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A febre reumática aguda (FRA) é uma síndrome autoimune sistêmica que envolve articulações, coração, cérebro, pele e tecidos subcutâneos, desenvolvendo-se após exposição a infecção por Streptococcus pyogenes (estreptococo do grupo A) na forma de faringite ou impetigo. Embora a maioria dos sintomas resolva em semanas a meses, aproximadamente metade dos pacientes com cardite reumática progride para doença cardíaca reumática (DCR) com dano valvar persistente. A febre reumática afeta aproximadamente 55 milhões de pessoas globalmente (dados de 2021), representando aumento de 1,7 vezes desde 1990, atribuído principalmente ao crescimento populacional. O estreptococo do grupo A causou estimados 618 milhões de novas infecções e meio milhão de casos de FRA anualmente em 2019. A incidência anual varia de 8 a 51 por 100.000 crianças e jovens, com as taxas mais altas em países de baixa e média renda. Existe relação inversamente proporcional entre a carga de DCR e o índice sociodemográfico de um país. As populações indígenas na Oceania e Canadá apresentam carga desproporcionalmente maior. A doença afeta predominantemente crianças em idade escolar (5-15 anos), com pico de prevalência de DCR entre 25-29 anos, mostrando predominância feminina após a adolescência. A FRA desenvolve-se como sequela pós- infecciosa de faringite ou impetigo por estreptococo do grupo A (Streptococcus pyogenes). A doença manifesta-se 2-4 semanas após a infecção. Apenas 3-6% dos pacientes com infecção estreptocócica desenvolvem FRA, sugerindo papel de fatores socioeconômicos, cepas virulentas de estreptococos e suscetibilidade genética do hospedeiro. Deve haver uma suscetibilidade do hospedeiro: HLA classe II (no Brasil, os tipos DR7 e DR53 aumentam a suscetibilidade da pessoa em ter um surto de febre reumática) O mecanismo fisiopatológico permanece incompletamente compreendido, mas envolve mimetismo molecular e resposta autoimune. Duas teorias principais explicam a patogênese: Teoria do mimetismo molecular Tudo começa com infecção por Streptococcus pyogenes (faringoamigdalite). • A bactéria possui proteína M, altamente antigênica. • O sistema imune é ativado -> resposta humoral (anticorpos) + celular (linfócitos T). Até aqui é uma resposta normal. A proteína M do estreptococo é estruturalmente semelhante a proteínas humanas. Esses anticorpos reagem cruzadamente com tecidos do próprio corpo No coração: Anticorpos anti-estreptococo se ligam ao endotélio valvar Isso ativa o endotélio (estado pró- inflamatório) O endotélio começa a expressar mais: • VCAM-1 (Vascular Cell Adhesion Molecule-1) -> é uma molécula de adesão expressa nas células endoteliais. • outras moléculas de adesão Resultado: cardite reumática Teoria do neoantígeno A proteína M possui um motivo chamado PARF (uma pequena sequência específica de aminoácidos dentro de uma proteína, que tem uma função biológica definida) • Ele se liga ao colágeno tipo IV • Isso altera sua estrutura → o colágeno vira um neoantígeno • Sistema imune passa a produzir anticorpos anticolágeno Cada órgão é afetado por um mecanismo imunológico específico: Coração • Inflamação autoimune mediada por células T e citocinas • Formação dos corpos de Aschoff (lesão típica) -> Consistem em foco de degeneração fibrinóide do colágeno rodeado por células inflamatórias, incluindo macrófagos ativados (células de Anitschkow, conhecidas como "células em olho de coruja") Pancardite: endocardite + miocardite + pericardite Articulações (artrite) • Deposição de imunocomplexos • Inflamação aguda migratória Característica: artrite migratória de grandes articulações Sistema nervoso (Coreia de Sydenham) Anticorpos contra: • receptores de dopamina • lisogangliosídeos Interferência nos núcleos da base → movimentos involuntários Pele Reação de hipersensibilidade tardia Exemplos: • eritema marginado • nódulos subcutâneos A faringoamigdalite causada pelo estreptococo beta-hemolítico do grupo A é caracterizada por: • Mais comum entre os 5 e 15 anos de idade; • Início agudo de dor em orofaringe acompanhada de mal-estar geral, vômitos; • Febre elevada; • Edema e hiperernia de orofaringe, além de petéquias e exsudato purulento; • Adenopatia cervical dolorosa. Manifestações Articulares (60-80% dos casos) Apresentam-se como poliartrite não supurativa, assimétrica e migratória afetando predominantemente grandes articulações (punho, cotovelo, tornozelo, joelho). Em áreas de alta incidência, monoartrite e poliartralgia também são observadas. Os sintomas respondem a anti-inflamatórios não esteroides e resolvem espontaneamente em 4 semanas. Cardite (50-70% dos casos) A valvulite (endocardite) envolvendo regurgitação mitral seguida pela