Prévia do material em texto
Aterosclerose + Doença Arterial Coronariana Dois tipos celulares predominantes em uma artéria normal: Células endoteliais: estão localizadas primordialmente na camada íntima do vaso, estando, assim, em contato direto com o sangue e permitindo que o mesmo, em situações de homeostase normal, possa fluir adequadamente pelos vasos. • A superfície dessas células expressa constitutivamente moléculas de heparan sulfato, trombomodulina, entre outros, responsáveis por essa propriedade fundamental de manutenção da reologia sanguínea. • Função endócrina: secreção de óxido nítrico -> promove relaxamento das células musculares lisas da túnica média e inibe a agregação plaquetária. • Expressão de moléculas de adesão celular: Como a molécula de adesão celular vascular 1 (VCAM-1), responsável pela adesão e internalização de células inflamatórias do lúmen vascular para o interior de sua parede. Células musculares lisas: estão localizadas na camada média do vaso e possuem propriedade de contração e relaxamento, sendo, assim, capazes de regular o fluxo de sangue em diversos territórios arteriais • Essas células também sintetizam matriz extracelular (sobretudo colágeno) e podem migrar para a camada íntima durante o desenvolvimento da placa aterosclerótica Túnica íntima: camada mais interna, sendo composta por uma monocamada de células endoteliais, que ficam apoiadas na lâmina elástica interna, uma membrana que separa esta camada da seguinte, a túnica média. Túnica média: é constituída pelas células musculares lisas, em camadas concêntricas de disposição helicoidal, permeadas por matriz composta de colágeno fibrilar e glicoproteínas variadas. Em geral encontramos a lâmina elástica externa. Túnica adventícia: mais externa, é formada principalmente por colágeno tipo 1 e fibras elásticas. Em geral, apresenta continuidade com o tecido conjuntivo do órgão onde o vaso está localizado. A formação da placa aterosclerótica é um processo complexo dividido em fases: • Fase inicial da aterogênese. • Fase de desenvolvimento da estria gordurosa. • Fase de progressão para placa complexa. • Fase de rotura da placa. Fase inicial da aterogênese O endotélio normal impede a adesão de células inflamatórias. Porém, fatores de risco alteram essa função. Principais fatores desencadeantes: • Dislipidemia (↑ LDL) • Tabagismo • Hipertensão • Hiperglicemia/diabetes • Obesidade e resistência à insulina • Dieta rica em gorduras saturadas Fatores não tradicionais: • CHIP (mutações clonais hematopoiéticas) • Estresse crônico e eventos adversos na infância (ACE) Esses fatores induzem disfunção endotelial. O principal ator nesse mecanismo é a LDL. Quando há disfunção endotelial, a LDL é retida na íntima arterial e fica sujeita a oxidação e modificação molecular. A imunidade adaptativa reage à LDL oxidada e desencadeia uma resposta imune multifacetada. O movimento quase contínuo desta lipoproteína entre o plasma e a íntima propicia um estado pró-inflamatório crônico, e sem resolução, na parede vascular. As células endoteliais e células musculares lisas reagem à LDL oxidada e expressam moléculas de adesão, principalmente: • VCAM-1 → permite a adesão de monócitos e linfócitos T Após uma fase inicial de rolamento, mediada por moléculas endoteliais de adesão denominadas selectinas, os monócitos passam para a fase de adesão firme, caracterizada pela interação entre a VCAM-1 do endotélio e moléculas específicas de integrina na superfície dos monócitos e linfócitos T. Uma vez aderidos ao endotélio arterial, os monócitos penetram por meio do endotélio e entram na íntima do vaso por diapedese, processo dependente de um gradiente quimiotático, gerado, por exemplo, pela proteína quimiotática de monócito (MCP-1). Fase de desenvolvimento da estria gordurosa Na íntima