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Desnutrição Energético- Proteica (DEP) 7º Semestre de Medicina Docente: Drª Érica Portela DRª ÉRICA PORTELA 1. Introdução — Conceito e Definição A desnutrição é um distúrbio da nutrição decorrente da falta concomitante de calorias e de proteínas, em diferentes proporções. Sua forma primária resulta da combinação de três fatores ambientais: Carência Alimentar Falta de macro e micronutrientes na dieta da criança e da família. Falta de Saneamento Ausência de acesso a água tratada, esgoto e serviços de saúde, favorecendo quadros prolongados de diarreia. Práticas Inadequadas Falta de vacinação, higiene pessoal e cuidados infantis adequados. As formas secundárias são provocadas por doenças que aumentam as necessidades metabólicas, diminuem a absorção intestinal ou levam à perda de nutrientes — por exemplo, síndromes disabsortivas, malignidades e queimaduras extensas. O período mais susceptível à desnutrição são os primeiros 1.000 dias de vida (da concepção até os dois anos de vida). Qualquer agravamento nutricional neste momento afeta o crescimento e desenvolvimento, trazendo consequências cognitivas futuras. A desnutrição pode manifestar-se logo ao nascimento, como ocorre com os neonatos de baixo peso (peso de nascimento P85 e ≤ P97 / > Z+1 e ≤ Z+2 Risco de Sobrepeso Risco de Sobrepeso / Sobrepeso Sobrepeso > P97 e ≤ P99,9 / > Z+2 e ≤ Z+3 Peso Elevado Sobrepeso Obesidade > P99,9 / > Z+3 Obesidade Obesidade Obesidade Grave 2. Epidemiologia Visão Global 15% Baixo Peso ao Nascer Estimativa de nascimentos com pesoos quais se destaca o kwashiorkor-marasmático. A hipoalbuminemia está presente em AMBAS as formas de DEP grave, no kwashiorkor e no marasmo. O motivo do desenvolvimento da forma edematosa (kwashiorkor) e outras a forma não edematosa (marasmo) ainda é um fato desconhecido. Crianças que desenvolvem a forma edematosa (kwashiorkor) parecem ter sofrido um maior estresse oxidativo, com redução de antioxidantes naturais e cofatores. Marasmo É um estado de má nutrição que resulta de uma deficiência calórica total (energia e proteínas). Marasmo significa "desgaste". Essa apresentação clínica é mais comum em crianças com menos de um ano de idade. A instalação é insidiosa. Ocorre praticamente em todos os países em desenvolvimento, sendo a causa mais comum a retirada precoce do aleitamento materno, substituindo-o por fórmulas caloricamente deficientes, combinado com má higiene, vacinação deficitária, infecções… A criança geralmente é internada pela intercorrência infecciosa, e não pela desnutrição! Déficit de peso e estatura Atrofia muscular extrema Emagrecimento acentuado com pobreza de tecido celular subcutâneo e pele enrugada, principalmente nas nádegas e coxas Desaparecimento da bola gordurosa de Bichat (entre a maça do rosto e a mandíbula), pela perda de tecido subcutâneo Apetite preservado Anemia e diarreia Abdome volumoso Ausência de edema e lesões cutâneas Hipoalbuminemia Fig. 1: MARASMO. Kwashiorkor Fig. 2: KWASHIORKOR. No kwashiorkor, embora a ingestão calórica possa ser adequada, observa- se deficiência dietética de proteína. A instalação costuma ser mais rápida. Kwashiorkor é um vocábulo africano (Gani), que significa "doença do primeiro filho quando nasce o segundo". A síndrome foi inicialmente descrita em lactentes desmamados subitamente. A apresentação clínica mais comum no segundo e terceiro anos de vida. A criança apresenta-se consumida, fato observado principalmente nos músculos dos membros superiores e inferiores. O edema é a manifestação clínica mais importante dessa síndrome — pode afetar qualquer parte do corpo. Em crianças que deambulam, o edema se inicia com ligeiro intumescimento dos pés, estendendo-se pelas pernas. Posteriormente pode acometer mãos e face (fácies de lua). Em meninos pode ser notado edema em bolsa escrotal. Alterações mentais/comportamentais A criança se apresenta apática, hipoativa, anoréxica e desinteressada Irritação, não sorri ao estímulo Despigmentação da face → Dermatoses em áreas de atrito Cabelos apresentam alteração de textura e de cor (discromias) e são quebradiços Sinal da Bandeira: é a presença de faixas horizontais claras e escuras alternadas nos cabelos Hipoalbuminemia e redução da proteína sérica total Hepatomegalia (esteatose) Apresenta tecido celular subcutâneo Diarreia com sangramentos Kwashiorkor-Marasmático