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Texto de aula 07 08 MJ 2015 Ramos de Carvalhoread

Livro sobre as reformas pombalinas da instrução pública em Portugal. Analisa iluminismo e pombalismo, antijesuitismo, a reforma dos estudos menores e as diretrizes da reforma universitária de 1772; inclui prefácio, prólogo, conclusão, apêndice e bibliografia.

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Juliane

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LAERTE RAMOS DE CARVALHO
AS REFORMAS 
POMBALINAS DA 
INSTRUÇÃO PÚBLICA
edípáfe
1978
EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÂO PAULO 
SARAIVA S/A — LIVREIROS EDITORES
Rubens
Nota
Os balões são utilizados para expressar comentários que o Alfredo fez em aula ou notas importantes, os trechos do texto destacados foram lidos por ele em voz alta. Boa leitura.
Rubens
Nota
A leitura de resumos, a leitura do texto, o comparecimento em sala de aula e o estudo não isentam o aluno de uma avaliação arbitrária e injusta. 
Rubens
Realce
Rubens
Nota
Este texto do Laerte Ramos de Carvalho aborda basicamente a reforma no ensino feita por Pombal, o então Secretário de Estado do Reino de Portugal, em contraponto com o ensino Jesuítico que era majoritário na época. Tais reformas foram pautadas em princípios iluministas e influenciadas por vários autores, em especial Luís Antônio Verney, que é inclusive autor da obra O Verdadeiro Método de Estudar. nullEntendo que o Professor Alfredo tenha indicado este conjunto de leituras com o propósito de questionar e refletir sobre a finalidade do ensino atual do Brasil, em especial o ensino universitário, através de uma análise de reflexos das mudanças políticas que Portugal fez há três séculos. 
ClP-Brasii. Catatogaçâo-na-Foníe. 
Câmara Brasileira do Livro, SP
Carvalho, Laeríc Ramos de, 1922-1972.
C325r As reformas pombalinas da instrução pública. São Paulo,
Saraiva, Ed. da Universidade de São Paulo, 1978.
1. Educação e Estado — Portugal 2. Educação — Por­
tugal — História 3. Pombal, Sebastião José de Carvalho e
Melo, Marquês de, 1699-1782 4. Reforma do ensino — Por­
tugal I. Título.
CDD-370 9469
77-1534 -379 469
Índices para catálogo sistemático:
1 Portugal : Educação : História 370.9469
2. Portugal : Instrução pública : Reformas pombalinas
379 469
3. Reformas pombalinas : Instrução pública : Portugal
379.469
Assessoria editorial: João Gualberto de Carvalho Meneses, da Faculdade de 
Educação da Universidade de São Paulo.
Capa c diagramação: Francisco Gualbemei A. de Andrade.
Produção gráfica: Arlindo André Batista Meira.
;n ° 1 2 1 2
SARAIVA S.A. — Livreiros Editores
São Pauto — SP
Av. Emíssè^o. 1897
Tek {011} 826-8422
Belo Horizonte — MG
f t. Célia de Souza, $71 - 8aÍ?;o Famifia
T eis: 10315 461-9962 e 461-9995
Rio de Janeiro — RJ
Av. Morecha! Roodors. 2231
Tôf: Í021 í 201-7149 e 261-4811
I
Indice
Prefácio ................................ .............................................. 1
Prólogo ............................................................................... 11
Capítulo I — ílurainismo e Pombafismo .......................... 25
Capítulo II — A Reforma dos Estudos Menores e a Defesa
do Regalismo ......................................... 59
Capítulo III — O Desenvolvimento da Reforma dos Estudos
Menores ............. ....................................... 99
Capítulo IV — As Diretrizes da Reforma Universitária de
1772 .......................................................... 141
Conclusão ................. ............................................ ............. 189
Apêndice ............................................................................. 193
Bibliografia ......................................................................... 231
VII
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Riscado
Rubens
Nota
O capítulo III não cai
Capltuío I
lluminismo e 
Pombalismo
/ — Tradição e modernidade. Antijesuitismo doutrinário. Verney e a 
luta contra a tradição. O Modernismo verneyano. II — A modernidade 
e os jesuítas. União cristã e sociedade civil. Os jesuítas e o ensino por­
tuguês. Os jesuítas como educadores da burguesia. O ensino de Aris­
tóteles ruis escolas da Companhia de Jesus. Os Oitavos Estatutos da 
Universidade de Coimbra e a resistência às inovações doutrinárias. III — 
O antijesuitismo da pedagogia pombalina. O Compêndio Histórico. O 
sentido econômko-poíítico da luta contra os jesuítas. A renovação das 
escolas portuguesas. Perfeito nobre e comerciante per jeito. Os rumos 
da pedagogia pombalina. IV — lluminismo e pombalismo. Os jesuítas 
e o pensamento regalista de Pombal. Pombal Libertino? Ordem civil e 
jesuitismo. A escola a serviço dos interesses do despotismo. A reação 
a Aristóteles e ao método escolástico. O novo rtano: o empirismo. A 
lógica e os estudos universitários. O ecletismo. A lógica como organon 
da ética do pombalismo.
1
As reformas pombalmas da instrução pública constituem ex­
pressão altamente significativa do ituminismo português. Nelas se 
encontra consubstanciado um programa pedagógico que, se por um 
lado, representa o reflexo das idéias que agitavam a mentalidade 
européia, por outro, traduz, nas condições da vida peninsular, moti­
vos, preocupações e problemas tipicamente lusitanos. No complexo 
quadro das manifestações espirituais do período pombalino, as refor­
25
Rubens
Nota
A reforma do Pombal precisa ser lida a partir de dois pontos de vista: um é o debate europeu, visto que o Pombal foi embaixador em Viena, e entendeu as respostas que tinha que ser dadas pelas monarquias para não caírem e uma visão portuguesa
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Nota
Aula do dia 12 de maio de 2015 de Metodologia Jurídica do Alfredo de Jesus Dal Molin Flores 
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Nota
Velho pragmatismo lusitano, de administrar grandes extensões de terra atrás do domínio do comércio, ao contrário de visão espanhola, que enviava burocratas para as suas colônias, criar universidades e governos locais. 
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Nota
A própria definição de iluminismo é abrangente, é descrito em cada idioma de uma maneira diferente, "Age of Enlightenment"(inglês), "Aufklärung" (alemão), "Ilustración" (espanhol), "Siècle des Lumières" (francês), sendo que em cada um desses termos se referem a tempos históricos e ideias ligeiramente distintos
mas do ensino são como que o denominador comum de uma aspira­
ção generalizada. Um de seus objetivos, a remodelação dos métodos 
educacionais vigentes, pela introdução da filosofia moderna e das 
ciências da natureza em Portugal, era a preocupação constante d. 
algumas das mais expressivas figuras intelectuais da época. Nestas 
condições, a indagação do significado e da orientação destes esfor­
ços no sentido de renovar a mentalidade imperante se impõe como 
tarefa preliminar para quem pretenda compreender a fisionomia es* 
piritual do pombalismo.
Ora, se o nosso problema é uma questão de ordem pedagógica, 
e por isso mesmo cultural, e se devemos partir antes de tudo das 
manifestações contemporâneas, o primeiro fato que chama a nossa 
atenção é a consciência que tiveram os próprios letrados do século 
XVIII da oposição entre o pensamento “tradicional” e o pensamen­
to “moderno”. Os historiadores registram e encarecem, de alguns 
anos a esta parte, as raras opiniões filosóficas de alguns letrados 
que, contra a rotina dos métodos de pensamento vigentes, se insur­
giram, abrindo aos olhos portugueses as novas perspectivas do pen­
samento moderno. Se compreendermos não apenas o valor destas 
críticas — o que elas encerram de verdadeiro ou de falso — mas 
a intenção que as animou, resulta claramente que um dos traços 
inconfundíveis da cultura lusitana do século XVIII é a sua mani­
festação literária, expressa como um programa de modernismo filo­
sófico contra a tradição. Reconheçamos, todavia, que esta renova­
ção pedagógica, inspirada nos ideais e problemas da filosofia 
moderna, não é uma manifestação exclusiva do período pombaJino; 
ela se inicia no reinado de D. João V e prolonga-se, sem solução de 
continuidade, e através de vicissitudes diversas, no governo de D. 
Maria I. Da Academia Real de História, fundada em 1720, à Re­
forma da Universidade, em 1772, e desta à Academia Real de 
Ciências, criada em 1779, se efetuou um esforço de renovação de 
métodos e de atitudes de pensamentoe de integração de novos 
ideais, esforço este que não disfarça os propósitos “iluministas” 
que animaram estas iniciativas e reformas.
Certamente não poderemos falar de um “Uuminismo” português 
no mesmo sentido pelo qual nos expressamos ao caracterizar as 
manifestações do pensamento inglês, francês e alemão. O ilumi- 
nismo português — afirmou o Prof. Cabral de Moncada — foi 
“essencialmente Reformismo e Pedagogismo. O seu espírito era,
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Nota
A mudança do ensino era um consenso entre as elite intelectual portuguesa, o que legitimou tal reforma
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Nota
Havia uma nova maneira de pensar, com propósitos iluministas 
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Nota
Texto lido pelos nossos veteranos no semestre passado
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Nota
A procura pelo conhecimento é dada pela política despótica do governo 
não revolucionário, nem anti-histórico, nem irreligioso como o fran­
cês; mas essencialmente progressista, reformista, nacionalista e hu­
manista. Era o iluminismo italiano: um iluminismo essencialmente 
cristão e católico” 5. Todavia, forçoso é reconhecer, o iluminis­
mo, em que pesem as peculiaridade que historicamente assumiu nos 
diversos países, foi sempre um programa pedagógico, uma atitude 
crítica de revisão de problemas do qual não se podem dissociar, no 
fundo, as intenções de uma reforma, tanto das instituições, quanto 
dos hábitos de pensamento. Setis propósitos mais significativos se 
resumem no lema por que Kant, num breve escrito2, procurou vis­
lumbrar, através de uma variada gama de matizes doutrinários, o 
sentido íntimo de uma aspiração geral — sapere ande.
Em Portugal, o eco destes ideais europeus se manifestou, con­
creta e historicamente, como um programa político de governo. 
Um dos traços mais significativos do iluminismo português é a sua 
expressão de modernidade consciente e de não menos consciente 
repúdio às formas e hábitos de pensamento até então imperantes. 
É mister esclarecer, todavia, que tanto esta modernidade quanto 
este repudio revestiram-se de um formalismo pedagógico bastante 
característico. O hábito das disputas, tão fortemente enraizado na 
escola e na mentalidade portuguesas, pelo trabalho de vários séculos 
de tradição escolástica, não permitiu que o progiama de renovação 
cultural se processasse, livre de quaisquer fatores restritivos, no deba­
te amplo dos reais interesses ideológicos da modernidade. Os filó­
sofos recentiores se preocuparam, desta forma, muito mais com a 
transformação dos programas do pensamento moderno, em novas 
questões a serem tratadas nos apertados limites das oposições aca­
dêmicas, do que com a perfeita elucidação dos principais temas do 
pensamento posterior à reforma cartesiana. Certamente os prejuízos 
decorrentes das tradições pedagógicas não foram os únicos a deter­
minar e a influir na maneira de ser do iluminismo português. A 
história de uma cultura não se processa independentemente dos fato­
res econômicos, sociais e políticos que, de certa forma, a condicio­
1. Cabral de Moneada, Um “llumintsta” Português do Século XV III; 
Luiz Antonio Verney, São Paulo, Liv. Acadêmica, 1941, pág. 12. Este ensaio 
foi reproduzido em Estudos de História do Direito, do mesmo autor, vol. III, 
incluídos na Acta Universilalis Conlmbrigensis. O passo se encontra à pág. 8.
2. Que es la Ilustración? Trad. espanhola de E. Imaz, no volume Filo­
sofia de ia Historia, Colégio dcl México, 1947, pág. 25.
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Nota
Leitura da turma do semestre passado
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Nota
O iluminismo é pensado como um estratégia para fazer uma reforma na sociedade, tem um espectro muito grande, parte do iluminismo é radical, é jacobino, outra parte possui a teoria da democracia representativa de Locke.
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Nota
Os debates jurídicos na época eram extremamente comuns, o que foi um empecilho para a implantação da reforma
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Nota
Estes podem ser entendidos como fatores culturais
nam. As reformas pombalinas da instrução constituem, neste sen­
tido, expressivo exemplo. Ao lado das medidas de diferentes ordens, 
adotadas pelo ministro de D. José I, estas reformas traduzem, den­
tro do plano de recuperação nacional, a política que as condições 
econômicas e sociais do país pareciam reclamar.
Cumpre-nos, portanto, indagar do sentido e objetivo por que 
se concretizaram as aspirações dos letrados que, direta ou indireta­
mente, influíram nas reformas pombalinas da instrução. O primeiro 
problema que chama nossa atenção, porque o encontramos sempre 
presente em quase todas as vicissiíudes dos vinte e sete anos de 
administração pombalina, é a questão dos Jesuítas. Tanto a Dedu­
ção Cronológica quanto o Compêndio Histórico constituem do­
cumentos intencionalmente escritos para atribuir aos jesuítas a causa 
de todos os males do país. Não nos compete examinar o acerto 
ou desacerto dessa compreensão histórica, apoiada, de resto, no 
século passado, pelos historiadores liberais, republicanos e socialis­
tas. Importa-nos, sobretudo, registrar que o antijesuitismo daque­
les escritos, como de outros tantos documentos de igual inspiração, 
representa a expressão de uma atitude generalizada nos países euro­
peus. Na esfera dos problemas da educação e, no sentido mais 
amplo, da cultura, atribuiu-se aos jesuítas a responsabilidade pelo 
atraso em que se encontravam as letras portuguesas no século XVIII. 
Os jesuítas seriam, desta forma, os principais fatores da resistência 
à introdução das idéias novas e da “boa” filosofia em Portugal.
As dezesseis cartas que, no anonimato, Luiz Antônio Verney 
escreveu sobre o estado da instrução pública lusitana são, a este 
respeito, muito expressivas. Não é sem exagero que, como um filó­
sofo recentior, Verney criticava os métodos jesuíticos: “O que sei 
porém — dizia ele na Oitava Carta — é que nestes países não se 
sabe de que cor seja isto a que chamam boa filosofia. Este vocá­
bulo, ou por ele entendamos ciência, ou com rigor gramático, amor 
da ciência é vocábulo bem grego nestes países” 3. O disfarçado 
plural tinha, entretanto, um endereço certo. E as réplicas e tré­
plicas não tardaram, veementes e, algumas vezes, desabusadas. 
Aparentemente, os debates se processaram como se fossem uma sim-
3 Verdadeiro Método de Estudar, Valença, na oficina de Aníonso Baile, 
1747, t. I, págs. 227/8. Cf. na edição organizada pelo Prof. Antonio Salgada 
JTi'., Lisboa, Ed Sá da Costa, 1950, vol III, pág. 3.
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Nota
O anti-jesuitimo era generalizado. O jesuíta não obedece o bispo e não obedece o rei. 
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Nota
Os conflitos de rei de Espanha com os jesuítas se iniciaram no Brasil, com o tratado de Madri que estabelecia a divisão de terras. Os jesuítas postergaram sua retirada até serem atacados por tropas portuguesas apoiadas por tropas espanholas.
pies questão entre ordens religiosas4; mas tal era a magnitude do 
assunto que a própria coroa real, posteriormente, em nome dos inte­
resses seculares, reivindicou para si a execução de tarefas educa­
cionais até então quase exclusivas dos poderes espirituais. No que 
se refere ao ensino das humanidades, a reforma pombalina foi uma 
tentativa de secularização das instituições, no sentido sociológico do 
termo, secularização esta a meio caminho da laicização, tão de gosto 
dos teóricos educacionais do século X IX e, também, de nosso tempo.
Ainda hoje, os alvarás e provisões pombalinos são examinados 
como se não houvesse um outro caminho entre a alternativa que 
então se propôs; jesuitismo e antijesuitismo. Nesta alternativa, os 
jesuítas representam para os historiadores tudo o que há de anti- 
moderno e Pombal, com seus homens, a autêntica antecipação das 
aspirações modernas. Ora, forçoso é reconhecerque os termos desta 
alternativa constituem um dos mais graves impedimentos para a 
justa compreensão de um dos momentos mais lúcidos da história 
lusitana. Se um caminho existe entre os escolhos de uma investi­
gação tão cheia de percalços, onde as paixões e, algumas vezes, os 
ódios obnubilam a clara visão dos fatos, este caminho será aquele 
em que o historiador, diante de tão variadas e contraditórias ma­
nifestações da cultura portuguesa, procurará apenas definir o sentido 
do modernismo filosófico consubstanciado nas obras dos letrados da 
época em questão. Moderno, no caso, não é apenas um termo: é 
uma condição dialética de pensamento — uma atitude diante dos 
valores e processos da cultura — e, ao mesmo tempo, a aspiração
— o ideal, essencialmente pedagógico da transformação da ideolo­
gia nos seus hábitos tradicionais, transformação esta orientada para 
objetivos claramente predeterminados, de acordo com as exigências 
da doutrina política imperante.
A introdução da filosofia moderna em Portugal se efetuou, den­
tro das condições sociais da época, por intermédio de um programa 
do qual não estiveram ausentes o espírito, e os interesses do despo­
tismo esclarecido. Numa carta ao Pe. Joaquim de Foyos, declarou 
Verney que tivera “ao princípio particular ordem da Corte de ilu­
4. Cf. João Lúcio de Azevedo, O Marquês de Pombal e a sua Êpoca,
2.a ed. com emendas, Rio de Janeiro-Porto, Anuário do Brasil-Seara Nova- 
Renascença Portuguesa, 1922, Cap. X , III, pág. 338.
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Nota
O modernismo português na verdade é só um discurso dos déspotas, não há um consciência, uma liberdade de pensamento, mesmo assim trouxe progressos 
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Nota
Esta secularização das instituição seria na verdade um processo em que a coroa irá encampar o ensino, ou seja, atribuições que eram antes entregues a instituições religiosas serão realizadas pela monarquia.
minar a nossa Nação em tudo o que pudesse. . . ” B. Ê muito pro­
vável que o Verdadeiro Método de Estudar, um dos mais preciosos 
documentos para o estudo da cultura lusitana no século XVIII, te­
nha sido redigido dentro destes propósitos iluministas. Nas idéias 
desenvolvidas por Verney neste livro o que mais interessa é a natu­
reza crítica e assistemática de sua doutrina. A feição pedagógica, 
intencional na obra, decorre da própria posição “moderna” assumi­
da pelo Autor. Ê bastante significativo que, na Oitava Carta do 
Verdadeiro Método de Estudar, Verney, depois de traçar o quadro 
dos estudos filosóficos em Portugal no qual se patenteiam a resis­
tência e até mesmo o desconhecimento da filosofia moderna, lembre 
que o melhor modo de afastar estes erros e “desenganar esta gente 
e mostrar-lhe os seus prejuízos é pôr-lhe diante dos olhos uma breve 
história da matéria que tratam: e persuado-me — continua o Barba- 
dinho — que este é o mais necessário prolegômeno em todas as 
ciências” A história filosófica não foi, entretanto, além de uma 
limitada propedêutica, com fins pedagógicos claramente determina­
dos. Através da história das seitas filosóficas, procura Vemey, no 
relativismo das posições doutrinárias diversas e, algumas vezes, até 
contraditórias, o caminho da “boa” filosofia.
Há em Verney, entretanto, um modernismo mais de forma do 
que de conteúdo. Os autores modernos são apenas, no Verdadeiro 
Método de Estudar, simples instrumentos de que o Autor lança mão 
para melhor justificar o pensamento nuclear de seus intentos refor­
mistas. O Prof. Joaquim de Carvalho, num excelente estudo, trans­
crevendo um passo característico da Décima Carta da referida obra, 
chamou a atenção dos estudiosos para o verbalismo do saber cien­
tífico de Verney e da sua “inapreensão do alcance da concepção 
mecanicista da Natureza”. Em Verney — afirma o eminente pro­
fessor — a “razão de militante estava mais bem instruída do que 
devia remover-se do que devia fundar-se” 7. Em lógica, seu em-
5. Esta carta foi publicada ao Conimbricen.se, por Inocêncio, no n.° 
2.229, de 5 de dezembro de 1868, e reproduzida em Estudos de História do 
Direito, cit., págs. 424/8.
6. Verney, ob. cit., Oitava Carta, ed. de 1747, t. I, pág. 232, e ed. A. 
Salgado Jr., t. III, pág. 19.
7. Introdução do Ensaio Filosófico sobre o Entendimento Humano (Re­
sumo dos Livs. I e II, recusado pela Real Mesa Censória 6 agora dado ao prelo 
com introdução e apêndice), Coleção Inédita ac Rediviva, Biblioteca da Uni­
versidade, 1950, pág. 37.
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Nota
É possível baixar tal livro, são dois tomos, mas não é uma obra sistemática, e sim várias cartas, vários tratados, de forma assistematica. 
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Nota
Verney não é um autor criterioso, não é um catedrático.
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Nota
Não há necessidade de fazer grandes sistematizações do conhecimento, como é o modelo hegeliano, se procura apenas ter um contato entre as várias linhas("seitas") filosóficas para definir parâmetros básicos da filosofia
pirismo, visivelmente inspirado em Lockes, mal disfarça as sutis 
distinções da dialética tradicional. Numa época em que o conhe­
cimento fez da análise o instrumento adequado da compreensão da 
natureza e do homem em todas as suas manifestações, nela não viu 
o autor do De Re Logica mais do que um simples processo didáti­
co de estudos: “As leis do método analítico são estas: entender 
os vocábulos; determinar as questões, separar as partes delas; fugir 
de todo o gênero de equívocos; fugir das obscuridades; estabelecer 
termos comuns e claros; entender os testemunhos e autoridades em 
que se funda. Além disso, saber os requisitos que são necessários 
para entrar em uma questão, v. g., para a história, as antigüidades, 
cronologia, geografia etc.; para a física a notícia das melhores ex­
periências etc. Ler o contexto, e ver as mais coisas que apontam 
os outros, para não errar no critério. Ter presentes os cânones 
que comumeote se assinam, para distinguir as obras supostas das 
verdadeiras” e. No plano de uma lógica moderna bem pouco sig­
nifica este modo característico de conceituar o problema da análise.
H
Todavia, completa ou não esta concepção é bem característica, 
pois nela se antecipam os fins de uma doutrina que os novos Esta­
tutos da Universidade de Coimbra, em 1772, consagrariam. Verney 
não foi o único “moderno”, pois os letrados portugueses não fica­
ram inteiramente indiferentes à renovação espiritual que então se 
processava. Nos seminários e colégios oratorianos, jesuítas, fran- 
ciscanos, teatinos, para falar apenas dos que mais se destacaram
— já se demonstrou em trabalho recente10 — a filosofia mo­
8. Sobre a influência de Locke na doutrina lógica de Verney, ver as 
notas do Prof. Antônio Salgado Ir., que acompanham e esclarecem os passos 
da Oitava Carta que se referem ao problema; cf. especialmente t. III, notas 
das págs. 54 a 72. üma análise mais completa, entretanto, das idéias de Ver­
ney se encontra no trabalho de D. Mariana Amélia Machado Santos, Verney 
contra Genovesi, Apontamentos para o Estudo do "De Re Logica", Coimbra, 
1939.
9. Verney, ob. cít., Oitava Carta, ed. de 1747, t. I, pág. 262; ed. A Sal­
gado Jr., t. III, pág. 106.
10. Ver Antonio Alberto de Andrade, Vernei e a Filosofia Portuguesa. 
No 2.° Centenário do aparecimento do Verdadeiro Método de Estudar, Braga, 
Liv. Cruz, 1946.
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Nota
Continuação da aula do dia 26 de maio de 2015 de Metodologia Jurídica do Alfredo Dal Molin 
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Realce
derna era de certo modo, em maior ou menor alcance, conhecida 
e examinada. Não será de estranhar, portanto, que, em 1766, Frei 
Fortunato de Brescia, em sua classificação das "seitas filosóficas”, 
colocasse, ao lado dos escolásticos, os novadores e os ecléticos que, 
na opinião do Prof. Joaquim de Carvalho, “foram os pioneiros do 
pensamento moderno em Portugal”11.
O “modernismo” português, embora em última análise seja 
simples conseqüência do iluminismo europeu, apresenta, entretanto, 
raizes nacionais que o caracterizam. O que nos interessa, antes de 
tudo, é a indagação do sentido da modernidade portuguesa: até que 
ponto, de que natureza e quais os objetivos da renovação cultural 
que, através de vicissitudes várias, se inicia com as providências 
desconexas de D. João V, que mais pretendia ilustrar a sua Corte 
do que os povos, até a unificação destes esforços num plano con­
jugado de refonnas pedagógicas, orientado no sentido de um pro­
grama político de secularização, ao mesmo tempo nacional e cristão, 
das instituições escolares? Quando, em 1759, se instituíram as aulas 
régias de gramática latina, grega, hebraica e de retórica, no mesmo 
alvará em que suprimia o ensino dos jesuítas, invocou-se, como razão 
de Estado, a necessidade de se “conservarem a união cristã e a 
sociedade civil”. Se é verdade que não cabia ao governo português 
indicar quais os melhores meios para a conservação da unidade cris­
tã, não é menos certo que esta simples invocação, de resto cons­
tantemente lembrada nos diplomas régios, se apoiou nas opiniões de 
algumas das mais expressivas figuras da vida religiosa da época. O 
tão celebrado ódio do Marquês de Pombal à Companhia de Jesus 
não decorreu dos prejuízos opiniáticos de uma posição sistemática 
previamente traçada. Fatores vários e complexos, de ordem social, 
política e ideológica, influíram decisivamente na evolução de uma 
questão que ainda hoje apaixona e obnubila a visão dos espíritos 
mais esclarecidos. Na brevidade desta forma de ideal político na­
cional — a conservação da união cristã e da sociedade civil — 
se condensa toda uma filosofia com objetivos claramente definidos, 
responsável, aliás, de certa forma, tanto pelas virtudes quanto pelos 
vícios do despotismo imperante. Não se definira ainda, como mais 
tarde se fará, na Dedução Cronológica, numa concepção peculiar da 
história portuguesa que tamanhos créditos teve na historiografia pos­
terior, o jesuitismo como a causa primacial dos males e da deca-
11. Joaquim de Carvalho, ob. cit., pág. 6.
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Nota
A palavra "Ideologia" foi cunhada por Karl Mannheim no século XX, mas nesse contexto aqui ela significa a materialização de ideias políticas, pois há em Portugal na época um cenário favorável para a implantação de mudanças sociais 
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Nota
Esta é a cara da reforma pombalina, aqui se inicia a cooptação de professores portugueses nas cidades. O Estado está tentando ocupar o espaço que foi suprimido dos Jesuítas
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Nota
O Estado precisa se legitimar em face dos ventos estranhos do séc. XVIII, ou seja, são necessárias reformas políticas, e Pombal utiliza como principal instrumento dessa reforma o ensino, e como principal inimigo o jesuitismo
dência nacionais. Os interesses civis e cristãos, na opinião de Pom­
bal e de seus homens, coerentes com aquela ciência certa que, no 
espírito do despotismo esclarecido, era a prerrogativa infalível a que 
a si invocava a coroa, reclamavam o advento de uma ordem em 
.■*: que o poder secular fosse o principal fiador da unidade civil na 
harmonia da família cristã. Os jesuítas procuraram confundir as 
regras da sua Constituição com os interesses seculares do Papado. 
Daí a generalização de uma disputa que acabou por fazer do jesui- 
tismo o símbolo do obscurantismo retrógrado, antimodemo, oposto, 
recalcitrante e ostensivamente, a todas as formas de modernização 
 ^ da cultura. Não é questão aqui indagar do acerto ou desacerto
desta manifestação. Interessa-nos, apenas, pelo seu aspecto expres­
sivo de intenções, doutrinariamente justificadas, da política de uma 
época.
O antijesuitismo pombalüio, no setor da educação, estribou-se 
numa série de fatos ainda não suficientemente contestados. Ale- 
gou-se, por exemplo, que com a entrega do Colégio das Artes da 
Universidade de Coimbra à Companhia de Jesus e, posteriormente, 
com as provisões segundo as quais nenhum estudante seria admi­
tido nos cursos de Leis e Cânones da Universidade de Coimbra 
sem os prévios exames no referido Colégio, o ensino português se 
transformou, praticamente, num monopólio da Companhia de Jesus, 
Numa de suas notas explicativas na História da Companhia de 
Jesus na Assistência de Portugal, contestou o historiador jesuíta 
Francisco Rodrigues a existência de semelhante fato pois, nas ex­
pressões textuais do laborioso historiador, não havia monopólio “de 
nenhuma espécie, nem ambição de singularidade e exclusivismo do 
ensino, mas sim dedicação generosa e benefício inestimável da 
cultura” 12. O certo porém é que, apenas transcorridos alguns anos 
depois da introdução da Companhia em Portugal, os colégios jesuítas 
possuíam numerosos professores cujos cursos eram freqüentados por 
apreciável número de alunos1S. Não foram certamente apenas os 
* inegáveis méritos pedagógicos dos inacianos que lhes asseguraram
12. Francisco Rodrigues, S. L, História da Companhia de Jesus na Assis*
tência de Portugal, Porto, Liv. Apoatolado da Imprensa, em publicação, de
193! a 1950, 7 vols. aparecidos, t. 2.°, vol. II, pág. 17, nota.
33. Ver nesse sentido, no Cap. I, “Nos colégios: ensino, educação”, t. II, 
vol. II, da ob. cjt. de Francisco Rodrigues, o desenvolvimento das escolas je- 
suíticas em Portugal, às págs. I ! a 46.
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Nota
A coroa toma pra si a prerrogativa de que ela está construindo a nação, assim, deve ser implementado pelo jeito do Rei
tão privilegiada situação. Sucessivas vantagens foram concedidas aos 
colégios mantidos pela Companhia de Jesus de tal forma que, nas 
reais condições em que se encontrava a cultura portuguesa, as esco­
las jesuíticas exerceram, até o governo pombalino, um autêntico mo­
nopólio da instrução secundária14.
A história da disputa havida entre o Colégio das Artes e a 
Universidade de Coimbra, depois que a direção daquele estabeleci­
mento passou às mãos dos jesuítas, demonstra muito bem até que 
ponto os interesses seculares, encarnados nas decisões e na obstinada 
resistência dos professores da Universidade, foram a pouco e pouco 
cedendo até a aprovação dos Estatutos de 1565, elaborados, como 
se julgou provável1B, pelos próprios inacianos. Já foram minu­
ciosamente analisados, num livro abundantemente documentado, os 
insistentes apelos feitos a D. João III, no sentido de entregar à 
Companhia de Jesus o Colégio que o próprio rei organizara com 
o concurso de humanistas nacionais e estrangeiros1S, A decisão 
do rei, depois de muita resistência, se deveu sobretudo aos insis­
tentes rogos de seus válidos. Em Carta de 6 de dezembro de 1557, 
confessou o jesuíta Luiz Gonçalves da Câmara, o mesmo que o 
Geral Lainez recomendava como mestre de D. Sebastião: “No haver 
el (Rei) sido author desta mutation, sino que se la hizieron hazer” 17 
Não se detiveram aí, entretanto, os padres jesuítas.
O Colégio mantinha-se com recursos provenientes da fazenda 
real. Depois da morte de D. João III, I>. Catarina determinou 
que fossem separados da Universidade e entregues ao colégio subs­
14. Antonio José Teixeira reuniu a documentação dos fatos referentes à 
história dos jesuítas em Portugal. Um grande número desses documentos se 
relaciona com a Universidade e o Colégio das Artes. Cf. Antonio José Tei­
xeira, Documentos para a História dos Jesuítas em Portugal, Coimbra, Imp. 
da Universidade, 1899. Neste livro se reproduzem documentos sobre assuntos 
os mais diversos referentes à administração, manutenção, privilégios e regalias 
que foram concedidos aos jesuítas desde a entrega do Colégio das Artes à 
Companhia de Jesus.
15. Mário Brandão e M. Lopes D*Almeida, A Universidade de Coimbra, 
Esboço da sua História, memória histórica publicada por ordemdo Senado 
Universitário, no IV centenário do estabelecimento definitivo da Universidade 
em Coimbra, 1937, Parte I, págs. 225 e segs.
16. Mário Brandão, O Colégio das Artes, 2 vols., Coimbra, 1924, 1933, 
ver especialmente o vol. II.
17. Apud Francisco Rodrigues, ob. cit, t. I, vol. H, pág. 347, nota 1.
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Nota
Esta é uma informação que a Ruth Gauer não apresenta, que colégio era mantido com recursos estatais, era mantido pelo Estado.nullA Igreja exercia várias atividades estatais, à época, quando não existiam certidões de óbito, as capelas e os cemitérios anotavam os nomes dos falecidos. 
tanciais haveres de sua fazenda. A Universidade resistiu até que, 
passados catorze anos, não pôde livrar-se do compromisso de entre­
gar ao colégio, anualmente, 3.000 cruzados. Saía desta forma a 
Universidade “vencida e humilhada” 1S. Semelhantes regalias obti­
veram os padres da Companhia de Jesus na questão dos graus aca­
dêmicos. Sem submeter-se à administração da Universidade, des- 
sangrando-Ihe os recursos financeiros, admitindo ao grau de mestre 
os professores do Colégio “sem fazerem auto algum dos que man­
dam os estatutos” ia, e sobretudo, amparando-se em provisões nas 
quais se determinava que nenhum estudante fosse admitido nos estu­
dos de Leis e Cânones da Universidade sem prévio exame no Colé­
gio das Artes 20, os jesuítas reuniram em suas mãos privilégios de 
tamanho alcance que não é de estranhar crescesse o seu ensino 
quantitativamente, e com enorme rapidez o número de seus colégios 
e dos estudantes que neles iam buscar não só o aproveitamento nas 
letras, mas tambem nos costumes.
Não há motivos para censurar os jesuítas por terem alcançado 
uma posição que lhes garantiu incontestável predomínio na vida po­
lítica portuguesa. A Companhia de Jesus surgiu com propósitos 
que devem ser compreendidos, antes de tudo, em função dos reais 
interesses históricos que animaram os seus primitivos objetivos. A 
história, quando muito, justifica os homens e não as “éticas” — a 
ideologia — dos grupos organizados ou não, de que fazem parte. 
A “ética” jesuítica teve uma finalidade imediata, de valor histórico 
semelhante à finalidade das demais ordens religiosas no momento 
em que surgiram. Não se pode discutir o seu sublime fim — Ad 
majorem gloriam Dei — porque, na órbita dos interesses espiri­
tuais, todas as religiões, como se dizia naqueles tempos, perseguiam 
iguais objetivos; mas pode-se discutir os seus processos, os meios 
de que lançou mão, porque, enquanto historicamente realizados, 
estes processos não puderam escapar ao jogo fortuito dos interesses 
que, na ordem temporal, condicionam as ações humanas. Desde 
o momento em que os inacsanos pretenderam confundir os ideais 
sublimes da Fé com os interesses seculares do Império, a sua messiâ­
18. Mário Brandão e M. Lopes D ’Almeida, ob. cit., Parte I, pág. 220.
19. Aníonio José Teixeira, ob. cit., Parte III, Doc. XXXV II, pág. 217.
20. idem, ibiáem, Parte V, Doc. VIU, págs. 400 a 402. Alvará de 3 
de agosto de 1561, confirmado por D. Felipe I, a 20 de janeiro de 1591, c 
por D. Felipe III, a 16 de mato de 1634.
35
nica ortodoxia foi impotente para resistir, de um lado, às novas 
exigências impostas pela transformação das condições de vida na 
sociedade burguesa e, de outro, na esfera espiritual, à inquieta 
heterodoxia da alma moderna. Houve um momento em que o equi­
líbrio foi possível.
Com sua ética heterônoma, que realçava o valor da ordem e 
da obediência, os jesuítas também foram, até certo ponto, os edu­
cadores da burguesiaSl. “Foi necessário que houvesse diversas 
classes — afirmava Bordaloue — e, antes de tudo, foi inevitável 
que houvesse pobres, a fim de que existissem na sociedade humana 
obediência e ordem” 22. Com aquele realismo característico, que 
tão bem garantiu o êxito de seus empreendimentos, reconheceram 
os padres da Companhia de Jesus o novo sentido da vida que o 
progresso da burguesia propiciava. E não tiveram dúvidas de ir 
ao encontro destas aspirações, seeuralizando, pela dignifícação do 
trabalho, os ideais do cristianismo: “Quero dizer que cumprir fiel­
mente os seus deveres — pregava ainda Bordaloue — trabalhar 
com zelo e ser diligente dentro do próprio estado, conforme a von­
tade e os desejos de Deus, significa orar” 23. A despeito destes 
esforços não se puderam conter nos quadros da Igreja militante as 
forças históricas que preparavam o advento de uma nova ordem 
social. Acima dos credos e das confissões, elaborou-se, no século 
XVIII, uma nova concepção da vida moral que, com a idéia do 
direito natural, despojado de seus pressupostos teológicos, e com a 
doutrina de uma religião natural, numa introspecção altamente sig­
nificativa, descobriu na consciência o dever como o tribunal, deso­
brigado de sanções externas, de uma ética eçumênica e sem fron­
teiras espirituais. No fundo, esta ética filosófica pressupunha, a 
partir da consciência moral e do dever, como imperativo categórico, 
uma ordenação autônoma das vontades, bem diferente da ordem 
preconizada pelos inacianos, na qual a obediência e a humilde doci­
lidade constituíam, na visão dos iluministas. formas de alienação 
da pessoa que a clara geometria de um sistema ético-político, arden­
temente almejado, não podia justificar.
21. Sobre os Jesuítas como educadores da burguesia, ver Bemhard Groe- 
thuysen, l.a Formación de la Consciência Burguesa en Francia durante el Siglo 
X III, trad. espanhola (to José Gaos, México, Fondo de Cultura Econômica, 
1943, 2 a Parte, III; Los Teologos como Educadores de la Burguesia, especial­
mente págs. 280 e 290, e as notas às págs. 575 a 578.
22. Apud Groethuysen, ob. cit., pág. 285.
23. Idem, pág. 284.
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Nota
Como o ensino era um pré-requisito para o ingresso nas universidades, vários burgueses da época pagavam a educação jesuíta para seus filhos, o que garantiu parte do êxito dos jesuítas 
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O desenvolvimento posterior dos estudos e da especulação nas 
escolas da Companhia de Jesus já estava, de certa forma, determi­
nado nestas sucintas disposições de suas Constituições: “In Theolo- 
gja legetur vetus et Novum Testamentum et doctrina scholastica divi 
Thomae.. . In logica et philosophia naturali et morali, et meta- 
physica, doctrina Aristotelis sequenda est” 24. Com certa liberdade 
na interpretação dos textos e incorporando as conquistas do huma­
nismo, de acordo aliás, com a imposição das circunstâncias histó­
ricas, criaram os jesuítas nas suas escolas, do velho e do novo mun­
do, uma constante de pensamento, uma nova tradição filosófica a 
que já se deu o nome de tomimio moderado25. Orientação esta 
que encontrou nos problemas políticos e jurídicos o assunto em que 
eles exerceram com maior originalidade28. Preferiram Aristóteles 
a Platão, porque a doutrina do estagirita, na sua opinião, atendia 
melhor às exigências de uma concepção católica do mundo e do 
homem. Não era, entretanto, apenas o Aristóteles da tradição esco- 
lástica, mas o Aristóteles do humanismo, renovado pelos comen­
tadores que não desprezavam sequer a lição de alexandristas e aver- 
roístas27. Estribando-se, desta forma, na autoridade dos textos 
aristotélicos, que eram examinados em função dos interesses da re­
ligião católica, este ensino, sem renovar-se em sua estrutura e pro­
cessos, logo descambou para o aparato das disputas verbais. Os 
esforços isolados, entre os quais o do jesuíta Cristovam Borri, não 
foram suficientemente eficazes para modificar a força dos hábitos 
pedagógicos então vigentes. Aliás, a formalística do regime univer­
sitário, com os seus atos e oposições, favorecia muito mais as exi­
24 Constltutiones Societatis Jesu, P. IV , Cap. XIV. Na tradução espa­
nhola da Biblioteca de Autores Crlstianos, organizada pelos especialistas do 
Instituto Histórico da Companhia de Jesus— Obras Completas de Santo Inacio 
de Loyola ~~ Madrid, 1952, o passo se encontra à pág. 474.
25. Ver Cario Giacon, S. J. La Seconda Scolastica, 3 vols., Milão, Fra- 
telli Bocca, 1944, 1947 e 1950, t. IT, Cap. I, especialmente 2 e 3, págs. 17 a 30.
26. é a opinião do historiador da segunda escolástica; cf os prefácios 
dos dois primeiros volumes e, especialmente, do terceiro da citada obra.
27. “A lia Seconda Scolastica — escreve Cario Giacon S. J. — incombe- 
va il problema di concíliare il valore rcale dei pensiero aristotelico con le 
impelieníi esigenze delia nuova cultura umamstica”, ob. cit., t. II, pág. 35. 
Sobre as relações dos jesuítas com o humanismo da Renascença em Portugal, 
ver A. Alberto de Andrade, ob. cit., Cap. IH , págs. 70 a 104 e, ainda do
mesmo Auíor, “A Renascença dos ‘Çonijnbricensís’ ”, in Brotéria, 1943, vol. 
XXXVn, págs. 480 a 501.
37
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gências de um saber verbal — próprio de canonistas, teólogos e 
legistas — do que as necessidades de um conhecimento amparado 
na experiência e nas matemáticas. Bastante expressivo, neste sen­
tido, era o descrédito em que se achavam os estudos médicos até a 
introdução das reformas pombalinas. Nestas condições, a Universi­
dade portuguesa que, com as primeiras iniciativas de D. João III, 
parecia destinada a palmilhar mais amplos e abertos caminhos, subi­
tamente enveredou por nova direção e se transformou no reduto, 
fortemente garantido, dos ideais da Contra-Reforma.
Depois de sucessivas reformas, aceitou a Universidade os Oita­
vos Estatutos que, confirmados em 16Í2, foram novamente confir­
mados em 1653, por D. João IV. As novas “modificações introdu­
zidas nos estatutos — observa o Prof. Lopes D’Almeida — corres­
pondiam às pressões e à defesa que a Companhia de Jesus e a Uni­
versidade procuravam fazer valer junto do monarca, uma dos seus 
objetivos pedagógicos, a outra de seus direitos e interesses prejudi­
cados. Ambas, quando lhes parecia ter junto do rei ou dos executo 
res da sua autoridade agente ou pessoas de sua confiança, tenta­
vam impor os seus pontos de vista e daí as alterações quase nunca 
atingiram a orgânica do ensino que se imobilizou na generalidade 
em fórmulas em desuso” 28. Estes estatutos vigoraram até às refor­
mas de 1772. Não foi possível fazer vingar qualquer programa de 
renovação cultural porque a disputa entre os inacianos e a Univer­
sidade não foi além de um mero conflito dc interesses materiais e 
nunca, em qualquer ocasião, se patenteou uma possível divergência 
de propósitos e objetivos no setor da cultura e da educação. Houve, 
sem dúvida, tanto entre os jesuítas quanto na própria Universidade, 
esforços isolados no sentido de introduzir em Portugal os novos 
problemas que o progresso das ciências experimentais e da especula­
ção filosófica tanto encareciam. Estes esforços, todavia, foram impo­
tentes para modificar a rotina imperante. lembremos, a propósito, 
a provisão de 23 de setembro de 1712, na qual D. João V, tendo 
notícia de que “no colégio da Companhia, dessa cidade (Coimbra) 
se quer introduzir nas cadeiras de filosofia outra forma de Lição 
da que até agora se observava, e mandam os estatutos”, ordena 
o reitor do Colégio das Artes “que havendo nesta matéria alguma 
alteração a fajais evitar, ficando de vosso Zelo não consintais esta
28. Mário Brandão e M. Lopes D ’Almeida, ob. cit., Parte U, pág. 17.
38
nova introdução” . .. 29. E, mais tarde, o reitor do Colégio das 
Artes, em edital de 7 de Maio de 1746, determinou que “nos exa­
mes, ou Lições, Conclusões públicas, ou particulares se não ensine 
defensão ou opiniões novas pouco recebidas, ou inúteis para o estu­
do das Ciências maiores como são as de Renato Descartes, Gasscn- 
do Newton, e outros, e nomeadamente qualquer Ciência, que defen­
da os átomos de Epicuro, ou negue as realidades dos acidentes 
Eucarísticos, ou outras quaisquer conclusões opostas ao sistema de 
Aristóteles, o qual nestas escolas se deve seguir, como repetidas 
vezes se recomenda nos estatutos deste Colégio das Artes” ®°.
in
Nas publicações antijesuíticas da administração do Marquês 
de Pombal, transparece claramente a preocupação de atribuir aos 
inacianos a principal responsabilidade pela decadência em que se 
encontravam os estude» em Portugal. O Compêndio Histórico do 
Estado da Universidade de Coimbra no tempo da invasão dos deno­
minados jesuítas e dos estragos feitos nas ciências, nos professores, e 
diretores que a regiam pelas maquinações e publicações de novos es­
tatutos por ele fabricados, aparecido em 1772, constitui, em suas 
linhas essenciais, apesar das parcialidades notórias, um programa de 
alta significação pedagógico-cultural, pois nele se encontra, ainda 
hoje, o melhor documento que, do ponto de vista crítico, se fez em 
Portugal sobre a situação em que se encontrava a Universidade de 
Coimbra até a promulgação dos estatutos pombalinos. A erudição 
histórica posterior retificou muitos dos erros contidos nesta publi­
cação, mas estas emendas de maneira alguma alteram a própria 
substância do programa educacional traçado pela Junta de Provi­
dência Literária. É preciso lembrar que 0 Compêndio foi redigido 
num momento em que a questão dos jesuítas, transformada num 
problema político dos governos de Espanha, França e Portugal ainda 
não se resolvera. Devido ao prestígio que gozava a Companhia 
de Jesus, junto à Cúria Romana, os delegados dos governos que 
se empenhavam na luta contra os jesuítas não tinham vencido até
29 Provisão publicada por Joaquim de Carvalho in Ensaio Filosófico 
sobre o Entendimento Humano, Apêndice A, pág. 169.
30. Edital reproduzido por Joaquim de Carvalho, in ob. dt., Apêndice 
A, 2, págs. 170 a 172; cf. loc. cit., pág. 171.
39
aquela data as últimas resistências de Ganganelli e alcançado, desta 
rorma, o objetivo comum: a extinção da ordem. Compreende-se, 
portanto, que a reforma da Universidade se transformasse em mais 
um documento da política antijesuítica que bá dezesseis anos se 
tomara uma das principais preocupações da administração pomba- 
lina. No Compêndio Histórico, todos os elementos úteis à justifi­
cação doutrinária do pombalismo foram aproveitados: desde a en­
trega do Colégio das Artes à Companhia de Jesus, com os episó­
dios que se lhe seguiram, até à análise minuciosa dos acontecimen­
tos políticos em que os inacianos tiveram uma parcela, mínima que 
fosse, de responsabilidade. Todos os fatos referente à ação dos 
jesuítas foram invocados para demonstrar, num quadro de tintas 
sombrias, que, até mesmo no setor do ensino, a decadência da na­
ção era sobretudo obra dos padres da Companhia de Jesus. O 
Compêndio Histórico constitui, desta forma, a conseqüência natu­
ral da doutrina da Dedução Cronológica e Analítica, de 1765, como 
esta representa também o corolário generalizado e minucioso da 
Relação abreviada da República que os religiosos jesuítas das pro­
víncias de Portugal e Espanha estabeleceram nos domínios ultrama­
rinos das duas monarquias e das guerras que neles tem movido e 
sustentado contra os exércitos espanhóis e portugueses, de 1756.
No Compêndio Histórico, ao mesmo tempo que se recapitu- 
lam os fatos indicados na Dedução Cronológica, particularizam-se 
“os outros estragos, que os mesmos regulares fizeram em cada tuna 
das quatro Ciências maiores” 81 — teologia, leis e cânones, medir 
cina e matemática. Na teologia, o predomínio da filosofia aristo- 
télica, que relegou ao esquecimento a teologia primitiva, com o sa­
crifício dos estudos da Escritura, da Tradição dos Concílios, dos 
Santos Padres e da História Sagrada82; na jurisprudência canônica 
e civil, a adoção de uma metafísica “errônea e sumamente preju­
dicial” 33 e o ensino da Moral Cristã .por intermédio da ética, de 
Aristóteles, Filósofo Ateista, “que nenhuma crença teve em Deus, 
e na Vida Eterna; que em vez de ditarprincípios para a probidade 
interior do ânimo, e para a justiça natural, foi o Autor de um sis­
tema estofado de máximas dirigidas a formarem um Áulico das 
Cortes de Felipe e Alexandre, e um Hipócrita armado contra a
31. Compêndio Histórico, pág. X II.
32. Idem, págs. XH e X III.
33. Idem, pág. XIV.
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Tratado de Madri é firmado em 1750, as Guerras Guaraníticas ocorrem em 1756
inocência dos crédulos com virtudes externas, e fingidas” 34. Neste 
mesmo domínio ainda, o esquecimento em que foram lançados os 
estudos das histórias do direito romano e pátrio, do direito canônico, 
da história geral e da doutrina do método35. Na medicina, a obsti­
nada adesão à física aristotélica, com o sacrifício da verdadeira 
física, da química filosófica, da botânica e da anatomia e a confusão 
do estudo teórico com o prático80. Tais foram, na opinião dos 
relatores da Junta de Providência Literária, os principais estragos 
causados pelos jesuítas nos estudos das ciências universitárias.
Quer nos parecer que este antijesuitismo foi muito mais a con­
seqüência das lutas políticas do Gabinete com a Cúria Romana do 
que a verdadeira causa do programa pedagógico formulado pela 
Junta de Providência Literária. Tamanha foi a força das vicissi- 
tudes políticas, e tão acirrados andavam os ânimos, que um progra­
ma, para cuja justificação bastava apenas a incontestável grandeza 
de seus fins, se transformou, impelido pelas circunstâncias históri­
cas, num documento com deliberados propósitos de fazer dos jesuítas 
a universal causa de todos os males portugueses. De há muito já se 
sentiam, na vida do país, os inconvenientes que traziam para a eco­
nomia e o trabalho nacionais o acúmulo de bens imóveis e as de­
mais regalias e privilégio que, diante das leis civis, gozavam as ordens 
religiosas. O assunto já fora ventilado nas Cortes de 1562 e, agora, 
D. Luiz da Cunha, no Testamento Político, insistia novamente no 
problema. Sebastião de Carvalho e Melo, como bom discípulo de 
D. Luiz da Cunha, que aproveitara a sua estadia em Londres para 
estudar, com meticuloso interesse, os problemas e as conseqüências 
econômicas dos tratados comerciais luso-britânicos37, não devia 
ignorar este delicado aspecto da questão. Sua luta contra os jesuítas, 
se, anos mais tarde, se inspirará em alguns dos motivos e razões da 
ideologia dos iluministas de outros países, no início foi causada 
principalmente pelo conflito entre os interesses do Estado e os da 
Companhia de Jesus.
34. Idem, ibidem.
35. Idem, págs. X IV e XV.
36. Idem, pág. XVI.
37. Ver, especialmente, J. Lúcio de Azevedo, ob. cit., Cap. I, A Embai­
xada de Londres, págs. 9 a 43. Vê o Autor na Relação dos Gravames do 
Comércio e Vassalox de Portugal na Inglaterra, redigida por Sebastião de Car­
valho e Melo, durante a sua permanência em Londres, “a origem de vários 
dos seus atos posteriores quando governou”; cf. ob. cit., pág. 29.
41
I
De qualquer forma, entretanto, no assunto que nos interessa, 
a renovação pedagógica da cultura portuguesa se efetuou por inter­
médio de um programa que se enriqueceu progressivamente, em 
conteúdo doutrinário, por força das vicissitudes políticas, internas 
e externas, com que se defrontou o govemo de D. José I. Já no 
reinado de D. João V, esta renovação se iniciara, com a casa que 
a vontade régia erigira em Lisboa, no subúrbio de Nossa Senhora 
das Necessidades, a fim de que nela ensinassem os padres da Con­
gregação de São Felipe Nery, o latim, o pego, a retórica, todas as 
humanidades enfim, por um método diferente do que o usado pelos 
jesuítas em suas escolas. Deste ensino surgiram os Exercidos de 
Língua Latina e Portuguesa acerca de diversas cousas, de 1711, 
e o Novo Método de Gramática Latina, para uso das escolas da 
Congregação do Oratório na Real Casa de Nossa Senhora das Ne­
cessidades, publicada em 1752, acompanhada de um prólogo críti­
co em que se indicavam mais de cem erros da gramática do Pe. Ma­
nuel Álvares. Não tardou a contestação, e metodistas e alvaristas, 
oratorianos e jesuítas, se engalfinharam numa polêmica que, embora 
estritamente gramatical, mal disfarçava os objetivos desiguais de 
duas pedagogias, de dois humanismos, se nos permitem a expressão, 
em conflito. Com a expansão dos jesuítas, em 1759, fez-se necessário 
preencher a lacuna aberta com a extinção das escolas por eles man­
tidas. O Alvará Régio que criou as aulas de latim, grego e retórica 
recomendava expressamente o novo método. O governo incorporou 
desta forma, fazendo-o seu, o método preconizado pela Congregação 
do Oratório. O “alvarismo”, daí por diante, passou a ser tenazmente 
perseguido.
Todavia, antes da reforma dos estudos de latim e humanida­
des, com propósitos menos ambiciosos, procurou o gabinete de 
D. José I resolver pela educação alguns de seus problemas mais 
urgentes. As primeiras iniciativas do gabinete, no setor da instrução, 
estão intimamente ligadas a esforços” de recuperação econômica 
empreendida pelo govemo. Ao criar-se a Junta do Comércio, pre- 
viu-se, no Cap. XVI, de seus estatutos, o estabelecimento de uma 
aula presidida por “um ou dois mestres dos mais peritos, que se co­
nheceram, delerminando-lhes ordenados competentes, e as obriga­
ções, que são próprias de tão importante emprego” 38. Com os
38. Estatutos da Aula do Comércio, confirmados pelo Alvará de 16 de 
dezembro de 1752, apud José Silvestre Ribeiro, História dos Estabelecimentos
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mesmos objetivos foi, logo depois, criada a aula de náutica na cidade 
do Porto, por iniciativa da Junta Administrativa da Companhia 
Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro. Estas providências 
eram, na órbita do ensino, a conseqüência natural das iniciativas 
econômicas do Gabinete de D. José I. A política monopolista, se­
guida nos anos anteriores, e da qual resultara, sucessivamente, a 
criação das grandes companhias — do Comércio da Ásia, em 1753, 
do Pará e Maranhão, em 1755, da Pesca da Baleia, e dos Vinhos 
do Alto Douro, em 1756, e finalmente de Pernambuco e Paraíba, 
em 1759 — andava a exigir pessoal habilitado na escrituração das 
contas como condição relevante do progresso das novas empresas 
comerciais. A criação da Junta e das Aulas de Comércio parece 
ter correspondido a esta necessidade. Em suas Observações Secre­
tíssima?, de 1775, dirigidas ao Rei, por ocasião da inauguração da 
estátua eqüestre, afirmava o ministro, na sua linguagem caracterís­
tica, “haver a aula de comércio feito de tal sorte vulgar a aritmética, 
que para o lugar de um guarda-livros, que antes se mandava buscar 
a Veneza e a Gênova, por um conto de réis, e três mil cruzados de 
emolumentos, sucedendo agora vagar, se apresentam logo vinte, e 
mais opositores habilíssimos em todas as arrumações de livros mer­
cantis e em todas as mais difíceis reduções de pesos e medidas, de 
sólidos e líquidos, de todos os câmbios, e de todas as moedas que 
correm nas praças da Europa” :i9. Ê significativo que Pombal, antes 
de pensar na formação dos teólogos, canonistas, advogados e médicos
— problema que não foi estranho aos propósitos do gabinete de 
D. José I — cuidasse, preliminarmente, de amparar o trabalho eco­
nômico por intermédio da criação de uma escola destinada a formar 
a “elite” indispensável ao progresso financeiro das empresas e dos 
grupos que a política monopolista do novo governo planejara e orga­
nizara, ao pretender incentivar o acúmulo de riqueza individuais de 
tal forma que as novas condições econômicas melhor pudessem satis­
fazer aos reclamos dos interesses estatais. Neste sentido as aulas 
de comércio e de náutica estavam perfeitamente ajustadas aos pro­
Científicos, Literários e Artísticos de Portugal nos Sucessivos Reinados da 
Monarquia, Lisboa, Tip.da Academia Real das Ciências, 1871, t. I, pág. 273.
39. Observações Secretíssimas do Marquês de Pombal sobre a Colocação 
da Estátua Eqüestre de S. M . El-Rei D . Josè, Biblioteca Nacional de Lisboa, 
Coleção Pombalina, cod. 695, reproduzidas em Cartas e outras Obras Seletas 
do Marquês de Pombal, 5.a ed., 2 vols., Lisboa, Tip. de Costa Sanches, 1861, 
vol. I, págs. 12 a 24; cf. loc. cit., págs. 13
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Nota
É realizado uma formação para os tributaristas e administradores
pósitos econômicos de um gabinete que, na opinião do historiador 
Ângelo Ribeiro, representou em Portugal “o fautor desta burguesia 
de negócios — a classe média que virá prevalecer nas sociedades 
do século X IX” ».
A Aula de Comércio foi, desta forma, o meio de que lançou 
mão o governo, dentro dos próprios quadros da burguesia portu­
guesa, para formar o perfeito negociante que a conjuntura econô­
mica reclamava. Em suas Recordações, testemunha Ratton o apreço 
em que tinham a Aula de Comércio o Rei D. José I e o próprio 
Marquês de Pombal41, No preâmbulo da Carta de Lei de 30 de 
agosto de 1770, transcorridos mais de dez anos da fundação do 
curso, transparecem claramente os propósitos que animavam o Ga­
binete ao instituí-lo. Tamanha fora a desordem — diz-se no refe­
rido preâmbulo — que se assistiu “de muitos anos a esta parte 
o absurdo de se atrever qualquer indivíduo ignorante a denomi­
nar-se a si Homem de Negócio, não só sem ter aprendido os prin­
cípios da probidade, da boa fé, e do cálculo mercantil, mas mui­
tas vezes até sem saber ler nem escrever; irrogando assim igno­
mínia e prejuízo a tão proveitosa, necessária e nobre profissão” 42. 
Na política protecionista dos monopólios por que a Coroa procurava 
mobilizar, fora dos quadre» aristocráticos, as energias nascentes 
de uma classe, havia necessidade de preparar convenientemente os 
homens indispensáveis à sábia execução das novas tarefas mercantis.
No mesmo sentido, embora destinada a atender necessidades 
de um setor administrativo mais elevado, se encontra a nova orde­
nação dos estudos por que o Gabinete de D. José I, com o Colé­
gio dos Nobrex, procurou aparelhar a nobreza, pondo-a em condi­
ções de enfrentar, com êxito, os problemas peculiares da política do 
século. O “estrangeirado" Antonio Ribeiro Sanches que, embora 
há longo tempo ausente do país, conhecia muito bem, em suas 
raízes, os males que afligiam a educação portuguesa, soube lembrar 
e encarecer a oportunidade da criação de um colégio para a instru­
ção da nobreza, semelhante aos que já existiam em outras nações 
da Europa. Nas suas Cartas para a Educação da Mocidade, afir­
40. Ângelo Ribeiro, *‘A renovação pombaKaa”, itt História de Portugal, 
dirigida por Damião Peres e Eleutério Cerdeira, Barcelos, Poriucalense Ed., 
1934, 8 ts., vol. V I, Cap. X, pág. 200.
41. Recordações, de Jacome Ratton, Londres, 1813, pág. XXX.
42. Apud José Silvestre Ribeiro, ob. cit., t. I, pág. 279.
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mava com grande perspicácia o discípulo de Boerhaave: “Parece 
que Portugal está hoje quase obrigado não só a fundar uma Escola 
Militar, mas de preferi-la a todos os estabelecimentos literários, que 
sustenta com tão excessivos gastos. O que se ensina e tem ensinado 
até agora neles é para chegar a ser Sacerdote e Jurisconsulto; e 
como já vimos... não tem a Nobreza ensino algum para servir a 
sua pátria, em tempos de paz nem da guerra” 45. Sem dúvida a pres­
teza com que se resolveu o problema está relacionada com os sucessos 
militares da guerra luso-espanhola de 1762. O Colégio de Nobres, 
a aula de náutica na cidade do Porto, a aula de artilharia de São 
Julião da Barra, criada pelo Alvará de 2 de abril de 1762, e o 
plano de estudos dos regimentos de artilharia44 são expressões di­
versas de um programa pedagógico destinado à ampla recuperação 
e organização de um exército que havia chegado, até então, aos 
graus extremos da miséria moral s física48.
À nobreza não bastava, nas condições específicas dos novos 
tempos, a formação humanística que, sem modificações essenciais, 
prevalecia no ensino português desde a criação do Colégio das Artes. 
Ribeiro Sanches compreendeu perfeitamente o significado deste fato. 
Nas sugestões que apresentou para a criação do Colégio dos Nobres 
não se esqueceu de recomendar, como matéria de ensino, qualquer 
ciência que, na vida cultural de seu tempo, julgasse indispensável 
à formação do perfeito nobre, arquétipo pedagógico que a política 
pombalina erigiu como correlato e complemento do perfeito nego­
ciante: tipos ideais, aliás, que, embora aparentemente diversos, se 
integravam harmonicamente nos propósitos do absolutismo iluminista 
do gabinete de D. José I. No Colégio dos Nobres, além das disci­
plinas constantes dos cursos de Humanidades (latim, grego, retórica e 
filosofia) estudavam-se as línguas estrangeiras (francesa, italiana e
43. Cartas sobre a Educação da Mocidade, ed. revista e prefaciada por 
Maximiano Lemos, Coimbra, Imp. da Universidade, 1922, pág. 184.
44. As aulas de náutica, de artilharia, assim como o plano de estudos dos 
regimentos de artilharia são de 1762. Para maiores informações ver José 
Silvestre Ribeiro, ob. cit., t. I, págs. 246 a 306.
45. Sobre o estado em que se encontrava o exército português, por 
ocasião do conflito de 1762, ver Latino Coelho, História Política e M ilitar de 
Portugal desde os Fins do Século XVII] até 1814, 2.a ed,, Lisboa, 3 vols., Imp. 
Nacional, t. Cap. I, págs. 1 a 86; c£,, ainda, do mesmo autor, O Marquês 
de Pombal, na obra comemorativa do centenário da sua morte publicada pelo 
Club de Regatas Guanabarense do Rio de Janeiro, Lisboa, Imp. Nacional,
1885, Cap. X II, especialmente págs. 275 e segs.
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inglesa), ao mesmo tempo que os elementos das matemáticas, da 
astronomia, e da física: da álgebra, c da sua aplicação à geometria, 
da análise infinitesimal, e cálculo integral, da ótica, dióptrica, catóp- 
trica, dos princípios de náutica, da arquitetura militar e civil; do 
desenho e, finalmente, da física46. Constituía desta forma este 
currículo um esforço no sentido da renovação das bases, ao mesmo 
tempo teóricas e práticas, indispensáveis ao bom cumprimento dos 
serviços que por dever a nobreza deveria exercitar.
Delineiam-se desta maneira, em seus traços característicos, os 
rumos da política pombalina na instrução pública que, anos depois, 
encontrarão na reforma da Universidade, de 1772, a sua manifes­
tação mais expressiva. A criação das aulas régias, dos cursos mili­
tares, da aula de comércio e de náutica foram como que os ensaios 
preparatórios de uma renovação radical das estruturas, dos proces­
sos e — até mesmo — da própria ideologia filosófica, em que se 
apoiava o ensino universitário português. Tanto no programa pro­
posto pela Junta de Providência Literária como no zelo com que 
o Marquês reformador acompanhou, com medidas prontas e efi­
cazes, a remodelação dos estudos nas quatro faculdades, refletem-se 
as intenções, acentuadamente iluministas, que nortearam os homens 
de Pombal no esforço comum de fazer da Universidade uma escola 
que permitisse ao poder público formar o sacerdote, o jurisconsulto, 
o médico e o letrado de acordo com o espírito do regaíismo dou­
trinário que a força das vicissitudes históricas transformara na ra­
zão política, mais caracteristicamente universal, de um governo.
No intervalo transcorrido entre 1759 — ano da expulsão dos 
jesuítas e da criação das aulas régias de íatim, grego, hebraico e 
retórica — e 1772, quando se realizou a reforma da Universidade 
de Coimbra, a luta do gabinete de D. José I com os ínacianos se 
desdobrara numa série de acontecimentos que acabaram por lan­
çar o governo contra a Cúria Romana na quaí ainda a Companhia 
de Jesus era ouvida e acatada. Mobilizaram-se,para vencer a tenaz 
resistência, todos os recursos, de um e outro lado, a fim de que 
cada parte melhor pudesse defender seus interesses, direitos e pri­
vilégios. No calor desta disputa consolidou-se a doutrina política,
4&. Sobre a organização do Colégio dos Nobres ver José Silvestre Ribei­
ro, ob. cit., t. I, págs. 282 a 29S, e Teófilo Braga História da Universidade de 
Coimbra nas suas Relações com a Instrução Pública Portuguesa, Tip. da Aca­
demia Real das Ciências, 1902, t. III, Cap. III, págs. 348 a 354.
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Nota
doutrina regalista = doutrina de legitimação do poder do rei 
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de feitio absolutista, na qual, ainda hoje, alguns autores, e não sem 
razão, pretendem encontrar o germe do liberalismo lusitano. A maior 
força dos jesuítas residia nas escolas que possuíam nas mais lon 
gínquas cidades do reino e do Ultramar. A expulsão da Companhia, 
com os males dela decorrentes, deixou uma lacuna que necessitava 
de uma pronta e hábil correção. Com a criação das aulas régias 
de latim, grego e retórica, iniciou-se, na administração pombalina, 
uma reforma que, enriquecida e gradativamente ampliada, alcançou, 
em 1772, com os Estatutos da Universidade, sua mais alta e signi­
ficativa expressão, ao transformar-se num programa pedagógico que 
se definiu como urna doutrina contra o sistema adotado nas escolas 
jesuíticas.
IV
Escrevia D. Luiz da Cunha no seu Testamento Político, com 
oportuno e real senso das condições em que se encontrava Portu­
gal: “Se V. A. quiser dar uma volta aos seus reinos... achará 
que a terceira parte de Portugal está possuída pela Igreja que não 
contribui para a despesa e segurança do Estado, quero dizer pelos 
cabidos das dioceses, pelas colegiadas, pelos príorados, pelas aba­
dias, pelas capelas, pelos conventos de frades e freiras” 47. Um 
reino com tão extensos domínios deveria poupar e aproveitar melhor 
os seus recursos humanos e evitar que as suas riquezas se dissipassem 
com a ininterrupta transferência dos bens civis para o patrimônio 
da Igreja. Nesse patrimônio avultavam, em todas as partes do 
reino e seus domínios, os empreendimentos jesuíticos. Não é de 
estranhar, portanto, que tenham sido os inacianos os que mais resis­
tiram à política econômica que o gabinete pusera em ação já no 
início do primeiro decênio de sua administração. E assim proce­
dendo, agiram os jesuítas, no entender de Pombal e seus homens, 
como fatores de desagregação da união cristã e da sociedade civil, 
da qual o Governo de D. José I se julgara o fiador.
Foi em nome desta união cristã e da sociedade civil, da qual 
foram excluídos os jesuítas, que se constituiu a doutrina jurídico- 
política que prevaleceu nos atos da administração pombalina. A
47. Luiz da Cunha, Testamento Político, Prefácio e notas de Manuel 
Mendes, Lisboa, Seara Nova, 1943, págs. 39/40.
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Nota
A Igreja possui imóveis e diversas terras
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força com que o Gabinete se atirou na contenda com o Papado e 
a perseverança demonstrada na defesa das régias prerrogativas, ao 
responder, pronta e categoricamente, aos contragolpes que, prote­
gidos pela Cúria Romana, lhe desferiam os jesuítas, foi talvez o mo­
tivo preponderante, lembrado por aquelas “vozes genéricas, vagas 
e improváveis por nalureza” 4S as quais fizeram do Min. Sebastião 
de Carvalho e Melo um libertino, “discípulo de Voltaire e do Barão 
de Holbach, inimigo da Igreja e da crença católica, porque o era 
da Companhia de Loyola”49. A resposta por que o Marquês, já 
no ostracismo, respondeu à “calúnia” com que pretendiam infamá-lo, 
traduz o rumo que norteou os homens do governo nos complexos 
e árduos problemas da relação entre o poder secular e o religioso: 
“Sendo pois Portugal — dizia em sua ‘Apologia sobre a calúnia 
da irreligião’ — o país da Europa, onde a religião se conservou 
sempre mais puia e ilibada; sendo por isso o país onde tem resplan­
decido a religião, e o culto divino; sendo eu nele nascido e criado 
por pais, e avós muito religiosos, não há razão alguma para se pre­
sumir contra mim, e se imputar que me desnaturalizei da própria 
pátria e da educação e costumes, que recebi e herdei dos meus 
progenitores para me precipitar no absurdo de ser irreligioso" 50.
Na lógica política do gabinete, o jesuitismo, nos seus fins, há­
bitos e práticas, tornou-se quase um sinônimo de desmturalização: 
“Não há jesuítas portugueses e jesuítas espanhóis proclamava a 
Dedução Cronológica — porque são na realidade os mesmos je­
suítas, que não conhecem outro soberano que não seja o seu geral, 
outra nação que não seja a sua própria sociedade; porque pela 
profissão que a ela os une, ficam logo desnaturalizados da pátria, 
dos pais e dos parentes” 51. Na defesa dos interesses da sociedade 
civil, a política pombalina procurou furtar-se aos termos do dilema 
Sacerdócio-Império porque, pela força das condições históricas, ten­
tou construir, de acordo com o apoio do próprio clero português, 
excetuados os jesuítas, a república que dentro do espírito do
48. “Apologia sobre a Calúnia de irreligião”, Coleção Pombalina, B.N.L., 
cod. 668, reproduzida nas Cartas e outras Obras S e le c t a s . t . II, págs. 200 a 
205; cf. ob. cit., pág. 205.
49. J. Lúcio de Azevedo, ob. cit., pág. 365.
50. “Apologia sobre a Calúnia c!e irreligião”, in Cartas e outras Obras 
Selectas..., t. II, pág. 201.
51. Dedução Cronológica e Analítica, Parte I, Divisão nona, § 338, 
pág. 191.
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absolutismo se tornara a preocupação dos teóricos mais avançados 
do tempo. A religião, na mentalidade que então predominava, era 
o esteio da ordem civil, o tribunal que, ao resguardar a pureza da 
fé, resguardava, ao mesmo tempo, os interesses mais legítimos do 
poder secular. O homem natural pertence tanto à religião quanto 
aos seus parentes e pátria: somente na união cristã, que não lisonjeia 
os interesses desnaturalizantes da Igreja, sem pátria e sem fronteiras, 
pode a sociedade civil viver e prosperar. Não se pretendia propria­
mente a consagração, tão do gosto do radicalismo cismontano, do 
aforismo — non respublica, est in eccíesta, sed ecclesia in respublica
— mas uma tentativa de conduzir, numa harmonia de interesses, 
conjuntamente, a República e a Igreja pelo caminho do progresso, 
material e espiritual, da nação lusitana.
Dentro desta ordem de preocupações impôs-se resolver o pro­
blema do ensino, não mais como tarefa das ordens religiosas, mas 
como atribuição própria, sem ser exclusiva, do poder real. Pelo 
menos assim o entendia Ribeiro Sanches: “Somente S. Majestade 
Fidelíssima foi o primeiro entre seus Augustos Predecessores, que 
tomou a si aquele JUS da Majestade de ordenar que os seus súdi­
tos aprendam de tal modo que o ensino público possa utilizar os 
seus dilatados domínios” S2. Pretendia, desta forma, Ribeiro Sanches 
ver no Alvará que criou as aulas régias de latim, grego e retórica 
a expressão de uma escola estruturada em função dos interesses da 
Sociedade Civil. Evidentemente, não se tratava de uma simples 
transferência de mando, mas dos próprios fins e objetivos do ensino, 
de tal modo que uma nova pedagogia, solidamente fundamentada 
nas razões da filosofia moderna, tomasse o lugar da pedagogia es- 
colástica de que se tomaram expressão altamente significativa, em 
Portugal, as escolas dos jesuítas. Esta nova orientação filosófica 
não se caracteriza apenas pelo repúdio a Aristóteles e ao método 
cscolástico que, na opinião lúcida do erudito Bispo de Beja só serve 
para “adelgaçar o espírito, delir sua atividade em vapores, trabalhar 
a razão em conceito sem objeto que importe e valha; trabalhar a 
razão em agudezas que só a si mesmas significam, tudo isto é como 
aguçar o faminto cansadamentea faca, sem jamais tocar no alimen­
52. Antônio N. Ribeiro Sanches, Cartas para a Educação da Mocidade, 
págs. 2/3.
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to” 53 mas ainda pelo deliberado esforço de fazer da experiência 
a fonte, o caminho e a verdade do conhecimento.
Desde que se tomaram conhecidas dos países europeus, prin­
cipalmente da França, as obras dos ingleses John Locke e Isaac 
Newton, o pensamento filosófico — desenganado mais das fanta­
sias do que do verdadeiro espírito do cartesianismo e ignorando, 
de um lado, as críticas e contestações que ao empirismo lockiano 
tinha oposto Leibniz, nos Novos Ensaios sobre o Entendimento 
Humano, e, de outro, as conseqüências céticas a que este mesmo 
empirismo conduzira um espírito viril como o de David Hume — 
inclinou-se, sem relutâncias outras que não fossem as da tradição 
retrógrada, para o amplo e aberto caminho da experiência como 
único guia seguro, capaz de livrá-la dos fantasmas da razão e de 
seus artifidosos recursos, Foi este empirismo, bem ou mal com­
preendido, que os corifeus da inteligência portuguesa transformaram 
numa arma de combate à tradição e scolás dco-peripatética. Luiz 
Antonio Verney, Antonio Ribeiro Sanches, Jacob de Castro Sar­
mento, Manuel do Cenáculo Villas Boas, entre alguns outros mais, 
traduziram, cada um à sua maneira, as preocupações da época. 
Castro Sarmento, depois de tentar conseguir sem êxito o apoio 
régio para a publicação, em língua portuguesa, das obras de Bacon, 
divulgava, em 1737, a sua Teórica Verdadeira das Marés conforme 
a Filosofia do Incomparável Cavalheiro Isaac Newton.
Antes, porém, em 1725, Luiz Baden, natural da Inglaterra, 
instituiu um curso, com aparato técnico-filosófico, ou seja, instru­
mentos vários — telescópios, balanças, mirros 'de diferentes ordens, 
barômetros, termômetros, lanterna mágica, bombas, ventosas etc., 
destinado a explicar “com uma postila ampla e metódica todos os 
fundamentos e experiências dos Filósofos Modernos, e especialmente 
dos famosos Roberto Boyle e Isaac Newton, os mais ilustres natu­
ralistas deste último século” 54, A iniciativa não constituiu um exem­
plo isolado, pois as “novas” idéias já andavam no ar, incomodando
53. Frei Manuel do Cenáculo Villas Boas, Cuidados Literários, pág. 92, 
apud Hernani Cidade, Lições de Cultura e Literatura Portuguesas, 2 vols., 
Coimbra, Coimbra Ed., 1948, 2.° vol., pág. 126.
54, Notícia da Academia ou Curso de Filosofia Experimenta! novamen­
te Instituída nesta Corte para Instrução, e Utilidade dos Curiosos, e Amantes 
dai Artes, e Ciências, na oficina de Pedro Ferreira, 1725, publicada por Joa­
quim de Carvalho, ob, cit., Apêndice B, págs, 175 a 179; cf. loc. cit., pág. 175,
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utensílios que demonstram o empirismo
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os espíritos amantes da amena tranqüilidade acadêmica. Não pro­
priamente contra os empiristas, no sentido que lhes empresta a escla­
recida visão dos teóricos do século XVIII, mas contra gassendistas, 
caríesianos, atomistas e corpulatores, o que é bastante significativo 
como ilustração da situação em que se achava a investigação uni­
versitária — se manifestou o sobrinho do reitor Carneiro de Fi- 
gueiroa, Tom az Manue! Pamplona Rangel na Refutatb philosophka, 
sive conferentia philosophia conferens inter novum ei innovatum 
Philosophiam, et celeberrimam Perípateticam Resolutiones varias, de 
1748.
Fora do círculo acadêmico, e agora dirigida aos filósofos ex­
perimentais da Congregação de São Felipe Nery, não foi menor 
a resistência aos inovadores. No Mercúrio Filosófico dirigido aos 
filósofos de Portugal com a notícia dos artigos que na Dieta Impe­
rial da Filosofia na Sessão V se consultarão, e mandavam propor 
à física experimental da Real Casa das Necessidades a fim de es­
tabelecer uma perfeita paz entre a filosofia moderna e antiga, Phi- 
liarco Pherepono ilustra muito bem o sentido desta resistência, pro­
curando meter no ridículo os experimentos e demonstrações que, com 
aparelhos físicos, realizavam os oratorianos da Casa das Necessi­
dades em Lisboa,
Nas reformas pombalinas da instrução pública, prevaleceu o 
ponto de vista dos ecléticos e inovadores, quer seja no setor dos 
estudos menores, nos quais novos autores e métodos foram adotados 
com o pensamento numa renovação literária, quer seja ainda nos 
estudos maiores — a teologia, o direito, a medicina c a filosofia — 
que perseveravam manter-se ainda, em pleno século das luzes, den­
tro da rígida construção escolástica. As reformas foram, desta for­
ma, um esforço no sentido de colocar as escolas portuguesas em con­
dições de acompanhar com êxito o progresso do século. E por este 
motivo cumpre indagar até que ponto a reestruturação dos estudos 
universitários traduziu a forma de pensar característica do ilumi- 
nismo europeu,
Evidentemente, o iluminismo não se define apenas pelo modo 
sui generis por que tratou o problema especulativo; na sua atitude 
genérica, ele representou, antes de tudo, um pensamento orientado 
para os problemas práticos éticos, políticos, econômicos, jurídicos, 
de tal maneira que a visão do mundo construída pela filosofia do 
século anterior, por intermédio do método experimental e das ma­
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temáticas, se transformou no ponto de partida de uma ampla análise 
destinada a ordenar, e integrar os homens, de acordo com princípios 
claros e incomovíveis, num cosmos político em que a verdade, a 
justiça e a beleza representasse, à semelhança do sistema newtonia- 
no, o equilíbrio das forças humanas em conflito na sociedade civil.
Na Reforma de 1772, o ensino nas diversas faculdades se es­
truturava de modo a assegurar, além da unidade do trabalho rea­
lizado nos diferentes cursos, o indispensável entrosamento com o 
filosófico, que lhes servia de base. A privilegiada posição deste 
curso no concerto das disciplinas universitárias pode parecer, à pri­
meira vista, simples concessão à estrutura universitária tradicional. 
Se, entretanto, examinarmos com maiores cuidados as razões que o 
Compêndio Histórico indica e os Statuta Conmmbricensis Academia 
consagram, não poderemos deixar de reconhecer que o curso filosó­
fico, abrangendo o estudo das ciências físicas e naturais, se trans­
formou num dos mais importantes fundamentos da nova estrutura 
universitária. Os Estatutos exigem, como condição indispensável 
de ingresso às Faculdades o estudo da lógica, entre outras discipli­
nas como a ética, a física experimental, a metafísica, a pneumato- 
logia, a teologia natural etc., de acordo com as necessidades de cada 
curso em particular.
Parece-nos oportuno examinar, portanto, o significado e a na­
tureza da concepção que os elaboradores dos novos estatutos tive­
ram da lógica, pois este será, sem dúvida, o caminho que nos con­
duzirá a uma adequada compreensão do iluminismo português.
Com o desenvolvimento das ciências e da nova concepção do 
mundo construída pelo trabalho das grandes figuras dos séculos
XVI e XVII, se fez patente a extraordinária fecundidade e o pro­
fundo alcance do método de investigação que, quer se assentando 
em princípios evidentes, ou quer apoiando-se em observações pre­
cisas diretas sobre os fatos naturais, despojou a visão da realidade 
dos entes e dos artifícios que a razão escoíástica, impegnada de 
realismo aristotélico, transpusera do plano dos sentidos para o pla­
no das hipóteses verbais. Livre, afastados que foram os prejuízos 
advindos desta transposição, a nova atitude caracterizou-se pela bus­
ca dos princípios simples e irredutíveis, a partir dos quais lhe seria 
possível atingir através de uma ordem demonstrativa, sistematica­
mente, a explicação dos fatos confinados na estreita contingência 
do hic et nunc. Todavia, quando se conheceu, eisto já no início
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do século XVIII, o modus explicandi da teoria matemático-astro- 
nômica de Newton, no seu significado íntimo, uma direção dife­
rente orientou os espíritos mais esclarecidos. A realidade, nos seus 
múltiplos aspectos e na singularidade de suas manifestações, deixou 
de ser o termo derradeiro de uma explicação sistemática, para se 
transformar nos dados iniciais de uma perquirição destinada a en­
contrar, indutivamente, o princípio explicativo último desses mesmos 
fatos. Nada mais estranho ao real espírito do iluminismo do que 
a idéia de uma ciência empírica, sem destino imanente, no seu pró­
prio modo de elaboração, sem a idéia de um princípio, de uma 
razão, intimamente compreendido como fim da investigação expe­
rimental. Foi esta perfeita adequação entre a razão e experiência 
que Leibniz procurou encontrar nas implicações metafísicas do seu 
sistema, que a filosofia do século XVIU descobriu na teoria newto- 
niana. E foi este acontecimento intelectual decisivo que marcou 
uma das diferenças mais significativas entre o pensar do século
XVII e o do século XVIII. O iluminismo procurou resolver — diz 
Cassirer — “a questão do método da filosofia, não já remontando ao 
Discurso do Método de Descartes, senão, mais adequadamente, às 
regulae philosophandi de Newton. E a solução obtida conduz ime­
diatamente a consideração para uma direção completamente nova. 
Porque o caminho de Newton não é a pura dedução, mas a análise. 
Não começa colocando determinados princípios, determinados con­
ceitos gerais para abrir caminho, gradualmente, deles partindo, por 
intermédio de deduções abstratas, até o conhecimento do particular, 
do fáíico; seu pensamento se move na direção oposta. Os fenôme­
nos são o dado, e os princípios o inquirido” 55.
Até que ponto e com que força se manifestou na Reforma de 
1772 do ensino universitário esta nova orientação especulativa? 
Sem pretender antecipar razões que se farão patentes em outro 
capítulo deste trabalho, diremos agora apenas que o método preco­
nizado pela Junta de Providência Literária correspondeu não ex­
clusivamente aos fins precípuos da investigação experimental, tal 
como era “compreendida” pelos teóricos do iluminismo, mas princi­
palmente às exigências práticas, aos problemas políticos do pom- 
balismo. O pombalismo não foi obra exclusiva de Sebastião de
55. Ernst Cassirer, Filosofia de la Ihmracián, trad espanhola de Eugê­
nio Imaz, México, Fondo de Cultura Econômica, Buenos Aires, ed. 1950, 
págs. 21 e 22.
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Carvalho e Melo: foi um estilo peculiaríssimo de uma política, 
doutrinariamente justificada, que £oi amadurecendo, gradualmente, 
por força dos fatos e das condições ideológicas do iluminismo euro­
peu. O iluminismo português não é uma fórmula que se impôs, 
feita e acabada, como um modelo em função do qual se estrutura­
ram os problemas da política militante de Pombal e de seus ho­
mens. Este iluminismo, enquanto pombalismo, constituiu, na sua 
forma e sentido, expressão de uma autoconsciência histórica da rea­
lidade portuguesa, a que não faltaram sequer a perspicaz compreen­
são da situação presente e a característica filosofia da história pela 
qual o gabinete de D. José I procurou justificar a doutrina do seu 
absolutismo. Da Relação dos gravames que ao comércio e vassalos 
de Portugal se têm inferido pela Inglaterra, redigida por Sebastião 
de Carvalho e Melo, antes do reinado de D. José I, aos escritos 
antijesuíticos, entre os quais a Dedução Cronológica e o Compên­
dio Histórico, é toda uma concepção peculiar da história portugue­
sa que se amplia e aprofunda, até alcançar a feição de um vasto e 
radical programa pedagógico.
Que foram os problemas práticos de ordem política que mais 
acentuadamente se fizeram sentir na doutrina pedagógica do pom­
balismo, verifica-se pela função atribuída ao ensino da lógica nos 
próprios Estatutos da Universidade de Coimbra. Estamos aqui mui­
to distantes daquela concepção característica do conhecimento de­
senvolvida pelas figuras mais expressivas do iluminismo europeu, 
a que já nos referimos. A lógica renovada que os Estatutos pre­
conizam não é — em verdade — a arte de disputa, tão bem ajus­
tada aos processos escolásticos de ensino: deveria ser uma lógica 
que, “emendada pelas luzes de Nicole, Malebranche, Mariotte, Tho- 
masio, Lok, Le Clerc, e Wolfio, satisfizesse completamente ao seu 
fim; trazendo tudo o melhor, que sobre ela tem escrito Antigos, e 
Modernos; e que fosse verdadeiramente Eclética” 3Ci. Este fim a 
que a nova lógica deveria satisfazer corresponde ao idea] de forma­
ção do teólogo e do jurista indispensáveis à política pombalina.
A lógica como arte de disputa, que nos séculos anteriores e 
até a Reforma prevalecera no ensino menor e nas Universidades, 
adequava-se perfeitamente ao regime das oposições e ostentações 
acadêmicas; era uma disciplina destinada muito mais a excitar os
56. Compêndio Histórico, pág. 163.
54
Rubens
Realce
engenhos no jogo verbal de teses e contradições do que a dirigi-los 
no caminho seguro da verdade. Ora, as faculdades maiores deveriam 
formar os teólogos e exegetas da ordem pombalina, exímios co­
nhecedores da crítica, da hermenêutica, da história sagrada e pro­
fana, da retórica, a fim de que, assim aparelhados, melhor pudes­
sem apreciar os fatos, as leis e as doutrinas e desembaraçar-se dos 
artificiosos recursos da dialética estéril e vazia.
No curso teológico, estabeleceu-se como instrução prévia do 
futuro teólogo o estudo da lógica: “Os estudantes, que quiserem 
matricular-se em teologia, deverão ir preparados para ela com boa 
instrução da língua latina, da retórica, das disciplinas filosóficas, 
e muito principalmente da lógica; na qual se terão instruído com 
toda a perfeição sobre as regras gerais, e indispensáveis da crítica, 
e da hermenêutica, que depois lhes hão de servir de bases, e funda­
mentos para a instrução da crítica, e hermenêutica sagradas, as quais 
são dois dos melhores subsídios da teologia” BT. E são estes mes­
mos subsídios que, ao tratar do Curso de Leis e Cânones, o Com­
pêndio Histórico tanto encarece. A lógica, nela compreendendo-se 
as doutrinas do método, da hermenêutica e da crítica, não pode ser 
ignorada pelo jurista, “porque sendo a jurisprudência essencialmente 
um hábito de interpretar e de aplicar as leis aos fatos; e consistindo 
todos os ofícios do jurista na interpretação, e aplicação das leis, 
claramente se mostra que ou ele haja de exercitar o primeiro, ou 
o segundo destes ofícios, sempre lhe é indispensável o auxílio da 
lógica” 6S.
Contrasta com estas expressas determinações que tão signifi­
cativamente patenteiam a força dos interesses teológico-jurídicos 
que presidiram a instituição da nova lógica no curso propedêutico 
da Universidade, o quase silêncio com que na ordenação dos de­
mais cursos — o médico e o matemático — se houveram os ela- 
boradores dos Estatutos. No curso filosófico, entretanto, ao tratar 
do ensino da lógica, recomenda-se excluir “a grande multidão de 
preceitos inúteis, e de questões extravagantes introduzidas pelos 
Escolásticos e conservadas em grande parte pelos Modernos, que 
se empenharam em fazer longa, difícil e embaraçada a Arte de
57. Estatutos da Universidade de Coimbra, Liv. I, Do curso Teológico, 
Tít. I, Cap. III, § 1, Lisboa, na Régia Oficina Tipográfica, 1773, t. I, pág. 7.
58. Compêndio Histórico, Paríe II, Cap. II, § 38, pág. 159.
55
Rubens
Realce
Rubens
Nota
A Lógica é um elemento central para a formação jurídica na Grécia. 
discorrer, que deve ser breve, fácil e expedita” 59, de maneira que 
a lógica toda possa explicar-se por “uma regra muito simples: que 
assim como comparar dois, ou muitos objetos, distantes uns dos 
outros, se usa dos objetos intermédios; do mesmo modo se compa­
ramas idéias, cuja relação manifestamente se não vê por meio 
de outras idéias, que entre elas se podem achar para servirem de 
cadeia do raciocínio” ^
Com este espírito deverá o professor indicar inicialmente as 
regras a que deve obedecer o raciocínio “perfeito”, a demonstra­
ção, e só depois passará a mostrar as normas do raciocínio “im­
perfeito”, da arte conjectural, tendo o cuidado de evitar prelimi­
narmente que os alunos se entreguem às “idéias pedantescas de 
alguns escritores, que têm profanado o nome de demonstração em 
questões, onde o mesmo nome de conjectura seria temerário” 6l, pois 
nenhum valor demonstrativo tem a proposição só pela “forma aces­
sória, e o exterior geométrico de definições, teoremas, corolários etc., 
quando se aplica a princípios vagos, faltos da exatidão escrupulosa 
das verdades matemáticas” 62.
Entre a arte de demonstrar e a arte conjecturalf isto é, ente 
o raciocínio apolítico das matemáticas e os problemáticos ou, quan­
do muito, asseríóricos juízos encontradiços nas ciências empíricas 
(no sentido vernáculo da expressão), jurídicas e teológicas os Es­
tatutos mal disfarçam a sua predileção pela segunda destas artes. 
Reconhecem os Estatutos serem as regras do raciocínio “imperfei­
to” tão essenciais e necessárias, pela sua utilidade sem duvida, 
quanto as do raciocínio “perfeito”, pois “a arte conjectural, que 
ensina a pesar e avaliar as probabilidades, é a que tem mais ne­
cessidade de regras; e que tem uso mais amplo rm ciências, con­
forme o estudo em que se acham” es. E de maneira muito expres­
siva determinam os Estatutos que o professor aos seus discípulos 
“advertirá, que todas as regras que se podem imaginar nesta matéria 
(na arte conjectural) são insuficientes, e de nenhuma utilidade, se 
por um exercício freqüente se não adquirir o hábito precioso de as
59. Estatutos da Universidade de Coimbra, Lív. III, Terceira Parte, Do 
Curso Filosófico, Tít. III, Cap. I, § 3, ed. cit., t. 111, págs. 342.
60. Idem, § 4, pág. 343.
6] Idem, § 5, pág. 343.
62. Idem, ibidem.
63. Idem, 5 6, pág. 344.
56
Rubens
Realce
Rubens
Realce
aplicar felizmente à prática: Costumando o entendimento ao tino 
particular da conjectura algumas vezes mais admirável, do que a 
mesma demonstração; pela sagacidade, e delicadeza, que supõe; e 
pelo maior número de combinações fugitivas, e complicadas que 
envolve”
E são por estas e outras razões que não podia faltar à lógica • 
pombalina a doutrina do critério. A lógica não é um instrumento, 
meramente formal, capaz só por força de suas regras e princípios, 
de justificar o acerto ou o desacerto das proposições, antes de tudo, 
ela é organon de uma ética destinada a conduzir os alunos “a exa­
minar, analisar, e combinar as matérias; e a proceder com exatidão, 
e boa fé nos seus raciocínios” ^. Nela não encontrarão abrigo as 
questões metafísicas sobre a natureza e origem das idéias e outras 
“superfluidades” e “embaraços” que só podem prejudicar a com­
preensão da “boa” lógica. “O cuidado todo do professor — deter­
minam os Estatutos — se reduzirá a inspirar nos seus ouvintes o 
critério, em que consiste a alma da filosofia; não os cansando com 
disputas sobre a primeira proposição verdadeira, que alcança o en­
tendimento, a qual poderá não ser a mesma em todos os homens; 
mas fazendo-os adquirir com o exercício o hábito de distinguir o 
verdadeiro do falso; e o argumento do sofisma” 66.
A arte conjectural, algumas vezes mais admirável do que a 
mesma demonstração nos seus pressupostos e nos seus fins, consti­
tuiu o oportuno substitutivo com que os membros da Junta de 
Providência Literária procuraram opor à dialética da arte de dispu­
ta dos escolásticos, as regras de um organon a serviço dos interesses 
ideológicos do pombaüsmo.
Esta lógica, já o dissemos, foi, com a “filosofia” que lhe ser­
viu de fundamento, o instrumento de uma ética, com todas as suas 
implicações políticas, teológicas e jurídicas de que o pombalismo, 
isto é, o iluminismo português, lançou mão a fim de disciplinar e 
orientar, na árdua, complexa e delicada conjuntura histórica em 
que se debatia o Reino, a mentalidade dos futuros líderes da Nação 
lusitana. O progresso das ciências naturais que impelira o espírito 
dos homens mais esclarecidos do iluminismo europeu, àquela aova
64. Idem, § 7, pág. 344.
65. Idem, § I I , pág. 346.
66. Idem, ibidem.
57
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Realce
Rubens
Realce
Rubens
Nota
organon = conjunto orgânico
discorrer, que deve ser breve, fácil e expedita” B9, de maneira que 
a lógica toda possa explicar-se por “uma regra muito simples: que 
assim como comparar dois, ou muitos objetos, distantes uns dos 
outros, se usa dos objetos intermédios; do mesmo modo se compa­
ram as idéias, cuja relação manifestamente se não vè por meio 
de outras idéias, que entre elas se podem achar para servirem de 
cadeia do raciocínio”
Com este espírito deverá o professor indicar inicialmente as 
regras a que deve obedecer o raciocínio “perfeito”, a demonstra­
ção, e só depois passará a mostrar as normas do raciocínio “im­
perfeito”, da arte conjectural, tendo o cuidado de evitar prelimi­
narmente que os alunos se entreguem às “idéias pedantescas de 
alguns escritores, que têm profanado o nome de demonstração em 
questões, onde o mesmo nome de conjectura seria temerário” 61, pois 
nenhum valor demonstrativo tem a proposição só pela “forma aces­
sória, e o exterior geométrico de definições, teoremas, corolários etc., 
quando se aplica a princípios vagos, faltos da exatidão escrupulosa 
das verdades matemáticas” íi2.
Entre a arte de demonstrar e a arte conjectural, isto é, entre
o raciocínio apolítico das matemáticas e os problemáticos ou, quan­
do muito, assertóricos juízos encontradiços nas ciências empíricas 
(no sentido vernáculo da expressão), jurídicas e teológicas os Es­
tatutos mal disfarçam a sua predileção pela segunda destas artes. 
Reconhecem os Estatutos serem as regras do raciocínio “imperfei­
to” tão essenciais e necessárias, pela sua utilidade sem dúvida, 
quanto as do raciocínio “perfeito”, pois “a arte conjectural, que 
ensina a pesar e avaliar as probabilidades, é a que tem mais ne­
cessidade de regras; e que tem uso mais amplo nas ciências, con­
forme o estudo em que se acham" ra. E de maneira muito expres­
siva determinam os Estatutos que o professor aos seus discípulos 
“advertirá, que todas as regras que se podem imaginar nesta matéria 
(na arte conjectural) são insuficientes, e de nenhuma utilidade, se 
por um exercício freqüente se não adquirir o hábito precioso de as
59 Estatutos da Universidade de Coimbra, Liv. III, Terceira Parte, Do 
Curso Filosófico, Tít. III, Cap, I, § 3, ed. cit., t. III, págs. 342.
60. Idem, § 4, pág. 343.
61 Idem. § 5, pág. 343.
62. Idem, ibidem.
63. Idem, § 6, pág. 344.
56
aplicar felizmente à prática: Costumando o entendimento ao tino 
particular da conjectura algumas vezes mais admirável, do que a 
mesma demonstração; pela sagacidade, e delicadeza, que supõe; e 
pelo maior número de combinações fugitivas, e complicadas que 
envolve” 04.
E são por estas e outras razões que não podia faltar à lógica 
pombalina a doutrina do critério. A lógica não é um instrumento, 
meramente formal, capaz só por força de suas regras e princípios, 
de justificar o acerto ou o desacerto das proposições, antes de tudo, 
ela é organon de uma ética destinada a conduzir os alunos “a exa­
minar, analisar, e combinar as matérias; e a proceder cora exatidão, 
e boa fé nos seus raciocínios” eB. Nela não encontrarão abrigo as 
questões metafísicas sobre a natureza e origem das idéias e outras 
“superfluidades” e “embaraços” que só podem prejudicar a com­
preensão da “boa" lógica. “O cuidado todo do professor — deter­
minam os Estatutos — se reduzirá a inspirar nos seus ouvintes o 
critério, em que consiste a alma da filosofia;não os cansando cora 
disputas sobre a primeira proposição verdadeira, que alcança o en­
tendimento, a qual poderá não ser a mesma em todos os homens; 
mas fazendo-os adquirir com o exercício o hábito de distinguir o 
verdadeiro do falso; e o argumento do sofisma” 6ê.
A arte conjectural, algumas vezes mais admirável do que a 
mesma demonstração nos seus pressupostos e nos seus fins, consti­
tuiu o oportuno substitutivo com que os membros da Junta de 
Providência Literária procuraram opor à dialética da arte de dispu­
ta dos escolásticos, as regras de um organon a serviço dos interesses 
ideológicos do pombalismo.
Esta lógica, já o dissemos, foi, com a “filosofia” que lhe ser­
viu de fundamento, o instrumento de uma ética, com todas as suas 
implicações políticas, teológicas e jurídicas de que o pombalismo, 
isto é, o iluminismo português, lançou mão a fim de disciplinar e 
orientar, na árdua, complexa e delicada conjuntura histórica em 
que se debatia o Reino, a mentalidade dos futuros líderes da Nação 
lusitana. O progresso das ciências naturais que impelira o espírito 
dos homens mais esclarecidos do iluminismo europeu, àquela nova
64. Idem, § 7, pág. 344.
65. Idem, § il , pág. 346.
66. Idem, ibidem.
57
orientação a que se referiu Cassirer, não repercutiu, em toda a sua 
força e sentido, na concepção do plano elaborado pela Junta de 
Providência Literária. A lógica dos Estatutos da Universidade de 
Coimbra tinha como objetivo fornecer as regras para a hermenêu­
tica dos assuntos teológicos, jurídicos e históricos que diretamente 
interessavam às razões políticas do pombalismo.
58
Capítulo II
A Reforma dos Estudos 
Menores e a Defesa do 
Regalismo
j — Verney e o plano de reforma do latim. A polêmica verneyana. 
A critica à Arte do Pe. Álvares. A simplificação do estudo do latim. 
A nova concepção da gramática I I — Os oratorianos e o novo método 
de gramática. A congregação de São Felipe Nery e o progresso dos 
estudos em Portugal. A polêmica em torno do novo método de gramáti­
ca. A recuperação do ideal humanista. III — A reforma dos estudos 
de latim em 1759. As novas aulas e os Jesuítas. O Alvará de 28 de 
junho de 1759. As instruções sobre o ensino de latim. IV — Os estudos 
de grego e de retórica. As diretrizes do ensino do grego. A retórica 
de Verney e as instruções de 1759. V — A justificação política da Re­
forma. As Cartas sobre a Educação da Mocidade. A ordem civil. A 
Monarquia da Conquista e o Estado do Trabalho e da Indústria. A edu­
cação e os interesses da ordem civil.
I
Quando, forçado pela situação criada pela política econômica 
ensaiada nos anos precedentes, o gabinete de D. José I procurou, 
com o Alvará de 28 de junho de 1759, reparar a imensa lacuna 
causada pela repentina supressão do ensino jesuítico, já existiam 
em Portugal, graças ao trabalho de algumas de suas figuras mais 
expressiva, as diretrizes pedagógicas capazes, por si sós, de jus­
tificar uma ampla reforma do ensino até então vigorante em ter­
59
Rubens
Nota
Estudos menores significa ensino fundamental e médio
Rubens
Realce
ras e domínios lusitanos. Se trabalhos havia sobre o modo de en­
sinar as humanidades à gente portuguesa, nem por isso o governo, 
ao criar as aulas régias, avaliou devidamente o inteiro alcance das 
dificuldades que adviriam de uma reforma destinada a corrigir os 
males notórios de uma pedagogia vigente há quase dois séculos e 
de um “sistema” que não mais correspondia às necessidades da polí­
tica de recuperação econômica, erigida como uma das razões mais 
altas do regime. Antes das reformas pombalinas, já se faziam sentir 
os primeiros sinais precursores do programa de renovação cultural. 
As sugestivas páginas que o Prof. Hemani Cidade dedicou ao 
estudo da reação contra o formalismo sciscentistax, tanto no domí­
nio científico e filosófico como na esfera dos problemas 'literários, 
dão bem a idéia dos esforços empreendidos no sentido de abrir à 
inteligência portuguesa horizontes mais ampios e límpidos. Todavia, 
sem procurai diminuir o significado destas manifestações, procura­
remos analisar, dentro dos propósitos deste trabalho, dois aconteci­
mentos de grande importância para a reforma dos estudos menores: 
a publicação do Verdadeiro Método de Estudar, de Luiz Antonio 
Verney, em 1746, e o aparecimento, em 1752, do Novo Método de 
Gramática Latina, da Congregação do Oratório. Tanto o livro de 
Verney como a nova gramática provocaram uma intensa polêmica 
de que são testemunhos os numerosos trabalhos que, a propósito de 
um e de outro livro, então se escreveram. Verney, especialmente, 
pelo seu destino singular, e sobretudo pela universalidade do plano 
de reformação pedagógica que traçou e procurou realizar, ocupa nos 
acontecimentos da vida cultural do século XV III português um 
lugax de merecida distinção.
Luiz Antonio Verney, o Barbadinho, foi, sem dúvida, um dos 
mais insignes arautos da política pombalina. A sua história inie-
1. Ver, neste sentido, Lições de Cultura e Literatura Portuguesas, t. II, 
e especialmente Cap. II; Reação contra o Formalismo Seiscentista anterior ao 
Verdadeiro Método de Estudar, págs. 17 a 71, onde são analisados, como ex­
pressões desta reação, no setor da atividade científica e filosófica, os trabalhos 
de Rafael Bluteau, Manuel de Azevedo Fortes, Jacob de Castro Sarmento, 
Antonio Nunes Ribeiro Sanches, e, no domínio literário, as contribuições de 
Francisco Xavier de Menezes, Frei Lucas dc Santa Catarina, José Xavier Vala­
dares de Souza, além de ama sucinta análise das academias e, particularmente, 
da Academia Real de História Portuguesa. Para uma visão de conjunto sobre 
a investigação científico-filosófica, ver ainda A. Alberto de Andrade, Vernei 
e a Filosofia Portuguesa, Caps. IX a XV I, págs. 191 a 349.
60
lectual é a história de um “drama íntimo”, que talvez encontre 
agora o biógrafo minucioso na apreciação dos fatos, justo, com­
preensivo e erudito, de que tanto necessita a investigação histo- 
riográfica, interessada na objetiva apreciação dos fatos referentes 
à cultura lusitana do século X V III2. Numa carta ao Pe. Joaquim 
de Foyos, divulgada por Inoccncio, alude o Barbadinho aos seus 
planos de “iluminação” da nação portuguesa. Toda a sua vida é, 
neste sentido, um esforço incessante de renovação da cultura portu­
guesa, como oráculo3 de uma política de que foi mais vítima do 
que beneficiário. Reportam em seus livros e em sua correspondên­
cia contínuas alusões a obras que pretendia escrever, ou que foram 
escritas e destruídas porque lhe faltou, na hora exata, o apoio finan­
ceiro e moral de que necessitava. Embora tenham parcialmente 
malogrado os seus propósitos iiuministas, sobreviveram entretanto 
as suas idéias, fecundando e impulsionando direções espirituais, 
abalando com a veemência de sua crítica os prejuízos da tradição. 
Outros foram, sem dúvida, mais seguros na orientação filosófica, 
como, por exemplo, Azevedo Fortes e Jacob de Castro Sarmento; 
outros mais profundos e sábios nas suas críticas, como Ribeiro 
Sanches e o Bispo Manuel do Cenáculo Villas Boas; outros ainda 
mais criteriosos e eruditos no trato de questões especiais, como An­
tonio Pereira de Figueiredo, Sachetti Barbosa, Domingos Vandeli, 
João Pereira Ramos de Azevedo Coutinho; nenhum, entretanto, 
tão ilustre como Verney, pela universalidade do plano concebido e 
pela ambição por que procurou, por intermédio de suas obras, rea­
2. “Drama íntimo” é expressão que o erudito editor do Verdadeiro Mé­
todo de Estudar, Prof. A . Salgado Ir., emprega para definir a vida intelectual 
de Luiz Antonio Verney, As notas criteriosas, elaboradas com beneditina 
paciência, pelo biógrafo, na reedição do Verdadeiro Método de Estudar, ainda 
inacabada, constituem, a nosso ver, elementos preciosos para uma compreen­
são justa dos propósitose do valor dos trabalhos do autor do De Re Physica; 
parece-nos que A. Salgado Jr,, pelos cuidados demonstrados na reedição da 
obra mais discutida de Verney, fará o trabalho que a investigação histórica 
urgentemente reclama,
3. O trabalho do Prof. Cabral de Moncada sobre Verney e as cartas 
por ele reunidas, sobretudo as que foram acrescentadas na nova edição da 
obra demonstram a importância de Verney como um dos oráculos da admi­
nistração pombalina. Ver nos Estudos de História do Direito as cartas Ver- 
ney-Muratori, págs. 195 e segs,, principalmente de Verney a Francisco Almada 
e Mendonça, págs. 323 a 409. Há dúvidas a respeito de quem seja o desti­
natário destas últimas cartas.
61
lizar o programa planejado quase no verdor dos anos. Ê neste sen­
tido que Luiz Antonio Verney é um pedagogo e, enquanto peda­
gogo, um “iluminista” na medida em que o iluminismo é uma forma 
de pensar comum de homens que, em atitudes diversas de pensamen­
to, procuraram fazer da cultura um instrumento do progresso e da 
perfeição das sociedades e dos homens. Em Verney, não há apenas o 
programa de uma reforma sobre os estudos; há ainda a consciência 
da necessidade do desdobramento de uma tarefa pedagógica, reali­
zando na ordem prática as diretrizes que o conhecimento das reali­
dades portuguesas e das conquistas recentes da cultura impunham 
como propósito preliminar de uma política destinada a “iluminar” 
verdadeiramente a nação lusitana.
Quando apareceu o Verdadeiro Método de Estudar para ser 
útil à República e à Igreja: proporcionado ao estilo e necessidade 
de Portugal exposto em várias cartas escritas pelo R.P. + + + 
Barbadinho da Congregação de Itália ao R. R. P. + + + Doutor da 
Universidade de Coimbra \ logo acorreram de todos os íados, 
apoiando ou contestando as idéias nele apresentadas, todos os que, 
ou por simples manifestação pessoal, ou talvez movidos por ordens 
superiores, se julgaram obrigados a entrar numa polêmica, que se 
tomou calorosa, e a opor, às razões do Barbadinho, ás contestações 
que lhes pareceram mais justas. Multiplicaram-se os escritos em 
Portugal e Espanha e somente agora começaram a aparecer as pri­
meiras notícias dos inéditos desta polêmica 5. Na criteriosa biblio­
grafia que, a propósito da polêmica verneyana, .Antonio Alberto de 
Andrade examinou e organizou, computam-se dezessete autores por­
tugueses e oito espanhóis e mais de quarenta escritos, de diferentes 
ordens, desde simples referências em obras publicadas, cartas, até 
os pormenorizados estudos de questões tratadas no Verdadeiro Mé­
4. Impresso em Valcnça, na oficina de Antonio Baile, 1746, 2 ts.; reim- 
presso na mesma oficina, em 1747.
5. Mariana A. M. Santos, “Inéditos de Verney'’, in Btblos, vol. XV111, t.
II, 1942, em separata, Coimbra, 1942-, Antonio Alberto de Andrade, “Inéditos 
da polêmica verncíana", in Brotéha, vol. L, fase. 3, 1950, págs. 281 a 287, 
onde se refere o Autor às pesquisas sobre manuscritos ainda não publicados, 
redigidos por Luiz Antonio Verney. De grande valia são, entretanto, as cartas 
do Barbadinho reproduzidas por Cabral de Moncada, já mencionadas.
62
Rubens
Realce
Rubens
Realce
todo de Estudar8. Tamanha repercussão de uma obra por si só 
testemunha o profundo abalo por ela provocado.
Nas dezesseis cartas do Verdadeiro Método de Estudar, ana­
lisa Verney, com o propósito dirigido para uma reforma gerai, a ra­
zão dos estudos, tanto menores como maiores: as gramáticas, por­
tuguesa e latina, o estudo do grego e do hebraico, a retórica, a poesia, 
a filosofia, a matemática, a medicina, o direito e a teologia. Ê todo 
um vasto programa pedagógico que aí se examina, com o cuidado 
de mostrar os prejuízos e defeitos da orientação até então existente 
e de indicar as soluções e diretrizes mais aconselháveis. Estas cartas 
destinavam-se a propor o novo método de estudos que as nações 
mais cultas da Europa praticavam. Francisco de Pina, em carta 
ao Marquês de Abrantes, escrevia, em 1752, na Balança Intelectual: 
“Recebemos com um gosto inexplicável as modas de França, de 
Itália, de Inglaterra, porém não nos resolvemos a tomar a moda 
de seus estudos. Somos como o rebanho, que não vai para onde 
deve ir, senão para onde o levam: e assim entramos nas escolas 
mais com a semelhança, que com o raciocínio” 7. Foi exatamente 
este “raciocínio”, amparado pelas luzes da nova filosofia, que Ver­
ney, fiel a sua vocação pedagógica, procurou introduzir em Portugal, 
recomendando livros e edições que melhor correspondessem às ne­
cessidades da cultura de seu tempo.
De todas as sugestões e críticas que apresentou, nenhuma teve, 
talvez, tão grande fortuna, como aquelas que se referiram ao estudo 
das humanidades e, particularmente, do latim Em sua primeira 
carta, começa o Barbadinho por encarecer a necessidade do estudo 
do Latim por intermédio da língua vernácula. A gramática Emman- 
velis / Alvctri e so/Cietate lem / De Institutione / Grammatica 
Libri Trex8 — reformada depois pelo Pe. Antonio Vellez, era redi­
6. Cf. A . Alberto de Andrade, “Bibliografia da polêmica verneiana”, m 
Broiéria, vol. X U X , fases. 2/3, 1949, págs. 210 a 232, onde aparece um Cons- 
pecto Geral dos Autores e Publicações da Polêmica; ver loc. cit., pág. 232.
7. Balança intelectual em que se pesava o merecimento do Verdadeiro 
Método de Estudar; que ao ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Marquês de 
Abrantes oferece Francisco de Pina e de Mello, moço fidalgo da Casa Real, 
e Acadêmico da Academia Real, Lisboa, Oficina de Manuel da Silva, 1752, 
págs. 3/4.
8. O exemplar que vimos na Biblioteca Nacional de Lisboa, no frontis- 
pício, depois das iniciais da Companhia de Jesus, indica: Olyssípone/ Excude- 
bat Joannes Barreríusj Typographus Regias/ M .D.LXXU.
63
gida inteiramente em latim e servia de texto não só às escolas je- 
suíticas mas ainda a todas as demais escolas portuguesas. Redigida 
e publicada nos fins do século XVI, ela se manteve como livro básico 
para o estudo do latira, sem modificações outras que não as que 
foram introduzidas pelo Pe. Vellez, por todo o século seguinte, até 
0 aparecimento do Novo Método de Gramática Latina dos oratoria- 
nos de Lisboa. As críticas de Verney à Gramática do Pe. Álvarez 
exprimem, antes de tudo, uma característica forma de conceber o 
estudo da latinidade. De ura modo gorai, os seus argumentos contra 
a velha Arte se reduzem, nos seus aspectos essenciais, a duas ordens 
de problemas, intimamente relacionados. Uns se explicam por ra­
zões pedagógicas, strictu sensu; outros, mais profundos, dizem res­
peito à peculiar idéia da latinidade por que o Barbadinho procurou 
opor-se à concepção que presidiu a feitura da gramática jesuítica.
De ordem pedagógica são as sugestões no sentido de que o 
Latim seja ensinado por intermédio da língua portuguesa. Fazendo 
seu o que no mesmo sentido preconizara Rollm, no Traitê des 
Êtudes ®, admirou-se Verney da persistência de uma prática que 
todos os homens de bom juízo condenam: “É coisa digna de admi­
ração que muitos homens deste reino queiram aprender francês, 
tudesco, italiano, de uma sorte, e o latim de outra muito dife­
rente. Aprendem aquelas línguas eom um mestre que as fala am­
bas, e explica a língua incógnita por meio daquelas que conhecem 
e falam” 10. O estudo do latim não poderia, nesse sentido, seguir 
direção diferente da adotada no ensino das línguas vivas. Sob certo 
aspecto, a sugestão de Verney implica o tácito reconhecimento do 
estado de maioridade da língua portuguesa.
No Verdadeiro Método de Estudar, são bastante significati­
vos os cuidados literários, as apreciações (discutíveis, aliás) de al-
9. O ensino do latim por intermédio da língua vernácula, que se trans­
formou num dos pontos fundamentais da reforma pombalina dos estudos me­
nores, fora preconizado pelos pedagogos franceses queseguiram os ensina­
mentos de Comenius. Verney serviu-se particularmente do Traité des Êtudes 
de Rollin. Para maiores esclarecimentos, confrontar os passos do Verdadeiro 
Método de Estudar com as transcrições do referido Traitê, feitas por A. Salga­
do Jr. Cf. Verdadeiro Método de Estudar, ed. A Salgado Jr. Texto e notas 
das págs. 34, 35, 36 (carta primeira, vol. I) e págs. 139/40 (carta segunda, 
vol. I).
10. Verdadeiro Método de Estudar, ed. 1747, pág. 49; ed. A. Salgado 
Jr., vol. I, pág. 141.
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gumas figuras das mais eminentes das letras lusitanas e o critério 
de que o Autor faz alarde ao examinar alguns dos problemas da 
latinidade. A crítica verneyana, nesta ordem de problemas, se dis­
tingue como expressão de consciência que soube reconhecer na 
língua, pela força de seus escritores mais ilustres, a carta de maiori­
dade que a República Literária, tal como a compreenderam os hu­
manistas, exigia.
Tão segura se patenteou esta consciência que, confiante na 
perfeição das línguas, purgadas pelo passado, não teve Verney dú­
vidas de censurar, apesar de todo o seu lúcido conhecimento da la­
tinidade, a pedanteria dos “que enchem os seus escritos de mil pa­
lavras latinas sem tom nem som, somente para parecerem erudi­
tos” n . E embora aprovasse a adoção de palavras estrangeiras, não 
deixou entretanto de reprovar “o que muitos fazem; servir-se sem 
tom nem som de vozes estrangeiras e palavras puramente latinas, 
tendo outras portuguesas tão boas. . . ” 1E. Tudo isto porque as 
línguas têm índole própria e se disciplinam à medida que se vão 
purgando até atingir a perfeição. Nesse sentido, vale muito pouco 
o argumento dos que erigem como regra de vemaculidade tudo o 
que se encontra nos antigos autores, pois “esta razão é de cabo-es- 
quadra. Porque tratando-se de línguas vivas (que não estavam pur­
gadas pelo passado, mas que na nossa idade se vão reduzindo à 
perfeição), e desta (da qual no nosso tempo apareceu o primeiro 
Vocabulário), não devemos estar pelo que disseram os velhos, mas 
examinar se há razão para dizer assim” 1S.
Esta valorização da língua portuguesa não é estranha à re­
forma da latinidade proposta por Luiz Antonio Verney. Do ponto 
de vista pedagógico, uma das razões que aconselhavam uma nova 
orientação no estudo do latim era, sem dúvida, a redução dos anos 
exigidos pela aprendizagem tradicional. O estudo da língua ver­
nácula, nas condições existentes, ümitava~se às escolas de ler e es­
crever. O latim, em tal situação, exercia uma função disciplinadora 
da mentalidade dos que se destinavam aos cargos que exigiam qua­
lificação literária e, correi ativa mente, servia de grau indispensável 
de ingresso nos estudos universitários, aos quais se reservavam os 
postos mais elevados da administração civil e eclesiástica. O estudo
11. Idem, pág. 32; ed. A. Salgado Jr., vol. I, pág. 99.
* 12. Idem, pág. 37; ed. A. Salgado Jr., vol. I, pág. 112.
13. Idem, pág. 36; ed. A. Salgado Jr., vol. I, pág. 110.
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do latim, por intermédio da língua portuguesa, viria simplificar e 
abreviar a natureza e a duração dos trabalhos escolares. Ainda que 
hoje possa pareoer estranho, o método preconizado pelo autor do 
De Re Logica que, à semelhança do que se praticava com as línguas 
vivas, pretendia ensinar uma língua desconhecida por intermédio 
de uma língua conhecida, dentro de sua época, encontra razões 
sobejas que o justificam. A língua portuguesa seria desta forma 
um instrumento propedêutico destinado a diminuir os cansaços e 
conduzir rapidamente os estudantes à compreensão da latinidade.
Não é fora de propósito lembrar aqui que, nesta altura da his­
tória das instituições educacionais, o latim deixava de ser a língua 
exclusiva dos conhecimentos doutos para enriquecer-se como ma­
téria de uma formação, até então insubstituível, que, sem deixar 
de ser útil, atendia aos reclamos de uma cultura que não alcan­
çara ainda o âmago das contradições da crise a que foi lançada.
De língua das escolas que fora primitivamente na tradição 
escolástica de língua douta que passou a ser na época do huma­
nismo, o latim se transformou, na consciência de alguns letrados 
portugueses do século XVIII, na finalidade de um programa es­
colar destinado a abrir à visão dos estudantes os horizontes amplos 
da cultura latina, na sua autêntica expressão histórica. Até entãc 
em Portugal, como de resto em toda a Europa, o latim era um ins­
trumento propedêutico indispensável ao futuro estudo do letrado, 
do canonista, do médico, do filósofo e do teólogo. Com Verney 
e os que lhe seguiram, o latim se transformou no ideal de uma pe­
dagogia humanista, abreviada nos seus processos e adequada na 
sua estrutura às necessidades novas da cultura lusitana. Não ê sem 
propósito que Verney orienta as suas críticas no sentido de um 
plano ortográfico, de uma gramática portuguesa “curta e clara”, 
de um dicionário resumido do Vocabulário do Pe. Rafael Bluteau, 
e que, particularmente, insista sobre os problemas da literatura epis- 
tolar e da eloqüência sacra.
Esta concepção encontra no Verdadeiro Método de Estudar 
sua mais profunda justificação, na forma por que o Barbadinho 
procurou traduzir, nos domínios da latinidade, os direitos de seu 
erudito humanismo. Há mais de cento e cinqüenta anos, a Arte do 
Pe. Álvarez, elaboração sem dúvida condizente com os progressos 
literários da época em que foi escrita, dominava soberanamente, 
auxiliada por inúmeros livros e cartapácios, quase sem contestação,
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na vida das escolas portuguesas. Embora sem ser o primeiro, o 
golpe de Verney provocou um estrondo igual a um desabar de rui- 
narias. As paixões que a sua obra provocou não permitiram aos 
coevos a apreciação justa da concepção que norteou, no domínio 
dos estudos lingüísticos, as suas críticas. Entre a época do Pe. Ál- 
varez e a da redação do Verdadeiro Método de Estudar, toda uma 
série de progressos se tinha realizado: é em nome dela que Luiz 
Antonio Verney ergue, nas alturas de uma nova perspectiva histó­
rica, a sua idéia de latinidade. “O mundo, diz Vemey na sua se­
gunda carta, estava mui falto de notícias e de método antes do 
século passado. Desde o restabelecimento das letras humanas na 
Europa (direi melhor, no Ocidente) que podemos fixar nos princí­
pios do sécuo XV (melhor direi, desde a invenção da imprensa no 
meio do dito século) até o fim do século XVI, não tiveram os ho­
mens tempo de cuidar em dar método próprio às letras e ciências. 
Não fizeram pouco aqueles primeiros doutos em procurar manuscri­
tos e imprimir as obras dos antigos autores, o mais corretamente 
que pudesse ser. Achamos alguns no fim do XV e XVI que foram 
letrados à força de estudo, mas não de método” 14.
Ora, é precisamente em nome do Método que Luiz Antonio 
Verney critica a Arte do Pe. Álvarez e os demais livros por que se 
explicavam as diversas partes de seu texto, ao mesmo tempo que, 
numa breve e significativa exposição de caráter histórico, sugere 
a idéia de uma nova gramática. Para Verney, foram os gramáti­
cos do século XVII que verdadeiramente descobriram as causas e 
a explicação da construção das partes do discurso. Seguindo as 
concepções de Júlio César Scalígero, no De Causis Linguae Latinae, 
Francisco Sanches, em 1587, no Minerva, realizou o que antes su­
geria o seu ilustre predecessor. “Este livro encontrou em Salaman- 
ca, e trouxe para Roma, nos princípios do século passado, o famoso 
Gaspar Scióppio, Conde de Cíaravale, de nação tudesca, aquele 
grande homem em letras sagradas e profanas, e que empregou toda 
a sua vida em estudos gramáticos. O livro de Sanches fez todo o 
efeito que podia esperar-se. Scióppio (que não costumava dizer 
bem daquilo que o não merecia, antes pelos seus inimigos é taxado 
como censordesumano), cedendo à evidência das razões, prosse­
guiu o mesmo método de Sanches: ilustrou e reformou a sua dou-
14. Idem, caria segunda, pág. 50; ed. A. Salgado Jr., vol. I, pág. 145.
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trina, e compôs a primeira gramática que apareceu segundo os tais 
princípios. No mesmo tempo, o famoso Gerardo João Vóssio, em 
Holanda, tão benemérito das letras humanas e sagradas, explicou 
ainda melhor o dito método seguindo em tudo Sancbes e Scióppio, 
os quais, ou copia, ou ilustra” le.
Este método, tão encarecido por Verney, se distingue do al- 
varista pelo manifesto cuidado de simplificar as regras da sintaxe, 
buscando razões para explicar e reduzir, por intermédio de prin­
cípios universais, os numerosos cânones da gramática jesuítica. Mais 
tarde, na Introdução da sua gramática, Verney consubstanciará a 
sua concepção nestas três ordens de preceitos; “1.° que todas as 
línguas têm a mesma ordem natural de sintaxe; 2.° que a diversi­
dade das línguas na sintaxe é acidental, e consiste em ocultar algu­
mas palavras por elipse, ou em transpô-las por hipérbato, ou em 
aumentá-las por pleonasmo, e, algumas vezes em suprir com uma 
só voz várias idéias, ou inventar novas partículas para reger di­
versos casos; 3.° que todas as línguas se podem reduzir às mesmas 
regras gerais e essenciais e, especialmente, às mesmas regras da 
latina” ie. Foi esta simplificação que os gramáticos do Novo Mé­
todo procuraram realizar. Enquanto na Gramática do Pe. Álvarez 
se contavam 247 regras de sintaxe, Scióppio, na sua Gramática 
Filosójica, não dá mais do que 115 regras “de sintaxe regular sem 
exceção nenhuma” u . Uma gramática concebida nestes termos, 
despojada dos versos mnemônicos e redigida em português, facilita­
ria enormemente o estudo do latim. E permitiria ao estudante, li­
berta a sua inteligência das abstrusas complicações gramaticais, o 
acesso ao mundo da latinidade, preocupação básica de Verney e 
dos reformadores que se lhe seguiram. É por este motivo que, na 
carta terceira, recomenda o Barbadinho, como disciplinas auxiiiares 
indispensáveis ao bom entendimento do latim, a geografia, crono­
logia, história, antigüidade grega e romana. Pois “não se pode 
saber latim, diz Verney (não digo com toda a perfeição, porque
15. Idem, pág. 51; ed. A. Salgado Jr., vol. I, págs. 146/147.
16. Apud A. Salgado Jr.: nota a propósito dos autores mencionados por 
Verney na breve notícia que dá no Verdadeiro Método de Estudar, referida no 
texto; cf. ed. cit., nota às págs. 147 a 14?.
17. Resposta às “Reflexões” que o R.P.M. Fr. Arsênío da Piedade, capu- 
cho, fez ao livro Verdadeiro Método de Exíudar, escrita por outro religioso da
dita província, para desagravo da mesma religião e da nação, Valença, of. ■
Antonio Baile, 1748, pág. 23.
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uma língua morta não se chega a saber bem, mas sabê-lo do melhor 
modo possível), sem alguma notícia da geografia e cronologia e das 
antigüidades, em que entram os costumes, a fábula etc.” 1S.
Quer-nos parecer que esta reforma se compadecia melhor com 
as condições sociais da vida portuguesa. A simplificação do estudo 
do latim, seja pela redução mais lógica dos princípios de sua gra­
mática e seja ainda pelo concurso que neste programa se reserva 
à língua vernácula, tendia de um lado a tuna melhor disciplina des­
ta última e, de outro, a facilitar ao maior número o ingresso nos 
estudos maiores. Num país que, pela extensão de seus domínios e 
pelos problemas administrativos e políticos dela decorrentes, tanto 
necessitava de homens à altura dos seus serviços, não seria sem 
propósito uma reforma que pudesse favorecer a renovação de seus 
quadros, pelo aproveitamente, em maior escala, dos letrados que 
saíssem de suas escolas.
Foram estes propósitos que se concretizaram na gramática lati­
na organizada pelos padres da Congregação do Oratório.
II
“Na reforma dos estudos em Portugal, diz Teófilo Braga na 
sua História âa Universidade de Coimbra, os padres da Congre­
gação do Oratório representam um papel análogo ao dos padres 
de Port-Royal em França; aqui acharam-se em frente dos jesuítas, 
lutando com vantagem e opondo à Gramática do Pe. Álvarez o 
Novo Método da Gramática Latina do Pe. Antonio Pereira de Fi­
gueiredo, imitada de Lancelot” 19, Realmente, foram os oratorianos 
que, pelas suas escolas, contribuíram poderosamente para solapar 
o imenso prestígio que, há quase dois séculos, gozavam os jesuítas 
nos domínios do ensino português. Foi nos seus cursos, aos quais 
comparecia a nobreza sequiosa de novidade e até o próprio rei D. 
João V, que a filosofia moderna encontrou abrigo com uma aula 
de física experimental; foram destes mesmos cursos que surgiram a 
nova gramática do Pe. Antonio Pereira de Figueiredo e a lógica 
reformada Instrução sobre a Lógica, ou Diálogo sobre a Filosofia
18. Verney, Verdadeiro Método de Estudar, ed. 1747, carta terceira, pág. 
70; ed. A. Salgado Jr., t. 1, pág. 194.
19. Teófilo Braga, História da Universidade de Coimbra, t. 111, pág. 280.
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Racional, do oratoriano Manuel Álvarez, que, ao lado da Recreação 
Filosófica, do Pe. Teodoro de Almeida, também oratoriano, con­
tribuíram de maneira ponderável para a renovação da mentalidade 
portuguesa.
Tão significativos foram os esforços e tão meritórios os seus 
trabalhos que, já era 1708, obtinha a escola, mantida pelos con­
gregados de São Felipe Nery, um privilégio real de que até então 
só gozavam os jesuítas: o de dispersa dos exames de seus alunos 
no Colégio das Artes de Coimbra80. Em 31 de outubro de 1716, 
confirmava o Rei este privilégio que, pela primeira vez, restringia 
o monopólio exercido pelos inacianos: “Eu el-Rei, como Protetor 
que sou da Universidade de Coimbra etc. .. Hei por bem escusar 
do exame de latim aí» estudantes filósofos da dita Congregação 
constando por certidão jurada ao Pe. Perfeito da mesma Congie- 
gação que foram examinados na forma dos Estatutos da Universi­
dade, que se haverão por verificados com a dita certidão, a qual 
servirá pelo passe que se requere para serem admitidos nas Esco­
las maiores” 81. Entretanto, em 17 de outubro de 1724, revogava 
o Rei, por provisão, esta disposição, para, logo a seguir, tomar a 
concedê-la, e de uma maneira mais ampla ainda: “Eu el-Rei, como 
Protetor que sou da Universidade de Coimbra etc. .. Hei por bem 
declarar que a provisão que mandei expedir em dezessete de outu­
bro do ano passado a respeito dos exames de latim e lógica não 
compreende os estudantes seculares da Congregação dos suplican­
tes (refere-se à Congregação do Oratório) desta cidade, os quais, 
porém, farão examinar os ditos estudantes em latim e lógica, além 
de todos os mais exames que costumam fazer por dois Mestres, os 
quais passarão certidões juradas da suficiência dos examinados, e 
pelas referidas certidões serão admitidos na sobredita Universidade 
sem que sejam obrigados a fazer segundo exame, como ordenava 
na dita provisão” 22. E em 27 de novembro de 1725, estendia- 
se ainda mais a força desta regalia, por intermédio da provisão na 
qual se dispensavam os portadores de certidões de latim e lógica, 
passadas pelos padres da Congregação, de um ano do curso de
20. Provisão de 17 de julho de 1708.
21. Mesa de Consciência e Ordens, Registro de Provisões de 1696 a 
1719, Arquivo Nacional da Torre do Tombo; apud Teófiio Braga, História da 
Universidade de Coimbra, t. III, pág. 274.
22. Idem, apud Teófiio Braga, ob. cit., págs. 276 a 278.
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Nota
Regalia dada aos padres oratorianos
Filosofia da Universidade. Já no reinado de D. José, e depois da 
célebre polêmica gramatical entre oratorianos e jesuítas, idênticas 
regalias foram concedidas às escolas oratorianas do Porto e Braga 2S.
É provável que o crescente prestígio dos estudos, nas escolasda Congregação de São Felipe Nery, ameaçasse seriamente os inte­
resses da Companhia de Jesus, que até então monopolizava o ensino 
português. E isto talvez tenha sido decisivo no desencadear da 
polêmica em torno da gramática latina organizada pelos oratorianos. 
Tão árduo e caloroso foi esse debate que nele viu o historiador 
Lúcio de Azevedo o fator decisivo das ulteriores reformas realiza­
das pelo Marquês de Pombal24. Quando surgiu o Novo Método 
da Gramática Latina Dividida em Duas Partes, para Usa das Escalas 
da Congregação do Oratório na Real Casa de Nossa Senhora das 
Necessidades, os seus autores, no Prólogo, compendiavam cento e 
vinte erros nas edições Usbonense e Eborense da Arte do Pe. Ma­
nuel Álvarez. Afirmavam os autores ainda que pelo “que pertence 
ao modo de explicar algumas regras e apontar a causa de várias 
construções, tenham entendido os leitores, que se em alguns destes 
dois pontos nos apartamos do Pe. Manuel Álvarez, é porque nos 
pareceu melhor a doutrina de Francisco Sanches, de Gaspar Scióppio, 
de Gerardo João Vóssio, do Pe. João Luiz de La Cerda, de Cláudio 
Lancelloíe na Aite de Porto Real, e de Jácome Perisônio, ilustrador 
de Sanches: todos seis gramáticos de primeira plana, e nem na 
ciência nem na estimação pública inferiores ao Pe. Manuel Álvarez
Não compreenderam da raesma forma as inovações os padres 
da Companhia de Jesus e logo multiplicaram-se os escritos polê­
micos em que, a todo transe, procuravam resguardar a autoridade
23. Cf. Teófilo Braga, ob. cit., t. III, págs. 278 a 280, nas quais se repro­
duz o documento que se encontra no Registro de Cartas e Alvarás, de 1741 a 
1799, da Torre do Tombo.
24. De acordo com J. Lúcio de Azevedo, a reforma dos estudos foi a 
simples conseqüência de uma querei a entre ordens religiosas. Cf. O Marquês 
de Pombal e a sua Época, 2.a ed., Rio-Lisboa, Anuário do Brasil — Seara 
Nova, 1922, Cap. X, t. III, págs. 338/42. Em trabalho sobre A Lógica de 
MonfAlverne (Boletim LX V II da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras 
da Universidade de São Paulo, Filosofia 2, 1946), embora reconhecendo os 
méritos dessa interpretação, dizíamos, à pág. 51: “Seria simplificar muito, 
reduzir os aspectos da reforma, eomo acabamento que foi da crise espiritual 
do dezoito português, a uma querela entre ordens”.
25. Novo Método de Gramática Latina, 7.a ed., pág. 223, texto citado 
por Teófilo Braga, ob. cit., pág. 281.
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e o prestígio do insigne mestre quinhentista. Criticando as afir­
mações do Prólogo e contestando os erros nele apontados, foram 
aparecendo contra os metodistas escritos de diversos tons: Sessão 
da Academia Gramatical; Mercúrio Gramatical dirigido aos estu­
diosos da língua latina em 'Portugal, com a notícia do que na Dieta 
da Gramática, na sessão terceira se consultou e determinou sobre 
o Novo Método da Gramática Latina, que para uso das escolas 
ordenou e compôs a Congregação do Oratório, por Philiarco Phe- 
répono; As novas declinações; Advertências necessárias para a inte­
ligência do Prólogo; Defensa Apologética à Arte do Padre Manuel 
Álvarez; Progresso da Academia Gramatical; Papel de mataburão a 
que se passaram envoltas em pretas lágrimas de penoso instrumen­
to os sentidissimos ais e dolorosos gritos da senhora D. Gramática 
sobre as conclusões públicas que no Hospital real da Corte se defen­
deram aos 30 de abril deste ano de 1752. Dado ao público por 
Papírio Mata Castanho; prezado leal amante da mesma senhora; 
e, finalmente, o mais importante destes documentos, o Anti-Prólogo 
crítico, e apologético, no qual à luz das mais claras razões se mos­
tram desvanecidos os erros, descuidos e faltas notáveis, que no in­
signe Padre Manuel Álvarez presumiram descobrir os R.R. autores 
do Novo Método da Gramática Latim, dirigido aos mesmos reve­
rendos padres.
Não tardou, porém, a contestação. Em 1754, sob o pseudô­
nimo de Francisco Sanches, aparecia a Defensa do Novo Método 
da Gramática Latina contra o Anti-Prólogo Crítico, de autoria do 
Pe. Antonio Pereira de Figueiredo. Nesta extensa resposta, preva­
lece o exame das questões gramaticais, tratado por uma dialética, na 
qual o seu autor ora se serve da Gramática do padre jesuíta Anto- 
nio Vellez, para mostrar as lacunas da Arte alvarista, e ora se 
serve de ambas para, juntamente com os autores mais modernos, 
contestar as razões apresentadas pelos apologistas. Nada se encon­
tra, entretanto, neste documento que nos autorize a admitir tenha 
sido impugnado o Novo Método preconizado pelos oratorianos. Ora, 
é precisamente este método que, do ponto de vista pedagógico, o 
único aliás que diretamente se relaciona com as preocupações deste 
trabalho, marca o aspecto mais expressivo deste primeiro episódio 
cultural precursor das reformas pombalinas.
Não duvidam os metodistas da autoridade do Pe. Manuel 
Álvarez e nem mesmo do ilustre reformador da Arte lisbonense, o
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Nota
Resposta dada aos oratorianos pelos jesuítas
Pe. Antonio Vellez. O que censuram sobretudo é o atraso em 
que permaneceram as edições, principalmente portuguesas, da Gra­
mática recomendada pela Ratio Studiorum. O notável progresso 
que ela marcou, entre os livros congêneres do tempo em que foi 
redigida, se perdeu assim, por deixar de acompanhar o progresso 
literário do século posterior. Foi em nome deste progresso que os 
metodistas emendaram mais de uma centena de erros que se en­
contrara na velha Arte. Que a Companhia de Jesus compreendia 
perfeitamente a necessidade da atualização e da simplificação da 
célebre gramática, provam-no muito bem os apelos da Congrega­
ção Provincial de 1603, nos quais se solicitava ao Geral que se su­
primissem nas escolas os versos, a não ser os referentes à quanti­
dade das sílabas, que o Pe. Antonio Vellez introduzira na Arte 
alvarista. E ainda na Congregação de 1606 era sugerido um exame 
dos aditamentos da Gramática eborense, pois, de acordo com a no­
tícia que destes documentos nos deu o Pe. Francisco Rodrigues, 
“esses aditamentos impediam o curso fácil dos estudos; já se espa­
lhavam rumores da dificuldade em aprender os preceitos da Arte, 
e havia por este motivo perigo não fugissem os estudantes para 
compêndios em língua portuguesa, que alguém já estampava, desa­
creditando o nosso método de ensino. Temia-se até que homens 
doutos e conselheiros do rei, aos quais desagradava a multidão e 
obscuridade dos versos, levassem ao Tribunal Régio os seus repa­
ros” 20. Apesar das recomendações do Geral, que atendiam em boa 
parte a estes reclamos, nada de prático se fez que reparasse defei­
tos tão patentes. E nas escolas portuguesas continuaram a circular 
as Artes Grande e Pequena do Pe. Manuel Álvarez, na adaptação 
feita pelo Pe. Antonio Vellez.
Ora, convenhamos que não setia fácil tarefa a defesa de um 
livro contra o qual já se tinham levantado as vozes dos próprios 
padres da Companhia em duas congregações provinciais. Tarefa 
tanto mais difícil quanto o adversário, não tendo que defender se­
não o Método e o bom critério de sua gramática, poderia, em nome 
deste método e deste critério, utilizar, ao lado dos autores recentes, 
os próprios Padres Álvarez e Vellez, nem sempre concordes em suas 
opiniões, contra o que alegavam os apologistas do insigne gramático 
inaciano. Esta privilegiada posição dos metodistas deu-lhes uma 
enorme vantagem sobre os seus contendores e permitiu-lhes retomar,
26. Francisco Rodrigues S. J., ob. cit., t. II, vol. II, nota 2, págs. 57/58.
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em pleno século XVIII, a bela tradição humanista do quinhentis- 
mo português, de que o Pe. Manuel Álvarez fora, sem dúvida, uma 
das mais significativas expressões.
Na sua arte explicada, citada na Defensa do Pe. Antonio Pe­
reira de Figueiredo, dissera João de Moraes Madurara Feijoo ser 
“a Arte do Pe. Manuel Álvareza luz primeira que em Portugal nos 
amanheceu para a notícia da latinidade, de sorte que antes dela era 
o latim entre nós tão alheio da sua pureza corno próprio da igno­
rância” ^ . Contestando essa afirmação, lembra o autor da Tenta­
tiva Teológica os nomes dos autores de Gramáticas Latinas que es­
creveram antes do aparecimento da Arte jesuítica: Estevam Caval- 
leiro (impressa em Lisboa, em 1516), 0. Máximo de Souza (Coim­
bra, 1535), Nicolau Clenargo (Braga, 1538), Jerônimo Cardoso 
(Lisboa, 1557), Fernando Soares (Coimbra, 1 5 5 7 ) E não é 
sem propósito lembrar que, na época do Pe. Manuel Álvarez, a 
tradição dos estudos latinos em Portugal alcançara o seu esplendor 
com os mestres do Colégio das Artes, antes de 1555, e ainda com 
os nomes de André de Rezende, Jerônimo Osório, Jerônimo Car­
doso, Damião de Góis, Inácio de Moraes, Diogo Mendes de Vascon- 
cellos “e outros muitos insigrtes portugueses, uns contemporâneos, 
outros mais antigos que o Pe. Álvarez” SB.
Era esta tradição que o novo método de gramática latina teria 
procurado restabelecer por intermédio de um processo mais simples 
e de uma informação mais ampla e renovada dos autores modernos. 
Não foi esta a primeira ocasião em que se levantaram criticas à 
Gramática Lisbonense, em termos capazes de suscitar apaixonadas 
contestações. O autor anônimo da Carta Exórtatória aos Padres da 
Companhia de Jesus da Província de Portugal já advertiu estas rea­
ções, pois quando saíra em Lisboa, em 1636, a Arte de Gramática 
Latina de Fr. Frutuoso Pra., monge beneditino, dela dissera Fr. 
Gregório de Argaes na Perla de CataluSa, pág. 464, § 156. “Que 
hiziera escurecer todas las artes desta matr.a, si no hmnera la opo- 
sición de la imbidia, y dei interes” 80. Idêntica reação sofrerá o
27. Defensa do Novo Método, Cap. II, pág. 16.
28. Idem, ibúlem, Cap. II.
29. Idem, pág. 19.
30 Carta Exórtatória aos Padres da Companhia de Jesus da Província 
de Portugal Coimbra, ed. por Mendes dos Remédios, Imp. da Universidade, 
1909, pág 18.
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Lista de gramáticos espírito iluminista português que influenciaram Camões
Exame de Sintaxe, e Reflexões sobre as suas Regras, dividido em 
três livros, de Manuel Coelho de Souza, publicado em 1729, con­
tra o qual, de acordo com Barbosa Machado, apareceram a Con- 
tramina Gramatical, de Antonio Franco, e a Apologia, de João de 
Moraes Madureira Feijoo35. Também o Novo Método de Gra­
mática de Manuel Monteiro, de 1746, encontrou o Antídoto Gra­
matical, bálsamo preservativo da corrupção da língua latina;!2, que 
uma tradição satisfeita com a passada grandeza reservava para os 
inovadores. Mais violenta e profunda, porém, porque mais fortes 
e incisivas foram as críticas, foi a reação com que se recebeu neste 
mesmo ano o Verdadeiro Método de Estudar, de Luiz Antonio 
Verney.
Embora meramente gramatical no seu aspecto cxtrínseco, a po­
lêmica em torno da Gramática, organizada pelos padres da Real 
Casa de Nossa Senhora das Necessidades, mal disfarçava a preo­
cupação de conduzir o exame das questões em discussão para a 
erudita esfera em que se debatem os problemas relacionados com 
o humanismo. Em seu Anti-Prólogo afirmaram os apologistas que 
“neste tempo se não deve reputar por bárbaro o nome Mavors; visto 
que usando dele freqüentemente lhe deram foro de Cidadão Romano 
os Poetas do século passado XVII, e presente XVIII. Mas não 
assim no século XVI, em que escrevia o Pe. Álvarez e em que era 
mui raro o uso de Mavors” sa. Semelhante modo de apreciar as 
questões de uma língua morta não poderia deixar de causar estupe­
fação àqueles que, preocupados com a verdade dos manuscritos e 
com a correção das edições clássicas, faziam já idéia bem diferente 
dos problemas da latinidade. Lembrando Vóssio, “príncipe dos gra­
máticos”, que nas suas Instituições Oroatórias, Liv. IV, Cap. I, § 4,
31. Barbosa Machado, Biblioteca Lusitana, vb. “Manuel Coelho de Sou­
za”, t. III, págs. 222/23; cf. ainda vbs. “João de Morais Madureira Feijoo”, 
in Biblioteca Lusitana, t. II, págs. 706/707 e “Antonio Franco”, vol. I, pàgs. 
280/281.
32. Antídoto Gramatical, bàhamo preservativo da corrupção da língua 
latina, ou curioso descobrimento dos principais erros, barbaridades e incoerên­
cias do Novo Método para aprender a dita língua oferecida a seu mesmo autor 
por Silvestre Silvérío Silveira da Silva, mestre de ler e escrever aritmética e 
gramática no lugar de Carnexide etc. Valença, Imp. de Antonio Baile, 1750 
Cf. ínocêncio, Dicionário Bibliográfico. De acordo com Inocêncío, a obra é 
de Manuel José de Paiva.
33. Anti-Prólogo Crítico e Apologético, pág. 113, passo mencionado na 
Defensa do Arovo Método, pág. 110.
75
“expressamente ensina que a propriedade e uso das palavras latinas 
se deve aprender somente dos Antigos Escritores e não dos que 
hoje escrevem” ®4 não esconderam os metodistas o espanto que lhes 
causou aquela afirmação. Nenhum escritor, por mais genial que 
seja, tem suficiente força para dütar leis ou dax propriedade às pala­
vras de uma língua morta. É por isso que se impõe ao estudioso 
da latinidade um seguro e criterioso trato com os autores clássicos, 
porque somente eles, pelos seus escritos sabiamente restabelecidos, 
podem dar foro de latinidade às expressões.
Não é de estranhar, portanto, que se demorem os metodistas 
na apreciação da propriedade de termos, invocando a todo momen­
to a autoridade dos antigos escritores e, ao mesmo tempo, procurem, 
contra as alegações de seus contendores, provar, apoiados nos crí­
ticos modernos, tais como Vóssio, Scióppio, Borríquio, Vavasseur, 
Einécio, Sanches, entre tantos outros mais, a pureza e gravidade de 
Celso e Columella, a latinidade de Plauto e Lucrécio, o acerto de 
Vitrúvio e o desacerto de Quintiliano num caso particular em que 
Cícero e Ovídio justificam o contrário. Semelhantes cuidados so­
mente alcançariam os fins propostos se se amparassem numa vigi­
lante e sempre renovada compreensão dos progressos e das con­
quistas da investigação erudita. Ê de presumir que nunca os sec­
tários do Pe. Álvarez se teriam lançado a uma polêmica em defesa 
de um livro que, em Portugal, salvo as emendas e ampliações do 
Pe. Antonio Vellez, permanecia quase tal como o deixara o seu 
autor. Unicamente o exclusivo zelo apologético e o exagerado res­
peito pela autoridade explicam os excessos de polêmica tão ingrata 
para os mestres de Santo Antão.
Depois do aparecimento das primeiras edições das Artes Lis- 
bonense e Eborense, tiveram os eruditos notícia de novos manus­
critos de autores clássicos e de novas edições. A propósito de luga­
res de Cícero em que aparece o nominativo Ei, afirmaram os autores 
do Anti-Prólogo, sobre manuscritos, “que não há que fiar neles: 
que ninguém pode saber se eles são genuínos ou viciados: que ainda 
que sejam antigos não há razão bastante para lhe darmos crédito; 
pois achando-se entre si diversos já se não pode distinguir, qual 
seja a verdadeira lição” 36. Acerca das edições foram ainda os apo­
34. Defensa do Novo Método, pág. 114.
35. Defensa do Novo Método, pág. 71.
76
logistas mais temerários, ao afirmar “que por mais que os críticos 
lhes chamem fidelíssimas e corretíssimas, é muito duvidosa a sua 
fidelidade e correção: que os críticos nenhum penhor nos dão para 
podermos segurar que nos não enganam: que quando eles testificam 
terem visto, conferido, e concordado manuscritos antiqüíssimos, nos 
podem mentir, como a Scalígero enganou Mureto. Finalmente serem 
os modernos críticos uns perturbadores e viciadores dos autores an­
tigos; e conscguintemente mui duvidosa a fidelidade que nas suas 
edições nos prometem” 36. Semelhantes afirmações não se compa­
deciam nem mesmo com o critério por que o Pe. Álvarez organizara 
a sua gramática e, por este motivo, não causa surpresa o estarreci- 
mento que ela provocou entreos adeptos do Novo Método: “agora 
acabo de entender — dizia, a propósito de outra questão, o Pe. 
Antonio Pereira de Figueiredo — que obraram uma e muitas vezes 
bem em o publicarem com o nome do guarda de Santo Antão. Por­
que só em um tosco e rude entendimento se faziam sofríveis ta­
manhos absurdos” ®7.
A polêmica em tomo da gramática do Novo Método, tal como 
já acontecera por ocasião do aparecimento da célebre obra de Ver- 
neys revelou a força com que se mantinham as práticas pedagógicas 
das escolas jesuíticas. Distantes e quase esquecidos da antiga emu­
lação, que tamanhos proveitos trouxe para os cursos da Companhia 
em Portugal, os adversários do Novo Método resistiram, com tenaz 
combatitividade, aos esforços renovadores que pretendiam introduzir 
no país as luzes de um humanismo melhor adequado às novas 
condições da cultura. No seu sentido íntimo, este humanismo visava 
a fazer do latim, não apenas uma língua indispensável aos estudos 
maiores, mas também, revivendo a esplêndida lição dos humanistas 
do quinhentos, o fundamento de uma formação intelectual que, por 
intermédio dos autores clássicos, acomodados aos interesses religio­
sos, abrisse aos olhos do estudante os horizontes inatingíveis de uma 
cultura que se transformara no ideal de uma pedagogia acatada em 
todo o Ocidente.
36. Idem, págs. 71/72.
37. Idem, pág. 110. O Anti-Prólogo Crítico e Apologético apareceu 
com o nome de Manuel Mendes Muniz, que era guarda dos estudos públicos 
no Real Colégio de Santo Antão. A obra é atribuída ao Pe. Francisco Duarte. 
Cf. Inocèncio, Dicionário Bibliográfico, vbs. “Manuel Mendes Muniz e Fran­
cisco Duarte”.
77
Rubens
Realce
Rubens
Nota
Uma pedagogia que seguisse os ideias iluministas
Era este humanismo, despojado de ornamentos, essencialmente 
erudito, crítico e metódico, que a gramática da Congregação do 
Oratório, ao simplificar as regras da sintaxe, procurava pôr ao al­
cance dos estudiosos. Até então, o estudo do latim obrigava os 
estudantes a grandes canseiras. O método alvarista exigia, para a 
sua perfeita inteligência, a multiplicação das glosas e comentários 
em tal número que a Verney causara pasmo 3S. £ o judicioso Fran­
cisco de Pina e de Melo poderia queixar-se dos sete anos perdidos 
nas classes de latim, nas quais aprendeu talvez aquela necessidade 
que o levou a estudá-lo sem mestre39. Os comentários à Arte do 
Padre Álvarez por si sós eram suficientes para causar desânimo ao 
mais perseverante dos estudantes. Desde as Curiosas Advertências, 
de Bartolomeu Rodrigues Chorro, as Anotações aos Gêneros e Pre­
téritos, as Anotações da Rudimenta Grammaticae, as Margens da 
Sintaxe, de João Muniz Freire, até as Explicações Latinas, do Pe. 
José Soares, o Prontuário, do Pe. Antonio Franco, e os quatro 
tomos da Arte Explicada, de João Moraes de Madureira Feijoo, é 
todo um desdobrar inacabável de glosas à Gramática do insigne 
jesuíta. Ê compreensível que tão imensas dificuldades só servissem 
para afastar os estudantes da cogitação dos problemas mais eleva­
dos da latinidade.
m
As diretrizes e os problemas que emergiram das polêmicas 
causadas pelo Verdadeiro Método de Estudar e pelo Novo Método
38. “Quando entrei neste Reinos, e vi a quantidade de cartapácios e 
artes que eram necessárias para estudar somente a Gramática, fiquei pasmado. 
Falando com V. P. algumas vezes, me lembro que lhe toquei este ponto, e 
que não lhe desagradaram as minhas reflexões sobre esta matéria. Sei que, 
em outras onde se explica a Gramática de Manael Alvares, também lhe acres­
centam algum livrinho; mas tantos como em Portugal, nunca vi. As decliaa- 
ções dos nomes e verbos estudam pela Gramática Latina; a esta se segue um 
cartapácio português de rudimentos; depois outro, para gêneros e pretéritos, 
muito bem comprido; a este um de sintaxe, bem grande; depois um livro, a 
que chamam chorro; e outro, a que chamam prontuário, pelo qual se apren­
dem os escólios de nomes e verbos; e não sei que mais há”, Verdadeiro Método 
de Estudar, Carta segunda, ed. 1747, pág. 48; ed. A. Salgado Jr., vol. I, págs. 
135/37.
39. Balança Intelectual, pág. 19. “Andei nas classes sete anos e saí 
delas sem alguma notícia do latim; e esse pouco que sei dela me custou o 
insofrível trabalho de aprendê-la sem mestre, depois de alcançar a necessidade 
de conhecê-la”.
78
Rubens
Realce
Rubens
Nota
Adotar métodos mais dinâmicos de ensino
de Gramática Latina foram transformadas, por força da situação 
criada com a expulsão dos jesuítas, nos princípios orientadores da 
política pombalina em relação aos estudos menores. Em nome da 
união cristã e da sociedade civil justificou o gabinete de D. José I 
a adoção de uma pedagogia destinada a substituir as tradicionais 
práticas por métodos mais condizentes com as razões de uma polí­
tica que procurava, dentro da ordem cristã, alcançar os objetivos 
da sociedade civil em que os interesses seculares encontraram, pela 
primeira vez, quem os traduzisse em termos que melhor se compa­
deciam com o progresso da cultura e com os fins de uma ordem 
civil consciente de seus direitos. Ao suprimir o ensino dos jesuítas, 
não ignorou, sem dúvida, o governo o signiGcado do dilema em 
que se lançou. Já se faziam sentir em outros países as reivindicações 
que algumas vozes singulares erguiam na defesa dos interesses pro­
feticamente pressentidos de um ensino a serviço da vida paisana. 
Todavia, não conheceu, em suas raízes remotas e em seus motivos 
profundos, o despotismo pombalino a perplexidade do dilema — 
fé e império — porque a sua lógica foi apenas simples conseqüência 
das situações presentes, que a “experiência” das tentativas de reno­
vação cultural, pelos excessos reacionários que provocou, historica­
mente, justificava. A ordem civil pombalina, quando bem apreciada, 
na totalidade de seus aspectos, é tão distante do ideal ultramontano 
como do cismontano: é um cosmos político que, à sombra do direito 
dvü e canônico vigentes, procura encontrar a equação legal e legí­
tima que melhor corresponda às suas necessidades de sobrevivência.
A criação das aulas régias de latim, grego e retórica, ilustra 
muito bem o que dissemos. Enganar-se-ia o historiador que nela 
visse a primeira ou uma das primeiras manifestações de ensino pla­
nejado e realizado por força exclusiva dos ideais de um programa 
de secularização das instituições educacionais. Os objetivos que 
conduziram a administração pombalina à criação das aulas régias 
foram, ao contrário do que pensam os que se preocupam mais com 
a aparência do que com a realidade, um imperativo da própria 
circunstância histórica. Desalojados os jesuítas de seus colégios, não 
poderia o governo deixar de suprir prontamente a enorme lacuna 
que se abrira na vida educacional portuguesa. Em substância, o 
Alvará de 28 de junho de 1759 não tem outro significado senão 
este: o de manter a continuidade de um trabalho pedagógico que 
a expulsão dos jesuítas ameaçava comprometer.
79
Rubens
Nota
O pombalismo se torna uma ideologia
Neste alvará, em que se começam a compendiar os estragos 
e impedimentos — para empregar a linguagem característica da 
Dedução Cronológica — causados pelos jesuítas na vida portuguesa, 
transparece claramente o cuidado de retomar as diretrizes de uma 
tradição desaparecida com o advento do ensino da Companhia de 
Jesus. O método para o ensino do latim, que, essencialmente, é o 
mesmo recomendado por Vemey e pela Gramática da Congregação 
do Oratório, é expressamente nomeado no alvará como antigo. Este 
fato por si só ilustra o significado íntimo da concepção que presidiu 
à reorganização das classes de laíim, grego e retórica, demonstran­
do o temeroso cuidado do govemo ao afastar das providências régias 
qualquer suspeita de uma inovação, ainda que fosse na esfera de 
problemas que só acidentalmente poderiam ferir os interessesda fé 
religiosa. Na lógica do gabinete de D. José I, somente a tradição 
e a experiência do passado tém força para justificar os atos admi­
nistrativos. Quão distantes estavam estes homens das formas utópicas 
do pensar político! Na instituição dos novos cursos, não foram eles 
buscar o modelo de outros povos mais adiantados, mas sim as 
diretrizes que a experiência da história portuguesa remota e dos fatos 
recentes parecia justificar.
Depois de um preâmbulo em que se recapitulam episódios da 
resistência oposta pelos portugueses aos jesuítas, determina o alvará 
uma geral reforma, mediante a qual se restitua o método antigo, 
reduzido aos termos simples, claros e de maior facilidade, tal como 
o praticam as nações polidas da Europa. Neste método, deverá o 
professor ensinar, por intermédio da língua portuguesa, desde o 
nominativo até a construção inclusive, sem distinção de classes como 
até agora se fez com reprovado e prejudicial erro de que não per­
tencendo a perfeição dos discípulos ao mestre de algumas das dife­
rentes classes, se contentavam todos os ditos mestres de se encherem 
as obrigações enquanto ao tempo, exercitando-as perfunctoriamente 
quanto aos estudos e aproveitamento dos discípulos. Por aí se vê 
que, embora a reforma tenha sido determinada pela situação criada 
com a expulsão dos jesuítas, a ela não foram estranhos os propósitos 
de uma política de qualidade, destinada a corrigir abusos que então 
se verificavam. Ê nesse sentido que o mesmo alvará cria o cargo 
de diretor geral dos estudos, com amplas atribuições, e determina 
a prestação de exame para todos os professores. Além dessas provi­
dências, proíbe o alvará o ensino público ou particular, sem licença 
do diretor geral dos estudos.
80
Rubens
Realce
No que se refere aos livros escolares, recomenda o alvará gra­
máticas de Antonio Pereira de Figueiredo e de Antonio Felix Men­
des, ao mesmo tempo que proíbe a Arte do Pe. Manoel Álvarez: 
“e todo aquele que mar na sua escola — diz o alvará da dita Arte — 
será logo preso para ser castigado ao meu real arbítrio, e não po­
derá mais abrir classe nestes reinos e seus domínios”. Juntamente 
com a Arte do Pe. Álvares, são proibidos os livros dos comenta­
dores desta gramática: os de Antonio Franco, João Muniz Freire, 
José Soares e, especialmente, o comentário de Madureira e de todos 
os demais cartapácios utilizados pelos professores. Finalmente, dis­
põe o alvará que todos os professores gozarão dos privilégios de 
nobres, incorporados em direito comum e especialmente no Código, 
Titulo — De professoribus et medicis.
Nas Instruções que acompanharam o Alvará de 28 de junho 
de 1759, transparece claramente o objetivo que norteou a reforma. 
A preocupação básica & aí a de simplificar os estudos, de modo 
que os alunos possam adquirir a ciência do latim com brevidade 
e de uma forma que sirva de excitar em os que aprendem um vivo 
desejo de passarem às ciências maiores. O método de ensino deve 
ser breve, claro e fácil sendo indispensável, portanto, que o latim 
seja estudado por intermédio da língua vernácula. “Todos os ho­
mens sábios confessam que deve ser era vulgar o método para apren­
der os preceitos da gramática, pois não há maior absurdo que inten­
tar aprender uma língua no mesmo idioma que se ignora” 40. Men­
cionam as Instruções, expressamente, nesta passagem, os nomes de 
Rolün, Lamy e Walche. Os alunos se servirão das gramáticas de 
Antonio Pereira de Figueiredo, enquanto os professores, ao lado 
de outros livros, devem usar a Minerva de Francisco Sanches, a 
fim de “suprirem na explicação dos discípulos os preceitos de que 
lhe tiver já dado uma sumária idéia o método abreviado por que 
devem aprender” 41. E em hipótese alguma, entretanto, quando os 
alunos estiverem adiantados, permitirão os professores a consulta 
dos livros condenados.
De modo especial, insistem as Instruções na utilidade do estudo 
da gramática portuguesa: “Para que os estudantes vão percebendo 
com mais facilidade os princípios da gramática latina, é útil que 
os professores lhes vão dando uma noção da portuguesa, advertin-
40. Instruções para os Professores de Gramática Latina, § 4.
41. Idem, § 5.
81
Rubens
Realce
Rubens
Nota
Serão iniciados os concursos públicos.
do-lhes tudo aquilo, era que tem alguma analogia com a latina, e 
especialmente lhes ensinarão a distinguir os nomes, os verbos, e as 
partículas, por que se podem dar a conhecer os casos” 42. Somente 
depois de conhecidos os preceitos gramaticais, permitirá o professor 
a leitura dos autores clássicos, tendo o cuidado, todavia, de dar 
aos alunos trechos escolhidos e fáceis. Nesse sentido, recomenda a 
Seleta de Heuzet, professor do Colégio de Bcauvais. “Mas como 
se não pode confiar em tais obras tanto como na dos Escritores 
antigos que escreveram na sua própria língua; deve [o professor] 
preferir a excelente coleção feita em Paris no ano de 1752 por 
Chompré para uso da mocidade cristã, que logo no primeiro tomo 
recebe de um autor (Suplício Severo) latiao, puro, e católico, os 
princípios da história da religião em estilo ciaro e corrente” 43. A 
virtude desta Seleta reside no fato de permitir, à medida que os alu­
nos gradativamcnte vão percorrendo as suas páginas, passando dos 
textos mais simples para os mais complexos, que se possam emen­
dar as expressões menos latinas, porventura encontradiças nas suas 
páginas iniciais, pelas mais puras de que se servem os escritores 
mais categorizados. A outra virtude desta coleção consiste na possi­
bilidade que ela oferece ao estudante de reconhecer nos trechos, 
metodicamente escolhidos, os preceitos gramaticais aprendidos nas 
classes anteriores. A idéia da Seleta de Chompré já fora preconi­
zada por Rollin, Lama, Cellário e Walshio. De acordo com as 
Instruções, esta Seleta deveria ser publicada para uso das escolas 
portuguesas.
Lembram ainda as Instruções, contra possíveis objeções, as 
vantagens de semelhante Seleta. Realmente poder-se-ia alegar que 
coleções de tal natureza não facilitavam uma perfeita notícia da 
fábula e da história. Todavia, consiste o seu valor em fornecer aos 
alunos grande número de termos e frases da língua e permitir-lhes, 
através dos textos, o conhecimento do modo mais prático de utili- 
zá-los. O que, aliás, está perfeitamente de acordo com Quintiliano 
“e muitos homens dos mais sábios” 44. Dentro deste critério, o estudo 
da poesia ficou reservado para a ocasião em que os alunos, depois 
de terem conhecimento dos rudimentos da língua, estivessem em 
condições de compreender a poesia na sua beleza, o que aliás tam-
42. Idem, § 6.
43. Idem, § 8. O livro de Chompré é a Seiecla Latina Sermonis Exem­
plaria. *
44. Idem, § 9.
82
Rubens
Realce
bém se recomenda com a autoridade de Quintiliano. Estas preocupa­
ções de facilitar o estudo do latim, distribuindo metodicamente as 
matérias, de tal maneira que os elementos mais complexos se resol­
vam pela composição progressiva e integração dos princípios ele­
mentares, são as mesmas que, nas Instruções, justificaram a proibi­
ção de dar, logo no início, temas aos alunos. Estes temas devem 
constituir-se de histórias breves e máximas úteis aos bons costumes, 
que o professor dará ao aluno em dias alternados, para compor em 
casa e, somente uma vez por semana, a redação dos mesmos será 
feita em classe.
Bastante significativo porém foi o cuidado que teve o legislador 
de impedir a corrupção da língua latina. No início dos estudos, 
recomenda o alvará, não deve o professor falar o latim nas classes, 
pois só desta forma evitar-se-ão os barbarismos que qualquer pessoa, 
ainda que erudita, naturalmente cometerá ao falar Sobre qualquer 
assunto em uma língua moita. Todavia, nas classes mais adiantadas, 
o professor poderá discorrer em latim sobre temas previamente 
escolhidos, utilizando para isso Terêncio e Plauto,tais como se en­
contram nas coleções e diálogos de Luiz Vives, na coleção de pala­
vras familiares portuguesas e latinas, feita por Antonio Pereira de 
Figueiredo e nos Exercícios da Língua Latina e Portuguesa, orga­
nizados pela Congregação do Oratório.
Recomendam as instruções, além das Seletas de Heuzet e de 
Chompré e as gramáticas de Antonio Pereira de Figueiredo e Anto­
nio Felix Mendes, a Ortografia de Luiz Antonio Verney aos alunos, 
e, aos professores, as obras de Cellário, Dausquio, Aldo Manúcio, 
Schurízfleischio — “todos, ou alguns deles” — e os Dicionários de 
Faciolati e Basílio Fabro. Tal como decidiram a respeito da Gra­
mática do Pe. Álvarez e de seus comentadores, proíbem as Instruções 
a Prosodia de Bento Pereira “pelo perigo que há de se imprimir logo 
nos primeiros anos a multidão de palavras bárbaras de que está 
cheia”45.
Do exame do alvará e de suas instruções resulta claramente:
1) que a reforma dos estudos menores se caracteriza como um pro­
grama destinado a preencher, no ensino português, a lacuna aberta 
com a supressão das escolas jesuíticas determinada nesta lei régia;
2) que a reforma, todavia, além de procurar suprir quantitativa­
45. Idem, § 12.
83
Rubens
Realce
Rubens
Nota
Essa discricionariedade é uma característica do reformismo
mente a necessidade de classes e professores, preconiza a adoção 
de uma política de elevação do ensino e, indiretamente, de secula­
rização em maior escala e melhor planejamento do que o até então 
existente. Sinal expressivo desta política é a criação de um caxgo 
direta e exclusivamente subordinado à Coroa e o estabelecimento 
de exames para todos os candidatos ao ensino das Humanidades;
3) que a reforma, de acordo com a necessidade de criar nos alunos 
um grande interesse pelo ingresso nos cursos maiores, visou a abre­
viar os estudos, pela simplificação do método de aprendizagem do 
latim; 4) que, na ordem cultural, o método preconizado se orien­
tava no sentido de criar, nos estudantes, muito mais o gosto da 
latinidade, isto é, dos ideais da cultura clássica, do que o interesse 
pelo latim, como e enquanto língua indispensável aos estudos maio­
res. Este gosto era a expressão de uma consciência dos fatos preté­
ritos da vida portuguesa, porque representava um deliberado esforço 
no sentido de reviver a bela tradição humanista do quinhentisrao, 
que o advento das escolas jesuíticas — de acordo com o pensa­
mento contido na linguagem do alvará — interrompera.
Se a conjuntura política impôs, ao gabinete de D. José I, a 
necessidade de uma reforma, a crise entre a tradição e a moder­
nidade, em todos os setores por que se manifestou, deu-lhe o rumo 
inicial de uma política pedagógica que, se até agora se apresentou 
como um programa de recuperação de um ideal perdido, a partir 
deste momento, foi aos poucos se enriquecendo, por força das con­
dições advindas da nova situação econômico-social e das reper­
cussões da ideologia ilumimsta na mentalidade portuguesa. O con­
flito verificado nos últimos decênios, entre a tradição consciente 
e orgulhosa de seus direitos e o esforço inovador de algumas figuras 
isoladas e grupos que nenhuma responsabilidade tiveram na situação 
cultural então existente, foi o motivo que conduziu a administração 
pombalina pelo caminho de uma nova orientação pedagógica. Sem 
ferir os interesses da fé, porque foi com os homens de maior ex­
pressão na vida religiosa portuguesa que D. José contou para a 
realização de seus fins políticos, a reforma pombalina, moderada 
nos seus pruridos regaüstas, visava a formar, na ordem civil, o 
cristão útil aos seus propósitos. Não se vislumbravam ainda aqui as 
complexas e delicadas situações nas quais o govemo teve de lançar 
mão de todos os recursos teológicos, canônicos e jurídicos, a fim 
de fazer prevalecer os direitos que o ultramontanismo, acuado, lhe 
recusava.
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Realce
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Realce
No Alvará de 28 de junho de 1759 que, repitamos, foi deter­
minado pela supressão das escolas jesurticas, encontramos apenas 
as diretrizes que emergiram das polêmicas de Luiz Antonio Verney 
e Antonio Pereira de Figueiredo. Talvez não optasse a administra­
ção pelo Novo Método se ele não representasse um fator destinado 
a abreviar e simplificar os percalços da aprendizagem do latim. Não 
é fora de propósito que Verney, Antonio Pereira de Figueiredo e 
o próprio alvará insistam na necessidade de um ensino que reduza 
o número de anos. O desenvolvimento dos estudos naturais, dos 
quais o século XVIII, pelos seus filósofos mais ilustres, apreendeu 
o significado e alcance, exigia — e isto nos parece que até hoje 
não foi devidamente apreciado — um amadurecimento nos estudos, 
de tal ordem que as inteligências, livres dos embaraços de uma 
cultura formalística, pudessem aplicar-se a assuntos mais úteis. Um 
dos mais significativos aspectos da cultura pedagógica do século 
XVIII, ou melhor, do iluminismo, é o seu esforço no sentido, alta­
mente moral, de fazer das artes, das ciências, da instrução, da 
cultura enfim, um instrumento a serviço da felicidade e do progresso 
da humanidade. Este pragmatismo idealista não poderia compade­
cer-se com quaisquer propósitos que comprometessem, pelo excessi­
vo apego a uma tradição ultrapassada e a um formalismo destituído 
de objetivos práticos, os fins de uma mentalidade nova, que as 
condições sócio-culturais revelavam. Nesta situação, o que mais 
valia era a ordenação desta mentalidade, de tal modo que as inte­
ligências pudessem, efetivamente, servir-se do ensino das escolas 
não como simples meio de acesso às Faculdades, mas como um 
verdadeiro instrumento capaz de permitir-lhes o ingresso no mundo 
da cultura. Ao invés dos omatos retóricos, do formalismo estéril da 
dialética e das infindáveis questões gramaticais, a noção de uma 
verdade a ser buscada, seja pela experiência, seja pela razão, como 
um critério que os bons estudos deveriam, aos poucos, formar no 
espirito dos estudantes.
A simplificação dos estudos gramaticais correspondeu a este 
imperativo pragmático, tão característico do pensamento iluminista. 
Interessava ao governo poder recrutar, entre os estudantes das esco­
las menores, os candidatos aos postos civis e eclesiásticos de que 
tanto necessitava uma administração üuminaâa pela experiência do 
que se praticava nas nações estrangeiras: o teólogo, nas dignidades 
e benefícios da Igreja; o jurista, nos cargos da magistratura; o 
médico, nos lugares de físico, cirurgião-mor, comissário e diretor
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Realce
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Nota
Extinguir os floreios dos jesuítas, introduzir os alunos dentro de uma cultura objetiva ao contrário da ideia do medievo 
da Medicina; o matemático, na função de cosmógrafo, engenheiro- 
rnor, professor de engenharia, artilharia ou náutica; o filósofo, nas 
ocupações de intendentes da agricultura, do ouro, das fábricas e 
manufaturas. Compreende-se, portanto, que acima de quaisquer 
outros motivos, a administração pombalina se tenha inclinado por 
um método de gramática que, longe de afastar os estudantes do 
interesse pelos cargos civis, se prestava para trazer maior emulação 
aos trabalhos escolares e incentivar as vocações para os estudos 
superiores. Que estes cuidados se manifestem com tanta força quan­
to as preocupações de uma renovação profunda dos estudos da 
latinidade é coisa altamente significativa, pois este fato traduz, em 
substância, o objetivo conscientemente elaborado de aparelhar a 
inteligência dos estudantes para enfrentar, com seguro critério, os 
problemas jurídicos e teológicos que porventura tivessem de resol­
ver. É este, a nosso ver, o significado da reforma consubstanciada 
no Alvará de 28 de junho de 1759.
IV
O curso de latinidade completava-se com o estudo do grego e 
hebraico, este último, por ser destinado aos futuros estudantes de 
teologia, entregue àsescolas religiosas. O ensino do grego, todavia, 
necessitava de restauração, desde que constituía matéria indispen­
sável aos estudos não só do teólogo, mas também do advogado, do 
artista e do médico. “O testamento novo, dizem as Instruções para 
os Professores de Grego e Hebraico, e muita parte do velho é quase 
todo em grego. Os Santos Padres, e os concílios dos primeiros dez 
séculos são em grego. Na Grécia tiveram origem as Leis Romanas; 
e aí se fizeram muitas Constituições, que andam no Corpo do Direito 
Civil; em grego escreveram Hipócrates e Galeno. A filosofia, a elo­
qüência, a poesia e a história, nasceram na Grécia” 16. Atendendo 
à importância deste estudo, já previa o Alvará de 28 de junho que, 
depois de passado ano e meio do estabelecimento das aulas de 
grego, os alunos que as freqüentavam, além de ter um ano levado 
em conta na Universidade, seriam preferidos em todos os concursos 
das quatro Faculdades da Universidade de Coimbra.
No estudo do grego deveriam os professores ensinar aos alunos 
a ler primeiro, distinguindo as figuras das letras como das sílabas e
46. Instruções- para os Professores de Grego e Hebraico, § 1.
86
Rubens
Realce
abreviaturas. Só depois desta iniciação passariam à gramática e, logo 
a seguir, à construção. Nessa altura, os alunos utilizariam ou o 
Evangelho de São Lucas, ou os Atos dos Apóstolos ou alguns dos 
passos previamente escolhidos de Heródoto, de Xenofonte, de Lu- 
ciano e de Teofrasto, tudo conforme ao que se acha “bem ordenado 
na Coleção de Patuza, feita para uso da Academia Real de 
Nápoles”47. Recomendam ainda as Instruções que se evitem os livros 
bilíngües, a fim de que os alunos não traduzam o texto grego pelo 
latino.
Como livro, recomendam as Instruções o Epítome do Método 
de Port-Royal, traduzido em português, “onde tem as regras mais 
breves, mais claras e mais sólidas, que em outro qualquer”48. Os 
alunos utilizarão o Dicionário Manual de Screvélio e os professores 
usarão dos dicionários “mais copiosos” de Escápula, Carlos Estevão, 
Ubbo Ênio e João Mcúrcio, além do Método Grande de Port- 
Royal e das melhores edições de Demóstenes, Xenofonte e Tucí- 
dides. Os alunos farão traduções do grego para o latim e português, 
mas não abusarão do exercício de composição. Aos mais adianta­
dos será permitida a leitura de Homero, por ser, segundo Fenelon, 
“o melhor modelo de grande Poeta, útil ainda para a oratória e 
para a fácil inteligência dos Escritores Sagrados” 49.
Completados estes estudos, passarão os alunos às classes de 
retórica. Na reforma dos estudos menores, o curso de eloqüência 
ganhou uma amplitude que não conhecera nas escolas até então 
existentes. São muito significativas as críticas que Verney, na Quin­
ta e Sexta Cartas do Verdadeiro Método de Estudar, faz à oratória 
portuguesa, particularmente do púlpito. Demora-se ele na análise 
do mau gosto que imperava na elaboração dos sermões e panegí­
ricos, em todas as suas modalidades. O cuidado de Verney se mani­
festava principalmente na crítica aos ornamentos do estilo, aos tro­
pos c figuras de que tanto abusavam os oradores portugueses. “Os 
rapazes que estudam nestes países, diz Verney, não sabem nada 
de retórica, porque lha não ensinam. Os que são adiantados, e 
continuaram os estudos, sabem ainda menos, porque beberam prin­
cípios tão contrários à boa razão, que ficam impossibilitados para
47. Idem, § 4,
48. Idem , ibidem.
49. Idem, § 8.
se emendarem.. . Falo somente do comum e falo fundado nas suas 
obras, nas quais se reconhece a verdade de quanto digo. Estão todos 
persuadidos que a eloqüência consiste na afetação e singularidade; 
e, por esta regra, querendo ser eloqüentes, procuram de ser mui 
afetados nas palavras, mui singulares nas idéias, e mui fora de pro­
pósito nas aplicações”®0.
Ê esta lição de bom gosto que as Instruções para os professo­
res de retórica procuram inculcar, restabelecendo contra o artificia- 
lismo gongórico da eloqüência a ordem de um discurso singelamente 
ornamentado. Ê preciso restabelecer esta arte, dizem as Instruções, 
“que o mau método dos estudos das letras humanas tinha reduzido 
nestes reinos à inteligência material dos tropos e figuras, que são ou 
a sua mínima parte, ou a que merece pouca consideração”81.
O que, todavia, melhor caracteriza o objetivo deste estudo é, 
sem dúvida, o conceito amplo que da eloqüência fizeram os legis­
ladores. Já Verney, apoiado em Bernardo Lamy, se insurgira contra 
o restrito conceito da eloqüência como arte exclusiva do púlpito e 
das cátedras. A sua idéia de retórica corresponde adequadamente 
à necessidade de uma utilização mais generalizada da eloqüência 
não só na vida pública e eclesiástica, mas também nas múltiplas 
relações que os homens entre si mantêm no trato quotidiano. “Con­
fesso, diz Verney, que nos púlpitos e cadeiras faz a retórica gala 
de todos os seus ornamentos; mas não se limita neles; todo o lugai 
é teatro para a retórica” 52. Doutrina esta, aliás, que não é estra­
nha ao pensamento do mestre da eloqüência, Quintiliano. Nas 
Instituições Oratóricas, Liv. I, § 15, discute o retórico latino as 
definições que da matéria deram os mestres grègos e romanos e ter­
mina por admitir, contra a acepção restrita desses autores, o conceito 
mais amplo da eloqüência, em função dos fins a que ela se destina:
50. Verney, Verdadeiro Método de Estudar, Quinta Carta, ed. 1747, pág. 
104; ed. A . Salgado Jr., vol. II, pág. 9.
51. Instruções para os Professores de Retórica, § 1.
52. Verney, ob. cit,, Quinta Carta, ed. de 1747, pág. 102; ed. A. Salga­
do Jr., vol. II, pág. 5. Confrontar o texto de Verney com o passo de La Rhé- 
thorique ou UArt de Parler do Pe. Bernardo Lamy, transcrito em nota por A. 
Salgado Jr. Ver Verney, ob, cit., vol. II, pág. 5. Nota: “Rien de si important 
que de savoir persuader. C ’est de quoi íl s’agit dans le commerce du monde. 
Aussi rien de plus utíle que la Rhétonque, ct c’est lui donner des bomes trop 
étroites que de la renfermer dans le Barreau e dans les Chaires de nos Églises”.
88
Rubens
Nota
O verdadeiro mentor da reforma do ensino
Rubens
Realce
“nam si est ipsa bene dicendi scientia, finis ejus et summum est 
bene dicere” BS.
Fd esta doutrina que prevaleceu nas Instruções para os Profes­
sores de Retórica: “É pois a retórica a arte mais necessária ao co­
mércio dos homens, e não só no púlpito e na advocacia como vul­
garmente se imagina. Nos discursos familiares; nos negócios públi­
cos, nas disputas; em toda ocasião em que se trata com os homens, 
é preciso conciliar-lhes a vontade; e fazer não só que entendam o 
que se lhes diz; mas que se persuadam do que se lhes diz e o apro­
vem” M. Transparecem aqui aquelas preocupações de pôr os estu­
dos a serviço das utilidades, afastando os prejuízos de uma concep­
ção destinada a formar nos letrados o gosto formalístico pelas coisas 
da vida pública e literária.
A retórica deve ser ensinada, determinam as Instruções, pelos 
preceitos das Instituições de Quintiliano, adaptadas por Lamy ao 
uso das escolas. Ao lado deste livro “admirável”, recomendam-se 
ainda a Retórica de Aristóteles, as obras retóricas de Cícero, o Tra­
tado do Sublime de Longino e os livros dos modernos — Vóssio, 
Rollin, Frei Luiz de Granada e outros autores de merecimentoBB. 
Depois de explicar os preceitos com clareza e brevidade, passarão 
os professores à análise das obras dos autores clássicos, servindo-se, 
nesse sentido, de orações escolhidas de Cícero e de Tito Lívio, de 
tal modo que os alunos se informem e distingam os três gêneros 
de eloqüência. Explicará ainda o professor os diversos estilos das 
cartas, dos diálogos, da história, das obras didáticas, panegíricos, 
declamações etc., utilizando, neste sentido, “o excelente livro de 
Heinétio intitulado Fundamenta Styli Cultiores” s®.
53. Quintiliano, De Imtitutlotie Oratória, L.II, caput XV, § 38, in fine. 
Cf. ed. de Henri Bornecque, Garnier, t. I, pág. 256.
54. Instruções, § 1.
55. Idem, § 4. Quintiliano, especialmente, é o autor cujos méritos s3o 
encarecidos pelas Instruções. No Compêndio Histórico, Parte 11, Cap. II, 34, 
pág. 157, escreveram os membros da Junta de Providência Literária■. “Proce­
dendo por outra parte da má retórica, que se ensinava nas classes das escolas 
menores jesufticas, onde se não davam os importantes preceitos desta Arte 
pelos livros de Quintiliano; mas sim pelos de Soares, de Pomey, e de outros 
retóricos modernos da prejudicial sociedade dos mesmos denominados jesuítas, 
os quais por nenhum princípio podiam emparelhar com aqueles, deixando-se a 
cristalina fonte das obras daquele mestre comum da eloqüência para se lhes 
darem a beber as regras dela em regatos já iurbos, e inficionados, de que eles 
não poderiam receber igual fruto”.
56. Idem, § 6.
89
Rubens
Realce
A crítica e a filologia devera inspirar ao professor grandes cui­
dados. As preocupações por uma reforma dos fundamentos do es­
tudo da latinidade, tão significativas nas obras de Verney e de 
Antonio Pereira de Figueiredo, encontram aqui cautelas pedagógicas 
destinadas a amainar o possível entusiasmo que a crítica e a filologia 
poderiam suscitar no espírito dos estudantes. Estas duas disciplinas 
devem constituir “um estudo, que o professor há de trazer sempre 
diante dos olhos. Mas na crítica se deve haver de sorte que, ins­
pirando somente um justo discernimento em os discípulos, lhes acau- 
tele todo o espírito de contradição, e maledicência” 67. As compo­
sições devem versar sobre narrações sucintas, em português e latim, 
sobre elogios das grandes figuras e sobre discursos no gênero de­
liberativo e judicial, no que os alunos utilizarão os bons autores e, 
particularmente, Cícero. Cuidará ainda o professor de fazer ver aos 
alunos os seus erros, por intermédio do confronto destas composi­
ções com o modelo utilizado. Nas disputas, zelará o professor pela 
civilidade que entre si devem guardar os disputantes. Finalmente, 
deve o professor dar aos alunos “as melhores regras da poesia que 
tanta união tem com a eloqüência, mostrando os exemplos dela em 
Homero, Virgílio, Horácio e outros: sem contudo obrigar a fazer 
versos, senão àqueles em que conhecer gosto e gênio para os fazer” 5S.
V
A reforma pombalina dos estudos menores, no seu significado 
social e político, encontrou em Antonio Nunes Ribeiro Sanches 
não só o oráculo de suas intenções, como pretendeu Camilo59, mas 
também o intérprete, talvez inconveniente, do plano de secularização 
das escolas, então decretado. Quando Ribeiro Sanches entregou, em 
Paris, ao Monsenhor Pedro da Costa de Almeida e S a l e ma a sua 
opinião pessoa] sobre o Alvará de 28 de junho de 1759, sabia pro­
57. Idem, § 8.
58. Idem, § 11.
59. Camilo Castelo Branco, Perfil do Marquês de Pomba!, 2.a ed., Porto, 
Lopes e Cia., 1900, no Cap. "Oráculo do Marquês de Pombal”, págs. 89 a 108 
especialmente págs. 104 e segs. Cf. também em Noites de Insônia, o artigo 
intitulado “Oráculo do Marquês de Pombal”.
60. Teófilo Braga, na História da Universidade de Coimbra, t. III, afirma 
que as cartas de Ribeiro Sanches foram enviadas para o Principal D. Tomás 
de Almeida, diretor geral dos estudos; ef. Teófilo Braga, ob. cit., pág. 343.
90
vavelmente que as conseqüências a que chegara não poderiam ser 
as mesmas dos homens que, no governo português, há quase um 
decênio, iniciaram a política de recuperação econômico-cultural des­
tinada a restituir à gente lusitana e grandeza pretérita. Na menta­
lidade de Ribeiro Sanches, à situação de judeu cristianizado se so­
mava a experiência lúcida de um “estrangeirado” que soubera colher 
nos livros e no convívio com povos diferentes e homens ilustres a 
lição que julgara mais útil aos portugueses. Dificilmente podería­
mos compreender que «ma obra de tamanho alcance filosófico-polí- 
tico como as Cartas sobre a Educação da Mocidade, da qual se tirou 
apenas reduzidíssima edição de 50 exemplares, toda ela posta nas 
mãos do embaixador português em Paris, pudesse encontrar eco num 
país cuja consciência não se libertara ainda, como não se libertou 
durante o período da administração pombalina, da censura dos tri­
bunais sempre prontos a advertir nos escritos os primeiros sinais de 
uma “transigência” que ferisse, ainda que inadvertidamente, os inte­
resses da fé ou do absolutismo. Embora não se conheçam documen­
tos que nos autorizem a admitir qualquer afinidade entre o pensa­
mento político iluminista das cartas de Ribeiro Sanches e a orienta­
ção doutrinária do pombalismo, ainda que seja nos anos mais dra­
máticos da disputa com os jesuítas, o certo é que estas cartas não 
deixaram de ter repercussão, pois a criação do Colégio dos Nobres, 
por elas preconizada, logo encontrou o firme apoio do gabinete de 
D. José L
Ninguém melhor do que Ribeiro Sanches soube, no período 
pombalino, justificar os direitos majestáticos da realeza e os inte­
resses da ordem civil concebida, não sem alguma dose de utopia, 
como uma sociedade de homens na qual, invocando a divindade, 
soberano e súditos, num corpo civil e sagrado, fizessem um jura­
mento de fidelidade.
A propósito da extinção das aulas dos jesuítas e da criação das 
classes régias, estende-se Ribeiro Sanches numa série de considera­
ções destinadas a mostrar o significado da reforma instituída no 
Alvará de 28 de junho de 175981. Apoiado nas obras de Fleury, de
61. Maximiano Lemos, utilizando documentos por ele publicados na sua 
obra, Ribeiro Sanches-, Porto, Eduardo Tavares Martins, 1911, indica como 
destinatário das Cartas sobre a Educação da Mocidade, na notícia bibliográ­
fica que acompanha a edição de 1922, a Monsenhor Pedro da Costa de 
Almeida e Salema. Cf. Does. ns. 23 e 24, às págs. 345 e 346 da obra de
91
Rubens
Realce
Rubens
Nota
A essa época já circulavam pensamentos liberais clássicos
Barõnio e de Joly, procurou o insigne médico justificar, contra as 
alegações de direito, pelas quais aos bispos, enquanto fiadores dos 
bons costtmes e mestres nos mistérios da religião, fora atribuída 
a incumbência de ministrar o ensino, que aos reis cabia “decretar leis 
para a educação dos seus leais súditos, não só nas escolas da puerí- 
cia; mas também em todas aquelas onde aprende a mocidade” 62. 
Esta faculdade pareceu a Ribeiro Sanches a expressão de um legí­
timo direito do govemo secular e a indagação das origens do poder 
que sobre as escolas tiveram os Pontífices e os bispos, matéria da 
maior importância. “Porque até agora não achei autor que tratasse 
dela como necessita o Jas da Majestade” Embora nos pará­
grafos iniciais de suas cartas invoque o autor, constantemente, a 
autoridade dos mestres da história eclesiástica e canônica, procuran­
do mostrar a cristianização progressiva das antigas escolas roma­
nas, agora, nesta altura de suas análises, como um iluminista, lança 
os fundamentos de uma ordem civil que não repousa sobre outros 
princípios que não os da razão. No estado civil, o seu principal fun­
damento é o consentimento dos povos em obedecer e servir ao sobe­
rano64. “Mas continua Ribeiro Sanches, o que constitui ser o 
Estado um ajuntamento ou corpo civil e sagrado é o juramento de 
fidelidade mútuo, tácita ou declaradamente. No ato desta conven­
ção invocam os contratantes deste pacto ou contrato, a Divindade 
que mais veneram por testemunha e caução, que hão de executar 
o que prometem; sujeitando-se ao prêmio ou castigo, conforme o 
cumprirem” 8K. Lembrando os antecedentes portugueses que leva­
ram à aclamação de D. Afonso Henriques, no campo de Ourique, e
Maximiano Lemos, e também a “Noiícia bibliográfica”, in Cartas sobre a 
Educação da Mocidade, nova ed. revista e prefaciada pelo Dr. Maxirrusno 
Lemos, Coimbra, Imp. da Universidade, 1922, págs. V a XV.62. Cartas sobre a Educação da Mocidade, ed. M. Lemos, pág. 37.
63. Idem, ibidem.
64. Idem, págs. 17/18.
65. Idem, pág. 18. Desie coniraio resultam os três princípios seguintes: 
“Daqui vem, infere Ribeiro Sanches, que todos os Eslados Soberanos estão 
formados por invocação daquela Divindade, que mais veneravam os Povos 
e os Soberanos (Concilio de Trento, Sess. XXV. de Reformai, Cap. II) .
Daqui vem chamar-se o Estado, Sacrossanto, c cousa sagrada
Daqui procede que nenhum Estado civil pode formar-se, nem existir 
em seu vigor, sem «roa Religião, e sem observar-se o sagrado juramento”. 
Cf. ob. e loc. cit.
92
Rubens
Realce
Rubens
Nota
O direito de soberania é divino, o povo aceita o poder do rei
do mestre de Aviz, cm Coimbra, insinua, não sem cautela60, o 
médico ilustre que as duas leis mais irrefragáveis de qualquer Estado 
são: “Que a conservação do Estado civil é a primeira e principal 
lei” e “Que cada súdito está obrigado a obrar com os outros, como 
ele quisera que obrassem com ele” 61. Desde que se fez este con­
sentimento mútuo, ou pacto, ficou “na mão do soberano aquele 
poder dos súditos para obrar ações exteriores; ficou à sua disposi­
ção regrá-las por leis, prevenir que se não cometesse insulto que 
alterasse ou corrompesse a união e harmonia que deve reinar no 
Estado civil; ficou no seu poder castigá-las como achasse convenien­
te para a sua conservação” °8. Nesta ordenação racional da otdem 
política, ao súdito se reservaram os direitos: 1) de propriedade, 
com obrigação de entregar ao Estado parte de suas rendas; 2) da 
“liberdade interior de querer, não querer, amar, aborrecer, julgar ou 
não julgar, ver, ou não ver: que são as ações interiores que passam 
dentro de nós, e que se não mostram por ações exteriores, que todo 
o mundo possa observai visivelmente” 09. Dos princípios de um 
estado político assim constituído decorrem a igualdade de todos os 
súditos e a subordinação por eles devida aos magistrados70. Citan­
do Platão, assinala a propósito Ribeiro Sanches que “a maior ruína 
de um Estado é que entre eles (os súditos) haja diversidade, uns 
com obrigação de obedecer, e outros absolutos; uns sujeitos às jus­
tiças, e outros sem nenhum Império” n . Como são complexos e 
múltiplos os encargos que pelo jus da majestade têm os soberanos, 
impõe-se uma divisão do trabalho, na qual este jus, sem perda de sua 
legitimidade, é delegado aos que, no exercício de funções determi­
nadas, cumprem, numa esfera mais restrita, os deveres de que foram 
incumbidos T2. Somente o imperativo do direito majestático justifica 
a distinção da nobreza e da fidalguia, porque, independentemente da 
ascendência e da geração, “todos os súditos pelo juramento de fide­
lidade são iguais” 78.
66. “Não se ofenderá, V. Ilustríssima, deste atributo, que dou aos Mo­
narcas cristãos católicos”, diz cautelosamente Kibeiro Sanches ao Monsenhor 
Salema; cf. ob. cit., pág. 20.
67. Idem, ibidem.
68. Idem, pág. 23.
69. Idem, ibidem,
70. Idem, págs. 21/22.
71. Idem, pág. 22.
72. Idem, ibidem.
73. Idem, ibidem.
93
Rubens
Realce
É dentro desta ordem, e em nome dela, que Ribeiro Sanches 
vê, no Alvará de 28 de junho de 1759, o primeiro esforço no sen­
tido da secularização das escolas portuguesas. Pareceu4he que 
somente um ensino, dirigido e mantido pelo poder secular, poderia 
corresponder cabalmente aos fins da ordem civil. Nos parágrafos 
iniciais de suas cartas, procura o autor demonstrar “que toda a edu­
cação que teve a mocidade portuguesa, desde que no reino se fun­
daram escolas e universidades, foi meramente eclesiástica, ou con­
forme os ditames dos eclesiástico; e que todo o seu fim foi, ou 
para conservar o estado eclesiástico, ou para aumentá-lo” ”4. Com­
preendendo bem o significado das novas tarefas que a vida social 
e política da época impunha como imperativo da conservação e do 
progresso da ordem civil, procura Ribeiro Sanches, em diversos passos 
da sua obra, demonstrar os inconvenientes advindos do fato de esta­
rem as escolas sob a tutela do poder religioso ou de serem reguladas 
pelos princípios que mais condiziam com os interesses da Religião 
do que com os do Estado. Nada ilustra melhor esta afirmação do 
que a situação de um estudante que ingressa na Universidade para 
estudar leis. Depois de quatro anos de estudo, examinando as opor­
tunidades de vida que, terminado o curso, encontrará, percebe logo 
que mais útil lhe será diplomar-se no curso de cânones, pois as 
suas conclusões neste Lhe darão direito aos cargos de magistrado, aos 
benefícios das ordens militares e dos cabidos, mediante concurso, aos 
lugares de pregador, vigário geral, provisor, promotor de algum bis­
pado e, finalmente, de advogado76. Isto significa, para Ribeiro 
Sanches, que a “Universidade é Eclesiástica; aumentar o número dos 
canonistas é servi4a, e aumentá-la. O Estado serve-se deles porque 
todas as suas leis estão restritas pelas Leis do Decreto, das Decre­
tais, e mesmo das Clementinas” 76. Todavia, o que caracteriza ainda 
mais o predomínio dos interesses religiosos sobre os civis, são as 
inquirições de limpeza de sangue a que estavam sujeitos todos os 
graduados na Universidade que pretendessem alcançar um cargo 
público77.
Não é apenas o ensino maior, na opinião do discípulo de Boer- 
haave, que está a serviço dos interesses e dos fins da monarquia 
religiosa. No entender de Ribeiro Sanches a força dos privilégios
74. Idem, pág. 2.
75. Idem, pág. 66.
76. tdem, ibidem.
77. Idem, págs. 139/40.
94
concedidos à nobreza e ao clero serviam unicamente para afastar o 
vilão dos seus trabalhos, pois pelo estudo poderiam seus filhos, sem 
despesas, alcançar no estado eclesiástico honradas e posições que o 
amanho da terra ou o ingrato exercício dos ofícios mecânicos nunca 
permitiriam obter78. As vantagens que a vida monástica conce­
dia eram tão grandes que a própria nação, governada por leis no­
civas aos seus interesses78, sentia depauperarem-se~lhe as energias, 
vendo os seus filhos procurarem, no refúgio dos claustros, a vida 
que sem as inquietações do século lhes traria o sustento e, talvez, 
as regalias dos cargos públicos mais elevados. Coerente com a 
ideologia burguesa, de que foi, na época, na língua lusitana, um dos 
mais expressivos intérpretes, e com a lembrança das perseguições 
e humilhações sofridas pelos cristãos novos, Ribeiro Sanches ordena 
razões e invoca autoridades para demonstrar os princípios que de­
veriam prevalecer na racional reforma de uma ordem civil desti­
nada a reforçar o direito majestático e, conseqüentemente, a disci­
plinar as aspirações seculares da sociedade, de tal modo que o es­
tudo correspondesse decidameníe aos fins do trabalho, do comércio 
e da indústria.
No pensamento político de Ribeiro Sanches a monarquia por­
tuguesa fora até então “fundada e conservada com a espadá’m. 
Este regime, a seu ver, correspondeu às necessidades do período das 
conquistas, das lutas que se fizeram necessárias à instituição e con­
solidação do reino, mas não poderia satisfazer mais às condições 
decorrentes do imperativo de conservação das colônias e do pro­
gresso econômico da monarquia. No lugar da monarquia da espada 
era preciso pôr o Estado do trabalho e da indústria: “o Estado que 
tem terras e largos domínios, diz na sua obra Ribeiro Sanches, e 
que deles há de tirar a sua conservação, necessita decretar leis para 
promover o trabalho e a indústria, e derrogar ou ab-rogar aquelas
78. “Em Portugal, diz Ribeiro Sanches, todo o que não nasceu nobre, ou 
não é eclesiástico, deseja a vir a ser membro desses dois corpos respeitáveis, 
adonde a conveniência, a honra, a distinção e o proveito têm ali o seu assento: 
o lavrador, o obreiro, o oficial trabalham dia e noite para fazerem am clérigo, 
um abade, e um cavalheiro do hábito de Cristo; «ma viúva e trés ou quatro 
filhas estão fiandodia e noite para meterem um filho frade, pela honra que 
dará â família, e porque vindo a ser pregador o« provincial a estabelecerá 
toda com honra e cabedais.” Cf. ob. cit., págs. 85/6.
79. Ver, nesse sentido, Ribeiro Sanches, ob. cit., págs. 83 e segs.
80. Idem, pág. 80.
95
Rubens
Realce
Rubens
Realce
Rubens
Nota
Este é um argumento que Hespanha irá utilizar em seu texto
I
que se estabeleceram no tempo que adquiriam com a espada”81. 
É mister, portanto, criar a educação de que necessita o novo Estado.
“Nenhuma coisa, observa Ribeiro Sanches, faz os homens mais 
humanos e mais dóceis do que o interesse: o comércio traz consigo 
a justiça, a ordem e a liberdade: e estes eram os meios e o são ainda 
de conservar as conquistas que temos. Agricultura e comércio são 
as mais indissolúveis forças para sustentar e conservar o conquis­
tado: mas esta vida de lavradores, de oficiais, de mercadores, de 
marinheiros e soldados não se conserva com privilégios dos fidal­
gos, com imunidades e jurisdição civil dos eclesiásticos, com a es­
cravidão e a intolerância civil” ®2. Conseqüente com esta concep­
ção, desenvolve o autor do Método para Estudar a Medicina um 
sistema no qual se fazem sentir, como preocupação predominante, 
os cuidados de uma reforma orientada no sentido de reajustar a 
escola às condições novas da vida social e política. As diretrizes 
que recomenda — o ensino de um catecismo cívico, das quatro ope­
rações e das sumárias regras para escrituração das contas, tudo isto 
nas escolas de ler e escrever, assim como a redução do número de 
classes de latim e humanidades, a criação de um colégio para a 
nobreza e a reforma da Universidade, que é sugerida nestas pági­
nas — demonstram, de maneira inequívoca, os fins xegalistas por 
que disfarçava sua concepção iluminista e burguesa do Estado e da 
educação. Ao Estado, que tem no comércio e na indústria o fun­
damento de sua conservação e progresso, deve corresponder necessa­
riamente um plano de educação, por intermédio do qual serão for­
mados os homens capazes de conduzir as forças do trabalho para os 
objetivos que melhor satisfaçam o interesse do país. Não se conser­
va o Estado, diz Ribeiro Sanches, “com a educação de saber ler e 
escrever, as quatro regras da aritmética, latim e a língua pátria, e 
por toda a ciência do catecismo da doutrina cristã; não se conserva 
como (sic) ócio, dissolução, montar a cavalo, jogar a espada preta, 
e ir à caça; é necessária já outra educação, porque já o Estado tem 
maior necessidade dc súditos instruídos em outros conhecimentos: 
já não necessita em todos eles aquele ânimo altivo, guerreiro, aspi­
rando sempre a ser nobre e distinguido, até ser cavaleiro ou ecle­
siástico” **.
81. Idem, pág, 86.
82. Idem, pág. 100.
83. Idem, págs. 100/1.
96
As Cartas sobre a Educação da Mocidade, pelo arrojo da sua 
concepção, representam, sem dúvida, um elemento fundamental à 
compreensão do pombalismo. A doutrina política nelas desenvolvida 
traduz, em muitos dos seus passos, opiniões que coincidem cora as 
dos homens que, na época, zelavam pelo destino da nação lusitana. 
O fortalecimento do poder real, o galicanismo doutrinário, a recupe­
ração econômica do reino, o antijesuitismo, são temas que se encon­
tram com razões políticas na essência das ações do gabinete de D. 
José I. Todavia, em muitos aspectos, Ribeiro Sanches, como um 
autêntico estrangeirado, foi além do que pretenderam os teóricos 
do pombalismo. Suas críticas à intolerância religiosa e suas idéias 
a respeito de religião estão muito mais próximas da concepção teo­
lógica dos iluministas do que do teologismo regalista de Antonio 
Pereira de Figueiredo. Não se poderá, entretanto, apreciar devida­
mente o significado do pombalismo sem ter presentes as sugestões 
inúmeras que Pombal e seus homens encontraram neste livro e trans­
formaram em normas de ação. Se Pombal foi, como pretende Anto­
nio Sérgio, o homem de ação da elite estrangeira81, Ribeiro Sanches 
foi taívez quem melhor, no aspecto político, indicou as diretrizes da 
ideologia iluminista que a situação portuguesa reclamava.
O programa pedagógico de Verney e o Novo Métoâo de Gra­
mática Latina dos padres do Oratório forneceram as bases sobre as 
quais se fez a Reforma dos estudos de 1759. A simplificação dos 
estudos do latim, a renovação do ensino da latinidade e da retórica, 
em que pesem os méritos dos esforços precursores de Verney e dos 
oratorianos, não se integrariam adequadamente na paisagem cultural 
lusitana se lhes faltassem as oportunas sugestões de Antonio Ribeiro 
Sanches. O objetivo do insigne médico não era indicar as melhores 
instruções para o estudo das línguas latina e grega e das humani­
dades mas “somente de mostrar qual deve ser o fim dessas escolas; 
como devem ser dirigidas para serem de utilidade ao Estado” 85. E 
seus conselhos, como veremos, não deixaram de ser ouvidos. Muitos 
deles constituem, sem dúvida, elementos preciosos para a compreen­
são adequada das medidas postas em execução pelo diretor geral dos 
estudos, D. Tomaz de Almeida.
84. Antonio Sérgio, História de Portugal, trad. de Juan Moneva y Puyol, 
Barcelona-Buenos Aires, Labor, 1929, pág. 156.
85. Cartas para a Educação da Mocidade, pág. 124.
97
Capítulo IV
As Diretrizes da Reforma 
Universitária de 1772
l ~ Os antecedentes da Reforma. A experiência do Colégios dos Nobres. 
O ensino da "filosofia” experimental. A organização do curso. A Real 
Mesa Censóna e a censura dos livros. A criação da Junta de Providência 
Literária. O plano da reforma. A instalação dos novos cursos. O Mar­
quês de Pombal em Coimbra I I — Os Estatutos de 1772. A organiza­
ção dos estudos. Faculdade de Teologia, Leis e Cânones, Medicina, Ma­
temática e Filosofia, I I I — As diretrizes da Reforma. Experiência e 
filosofia. O ecletismo. A renovação dos estudos jurídicos. O Direito 
Natural. O papel da história. Método analítico e método sintético. A 
Teologia Escotástica e a História. O Regalismo. O sentido iluminista 
da Reforma.
I
A Reforma da Universidade de Coimbra, em 1772, constituiu 
o coroamento das medidas pedagógicas ensaiadas pelo gabinete de 
D. José I desde as primeiras providências escolares decorrentes da 
secularização das missões do Grão-Pará1. Da criação da aula de 
comércio e dos cursos militares, entre os quais o Colégio dos Nobres,
1. O Alvará de 17 de agosto de 1758 estabelecia em cada povoação dos 
índios do Maranhão e do Pará duas cadeiras de primeiras letras, uma para 
meninose outra para meninas Esta providência estava relacionada com a 
criação dos diretórios, que deveriam substituir a administração eclesiástica, 
até então existente pela administração civil nos aldeamentos indígenas. Cf. 
José Silvestre Ribeiro, ob. cit., t. I, pág. 203.
141
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Nota
O capítulo III não faz parte do conteúdo da prova
Rubens
Realce
Rubens
Nota
Estados do Pará e Maranhão atualmente
à reforma dos estudos menores e desta à reorganização geral da 
Universidade de Coimbra, é todo um programa educacional, mar­
cado por ideais característicos, que progressivamente se realiza. Os 
estudos universitários, depois da incontestável grandeza das épocas 
passadas, caíram num total abatimento. A descrição de Ribeiro San­
ches, continuamente repetida pelos historiadores, sobre o estado da 
Universidade nos primeiros decênios do século XVIII, ilustra muito 
bem a triste situação em que se encontrava uma instituição, outrora 
tão florescente. Aluno do Colégio das Artes de Coimbra, de 1716 
a 1719, onde freqüentara as aulas do Pe. jesuíta Manoel Batista e 
fizera, durante dois anos, estudos de direito civil2, Ribeiro Sanches 
poderia, com autoridade, descrever a vida dos estudantes com uma 
riqueza de pormenores que, ainda hoje, constitui a delícia dos aman­
tes de singularidades. No Método para estudar a Medicina, emmais 
de um passo, refere-se Ribeiro Sanches aos hábitos e práticas abusi­
vas dos estudantes da tradicional Universidade. “O curso acadêmico 
de Coimbra” — diz Ribeiro Sanches — “começando pelo São Lucas 
e acabando a quinze de maio, não contém mais do que cento e nove 
dias letivos; e por causa dos dias de festa da Igreja, dos préstitos, 
e outras funções acadêmicas, que todo o curso letivo se reduz a 
quase noventa dias letivos, ou três meses” 3. Isto sem falar nos es­
tudantes “que voltam para suas casas tanto que se matricularam 
na Universidade três vezes por ano, o curso acadêmico para estes 
não foi de vinte dias letivos” .. A A este relaxamento da disciplina 
escolar não faltavam, algumas vezes, os abusos, em que terminavam 
os oiteiros, e a turbulência dos ranchos, a se desmandarem em 
tropelias até mesmo sanguináriasR. A estes males se somam, na
2. Ver Maximiano Lemos, Ribeiro Sanches a sua Vida e a sua Obra, 
Porto, Eduardo Tavares Martins, 1911, págs. 12 a 16!; sobre os estudos de 
direito civil: cf. Carta a Sampaio Valadares, datada de São Petersburgo, a 
15 de julho de 1735 — “eu também estudei dois anos de direito civil e 
comecei a ver em casa de letrados alguns arrazoados do que nunca disse coisa 
alguma a V. M. . . . ” etc., apud Maximiano Lemos, ob. cit., pág. 14.
3. Método para Aprender e Estudar a Medicina, Ilustrado com os Apon­
tamentos Para Estabelecer-se uma Universidade Real na qual Deviam Apren­
desse as Ciências Humanas de que Necessita o Estado Civil e Político, 1763, 
pág. 160.
4. Idem, ibidem.
5. De triste memória foi, nesse sentido, o “Rancho da Carqueja”, que 
terminou com a condenação à morte do estudante Francisco Jorge Ayres, 
em 20 de junho de 1722, que foi degolado e sua cabeça enviada para Coimbra, 
“foi espetada em um pinheiro, no 1 de julho imediato, na Praça de São
142
vida universitária, os prejuízos decorrentes de um ensino que se 
destinava muito mais a habituar os espíritos às disputas dialéticas 
sobre os problemas teológicos e da jurisprudência civil e canônica 
do que a criar o gosto pelos fatos precisos e pelas demonstrações 
rigorosas. O eco das conquistas experimentais e da nova filosofia 
não conseguira repercutir no ensino acadêmico de tal forma que a 
concepção moderna das ciências positivas pudesse abalar os próprios 
fundamentos do sistema pedagógico vigente. Ao contrário disto, o 
regime das disputas, e oposições propiciava o interesse pelos assuntos 
de alcance provável, com o sacrifício das questões, jurídicas e teoló­
gicas, solidamente estabelecidas. O resultado desta situação con­
duzia os estudantes a preferirem as vantagens, que os artifícios da 
casuística proporcionavam, ao interesse pelas questões que não com­
portavam disputas. AJiás, o regime das oposições acadêmicas, numa 
Universidade ortodoxamente zelosa dos ideais da fé católica, facili­
tava a inclinação dos estudantes pelo formalismo verbal e casuístico, 
porque este se mostrava mais útil aos que ambicionavam os graus 
acadêmicos. Fato perfeitamente compreensível, pois numa Univer­
sidade como a de Coimbra não seria possível imaginar disputas aca­
dêmicas em tomo de questões sobre as quais a Igreja e a Monarquia 
haviam estabelecido a doutrina inconcussa.
O Colégio dos Nobres foi a primeira experiência do estabele­
cimento das novas disciplinas científicas em Portugal. As necessida­
des do tempo exigiam a fundação de uma escola na qual a nobreza 
pudesse receber a educação condizente com o seu estado e com os 
interesses políticos, econômicos e militares do reinado. O Colégio 
dos Nobres foi, desta forma, uma escola destinada a substituir o 
Colégio das Artes de Coimbra. Se na época de D. João III bastava, 
para a formação da nobreza, a existência de um estabelecimento 
organizado nos moldes do programa humanista, no século XVTII, 
com o progresso das ciências, e com o próprio desenvolvimento 
social e político, fazia-se necessária a criação de uma escola que
Bartolomen”. Este Rancho assaltava e espancava as famílias levando o desas- 
sossego a todos os lugares. Com o estudante Francisco Jorge Ayres foram 
presos dezesseis estudantes e um criado de servir. Sobre o “Rancho de Car­
queja” ver “Sentença de morte contra o estudante Francisco Jorge Ayres, 
natural de Faiões termo da Vila de Feira, por ser um dos principais delin­
qüentes, que se levantou na Universidade de Coimbra nos anos de 1720 e 
1721”, in O Conimbricense, ns. 2.234 e 2.235, de 22 e 26 de dezembro de 
1868.
143
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inscrevesse, entre os seus propósitos mais altos, a formação do nobre 
que, tanto nos tempos de paz como nos de guerra, deveria desem­
penhar a função que por direito lhe cabia. Ribeiro Sanches, nas 
Cartas sobre a Educação da Mocidade, recomendara a organização 
de uma escola na qual a educação da nobreza e da fidalguia estivesse 
proporcionada “à necessidade e ao estado atual de sua pátria... 
Antes que se usasse da pólvora, e que se fortificassem as Praças 
pelas leis da geometria e trigonometria, não necessitava o general 
do exército do exercício das matemáticas, e de algumas partes da 
física: a força, o ânimo ousado e a valentia já não são bastantes 
para vencer, como quando fazíamos a guerra expulsando os mouros 
da pátria. A arte da guerra hoje é ciência fundada nos princípios 
que se aprendem e devem aprender, antes que se veja o inimigo: 
necessita de estudo, de aplicação, de atenção e reflexão; que o 
guerreiro tome a pena e saiba também calcular e escrever, como é 
obrigado a combater com a espada e o espontão: o verdadeiro guer­
reiro é hoje um misto de homem de letras e de soldado” ®. Nestas 
condições, a educação do nobre deveria ser feita por intermédio 
dos estudos indispensáveis à arte militar: matemática, física, astro­
nomia, nas suas múltiplas aplicações, além do conhecimento das 
letras clássicas, como o latim e o grego, da retórica, da história, 
da poesia e das línguas vivas. Somente desta forma poderia contar 
o Estado não apenas com a valentia, mas ainda com as letras de 
seus fidalgos.
A 7 de março de 1761, nas vésperas da invasão espanhola, foi 
criado o Colégio Real dos Nobres, talvez mais por força das cir­
cunstâncias do que pelas oportunas sugestões de Ribeiro Sanches. 
Pelos estatutos, eram admitidos na nova escola cem porcionistas, 
todos qualificados com foro de moço fidalgo, com sete anos de 
idade, no mínimo, e treze no máximo. No curso, estudariam as 
línguas latina e grega, retórica, poética, lógica e história, além do 
francês, inglês e italiano; aritmética, geometria, trigonometria, álge­
bra, geometria analítica, análise e cálculo integral; ótica, dióptrica, 
catóptrica, astronomia, geografia e náutica; arquitetura militar e 
civil, desenho e física. As disciplinas introduzidas no currículo, 
quando comparadas com as do Colégio das Artes de Coimbra, ilus­
tram muito bem o sentido dos propósitos reformistas do gabinete 
de D. José I. O ensino das línguas vivas e das ciências físico-mate-
6. Ribeiro Sanches, Cartas sobre a Educação da Mocidade, cit, pág. 175,
144
máticas correspondia à necessidade de uma formação despojada do 
formalismo da pedagogia escolástica, que procurasse traduzir os 
reclamos das novas condições históricas. Sintomática do estado an­
terior a essas reformas é a reinem oração de episódios recentemente 
revelados pelo historiador Jaime Cortesão. No prefácio aos do­
cumentos referentes à preparação do Tratado de Madrid7, recorda 
o eminente historiador Jaime Cortesão os episódios relacionados 
com a comunicação do geógrafo Guilherme Delisle, em 1720, à 
Academia Real das Ciências de Paris, sobre a Dêtermination Geo- 
graphique de la situation et de 1‘étendm des differentes parties de 
la Terre, na qual “o maior luminar na geografia e cartografia em 
França.. . negava que o cabo do Norte e a Colônia do Sacramento 
estivessem dentro dazona da soberania portuguesa, delimitada pelo 
Meridiano de Tordesilhas” 8. Informado, em março de 1721, por 
D. Luiz da Cunha, sobre as conseqüências políticas decorrentes da 
dissertação do geógrafo francês, em nome de D. João V solicitava-se 
a D. Lniz da Cunha que tudo fizesse no sentido de obter a retratação 
de Delisle ou, se isto não fosse possível, a não-publicação de seu 
trabalho ou ainda, em último caso, a não-impressão das passagens 
que diretamente feriam os interesses portugueses. A resposta de D. 
Luiz da Cunha, em carta de 10 de novembro de 1721, ilustra muito 
bem o sentido da atitude de um estrangeirado que aprendera, no 
convívio das Cortes estrangeiras, a apreciar o valor das investigações 
positivas: “Remeto a V. S. a cópia da dissertação que fez M.r Delisle, 
fundada em novas observações astronômicas que se tem feito; de 
maneira que, para o convencer, seria necessário terem-se feito algu­
mas observações mais modernas que as alegadas e, no caso contrá­
rio, não seria de parecer que se procurasse impugnar a opinião de 
um geógrafo, de que nem a Corte de Espanha nem esta se podem 
servir contra o que está estipulado nos Tratados. E, quando fosse 
possível fazê-lo, então seria preciso mostrar o contrário” Esta 
resposta, precisa nos seus termos, é um testemunho indireto da ciên­
cia verbalística que predominava na Corte portuguesa. Vislumbram- 
se nela os sinais expressivos de uma mentalidade afeita aos hábitos
7. Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid (1750), obra planejada 
e organizada pelo Prof. Jaime Cortesão, em nove tomos, dos quais a parte 
III, em dois tomos, se encontra publicada: Antecedentes do Tratado, Ministério 
das Relações Exteriores, Instituto Rio Branco, Rio de Janeiro, 1951.
S. Ob. cit., Antecedentes do Tratado, t. I, Prefácio, pág. 7,
9. Idem, pág, 8.
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I
das disputas e que imaginava serem possíveis contestações mera­
mente jurídicas, num terreno em que as aquisições positivas da 
ciência começavam a prevalecer.
O Colégio dos Nobres, no pensamento de Ribeiro Sanches, 
se integrava num plano de educação da mocidade portuguesa que 
correspondia aos múltiplos aspectos da orientação dos interesses 
especificamente diversos da sociedade lusitana. As escolas, na opi­
nião deste iluminista, deveriam satisfazer, em graus distintos e estru­
tura diversa, aos objetivos do estado civil que pretendesse, pela 
agricultura, pelo comércio, peía indústria e pelas letras, integrar, na 
órbita do progresso comum aos povos europeus, uma nação que 
vivera econômica e politicamente sob o império das tradições obso­
letas. Desta forma, a educação da nobreza constituía apenas um 
aspecto de um programa pedagógico destinado a resolver os proble­
mas específicos da situação histórica lusitana. As escolas de ler e 
escrever, as classes de latim e humanidades, o Colégio dos Nobres, 
a Universidade Real traduziam, na filosofia do estrangeirado Ribeiro 
Sanches, os múltiplos aspectos de um programa pedagógico o o quai 
os ideais da burguesia encontravam a sua adequada manifestação. 
O estudo das novas técnicas indispensáveis à arte guerreira e diplo­
mática, o conhecimento das línguas vivas representavam, sem dú­
vida, a concretização de um ideal do homem político que as con­
junturas históricas reclamavam.
O Colégio dos Nobres não teve um desenvolvimento à altura 
da inspiração que justificou o seu estabelecimento. Não é a ocasião 
de examinarem-se aqui as razões de suas vicissitudes. Ê provável, 
entretanto, que, num país até então impregnado pelo espírito da 
educação monástica, o novo empreendimento não encontrasse o 
ambiente benfazejo que lhe facilitasse uma vida inteiramente voltada 
para os fins dos interesses seculares da monarquia. Em 1772, dois 
alvarás régios, numa série de determinações altamente significativas, 
nos dão conta dos abusos introduzidos na disciplina do estabeleci­
mento. A resenha das medidas sugeridas nesses diplomas régios 
revelam, por si sós, o alcance dos vícios que a secularização do 
ensino, feita sem maiores cuidados, introduzira no regime secular 
do colégio: “A falsa persuasão, de que a fortuna de nobres os con­
duzia [refere-se aos proporeionistas] a uma como independência das 
virtudes, para se fazerem inflexíveis à sujeição dos ditames com que 
deviam dirigir a mesma fortuna para ser permanentes” conduziu à
146
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"indocilidade.. . com que se atreveram a resistir às advertências, 
aos castigos, e até ao respeito devido aos seus superiores” 10.
A administração civil das escolas, por razões de diversas natu­
rezas, havia de trazer, necessariamente, problemas que, do ponto 
de vista disciplinar, não podem ser subestimados. Os padres exer­
ciam sobre a mentalidade dos estudantes uma influência de ordem 
espiritual que o mero trabalho de instrução, no qual se empregavam 
os professores régios, não poderia substituir. A educação, com­
preendida nestes tempos como uma tarefa de formação sobretudo 
moral das gerações imaturas, encontrava no ensino eclesiástico o meio 
eficaz de corrigir o abuso das inclinações naturais, conduzindo-as 
para os elevados fins da cristandade. O sistema pedagógico que 
então prevalecia pressupunha a idéia segundo a qual o homem era 
naturalmente inclinado ao mal e que somente a educação poderia 
desviá-lo do caminho da ruína moral a que fatalmente conduziriam 
os seus instintos. Foram Locke e, sobretudo, Rousseau, em época 
posterior, que revelaram os direitos e a necessidade de uma educação 
que se compadecesse com a concepção do homem, despojada do 
pessimismo da escatologia cristã. À disciplina heterônoma da peda­
gogia e aos castigos dela decorrentes, a concepção naturalista dos 
problemas educacionais substituiu a ordem pedagógica em que os 
instintos e as vontades dos educandos, por força da própria natureza 
e da utilidade que as condições da vida reclamavam, procuraram o 
caminho que a razão livre lhes indicava. O Colégio dos Nobres 
constituiu, desta forma, nas condições do ensino português, uma 
tentativa de secularização das instituições educacionais, sem prece­
dentes na experiência pedagógica lusitana.
Compreende-se, portanto, que o ensino füosófico, atribuição 
quase exclusiva das escolas eclesiásticas, tenha sido assunto sobre 
o qual o governo se decidiu com grandes cautelas. Apesar de a 
filosofia experimental, nos anos anteriores à Reforma, ter sido ensi­
nada, com aceitação das pessoas notáveis, nas escolas religiosas, e. 
especialmente, nas aulas da Congregação de São Felipe Nery, so­
mente depois dos reclamos advindos da situação criada pela extinção 
das escolas jesuiticas, se decidiu o governo a estabelecer os cursos 
filosóficos, nas principais cidades do Reino, os quais o regime esco­
lar vigente exigia e justificava. O primeiro curso filosófico moderno,
10. Apud José Silvestre Ribeiro, História dos Estabelecimentos Científi­
cos. .., cit., t. I, pág. 289, 2.° Alvará de 13 de março de 1772, 2.a e 3.a.
147
criado no período da administração pombalina, funcionou no Colégio 
Real dos Nobres. Este curso foi, na opinião de Teófilo Braga, o 
primeiro esboço da Faculdade de Filosofia u .
Os estudos filosóficos, matéria indispensável a todos os que, 
completados os anos de latim e humanidades, se destinavam aos 
cursos universitários ou à carreira eclesiástica tinham, nesta altura, 
passado por transformações que, na sua configuração doutrinária, 
se distanciavam das elaborações sistemáticas do século anterior. A 
filosofia para os homens fiéis às diretrizes do pombalismo era uma 
questão sobre a qual se exercitavam, em elucubrações perigosas, os 
libertinos, os espíritos fortes, os deistas, os filósofos em suma. Habi­
tuados na tradição ortodoxa do ensino escolástico, mal podiam os 
homens ligados a Pombal vislumbrar o valor da dúvida que, na ago­
nia das contradições,encerrava o fecundo caminho das heterodoxias. 
Por este motivo, a filosofia pombalina foi “experimental” e poste­
riormente “eclética”. O seu critério foi o valor dos fatos e pensa­
mentos positivos. Experiência, ecletismo e positivismo constituem 
sempre formas de pensar cômodas e úteis a todas as situações polí­
ticas, quaisquer que sejam.
O exame das formas de pensamento constituiu um dos assun­
tos prediletos da administração pombalina. Na Dedução Crono­
lógica12, depois de recapitular, na primeira parte, os fatos referen­
tes à adoção do índice Romano, no qual se indicam os livros con­
denados pela Igreja18, adoção esta que foi “o último golpe mortal 
da literatura portuguesa” desferido pelos jesuítas, preconiza José 
de Seabra da Silva a volta ao regime anterior' a 1624, que o edital 
de D. Fernando Martins Mascarenhas havia suprimido. Segundo a
11. Teófilo Braga, História da Universidade de Coimbra, cit,, pág. 371.
12. Dedução Cronológica e Analítica, em duas partes, acompanhadas da 
Coleção das Provas que foram citadas nas Partes Primeira e Segunda, dada 
à luz pelo Doutor José de Seabra da Silva. Desembargador da Casa da Su- 
pli-cação e Procurador da Coroa de S. M., para servir de instrução e fazer parte 
do recurso, que o mesmo ministro interpôs e se acha pendente na Real Pre­
sença do dito Senhor, sobre a indispensável necessidade, que insta pela urgente 
reparação de algumas das mais atendíveis entre as ruínas, cuja existência se 
acha deturpando a Autoridade Régia, e oprimindo o público sossego em Lisboa, 
ano de MDCCLXVU, na Oficina de Miguel Manescal da Costa, por ordem 
de S. M., em três volumes.
13. Dedução Cronológica, cit., Parte I, Divisão Oitava, §§ 273 a 300, págs.
140 a 156.
148
doutrina da Dedução Cronológica, o Índice Expurgatório Romano 
não era aceito em nenhum pais da Europa cioso das prerrogativas 
régias a respeito da censura e condenação dos Livros. No Índice 
Romano condenavam-se muitas obras que, contra os princípios do 
ultramontanismo, sustentavam as doutrinas que melhor satisfaziam 
aos interesses das monarquias. A aprovação do Índice Romano, feita 
sem o conhecimento de Felipe IV (III dc Portugal), deixava á 
inteligência portuguesa inteiramente entregue às diretrizes do pensa­
mento eclesiástico. Este fato foi suficientemente compreendido pelo 
Marquês de Pombal e pelos homens que a ele se ligaram. Seria 
impossível o progresso político e intelectual da nação enquanto 
prevalecessem diretrizes doutrinárias que vedavam o exame das ques­
tões que pudessem favorecer o desenvolvimento autônomo da socie­
dade civil. O Índice Romano-Jesuítico que servia de base à censura 
dos livros portugueses, depois de 1624, fixava as linhas gerais de 
um pensamento que deveria prevalecer em todos os setores da vida 
intelectual e inclusive na própria Universidade. Não resta dúvida, 
portanto, que a filosofia moderna, as doutrinas teológicas e jurídicas 
que as condições dos novos tempos justificavam, não poderiam 
merecer o apoio de uma instituição que se confinara no exame das 
questões segundo as quais somente os interesses da Igreja consti­
tuíam o critério supremo da apreciação dos fatos, ainda que não 
fossem de matéria de fé.
Ao ultramontanismo que prevalecia nos problemas referentes 
à censura de livros e opiniões, substituiu o gabinete de D. José I 
o regalismo doutrinário que prevaleceu nos atos da Real Mesa 
Censória. A censura dos livros fora introduzida em Portugal cerca 
de 1540. Souza Viterbo encontrou um documento que sugere ter-se 
iniciado a censura em 1537: é o Alvará de 22 de fevereiro, no 
qual se concede a Baltasar Dias privilégio para as suas obrasJ4. 
Já nos anos posteriores, surgem as primeiras relações de livros proi­
bidos. De um modo geral, a impugnação das obras era feita sob o 
critério religioso-moral. Não há dúvida, entretanto, que a censura 
tenha sido, primitivamente, assunto da competência do poder civil 
e que, depois do Concilio de Trento, se tenha tornado, em Portugal 
e Espanha, mais rigorosa. O exame dos Livros era realizado seja
14. José Timóteo da Silva Bastos, História da Censura Intelectual em Por­
tugal (Ensaio sobre a compressão do pensamento português), Coimbra, Impr. 
da Universidade, 1926, pág. 14.
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pela Inquisição, seja pelo Ordinário, seja pelo Desembargo do Paço, 
ou mesmo pelos três conjuntamente. “Desde o início da censura, 
diz Timóteo da Silva Bastos, 22 de janeiro de 1537 até a criação da 
Real Mesa Censória, é o Conselho Geral da Santa Inquisição, e o 
Ordinário na sua diocese, e o Desembargo do Paço quem exerce 
toda a vigilância, absoluta, sobre livros a imprimir ou reimprimir” 16.
No reinado de D. José I, a necessidade da consolidação de 
uma doutrina política, que servisse aos fins do regalismo, encon­
trou na Inquisição um fator de resistência aos seus objetivos. A 
censura dos livros, como já indicamos, apoiava-se nos índices Ex- 
purgatórios Romanos, cuja introdução em Portugal se iniciara em 
1624. Neste índice figuravam livros de autores que procuravam 
defender e justificar os direitos da realeza. Entre as provas reunidas 
pelo relator da Dedução Cronológica, encontra-se um trecho extraído 
de Lourenço Bouchel, na sua Biblioteca do Direito de França, da 
edição feita em Paris, no ano de 1667, no qual diz expressamente 
este autor: “Je laisserai discourir á pari ceux, qui par passion se 
sont estendus la dessus à monstrer, que le Concile a voulu donner 
pouvoir absolu au Pape de condamner comme heretiques tous les 
livres, qui ont esté faits pour la defense des droits, de la puissance, 
& auctorité des Empereurs des Roys, & des Princes, & en ont parlé 
autrement, que comme Vassaux, & feudataires du Saint Siege” 16. 
Compreende-se, portanto, o empenho do gabinete de D. José I em 
fazer da censura dos livros uma atribuição exclusiva do poder se­
cular. José de Seabra da Silva, na Petição de Recurso, publicada 
na Segunda Parte da Dedução Cronológica, condenara a introdução 
da Bula da Ceia e dos índices Expurgatórios Romanõ-Jesuíticos em 
Portugal, indicando os inales advindos da não-publicação de livros 
que defendiam os direitos da Coroa. Sobre o recurso, foi ouvida a 
Mesa do Desembargo do Paço e, logo a seguir, o Conselho Gerai 
do Santo Ofício que, em consulta de 4 de abril de 1768, recomen­
dava a criação de “um Tribunal privativo para este importantíssimo 
Ministério, composto de um Inquisidor do Tribunal da Fé, que V. 
M. ou o Inquisidor Geral eleger; de quem assista por parte da 
Jurisdição Ordinária, que pode ser o Vigário Geral, ou outro qual­
quer a quem o Ordinário cometa as suas vezes; e de bons teólogos,
15. Idem, ibidem, pág. 76.
16, Dedução Cronológica, cis., Coleção das Provas da Segunda Parte, De­
monstração V, § I, pág. 193.
150
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e juristas, que satisfaçam todos completamente aos seus respectivos 
objetos. .. e aprovando V. M. este arbítrio, verá V. M. felizmente 
concordado o Sacerdócio com o Império, dando-se mutuamente as 
mãos, sem ofensa dos seus respectivos direitos” IT. No dia 5 de abril 
de 1768, criava D. José I, em nome do direito majestático, de feitio 
absolutista, uma Junta perpétua denominada Real Mesa Censória, 
invocando, textualmente: “o Pleno, e Supremo Poder, que na Tem- 
poralidade recebi imediatamente de Deus todo Poderoso, em justa 
e necessária defesa; assim da mesma Igreja, e seus Cânones, de que 
sou Protetor nos meus Reinos, e Domínios, e da Minha Real Auto­
ridade; como da reputação, honras, vidas, fazendas e público sossego 
dos Meus fiéis Vassalos” 1H. Na Dedução Cronológica alegava-se 
que os índices Romano-Jesuíticos não poderiam ser aceitos sem a 
obtenção do beneplácito régio e, ainda mais, que nem mesmo este 
beneplácito poderia legitimá-los, pois a nenhum monarca cabia “ab­
dicar, ou permitir, que se lhe usurpasse a independência temporal 
da sua Coroa;e a defesa e proteção da autoridade da sua soberania, 
e do sossego público dos seus vassalos; por serem coisas inerentes 
à Majestade, que é a mesma em todos os soberanos, emanada ime­
diatamente de Deus todo Poderoso, livre, absoluto, e sem admitir 
sujeição temporal a pessoa alguma criada; como são primeiros prin­
cípios de que só duvida a Cúria de Roma” 19. Estas afirmações 
constituíam o primeiro passo, no domínio doutrinário do absolutis- 
mo, para a preparação da ideologia que a administração pombalina 
erigiu como sistema de governo.
A Dedução Cronológica, enquanto peça jurídica decorrente da 
luta contra os jesuítas e a Cúria Romana, é um documento parcial 
destinado a expor, com uma abundância de fatos e provas, os males 
que, na lógica do seu relator, ou relatores 20, os inacianos acarreta­
17. Arquivo do Ministério do Reino, Torre do Tombo, L. I, 362, publi­
cado por José Timóteo da Silva Bastos, ob. cit., págs. 112 a 114. Cf. pág. 114.
18. Decrelo de 5 de abriu de 1768, apud José Timóteo da Silva Bastos, 
ob. cit., págs. 116 a 123. Cf. pág. 120.
19. Dedução Cronológica, Parte I, Divisão Oitava, § 280, pág. 146.
20. Embora tragam os volumes da Dedução Cronológica, no seu frontis- 
pício. o nome de José de Seabra da Silva, acredilam os autores que o trabalho 
tenha sido redigido com o concurso de várias pessoas, pelo Marquês de 
Pombal. “Quem reuniu, pergunta J. Lúcio de Azevedo, em O Marquês de 
Pombal e a sua Época, e pôs em forma os elementos desle famoso escrito? 
Quem compôs a Dedução Cronológica? Por muito tempo se julgou fosse o
151
vam à nação lusitana. Todavia, embota seja um documento jurídico, 
a Dedução Cronológica, na apreciação dos fatos da história portu­
guesa desenvolve uma linha de interpretação que não seria exagero 
dizer-se dela que constitui verdadeiro ensaio sobre o desenvolvimento 
da nacionalidade até o século XVIII e, ao mesmo tempo, o ponto 
de partida para a justificação doutrinária do “iluminismo” portu­
guês. A segunda parte do trabalho, que trata do problema da cen­
sura, impressão e proibição dos livros, prepara o caminho para a 
disputa doutrinária entre o Papado e o Império lusitano e também, 
pela derrogação dos índices expurgatórios vigentes, propicia a atmos­
fera intelectual na qual deveriam £undar~se, alguns anos depois, as 
instituições universitárias. Realmente, de nada adiantava uma re­
forma dos estudos se o Tribunal do Santo Ofício continuasse a 
exercer a sua censura inquisitorial, apoiado nas relações de livros 
proibidos, elaboradas na Cúria Romana. A preocupação fundamen­
tal dos reformadores da Universidade foi, sem dúvida, a elaboração 
de um programa de estudos secularizados que, sem ferir os ideais 
da cristandade, correspondesse às necessidades da ideologia política 
dominante. Nestas condições, a Real Mesa Censória, zelando para 
que a sociedade se preservasse “daquele castigo, a que seria perpe­
tuamente exposta, se o medo de um juízo futuro, mais certo e 
infalível do que o mesmo homem, não fosse capaz de o conter e 
coibir”, indicou, no edital de 24 de setembro de 1770, a lista dos 
livros por intermédio dos quais se inoculava no organismo da nação 
o vírus da irreligião e da falsa filosofia21. Na lista de obras proibi­
Procurador da Coroa, a quem por um estratagema, talvez por ser dele a 
Petição de Recurso, Oeiras fez que fosse a obra atribuída, mandando imprimir 
no fronlispício • dada à luz por Josè de Seabra da Silva. Não há todavia 
dúvida que o autor foi Oeiras O estilo é bem dele, e páginas inteiras, adita­
mentos, notas e correções de seu punho, a começar pelo título, no original 
existente, tudo dá a prova de que a Dedução foi não só concebida pelo ministro, 
como inteiramente redigida também. Certo que teria colaboradores. Por aba­
lizado que fosse no direito eclesiástico e eradito na literatura referente aos jesuí­
tas, não poderia sozinho, nesta quadra, a mais afanosa de sua vida, coligír o 
material imenso de fatos, citações e juízos que constituem o fundo da obra. 
O próprio José de Seabra, o monge Cenáculo, o teólogo Antonio Pereira, 
Verney, colaborador em Roma do ministro Almada, o famoso Platel quando 
esteve em Lisboa — porque o trabalho é de anos — a todos esses, sem arrojo 
de conjectura, se pode atribuir algum contingente no estrondoso libelo”. Cf 
ob. cit., págs. 290/L
21. Preâmbulo do edital de 24 de setembro, apud Teófilo Braga, ob. cit., 
vol. III, pág. 59
152
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Realce
das que acompanha este edital, publicada por Teófiio Braga, as 
omissões são mais significativas do que a indicação nela expressa 
dos livros condenados. No setor jurídico, que tão de perto interes­
sava ao governo, pois a luta contra os jesuítas não alcançara ainda 
o seu termo, aparecem apenas o De Cive e o Leviatan, de Hobbes, 
o Contrato Social, de Rousseau, o Tratado Teológico-Político, dc 
Spinoza, obras estas que, pelas implicações doutrinárias do pensa­
mento nelas contido, seriam sempre capazes de causar incômodos 
aos espíritos apegados à tradição. Na lista de 1770, não aparece 
nenhum dos livros, por mais ousado que fosse o seu conteúdo, que 
serviram de base às razões expostas no pensamento regalista desen­
volvido na Dedução Cronológica.
De qualquer maneira, entretanto, a reforma dos Estatutos da 
Universidade de Coimbra nunca poderia ter o alcance que lhe 
deram os membros da Junta de Providência Literária, se a Real 
Mesa Censória, como Tribunal secular incumbido da censura e pu­
blicação de livros, não tivesse substituído, nesta esfera específica, o 
Conselho Geral do Santo Ofício. Sem o estabelecimento de novas 
diretrizes no domínio do pensamento filosófico, jurídico e teológico, 
a reforma fatalmente se transformaria numa simples modificação 
de métodos e hábitos escolares. O estado de decadência da Univer­
sidade, entretanto, exigia uma intervenção mais profunda do poder 
público, pois a rotina nela imperante provinha da própria inércia 
dos espíritos acostumados a ler e repetir doutrinas que os Estatutos 
determinavam e a vontade régia obrigava a cumprir. A reforma 
da Universidade, nestas condições, teria forçosamente de ser a ex­
pressão de uma vontade que, de cima para baixo, se impusesse, 
mostrando aos professores o caminho das aquisições científicas e 
literárias que o ensino escolástico vedara à inteligência portuguesa. 
Embora fosse a Universidade um estabelecimento real, a força que 
o poder eclesiástico exercia era tamanha que uma reforma, da im­
portância da que foi realizada em 1772, só foi possível depois que 
uma nova doutrina política, de reação ao status vigente, se esta­
beleceu.
A 23 de dezembro de 1770, era criada a Junta de Providência 
Literária, com a incumbência de redigir e reformar os Estatutos da 
Universidade. Nesta carta régia, recapitulam-se, tal como acontece 
em outros escritos da administração pombalina, os inales causados 
pelos jesuítas à Universidade, desde a ocupação do Colégio Real 
das Artes. Sob a inspeção do Cardeal da Cunha e do Marquês de
153
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Pombal, trabalharam ativamente na Junta o presidente da Real 
Mesa Censória, D. Manoel do Cenáculo, e os Drs. Francisco Anto­
nio Marques Giraldes, José de Seabra da Silva, José Ricaldi Pereira 
de Castro, Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, Manoel 
Pereira da Silva e João Pereira Ramos de Azeredo Coutinho. Ouvi­
ram os membros da Junta a opinião dos professores e especialistas, 
sempre que se fez necessário. Não foram estranhas ao trabalho 
realizado pela Junta de Providência Literária as sugestões de Luiz 
Antonio Verney, no Verdadeiro Método de Estudar, de Antonio 
Nunes Ribeiro Sanches, nas Cartas sobre a Educação da Mocidade 
e no Método para Estudar a Medicina. Colaboraram ainda Sachetti 
Barbosa, Miguel Antonio Ciera, Miguel Franzini, Miguel Daly e 
José Monteiro da Rocha22.
Nas minuciosas informações sobreas reuniões da Junta de Pro­
vidência Literária, avultam as figuras dos brasileiros Francisco de 
Lemos de Faria Pereira Coutinho, e de seu irmão João Pereira Ramos 
de Azeredo Coutinho. Este último, principalmente, deu uma con­
tribuição decisiva à parte referente aos estudos jurídicos, sem dúvida 
a mais volumosa e a mais cuidada, tanto no Compêndio Histórico 
quanto nos Estatutos. Diz textualmente o bispo Cenáculo, referin­
do-se à elaboração do trabalho, que João Pereira Ramos “é o com­
positor e coordenador, pois há seis ou sete anos que El-Rei deter­
minou que fosse ajuntando e compondo o que fosse preciso para a 
reforma da Universidade, e agora só o que faz é coordenar pelo 
método que dispõe o Marquês, e ele só faz o que pertence à parte 
jurídica” 23. À medida que o trabalho se ia fazendo, os manuscritos 
eram levados para a imprensa e, uma vez impressos, corrigidos por 
Frei Luiz do Monte Carmelo, enquanto Antonio Pereira de Figuei­
22. Notícias secreías, inéditas, e muito curiosa, da junta reformadora 
da Universidade de Coimbra, extraídas do Diário de D. Frei Manoel do 
Cenáculo, in Folhetim do Conimbricense, Miscelânia, CCXCIX a CCCII, ns. 
2.328 a 2,331, de 56, 20, 23 e 27 de novembro de J869: “Na conferência 
de quarta-feira, 22 de julho”, diz Cenáculo neste valioso Diário, “se acabou de 
ler o 5.° ano do curso canônico; e a este tempo já está impressa o que pertence 
â medicina, matemática e física; e foi obra do médico Sachetti, conferida com 
Ciera, Franzini, Daly, professor de grego, que é bom matemático, e Monteiro, 
que foi jesuíta e já o tem preparado no conceito do Marquês para ser despa­
chado”.
23. Idem, loc. cit. Aliás, Jerônimo Soares Barbosa no Epitome Lusi- 
tanae Hístortae iam Veteris quam Novae já registrara o fato. Cf. Teófiio 
Braga, ob. cit., t. III, pág. 329, nota.
154
Rubens
Realce
redo os traduzia para o latim. João Pereira Ramos de Azeredo Cou- 
tinho reunia o material sobre a reforma dos estudos jurídicos e 
Francisco de Lemos, seu irmão, coordenava a parte referente à 
matemática, filosofia, teologia e medicina, ouvindo todos os que 
pudessem trazer alguma contribuição para o assunto. Os trabalhos 
estenderam-se por todo o ano de 1771 até meados de 1772.
Já em resolução de 2 de setembro de 1771, determinava o Rei 
que subissem “as minutas dos estatutos e cursos científicos, para 
sobre eles determinar o que entender”. A 25 de setembro, comu­
nicava o Marquês de Pombal, em nome do Rei, a Frei Pedro Tomaz 
Sanches, lente e claustro da Universidade de Coimbra, a ordem 
para a suspensão dos estudos, a fim de que “sejam regulados no 
ano que se acha próximo a principiar pelos novos estatutos, e cursos 
científicos. . . e que não obstantes os outros estatutos antigos cujo 
efeito há o mesmo senhor por suspenso, se não proceda a abertura, 
juramentos, e matrículas, que até agora se fez, e se prestarem no 
primeiro dia do mês de outubro, e por todo o dito mês até nova 
ordem de Sua Majestade” Si. Todavia, somente no dia 8 de agosto 
de 1772 era assinada a carta de roboração dos Estatutos da Univer­
sidade de Coimbra, que confirmava o trabalho realizado intensa­
mente pela Junta de Providência Literária, durante mais de ano 
e meio.
Nas suas linhas gerais, os novos Estatutos procuram traduzir 
o progresso das investigações positivas, na órbita dos problemas 
da filosofia, da medicina e da matemática; e no domínio do pensa­
mento teológico e jurídico, o ideal de uma doutrina rebelde ao 
verbalismo escolástico e integrada nos propósitos políticos do gabi­
nete de D. José I. A valorização do método experimental e do mé­
todo matemático, o antiescolasticismo sistemático, o apego à história, 
à crítica e à hermenêutica, no tratamento das questões teológico- 
jurídicas, constituem os traços mais gerais do programa de renova­
ção da cultura portuguesa proposto pela Junta de Providência Lite­
rária. Na multiplicação de preceitos doutrinários, de regras e prin­
cípios, que se encontram no Compêndio Histórico e nos Estatutos 
da Universidade de Coimbra, o que prevalece, no seu significado 
histórico mais expressivo, são as razões políticas que presidiram a
24. Publicado por M. Lopes D ’Almeida, Documentos da Reforma Pam- 
balina, por Ordem da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1937, vol. I, I, 
pág. 1.
155
elaboração destes documentos. Por este motivo não é fora de pro­
pósito lembrar o rol dos livros proibidos pela Real Mesa Censória, 
porque ele demonstra até que ponto prevaleceram nos ideais do 
governo as formas de pensamento mais atrevidas do iluminismo 
europeu. Procurando harmonizar os interesses do sacerdócio com 
os do Império, os reformadores da Junta de Providência Literária 
evitaram todas as questões que pudessem lançar Portugal no caminho 
do d eis mo > do ateísmo e do materialismo: “porquanto me constou, 
diz o Rei no Preâmbulo do edital da Real Mesa Censória, que 
muitos dos referidos escritos, abomináveis produções da increduli­
dade e da libertinagem de homens temerários e soberbos, que se 
denominam Espíritos Fortes e se atribuem o especioso título de 
Filósofos, depois de terem soçobrado os países mais próximos ao 
seu nascimento, haviam chegado a penetrar neste reino por caminhos 
indiretos e ocultos; havendo mandado proceder com a mais exata 
diligência no exame deles, constou pelas censuras conterem doutrina 
ímpia, ofensiva da paz e sossego público, e só própria a estabelecer 
os grosseiros e deploráveis erros do ateísmo, deísmo e materialismo, 
a introduzir a relaxação dos costumes, a tolerar o vício c a fazer 
perder toda a idéia da virtude’’ 26. Na lista que acompanha este edital 
estão as obras de Bayle, Rousseau, Spinoza, Voltaire, Hobbes, Di- 
derot, La Mettrie, Shaftesbury, Mandeville, Toland etc.26. Cioso 
de suas prerrogativas, procurou o gabinete de I>. José I evitar que 
o empenho com que se atirou na disputa com os inacianos pudesse 
favorecer aos adversários sempre prontos a indicar o germe de mani­
festações doutrinárias nocivas aos interesses da fé católica. Daí o 
afoito cuidado com que se houve a Mesa 'Censória ao incluir na 
Relação dos livres proibidos todos aqueles que pudessem permitir 
aos adversários do pombalismo suposições de compromissos com 
a ideologia dos “Uuministas” avançados.
Propondo, como critério de aferição das doutrinas, as aquisi­
ções positivas, a experiência, a história eclesiástica e a história 
civil, o pombalismo pretendeu encontrar o caminho da filosofia 
mais apta aos seus interesses. Entre o espírito de sistema da filosofia 
do século XVIII e o espírito sistemático dos filósofos do iluminismo, 
para empregarmos expressões de Cassirer, preferiu a Junta de Pro~
25. Edital da Mesa Censória, de 24 de setembro de Í770; Cf. Teófilo 
Braga, ob. cit., t. III, pág. 59.
26. A relação dos livros foi publicada por Teófilo Braga, ob. cit., t. III, 
págs. 60 a 63.
156
vidência Literária o meio termo cômodo do ecletismo'. “Não haverá 
sistema algum filosófico”, que o professor “inteiramente subscreva 
na exploração, e demonstração das leis naturais: Antes pelo con­
trário a filosofia, que ele deverá seguir será precisamente a eclética” 2T. 
No ecletismo, a força da experiência e dos métodos positivos, tão 
fecunda na órbita da investigação natural, poderia perfeitamente 
harmonizar-se com a crítica e a hermenêutica de que se serviram 
Pombal e os seus homens nas razões que coligiram para a defesa 
dos direitos do reinado, contra as pretensões da doutrina ultra- 
montana. E, evitando as conseqüências últimas do pensamento ilu- 
minista, a Junta âe Providência Literária, obediente às diretrizes da 
censura secularizada, atendia os temerosos cuidados da fé que o 
deísmo, o ateísmo e o materialismo tão seriamente ameaçavam. No 
dia 28 de agosto de 1772, assinava o Rei uma carta, dando ao 
Marquês de Pombal plenos poderes para a fundação da Universidade, 
afim de proceder “em tudo, dizia este diploma régio, como Meu 
Lugar-Tenente, com jurisdição privativa e ilimitada” 28, para pôr 
em execução os novos Estatutos e determinar as outras providências 
que a tal respeito se fizessem necessárias. No dia 22 de setembro 
do mesmo ano, investido de tão grandes poderes, chegava o Mar­
quês de Pombal a Coimbra, para dar cumprimento às deliberações 
régias. Durante mais de um mês, permaneceu em Coimbra Sebastião 
de Carvalho e Melo, dando as providências para a fundação dos 
novos cursos universitários. No dia 19 de setembro, já se reunira 
o Claustro Pleno da Universidade, sob a presidência do Reitor, 
Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, para elaborar o 
programa de recepção ao Visitador da Universidade. Resolveu-se 
então que “fosse o limo. Sr. Reitor por parte da Universidade ao 
lugar de Condeixa, a cumprimentar S. Exa.; e que as pessoas mais 
distintas da Universidade o fossem esperar além da Igreja da Espe­
rança porque até esse lugar era antigo costume, e era preciso 
adiantarem-se mais para fazer o aplauso distinto: que se repicassem 
os sinos, houvesse luminárias três dias, e os mais acadêmicos o espe­
rassem no paço destinado para o seu alojamento, e ultimamente se 
deprecasse a Câmara mandasse fazer o costumado obséquio de
27. Estatutos da Universidade de Coimbra, Liv. IX, que contêm os Cursos 
Jurídicos das Faculdades de Cânones e Leis, Lisboa, na Régia Oficina Tip., 
1773, Cursos Jurídicos, Tít. III, Cap. V, 5 4, pág. 112.
28. M . Lopes D'Almeida, Documentos da Reforma Pombalina, vol. I, doc.
II, págs. 2 a 4.
157
luminárias por três dias” 2B. Desta visita existe um Diário do que 
se passou em a cidade de Coimbra desde o dia 22 de setembro de 
1772, em que o Iímo. e Exmo. Sr. Marquês de Pombal entrou até 
o dia 24 de outubro, em que partiu da dita cidade, que foi publicado 
por Antonio de Vasconcelos80.
Emprestou-se aos atos do Marquês, nos dias que durou a sua 
permanência, um fausto que há muitos anos não conhecia a Uni­
versidade. A nomeação dos novos professores foi feita com todo o 
aparato das tradições universitárias. No dia 27, publicaram-se, pela 
manhã, os despachos referentes às nomeações dos professores de 
teologia, cânones, leis, matemática e filosofia31. No dia seguinte, 
eram jubilados os professores da Faculdade de Medicina nas cadeiras 
que até então regiam, por intermédio de uma portaria na qual, ao 
mesmo tempo, eram conservadas as pensões de alguns doutores da 
mesma Faculdade82. No dia 6 foram publicados os despachos dos 
professores de medicina38 que haviam sido assinados pelo Marquês 
de Pombal, no dia 3 de outubro 84. Depois de outras providências 
referentes à instalação dos diversos cursos e à normalização dos 
trabalhos escolares, realizada nos dias subseqüentes, prestou o Reitor 
da Universidade, Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, 
no dia 23 de outubro, “nas mãos do Sr. Marquês o juramento de 
Reformador na Capela Particular do Paço” . .. sendo testemunhas 
“os condes da Ponte e S. Payo” 85. No dia anterior, recitava a sua
29. Antonio de Vasconcelos, Escritos Vários Relativos à Universidade 
Dionisiana, Coimbra Ed., 1938, vol. I, Sccção II, “Algamas notícias e aponta­
mentos históricos sobre a Universidade, Diário da Visita do Marquês de Pom­
bal a Coimbra na Reforma da Universidade”, págs. 340 a 341.
30. Antonio de Vasconcelos, ob. cit., vol. I, págs. 342 a 359, acompa­
nhado dos papéis referentes ao mesmo Diário, cf. págs. 360 a 388.
31. Cf. Diário, 27, domingo, Antonio de Vasconcelos, ob. cit., pág. 347. 
Os despachos com a relação dos nomes dos professores e respectivas cadeiras 
foram publicados pelo Prof. M. Lopes D ’Almeida, in Documentos da Reforma 
Pombalina, vol I: Decreto dos Despachos da Faculdade de Teologia, V, págs. 
7/8; idem, da Faculdade de Cânones, V I, 8/9; idem, da Faculdade de Mate­
mática, V II, 9/10; idem, da Faculdade de Filosofia, V III, 10.
32. Portaria para as jubilações dos Lentes, M. Lopes D ’Almeida, Do­
cumentos da Reforma Pombalina, vol. I, X , págs. 12/13.
33. Diário, 6, terça-feira, Antonio de Vasconcelos, ob. cit., pág. 350.
34. C f M. Lopes D’Almeida, Documentos da Reforma Pombalina, vols.
I, X III e XIV, págs. 15 e 16.
35. Diário, 23, sexta-feira, Antonio de Vasconcelos, ob. cit, pág. 358.
158
fala na sala da Universidade, na qual dava por finda a sua tarefa, 
passando às mãos do Reitor a direção da reforma das Faculdades 
novamente estabelecidas, certo de que a Academia “há de ressus­
citar em toda a sua anterior integridade o esplendor da Igreja Lusi­
tana, a glória da Coroa del-Rei meu Senhor e a fama dos mais 
assinalados varões que com sua memória honraram os fastos portu­
gueses” 86. Os cursos da Universidade de Coimbra, integrados agora 
no plano dos Estatutos de 1772, poderiam iniciar vida nova, livres 
dos prejuízos da rotina e dos hábitos escolares obsoletos, que tanto 
impediam o seu progresso. Os novos professores, muitos dos quais 
estrangeiros, eram pessoas que se distinguiam pelo saber e probidade. 
Seria legítimo esperar, portanto, que os novos cursos pudessem 
restituir à tradicional Universidade o prestígio das épocas passadas.
II
Na Reforma de 1772, a estrutura dos cursos da Universidade de 
Coimbra passou por substanciais transformações. No curso teoló­
gico, que tinha a duração de cinco anos, no lugar das quatro cátedras 
e três catedrilhas, até então existentes, foram criadas oito cadeiras, 
uma de história eclesiástica, três de teologia dogmático-polêmica (as 
quatro, segundo a designação dos Estatutos, chamadas Pequenas Ca­
deiras), uma de teologia moral, uma de teologia litúrgica e duas de 
escritura, na qual eram estudados o Antigo e o Novo Testamento, 
cadeiras estas denominadas Grandes. Para o ingresso no curso exi­
gia-se a idade mínima de 18 anos e, além dos certificados referentes 
à vida dos estudantes, preparação suficiente em latim, retórica, disci­
plinas filosóficas, metafísica e ética. Os estudantes residentes em ci­
dades ou vilas nas quais não havia aulas de grego e hebraico deve­
riam estudar estas disciplinas em Coimbra enquanto seguiam o cur­
se teológico. Na Faculdade deveriam os alunos estudar história sa­
grada e eclesiástica e história literária da teologia, disciplina do mé­
todo e lugares teológicos no 1.° ano; no 2.°, além da repetição das 
matérias do ano anterior, estudavam teologia teorética ou dogmática 
simbólico-polêmica; no 3.°, teologia mística e teologia prática ou mo­
ral; no 4.°, teologia canônica ou direito público eclesiástico, Institui­
ções de direito canônico e teologia litúrgica; no 5.°, finalmente, teo­
36. Documento n.c 13, que acompanha o Diário 4a Visitação do Marquês 
à Universidade, publicado por Antonio de Vasconcelos, ob. cit., pág. 377.
159
logia exegética do Testamento Velho e o do Novo Testamento®7. 
Terminado o curso, poderia o estudante obter o grau de bacharel e, 
somente depois de mais um ano e meio de estudos, estaria em con­
dições de obter a licenciatura e o doutoramento. Os livros adotados 
no curso eram a História Eclesiástica, de Berti, os livros didáticos de 
Martin Gerbert sobre teologia e as Instituições Eclesiásticas de 
Fleury. Para as novas cadeiras criadas foram indicados os Profs. 
Carlos Maria de Matos (Testamento Novo), D. Bernardo da Anun­
ciação (Testamento Velho), Manoel Francisco da Costa (teologia li- 
túrgica), Frei José da Trindade (teologia moral), Jaime Antonio de 
Magalhães, Frei Bemardino de Santa Rosa e Bernardo Antonio Car­
neiro (para as três cadeiras de teologia dogmática) e D. Antonio da 
Anunciação (história eclesiástica) 38. Até a reforma, liam-se nas ca­
deiras da Faculdade de Teologia o mestre das Sentenças, Pedro Lom- 
bardo, a Suma Teológica, de Santo Tomaz de Aquino, as Escrituras e 
os livros de Duns Scott e, na catedrilhas, de acordo com as designa­
ções canônicasdas cadeiras, estudavam-se “respectivamente Duran­
do, Escrituras, e Santo Tomaz ou Gabriel BieV’ 08. A utilização dos 
livros modernos, como base dos estudos teológicos, por si só ilustra 
o sentido dos rumos da Faculdade de Teologia na Reforma de 1772.
O curso jurídico, nos seus dois aspectos, o canônico e o civil, 
tinha a duração de cinco anos, três menos do que o exigido pelos ve­
lhos estatutos 40. Os estudantes que pretendessem nele ingressar de­
veriam ter 16 anos de idade e formação propedêutica de latim, retó­
rica, lógica, metafísica e ética. Exigia-se ainda certificado de estu­
do do grego para todos os candidatos vindos de cidades onde havia o 
referido curso. Depois de examinar as certidões exibidas pelos alu­
37. Cf. nos Estatutos da Universidade de Coimbra, Liv. I, que contém o 
curso teológico, Lisboa, na Régia Oficina Tip., 1773, Tít. III, sobre as matérias 
do curso teológico: 1.° ano, Caps. I e II, págs. 32 a 85; 2.° ano, Cap. HI, 
págs. 85 a 108; 3.° ano, Caps. IV , V, e V I, págs. 109 a 159; 4.° aso, Cap. VH, 
págs. 159 a 183 e 5.° ano, Cap. V III, págs. 184 a 210.
38. Decreto dos despachos da faculdade de Teologia, in Documentos da 
Reforma Pombalina, cit., V , pág. 7.
39. Estamos Velhos, Liv. III, Tít. V, Teologia, §§ 1 a 6, nos quais são 
indicados os números das cadeiras e as matérias nelas ensinadas Cf. Com­
pêndio Histórico, Parte I, Prelúdio IV , § 58, págs. 86/7.
40. Estatutos da Universidade de Coimbra, liv . II, que contém os cursos 
jurídicos das Faculdades de Cânones e Leis, Lisboa, na Régia Oficina Tip., 1773, 
Tít. II, Cap. 1, 5 1, pág. 37.
160
nos sobre os cursos realizados nas escolas menores, deveriam os estu­
dantes provar a sua suficiência naquelas matérias perante uma comis­
são de professores do Colégio das Artes, sem o que não poderiam 
ingressar na Universidade. Na velha organização, possuía a Facul­
dade de Cânones cinco cátedras e duas catedrilhas, com as tradicio­
nais denominações canônicas. As Decretais eram estudadas na Ca­
deira de Prima e de Véspera. Na de Terça, lia-se o Decreto. Na 
de Nôa, o Sexto das Decretais. Havia ainda, sem designação canô­
nica, uma cátedra de Clementinas. As Decretais e as Clcmentinas 
erara ainda estudadas nas duas catedrilhas. De acordo com os ve­
lhos estatutos, a Faculdade de Leis era constituída por quatro cáte­
dras. O Digestum Infortiatum, o Digesto Novo e o Digesto Velho 
eram lidos, respectivamente, nas cadeiras de Prima, de Véspera e de 
Terça. Na cátedra de Nôa, estudavam-se os três livros do Código. 
Havia ainda duas catedrilhas, onde se liam o Código e duas que tra­
tavam de Instituía 41.
Na Reforma de 1772, os estudos canônicos e jurídicos sofreram 
profundas transformações, muito menos pelo número das cadeiras 
criadas do que pe!a nova orientação pedagógico-doutrinária dada ao 
seu programa. Na Faculdade de Leis estabeleceram-se oito ca­
deiras e, na Faculdade de Cânones, sete. Havia ainda uma cadeira 
comum aos dois cursos, de Direito Natural, Público Universal, e 
das Gentes. Na primeira destas Faculdades foram instituídas uma 
cadeira subsidiária, de História Civil dos Povos, Direito Romano 
e Direito Português, duas de Elementos do Direito Civil, três sin­
téticas, sendo duas de Direito Romano e uma de Direito Pátrio, e 
duas analíticas, de Direito Civil Romano e de Direito Pátrio. Na 
Faculdade de Cânones, instituíram~se uma cadeira subsidiária, de 
História da Igreja Universal e Portuguesa e de Direito Canônico Por­
tuguês, uma elementar, de Instituições do Direito Canônico, três sin­
téticas, uma do Decreto de Gradano e duas das Decretais, e duas ana­
líticas, de Direito Canônico42. Todas as cadeiras analíticas, dos
41. Estatutos- Velhos, Liv. III, Tit. V , Cânones, §§ 7 a 13 e Leis, §§14 
a 19. Cf. Compêndio Histórico, Parte I, Prelúdio IV , § 58, págs. 87/9.
42. Os professores das Faculdades de Leis e Cânones são os que constam 
dos dois despachos a seguir: Faculdade de Leis — “Tendo consideração aos 
merecimentos, e Letras dos Doutores na Faculdade de Leis abaixo declarados: 
Hei por bem nomear para Lentes das Cadeiras da Mesma Faculdade: a saber: 
Tomaz Pedro da Rocha, para a Primeira Cadeira de Analitica de Leis: Pedro 
de Araújo, para a Segunda Cadeira Analítica de Leis: José Joaquim Vieira 
Godinho, para a Cadeira de Direito Pátrio: Alexandre de Abreu Corrêa, para
161
dois cursos, seguindo a tradição, eram denominadas Grandes e as de­
mais Pequenas.
a Primeira Cadeira Sintética de Digesto: Antonio Freire Gameiro, para a 
Segunda Cadeira Sintética de Digesto: Antonio Pereira da Rocha Faria Gayo, 
para a Primeira Cadeira de Instituía: Antonio Lopes Carneiro, para a Segunda 
Cadeira de Instituta: Manoel Petlroso Lima, para a Cadeira de Direito Natural: 
Francisco Xavier de Vaz Concelos Coutinho, para a Cadeira de História do 
Direito Civil Romano, e Pátrio: e Hei outrossim por bem nomear para Substi­
tutos das Sobreditas Cadeiras com Privilégios de Lentes aos Doutores: a saber: 
Duarte Alexandre Holbeche, para Substituto das Cadeiras Analíticas de Leis; 
Paschoal José de Melo, para Substituto da Cadeira do Direito Pátrio: Bernardo 
José Carneiro, para Substituto das Cadeiras Sintéticas de Digesto: Francisco 
Monteiro Pereira de Azevedo, para Substituto das Cadeiras de Instituía: Ma­
noel Luiz de Soares, para Substituto da Cadeira do Direito Natural: E a José 
Cardoso Castello, para Substituto da História do Direito Civil Romano, e 
Pátrio O Marquês de Pombal do Meu Conselho de Estado, e Meu Legar- 
Tenente na Fundação da Universidade de Coimbra, o tenha assim entendido, 
e lhes mande passar os despachos necessários. Palácio de Nossa Senhora da 
Ajuda em onze de setembro de mii setecentos e setenta e dois. Rei. Cumpra-se 
e Registre-se. Coimbra aos 27 de setembro de 1772. Marquês Visitador”. 
Faculdade de Cânones. ‘Tendo consideração aos merecimentos, e Letras dos 
Doutores na Faculdade de Cânones abaixo declarados: Hei por bem nomear 
para Lentes das Cadeiras da mesma Faculdade: a saber: Manuel José Álvares, 
para a Primeira Cadeira de Cânones Analítica: José Antonio Barbosa, para a 
Segunda Cadeira de Cânones Analítica: João Teixeira de Carvalho, para a 
Primeira Cadeira Sintética de Decretais: Manoel Tavares Coutinho, para a 
Segunda Cadeira Sintética de Decretais: Antonio Henríques da Silveira, para a 
Cadeira de Decreto: Francisco José Ribeiro de Guimarães, para a Cadeira de 
Instituições Canônicas: Marçalino Pinto Ribeiro, para a Cadeira da História da 
Igreja: e do Direito Eclesiástico: E hei outrossim por bem nomear para Subs­
titutos com Privilégios de Lentes das sobreditas Cadeiras aos Doutores: a 
saber: Vicente Rodrigues Ganhado, para Substituto das Cadeiras de Cânones 
Analíticas: Sebastião Pita de Castro, para Substituto das Cadeiras Sintéticas de 
Decretais: Antonio Caetano Maciel, para Substituto da Cadeira de Decreto; 
Gabriel de Vilas Boas Palmeira, para Substituto da Cadeira das Instituições 
Canônicas: E a Francisco Xavier da Silva e Moura, para Substituto da Cadeira 
da História da Igreja e Direito Eclesiástico. O Marquês de Pombal do Meu 
Conselho de Estado, e Meu Lugar-Tenente na Fundação da Universidade de 
Coimbra, o tenha assim entendido, e lhes mande passar os despachos neces­
sários. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda em onze de setembro de mil 
setecentos e setenta e dois. Rei. Cumpra-se, e Registre-se. Coimbra, aos vinte 
e sete de setembro de 1772. Marquês Visitador”. Cf. M. Lopes D’Almeida. 
Documentos da Reforma Pombalina, cit. TV e V I, respectivamente, págs. 6/7 
e 8/9. Na “Relação Geral do Estado da Universidade de Coimbra”, citada 
na nota 48, são mencionados os professores e as cadeiras vagas das duas 
Faculdades, no ano de 1777. Cf. Relação, págs. 31/3
162
O 1.° e 2.° anos dos Cursos de Leis e Cânones eram comuns, 
com a diferença apenas que, no segundo ano canônico,continuavam- 
se os estudos de Direito Natural, iniciados no ano anterior. No 1.° 
ano estudavam-se o Direito Natural, na cadeira comum aos dois cur­
sos, a História Civil das Nações e Leis Romanas e Portuguesas, a 
Doutrina do Método do Estudo Jurídico e uma Notícia Literária da 
Jurisprudência Civil e dos Livros Jurídicos, na cadeira subsidiária. 
Completava-se o curso com os Elementos do Direito Civil, das cadei­
ras elementares. No 2.° ano, analisavam-se os Elementos de His­
tória da Igreja Universal e Portuguesa, Direito Canônico Comum e 
Português, na cadeira subsidiária do Curso de Cânones, e as Institui­
ções do Direito Canônico, Doutrina do Método de Estudo e a Notí­
cia Literária e Bibliográfica referente à Jurisprudência Canônica, na 
cadeira elementar do Curso de Cânones. No 3.° ano, porém, ini- 
ciava-se a separação dos dois cursos, estudando-se, pelo método sin­
tético, nas aulas de Leis, o Direito Civil Romano, e, pelo mesmo mé­
todo, «as de Cânones, o Direito Canônico Público e o Decreto de 
Graciano. No 4.° ano, continuavam-se esses estudos pelo mesmo 
método, sobre os assuntos do ano anterior, completando-se apenas, 
nas aulas de Cânones, o estudo do Decreto, com a análise das Decre­
tais de Gregôrio IX. No 5.° ano do Curso de Leis estudavam-se, 
ainda, pelo método sintético, o Direito Civil Pátrio e completava-se 
esse estudo com a interpretação e aplicação das leis aos fatos, por in­
termédio de lições e exercícios de Jurisprudência, pelo método analíti­
co. No 5.° ano de Cânones, estudavam-se Jurisprudência Canônica, 
pelo método analítico, e Direito Civil Pátrio, pelo método sintético4â.
A classificação das cadeiras em subsidiárias, elementares, sinté­
ticas e analíticas corresponde às intenções pedagógicas do programa 
traçado pela Junta de Providência Literária. Ao conhecimento dos 
elementos do Direito fornecidos pelas cadeiras propedêuticas do cur­
so, dever-se-ia seguir o estudo sintético dos princípios da Jurisprudên­
cia: partindo das definições, passaria o professor à divisão das ma­
térias, aíé indicar os “primeiros princípios e preceitos gerais mais 
simples e mais fáceis de se entenderem”, deduzindo depois “as con-
43. Cf. nos Estatutos, Liv. II, sobre as matérias do Curso de Leis: 1.° ano, 
Tit. III, Cap. X, § 60, págs. 195/6; 2.° ano, Tit. IV, Cap. IV , § 37, pág. 
244; 3.° e 4.° anos, Tít. V, Cap. III, § 49, pág. 296; 5.° ano, Tit. V I, Cap. 
IX, § 46, pág. 390; sobre as matérias do Curso de Cânones: 1° ano, Tít. 
V II, Cap' II, §§ I a 4, págs. 393 a 395; 2.° ano, Tít. V II, Cap. III, 8 § 1 e 2, 
págs. 395/6; 3.° e 4.° anos, Tít. VIU, Cap. V I, § 47, págs. 486/7 e 5.° ano, 
Tít. IX , Cap. II, § 3, pág. 493.
163
ciusões mais particulares, formadas da combinação dé maior número 
de idéias” *4. O método sintético é ainda denominado, nos Estatutos, 
compendiário e demonstrativo. Compendiário, na medida em que os 
professores devem evitar o ensino da Jurisprudência por sistemas am­
plos e difusos e demonstrativo pela ordem científica a que os profes­
sores devem obedecer na distribuição das matérias do curso 4B. Com­
pletados os estudos de Jurisprudência pelo método sintético, recebe­
riam os estudantes as lições de Jurisprudência pelo método analítico, 
método este destinado a exercitar os estudantes na aplicação dos co­
nhecimentos adquiridos nos anos anteriores e nos segredos da inter­
pretação justa dos textos jurídicos, pois “a análise dos textos, en­
quanto se achou destituída dos verdadeiros princípios e subsídios, foi 
a que brotou as falsas inteligências dos glosadores, que corromperam 
a certeza do Direito: E que a análise acompanhada dos referidos 
princípios e subsídios foi e é o único meio de restituir, e depurar a 
jurisprudência das ditas falsas opiniões, e dos erros dos Glosadores, 
e Bartolistas” 4S. Esta orientação pretendia, afastando-se das Lições 
de Irnério, Acúrcio e Bártolo, seguir as diretrizes da escola Cuja- 
ciana í7, modificando-as e adaptando-as às necessidades do progres­
so dos estudos jurídicos. Dentro desta orientação, foram adotados 
os livros de Heinécio, de Fleury, de Van-Espen, de Hertalo, Berti, 
Bachio, Martini, além das Instituições de Justiniano, e as Ordenações 
do Reino í8.
44. Estatutos, Liv. II, Tít. III, Cap. I, § 18, pág. 76.
45. Sobre o método sintético-demonstrativo-conipendiário ver Estatutos, 
Liv. II, Tít. III, Cap. I, §§ 19 a 22, págs. 76/9.
46. Estatutos, Liv. II, Tít. III, Cap. I, § 25, págs. 80/1.
47. Idem, ibidem, § 13, págs. 72/3: “Será pois a Escola da Jurisprii- 
dência, que somente se abrace, e inviolável, e uniformemente se siga por todos 
os professores, assim nas dissertações, e escritos, como nas lições públicas das 
escolas, precisamente a Escola Ciijaciana, a qual tenòo sido fundada no prin­
cípio do século XVI por André Alciato, foi depois tão adiantada por Cujádo, 
que dele tomou a denominação, com que hoje é conhecida”.
48. Sobre os Compêndios, ver as sucintas informações do Reitor da Uni­
versidade, D. Francisco de Lemos de Faria Pereira Coutinho, na “Relação 
Geral do Estado da Universidade de Coimbra desde o princípio da nova 
reformação até o mês de setembro de 1777, para ser presente à Rainha Nossa 
Senhora pelo seu Ministro e Secretário de Estado da Repartição dos Negócios 
do Reino, o limo. e E.xmo Sr. Visconde de Vila-Nova de Cerveira, dada pelo 
Bispo de Zenópole e coadjutor e futuro sucessor do Bispado de Coimbra e 
atual Reformador e Reitor da mesma Universidade”, publicada por Teófiio 
Braga in Memórias da Academia Real das Ciências de Lisboa, Classes de 
Ciências Morais, Políticas e Belas Letras, Lisboa, Tip. da Academia, 1895, 
Nova série, t, V II, Parte I, págs. 31/3.
164
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Como condições de ingresso no curso médico, exigiam-se conhe­
cimentos de latim e grego, estudos filosóficos e matemáticos: filoso­
fia racional e moral, e física, dependendo estes da freqüência de três 
anos nos cursos filosóficos e matemáticos, a fim de obter as noções 
de geometria, de história natural, de física, de mecânica e de química, 
indispensáveis ao perfeito conhecimento das matérias médicas. Além 
destas disciplinas, recomendam ainda os Estatutos, sem caráter obri­
gatório, a aprendizagem do francês e do inglês. Depois de comple­
tados os estudos menores e obtidos os certificados de conclusão nos 
cursos filosóficos e matemáticos, aos 18 anos de idade poderia inscre- 
ver-se o estudante no 1.° ano do curso médico, o qual durava cinco 
anos. Para a obtenção dos graus de licenciado e doutor era neces­
sário mais um ano de curso.
Na organização anterior à reforma, o curso médico era consti­
tuído de seis cadeiras: a de Prima compreendia seis anos de curso, 
nos três primeiros dos quais liam-se “o Tegne de Galeno, e os Livros 
de Locis Aifeciis”. No 4.° ano, estudavam-se os livros De Morbo et 
Symp tomate, no 5.°, os dois livros De Differentiis Febrium e, no 6.°, 
“os Três Livros De Simplicibus, Terceiro, Quarto e Quinto, com uma 
breve declaração dos símplices” 49. Na cadeira de Véspera, o curso 
durava cinco anos, nos quais dois anos eram dedicados aos Aforismos 
ãe Hlpócrates e o nono Ad Almansorem50. Nos anos seguintes, os 
Livros hipocráticos De Ratione Victus, Epidemias e Prognósticos61. 
Na cadeira de Avicena, o curso durava cinco anos, estudando-se nos 
três primeiros a Fen prima quarti, que tratava das febres, e Fen quarta
49. Estatutos Velhos, Liv. III, T ít V, Medicina, § 20. Cf. Compêndio 
Histórico, Parte I, Prelúdio IV , § 58, pág. 89.
50. Livro do médico árabe Razi ou Rhazes, que viveu nos fins do século 
IX e começo do X. O livro nono do seu Tratado de Medicina, oferecido ao 
caüfa AJman.sor, que era lido na Cadeira de Véspera, tendo o seguinte título: 
Liber nonus, de sauguine per os emisso tractans, in duo dívidltur capitula, 
quorum prímurn est de madis, c.ausis, signis sive accidentíbus, pronoslicatione 
sanguinisemissi per os. Capitulum secundum este de cura sanguinis mixsi per os. 
Segundo notícia de Bernardo Antonio Serra de Mírabeau, em cujo livro encon­
tramos esta informação sobre o médico árabe, existe na Biblioteca da Faculdade 
de Medicina da Universidade de Coimbra uma edição da tradução latina da 
obra. Cf. Bernardo Antonio Serra de Mirabeati, Memória Histórica e Come­
morativa da Faculdade de Medicina nos Cem Anos Decorridos desde a Re­
forma da Universidade, em 1772 até o Presente, Coimbra, Imp. da Univer­
sidade, 1872, pág. 12, nota 1.
51. Estatutos Velhos, Liv. III, Tít. V, Mediçise, § 21. Cf. Compêndio 
Histórico, Parte I, Prelúdio IV, § 58, pág. 89,
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Nota
Portugal ainda concebia a cultura árabe
primi, que versava sobre a medicação em geral. Nos dois últimos 
anos, liara-se a Fen prima primi, referente ao objeto da medicina, hu­
mores etc., e a Fen secunda primi, na qual tratavam-se das doenças e 
suas causas etc. 52. Na cadeira de Nôa, liam-se dezessete Livros de 
Galeno, De Uso Partium, durante cinco anos. O professor deveria 
ainda fazer “Anatomia de membros particulares seis vezes cada ano, 
e três gerais” 53. As demais obras de Galeno eram objeto de estudo 
das duas catedrilhas, durante cinco anos. Numa delas, nos dois pri­
meiros anos, analisavam-se os De Cmibus e De Diebus Critiás e, dos 
anos posteriores, De Naturalibus Facultatibus, De Pulsibus ad Tiro- 
nes e De Inaequali Intemperie. Na outra, Ham-se De Methodo Me- 
dendi e De Sanguirãs Missione, nos dois primeiros anos, e, nos três 
últimos, De Temperamentis, Arte Curativa ad Glaucone e Quos et 
Quando Purgare ConveniatM,
No lugar destas cadeiras, cujos lentes foram previamente jubila- 
dos w, foram estabelecidas seis cátedras a saber: a Primeira delas de 
Matéria Médica, a Segunda, de Anatomia, Operações Cirúrgicas e 
Arte Obstetrícia, a Terceira de Instituições Médico -Cirúrgicas, a 
Quarta de Aforismos, a Quinta e a Sexta de Prática, tanto de cirurgia 
quanto de medicina. Seguindo a velha tradição, estas cátedras se 
dividiam em menores e maiores, sendo as duas primeiras menores e 
as demais, maiores56. Essas cadeiras encontravam-se distribuídas 
pelo cinco anos do curso, na ordem de sua própria designação, deven­
do ainda o estudante, no 5.° ano, dedicar-se à prática no hospital, sob 
a direção da Quinta e Sexta Cadeiras57. Destas seis cadeiras, foram
52. Estatutos Velhos, Liv. 111, Tít. V, Medicina, § 22. Cf. Compêndio 
Histórico, Parte I, Prelúdio IV, S 58, pág. 89. Sobre o estudo das obras de 
Avicena e a sua característica distribuição, cm um certo número de Fen e estas 
em tratados e capítulos e a indicação das matérias seles contidas, ver Bernardo 
Antonio Serra de Mirabeau, ob. cit., pág. 12, nota 2.
53. Estatutos Velhos, Liv. III, Tít. V, Medicina, § 23. Cf. Compêndio 
Histórico, Parte 1, Prelúdio IV, § 58, págs. 89/90.
54. Estatutos Velhos, Liv. III, Tít. V, Medicina, §§ 24 e 25. Cf. Com­
pêndio Histórico, Parte I, Prelúdio IV, § 58, pág. 90.
55. Portaria de 28 de setembro de 1772. Ver M. Lopes D ’Almeida, 
Documentos da Reforma Pombalina, X, págs. 12/3.
56. Estatutos da Universidade de Coimbra, Liv. III, que contêm os Cursos 
das Ciências Naturais e Filosóficas, Lisboa, na Régia Oficina T ip, 1773, Curso 
Médico, Parte I, Tít. II, Cap. III, § 1, págs. 33/4.
57. Cf. nos Estatutos, Líy. II, Tit. III, Caps. I a V, págs. 39 a 10S, nos 
quais se encontram as matérias do curso médico distribuídas pelos cinco anos, 
com as recomendações sobre o modo de ensiná-las.
166
providas, inicialmente, apenas quatro, pois de acordo com os despa­
chos de 3 de outubro de 1772, não há qualquer referência à nomea­
ção dos professores da cátedra de Aforismos e de uma das cadeiras 
de Prática B8. Todavia, no ano de 1777, de acordo com as sumárias 
indicações da Relação Geral de D. Francisco de Lemos, todas as ca­
deiras já sc encontravam devidamente providasr'9.
A organização dos estudos médicos, na Reforma de 1772, consti­
tuiu, sem dúvida, um dos aspectos mais felizes da renovação pedagó­
gica universitária planejada pela Junta de Providência Literária. A 
lúcida concepção metodológica, as radicais transformações por que 
passou a Faculdade médica e as providências determinadas com o ob­
jetivo de nobilitar a profissão, se, por um lado, testemunham, indire­
tamente, o atraso em que se achavam os estudos médicos, patenteiam, 
por outro, os cuidados que presidiram a estruturação dos cursos no­
vamente instituídos. A articulação dos estudos médicos com as au­
las das Faculdades de Filosofia e Matemática demonstra, por si só, o 
elevado espírito por que se traduziu, no setor em apreço, a Reforma 
de 1772. Ao estudo meramente livresco dos tratados de Galeno e 
Aviceno, substituíram os reformadores uma concepção na qual a se­
gurança metodológica, a base das ciências experimentais e os exer­
cícios práticos se faziam sentir como o organon fecundo dos novos 
estudos. Seguindo as sugestões de Sachetti Barbosa, Ribeiro San­
ches, Domingos Vandeli e Miguel Franzini, a Junta de Providência 
Literária colocou, no lugar da medicina de Avicena, Galeno e Razi, 
a tradição hipocrática renovada por Hermann Boerhaave. Pot este 
motivo, figuravam como livros básicos do curso médico ao lado do 
Compêndio de Anatomia de Hister e dos trabalhos de Chrantz sobre 
Matéria Médica, os Aforismos de Hipócrates e de Boerhaave e os li­
58. De acordo com os despachos do Marquês Visitador, foram designados 
nesta data o Bel. Antonio José Pereira, para a cadeira de Instituições Médico- 
Cirúrgicas, juntamente com um substituto com privilégio de lente, Dr. .Manoel 
Antonio Sobral; Dr. Simão Goud, para a cadeira de Prática Cirúrgica e Mé­
dica; Dr. José Francisco Leal, para a cadeira de Matéria Médica; Dr. Luiz 
Cichi, para a cátedra de Anatomia, Operações Cirúrgicas e Obstetrícia, para a 
qual foi designado também o demonstrador José Correia Picanço. Cf. M. 
Lopes D ’Almeida, Documentos da Reforma Pombalina, X II, X III e XIV, págs. 
14 a 16.
59. Cf. “Relação Geral do Estado da Universidade de Coimbra”, cit., 
pág. 50.
i ê 7
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Realce
vros de Albert von Haller, discípulo e comentador do médico holan­
dês «o.
As Faculdades de Matemática e de Filosofia completavam a or­
ganização da Universidade de Coimbra. Ambas diferençavam-se das 
demais pelo duplo destino de seus cursos. Havia no curso de Filo­
sofia duas categorias de estudantes: a dos Ordinários, constituída de 
alunos que se aplicavam aos estudos filosóficos com o objetivo, seja 
“desinteressado”, seja com a preocupação de ingressar na carreira 
universitária, e a dos Obrigados, formada pelos estudantes que “de­
verão necessariamente estudar; ou toda a filosofia; ou parte dela, co­
mo subsídio e preparação para as Faculdades, a que se destina­
rem” 01. No curso matemático, a estas duas classes de estudantes, 
Ordinários e Obrigados, acrescentavam os Estatutos uma terceira, a 
dos Voluntários, que compreendia todos os estudantes que por não 
“se destinarem às sobreditas Faculdades; nem se acharem com forças, 
e gênio para estudar a matemática de profissão” .. . quisessem “ins­
truir-se por curiosidade em qualquer das partes dela, para ornamen­
to de seu espírito, como muito convém a todas as classes de pessoas, 
e principalmente à nobreza” 62. A classe dos Obrigados compreen­
dia: os estudantes que se destinavam ao curso médico e que necessi­
tavam de três anos de estudos matemáticos; os candidatos aos cursos 
teológicos e jurídicos, para os quais se exigia um ano de Elementos de 
Geometria, estudo este que poderia ser realizado coocomitantemente 
com as aulas do curso filosófico a que estavam igualmente obriga­
dos
As condições para habilitação dos estudantes ao curso filosófico 
consistiam no seguinte: curso completo de humanidade, grego e 14 
anos de idade,além das exigências a respeito da vida e costumes dos 
estudantes, exigências estas observadas em todos os demais cursos 
como condição preliminar de acesso aos estudos maiores. O curso
60. Sobre Albert von Haller ver A. Castiglioni, Histoíre de la Mêãicine, 
trad francesa de I. Berírand e F. Gidon, Paris, Payot, 1931, págs. 499/501.
61. Eslatuios da Universidade de Coimbra, Liv. III, Parte III, Curso 
Filosófico, Tit. I, Cap. III, § 2, pág. 332,
62. Idem, Parte II, Curso Matemático, Tít. II, Cap. I, § 8, pág. 226. 
Sobre a categoria dos estudantes Ordinários e Obrigados ver, no capítulo citado, 
§§ 2 a 7, págs. 224/6.
63. Os estudantes que pretendiam ingressar no curso teológico ou jurídico 
deveriam seguir as aulas de Elementos de Geometria no 2.° ano de estudos, 
juntamente com as de História Natural do 2.° ano do Curso Filosófico, Cf. 
Estatutos, Liv. III , Parte II, Tít. H Cap. I, § 6, pág. 225.
168
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Realce
filosófico, no regime anterior, era realizado no Colégio das Artes de 
Coimbra e compreendia todas as disciplinas do programa escolástico- 
jesuítico. Na Reforma de 1772, o ensino filosófico, sem deixar de 
constituir matéria propedêutica indispensável aos estudos médicos, 
teológicos e jurídicos, se transformou num curso de nível superior, 
como hoje diríamos. Significativo, porém, é que as matérias de seu 
currículo, pela sua própria natureza, estavam muito distantes das 
preocupações sistemáticas que, até então, prevaleciam nas escolas por­
tuguesas deste tipo. As diretrizes que a Junta de Providência Lite­
rária deu à Faculdade recém-instituída, caracterizam muito bem o es­
pírito que animou a reforma. Pelos Estatutos, foram criadas qua­
tro cadeiras: a Primeira, de Filosofia Racional e Moral; a Segunda, 
de História Natural; a Terceira, de Física Experimental e a Quarta, 
de Química Teórica e Prática M. O ensino destas cadeiras durava 
quatro anos e foi distribuído pela ordem de sua numeração, sendo 
que, no 2.° ano, juntamente com as aulas de História Natural, deve­
riam receber os estudantes artistas as lições de Geometria Elementar, 
no curso geral da Faculdade de Matemática.
Por Decreto de 27 de setembro de 1772, o Marquês de Pombal, 
por ocasião de sua visita à Universidade de Coimbra, designou o Prof. 
Antonio Soares para a cadeira de Lógica, Metafísica e Ética, e Do­
mingos Vandeli para as cadeiras de História Natural e Química. 
Posteriormente, foi nomeado para a cadeira de Física Experimental 
João Antonio Dallabella ®®. Os livros adotados no curso eram os de 
Lineu, para História Natural, o Compêndio de Muskaem Broeck, 
para a cadeira de Física Experimental, e o Compêndio de Genuense 
para a cadeira de Lógica, Metafísica e Ética66. Sobre a orientação
64. Estatutos-, Liv. III, Parte 111, Tít. II, Cap. III, § 1, pág. 338.
65. Sobre os professores do curso filosófico, cf. M. I-opes D’Almeída, 
Documentos da Reforma Pombalina, V III, pág. 10. Ver ainda a “Relação dos 
lentes que El-Rei Nosso Senhor foi servido prover nas cadeiras novamente cria­
das na nova fundação da Universidade de Coimbra, por despachos de 11 a 28 
de setembro de 1172”, existente i?a Biblioteca da Academia de Ciências, Papéis 
Vários, vol X X V III, publicada por Teófilo Braga, História da Universidade 
de Coimbra, t. III, págs. 421 a 424, Na “Relação Geral sobre o Estado da 
Universidade de Coimbra”, de 1777, consta o nome do Dr. João Antonio 
Dallabella como professor de Física Experimental. Cf. Relação, cit., pág. 58. 
O Prof. Dallabella foi designado para a Universidade em 1772, segundo consta 
de uma carta do Marquês de Pombal ao Reitor D . Francisco de Lemos, datada 
de 27 de novembro do mesmo ano, cf. M. Lopes D ’Almeida, ob. cit., X XXV III, 
pág. 63.
66. Cf. “Relação Gera! do Estado da Universidade de Coimbra”, loc. cit.
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filosófica, é oportuno lembrar aqui o ofício enviado peio Marquês 
de Pombal ao Reitor da Universidade de Coimbra, em 23 de setem­
bro de 1773, sobre as emendas a serem feitas na edição das obras 
de Antonio Genovese. Sinal característico da exagerada preocupa­
ção de combater Aristóteles são os termos do referido documento: 
“Logo no Parágrafo Terceiro, escreve o Marquês de Pombal refe­
rindo-se às Instituições da Lógjca e da Metafísica de Genuense, dos 
Prolegômenos se contém as palavras que vão canceladas por Mim; e 
que creio se podem, e devem omitir na impressão, que novamente se 
fizer, Porque ainda que vejo que neste Compêndio se trata somen­
te da Lógica, e não da Metafísica, em que o Estatuto da Universi­
dade impugnou Aristóteles; sempre o nome de um filósofo tão abo­
minável se deve procurar, que antes esqueça nas Lições de Coimbra 
do que se presente aos olhos dos Acadêmicos como um atendível Co- 
rifeu da Filosofia, Além de que não é tão certo, como Genovese o 
diz, que Aristóteles desse as mais Completas Regras desta Arte. Nem 
isto se pode dizer no tempo de hoje, no qual as regras mais seguras 
são as que mais se apartaram do mesmo Aristóteles” 6T. Os com­
pêndios de Genuense propugnavam, no domínio filosófico, por um 
ecletismo moderado, do qual não estão ausentes as preocupações mais 
características da ideologia iluminista.
O curso da Faculdade de Matemática, muito semelhante ao 
da Faculdade de Filosofia, exigia, como condição de ingresso, estu­
dos de humanidades e, principalmente, de língua latina, filosofia 
racional e moral, além do conhecimento não obrigatório das lín­
guas francesa e inglesa. Nele ingressava o estudante aos 15 anos de 
idade, e devia, no 1.° ano, ouvir, no curso filosófico, as aulas de 
História Natural e, no 2.° ano, de Física Experimental, sem o que 
não lhe seria permitida a matrícula no 3.° ano 68, O curso tinha 
a duração de quatro anos e os estudos distribuíam-se por quatro 
cadeiras: Geometria, Cálculo, Ciências Físico-Matemáticas e Astro­
nomia. No 1,° ano, os estudantes aprendiam a Geometria, pelos 
Elementos de Eucliãest com o Prof. José Anastácio da Cunha, 
e História Natural, com Domingos Vandeli. No 2,° ano, Cálculo, 
compreendendo Análise Infinitesimal e Integrai, pelo Compêndio de 
Bezont, com o Prof. Miguel Franzini, No 3.°, pela Mecânica de 
Marie, com o Prof, José Monteiro da Rocha, estudavam Ciências Fí­
67. M, Lopes IXAlmeida, Documentos da Reforma Pombalina, XLV1II, 
pág. 76.
68. Estatutos, Liv. III, Parte II, Tít. II, Cap. III, § 5, pág. 231. Sobre 
as condições de ingresso ver, no mesmo capítulo, §§ 1 a 4, págs. 229/31.
170
Rubens
Realce
sicas e Matemáticas, compreendendo a Mecânica e a Ótica, em todos 
os seus ramos, sob a designação de Foronomia. Finalmente, no 
4.° ano, com o Prof. Miguel Antonio Ciera, pelo Compêndio de La- 
cailhe, aprendiam Astronomia 89.
O curso de matemática, na Reforma de 1772, teve amplitude 
e alcance excepcionais. O número de cadeiras e a sua seriação, o 
programa para elas traçado pela Junta de Providência Literária, ou­
vindo especialistas, e os professores que ocuparam as cátedras, tudo 
isto se destinava a trazer o progresso a uma ordem de estudos da 
qual tanto dependiam os interesses políticos e econômicos do país. 
Foram, sem dúvida, esses interesses que prevaleceram na instituição 
de uma cadeira de Matemática na Universidade dos tempos ante­
riores à Reforma™. Entretanto, o abandono em que praticamente 
ficaram as ciências experimentais impediu que os estudos mate­
máticos se desenvolvessem de tal forma que as artes militares e de 
construção pudessem propiciar ao país os seus enormes benefícios. 
Criando quatro cadeiras na Faculdade de Matemática e incentivando 
a nobreza para esses estudos, os elaboradores dos Estatutos da Uni­
versidade de Coimbra perceberam muito bem as vantagens que advi­
riam do progresso de semelhantes estudos.
69, Sobre os professores, ver M. Lopes D ’Almeida, Documentos da 
Reforma Pombalina,V II, págs. 9/10 Sobre os Compêndios, ver Relação 
Gerai do Estado da Universidade de Coimbra, pág. 47. A indicação de José 
Anastácio da Cunha íoi de data posterior. A 5 de outubro de 1773, escrevia 
o Marquês de Pombal a D . Francisco de Lemos, sobre o ílustre matemático: 
“o dito militar é tão eminente «a ciência matemática, que tendo-o eu destinado 
para ir à Alemanha aperfeiçoar-se com o Marechal General, que me tinha 
pedido dois ou três moços portugueses para os tornar completos, me requereu 
o Teneute-general Francisco Marican qtie o não mandasse, porque ele sabia 
mais que a maior parte do que os Marechais de França, de Inglaterra e de 
Alemanha, e que é um daqueles homens raros que nas nações cultas costumam 
aparecer. Sobre estes e outros igualmente autênticos testemunhos foi provido 
na primeira cadeira do curso de matemática, atendendo a que nela não podem 
os professores das cadeiras maiores ensinar este ano tendo-a regido no prece­
dente”. Apud Francisco de Castro Freire, Memória Histórica da Faculdade 
de Matemática nos Cem Anos Decorridos desde a Reforma da Universidade, 
em 1772, até o presente, Coimbra, Imp. da Universidade, 1872, pág. 34.
70 Estatutos Velhos, Liv. III, Tít. V, Matemática, § 27: “Haverá uma 
cadeia de matemática por ser ciência importante ao bem comum do reino, e 
navegação, e ornamento da Universidade”, Cf. Compêndio Histórico, Parte I, 
Prelúdio IV , § 58, págs. 90/1.
171
Rubens
Realce
III
A reforma dos estudos da Universidade de Coimbra, nos seus 
aspectos mais significativos, traduz um esforço de integração da ideo­
logia iluminista na vida intelectual portuguesa do século XVIII. 
Sem arriscar-se pelos perigosos caminhos que a consciência filosó­
fica européia ensaiava nos múltiplos setores do conhecimento, os 
reformadores da Universidade, seoi deixar de atender aos imperati­
vos do progresso científico e doutrinário da época, se decidiram à 
transformação radical da tradicional instituição universitária portu­
guesa. Entre as sugestões do pensamento avançado de algumas das 
mais expressivas figuras do século e o respeito aos valores do pas­
sado, a Junta de Providência Literária procurou uma direção que, 
pelos ideais de uma filosofia característica, traduzisse, de maneira 
satisfatória, um programa de recuperação e de emancipação mental 
da gente lusitana. O espírito escolástico das disputas e das cons­
truções meramente verbais, divorciadas da realidade, encontrou, no 
Compêndio Histórico da Universidade de Coimbra e nos Estatutos, 
uma das mais audaciosas e decididas impugnações. A Universi­
dade, esquecidos os anos de esplendor, se afundara no formalismo 
dos processos escolares, sem espírito e sem finalidade. A vida da 
cultura, como expressão e meio do progresso e da felicidade huma­
nos, se transformara numa questão de graus acadêmicos a serem 
obtidos sem muito trabalho, por todos aqueles que ambicionavam 
alcançar os altos cargos na administração civil e eclesiástica. Os 
índices de matrícula nas diversas Faculdades da Universidade de 
Coimbra foram aumentando de qüinqüênio a qüinqüênio, desde 
1573 até 1769, com pequenas quebras periódicas, de tal forma que, 
no qüinqüênio 1764-1769, anterior à reforma pombalina, a matrí­
cula atingia o expressivo número de 20.453 estudantes, assim dis­
tribuídos: Teologia, 566, Medicina, 996, Leis, 2.493, Cânones, 
16.398 n . Tais índices, num pais que sempre se via a braços com 
o problema da falta de elementos para suas empresas militares, dos 
quais tanto dependia a conservação do reinado, testemunham o sin­
toma da hipertrofia a que havia alcançado a procura da Universidade 
pela população letrada.
71. Antonio de Vasconcelos, Escritos Vários Relativos à Universidade 
Dionisiana, Coimbra Ed., 1941, Secção III, B, Mapas Estatísticos, 1) Estatís­
tica das matrículas efetuadas na Universidade de Coimbra durante dois séculos, 
págs. 120/1.
172
Rubens
Realce
Agravava ainda mais esta situação o fato de os estudos universi­
tários, presos à rotina e aos processos obsoletos, não corresponde­
rem mais às condições de vida da época. Compreende-se por este 
motivo o grande empenho com que os reformadores procuraram 
substituir, no lugar do ensino escolástico, as novas ciências da na­
tureza. D. Francisco de Lemos, membro que foi da Junta de Pro­
vidência Literária e Reitor da Universidade de Coimbra, no período 
posterior à implantação da reforma, sabia não só que o progresso 
do pais dependia, em grande parte, do aproveitamento dos mais ca­
pazes entre todos os que houvessem cursado os estudos universitá­
rios, mas também que o desenvolvimento dos estudos científicos só 
alcançaria o objetivo almejado se os graduados pela Universidade 
fossem aproveitados pelo poder público nos cargos que exigiam qua­
lificação universitária. “Todas as ciências têm fins reais e de grande 
utilidade para o Estado” — dizia, na sua Relação Geral, D. Fran­
cisco de Lemos. “Para se conseguirem estes fias se mandam ensinar 
e aprender nas Universidades” vz. Por este motivo, insistia o Reitor, 
nesse documento, na necessidade de se ampararem com cargos de 
diversas naturezas, instituídos ou a serem criados, todos os gra­
duados pelas novas Faculdades, da mesma forma que já se prati­
cava com os teólogos, canonistas e advogados. Somente o sábio 
aproveitamento dos matemáticos, filósojos e médicos poderia pro­
porcionar à nação seguros rumos aos seus empreendimentos. Não 
teve, portanto, a Reforma de 1772 um aspecto de mera renovação 
da cultura lusitana; seus objetivos mais significativos relacionam-se 
com os propósitos de integração do programa cultural no quadro da 
vida social e política portuguesa.
Dentro desta concepção, os estudos filosóficos, monásticos e 
médicos deveriam passar por uma profunda transformação. Não se 
tratava mais de uma leitura de longos tratados sistemáticos sobre 
estas disciplinas, durante vários anos de estudos. A teoria deveria 
estar ligada à prática, e a filosofia, longe de ser um sistema que 
servisse de base aos estudos maiores, se convertia numa atitude e 
num método de pensamento. As três Faculdades deveriam entro­
sar-se de tal forma que “entre as ciências, como entre as virtudes” 
houvesse, como pretenderam Cícero e Quintiliano, “um certo nexo 
e sociedade, com que todas mutuamente se ajudam e nenhuma pode 
separar-se da outra, sem arruinar-se ou fazer disforme o seu edifí­
72. “Relação Geral do Estado da Universidade de Coimbra”, cit, 
pág. 50.
cio” 73. Este ideal de unidade no trabalho científico é característico 
do pensamento iluminista, na medida em que ele indisfarçavelmente 
traduz a concepção da unidade de um princípio, a ser buscada pelos 
caminhos da própria investigação das leis da natureza. E foi exa­
tamente esta concepção que justificou os preceitos recomendados 
nos Estatutos, por meio dos quais o estudo médico deveria tornar-se 
empírico-racional. A ciência médica deveria estar tão distante do 
puro empiricismo como das especulações arbitrárias do racionalis- 
mo. A teoria médica não se fundamentaria, portanto, “em hipó­
tese, ou sistema algum antigo, ou moderno, a cujo serviço se sacri­
fiquem as observações, e experiências por meio de explicações for­
çadas e somente imaginadas a fim de não deixar à natureza des­
mentir a opinião, que antecipadamente se abraçou: nem também no 
sincretismo de diferentes Sistemas, procurando reconciliá-los entre 
si, e confundindo princípios diversos em prejuízo maior do bem 
público, do que o mesmo qué tem resultado dos ditos Sistemas: nem 
finalmente no ecletismo vago que tem feito tão grande ruína nas 
letras; tomando cada um a liberdade de escolher as opiniões, e pro­
babilidades do seu gosto; e sendo este tão estragado na maior parte 
dos ecléticos, que não fica opinião alguma tão absurda, extrava­
gante, e insensata que não agrade a algum deles” 74. A teoria mé­
dica deveria fundar-seno maior número possível de experiências, 
cuidando todavia de evitar o grosseiro e sofistico raciocínio, tão 
comum na arte médica, post hoc, ergo propter hoc. O médico de­
verá amparar-se nos recursos que lhe fornecem as ciências naturais, 
mas sobretudo procurará imitar o exemplo de exatidáo das verdades 
físicas e matemáticas.
Esta valorização da experiência traduz uma atitude que, no 
seu íntimo significado, se ajustava perfeitamente ao espírito de com­
bate à tradição escolástica até então imperante. O reduzido lugar 
ocupado pelas disciplinas propriamente filosóficas de lógica, meta­
física e filosofia moral, e a importância conferida aos estudos expe­
rimentais testemunham até que ponto os reformadores da Universi­
dade se insurgiram contra todas as fonnas de pensamento sistemá­
tico. Aristóteles, Galeno, Avicena e todas as autoridades que ser­
viam de base aos estudos universitários se apresentavam como os 
principais fatores c as mais altas expressões da decadência do en~
73. Compêndio Histórico, Parte II, Cap. III, § 4, pág. 313.
74. Estatutos da Universidade de Coimbra, Liv. III, Parte I, t H, Cap.
II, § 5, pág. 27.
174
Rubens
Realce
sino português. Por este motivo, a experiência era um refúgio e 
o ecletismo, criteriosamente construído, a solução capaz de irma­
nar, numa aspiração única, o múltiplo trabalho das investigações 
positivas. Tão significativo era este ecletismo que, sem advertir 
as conseqüências filosóficas que fatalmente adviriam, recomendavam 
os reformadores, no Compêndio Histórico, o estudo da ontologia 
como prolegômeno de todas as ciências, pois somente por seu in­
termédio poderiam ser definidos os conceitos de natureza, essência, 
causa, efeito, necessário, contingente, perfeito, imperfeito etc. 78, in­
dispensáveis à investigação natural.
Compreendendo muito bem que o trabalho científico não se re­
sumia numa simples interpretação de textos, mas na inteligente ob­
servação dos fatos naturais, a administração pombalina organizou, 
na Universidade, o gabinete de física experimental, transferindo-o 
do Colégio dos Nobres, de Lisboa, para Coimbra, e aumentando o 
número de seus aparatos. Criou ainda o Observatório, o Jardim 
Botânico, o Laboratório Químico e o Teatro de Anatomia. Com 
estes recursos, o ensino filosófico deixava de ser um simples comen­
tário dos livros, para se transformar no caminho de uma investiga­
ção no próprio teatro da natureza, como se expressava D. Fran­
cisco de Lemos numa carta ao Marquês de Pombal76. A expe­
riência que tanto apregoavam os Estatutos não era, portanto, uma 
simples figura literária e nem tampouco o meio de que lançaram 
mão os reformadores para demonstrar, num quadro sombrio, o es­
tado a que o ensino escolástico havia lançado a tradicional Uni­
versidade. A valorização do trabalho científico, por intermédio do 
reconhecimento do seu alcance e utilidade, foi sem dúvida um dos 
propósitos comuns dos autores iluministas. Nenhuma restrição de 
ordem doutrinária fizeram os membros da Junta áe Providência Li­
terária às diretrizes por que se elaboraram os planos dos cursos mé­
dico, matemático e filosófico. Ê verossímil acreditar, entretanto, 
diante de inúmeros passos do Compêndio Histórico, que, entre a 
concepção que presidiu à estruturação desses cursos e a que animou 
o planejamento dos estudos teológicos e jurídicos, havia um abismo 
causado pela contraditória noção da natureza da filosofia. Para o 
teólogo e o jurista, a filosofia devia ser a base e o fundamento de 
sua formação. Para os naturalistas, ela seria o espírito e o pro­
75. Compêndio Histórico, Parte II, Cap. III, § 14, pág. 318.
76. Carta de 2 de novembro de 1772, apud Teófiio Braga, História da 
Universidade de Coimbra, t. D l, págs. 443/4.
175
cesso de uma atitude cognoscitiva em busca da verdade, não como 
ponto de partida, mas como meta. Somente esta contradição ex­
plica o fato de o ecletismo, repudiado nos Estatutos como diretriz 
dos estudos médicos, ser expressamente recomendado na lógica e 
na própria filosofia, da mesma forma que se compreende o lugar 
conferido à ontologia como prolegômeno a todas as ciências, quan­
do a investigação natural de há muito se afastara dos conceitos com 
implicações metafísicas, que tantos prejuízos causavam ao progresso 
das ciências.
A filosofia, no sistema pedagógico do pombalismo, foi uma 
concepção vaga e insegura quanto aos fins, embora no que se re­
fere às aquisições positivas perfeitamente ajustada ao estado em 
que se encontravam, no tempo, as investigações científicas. Vaga 
e insegura quanto aos fins porque nela não transparecem as fecun­
das contradições que, nos diversos setores do conhecimento, o pro­
gresso do trabalho científico, por força de sua própria lógica inter­
na, acarretara para a consciência filosófica do século XVIII. A 
contradição entre a razão e a experiência, com todas as suas múl­
tiplas implicações no terreno especulativo e prático, não encontrou 
o menor eco na doutrina do Compêndio Histórico e dos Estatutos 
da Universidade de Coimbrat porque essa doutrina resultou de um 
esforço de eliminação das diferenças e conflitos de princípios e con­
seqüências, na fecunda ideologia do século XVIII. Compreende-se, 
desta forma, que o ecletismo se transformasse na solução ideal dos 
problemas filosóficos. Todavia, este ecletismo, para tomar-se um 
corpo sistematizado e coerente, necessitava de um critério em função 
do qual pudesse estabelecer-se. Na esfera da investigação natural 
e matemática, este problema prévio foi afastado, porque a própria 
natureza destas investigações trazia consigo as regras de sua efeti­
vação. No domínio dos estudos teológicos, este critério teve de ser 
previamente estabelecido. E é neste setor que encontramos os ele­
mentos mais significativos para a compreensão do pombalismo en­
quanto manifestação típica do iluminismo português.
Na organização dos estudos jurídicos, a reforma pombalina se 
caracterizou, sobretudo, por três diretrizes fundamentais: a restau­
ração, sob novas bases, do direito natural, a introdução dos estudos 
históricos das leis e das instituições, como ponto de partida para a 
compreensão do corpo jurídico, e, finalmente, a substituição, no 
ensino, do método analítico de Bártolo pelo método sintético da es­
cola Cujaciana. Estes três aspectos, na sua finalidade íntima, inte­
gravam-se nos propósitos da ideologia absolutista que a força dos 
acontecimentos políticos reclamavam. O direito natural, recomen­
dado pelo Compêndio Histórico e pelos Estatutos, se filiava à tra­
dição de Grócio e Pufendorf, desprezando a contribuição enorme 
dos juristas da Segunda Escolástica. Lembrando as impugnações 
que a doutrina do autor do De Juri Belli ac Paeis sofrerá por parte 
dos autores católicos, o Compêndio Histórico insiste, particular­
mente, nas vantagens que adviriam da adoção de um jusnaturalismo 
que se inspirasse, expurgado de suas implicações teológicas, nos en­
sinamentos da orientação grociana. O direito natural dos jesuítas 
não poderia, de forma alguma, satisfazer os ideais políticos do abso- 
lutismo do gabinete de D. José I. Fundamentado no primado das 
verdades teológicas sobre as canônicas e das leis canônicas sobre 
as civis, a concepção jurídica que prevaleceu na Universidade de 
Coimbra não poderia corresponder às diretrizes pelas quais tanto se 
empenhara a administração pombalina nas disputas contra a Cúria 
Romana. Por este motivo, a concepção do direito deveria basear- 
se na idéia segundo a qual o poder dos reis emana diretamente de 
uma ordem natural que tinha em Deus o seu supremo fiador. Esta 
equação básica, claramente sustentada na Petição de Recurso, pelo 
Procurador da Coroa, José de Seabra da Silva, contra a introdução 
da Bula da Ceia e dos índices Expurgatórios Romano-Jesuiticas em 
Portugal, foi também sustentada, na Parte I, Divisão Oitava, da De­
duçãoCronológica, onde se diz, recapitulando os sucessos relaciona­
dos com a adoção dos referidos índices, que nenhum monarca por­
tuguês podia “abdicar, ou permitir que se lhe usurpasse a indepen­
dência temporal da sua Coroa; e a defesa e proteção da autoridade 
da sua soberania, e do sossego público dos seus vassalos; por serem 
coisas inerentes à Majestade, que é a mesma em todos os sobera­
nos, emanada imediatamente de Deus Todo-Poderoso, livre, abso­
luta, e sem admitir sujeição temporal a pessoa alguma criada; como 
são primeiros princípios, de que sô duvida infelizmente a Cúria de 
Roma, com tantas quebras da sagrada reputação em que todos os 
fiéis católicos desejaríamos ver os Ministros do Vigário de Cristo 
Senhor Nosso, e Cabeça Visível da Santa Madre Igreja, da qual 
foram sempre os Senhores Reis deste Reino devotíssimos filhos” 71. 
Todavia, tão claras manifestações não significam que o conceito do 
direito natural, defendido no Compêndio Histórico, seja o mesmo 
que os maquiavelistas e monarcômacos construíram na órbita do di­
77. Dedução Cronológica, Parte I, Divisão Oitava, § 280, pág. 146.
177
reito público universal: “As sólidas regras, e os inalteráveis princí­
pios da mesma disciplina confundem inteiramente as duas pernicio­
sas seitas dos impios monarcômacos, e maquiavelistas, que por di­
ferentes caminhos conspiram ambos para dissolver, e romper a aper­
tada, e indissolúvel união dos vassalos com os monarcas, com a 
qual prosperam e florescem as monarquias” 78, O direito natural 
seria, portanto, muito menos um sistema de verdades estabelecidas 
do que um instrumento a serviço da boa interpretação das leis. No 
lugar da hermenêutica dos interpretadores que procuravam, nos arti- 
ficiosos recursos dialéticos de que careciam para interpretar capri­
chosamente as leis, pretenderam os homens de Pombal erigir o di­
reito natural como critério da boa razão que deveria prevalecer na 
justa exegese dos textos jurídicos. A força das leis dependia, por­
tanto, não apenas da tradição e das autoridades, mas ainda das 
próprias luzes da razão que, ua diversidade dos sistemas jurídicos, 
descobriam o princípio único e inconcusso que, sob diferentes mani­
festações, aparecia com a força de sua evidência. Antes da reda­
ção do Compêndio Histórico e dos Estatutos da Universidade de 
Coimbra, já se adiantara a administração pombalina no caminho de 
uma nova compreensão dos fatos jurídicos. A Lei de Boa Razão, 
de 18 de agosto de 1769, formulava os princípios básicos da juris­
prudência que deveriam, anos depois, se transformar no programa 
pedagógico de 1772, no setor dos estudos jurídicas. Nesta lei, diz 
o Prof. Cabral de Moncada, “se definem, mais uma vez, a ética, o 
direito natural e o das gentes como modalidades distintas mas con- 
cordantes da mesma razão natural, chamada a boa razão, tomada 
como critério supremo da justiça intrínseca de todas as leis” T9. No 
direito natural, que a Reforma de 1772 tanto encareceu, a idéia da 
imutabilidade do direito, como critério para a justa apreciação dos 
fatos jurídicos, constitui, sem dúvida, um dos elementos mais sig­
nificativos para a compreensão dos fins da ideologia pombalina. O 
direito natural era uma das manifestações da ética, compreendida 
esta no sentido amplo como ciência do homem 80. São inúmeros os
78. Compêndio Histórico, Parte II, Cap. II, § 154, pág 216
79. Cabral de Moncada, Extudos de História do Direito, vol. I, O “Século 
XVTII na Legislação de Pombal”, pág. 100. Este artigo apareceu, primitiva­
mente, no Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vol, 
IX , 1926.
80. Só a filosofia moral “mereceu e conseguiu a antonomásia de ciência 
do homem”. Compêndio Histórico, Parte II, Cap. II, § 59, pág 171, in fine,
178
passos, no Compêndio Histórico, que se referem ao direito natural 
como parte da ética. Aliás, já Grócio definia a lei como “uma regra 
dos atos morais que obriga ao que é justo” S1, distinguindo desta 
forma a sanção moral interna da externa, especifica da lei, Tomaz 
Antonio Gonzaga, num tratado que se encontra na Coleção Pomba­
lina da Biblioteca Nacional de Lisboa, como homem do seu meio e 
de seu tempo, traduziu melhor o espírito do absolutismo ímperante 
ao preferir à de Grócio a definição de Einécio: “a lei é a regra 
dos atos morais prescrita pelo superior aos súditos para os obri­
gar” 82. A ordem moral constitui o pressuposto da vida jurídica, 
em todas as suas múltiplas manifestações, e o direito natural é a 
expressão mais alta da ética e as suas leis não são outra coisa senão 
formas obrigatórias e externas de coerção aos atos humanos.
Compreendendo o direito natural como uma parte da ética, 
nem por isso os homens de Pombal deixaram de entendê-lo como 
um critério para a interpretação das leis, “O jurista, recomendava 
o Compêndio Histérico, que quiser aproveitar o seu estudo, há de 
trazer de dia, e de noite em uma mão os Anais da História, e em 
outra o Código das Leis Naturais; Este para lhe servir de farol 
na interpretação de todas as leis positivas, canônicas, ou civis que 
se conformam com a razão natural; as quais só por ela se podem 
explicar.., Aqueles para lhe ilustrarem o espírito na inteligência 
das leis, em que os legisladores se apartam das ditas leis naturais, 
ampliando-as ou restringindo-as por meio das modificações neces­
sárias” ss. O direito natural e a história do direito romano e pátrio, 
civil e canônico, constituíam, desta forma, os guias indispensáveis 
ao jurista nos difíceis problemas da hermenêutica, Esta posição 
define uma atitude de valorização dos princípios racionais do di­
reito c, ao mesmo tempo, de compreensão histórica dos fatores de 
que surgiram as leis jurídicas e as instituições delas, até certo ponto, 
dependentes. A boa razão, diz a lei de 18 de agosto de 1769, “con­
siste nos primitivos princípios, que contêm verdades essenciais in­
trínsecas e inalteráveis, que a ética dos mesmos romanos havia es-
81. De Juri Beüi ac Pacis, 1.1; Cap. I; § S>, n.° 1, apud Lourival Gomes 
Machado, O Tratado de Direito Natural de Tomaz Antonio Gonzaga, tese 
apresentada ao concurso de Livre-docênda de Política da Faculdade de Filo­
sofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, São Paulo, 1949, 
pág. 131 e nota.
82. Apud Lourival Gomes Machado, ob. cit., pág. 131.
83. Compêndio Hixtórico, Parte II, Cap. II, § 185, págs. 236/7.
179
tabelecido e que os direitos divino e natural formalizaram para ser-f 
virem de regras morais e civis entre o cristianismo” 84. 1
O conhecimento da história, como propedêutica indispensável | 
aos estudos humanísticos, filosóficos, jurídicos e teológicos, foi pre- 1 
conizado por Verney no Verdadeiro Método de Estudar. Nos Es- 1 
tatutos da Universidade de Coimbra, adotou-se, sem relutância, essal 
diretriz, quer seja nos domínios da teologia, do direito ou da própria f 
medicina. Entretanto, onde mais se encareceram as vantagens dos : 
estudos históricos foi no domínio dos estudos teológicos e jurídicos. 1 
A história das instituições surgiu aos olhos dos reformadores da Uni- | 
versidade como um elemento destinado a corrigir os abusos do arti- J 
ficialismo verbal dos escolásticos e a orientar cs espíritos para as | 
noções históricas, sem as quais o direito e a teologia se transfor- j 
mariam num simples jogo de palavras. Da mesma forma que se 1 
recomendam a leitura dos livros sagrados e dos escritos dos santos 1 
padres, diretamente nos próprios textos, procuram os membros da | 
Junta de Providência Literária realçar o significado da história para | 
a perfeita compreensão dos fenômenos jurídicos. Significativo, en- | 
tretanto, é que estas recomendações, transformadas em diretrizes | 
obrigatórias, não se limitam apenas a completar os estudos do di- i 
reito romano e do direito eclesiástico pela história romana e pela | 
história da Igreja, mas exigem tambémo estudo do desenvolvimento 1 
do direito português, por intermédio da análise das situações hlstó- I 
ricas que o condicionaram. Com essa diretriz procurava-se alcan- i: 
çar as regras de um critério jurídico que, no lugar das razões mera- 
mente dialéticas, estabelecesse o princípio de uma hermenêutica fiel : 
aos motivos históricos que justificavam as leis e as instituições. 
“A história”, afirma-se no Compêndio Histórico, “tem um comércio 
tão íntimo, tão familiar e tão freqüente com a jurisprudência como a 
alma tem com o corpo” ss.
Encarecendo o significado do valor da história para a juris­
prudência, o pombalismo se apresenta como uma manifestação em 
que os reclamos da realidade presente e passada, iluminados pela 
boa razão discemidora, se transfiguram numa concepção autentica­
mente lusitana. Ao arbítrio caprichoso das leis elaboradas em con­
dições diversas e sob a rnjunção de diferentes vicissitudes histórico- 
políticas, o pombalismo procurou substituir uma ordem jurídica que
84. Apud Cabral de Moncada, ob. cit., nota 1, às págs. 100/1.
85. Compêndio Histórico, Parte 11, Cap. II, § 183, pág. 234.
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Rubens
Realce
Rubens
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traduzisse, no harmonioso mundo das leis naturais, os interesses au­
tênticos da nacionadidade. Não se pode avaliar, no domínio das 
manifestações ideológicas, o alcance das medidas de um govemo pela 
soma de utilidades e benefícios dela decorrentes. As idéias adian­
tam-se muito aos homens e às instituições. E por este motivo, na 
justa apreciação de um sistema político, o trabalho do historiador 
nunca poderá ser equiparado à tarefa do juiz. A investigação his­
tórica busca descobrir, nos atos, as intenções que os animaram e 
estas intenções só podem ser historicamente compreendidas na me­
dida em que elas se traduzem e se explicam pela unidade espiritual 
que, em atos diversos e até aparentemente contraditórios, concretiza 
aspirações e ideais que, pela sua própria índole, nem sempre são inte­
gralmente realizáveis. A história, como subsídio da jurisprudência, 
e o direito natural foram o critério de que lançaram mão os ho­
mens de Pombal para descobrir, no emaranhado texto das disposi­
ções jurídicas, o caminho de uma hermenêutica política perfeita­
mente ajustada aos ideais do absolutismo e aos interesses de uma 
nação que pretendia extirpar em suas raízes as causas de seu atraso. 
Por estas razões, não compreendemos a afirmação do Prof. Cabral 
de Moncada, segundo a qual a “obra de Pombal foi. .. força é re­
conhecê-lo, uma obra de desnacionalização. O que teve de euro­
peu, por ser demasiado brusco e violento, impediu-a de ser nacio­
nal. Como o que teve de nacional, por falta de suficiente base his­
tórica, impediu-a de ser europeiamente fecunda” 80.
Foram estas mesmas intenções que conduziram a Junta de Pro­
vidência Literária a recomendar o método sintético da “escola” 
Cujaeiana no lugar do analítico, que até então prevalecia na Uni­
versidade de Coimbra. Ao jurista deveria muito mais interessar a 
ordenação dos princípios basilares do direito, por intermédio dos 
quais se ordenavam todos os fatos jurídicos, do que as glosas e os 
comentários analíticos que, embora porventura precisos, conduziam 
as inteligências ao caos dos pormenores, muito mais propiciadores 
do espírito sofistico do que da clara interpretação dos textos. Até 
a adoção dos novos Estatutos, os professores da Universidade de 
Coimbra se limitavam, segundo o Compêndio Histórico, “a lerem 
uniformemente pelo método analítico: constando todas as suas lições 
de simples comentários a textos” 8T. Os novos Estatutos pretende­
86. Cabral de Moncada, ob. cit., pág. 125.
87. Compêndio Histórico, