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Alimentação Infantil: Do Aleitamento à Introdução Alimentar Docente: Drª Érica Portela | Turma: 7º semestre NUTROLOGIA PEDIÁTRICA SBP / OMS / ANVISA É consenso que o aleitamento materno é a base da alimentação infantil e deve ser oferecido de forma exclusiva nos primeiros seis meses de vida, sendo continuado pelo menos até o segundo ano ou mais, se possível. Contraindicações da Amamentação HIV: transmissão através do leite; Drogas antineoplásicas e imunossupressoras; Amiodarona; Androgênios; Ciclosporina; HTLV 1 e 2; Lesões ativas de herpes; Psicose puerperal; Galactosemia: doença genética e hereditária rara em que o corpo não consegue digerir a galactose, um açúcar presente no leite e em seus derivados. Na impossibilidade do aleitamento natural no primeiro ano de vida, sem possibilidade de relactação, há indicação de uso de fórmulas infantis, não sendo considerada adequada a introdução de leite de vaca não modificado, nesta faixa etária. Desmame Precoce e Relactação Quando a criança chegar à unidade de saúde com aleitamento misto (leite materno + leite de vaca), ou tendo sido desmamada, tentar relactação. Para isso, é indispensável a colaboração da mãe e a boa vontade da equipe de saúde. Relactação com sonda Colocar o leite numa seringa ou outro recipiente, ligando-o a uma sonda que deve ser presa ao seio, perto do mamilo. Este recipiente deve ficar numa posição mais elevada que o seio materno. A criança sugará o mamilo e a sonda ao mesmo tempo e, à medida que se alimenta, também estimula a produção do leite materno. Alimentação Artificial Na impossibilidade de se proporcionar aleitamento materno exclusivo nos primeiros meses de vida, a complementação da nutrição do lactente será realizada preferencialmente pela administração de fórmula infantil (regulamentada pela ANVISA). A partir dos 12 meses de vida as fórmulas infantis não são recomendados em lactentes saudáveis, tendo em vista que não apresentam evidência de vantagens. As fórmulas infantis possuem uma composição nutricional planejada para atender às necessidades do bebê. Tipos de fórmulas infantis Fórmulas infantis de partida: para lactentes do nascimento até seis meses. Fórmulas infantis de seguimento: para lactentes a partir dos seis meses. Fórmulas infantis de primeira infância: para crianças de um a três anos. Como escolher? Observe os ingredientes funcionais adicionais e a quantidade, como: DHA/ARA (docosahexaenoico/ácido araquidônico) Prebióticos Probióticos HMO (Human Milk Oligosaccharides) Nucleotídeos MFGM (Milk Fat Globule Membrane) Esses componentes podem exercer efeitos sobre o desenvolvimento neurológico, retina, microbiota, intestino e sistema imunológico. DHA/ARA → cérebro e retina Nucleotídeos → imunidade/intestino HMO → microbiota + imunidade MFGM → imunidade + intestino + neurodesenvolvimento Fórmula Láctea Fórmula láctea ou composto lácteo é um produto à base de leite de vaca + adição de açúcares e aditivos e não deve ser considerada equivalente à fórmula infantil. Introdução Alimentar Complementar O Departamento de Nutrologia da SBP recomenda que a introdução alimentar seja feita aos seis meses, quando o desenvolvimento neuropsicomotor e os sistemas digestivo e renal estão prontos para receber alimentos diferentes da alimentação líquida. A introdução de alimentação complementar deve ser feita de forma gradual, com cada alimento novo sendo introduzido separadamente. A não aceitação inicial de um determinado alimento, não deve ser interpretada como uma recusa definitiva. Pelo contrário, este mesmo alimento deve ser oferecido semanas depois. São necessárias em média oito a dez exposições a este componente para que ocorra a sua aceitação plena. A consistência também deve ser assim modificada, com o oferecimento de alimentos inicialmente na forma pastosa, até pedaços sólidos com a colher. Os alimentos não devem ser processados em liquidificador. Recentemente, a Diretriz da Organização Mundial da Saúde (OMS) coloca que em lactentes não amamentados entre 6 e 11 meses fórmulas à base de leite de vaca são recomendadas e leite de vaca não modificado pode ser oferecido. Quadro 4 — Esquema sugerido de sequência de introdução de alimentos complementares Idade Orientação Até os 6 meses de idade Aleitamento materno