropriando de para renová-la. novas matérias-primas para constituírem suas sub- Talvez você esteja pensando: mas eu acho que sou o que jetividades. sempre fui eu não me modifico! Por acompanhar de perto De um certo modo, podemos dizer que a suas próprias transformações (não poderia ser diferente!), você subjetividade não só é fabricada, produzida, mol- pode não percebê-las e ter a impressão de ser como sempre foi. dada, mas também é automoldável, ou seja, ho- Você é o construtor da sua transformação (veja capítulo 13) e, mem pode promover novas formas de subjetivida- por isso, ela pode passar despercebida, fazendo-o pensar que de, recusando-se ao assujeitamento e à perda de não se transformou. Mas você cresceu, mudou de corpo, de von- memória imposta pela fugacidade da informa- tades, de gostos, de amigos, de atividades, afinou e desafinou, ção; recusando a massificação que exclui e estig- enfim, tudo em sua vida muda e, com ela, suas vivências subjeti- matiza o diferente, a aceitação social condiciona- vas, seu conteúdo psicológico, sua subjetividade. Isso acontece da ao consumo, a medicalização do sofrimento. com todos nós. SALOMON CYTRYNOWICZ Nesse sentido, retomamos a utopia que cada ho- Bem, esperamos que você já tenha uma noção do que seja mem pode participar na construção do seu desti- subjetividade e possamos, então, voltar a nossa discussão sobre no e de sua coletividade. objeto da Psicologia. Por fim, podemos dizer que estudar a subje- A Psicologia, como já dissemos anteriormente, é um ramo das tividade, nos tempos atuais, é tentar compreen- Ciências Humanas e a sua identidade, isto é, aquilo que a diferen- der a produção de novos modos de ser, isto é, as cia, pode ser obtida considerando-se que cada um desses ramos en- subjetividades emergentes, cuja fabricação é so- foca de maneira particular o objeto homem, construindo conheci- cial e histórica. O estudo dessas novas subjetivida- mentos distintos e específicos a respeito dele. Assim, com o estudo des vai desvendando as relações do cultural, do da subjetividade, a Psicologia contribui para a compreensão da to- político, do econômico e do histórico na produ- talidade da vida humana. ção do mais íntimo e do mais observável no ho- É claro que a forma de se abordar a subjetividade, e mesmo mem aquilo que captura, submete-o ou mo- biliza-o para pensar e agir sobre os efeitos das for- a forma de concebê-la, dependerá da concepção de homem ado- mas de submissão da subjetividade (como dizia o tada pelas diferentes escolas psicológicas (veja capítulos 3, 4, 5 e filósofo francês Michel Foucault). 6). No momento, pelo pouco desenvolvimento da Psicologia, essas escolas acabam formulando um conhecimento fragmentário de O movimento e a transformação são os ele- uma única e mesma totalidade ser humano: o seu mundo in- mentos básicos de toda essa história. E aprovei- terno e as suas manifestações. A superação do atual impasse leva- tamos para citar Guimarães Rosa, que em Gran- rá a uma Psicologia que enquadre esse homem como ser concreto de Sertão: Veredas, consegue expressar, de modo e multideterminado (veja capítulo 10). Esse é o papel de uma KEYSTOCK muito adequado e rico, que aqui vale a pena ciência crítica, da compreensão, da comunicação e do encontro registrar: do homem com o mundo em que vive, já que homem que com- "O importante e "O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não es- preende a História (o mundo externo) também compreende a si bonito do mundo é isso: que as tão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão mesmo (sua subjetividade), e homem que compreende a si mes- pessoas não estão sempre mudando. Afinam e desafinam". mo pode compreender engendramento do mundo e criar novas sempre iguais, Convidamos você a refletir um pouco sobre esse pensamento rotas e utopias. ainda não foram terminadas, mas de Guimarães Rosa. As pessoas não estão sempre iguais. Ainda não Algumas correntes da Psicologia consideram-na pertencente que elas vão foram terminadas. Na verdade, as pessoas nunca serão terminadas, ao campo das Ciências do Comportamento e, outras, das Ciências sempre mudando. pois estarão sempre se modificando. Mas por quê? Como? Simples- Sociais. Acreditamos que campo das Ciências Humanas é mais Afinam e mente porque a subjetividade este mundo interno construído abrangente e condizente com a nossa proposta, que vincula a Psi- desafinam." pelo homem como síntese de suas determinações não cessará de cologia à História, à Antropologia, à Economia etc.26 PSICOLOGIAS A psicologia ou as psicologias 27 A PSICOLOGIA E MISTICISMO construiu muitos "saberes" em busca de sua felicidade. Mas é pre- Esses saberes ciso demarcar nossos campos. Esses saberes não estão no campo da não estão no Psicologia, mas podem se tornar seu objeto de estudo. campo da A Psicologia, como área