Prévia do material em texto
E-BOOK Por Ricardo Mariz 2 Sumário Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 Capítulo 1 Ética na sociedade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 Encantos e espantos do nosso tempo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 Uma marca do nosso tempo: “tudo junto e misturado” . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 A cozinha como uma sala de aula – aprendizagens sobre o tempo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 Efeitos adversos da sociedade da pressa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9 Nosso destino e o papel da educação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 Capítulo 2 Ética no contexto educacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 Crise geracional e o papel do professor . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 Crise geracional e o lugar do erro nos processos pedagógicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Conflito e violência, desigualdades e diferenças . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 A ética da docência . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 17 Capítulo 3 Ética e as redes sociais no contexto educacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 Redes sociais: liberdade e segurança . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19 Descompasso de ritmos: redes sociais, regulação e referenciais éticos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21 Redes sociais e o cyberbullying . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23 Opiniões, conhecimentos e suas implicações nos processos pedagógicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 24 Capítulo 4 Ética e a sala de aula: cotidiano e aprendizagem . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 O cotidiano da sala de aula . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 27 Sala de aula – o lugar de encontros, de problemas e soluções . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28 A sala de aula e a mediação de conflitos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 29 A sala de aula como um aperitivo de uma ética do cuidado . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 30 Conclusão . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 33 Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 3 Introdução A reflexão sobre o tema da ética é fundamental na sociedade. Os princípios e dilemas éticos estão presentes na sociedade de forma geral e nas instituições e grupos de ma- neira particular. Na educação, o tema da ética se apresenta de duas maneiras: como objeto de estudo e como postura dos professores, estudantes e toda a comunidade educativa. Dessa forma, todos nós estamos envolvidos com o tema, mesmo quando não atuamos com a ética como um conteúdo curricular. Viver em sociedade é uma necessidade, uma potencialidade e, ao mesmo tempo, um desafio. Nos tempos atuais, os desafios e as potencialidades estão marcados pelo ritmo acelerado das mudanças sociais, o uso intenso de tecnologias e um momento de muita agitação da esfera da política. Esses elementos colocam em questão algumas perguntas que são estruturantes para o nosso cotidiano e para a sociedade: • O que é certo e o que é errado num contexto de aceleradas mudanças? • Como respeitar as posições individuais, mas construir saídas coletivas para os nossos desafios como sociedade? • Como lidar com os desafios específicos das redes sociais nas nossas relações co- tidianas e no processo de aprendizado? • Como construir referenciais para o enfrentamento de situações de conflitos em sala de aula e na sociedade? • Como ajudar nossos estudantes com esses e outros dilemas éticos no campo do trabalho? 4 Para tratar dessas e de outras questões correlatas, esse material foi organizado em quatro capítulos. Na primeira parte, vamos tratar sobre a ética e a sociedade, compre- ender as principais mudanças vividas neste momento da sociedade e suas implicações éticas. No segundo capítulo, vamos conversar sobre os desdobramentos dos dilemas da sociedade no campo educacional. Abordaremos, por exemplo, sobre a temática da verdade, do certo e errado e o papel do docente na correção dos erros. No terceiro capítulo, serão abordados os temas relativos às redes sociais e as implicações para as nossas relações no contexto da educação. Finalmente, no quarto capítulo, vamos tra- tar da ética e das relações interpessoais em sala de aula. Fica aqui o convite para leitura do material. Que ele seja uma oportunidade de refle- xão sobre o nosso cotidiano e o fazer docente e nos ajude a estabelecer ou reafirmar as nossas orientações éticas de navegação num tempo de turbulência. 5 Capítulo 1 Encantos e espantos do nosso tempo Todo tempo é marcado pelos seus “espantos” e “encantos”. Podemos fazer o exercício de recordarmos tempos históricos diferentes e encontraremos sempre motivos de encantos e de espantos. É verdade que existe uma tendência de compreendermos o nosso tempo como um tempo mais complexo, mais inusitado e mais desafiador. É preciso considerar que o tempo atual é o tempo que precisamos construir respostas para os desafios, o que não acontece quando olhamos para o passado e avaliamos as respostas que foram construídas. Dessa forma, o tempo de hoje tende a ser percebido como um tempo mais complexo. O tempo presente tende a ser mais desafiador também por uma questão de proximi- dade. É possível que a distância do passado agregue a ele uma “calma” ou “clareza” que só na distância, com o passar do tempo, podemos perceber. Pense numa questão e avalie se faz sentido: o passado quando era presente também possuía seus encan- tos, espantos e turbulências. Talvez o que torne o passado mais tranquilo seja a nossa distância dele. Se todo o tempo temos presença da ambiguidade humana, motivos para nos encan- tar e nos espantar com a experiência humana, nos cabe, como um desafio do nosso tempo, compreender as especificidades do nosso momento, seus desafios e o nosso papel diante do momento atual. Momento este marcado pelo ritmo de intensificação do uso de tecnologias, um ritmo acelerado decomo uma sala de aula – aprendizagens sobre o tempo Efeitos adversos da sociedade da pressa Nosso destino e o papel da educação Capítulo 2 Ética no contexto educacional Crise geracional e o papel do professor Crise geracional e o lugar do erro nos processos pedagógicos Conflito e violência, desigualdades e diferenças A ética da docência Capítulo 3 Ética e as redes sociais no contexto educacional Redes sociais: liberdade e segurança Descompasso de ritmos: redes sociais, regulação e referenciais éticos Redes sociais e o cyberbullying Opiniões, conhecimentos e suas implicações nos processos pedagógicos Capítulo 4 Ética e a sala de aula: cotidiano e aprendizagem O cotidiano da sala de aula Sala de aula – o lugar de encontros, de problemas e soluções A sala de aula e a mediação de conflitos A sala de aula como um aperitivo de uma ética do cuidado Conclusão Referênciasvida e crises estruturais que atingem parte significativa do mundo de forma simultânea. Importante destacar que as crises Ética na sociedade 6 globais, apesar de sua amplitude, se concretizam de maneira desigual no mundo, ge- ralmente refletindo e reforçando as desigualdades já existentes. Uma marca do nosso tempo: “tudo junto e misturado” “Tudo junto e misturado” é uma expressão comum e geralmente utilizada para mos- trar proximidade. Essa poderia ser a expressão do nosso tempo – parece que vivemos tudo junto e misturado. Vale reforçar uma questão já sinalizada: viver “tudo junto e misturado” não significa que todos são atingidos ou que todos se relacionam de forma igualitária com tudo o que se passa. Não se pode alimentar a ilusão que a ampliação da interconexão da vida significa por si uma melhoria da vida para todos. Outro termo bastante utilizado que revela um momento de “mistura” das coisas, fenômenos e pessoas tem sido o “hibridismo”. Esse termo, em especial, no campo da educação, fala de uma mis- tura específica entre o espaço físico e o espaço virtual. O “hibridismo” também parece ser outro tempo que pode retratar as especificidades do momento que vivemos. Esse foi um processo in- tensificado a partir da experiência da pandemia de Covid-19. Vivemos essa dimensão do “hibridismo” do ponto de vista espacial – quando relativizamos o espa- ço físico e construímos eventos e atividades em espaços virtuais, mas também podemos perceber esse fenômeno no tocante a relação com o pró- prio tempo. Poderíamos dizer que vivemos, em alguns momentos, uma fusão de vários tempos em um só. Uma “con-fusão” de tempos. A cozinha como uma sala de aula – aprendizagens sobre o tempo Existe um ingrediente sempre presente em todos os pratos elaborados na cozinha. Nem sempre ganha destaque nas receitas, mas é fundamental: o tempo. Podemos DICA DE LEITURA Uma reflexão muito interessante sobre as mudanças no espaço vividas nas últimas décadas pode ser encontrada no livro “A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção”. O livro foi escrito pelo geógrafo brasileiro Milton Santos. É um livro fundamental para a compreensão do momento atual. 