exclusivo Dos 6 aos 24 meses ou mais Aleitamento materno nos intervalos das refeições com outros alimentos Por volta de 6 meses de idade Primeira refeição principal (almoço ou jantar – com todos os grupos alimentares) / Fruta in natura (1 vez ao dia) Por volta de 7 meses de idade (ou 30 dias após a introdução da primeira refeição principal) Segunda refeição principal (almoço ou jantar – com todos os grupos alimentares) / Fruta in natura (2 vezes ao dia) Dos 6 aos 12 meses Progressão da diversidade, consistência e quantidade dos alimentos oferecidos Nota: diversidade alimentar mínima sugerida (consumo de pelo menos 5 grupos alimentares diferentes ao dia) e frequência alimentar mínima de refeições com alimentos complementares aos 6 a 8 meses (2 a 3 vezes ao dia), 9 a 11 meses e 12 a 24 meses (3 a 4 vezes ao dia). Em relação à preparação, aconselha-se que os alimentos sejam bem cozidos, amassados com garfo e oferecidos por meio de colher. Evitar batê-los no liquidificador. Com o passar dos meses a consistência poderá se aproximar cada vez mais dos alimentos consumidos pela família, sem necessidade de ajustes, e a quantidade de alimento consumido aumenta (6 a 8 meses: 2 a 4 colheres de sopa; 12 meses: fundo de um prato médio). O aleitamento materno deve ser mantido durante o processo de introdução de alimentos complementares. Composição da Papa: Grupos Alimentares Cereal ou Tubérculo Leguminosa Proteína Animal Hortaliças Arroz Feijões Carne bovina Verduras Milho Soja Vísceras Alface Macarrão Ervilha Carne de frango Couve Batatas Lentilhas Carne suína Repolho Mandioca Grão-de-bico Carne de peixe Legumes Inhame — Ovos Tomate Cará — — Abóbora Farinha de trigo — — Cenoura Aveia — — Pepino Alimentos Potencialmente Alergênicos A introdução dos alimentos considerados potencialmente alergênicos — como ovo, peixe — pode ser realizada a partir do sexto mês de vida, mesmo em crianças com história familiar de atopia. Os estudos apontam que a introdução tardia aumenta o risco de doenças alérgicas, especialmente após o primeiro ano de vida. Alimentação complementar — principais orientações 1. Sal e açúcar Sal: deve ser evitado no primeiro ano de vida. Aumenta o risco de hipertensão arterial no futuro. Modula a percepção das papilas gustativas, favorecendo a preferência por alimentos mais salgados. Açúcar de adição: também não deve ser oferecido no primeiro ano. Tem alto teor glicêmico e energético. Estimula maior preferência pelo sabor doce. Pode interferir nas escolhas alimentares futuras e favorecer consequências do consumo excessivo. Cheiro-verde (salsa e cebolinha): pode ser utilizado como aromatizante natural. Deve ser acrescentado no final do cozimento, para preservar vitaminas e realçar o sabor. 2. Carnes e ovos Carne: oferecer aproximadamente 50–70 g/dia, considerando duas papas. Não deve ser retirada após o cozimento. Deve ser picada, tamisada (cozida e amassada com as mãos) ou desfiada. É fundamental para garantir ferro, zinco e vitamina B12. Ovo: Excelente fonte de proteínas e cofatores nutricionais e possui baixo custo. Deve ser oferecido sempre bem cozido, com clara e gema, para reduzir o risco de contaminação por bactérias da casca. Se substituir a carne bovina, deve-se considerar aumentar a suplementação de ferro, pois o ferro da gema possui baixa biodisponibilidade. 3. Óleos e peixes Preferir óleos com ácido linoleico e alfa-linolênico em proporção adequada (óleo de soja e canola). Quantidade: 3–3,5 mL para cada 100 g ou 100 mL de preparação. Estimular o consumo de peixes, principalmente: Arenque Sardinha Salmão Esses peixes fornecem DHA. 4. Frutas e sucosOferecer frutas in natura, raspadas, amassadas ou picadas, utilizando colher. Nenhuma fruta é contraindicada, exceto carambola em crianças com insuficiência renal. 5. Início da alimentação complementar A primeira papa principal de misturas múltiplas deve ser oferecida a partir dos 6 meses. Pode ser no almoço ou jantar, preferencialmente no horário em que a família também realiza a refeição. Água de coco não deve substituir a água, devido ao baixo valor calórico e à presença de sódio e potássio. Mel: não oferecer no primeiro ano. Pode conter esporos de Clostridium botulinum, capazes de produzir toxinas no intestino e causar botulismo. Café com leite: não recomendado antes dos 2 anos. Higienização de frutas, verduras e legumes Selecionar, retirando folhas ou partes deterioradas.1. Lavar:2. folhas → uma a uma, em água corrente; frutas e legumes → um a um. Deixar de molho por 10 minutos em solução de hipoclorito de sódio 2,5%:3. 