da Ciência, vem se desenvolvendo na Psicologia, mas história desde quando Wilhelm Wundt (1832-1926) criou É possível estudar as práticas adivinhatórias e descobrir que podem se tornar primeiro Laboratório de Experimentos em Psicofisiologia, em elas têm de eficiente, de acordo com OS critérios científicos, e apri- seu objeto de Leipzig, na Alemanha. Esse marco histórico significou desliga- morar tais aspectos para um uso eficiente e racional. Nem sempre mento das idéias psicológicas de idéias abstratas e espiritualistas, esses critérios científicos têm sido observados e alguns psicólogos que defendiam a existência de uma alma nos homens, a qual seria acabam por usar tais práticas sem o devido cuidado e observação. a sede da vida psíquica. A partir daí, a história da Psicologia é de Esses casos, seja daquele que usa a prática mística como acompa- fortalecimento de seu vínculo com princípios e métodos cientí- nhamento psicológico, seja do psicólogo que usa desse expedien- ficos. A idéia de um homem autônomo, capaz de se responsabilizar te sem critério científico comprovado, são previstos pelo código de pelo seu próprio desenvolvimento e pela sua vida, também vai se ética dos psicólogos e, por isso, passíveis de punição. No primeiro fortalecendo a partir desse momento. caso, como prática de charlatanismo e, no segundo, como desem- Hoje, a Psicologia ainda não consegue explicar muitas coisas penho inadequado da profissão. sobre homem, pois é uma área da Ciência relativamente nova Entretanto, é preciso ponderar que esse campo fronteiriço (com pouco mais de cem anos). Além disso, sabe-se que a Ciência entre a Psicologia científica e a especulação mística deve ser trata- não esgotará que há para se conhecer, pois a realidade está em do com devido cuidado. Quando se trata de pessoa, psicóloga ou permanente movimento e novas perguntas surgem a cada dia, o não, que decididamente usa do expediente das práticas místicas homem está em movimento e em transformação, colocando tam- como forma de tirar proveito pecuniário ou de qualquer outra or- bém novas perguntas para a Psicologia. A invenção dos computa- dem, prejudicando terceiros, temos um caso de polícia e a puni- dores, por exemplo, trouxe e trará mudanças em nossas formas de ção é salutar. Mas muitas vezes não é possível caracterizar a atua- pensamento, em nossa inteligência, e a Psicologia precisará absor- ção daqueles que se utilizam dessas práticas de forma tão clara. ver essas transformações em seu quadro teórico. Nestes casos, não podemos tornar absoluto conhecimento cien- Alguns dos "desconhecimentos" da Psicologia têm levado tífico como "conhecimento por excelência" e dogmatizá-lo a psicólogos a buscarem respostas em outros campos do saber huma- ponto de correr risco de criar um tribunal semelhante ao da no. Com isso, algumas práticas não-psicológicas têm sido associadas Santa Inquisição. É preciso reconhecer que pessoas que acreditam às práticas psicológicas. O tarô, a astrologia, a quiromancia, a nu- em práticas adivinhatórias ou místicas têm direito de consultar e merologia, entre outras práticas adivinhatórias e/ou místicas, têm de serem consultadas, e também temos de reconhecer, nós cientis- sido associadas ao fazer e ao saber psicológico. tas, que não sabemos muita coisa sobre psiquismo humano e o verdadeiro Estas não são práticas da Psicologia. São outras formas de sa- que, muitas vezes, novas descobertas seguem estranhos e insondá- cientista deve ter veis caminhos. O verdadeiro cientista deve ter olhos abertos olhos abertos ber de saber sobre humano que não podem ser confundi- para novo. das com a Psicologia, pois: para novo. não são construídas no campo da Ciência, a partir do método e Enfim, nosso alerta aqui vai em dois sentidos: dos princípios científicos; Não se deve misturar a Psicologia com práticas adivinhatórias ou estão em oposição aos princípios da Psicologia, que vê não só o místicas que estão baseadas em pressupostos diversos e opostos ao homem como ser autônomo, que se desenvolve e se constitui a da Psicologia. partir de sua relação com mundo social e cultural, mas também "Mente é como pára-quedas: melhor aberta." É preciso estar aber- homem sem destino pronto, que constrói seu futuro ao agir so- to para o novo, atento a novos conhecimentos que, tendo sido es- bre mundo. As práticas místicas têm pressupostos opostos, pois tudados no âmbito da Ciência, podem trazer novos saberes, ou nelas há a concepção de destino, da existência de forças que não seja, novas respostas para perguntas ainda não respondidas. estão no campo do humano e do mundo material. A Ciência, como uma das formas de saber do homem, tem seu A Psicologia, ao relacionar-se com esses saberes, deve ser ca- campo de atuação com métodos e princípios próprios, mas, como paz de enfrentá-los sem preconceitos, reconhecendo que o homem forma de saber, não está pronta e nunca estará. A Ciência é, na ver-28 PSICOLOGIAS A psicologia ou as psicologias 29 dade, um processo permanente de conhecimento do mundo, um 1 Qual a relação entre cotidiano e conhecimento científico? Dê um exercício de diálogo entre pensamento humano e a realidade, em todos os seus aspectos. Nesse sentido, tudo que ocorre com o exemplo de uso cotidiano do conhecimento científico (em qualquer área). homem é motivo de interesse para a Ciência, que deve aplicar seus princípios e métodos para construir respostas. 