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Aula 1 - MII A Fibrilação Atrial é a arritmia sustentada mais comum na prática clínica. Ocorre em 1 a 2% da população Sua prevalência apresenta uma predileção por faixas etárias avançadas e é mais frequente em homens. Costumam ter frequência entre 350-600 bpm É identificada no ECG pela: • Ausência de ondas P • Presença de intervalos RR completamente irregulares • Presença de ondas de ativação atrial irregular (ondas f). • Idade -> ocorre em 5 a 15% dos pacientes acima dos 80 anos • HAS • Valvopatias • Distúrbios da tireoide • DM • IC • Apneia do sono -> hiperestimulação adrenérgica Iniciação Normalmente, o ritmo do coração vem do nó sinoatrial (SA). Na FA, isso é “sequestrado” por focos ectópicos (batimentos extras anormais), principalmente nas veias pulmonares do átrio esquerdo. Essas regiões apresentam características que aumentam a vulnerabilidade para ectopia, incluindo maior potencial de membrana em repouso, canais ativados por estiramento e padrão de orientação cruzada das miofibras. Pacientes com insuficiência cardíaca congestiva, valvopatia mitral e miocardiopatia hipertrófica possuem maior predisposição para o desenvolvimento da FA. Isso se deve à dilatação e fibrose do átrio esquerdo observadas nessas patologias -> estiramento excessivo Durante a FA, os átrios são ativados em frequências muito altas (≈ 350–600 bpm) Isso leva a: • ↑ influxo de Ca²⁺ intracelular • Sobrecarga de cálcio nos miócitos Esse excesso de Ca²⁺ é o principal sinalizador do remodelamento elétrico Remodelamento elétrico O coração tenta se “proteger” da sobrecarga de cálcio, mas isso acaba favorecendo a FA. a) Redução das correntes de cálcio (ICa-L) • ↓ expressão dos canais de Ca²⁺ tipo L Consequência: • Encurtamento da fase 2 do potencial de ação • ↓ Entrada de Ca²⁺ b) Aumento das correntes de potássio -> repolarização mais rápida Com ↓ Ca²⁺ + ↑ K⁺: • o potencial de ação fica mais curto • a célula repolariza mais rápido Como o potencial de ação encurta: • O período refratário também diminui Ou seja: • a célula fica pronta para ser reestimulada mais cedo Remodelamento estrutural O átrio sofre alterações físicas: • Fibrose (depósito de colágeno) • Depósitos fibroadiposo • Inflamação • Hipertrofia • Expressão alterada de canais iônicos Isso causa: Condução elétrica lenta e irregular Facilita circuitos de reentrada Fatores contribuintes Principais gatilhos clínicos: • Hipertensão → estiramento atrial • Obesidade → inflamação + estresse oxidativo • Valvopatias (ex: mitral) • Apneia do sono -> disfunção autonômica “FA gera FA” Um aspecto fundamental da fisiopatologia é que o remodelamento atrial induzido pela FA aumenta a vulnerabilidade do coração à indução e manutenção da FA Padrão de FA Definição Paroxística Termina espontaneamente ou com intervenção em até 7 dias. Persistente Continuamente sustentada por mais de 7 dias e menos que 1 ano Persistente de Longa Duração FA com duração maior que 1 ano Permanente Aceita pelo paciente e médico; não serão feitas novas tentativas de controle de ritmo. A abordagem dos 4S da fibrilação atrial (FA) é uma forma moderna de estratificar o paciente de maneira completa, indo além de “tem ou não FA”. Ela organiza o raciocínio clínico em 4 domínios que guiam decisão terapêutica. Os 4 domínios são: 1. Stroke risk (risco de AVC) 2. Symptoms (sintomas) 3. Severity of AF burden (carga da FA) 4. Substrate (substrato estrutural) Stroke Risk (risco de AVC) Aqui você avalia o risco tromboembólico usando o CHA₂DS₂-VASc. Interpretação prática: • 0 → baixo risco • ≥1 (homem) ou ≥2 (mulher) → considerar anticoagulação • ≥2 (homem) ou ≥3 (mulher) → anticoagulação indicada Symptoms (sintomas) A FA pode ir de silenciosa até incapacitante. Sintomas comuns: • palpitações • fadiga • dispneia • tontura Severity of AF burden (carga da FA) Refere-se a quanto tempo o paciente fica em FA. • Paroxística -> episódios que revertem espontaneamente ( dura > 7 dias ou precisa cardioversão • Persistente de longa duração -> 12 meses • Permanente -> FA aceita (não se tenta mais reverter) Também inclui: • frequência dos episódios • duração dos episódios Quanto maior a carga → maior remodelamento → mais difícil reverter Substrate (substrato) Aqui você avalia o “terreno” do coração onde a FA ocorre. Inclui: Alterações estruturais: • aumento do átrio esquerdo • fibrose atrial • valvopatias Doenças associadas: • insuficiência cardíaca • hipertensão • cardiopatias estruturais Fatores de risco: • obesidade • apneia do sono • álcool Substrato mais alterado → pior resposta ao tratamento Maior chance de recorrência O tratamento da fibrilação atrial envolve três pilares principais: anticoagulação para prevenir AVC, controle da frequência cardíaca ou do ritmo, e modificação de fatores de risco. A abordagem deve ser individualizada com base no risco de AVC, sintomas, comorbidades e preferências do paciente. Anticoagulação para Prevenção de AVC O risco de AVC é avaliado usando o escore CHA₂DS₂-VASc: pacientes do sexo masculino com escore ≥2 ou feminino com escore ≥3 geralmente se beneficiam da anticoagulação. Os anticoagulantes orais diretos (DOACs) como apixaban, rivaroxaban ou edoxaban são recomendados sobre a varfarina na maioria dos pacientes devido ao menor risco de sangramento. A varfarina é preferida em pacientes com estenose mitral moderada a grave ou válvulas cardíacas mecânicas. Controle de Frequência O controle de frequência é apropriado para pacientes com FA permanente (estágio 4) ou aqueles que não se beneficiariam do controle de ritmo. Os medicamentos incluem: • Betabloqueadores (metoprolol, esmolol, atenolol) • Bloqueadores dos canais de cálcio não-diidropiridínicos (verapamil, diltiazem) • Digoxina como terapia adjuvante quando a frequência ventricular permanece mal controlada O objetivo é controlar sintomas e alcançar frequência cardíaca de repouso His-Purkinje) . Doença do Nó Sinusal (DNS) Caracteriza-se pela falha do automatismo ou da condução sinoatrial. Principais Manifestações: • Bradicardia Sinusal: FC 3 segundos. • Síndrome Taqui-Bradi: Alternância entre bradicardia e taquiarritmias (como FA ou Flutter). Bradicardia sinusal. ECG exibindo uma FC de 44 bpm. Nota a presença de ondas P sinusal antes de cada complexo QRS. Etiologia: Fibrose degenerativa idiopática (mais comum no idoso) ou causas secundárias como Doença de Chagas (comum no Brasil) e isquemia coronariana. A presença dessas alterações associadas à tontura, pré-síncope ou síncope define a doença do nó sinusal. Mais frequente em mulheres entre 60 e 69 anos. Bloqueios Atrioventriculares (BAV) Ocorrem por atraso ou interrupção da condução entre átrios e ventrículos. Tipo de BAV Característica Eletrocardiográfic a Gravidade/Condut a 1º Grau Intervalo PR > 200 ms; todas as ondas P conduzem. Geralmente benigno; sintomas raros. 2º Grau Mobitz I Prolongamento progressivo do PR até uma onda P ser bloqueada (Wenckebach). Frequentemente funcional (vagal), comum em atletas/sono. 2º Grau Mobitz II Bloqueio súbito de onda P sem alteração prévia do PR. Risco de progressão para BAVT; geralmente infra-nodal. Bloqueio 2:1 2 ondas P → 1 conduz, 1 bloqueia Não dá pra saber facilmente se é tipo I ou II BAV Avançad o ≥ 2 ondas P consecutivas não conduzidas. Alto risco clínico. 3º Grau (BAVT) Dissociação completa entre átrios e ventrículos; intervalos PP e RR regulares entre si, mas independentes Emergência médica; indicação de marcapasso. Bloqueio atrioventricular de primeiro grau • Intervalo PR > 0,2 segundo; toda P é seguida de QRS. • Na maioria dos casos o bloqueio é nodal (75%). • Geralmente benigno -> assintomático Bloqueio AV de segundo grau Presença de ondas P bloqueadas -> sem QRS • Tipo I ou Mobitz I ou Wenckebach: aumento progressivo do intervalo PR, com PR cada vez mais longo até ocorrer P bloqueada -> Na maioria das vezes o bloqueio é nodal. • Tipo II ou Mobitz II: bloqueios súbitos da onda P, sem aumento gradativo do intervalo PR Localizado geralmente no feixe de His ou infra-hissiano e, portanto, mais grave -> -> pode evoluir para BAV total O bloqueio 2:1 é um bloqueio de segundo grau no qual, para cada duas ondas P, uma conduz e a outra é bloqueada. Bloqueio avançado Caracteriza-se por duas ou mais ondas P bloqueadas de forma consecutiva Bloqueio AV de terceiro grau Dissociação entre a onda P e o QRS. Pode ser agudo ou crônico, contínuo ou intermitente, supra, intra ou infra-His. A frequência da onda P tem que ser maior do que a frequência do QRS. Ritmo de escape O coração “se vira” criando um novo marcapasso: Escape alto (nodal) • QRS estreito • FC ~40–60 bpm • Origem: nó AV ou região do feixe de His (acima ou próximo do bloqueio) Escape baixo (ventricular) • QRS largo • FC ~20–40 bpm (mais grave) • Origem: abaixo do feixe de His (infra- His) ou diretamente no miocárdio ventricular Os pacientes podem apresentar tontura, alteração aguda do estado mental, desconforto torácico isquêmico, insuficiência cardíaca aguda, hipotensão ou síncope devido à diminuição do débito cardíaco e hipoperfusão tecidual. A gravidade dos sintomas depende do grau de bradiarritmia, da frequência ventricular, da transitoriedade das anormalidades e das condições médicas subjacentes. A avaliação inicial deve incluir história completa, exame físico e ECG de 12 derivações. A história deve detalhar frequência, duração, gravidade e circunstâncias dos sintomas, além de revisão completa de medicamentos. Para sintomas frequentes, monitores ambulatoriais externos são apropriados; para sintomas infrequentes, monitores cardíacos implantáveis podem ser necessários. Para bradicardia sintomática aguda, o tratamento inicial inclui atropina (eficaz em estudos observacionais) -> antagonista muscarínico Se a atropina for ineficaz, as alternativas razoáveis incluem marcapasso transcutâneo, infusão de epinefrina ou dopamina. Para bradicardia grave causando choque sem acesso IV/IO disponível, o marcapasso transcutâneo imediato pode ser realizado enquanto o acesso é obtido. Quando refratária ao manejo médico, a colocação de cateter de marcapasso transvenoso temporário é o próximo passo razoável. O manejo crônico depende do tipo de bradiarritmia e da presença de sintomas. Para bloqueio AV de segundo grau Mobitz tipo II, bloqueio AV de alto grau e bloqueio AV de terceiro grau, o marcapasso permanente é recomendado independentemente dos sintomas.