A maioria dos casos encontra-se na faixa intermediária entre os dois extremos, sendo muito importante diagnosticá-los e impedir a evolução. São as formas ditas mistas: a criança evolui com carências na ingestão proteica e/ou energética, apresentando características dos dois tipos clínicos. Principais Diferenças entre Marasmo e Kwashiorkor Achados Clínicos e Laboratoriais Marasmo Kwashiorkor Alterações de crescimento +++ + Atrofia muscular +++ +++ Gordura subcutânea Ausente Presente Edema Ausente Presente Dermatoses Raro Comum Alterações de cabelo + +++ Hepatomegalia Raro Comum Atividade física Diminuída Muito diminuída Albumina sérica Baixa Baixa Água corporal Aumentada Muito aumentada Anemia Comum Muito comum 6. Classificação da DEP Quanto à Etiologia Primária: quando a disponibilidade de alimentos é inferior às necessidades. Secundária: quando decorrente de uma condição que torna impossível o aproveitamento dos nutrientes, mesmo quando a disponibilidade é satisfatória. Quanto à Duração Partindo do proposto por Waterlow, pode-se classificar a DEP em aguda, crônica e pregressa, com base na correlação entre peso e estatura. Quanto ao Tipo Clínico Diferencia através das manifestações clínicas os tipos graves de desnutrição: marasmo, kwashiorkor e as formas mistas. Quanto à Gravidade Existem critérios para avaliação do grau de desnutrição: leve, moderado e grave. SISVAN (Sistema de Vigilância Alimentar) do Ministério da Saúde set/2007. Índice Ponto de Corte Classificação Peso / Idade (0–5a e 5– 10a) P 0,1 eOs achados mais frequentemente encontrados em desnutridos graves são: Hemograma Anemia — por deficiência de ferro, ácido fólico, vitamina B12, hemólise Linfopenia Lipidograma Redução nos níveis de colesterol e triglicerídeos. Distúrbios Glicêmicos e Eletrolíticos Hipoglicemia Hiponatremia Hipocalemia Hipomagnesemia Hipofosfatemia Distúrbios Acidobásicos Alcalose ou acidose metabólica. 8. Tratamento Acompanham entoReabilitaçãoEstabilização Fase Inicial (1 a 7 dias) — Tratamento das Condições Emergenciais 1. Correção de Hipoglicemia Soro glicosado (10%) ou glicose (10%) via oral a depender do quadro clínico. 2. Correção de Hipotermia Crianças menores de doze meses, portadoras de marasmo, grandes áreas de pele lesada ou infecções sérias são altamente suscetíveis a hipotermia. T 10g/kg/dia e 5 g/kg/dia o ganho mínimo. A criança entra na fase de reabilitação quando seu apetite volta e o edema periférico começa a regredir. Dieta — Fase de Reabilitação (F-100) Em 48 horas a fórmula inicial (F-75) deverá ser substituída pela fórmula de crescimento rápido F-100 (100 kcal/100 ml com 2,9 g proteína/100 ml). Se a criança aceitar bem, 10 ml de volume por vez deverão ser acrescentados a cada mamada até que a criança deixe resto — geralmente quando se alcança um volume de 200 ml/kg/dia. Não se recomenda suplementação de ferro na fase aguda do tratamento da desnutrição, pois o ferro é cofator de sistemas enzimáticos que aumentam a produção de radicais livres de oxigênio, amplificando a reação inflamatória sistêmica do desnutrido. Critérios para Alta Criança Peso para altura atingiu -1DP (90%) da mediana NCHS/OMS. Comendo quantidade adequada de dieta nutritiva que a mãe é capaz de preparar em casa. Ganhando peso a velocidade normal ou aumentada. Todas as deficiências de minerais e vitaminas foram tratadas. Todas as infecções e outras condições foram ou estão sendo tratadas (anemia, diarreia, parasitoses, malária, tuberculose, otite média). Começou o programa de imunização completa. Mãe ou Cuidador Capaz e com desejo de cuidar da criança. Sabe como preparar alimentos apropriados e como alimentar a criança. Sabe como fazer brinquedos apropriados e sabe brincar com a criança. Sabe como fazer tratamento domiciliar para diarreia, febre e infecções respiratórias agudas, e como reconhecer os sinais que significam que deve buscar assistência médica. Profissional de Saúde Capaz de assegurar acompanhamento para a criança e dar apoio à mãe. Terceira Fase — Acompanhamento (7ª a 26ª semana) Acompanha-se a criança e sua família para prevenir a recaída e assegurar a continuidade do desenvolvimento emocional, físico e mental da criança. Quando a criança tiver completado a fase inicial do tratamento, não tiver complicações e estiver se alimentando e ganhando peso satisfatoriamente (geralmente 2–3 semanas após a admissão), ela geralmente pode continuar o tratamento em um centro de reabilitação nutricional (hospital-dia, centro de saúde ou instalação semelhante). Como o risco de recaída é maior logo após a alta, a criança deve ser vista após 1 semana, 2 semanas, 1 mês, 3 meses e 6 meses. Desde que o peso para a altura da criança não seja menor que -1DP (90%) da mediana dos valores de referência do NCHS/OMS, o progresso é considerado satisfatório. Depois de 6 meses, as visitas devem ser 2 vezes por ano, até que a criança tenha, no mínimo, 3 anos de idade. Síndrome da Realimentação (Refeeding Syndrome) A síndrome da realimentação é uma grave complicação associada ao tratamento da DEP, especialmente quando o processo de alimentação enteral ou parenteral ocorre de forma muito agressiva. Se as recomendações de tratamento da OMS forem seguidas conforme as instruções, esta descompensação metabólica raramente ocorre. Na DEP grave, apesar dos níveis séricos dos eletrólitos estarem muito próximos do normal, existe uma depleção intracelular de vários íons. Assim, se a alimentação com carboidratos for muito excessiva, haverá elevação substancial da insulina com marcante hipocalemia, hipofosfatemia e hipomagnesemia. A marca registrada da síndrome de realimentação é o fosfato sérico ≤ 0,5 mmol/L, levando à fraqueza muscular, rabdomiólise, disfunção de neutrófilos, arritmias cardíacas, convulsões e morte súbita. Os níveis séricos de fosfato devem ser monitorizados durante a fase de reabilitação. Síndrome de Recuperação Nutricional Ocorre durante o tratamento correto dos casos de desnutrição grave, sendo mais exuberante nos casos de kwashiorkor, observada entre o 20º e o 40º dia de tratamento. Essas alterações costumam regredir por volta da 10ª a 12ª semana após o início do tratamento. As manifestações clínicas mais comumente encontradas são: Hepatomegalia À custa do lobo esquerdo, com maior aumento sendo encontrado por volta da quinta semana após o início do tratamento. Distensão Abdominal Com circulação venosa colateral e ascite. Fácies de Lua Cheia Alteração característica da face durante a recuperação nutricional. Alterações de Pele e Fâneros Sudorese intensa em região cefálica, hipertricose, unhas com desnível transversal, cabelos com pontas mais claras. Telangiectasias Mais visíveis na face. Alterações bioquímicas mais frequentes: Hipergamaglobulinemia Eosinofilia Aumento da volemia Distúrbios Carenciais de Vitamina A Manifestações Clínicas As principais manifestações clínicas da deficiência de vitamina A são decorrentes das alterações desencadeadas nos diversos epitélios, caracterizadas pela proliferação da camada basal e formação de um tecido hiperceratótico (espessamento) e substituição do epitélio original pelo epitélio escamoso queratinizado estratificado. O muco e os cílios no epitélio original desaparecem. Assim, com as funções físicas de barreira prejudicadas e associadas ao déficit imune, processos infecciosos e inflamatórios se instalam com facilidade. Os tratos que mais sofrem são: respiratório, pelve renal, ureteres, bexiga, mucosa vaginal, glândulas salivares e pancreáticas. Contudo, as alterações mais características do déficit de vitamina A são as manifestações oculares. Essas lesões se desenvolvem insidiosamente e são raras antes de dois anos. Manifestações Oculares (em ordem de gravidade) A queratinização favorece infecções e inflamações, tornando-o seco e opaco afetando a proteção. Diminuição da visão no escuro → cegueira noturna (nictalopia ou hemeralopia) — sintoma mais precoce Fotofobia XeroftalmiaManchas de Bitot: placas na conjuntiva bulbar queratinizada — lesão de surgimento precoce Espessamento da córnea → diminuição da acuidade visual Ceratomalácia: córnea enrugada, mole e degenerada irreversivelmente (infecção + infiltrado de linfócitos) Ruptura da córnea com extravasamento do cristalino e humor vítreo (casos muito graves) Queratinização das glândulas lacrimais → diminuição da lubrificação e do filme lacrimal Outras Manifestações Clínicas Parada de crescimento Diarreia Deficiência Intelectual Apatia Aumento da pressão intracraniana com separação de fontanelas Tratamento Crianças > 1 ano e adolescentes: São recomendadas 200.000 UI, via oral, de vitamina A no diagnóstico, repetindo-se a dose 24 horas após. Uma terceira dose, quando possível, deve ser administrada entre 2-4 semanas. Absorção maior - VO Crianças