2 Explique o que é senso comum. Dê um exemplo desse tipo de conhe- cimento. 3 Explique o que você entendeu por visão-de-mundo. 4 Cite alguns exemplos de conhecimentos da Psicologia apropriados pelo senso comum. 5. Quais domínios do conhecimento humano? O que cada um deles compleme A PSICOLOGIA DOS PSICÓLOGOS abrange? 6 Quais as características atribuídas ao conhecimento científico? (...) somos obrigados a renunciar à pretensão de determinar para as texto 7 Quais as diferenças entre senso comum e conhecimento científico? múltiplas investigações psicológicas um objeto (um campo de fatos) unitário e coerente. Conseqüentemente, e por sólidas razões, não somente históri- 8. Quais são possíveis objetos de estudo da Psicologia? cas mas doutrinárias, torna-se impossível à Psicologia assegurar-se uma uni- Quais motivos responsáveis pela diversidade de objetos para a Psi- dade metodológica. (...) Por isso, talvez fosse preferível falarmos, ao invés de "psicologia", em "ciências psicoló- cologia? gicas". Porque os adjetivos que acompanham o termo "psicologia" podem especificar, ao mes- Qual a matéria-prima da Psicologia? mo tempo, tanto um domínio de pesquisa (psicologia diferencial), um estilo metodológico (psi- cologia clínica), um campo de práticas sociais (orientação, reeducação, terapia de distúrbios O que é subjetividade? comportamentais etc.), quanto determinada escola de pensamento que chega a definir, para Por que a subjetividade não é inata? seu próprio uso, tanto sua problemática quanto seus conceitos e instrumentos de pesquisa. (...) não devemos estranhar que a unidade da Psicologia, hoje, nada mais seja que uma expressão 13 Por que as práticas místicas não compõem o campo da Psicologia cômoda, a expressão de um pacifismo ao mesmo tempo prático e enganador. Donde não ha- científica? ver nenhum inconveniente em falarmos de "psicologias" no plural. Numa época de mutação acelerada como a nossa, a Psicologia se situa no imenso domínio das ciências "exatas", bio- lógicas, naturais e humanas. Há diversidade de domínio e diversidade de métodos. Uma coisa, porém, precisa ficar clara: os problemas psicológicos não são feitos para métodos; os mé- todos é que são feitos para os problemas. (...) Interessa-nos indicar uma razão central pela qual a Psicologia se reparte em tantas ten- dências ou escolas: a tendência organicista, a tendência fisicalista, a tendência psico-socioló- atividades 1. Você leu, no texto, que existem a Psicologia científica e a psicologia do senso comum. Supondo que seu contato até momento só te- gica, a tendência psicanalítica etc. Qual o obstáculo supremo impedindo que todas essas ten- dências continuem a constituir "escolas" cada vez mais fechadas, a ponto de desagregarem a nha sido com a psicologia do senso comum, relacione situações do outrora chamada "ciência psicológica"? A meu ver, esse obstáculo é devido ao fato de nenhum cotidiano em que você ou as pessoas com quem convive usem essa cientista, conseqüentemente, nenhum psicólogo, poder considerar-se um cientista "puro". psicologia. Como qualquer cientista, todo psicólogo está comprometido com uma posição filosófica ou grupo 2. Baseando-se no texto e na leitura complementar, responda por que ideológica. Este fato tem uma importância fundamental nos problemas estudados pela Psico- logia. Esta não é a mesma em todos os países. Depende dos meios culturais. Suas variações falamos em Ciências Psicológicas e não em uma Psicologia. dependem da diversidade das escolas e das ideologias. Os problemas psicológicos se diversi- 3. Discuta nossa apresentação da Psicologia científica sua matéria- ficam segundo as correntes ideológicas ou filosóficas venham reforçar esta ou aquela orienta- prima e seu enfoque. Para isso, retome as respostas que cada mem- ção na pesquisa, consigam ocultar ou impedir este ou aquele aspecto dos domínios a serem explorados ou consigam esterilizar esta ou aquela pesquisa, opondo-se implícita ou explicita- bro do grupo deu às questões 10, 11, 12 e 13. mente a seu desenvolvimento. (...) 4. Verifique quantas pessoas do grupo já procuraram práticas adivinha- tórias. A partir da leitura do texto, discuta a experiência. Hilton Japiassu. A psicologia dos psicólogos. 2. ed. Rio de Janeiro, Imago, 1983. p. 24-6.