7 partir da nossa experiência da cozinha para pensar o restante da nossa casa e da so- ciedade. A cozinha, de certa maneira, funciona como um microcosmos daquilo que fazemos na sociedade. Ela revela nossos gostos, a influência dos processos de indus- trialização, nossa cultura e, também, a forma que nos relacionamos com o tempo. O fogão a lenha, por exemplo, revela uma relação com grande “destaque” para o tem- po. No fogão a lenha, as comidas são feitas com o tempo. Quase sempre os pratos são muito saborosos, mas também demorados. A sociedade do fogão a lenha era uma sociedade onde a nossa intervenção no restante da natureza não era tão intensa e o ritmo humano e o ritmo do restante da natureza eram mais próximos. O tempo era um “imperador” – tudo parecia bem demorado: deslocamentos, notícias, acontecimento e mudanças sociais. Era o tempo do fogão a lenha. Depois vivemos o tempo do fogão a gás. Esse é o tempo vivido com intensidade pela maioria dos atuais professores. No fogão a gás, vivemos contra o tempo. Podemos controlar melhor o fogo e o ritmo das coisas. Nossa meta é ganhar tempo e otimizar o seu uso. É um tempo muito produtivo, um tempo de realização intensa. O tempo da industrialização e do aumento e aceleração dos deslocamentos. O tempo acelerado que marca a modernidade. Hoje, vivemos alguns momentos de fogão a le- nha, vivemos intensamente os momentos do fogão a gás, mas vivemos de maneira crescente um outro tempo. Na verdade, uma outra forma de relação com o tempo. É a cozinha do micro- -ondas. Na cozinha do micro-ondas, nossa pers- pectiva ou ilusão é fazer as coisas sem o tempo. Perceba que a relação com o tempo foi se modi- ficando: uma relação com o tempo, depois con- tra o tempo e agora sem o tempo. Quantos de nós, que convivemos com o micro-ondas, já não ficamos impacientes com os 10 segundos antes do “bipe”? Alguns poucos segundos ou minutos parecem uma eternidade na sociedade que de- seja fazer as coisas sem o tempo. A simultaneidade é uma marca da cozinha do micro-ondas, uma marca do nosso tempo. O avanço tecnológico que construímos nos coloca DICA DE LEITURA Zigmunt Bauman produziu vários livros para compreender aquilo que ele denominou de sociedade líquida, essa sociedade da simultaneidade e de velocidade acentuada. Uma leitura matricial do pensamento do Bauman pode ser encontrada no livro “Modernidade líquida”, publicado pela editora Zahar. 8 numa relação diferente com o tempo e, com isso, em uma relação diferente com o que produzimos e com os outros. Essas mudanças possuem implicações marcantes para a nossas relações e para as reflexões sobre a ética. Poderíamos denominar o nosso momento como a sociedade da pressa. Nós professo- res, por exemplo, nem sempre temos clareza sobre o melhor caminho a ser tomado, mas temos uma certeza: estamos quase sempre atrasados. Atrasados com a matéria a ser dada, com a correção de trabalhos, com as demandas da casa ou na correria do dia a dia. O sentimento da sociedade da pressa é paradoxal – corremos, mas não ganhamos a “briga” com o tempo. Uma afirmação da cultura afro-brasileira faz uma ponderação sobre a sociedade da pressa: “o tempo não gosta que as coisas aconteçam sem ele”. Vale a pena pensar um pouco sobre isso. O sociólogo alemão Hartmut Rosa é um estudioso sobre os nossos tempos acelerados. Aceleração social, segundo a compreensão dele, é fazer mais atividades numa mesma unidade de tempo, ou seja, mais ações numa mesma manhã, num mesmo dia, numa mesma semana ou num mesmo minuto ou fração de segundos. A simultaneidade, por exemplo, é a tentativa de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo (numa mesma unidade de tempo). Essa seria uma caracterização da aceleração social que vivemos. Segundo os estudos desse mesmo autor, nós construímos uma espécie de engrenagem que funciona como um motor da aceleração social. Nós teríamos, de forma concomi- tante, a aceleração técnica – que amplia a nossa capacidade de produção (velocidade de produção, quantidade de produção e circulação) e a aceleração da mudança social, que impactam no ritmo das mudanças vividas na sociedade e o ritmo dos acontecimentos políticos, sociais e econômicos e, finalmente a aceleração do ritmo de vida de cada um de nós. Geralmente, estamos correndo mais, otimi- zando o tempo, tentando fazer mais coisas ou responder a mais demandas. Então, a “engrena- gem” de aceleração social seria composta pela articulação entre a aceleração técnica, acelera- ção da mudança social e aceleração do ritmo de vida. A sociedade em seu ritmo mais apressado foi e é responsável por grandes conquistas. Sem a aceleração técnica, por exemplo, não DICA DE LEITURA Para aprofundar a reflexão sobre a aceleração social, vale muito a pena estudar a obra do sociólogo Hartmut Rosa “Aceleração: a transformação das estruturas temporais na modernidade”. Esse livro foi publicado pela Editora Unesp. 9 conseguiremos produzir e circular tudo o que produzimos. Então, temos muitos “ga- nhos” com a sociedade da pressa. Ela funcionou como uma espécie de remédio para a modernidade. De certa forma, nos trouxe até aqui. Mas, como todo remédio, ela também possui seus efeitos adversos. Efeitos adversos da sociedade da pressa Um efeito adverso da sociedade da pressa é o constante desejo de antecipação. Ante- cipar-se transformou-se numa meta de vida. Antecipar as tendências de mercado, as novidades pedagógicas, os desejos das pessoas com quem convivemos etc. A questão é que a antecipação é uma meta performática que nunca se realiza plenamente, por- que, uma vez alcançada, ela precisa ser superada pela próxima antecipação. Um efeito adverso dessa dinâmica que é muito produtiva é o estado de ansiedade em que nos encontramos. Estamos nos transformandonuma sociedade ansiosa ou, dito de outra maneira, uma sociedade doente pelo excesso de futuro ou do desejo de antecipação do futuro. Um outro efeito adverso é uma certa miopia social que confunde agitação com ativi- dade. Vivemos um momento de muita agitação social, mas não seria correto dizer que é um momento de muita transformação social. Pelo menos no tocante aos grandes marcadores da sociedade, o que temos vivido são grandes movimentações sociais, que aqui estou chamando de agitação social e que não modificam a estrutura da so- ciedade na mesma velocidade. Essa confusão entre a agitação e atividade pode ser percebida na educação, por exem- plo, quando confundimos uma pedagogia ativa com uma “pedagogia agitada”. Multipli- car os números de ações numa aula, por exemplo, não a torna mais ativa necessaria- mente do ponto de vista pedagógico. Um terceiro efeito adverso da nossa pressa sistêmica é uma nova forma de se fazer presente de vários momentos ou eventos. Uma espécie de “presença-ausente”. Au- mentamos nossa capacidade de presença, mas estamos diminuindo nossa capacidade de inteireza naquilo que fazemos. Você se lembra da expressão – “vive no mundo da lua”? Por vezes, hoje vivemos em “vários mundos” ao mesmo tempo e não estamos presentes onde deveríamos estar. Essa “presença-ausente” uma ausência ignorada. Não nos damos conta da nossa ausência, porque estamos de “corpo presente” em vários momentos, alguns deles de forma simultânea. Ignorar nossas ausências não significa que elas não terão efeitos concretos para o nosso futuro. 10 Por fim, um outro efeito é uma forma de curto- -circuito informacional. Se a falta de informações gerava uma certa imobilidade, ou seja, temos di- ficuldade para agir sem informações suficientes, o excesso de informações pode gerar a mesma imobilidade pelo outro extremo: com excesso de informações também nos sentimos imobilizados. A conexão em tempo real é algo fascinante, mas é preciso fazer uma distinção entre conexão e re- lação. Estar conectado com tudo o que se passa não é a mesma coisa de estar relacionado com tudo o que se passa. É importante destacar que esses efeitos adver- sos aqui apontados não possuem uma relação exclusiva com o nosso ritmo acelerado de viver a sociedade. A ansiedade, por exemplo, possui um conjunto de outras relações causais, mas parece que a nossa dinâmica atual de vida, em alguns mo- mentos, nos desloca da situação de quem espera o amanhã, para quem se desespera pelo amanhã. Qual o papel da educação diante desse contexto e quais são as implicações éticas para o nosso fazer docente? Nosso destino e o papel da educação Como bem nos lembra a filósofa alemã Hanna Arendt, nós não nascemos prontos e acabados, não somos fabricados. A humanidade no humano é uma constante cons- trução e reconstrução. Nesse exercício constante, nós precisamos articular tudo o que já vivemos e os desafios que temos pela frente. A educação possui esse papel de fazer ponte entre o vivido, o acumulado, o que já foi aprendido e o ainda não vivido, os desafios e possibilidades do futuro, o que ainda não sabemos. Fazer essa ponte e selecionar o que é relevante sempre foi uma ação exigente para educação em todas as suas dimensões: escolar, familiar e em outros contextos. • O que partilhar com os mais novos de tudo o que já foi vivido? • O que do nosso saber acumulado ajuda e o que pode atravancar os passos futuros? DICA DE LEITURA A aceleração presente na sociedade nos coloca de forma constante diante do inusitado. Um livro muito interessante reflete sobre essa questão e aponta caminhos para o futuro próximo: “É hora de mudarmos de via: as lições do coronavírus”. Este livro foi escrito pelo antropólogo, filósofo e sociólogo francês Edgar Morin e publicado pela Bertrand Brasil. 11 Essas perguntas ficam mais instigantes ainda quando consideramos o tema da acele- ração social. A projeção do futuro fica mais fluida e o exercício de educar para o futuro bem mais complexo. Esse dilema entre o passado e o futuro é também, ainda segundo a Hanna Arendt, uma prova do quanto nós adultos amamos os mais novos. Ela apre- senta essa questão da seguinte forma: “A educação é o ponto que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável se não fosse a renovação e a vinda dos novos e jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las aos seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar o mundo”. (ARENDT, 2011, p.247). A forma que enfrentamos esse desafio de articulação entre o passado e o futuro, entre o sabido e o ainda não sabido, possui relação, também, sobre a forma que percebe- mos o próprio mundo e a capacidade humana de transformá-lo. Uma compreensão e perspectiva conservadora do mundo deve implicar numa concepção conservadora da educação. Algumas perguntas podem nos orientar na reflexão sobre essa questão e nas suas implicações para o campo da ética e das relações interpessoais: • Nós educamos para proteger os nossos educandos do mundo? • Nós educamos para adaptar os nossos educandos ao mundo? • Nós educamos para que nossos educan- dos possam melhorar/transformar o mundo? A educação que fazemos e a nossa prática co- tidiana em sala de aula sempre estão a serviço de uma concepção de mundo. Construir sin- tonia entre as nossas concepções e as nossas práticas é um exercício diário do fazer docente. DICA DE LEITURA Caso você queira aprofundar essa reflexão entre o passado e o futuro, tradição e inovação e o papel da educação, uma leitura pode ajudá-lo: “Entre o passado e o futuro”, da filósofa Hanna Arendt. O livro foi editado pela Perspectiva. 12 Capítulo 2 Ética no contexto educacional Crise geracional e o papel do professor Uma boa relação entre o professor e o aluno é fundamental para o processo de apren- dizagem. Isso não significa uma relação sem conflitos, mas uma relação baseada na clareza de papéis, centrada no respeito e no compromisso mútuo pela aprendizagem. A questão geracional é um exemplo. Existe uma tensão estrutural entre as gerações em função da posição que a geração ocupa e suas perspectivas. Nesse sentido a rela- ção geracional é constituída de alguma tensão e conflito, mas pode ser compreensiva, respeitosa e carregada de possibilidade de aprendizagens. Essa tensão estrutural entre as gerações se caracteriza por experiências diferentes, mo- mentos de vida diferentes e algumas perguntas que todos os encontros de gerações precisam fazer: o que continuar, o que modificar e o que deixar de lado? Poderíamos afirmar que esses elementos sinalizam a tensão permanente entre as gerações, quando o foco é o processo educativo – pais e filhos, professores e alunos, mestres e discípulos. Para além da tensão estrutural, cada tempo também apresenta especificidades para as relações geracionais. A velocidade das mudanças sociais, por exemplo, é um fator predominante para esses conteúdos específicos. O sociólogo espanhol Mariano Enguita destaca três momentos bem distintos que rela- cionam mudanças sociais e relações geracionais. Segundo ele, no passado, a sociedade passou por um momento de mudança suprageracional – em que a velocidade da mudança incluía no mesmo cenário algumas gerações. Ou seja, a vida dos avós tinha um contexto parecido com a vida dos pais, que era um contexto parecido com a vida dos filhos. 13 Em seguida, teríamos mudanças intergeracionais, ou seja, as mudanças aconteciam de uma geração para outra. Pode-se afirmar que esse é um momento em que o papel da escola fica muito evidente – “preparar o filho para o futuro”, já que o futuro já se pode vislumbrar e é diferente do presente dos pais. Depois, segundoo mesmo autor, passaremos por um ritmo de mudanças que ele denominou de intrageracionais. São mudanças dentro de uma mesma geração. Neste caso, como podemos perceber hoje, as crises geracionais passam acontecer também dentro de uma mesma geração. Tomando como referência essas três categorias sinalizadas por Mariano Enguita, po- demos pensar em algumas características desses tempos diferentes e suas implica- ções para as relações interpessoais. No contexto de mudanças suprageracionais, em que o ritmo da mudança social não era percebido dentro de uma mesma geração, o mal-estar predominante era o excesso de limites. A vida já parecia toda prescrita: a identidade, configuração familiar, religião, posicionamento político, profissão. Enfim, o lugar no mundo parecia já determinado. No contexto das mudanças intergeracionais, o mal-estar era construir uma identidade que se encaixasse num futuro próximo, mas diferente do presente. A profissão, confi- guração familiar, religião e comunidade política eram escolhas a serem feitas por cada geração. A educação tinha um papel definido que era criar condições para facilitar o deslocamento do ponto A para o ponto B. Já no contexto das mudanças aceleradas, intrageracional, o mal-estar parece estar lo- calizado na abertura das possibilidades, no excesso de caminhos possíveis (pelo menos para aqueles que possuem algum nível de acesso). A identidade, nesse momento, não se coloca como algo a priori ou a posteriori, mas como algo de trânsito permanente. Na educação, com um desenho de futuro indefinido, os conte- údos passam a valorizar condições como criativi- dade, resiliência, capacidade de adaptação etc. É no contexto das mudanças intrageracionais que a pauta por competências socioemocionais ga- nha força. Com o ritmo de mudanças aceleradas, inclusive do ponto de vista geracional, passamos a conviver num mesmo tempo com pessoas de vários tempos. Essa parece ser uma das especificidades do momento e apontam desafios peculiares para as nossas rela- ções de sala de aula e no espaço de trabalho. DICA DE LEITURA No livro “Educar em tempos incertos”, de Mariano Enguita, você encontrará a oportunidade de aprofundar o papel da educação a partir das mudanças vividas nas últimas décadas. 14 Crise geracional e o lugar do erro nos processos pedagógicos Tratar o erro sempre foi um desafio para quem se encontra no papel de educador. É um desafio que cresce na sociedade de mudanças aceleradas, pois as referências de certo e errado nem sempre são nítidas. Ou, por uma questão de “velocidade”, o nosso olhar captura a realidade em nossa frente de uma forma um pouco distorcida. Uma primeira distinção importante para tratarmos o erro em seus aspectos pedagó- gicos é que o erro não é o oposto do verdadeiro. O falso está em contraponto com o verdadeiro e não o erro. No plano pedagógico, erro não se confunde com acerto, mas também não se pode confundir com o falso, que possui uma implicação moral e ética. Essa distinção é fundamental para deslocar do erro, em um ambiente pedagógico, a dimensão da culpa. O professor precisa do erro do aluno para atuar. O erro do aluno é revelador do seu estágio de aprendizagem e, por isso, revelador também do espaço de intervenção do professor. No plano pedagógico, o erro é um mensageiro da distância que existe entre a intenção da ação do professor, a sua ação e os resultados efetivos na aprendizagem dos alunos. Esse mensageiro é fundamental para revisão e aperfeiçoamento do planejamento. O erro do aluno, que é resultado de suas respostas possíveis, carrega também algumas perguntas para nós professores: • O que os acertos e os erros dos meus alunos revelam da minha aula? • Quais conteúdos posso avançar? • Que conteúdos preciso cadenciar melhor o ritmo? • Que conteúdos preciso retomar, apesar de achar que estavam consolidados? Se percebido dessa forma, o erro não se confunde com acerto, mas também é um obstáculo para o conhecimento. O erro, na sua dimensão pedagógica, é revelador do estágio de conhecimento do aluno. Na verdade, o erro é revelador do estágio em que nos encontramos na vida. Em última instância, fazemos o que conseguimos fazer, en- xergamos a realidade da forma que conseguimos enxergar. Toda nossa ação, inclusive as que consideramos acertadas, possuem o limite dos nossos condicionamentos. A compreensão que temos do erro é reveladora, também, da concepção que temos da própria aprendizagem, da educação e do ser humano. Existem vários arranjos de percepção dos modelos de educação. Para a presente análise, vamos condensar em três concepções a partir dos estudos da professora Madalena Freire: autoritária, es- pontaneísta e democrática. 15 Uma perspectiva autoritária da educação vai compreender o acerto desejado como imitação do pensamento do professor, ou seja, o acerto é a reprodução daquilo que eu professor considero correto e a correção do erro implica numa crítica ao produzido. Numa concepção espontaneísta de educação, que busca valorizar a produção do es- tudante, o erro e o acerto se confundem. É como se não existisse o certo e o errado. A valorização da produção do estudante, que é uma iniciativa interessante, se confunde com a falta de correção do professor. O polo de autoritarismo nesse caso de desloca do professor para o aluno. Numa perspectiva democrática, existe uma clareza sobre as distinções de papéis en- tre o professor e o aluno na construção dos acertos. O erro é percebido como uma “hipótese provisória do acerto”. O erro é compreendido e corrigido. Da compreensão do estágio em que se encontram os alunos nascem as possibilidades de intervenção do professor. A correção é um outro fator relevante. Para além da declaração da parte do professor do que está certo ou errado, a correção é a oportunidade de construção de hipóteses, por parte do professor, do caminho percorrido pelo estudante: • Por que ele respondeu o que respondeu? • O que considerou e o que deixou de considerar? • A sua resposta e seus erros apresentam que sinais sobre o conhecimento que ele construiu até o momento? É evidente que o excesso de provas, atividades e outras atribuições afasta os professores das condições ideais para compreender e intervir a partir dos erros dos alunos. Mas é verdade, também, que o ideal não existe e é a partir das condições que temos que precisamos buscar alternativas para melhorar a intervenção peda- gógica e as condições de trabalho que possam facilitar essas intervenções. Interessante perce- ber, por exemplo, que hoje temos muitas provas e exames, mas fazemos poucas avaliações a par- tir desses instrumentos, ou seja, não construímos um juízo pedagógico a partir dos resultados das nossas provas e outros instrumentos de avaliação. DICA DE LEITURA No livro “Educador”, da professora Madalena Freire, você encontrará com profundidade a questão dos modelos de educação e as implicações para o papel do professor e os instrumentos metodológicos que alicerçam a sua prática. 16 Conflito e violência, desigualdades e diferenças O erro e a correção dos erros, em situações escolares e em outros contextos, são mo- mentos conflitivos. Eles nascem de um conflito estruturante do processo de aprendi- zagem: o encontro entre um saber insuficiente e um novo desafio. É desse encontro conflitivo que nasce a aprendizagem. Nesse aspecto, sem conflito não se aprende, mas também com excesso de conflito possivelmente também não se aprende. O conflito presente no processo de aprendizagem possui uma dimensão cognitiva e outra emocional. A dimensão cognitiva é o conflito entre o que sei, o que achava que sabia e o que eu não sei. Na dimensão emocional, o conflito comporta a tomada de consciência desse não saber ou de um saber limitado (como na verdade é todo saber). A professora Madalena Freire, no livro “Educador”, sinaliza que é nossa tarefa de pro- fessor educar a dor (educa-a-dor) do contato com o desconhecido. A dor da ansiedade,do contato com o limite e com o não sabido. É papel do professor acolher, acompanhar e provocar esse conflito, mas aqui reside uma distinção importante: conflito não é a mesma coisa que violência, mas das situa- ções de conflito podemos caminhar para situações de violência (física ou simbólica). É importante nos deter um pouco mais na distinção entre essas duas situações: conflito e violência. No conflito, as polaridades são mantidas (pro- fessor e aluno, dois alunos que pensam diferen- tes, políticos em oposição etc.). Já na situação de violência, um polo busca sucumbir o outro. Uma situação de conflito entre dois países, por exemplo, pode se desdobrar numa situação de violência (guerra). Na violência, o outro é aniqui- lado. Na política, por exemplo, o outro deixa de ser adversário para ser inimigo. Reafirmar a distinção de papéis é algo que pode ser conflitivo. O professor e os alunos não pos- suem o mesmo papel, mas essa diferença nos papéis entre os dois não deve gerar uma relação de desigualdade. Em síntese, nos cabe evitar que os conflitos se desdobrem para a violência e que as diferenças se transformem ou aumentem as desigualdades. Um desafio extra para educar as situações de conflito é o contexto atual, onde a DICA DE LEITURA O sociólogo francês Francois Dubet publicou recentemente o livro “O tempo das paixões tris- tes”. É um trabalho muito interessante sobre esse momento de ressentimen- tos, cólera e indignações. 17 intolerância e o ressentimento são crescentes. Essa situação cria uma espécie de in- disposição para lidarmos com a diferença, com a correção e com o contato com erro. O aumento da intolerância e ressentimento funcionam de maneira inversamente pro- porcional à nossa capacidade de aprender, porque a capacidade de aprender passa necessariamente pela assunção e problematização dos nossos erros. A ética da docência Diante de tanta agitação social, inovações e dilemas, como não se perder na coorde- nação dos processos educativos em sala de aula (presencial ou virtual)? Buscar uma referência é fundamental para um agir cotidiano e também para manter no campo de visão o farol que nos servirá como referência durante as tempestades de tempos inusitados. Um elemento chave que nos serve de referência é que todo docente é um discente, ou seja, aprender e continuar aprendendo é uma condição para ensinar e a condição para continuar aprendendo sempre é buscar, sempre que possível, fazer uma experiência da nossa carreira. A carreira é o tempo de vida que nós dedicamos à profissão. A carreira é condição para a experiência, mas não é sua garantia. Podemos ter uma carreira que, em função de uma dinâmica específica, não proporciona mais experiência e, assim, deixamos de aprender com o que fazemos, mesmo que esse fazer seja tentar ajudar que os outros aprendam. Aprender é uma capacidade que desenvolvemos e hoje é uma condição natural do ser humano, mas o aprendizado não acontece sem esforço. Isso vale para os nossos estudantes, mas vale também para o nosso caso. Eu não me torno um professor me- lhor porque tenho muitos anos de carreira na docência - em alguns casos, acontece o contrário. É preciso ter muito cuidado com a arrogância que costuma caminhar lado a lado com o tempo de carreira e com o conhecimento. Nem todo conhecimento nos melhora como seres humanos e aqui temos uma referência importante para a ética em nosso trabalho. O conhecimento que ajudamos construir está a serviço da melhoria da vida? Decorrente dessa dimensão ética que envolve a produção do conhecimento, temos uma dimensão pedagógica. Algo que deveria se transformar num postulado da edu- cação brasileira: se depender da nossa ação, nenhum aluno fica para trás. Nenhum aluno deixa de aprender. O nosso país ainda convive com muitas desigualdades e uma 18 delas é a desigualdade educacional. Precisamos pensar a justiça também a partir desse campo e garantir con- dições para aprendizagem de todos. Insistir nessa aprendizagem o quanto for necessário é uma forma de justiça pedagógica. Em algumas rodas de conversa entre nós professores, é relativamente co- mum escutarmos a seguinte afirma- ção: “eu ensinei, mas eles não apren- deram”. Na verdade, se os alunos não aprenderam, nós não ensinamos. Po- demos ter feito de tudo para ensinar. Aqui não é uma questão de culpa, mas o ensino é uma ação interdepen- dente da aprendizagem. Não existe ensino sem aprendizagem. Não somente por uma questão pedagógica, mas eminentemente ética, nós precisa- mos superar a situação de naturalização do fracasso escolar em nosso país. Quando um aluno não aprende, não é somente ele que fracassa. Fracassa também o professor, a escola e a sociedade. DICA DE LEITURA No link abaixo você encontrará um artigo muito interessante do pedago- go e filósofo espanhol Jorge Larrosa Bondía sobre o tema da experiência. O texto “ Notas sobre a experiência e o saber da experiência” apresen- ta uma relação sobre a importância e os obstáculos na construção da experiência. https://www.scielo.br/j/ rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZV- DxC/?lang=pt&format=pdf https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?lang=pt&format=pdf https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?lang=pt&format=pdf https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC/?lang=pt&format=pdf 19 Capítulo 3 Ética e as redes sociais no contexto educacional Redes sociais: liberdade e segurança Nós criamos a internet e, como acontece com as outras tecnologias que inventamos, ela de alguma forma nos recria. Nossas relações e nossa forma de acessar informações, de fazer política e de consumir entretenimento são impactadas de maneira marcante por essa nossa criação. No campo das tecnologias, desde os primeiros instrumentos de caça e plantio até os artefatos mais complexos, nós encontramos uma relação de duplo caminho entre “criador e criatura”. Você deve já ter escutado a expressão popular “com quantos paus se faz uma canoa”. Hoje, poderíamos trocar essa expressão por um trecho da música do Gilberto Gil “Pela internet”. Nessa música, ele já intuía o grande impacto da internet e das redes sociais nas nossas formas de produção e sociabilidade: “com quantos gigabytes se faz uma jangada. Um barco que veleje nesse infomar...”. Esse mundo que se abre com a internet nasce de uma ideia de liberdade do espaço físico, liberdade das fronteiras, liberdade do acesso e circulação da informação. Ao mesmo tempo, com o uso da internet, nós ampliamos o controle das pessoas, mapea- mos e modulamos comportamentos no campo do consumo, da política e das relações. Liberdade e controle são tesões estruturantes da internet. Pensando bem, essa é uma tensão da experiência humana que agora se expressa de maneira marcante na internet, nos desafios de regulação, na discussão sobre a ética e sobre liberdade de expressão. Zigmunt Bauman nos alerta que a relação entre segurança (controle) e liberdade é uma pergunta sem uma resposta adequada. Apesar de muitos “venderem” uma fórmula 20 para felicidade, nós temos uma relação paradoxal entre a liberdade e a segurança. Buscamos sempre o ponto de equilíbrio tenso entre essas duas dimensões. Ainda se- gundo o mesmo autor, liberdade sem segurança é o caos e segurança sem liberdade é repressão. Enfrentar os desafios e aproveitar as possibilidades colocadas pelo adven- to das redes sociais não é uma tarefa simples, mas certamente é uma ta- refa que passa pela educação. De- vemos evitar três posturas que de alguma forma são obstáculos para essa tarefa necessária. Uma postura de “tecnofobia” que tende a idealizar o “mundo analógico” e negligenciar todas as possibilidades da cultura di- gital. Precisamos, também, superar uma compreensão que trata a tecno- logia como um meio ou uma técnica neutra. Nenhuma técnica ou tecnolo- gia é neutra. Toda técnica ou tecnolo- gia parte de uma leitura de realidade e reforça uma determinada realidade e determinados comportamentos.Pode-se afirmar que em toda técnica ou tecnologia mora uma concepção do humano. Enfim, devemos evitar uma postura de que alguns autores classificam como “tecnofi- lia” – amor à tecnologia que resultaria numa posição de idealização da tecnologia. As tecnologias são produtos e produtoras da realidade social e guardam consigo toda a ambiguidade e potencialidade da própria experiência humana. No plano específico do nosso trabalho docente, os cenários indicam uma tendência de intensificação da convivência num duplo espaço – espaço físico e no espaço virtual mediados por plataformas. O virtual, nesse caso, não é uma oposição ao verdadei- ro (físico). Físico e virtual, cada vez mais, devem compor o que compreendemos por realidade. A dinâmica estruturante desse fenômeno possui quatro elementos na sua engrenagem: • A tendência crescente da digitalização do social. • A crescimento da internet como canal de circulação do social digitalizado. DICA DE VÍDEO No link abaixo, você encontrará uma entrevista muito interessante do sociólogo e filósofo polonês Zigmunt Bauman sobre esse tema da liberda- de e segurança e sobre os dilemas e possibilidades das redes sociais. A entrevista é uma análise leve e muito apurada do tema que estamos tra- tando neste capítulo. https://www. youtube.com/watch?v=POZcBNo- -D4A https://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A https://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A https://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A 21 • O espaço da nuvem como repositório de tudo o que se digitaliza. • A internet das coisas que tende ampliar os pontos e possibilidades de conexões. • A inteligência artificial e o big data que orquestram toda essa dinâmica. Essa engrenagem avança num ritmo acelerado e intensifica o nos- so contato com os meios digitais. É uma dinâmica que se retroalimen- ta com o próprio uso: quanto mais utilizamos as redes sociais, mais informações deixamos a partir do nosso uso (rastro digital), que, por sua vez, serão utilizadas para man- ter a aumentar esse uso. Nesse caso, conexão alimenta mais co- nexão. Qual o nosso papel como professores diante de tudo isso? Como tirar proveito de todas essas possibilidades para aprender mais e melhorarmos como seres huma- nos? Esse não parece ser um ca- minho natural e que prescinda da nossa compreensão e esforço. Descompasso de ritmos: redes sociais, regulação e referenciais éticos O que é certo e o que é errado nas redes sociais? O que devo expor e não expor do meu cotidiano? Quais os limites entre o público e o privado? O nosso desafio diante de perguntas como essas é bem maior do que pensar uma forma de “etiqueta” para convivência nas redes. Elas revelam um descompasso ou uma defasagem entre as ve- locidades das mudanças e as nossas referências de orientação. Parte dos conflitos que vivemos hoje nas redes sociais, por exemplo, não estão vincu- lados a interpretações diferentes de um mesmo fato, mas de fatos diferentes. As redes sociais, em função da sua dinâmica de filtro, reeditaram em alguns casos o mito da ca- verna de Platão, onde um grupo de pessoas confunde o reflexo de parte da realidade DICA DE LEITURA Existe um pequeno livro muito interessante que não trata diretamente da questão das redes sociais, mas sinaliza para uma dinâmica social crescente no momento. No livro “Discurso da servidão voluntária”, Étienne de La Boétie nos ajuda a refletir sobre o consentimento para as situações de servidão em que nos encontramos. As redes sociais são um campo fértil para essa dinâmica. Étienne de La Boétie foi um filósofo francês e escreveu essa obra prima que foi publicada entre 1574 e 1578. 22 (as sombras) com o todo da realidade. Em alguns grupos de aplicativos hoje vivemos verdadeiras cavernas digitais. Como lidar com esse distanciamento que um determi- nado tipo de conexão criou? “Cada um marcha dentro da sua própria bolha, no interior da qual certas vozes se fazem ouvir mais do que outras e alguns fatos existem mais do que outros... Nós parecemos loucos uns para os outros... não são as nossas opiniões sobre os fatos que nos divi- dem, mas os fatos em si...” (DA EMPOLI, 2020, P. 175). Na velocidade vertiginosa que convivemos, o espaço da mediação para lidar com as diferenças e da própria autoridade ficam colocados em xeque. É uma crise com um desdobramento ético, porque ela resulta da tensão entre o que é possível e o que é devido. Essa é uma questão fundamental e carente de uma solução simples. Quando pensamos em tecnologia nos dias atuais, nós podemos muito, mas não devemos fazer tudo o que podemos. Esse discernimento não é simples de ser feito e possui uma re- lação direta com os espaços que a sociedade escolhe para fazer o papel de mediação e autoridade: escolas, Estado, família e orga- nismos nacionais e internacionais. A defasagem de velocidade e de referência entre os acontecimentos, possibilidades e re- gulação se constitui num desafio importante do nosso tempo. O desafio pode ser sinte- tizado na seguinte questão: precisamos co- locar as possibilidades a serviço das neces- sidades e não o contrário. Se continuarmos da maneira que estamos vivendo, passamos a ser conduzidos pelas possibilidades, sem pensar que todo feito como possibilidade pressupõe um efeito e, nem sempre, os efei- tos dos nossos feitos e das nossas possibili- dades são desejados. DICA DE LEITURA O sociólogo espanhol Manuel Casttells publicou o livro “Ruptura: a crise da democracia liberal”. Nele, você encontrará alguns exemplos do descompasso que vivemos e elementos para compreensão da atual crise de autoridade das autoridades. 