aórtica é a marca registrada da cardite reumática. Valva mais acometida: mitral, seguida do comprometimento valvar mitral e aórtico. Pode apresentar-se como pancardite envolvendo endocárdio, miocárdio e pericárdio. Aproximadamente 12-21% dos casos são subclínicos, detectados apenas por ecocardiografia. Achados clínicos incluem sopro holossistólico apical de alta frequência irradiando para axila ou sopro mesodiastólico de Carey Coombs. Distúrbios de ritmo são frequentemente autolimitados, com metade dos pacientes apresentando prolongamento do intervalo PR. Pode levar ao óbito na fase aguda da doença e pode determinar sequela valvar tardia De acordo com a gravidade, a cardite pode se apresentar como: Grau Clínica RX de tórax ECG Ecocardiogram a Subclínica Normal (sem achados ao exame) Normal Pode ter ↑ PR / QTc BAV de 1º grau Regurgitação leve (mitral/aórtica ) com padrão patológico Leve Taquicardia, bulhas abafadas, sopro mitral sistólico ou aórtico diastólico Normal Pode ter ↑ PR / QTc Regurgitação leve a moderada, sem dilatação Moderada Taquicardia + sopros intensos, pode ter sopro de Carey Coombs, sinais de IC Leve cardiom egalia + congestã o Alteraçõe s PR, QTc, ST-T, arritmias, QRS baixo Regurgitação moderada + leve/moderada dilatação de câmaras Grave Insuficiência cardíaca franca, pode ter atrito pericárdico Cardiom egalia + congestã o importan te Alteraçõe s + sobrecarg a de câmaras Regurgitação importante + dilatação significativa Mulher com dupla lesão mitral e dispneia progressiva. Implantada bioprótese mitral, após a alta hospitalar, entrou em insuficiência cardíaca. Observam-se no ECG, BAV do primeiro grau, extrassístoles supraventriculares e QTc longo Como memorizar rápido (padrão de progressão) • Subclínica → só eco altera • Leve → clínica leve + eco sem dilatação • Moderada → começa dilatar + congestionar • Grave → insuficiência cardíaca + cardiomegalia importante Coreia de Sydenham (10-30% dos casos) Ocorre predominantemente em meninas pré- púberes, apresentando-se com movimentos involuntários sem propósito das extremidades e tronco que desaparecem durante o sono. Pode incluir distúrbios neuropsiquiátricos, disartria, disgrafia e hipotonia. O período de latência é de 1-6 meses, podendo ocorrer sem evidência sorológica de infecção estreptocócica. Os sintomas geralmente remitem em 6 meses, mas podem persistir até 2 anos. Manifestações Cutâneas e Subcutâneas (O diagnóstico baseia-se nos Critérios de Jones revisados em 2015 pela American Heart Association, que dividem as manifestações em maiores e menores, diferenciando populações de baixo risco versus moderado/alto risco. Critérios Diagnósticos Para diagnóstico de FRA inicial: 2 manifestações maiores OU 1 maior + 2 menores Para FRA recorrente: 2 maiores OU 1 maior + 2 menores OU 3 menores Todos requerem evidência de infecção estreptocócica precedente Populações de baixo risco: incidência de FRA iniciar profilaxia secundária para evitar recorrência Supressão da inflamação: • Anti-inflamatórios não esteroides (naproxeno preferível à aspirina): naproxeno 250-500 mg a cada 12h (adultos) ou 10-20 mg/kg/dia dividido a cada 12h (crianças, máximo 1.000 mg/dia) até alívio da dor, depois redução gradual • Corticosteroides para cardite grave ou refratária: prednisolona/prednisona 1- 2 mg/kg/dia (máximo 80 mg/dia), redução após 2-3 semanas • Tratamento da coreia: Repouso em ambiente calmo (quadros leves). Nas formas graves com interferência nas atividades habituais pode ser necessário internamento e uso de medicação para controle do quadro. - Haloperidol -> 1-5 mg/dia - Ácido valproico -> 10-30 mg/kg/dia - Corticoide -> pode ser utilizado • Importante: AINEs e esteroides não previnem progressão para DCR A profilaxia secundária com penicilina é a pedra angular do manejo de FRA/DCR, prevenindo recorrências e progressão do dano valvar. Regimes recomendados: • Penicilina G benzatina 1,2 milhão UI IM, 21/21 dias se ≥ 20 kg (preferencial) • Penicilina V 250 mg VO 2x/dia • Sulfadiazina 1g VO 1x/dia -> alergia a penicilina • Macrolídeos/azalídeos para alérgicos (evitar com inibidores de CYP3A) Duração da profilaxia: • FRA sem cardite: até 21 anos OU 5 anos após último episódio (o que for mais longo) • FRA com cardite prévia, sem sequelas: até 25 anos OU 10 anos após último episódio (o que for mais longo) • FRA com cardite prévia e com sequelas: até 40 anos OU 10 anos após último episódio (o que for mais longo); profilaxia vitalícia pode ser necessária • Após cirurgia valvar: por toda a vida Insuficiência cardíaca: inibidores da ECA, diuréticos e nitratos Coreia de Sydenham: geralmente autolimitada, suporte sintomático Artrite: responde rapidamente a AINEs; considerar diagnósticos alternativos se refratária