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A doença de Chagas (DC) é causada por parasita protozoário, o Trypanosoma cruzi. Causa miocardite aguda e também miocardite crônica altamente fibrosante, que produz dano miocárdico progressivo e resulta tardiamente na cardiomiopatia crônica da doença de Chagas (CCC). O acometimento cardíaco da doença na fase crônica envolve relevante morbidade e mortalidade, sendo a principal causa de cardiomiopatia não isquêmica na América Latina. O ciclo de transmissão da doença de Chagas apoia-se no vetor triatomíneo como principal transmissor. Mais relevante vetor domiciliado -> Triatoma infestans Vale ressaltar que, embora a transmissão vetorial da doença possa ter sido controlada em muitas regiões, focos de transmissões orais são documentados em regiões endêmicas, relacionados à urbanização e ao desmatamento de regiões florestais Compreende a fase aguda e crônica Fase aguda (4-8 semanas): maioria dos pacientes são assintomáticos ou têm apenas sintomas leves e inespecíficos de uma síndrome infecciosa. *Raro -> quadro exuberante de miocardite ou meningoencefalite sintomática. Fase crônica -> inclui duas formas da doença: • Indeterminada (latente ou pré- clínica): pacientes com evidências de infecção pelo T. cruzi (testes que detectam presença de anticorpos antiparasitários circulantes), mas sem manifestações clínicas de doença cardíaca ou do trato esôfago- gastrointestinal *Cerca de 30 a 50% dos pacientes com a forma indeterminada, que usualmente pode durar de 10 a 30 anos, desenvolverão ao longo de suas vidas a CCC • Determinada (expressão clínica): subdivida em cardíaca, digestiva ou cardiodigestiva (mista) - Cardíaca: arritmias, ICC, tromboembolismo, morte súbita - Digestiva: destruição do plexo mientérico de Auerbach e do plexo submucoso de Meissner -> megaesôfago (disfagia, regurgutação, dor retroesternal, sialorreia) e megacólon (constipação, distensão abdominal, dificuldades para evacuar) - Mista: comprometimento simultâneo dos sistemas cardiovascular e digestório Pode também acontecer evolução direta da fase aguda para a fase crônica, sem ocorrer uma forma indeterminada, em 5 a 10% dos casos. A doença crônica também pode ser reativada, apresentando-se como doença aguda (reagudizada), em indivíduos com imunossupressão natural (por doença como a Aids), ou iatrogenicamente (p. ex., em transplantados de órgãos sólidos). A evolução tardia da Cardiomiopatia Chagásica Crônica (CCC) envolve o aparecimento de um quadro clínico de cardiomiopatia dilatada, com disfunção ventricular esquerda global e de síndrome de insuficiência cardíaca De acordo com isso, a Diretriz Latino- Americana para o Diagnóstico e Tratamento da Cardiopatia Chagásica adotou classificação para a disfunção ventricular esquerda da doença de Chagas. Dessa forma, a fase crônica da CCC pode ser classificada em 5 estágios evolutivos (A, B1, B2, C e D) de disfunção ventricular esquerda Classificação clínica da disfunção ventricular esquerda na CCC Fase aguda Fase Crônica Indeterminada Sem disfunção ventricular Com disfunção ventricular A B1 B2 C D Quadro compatível com doença de Chagas aguda Pacientes sobre risco de desenvolver ICC. Sorologia +, sem sintomas Com cardiopatia estrutural, mas com função ventricular normal Com cardiopatia estrutural, com disfunção ventricular global, mas sem sinais e sintomas de ICC Com disfunção ventricular e com sintomas de ICC com sintomas refratários de ICC em repouso, necessita de intervenção especializada Na fase aguda, o dano orgânico é nitidamente associado à infestação e multiplicação parasitária no miocárdio, além de outros tecidos comumente acometidos como o sistema nervoso e o aparelho digestivo. A linfadenopatia e o aumento do baço e fígado devem-se à reação imunológica sistêmica e correlacionam-se com a elevada parasitemia. Fase crônica: Quando a quantidade de parasitas diminui, inicia-se uma fase com inflamação leve, porém contínua, no coração. Isso causa destruição progressiva das fibras musculares e substituição por fibrose, levando, com o tempo, à cardiomiopatia dilatada. Essa lesão cardíaca ocorre por dois mecanismos principais: 1. Inflamação direta causada pelo parasita nas fibras cardíacas (mesmo que leve, mas persistente). 