23 Redes sociais e o cyberbullying O cyberbullying é o desdobramento de um problema que já existia antes das redes sociais, mas que agora ganha uma dimensão ampliada e com dificuldades de regulação em função do que já tratamos da falta de referenciais de orientação e regulação ade- quada dos espaços das redes sociais. É um fenômeno que também pega carona neste contexto social de polarização e violência. O bullying é uma violência sistemática e continuada e acontece tanto na sua dimensão física quanto simbólica. É importante recordar uma questão que já tratamos sobre a distinção entre conflito e violência. O bullying geralmente acontece na passagem en- tre as situações de conflito ou diferenças para situações de violência. No caso do cyberbullying, percebemos algumas características específicas: mudanças do espaço físico para o virtual, a intensificação da utilização de informação e imagens, ampliação da potencialidade de repercussão e dificuldade de contenção em função da dinâmica das redes sociais. Destaca-se também a possibilidade de retomada a qual- quer momento de um fato ocorrido no passado. Nesse caso, o cyberbullying pode ser reeditado tempos depois por pessoas envolvidas na situação original ou por outras pessoas. A ideia original que configura o fenômeno do bullying é a ideia do “valentão”, aquele que se impõe pela violência, pelo grito ou pela força. Hoje, temos essa dimensão re- forçada na atual dinâmica das redes sociais, onde cada um parece ter a sua verdade e forma de demonstrar veracidade do que pensa e do que sente se vincular a agressivi- dade da própria defesa do ponto de vista. A minha verdade parece mais verdadeira se apresentada de maneira enfática e agressiva. É um contexto que se transforma num convite à violência. O espaço virtual possui outras características que facilitam esse estado de coisas: a falta de contato físico, a regulação ainda difusa, a confusão com o conceito de liber- dade de expressão, a existência constante de uma plateia virtual e, como alguns au- tores já sinalizaram, uma sensação de anonimato que não é verdadeira, mas que pode incentivar posturas que, em outros ambientes não encontrariam a mesma facilidade. É importante destacar que hoje, cada vez mais, vivemos a vida nos grandes centros ur- banos mesclados nos dois espaços: físico e virtual. Uma ação que começanum espaço costuma incidir no outro espaço. Podemos imaginar que encontraremos um vínculo entre a violência nas redes sociais e a violência fora das redes. O específico das redes sociais é que ela se alimenta do engajamento, indiferentemente do conteúdo. Nesse 24 caso, a violência, as confusões, fakes e coisas do tipo se transformam num bom ne- gócio. O contexto atual pede uma atenção espe- cial de nós professores e de todas as ins- tituições da sociedade. Como nos alerta uma música do Lenine, precisamos ficar de “olho na pressão”. Em sua música, ele diz o seguinte: “olho na pressão, está fer- vendo. Olho na panela. Dinamite é o feijão cozinhando dentro do molho dela”. Mesmo não sendo, necessariamente, a intenção original da música, ela nos ajuda a pensar o contexto atual que possui alguns elemen- tos que aumentam a pressão social. São al- guns dos ingredientes da nossa panela de pressão em fogo alto: • A falta de autoridade de parte das autoridades para solução das crises; • As promessas no campo da política que não foram cumpridas e a ampliação do descrédito; • Crise econômica; • Desigualdade social crescente; • Velocidade dos acontecimentos; • Clima de polarização. Opiniões, conhecimentos e suas implicações nos processos pedagógicos Todas essas mudanças na construção e circulação das informações implicam numa questão fundamental para a educação: a relação entre a opinião e a construção do conhecimento sistematizado. Um primeiro ponto a se destacar é que a escola deixou de ser o centro da informação como outrora. A informação não passa necessariamente pela escola ou por nós professores. A mudança na dinâmica de produção e circulação de informações agregou um novo DICA DE LEITURA No livro “Os engenheiros do caos”, de Giuliano Da Empoli, você encontrará uma análise sobre as redes sociais e a dinâmica atual de disseminação de ódio, medo, teorias das conspirações e seus desdobramentos nos resultados eleitorais em diversas partes do mundo. 25 desafio na relação entre informação, opinião e conhecimento. O desafio clássico neste campo era a superação da falta de informação. Hoje, precisamos aprender a lidar tam- bém com o excesso de informação. Pode-se afirmar, ao menos como uma hipótese, que a falta e o excesso de informações geram uma situação semelhante de imobiliza- ção. Na falta ou no excesso de informações não pensamos bem. O desafio que antes era somente de acesso, hoje é também de curadoria das informações que acessamos. Hoje, vivemos um momento em que todos parecem ter opiniões sobre tudo. Um reino das opiniões. O grave do momento atual não está somente na predisposição de opinar sobre tudo, mas numa postura de certezas sobre as nossas opiniões. Essa postura for- talece o clima de intolerância do qual já tratamos. Alguns se fazem especialistas num determinado assunto depois de dois ou três cliques na internet. O problema central não está na opinião, que é bem-vinda no processo de aprendizagem como ponto de partida, mas está em tratar a opinião com ponto de chegada. O ponto de chegada no processo de aprendizagem não é a opinião, mas o conhecimento sistematizado. As opiniões, quando não aprofundadas, fortalecem uma postura de preconceito e po- dem aumentar o “fogo da nossa panela de pressão”. O reino das opiniões é também o reino do preconceito, dos conceitos a prio- ri, que carecem de confronto e aprofunda- mento. Nesse sentido, aquele dito popular que diz “a primeira impressão é a que fica” deve ser superado constantemente no ambiente escolar. As primeiras impressões são pontos de partida na educação, mas precisam ser superadas por um conheci- mento mais profundo e sistematizado. Um conhecimento crítico e autocrítico. Como professores, precisamos oferecer uma oportunidade para que nossos alu- nos pensem cada vez melhor. Pensar bem exige método. Como aquela expressão: “pensando bem”. Geralmente, ela é utili- zada quando estamos repensando alguma coisa, reconsiderando aspectos, agregan- do outros elementos que estavam fora da reflexão inicial. Pensar bem não é um jeito DICA DE LEITURA O sociólogo Pedro Demo pos- sui uma reflexão que pode nos ajudar muito na reflexão sobre a verdade no atual contexto social. “Toda verdade é mentira. Toda informação é desinfor- mação: para uma sociologia dos limites e ambiguidades humanos”. https://docs.google. com/document/d/e/2PACX1v- QCK5di2fowsVkkfClSsrt6Zf- fYyW1KHBPI5jAF3DNHEYFIsI- 0g7fdxEuYutrvBMBvRqa0tXR- MIu8k0/pub https://docs.google.com/document/d/e/2PACX1vQCK5di2fowsVkkfClSsrt6ZffYyW1KHBPI5jAF3DNHEYFIsI0g7fdxEuYutrvBMBvRqa0tXRMIu8k0/pub https://docs.google.com/document/d/e/2PACX1vQCK5di2fowsVkkfClSsrt6ZffYyW1KHBPI5jAF3DNHEYFIsI0g7fdxEuYutrvBMBvRqa0tXRMIu8k0/pub https://docs.google.com/document/d/e/2PACX1vQCK5di2fowsVkkfClSsrt6ZffYyW1KHBPI5jAF3DNHEYFIsI0g7fdxEuYutrvBMBvRqa0tXRMIu8k0/pub https://docs.google.com/document/d/e/2PACX1vQCK5di2fowsVkkfClSsrt6ZffYyW1KHBPI5jAF3DNHEYFIsI0g7fdxEuYutrvBMBvRqa0tXRMIu8k0/pub https://docs.google.com/document/d/e/2PACX1vQCK5di2fowsVkkfClSsrt6ZffYyW1KHBPI5jAF3DNHEYFIsI0g7fdxEuYutrvBMBvRqa0tXRMIu8k0/pub https://docs.google.com/document/d/e/2PACX1vQCK5di2fowsVkkfClSsrt6ZffYyW1KHBPI5jAF3DNHEYFIsI0g7fdxEuYutrvBMBvRqa0tXRMIu8k0/pub 26 exclusivo de pensar da escola, mas é uma exigência do pensamento escolar, ou seja, do conhecimento que se produz no ambiente escolar. Pensar bem não é pensar com a nossa cabeça, não é quando o aluno pensa a mesma coisa que o professor, mas é pensar melhor suas ideias, fundamentá-las e aprender que, antes de fazer o exercício da crítica, o bom pensamento é aquele que faz a autocrítica. 27 Capítulo 4 Ética e a sala de aula: cotidiano e aprendizagem O cotidiano da sala de aula As relações cotidianas possuem uma dimensão paradoxal: costumamos não prestar atenção ao que se transforma em rotineiro e essa questão é um desafio, em especial, para a docência. O principal exercício docente não acontece em aulas extraordinárias ou momentos excepcionais. Nosso fazer docente acontece geralmente nas ações cor- riqueiras, diárias e rotineiras. Manter a atenção “ligada”, apesar da rotina, não é um exercício simples. Numa crônica espetacular com o nome de “Vista cansada”, Otto Lara Resende nos chama atenção que o “hábito suja os olhos” e essa é a dinâmica paradoxal do cotidia- no: de tanto ver deixamos de enxergar, deixamos de perceber. O desafiador disso tudo é que nós construímos o nosso cotidiano, mas ele também nos constrói. Não somos necessariamente os professores que sonhamos ser e sim os professores que vamos nos fazendo no dia a dia, de um jeito silencioso, no cotidiano de nossas aulas, nossos planejamentos e correção das tarefas. Cada pequena ação, quase sempre despercebi- da, vai forjando o professor que somos. Nesse contexto, continuar aprendendo, que é uma necessidade para a nossa docên- cia, não é algo que acontecerá sem esforço e alguma sistematização. Fazer da nossa carreira cotidiana uma experiência de crescimento profissional e de oportunidade para os nossos estudantes é um desafio significativo, em especial, em tempos tão agitados. É no cotidiano que nos perdemos, mas é no cotidiano que encontraremos a possi- bilidade de nos achar quantas vezes forem necessárias. A nossa principal fonte de 28 formação não são os cursos que fizemos, os livros que estudamos. Tudo isso ajuda bastante, mas é o cotidiano o nosso grande formador. Cuidar do nosso cotidiano é cuidar dos nossos sonhos de docência. A nossa principal tarefa como docente é cuidar, do ponto de vista pedagógico, da caminhada dos nossos estudantes. No que depender de nós, eles irão aprender o necessário para o seu futuro profissional e para contribuir na melho- ria da nossa sociedade. Para cumprir essa prin- cipal tarefa, precisamos, também, de cuidar de nós mesmos. O desafio é fazer da nossa vida e da nossa relação com o conhecimento um ape- ritivo daquilo que desejamos para os nossos alunos. No exercíciodo cuidado com a nossa própria docência, é importante uma compreensão dos limites do nosso trabalho. Num contex- to que alimenta a ilusão de que tudo é possível, a compreensão dos limites é educativa e libertadora. O trabalho docente pode muito, mas não pode tudo. A própria educação pode muito, mas não pode tudo. Esse ponto de partida maduro nos ajudará a compre- ender nossas reais possibilidades. “Calibrar” bem as expectativas que possuímos é fundamental. Importante, como in- siste a professora Christiane Girard, compreender a relação entre a prepotência e a impotência na busca de uma justa potência. Precisamos fugir dos extremos de uma leitura prepotente ou impotente da educação, da docência e de nós mesmos. Sala de aula – o lugar de encontros, de problemas e soluções A sala de aula, seja presencial ou virtual, é o espaço de encontro e de trocas. Encontro entre o que se sabe e o que não se sabe, encontro de expectativas, encontro de sabe- res dos professores e dos alunos. Podemos pensar a sala de aula como um espaço de trocas resultantes desses encontros. Vale salientar que uma parte de nossos conflitos são resultado de trocas que fazemos. Quando você recebe menos ou mais do que esperava em uma relação, seja ela de qualquer natureza, resulta da troca uma espécie de saldo que vai gerar uma predisposição ou uma indisposição para as futuras trocas. DICA DE LEITURA Sobre a dinâmica paradoxal do cotidiano, vale a pena ler a crônica “Vista cansa- da”, de Otto Lara Resende. https://cronicabrasileira.org. br/cronicas/7040/vista- -cansada https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/7040/vista-cansada https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/7040/vista-cansada https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/7040/vista-cansada 29 A sala de aula e a sociedade são feitas dessas trocas e dos elos resultantes delas. As trocas fortalecem, enfraquecem ou rompem os elos das relações. Um bom exemplo são as trocas de mensagens nos grupos de família, que podem fortalecer, enfraquecer ou romper os elos familiares. Na sala de aula, a principal troca é a dos saberes: entre o saber do currículo escolar, o saber da experiência dos professores, o saber prévio dos alunos. Esse encontro e troca de saberes pode fortalecer ou enfraquecer as relações de sala e a busca por novos conhecimentos. O resultado principal da troca entre saberes é a aprendizagem. Uma aprendizagem dos alunos de novos conteúdos, uma aprendizagem do professor sobre como educar me- lhor e da própria instituição educativa. Esses aprendizados estão vinculados à forma que organizamos as trocas, como respeitamos os saberes prévios de cada um. É importante destacar que interessam mui- to os resultados de aprendizagem gerados pelas trocas em sala de aula, mas interessam também os “custos” para se alcançar esses resultados e seus efeitos. Resultado, custo e efeito: esse é um tripé para avaliar o co- nhecimento que produzimos e a sua susten- tabilidade. De nada vale um conhecimento produzido à custa de violência simbólica, por exemplo. Ou ainda, um conhecimento pro- duzido colocado a serviço de processos de desumanização. Um conhecimento huma- nizador é aquele que é construído de forma humanizadora e a serviço da humanização. A sala de aula e a mediação de conflitos A sala de aula, presencial ou virtual, sendo um espaço de trocas e de aprendizagem, é também um espaço de conflitos. Os conflitos em sala são esperados, o que deve- mos evitar são as situações de violência. Os conflitos cognitivos, entre pensamentos diferentes, concepções contraditórias devem encontrar na sala de aula um espaço de acolhida e problematização. Então, a sala de aula é um espaço de algumas trocas conflitivas e, portanto, podemos esperar que algumas situações necessitem de uma maior mediação ou intervenção de DICA DE LEITURA Um estudo muito interessante sobre as trocas, laços e relações, foi feito pelo antropólogo e sociólogo francês Marcel Mauss e pode ser encontrado no livro “Sociologia e antropologia”, publicado pela editora Cosac & Naify. 30 nós, professores. Existe um estudo que não trata diretamente sobre o tema da sala de aula e seus conflitos específicos, mas que pode nos ajudar a compreender parte da natureza dos conflitos em que nos envolvemos. É o estudo feito pelo rabino Nilton Bonder que aponta uma distinção importante entre a raiva, a revanche e a rixa. Compreender como as trocas desiguais podem gerar situações de conflito e situações de violência é fundamental. Na distinção proposta pelo autor, a rixa é quando a raiva “ganha vida própria”, indiferente das situações de origem. Teríamos as rixas entre gru- pos, turmas, famílias etc. Ou seja, podemos perceber que existem dinâmicas nas rela- ções que atuam para conservação e ampliação da raiva e o ódio. Para o Nilton Bonder, a inveja é um elemento central para essa compreensão e seria uma dinâmica oposta à gratidão – dinâmica que alimenta os elos e a reciprocidade. Compreender essa dinâmica, em que, por ve- zes, nós somos “tomados pela emoção” e ali- mentamos situações que não precisariam cres- cer tanto, é fundamental para a docência num tempo de tanta turbulência. O estudo do Nilton Bonder é um caminho entre outros para com- preensão e estabelecimento de alguns cuidados básicos. Por um caminho ou por outro, nós pro- fessores precisamos nos ocupar com essa pauta. A sala de aula não é uma ilha. Pelo contrário, ela funciona como um microcosmos da sociedade. Nela, encontraremos todas as possibilidades e contradições do momento que estamos vivendo no país e no mundo. A sala de aula como um aperitivo de uma ética do cuidado A sala de aula como espaço das trocas, de aprendizagem e das tensões cotidianas precisa se constituir numa experiência de cuidado com tudo o que é o humano, inclu- sive suas contradições. O ser humano é resultado do cuidado (da falta e do excesso de cuidado). O teólogo e filósofo Leonardo Boff escreveu um livro sobre o cuidado e nele compartilhou uma fábula que retrata a essência do cuidado e seu papel na vida humana: DICA DE LEITURA Para aprofundar essa dinâmica da construção das rixas e uma compreensão da condição da inveja, vale a pena a leitura do livro “A cabala da Inveja”, de Nilton Bonder, publicado pela editora Rocco. 31 “Certo dia, ao atravessar um rio, Cuidado viu um pedaço de barro. Logo teve uma ideia inspirada. Tomou um pouco do barro e co- meçou a dar-lhe forma. Enquanto contemplava o que havia feito, apareceu Júpiter. Cuidado pediu-lhe que soprasse espírito nele. O que Júpiter fez de bom grado. Quando, porém, Cuidado quis dar um nome à cria- tura que havia moldado, Júpiter o proibiu. Exigiu que fosse impos- to o seu nome. Enquanto Júpiter e Cuidado discutiam, surgiu, de repente, a Terra. Quis também ela conferir o seu nome à criatura, pois fora feita de barro, material do corpo da Terra. Originou-se então uma discussão generalizada. De comum acordo pediram a Saturno que funcionasse como ár- bitro. Este tomou a seguinte decisão que pareceu justa: “Você, Júpiter, deu-lhe o espírito; receberá, pois, de volta este espírito por ocasião da morte dessa criatura. Você, Terra, deu-lhe o corpo; receberá, portanto, também de volta o seu corpo quando essa criatura morrer. Mas como você, Cui- dado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura, ficará sob seus cuidados enquanto ela viver. E uma vez que entre vocês há acalorada discussão acerca do nome, decido eu: esta criatura será chamada Homem, isto é, feita de húmus, que significa terra fértil”. (BOFF, 2014, P. 46) Essa fábula nos lembra que a capacidade humana é resultado do cuidado. Ser profes- sor também é uma atividade de cuidado, cuidado com a aprendizagem do aluno, cui- dado com o seu saber prévio, cuidado com o erro, cuidado com os sonhos que moram dentro de cada um que busca um novo aprendizado. É importante ressaltar que dento de toda busca de aprendizado mora um sonho. O cuidado pedagógico, que é a nossa tarefa docente,não se faz sem uma bússola, sem uma referência diante tanta agitação e tantos afazeres. Aqui, a perspectiva da ética é fundamental. Ela funciona com um farol para não perdermos o rumo mesmo em mares muito turbulentos. Inclusive, parece-me que vale uma regra sobre a ética do cuidado: quanto maior a turbulência, maior o nosso cuidado. Agindo assim, vamos conseguir arrancar o máximo de aprendizagem possível das situações que controlamos e das inúmeras situações que não controlamos. 32 Diante de um contexto ou de uma situação de turbulência, algumas perguntas podem nos ajudar como um farol – que não muda a tempestade, mas ilumina como devemos nos comportar enquanto a tempestade não passa: • O que fazer para passar por esse momento? • O que não fazer indiferente desse momento de crise? • O que não deixar de fazer apesar desse momento de crise? É preciso, também, cuidar da nossa esperança. Atuar na docência sem esperança na aprendizagem dos alunos e na nossa própria aprendizagem é uma postura de padeci- mento. A esperança pedagógica possui a capacidade de enxergar o que já pode existir (aprendizado) naquilo que existe. Dessa forma, todo professor “tem problemas de vis- tas”, porque não enxerga somente o está na sua frente, mas enxerga também a poten- cialidade que mora em toda a realidade. Esse mesmo cuidado esperançoso que irá implicar numa ética pedagógica: no que depender da nossa ação docente, nenhum aluno deixa de aprender. Nem sempre no ritmo que desejamos ou que eles precisam, mas nos cabe insistir sempre. A nossa pos- tura é de não deixar ninguém para trás. Esse é um compromisso ético-pedagógico que precisamos fazer como professores, como sistema educacional e como país. A esperança percebida dessa forma não é uma meta ou um lugar, mas um jeito de perceber e se envolver com a vida. Um jeito esperançoso. Que não renuncia à postura crítica, mas não se perde na lamúria ou na indiferença do pessimismo. Também não reforça a ilusão de que está tudo bem ou que temos um caminho fácil pela frente. A postura esperança que nasce de uma ética do cuidado é a postura que reconhece que o ser humano é o que aprendeu a ser e que a aprendizagem é a principal saída para os nossos desafios. Cuidar da aprendizagem, em todas as suas dimensões e espaços, é cuidar da humanidade no humano. É cuidar da nossa existência. Essa é a nossa ta- refa como professores, é o que nos cabe fazer nessa caminhada, transformando a sociedade numa grande sala de aula e a vida na nossa grande educadora. DICA DE LEITURA Sobre a ética do cuidado, o teólogo e filósofo Leonardo Boff escreveu o livro “Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra”, publicado pela editora Vozes. 33 Conclusão Temos vivido tempos inusitados e exigentes para todos que atuam na área de edu- cação. Esse estado de coisas se deve ao papel da educação de fazer pontes entre o passado e o futuro numa sociedade com mudanças aceleradas. A dinâmica social que nos trouxe até aqui deve se manter para os próximos anos, então podemos deduzir, mesmo sem predizer os cenários futuros, que a convivência com realidades inusitadas deve ser uma constante na próxima quadra da história. Construir referenciais seguros para tempos inusitados não será tarefa fácil, mas se constitui numa tarefa fundamental para a educação e seus professores. Não se trata de referenciais para cada passo e cada decisão, não se trata de um guia no formato de um GPS que orienta os detalhes de rua a virar, do tráfego que temos pela frente e o tempo estimado de chegada. Esse tipo de orientação não será possível em tempos de muita agitação social. O referencial ético que precisamos para nossas relações interpessoais e para orien- tação de nossas opções e ações na sociedade são princípios norteadores, que nos ajudaram a nos movimentar mesmo quando o caminho não estiver claro ou mesmo construído. A ética para tempos inusitados não é um manual de respostas sobre o que se pode e o que não pode fazer, o que se deve ou o que não se deve fazer. Uma ética para tempos inusitados estabelece princípios que nos ajudarão na construção das respostas neces- sárias e, em especial, das perguntas que ainda não estamos fazendo sobre os rumos da sociedade, da educação e da nossa prática docente. 34 A esperança pedagógica no outro e no futuro nos compromete para melhorar sem- pre, acolhe o que o outro pode fazer, mas, ao mesmo tempo, problematiza o que é necessário para compreender que somos todos frutos de aprendizagem. Se chegamos até aqui pelo caminho da aprendizagem, podemos também, com esse mesmo recurso humano, reafirmar caminhos, mudar de rotas e inventar caminhos que ainda não vis- lumbramos. Ser professor é uma profissão, mas também é uma forma de perceber e se inserir na dinâmica da vida. Uma inserção que mistura a esperança e o esforço de aprender com a vida. Que se sabe resultado das aprendizagens e por isso também reconhece que sempre é possível melhorar. Na vida de professor, a perspectiva pedagógica e a ética se misturam porque continuar aprendendo é o melhor que podemos oferecer para a vida e para a sociedade. 35 Referências ARENDT, Hanna. Entre o passado e o futuro. 7ª Ed. São Paulo: Perspectiva, 2011. BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 2000. BAUMAN, Zigmunt. A ética é possível num mundo de consumidores? Rio de Janeiro: Zahar, 2011. BECK, Ulrich. A metamorfose do mundo – novos conceitos para uma nova realidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. 20ª Ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2014. BONDER, Nilton. A cabala da inveja. Rio de Janeiro: Rocco, 2010. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2011. BUZZI, Arcângelo R. Introdução ao pensar. 36ª Ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2012. CASTELLS, Manuel. Ruptura: a crise da democracia liberal. 1ª E. Rio de Janeiro, Zahar, 2018. DUBET, François. O tempo das paixões tristes. São Paulo: Vestígio, 2020. ENGUITA, Mariano. Educar em tempos incertos. Porto Alegre: Artmed. 2003. EMPOLI, Giuliano Da. Engenheiro do caos. São Paulo: Vestígio, 2020. FREIRE, Madalena. Educador. 9ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008. FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. 29ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2020. GOLEMAN, Daniel. Inteligência social – a ciência revolucionária das relações humanas. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019. 36 HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Rio de Janeiro: Vozes, 2015. HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. 11ª Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2008. KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. KOSIK, Karel. Dialética do concreto. São Paulo: Paz e Terra, 2007. LA BOÉTIE, Etienne. Discurso da servidão voluntária. São Paulo. Editora Martin Claret, 2009. LOVELUCK, Benjamin. Redes, liberdades e controle – uma genealogia política da internet. Petrópolis, RJ: Vozes, 2018. MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. MORIN, Edgar. É hora de mudarmos de via: lições do coronavírus. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2021. RIBEIRO, Renato Janine. A boa política – ensaios sobre democracia na era da internet. 1ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017 ROSA, Hartmut. Aceleração: a transformação das estruturas temporais da modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 2019. SADIN, Éric. La silicolonización del mundo – la irresistible expansión del liberalismo digital. Buenos Aires: Caja Negra, 2018. SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2002. VIRILIO, Paul. O espaço crítico e as perspectivas do tempo real. 2ª Ed. São Paulo: Editora 34, 2014. Introdução Capítulo 1 Ética na sociedade Encantos e espantos do nosso tempo Uma marca do nosso tempo: “tudo junto e misturado” A cozinha