das artérias, monócitos maturam- se em macrófagos e após a internalização excessiva de lipídios modificados, os macrófagos tornam-se células espumosas. O acúmulo dessas células na íntima caracteriza a estria gordurosa. Características da estria gordurosa • Lesão aterosclerótica precoce • Ainda reversível • Geralmente assintomática • Sem repercussões clínicas nessa fase As ações de fagocitose e de liberar citocinas exercidas por estes macrófagos são componentes da chamada resposta imunológica inata. Hoje, sabemos também, entretanto, que a resposta imune adaptativa também contribui para a aterogênese. De maneira especial, os linfócitos TCD4+ que apresentam resposta TH1 contribuem para progressão das lesões ateroscleróticas. Fase de progressão para placa complexa A deposição do tecido fibroso define a lesão aterosclerótica mais avançada, com a formação da capa fibrosa. Nesta fase, as células musculares lisas sintetizam a matriz extracelular. Essas células migram da túnica média para a íntima em resposta à produção de fator de crescimento derivado de plaqueta secretado pelos macrófagos ativados e pelas células endoteliais, processo em parte estimulado pela degradação da matriz extracelular pela metaloproteinase de matriz 9 (MMP-9) e por outras proteinases. Concomitantemente, mais macrófagos e linfócitos T infiltram as lesões ateroscleróticas e localizam-se preferencialmente na borda do ateroma, onde a atividade inflamatória é mais ativa e por onde se dá o crescimento da placa. Fase de rotura da placa É um evento cardiovascular crítico em que a capa fibrosa que cobre uma placa de gordura (ateroma) nas artérias se rompe, expondo o conteúdo interno da placa ao sangue • É a complicação mais grave da aterosclerose • Base fisiopatológica da maioria das síndromes coronárias agudas (SCA) Acredita-se que para a rotura acontecer deva haver um desequilíbrio entre produção e degradação de matriz extracelular que compõe a capa fibrosa, sendo que, no cômputo final, haja predomínio da degradação da matriz, enfraquecimento da capa e rotura. Com a rotura, as moléculas de fator tecidual do núcleo lipídico exposto, proveniente das células espumosas e de partículas apoptóticas de CMLs, irão interagir com moléculas de fibrinogênio e inibidor do ativador plasminogênio (PAI-1) presentes no sangue, levando à formação de um trombo sobre a placa rota. • Estáveis: Predomínio de colágeno, capa fibrosa espessa, poucas células inflamatórias e núcleo lipídico menor. • Instáveis: Intensa atividade inflamatória e proteolítica, capa fibrótica tênue e núcleo lipídico proeminente. A ruptura expõe material trombogênico (aterotrombose). Estenose arterial (fase crônica) A aterosclerose evolui lentamente e por anos, geralmente assintomática. A artéria inicialmente se remodela para fora (alargamento compensatório). Só há redução do lúmen quando a placa ultrapassa essa capacidade de adaptação. Quando surgem sintomas? • Estenose > 60% → limitação do fluxo em situações de maior demanda. Manifestações típicas: • Angina estável (coronárias) • Claudicação intermitente (membros inferiores) -> é uma dor, tipo cãibra ou queimação, que surge nas pernas (geralmente panturrilhas) durante a caminhada e alivia com o repouso Infarto e síndromes coronarianas agudas (SCA) Nem todo infarto ocorre por estenose grave • Apenas ~15% dos IAM tinham estenose crítica prévia. • O principal fator não é o grau de obstrução, mas a instabilidade da placa. • Lesões não críticas são mais numerosas → causam mais IAM no total • Estenoses graves têm maior risco individual, mas são menos frequentes Trombose associada à placa aterosclerótica Dois mecanismos principais: 1. Rotura da capa fibrosa (≈ 2/3 dos IAM) • Exposição do núcleo lipídico altamente trombogênico • Formação de trombo sobre a placa 2. Erosão superficialda placa (≈ 25–30% dos IAM) • Não há rotura da capa fibrosa • Há perda do endotélio • Exposição da íntima rica em CML e proteoglicanos Características: • Menor inflamação que na rotura • Predomínio de plaquetas e neutrófilos • Núcleo lipídico menor Mecanismos envolvidos: • Apoptose das células endoteliais • Metaloproteinases degradam membrana basal • Vasoespasmo pode contribuir Formação do trombo • Exposição de fator tecidual • Ativação da coagulação • Trombo pode ser: o Oclusivo → IAM com supra o Parcial/transitório → angina instável ou IAM sem supra A doença arterial coronariana estável (DAC) pode ser caracterizada como uma alteração anatômica e/ou funcional, levando à isquemia do músculo cardíaco, quase sempre reversível e, muitas vezes, relacionadas aos esforços – aumento da demanda de oxigênio e/ou diminuição da oferta, seja acompanhada de sintomas ou não. São diversas as situações clínicas que podem levar ao distúrbio entre a oferta e a demanda de oxigênio, sendo a aterosclerose com subsequente diminuição da luz coronariana a mais comum. Outros mecanismos incluem: A representação clínica da DAC pode ser identificada em suas formas crônica, como a angina estável, e aguda, nas síndromes coronarianas agudas (SCA), com supra ST e sem supra ST. A classificação diagnóstica inicial baseia-se primordialmente no eletrocardiograma (ECG): 1. Angina Instável (AI): Isquemia sem evidência de necrose miocárdica (marcadores de necrose, como troponina, estão negativos). 2. IAM sem Supradesnivelamento do Segmento ST (IAMSSST): Isquemia grave o suficiente para causar necrose (troponina positiva), mas sem oclusão total e persistente da artéria. 3. IAM com Supradesnivelamento do Segmento ST (IAMCSST): Oclusão coronariana total e aguda. Requer intervenção imediata para reperfusão. • Dor Torácica (Angina): Classicamente descrita como opressiva, retroesternal, podendo irradiar para mandíbula, dorso ou braço esquerdo. • Equivalentes Anginosos: Dispneia, sudorese fria, náuseas e vômitos (comuns em idosos, mulheres e diabéticos). O diagnóstico da doença arterial coronariana estável (DAC) deve seguir os princípios da semiologia médica, ou seja, deve incluir a anamnese detalhada, exame físico e exames subsidiários. Na história clínica, além da avaliação da dor torácica, quando existente, é fundamental que os antecedentes pessoais e familiares sejam explorados adequadamente. Doenças associadas também são igualmente importantes, pois muitos delas podem, mesmo isoladamente, levar ao diagnóstico de DAC, como no caso de um infarto do miocárdio prévio por exemplo. O exame clínico normalmente não mostra alterações específicas nos pacientes com DAC, ainda que sintomáticos. Contudo, doenças associadas podem manifestar alterações significativas no exame físico, como por exemplo, na doença aterosclerótica grave das carótidas, quando os sopros podem ser detectados. Pacientes com insuficiência cardíaca (IC) ou arritmias também podem apresentar alterações relevantes no exame físico. A dor torácica, ou angina do peito, sintoma típico da DAC, tem característica própria, cuja presença pode praticamente confirmar o diagnóstico em certos contextos. O desconforto no peito causado pela isquemia miocárdica é geralmente localizado no precórdio, em aperto, piora com as atividades físicas e melhora com o repouso. Além de caracterizar a dor torácica e definir se é angina típica ou não, cabe ao médico classificar a intensidade dos sintomas. O método mais usado é a classificação da Sociedade Canadense de Cardiologia (CCS), como pode ser notado a seguir: Classe I: atividades habituais não causam angina, como andar ou subir escadas. Sintomas podem aparecer em atividades intensas ou muito prolongadas. Classe II: leve limitação das atividades habituais. Sintomas presentes ao caminhar ou subir escadas rapidamente. Atividades mais leves podem causar sintomas no frio, após as refeições ou durante momentos de estresse. Os sintomas também podem estar presentes em caminhadas maiores do que 100 a 200 metros. Classe III: grande limitação das atividades habituais. Sintomas presentes durante caminhadas no plano, ainda que curtas – menores que 100 a 200 metros. Sintomas ao subir um lance de escadas em condições normais. Classe IV: limitação de todas as atividades. Sintomas presentes até mesmo em repouso. Entre os exames que podem ajudar na avaliação inicial do paciente com suspeita de DAC, destacam-se: Exames bioquímicos • Para avaliar diabetes: glicemia de jejum, hemoglobina glicada (HbA1c) e teste de tolerância oral à glicose • Avaliação da função renal: cálculo da filtração glomerular • Níveis lipídicos: colesterol total, HDL, LDL e triglicerídeos • Analise das troponinas • Testes inespecíficos: PCR, hemograma, função hepática e tireoidiana. Eletrocardiograma em repouso e dinâmico (Holter) Alteração do segmento ST e da onda T, principalmente as dinâmicas, são fortemente sugestivas de doença coronária O Holter, geralmente de 24 horas, pode ser indicado em pacientes portadores de DAC e com suspeita de arritmia, podendo também ser útil no diagnóstico de angina vasoespástica. RX de tórax • Não diagnostica DAC • Importante para diagnóstico diferencial: Insuficiência cardíaca (cardiomegalia, congestão pulmonar) Dissecção de aorta Doenças pulmonares que mimetizam dor torácica Ecocardiograma em repouso Não é sempre necessário Os achados mais comuns relacionados à doença são as alterações segmentares do ventrículo esquerdo que, inclusive, podem determinar, com alguma precisão, qual a artéria comprometida. Ecocardiograma com estresse Como funciona: • Estresse físico (esteira) ou farmacológico (dobutamina) • Avalia contratilidade segmentar sob estresse Princípio fisiopatológico: • Isquemia → ↓ ATP → ↓ contratilidade • Surge hipocinesia/acinesia durante o estresse Cintilografia miocárdica (SPECT) • Radioisótopo captado proporcionalmente ao fluxo sanguíneo • Comparação repouso × estresse Interpretação: • Defeito reversível → isquemia • Defeito fixo → fibrose/infarto antigo Ressonância Magnética Cardíaca (RMC) Avalia perfusão, contratilidade e viabilidade miocárdica • Uso de gadolínio (realce tardio) Por que é considerada padrão-ouro funcional: Medida mais precisa da fração de ejeção Diferencia: • Miocárdio viável • Fibrose subendocárdica vs transmural Angiotomografia coronariana TC com contraste que visualiza diretamente as coronárias O que responde: • Existe placa? • Qual grau de estenose? • Placa calcificada ou não calcificada? Indicação clássica: • Risco intermediário • Testes funcionais conflitantes ou inconclusivos Cateterismo cardíaco (angiografia invasiva) • Contraste injetado diretamente nas coronárias • Visualização em tempo real Por que é o padrão-ouro anatômico: • Define localização, grau e extensão das lesões • Permite intervenção imediata (angioplastia/stent) Ferramenta Papel no Diagnóstico ECG de 12 derivações Deve ser realizado em até 10 minutos da chegada. Identifica o supra de ST ou inversão de onda T. Troponina (I ou T) Padrão-ouro. Preferência para a Troponina Ultrassensível, que permite protocolos de descarte/confirmação rápidos (0h/1h ou 0h/3h). Ecocardiograma Avalia a função ventricular e alterações de contratilidade segmentar. Angiografia (Cateterismo) Define a anatomia coronariana e a estratégia de revascularização. Nota pra compreensão: A fração de ejeção (FE) normal do ventrículo esquerdo em adultos saudáveis situa-se, geralmente, entre 50% e 70%. Alto risco > 3% de mortalidade/ano Função ventricular muito ruim • FEVE35% (em repouso ou no estresse) Teste ergométrico de alto risco • Escore de Duke