2. Resposta autoimune contra o coração, estimulada pela presença contínua de antígenos do parasita. Mecanismos auxiliares e amplificadores de lesão miocárdica: • Distúrbios da perfusão miocárdica pela presença de anormalidades da microcirculação coronária • Anormalidades do controle e inervação autonômica cardíaca Sinais e sintomas A fase aguda se inicia após período de incubação geralmente de 1-4 semanas após a exposição ao T. cruzi. Frequentemente autolimitada, com duração entre 4-8 semanas. Mortalidade: atingindo 5-10% naqueles casos de transmissão oral (aspecto provavelmente associado à infestação mais intensa decorrente desta via de transmissão) Maioria dos pacientes são assintomáticos Quando apresentam sintomas: • Chagomas: edema cutâneo no local da picada • Sinal de Romaña: edema inflamatório bipalpebral unilateral • Sintomas sistêmicos de infecção insidiosa: febre, hepatoesplenomegalia, diaforese, mialgia • Meningoencefalite e miocardite -> formas graves que normalmente levam a óbito. • Miopericardite • Dispneia • Fadiga • Dor precordial • Arritmias • Morte súbita. Laboratorial: leucocitose -> linfocitose absoluta Anormalidades no ECG: Taquicardia sinusal, batimentos ectópicos ventriculares, baixa voltagem dos complexos QRS, bloqueios de ramo, alterações difusas da repolarização ventricular, bloqueio atrioventricular (BAV) de grau variável. RX de tórax: cardiomegalia nos casos mais graves, que pode estar associada ao aumento das câmaras cardíacas e/ou derrame pericárdico. Ecocardiograma: mostra frequentemente derrame pericárdico, alterações segmentares da mobilidade parietal e insuficiências das válvulas mitral e tricúspide, sendo menos comum a dilatação cavitária e a queda do desempenho sistólico global. Diagnóstico Os testes sorológicos são usualmente negativos nas primeiras semanas da infecção. O diagnóstico é feito pela detecção dos parasitas circulantes por meio de variedade de métodos, incluindo hemocultura, visualização direta do parasita no sangue periférico, xenodiagnóstico, ou visualização de ninhos de parasitas na forma amastigota por análise histológica de biópsia de órgãos acometidos, ou dos “chagomas” cutâneos. Xenodiagnóstico: Os insetos picam o paciente suspeito e, após semanas, seu conteúdo intestinal é analisado para identificar o parasita Trypanosoma cruzi. Curso clínico Curso clínico da fase aguda é benigno -> sintomas se resolvem ao longo de 1 a 3 meses Estima-se que a evolução fatal ocorra em via vetorial Via oral -> mais grave e a mortalidade mais elevada Tratamento Nos casos tratados na fase aguda -> cura em 60-85% dos casos O tratamento das manifestações clínicas de miocardite e de insuficiência cardíaca é o mesmo preconizado para os casos de miocardite aguda de outras etiologias -> IECA/BRA, betabloqueadores, diuréticos, vasodilatadores. Tratamento antiparasitário com benznidazol ou nifurtimox está indicado em todos os casos de doença de Chagas aguda, por qualquer via de infecção ou mecanismo de reativação. Forma indeterminada Individuo com evidencia parasitológica de infecção pelo parasita, contudo sem sintomas, sem sinais físicos, com ECG e RX de tórax normais e sem alterações no esôfago ou intestino Exames mais sensíveis podem mostrar alterações leves no coração, masgeralmente são discretas e não mudam o prognóstico Prognóstico • Excelente • Mortalidade semelhante à de pessoas sem a doença (da mesma idade), enquanto o ECG permanecer normal Sugere-se que a avaliação clínica e o ECG sejam feitos a cada ano e a radiografia simples do tórax a cada 3 ou 5 anos. Forma crônica cardíaca A ausência de sintomas é particularidade marcante nos indivíduos que se encontram em estágios incipientes da doença crônica, quando dano miocárdico – discreto – pode ser detectado apenas por alterações em exames complementares • ECG (distúrbios de condução) • Eco (alterações da contração) • Holter (arritmias) Mesmo sem sintomas, pode ocorrer morte súbita, principalmente se o ECG estiver alterado Principais manifestações (podem coexistir) Insuficiência cardíaca Início: cansaço aos esforços Evolução: • Edema, aumento do fígado, ascite, turgência jugular • Pode evoluir para quadro grave (anasarca, caquexia) Pode haver comprometimento dos dois ventrículos (direito e esquerdo) Deve-se calcular o escore de Rassi em todos os pacientes com a forma cardíaca da doença para estimar o prognóstico entre 5 e 10 anos Escore de Rassi Fator de risco Pontos NYHA III ou IV 5 Cardiomegalia (RX) 5 Anormalidade de mobilidade global ou segmentar (Eco) 3 TV não sustenteada (Holter 24 h) 3 Baixa voltagem de QRS (ECG) 2 Sexo masculino 2 Total de pontos Mortalidade total Risco 5 Anos 10 Anos 0-6 2% 10% Baixo 7-11 18% 44% Intermediário 12-20 63% 84% Alto Tromboembolismo Formação de coágulos dentro do coração Pode causar: • AVC (muito comum) • Embolia sistêmica ou pulmonar Fatores de risco: • Dilatação do coração • Aneurisma apical (“dedo de luva”) • Fibrilação atrial Arritmias Muito frequentes (característica marcante) Tipos: • Taquicardias ventriculares • Fibrilação atrial • Bloqueios (BAV, nó sinusal) Sintomas: • Palpitação (“baticum”) • Tontura ou síncope Pode ocorrer mesmo com função cardíaca preservada Principal causa de morte súbita -> Morte súbita Principal causa de morte (≈ 55–65%) Geralmente por: • Taquicardia ventricular • Fibrilação ventricular Dor torácica (anginoide) Dor atípica: • Em pontada ou prolongada • Nem sempre relacionada ao esforço Pode ser por alteração da microcirculação, não necessariamente aterosclerose Diagnóstico da forma cardíaca Diagnóstico da CCC = sorologia positiva + avaliação cardíaca É feito juntando: • História epidemiológica (exposição) • Sintomas • Sorologia • Exames cardíacos Testes sorológicos Como há poucos parasitas no sangue na fase crônica, o diagnóstico é feito por anticorpos contra o Trypanosoma cruzi Principais testes: • ELISA • IFI • HAI Regra prática: • 2 testes positivos → confirma diagnóstico • Se o primeiro for negativo → geralmente já descarta Exames cardíacos ECG / Holter Muito importantes Achados comuns: • Bloqueio de ramo direito • Hemibloqueio anterior esquerdo • Arritmias Holter (24h): • Detecta arritmias ocultas • Avalia risco de morte súbita Raio-X de tórax Pode mostrar: • Coração aumentado (cardiomegalia) • Pulmão geralmente pouco congesto (diferente de outras cardiopatias) Ecocardiograma Avalia: • Função do coração • Contração (segmentos alterados) Achados típicos: • Alterações regionais • Aneurisma apical • Trombos Outros exames (casos selecionados) • Ressonância cardíaca → detecta fibrose (risco de arritmia/morte súbita) • Cintilografia → avalia perfusão e inervação • Cateterismo → descarta doença coronariana • Estudo eletrofisiológico → investiga arritmias/síncope Tratamento da forma cardíaca da Doença de Chagas Tratamento etiológico (contra o parasita) • Usa-se principalmente: Benznidazol • Objetivo: reduzir a quantidade do parasita Problema: • Na fase crônica com cardiopatia, a eficácia é incerta • Estudos iniciais sugeriram benefício • Mas o grande estudo (BENEFIT) mostrou: Não reduziu eventos graves (morte, IC, arritmia, etc.) Conclusão: • Não é indicado de rotina para todos • Deve ser avaliado caso a caso, principalmente em fases menos avançadas Evidência geral • Pode até diminuir o parasita (PCR melhora) • Mas não muda claramente a evolução clínica nos casos avançados Tratamento medicamentoso Não há muitas evidências específicas para Chagas Usa-se o mesmo tratamento da insuficiência cardíaca comum Principais drogas: • IECA/ARB (bloqueio do sistema renina-angiotensina) • Betabloqueadores (ex: Carvedilol) Outros (em alguns casos): • Ivabradina • Sacubitril/valsartana Podem melhorar sintomas e função cardíaca Terapias alternativas Ressincronização cardíaca (TRC) • Benefício incerto na Chagas • Geralmente não é prioridade Transplante cardíaco • Opção em casos graves • Bons resultados • Pode ocorrer reativação da doença após imunossupressão Prevenção de AVC (tromboembolismo) • Depende do risco Indicações principais de anticoagulação: • Fibrilação atrial • Trombo no coração • AVC prévio Medicamentos: • Varfarina • Ácido acetilsalicílico (casos de menor risco) Tratamento das arritmias Bradicardia / bloqueios • Marca-passo se sintomático Arritmias ventriculares (grave) • Otimizar tratamento da IC • Usar antiarrítmico: Amiodarona • Alto risco de morte súbita: Implante de CDI (desfibrilador)