20 gotas para 1 litro de água. O vinagre pode ser utilizado, mas o hipoclorito é mais eficaz. Enxaguar.4. Para reduzir resíduos de agrotóxicos:5. utilizar bicarbonato de sódio a 1%; imergir por 10 minutos em solução de 1 colher de sopa de bicarbonato para 1 litro de água. Enxaguar novamente.6. Manter sob refrigeração até o momento de servir.7. Oferta de água Deve-se oferecer água potável a partir da introdução da alimentação complementar ou quando a criança utiliza fórmula infantil. Como tornar a água potável: Ferver 1 litro de água (5 xícaras). Adicionar 2 gotas (0,08 mL) de hipoclorito de sódio 2,5%. Deixar repousar por 30 minutos. Oferta Hídrica A necessidade de água deve considerar a água livre dos alimentos. Uma criança com alimentação saudável e adequada geralmente necessita de menos água livre do que os valores totais descritos na literatura. A necessidade varia conforme: quantidade de água presente nos alimentos, perdas de líquidos e temperatura ambiental. Tabela 5 — Regra de Holiday-Segar Oferta hídrica na faixa etária pediátrica. Ex: utilizado em urgência e emergência. Fórmula Até 10 kg = 100 mL/kg/dia 10–20 kg = 1000 mL + 50 mL/kg/dia acima de 10 kg >20 kg = 1500 mL + 20 mL/kg/dia acima de 20 kg Fonte: Manual alimentação Tabela 6 — Recomendação de Água para Lactentes Idade Recome ndação (litros/d ia) Particularid ades 0–6 meses 0,7 Leite humano 7–12 meses 0,8 Leite humano e/ou fórmula infantil e alimentação complemen tar 1–3 anos 1,3 0,9 litros de líquidos (água e bebidas) Método Baby-Led Weaning (BLW) Significa: o desmame guiado pelo bebê. A oferta de alimentos complementares em pedaços, tiras ou bastões. Entre as orientações básicas estão: oferecer os alimentos preferencialmente in natura em vez de preparar papinhas, oferecer alimentos variados, sempre colocar a criança sentada e interagir com ela na hora das refeições. Assumindo os grandes questionamentos dos pais e dos profissionais de saúde relativos ao BLW, como risco de engasgo, e de baixa oferta de ferro e de calorias, um grupo de estudiosos neozelandeses, criou uma versão chamada Baby-Led Introduction to SolidS (BLISS), que significa Introdução aos Sólidos Guiada pelo Bebê (metódo modificado com orientações sobre a oferta dos alimentos. O prato deve sempre ser composto por um alimento de alto teor energético e alimentos ricos em ferro. Não devem ser oferecidos alimentos que oferecem mais risco de engasgo - os mais duros, que os bebês não conseguem amassar com a língua contra o céu da boca, ou os menores, como uvas, castanhas e tomate-cereja). O Departamento de Nutrologia da SBP recomenda que, no momento da alimentação, o lactente pode receber os alimentos amassados oferecidos na colher. Ele também deve experimentar e explorar com as mãos os alimentos oferecidos (inteiros ou parcialmente cortados), para que entre diretamente em contato com diferentes formas, texturas e temperatura como parte natural de seu aprendizado sensório- motor. Deve-se estimular a interação com a comida, evoluindo de acordo com seu tempo de desenvolvimento. https://revistacrescer.globo.com/Criancas/Alimentacao/noticia/2016/03/engasgo-quais-sao-os-alimentos-mais-perigosos-para-criancas.html Alimentação > 2 anos Similar a dos adultos. No Brasil, as famílias costumam realizar no mínimo 3 refeições principais. Ferro e Anemia: Suplementação Preventiva Os primeiros 1.000 dias (da concepção até dois anos de vida) são considerados um período crítico para o crescimento e o desenvolvimento, sendo susceptíveis às deficiências nutricionais, que podem comprometer o sistema nervoso central. O ferro é um dos principais nutrientes essenciais para mielinização e para a formação estrutural e funcional das vias neurotransmissoras. A recomendação de suplementação preventiva pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) para recém-nascido a termo, de peso adequado para a idade gestacional, em aleitamento materno, é de 1 mg de ferro elementar/kg de peso/dia a partir do terceiro mês até o 24º mês de vida. Idade Hb g/dL Anemia (Hb g/dL) Sem anemia Leve Moder ada Grave 6-59 meses ≥11,0 10,0- 10,9 7,0- 9,9 epigastralgia, diarreia ou constipação, escurece os dentes. Vitamina D e Cálcio Para garantir o aporte adequado desta vitamina e evitar sua deficiência, a SBP recomenda a suplementação nos primeiros dois anos de vida, mesmo para crianças em aleitamento materno exclusivo. 400 UI por dia a partir da primeira semana de vida até completar um ano de idade. 600 UI por dia de um ano até completar dois anos de idade. Não existe consenso. Porém o mais utilizado é baseado em que: a definição de hipovitaminose D pode variar de inferior a 12 ng/mL a inferior a 29 ng/mL. Zinco: Deficiência e Suplementação Zinco: o zinco é o segundo oligoelemento mais abundante no organismo, após o ferro. no organismo humano varia de 1,5 a 2,5 g, sendo que 95% são encontrados dentro das células, especialmente músculo e ossos. Grupos de risco para deficiência: quando há diminuição da ingestão (principal causa da deficiência): nas dietas restritivas, nos vegetarianos e diminuição da absorção: interação nutriente-nutriente, doenças que cursam com má absorção intestinal: diarreia crônica, síndrome do intestino curto, fibrose cística, doença celíaca. Nas situações que cursam com perdas excessivas: queimaduras, doenças renais, doenças hepáticas, perdas sanguíneas, diarreia, parasitose intestinal. Nas condições de maior demanda: gestação, lactação, nos prematuros. Uso de medicamentos: valproato e diuréticos tiazídicos e de alça. Quando suplementar? Em casos de perdas como na diarreia (crônica e aguda), nas situações de risco como listado acima e quando há evidência laboratorial de deficiência. A dose varia de 0,5 a 1 mg/kg/dia de zinco elementar por três a quatro meses, sendo que o tempo e as doses podem variar de acordo com a condição clínica. Nas preparações comerciais o zinco pode estar ligado a um sal, como sulfato ou a um aminoácido como a glicina, sendo que este último apresenta maior biodisponibilidade. Tabela 6. Valores de referência para zinco sérico: Estágios de vida Zinco sérico (µg/dl) 90 fL), leucopenia e/ou trombocitopenia. Dosagem sérica de B12* e da Holo-TC (vitamina B12 ativa) Dosagem de ácido fólico: pode estar normal ou aumentado. Dosagem de ácido metilmalônico (AMM) e homocisteína: auxilia na diferenciação entre deficiência de folato e B12. Na deficiência de B12 está aumentado e na deficiência de folato normal, enquanto a homocisteína está aumentada na deficiência de ambos. * Concentrações falsamente baixas: deficiência de folato, gravidez, mieloma múltiplo Concentrações falsamente normais: doenças mieloproliferativas crônicas, hepatopatias, deficiência congênita do transportador TCII. Tabela 8. Tratamento da hipovitaminose B12 Composição Hidroxicobalamina Via de administração Intramuscular Dose inicial* 100 µg/dia por 7 dias ou / 0,2 µg/kg por 2 dias, seguido de 1000 µg/dia por 2 a 7 dias ou / 1000 µg/dia por 4 dias quando há comprometimento neurológico grave Manutenção 100 a 1000 µg uma vez a cada 1 a 3 meses *Existem várias opções terapêuticas propostas (ver tabela), pois a dosagem pediátrica não está bem estabelecida. Fonte: Braga JAP, Como e quando suplementar? Via oral: Na deficiência: cianocobalamina ou metilcobalamina na dose de 50 a 150 µg/dia; quando há comprometimento neurológico grave e má absorção intestinal considerar a administração intramuscular. Suplementação: Nas crianças vegetarianas estritas: 5 µg/dia e nas Gestantes e lactantes vegetarianas estritas: 50 µg/dia A vitamina B12 está presente em boas quantidades nos alimentos de origem animal. Cereais enriquecidos com B12 podem ser fonte alimentar para indivíduos que não consomem este grupo de alimentos. Toxicidade: até o momento não existem relatos de efeitos adversos. Referências Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Guia Prático de Atualização: Alimentação da Criança de 0 a 5 anos. Departamento de Nutrologia. Disponível em: https://spdf.com.br/wp-content/uploads/2021/10/23148c- GPrat_Aliment_Cr_0-5_anos_SITE__002_.pdf Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Tratado de Pediatria. 6. ed. Barueri: Manole, 2022. https://spdf.com.br/wp-content/uploads/2021/10/23148c-GPrat_Aliment_Cr_0-5_anos_SITE__002_.pdf https://spdf.com.br/wp-content/uploads/2021/10/23148c-GPrat_Aliment_Cr_0-5_anos_SITE__002_.pdf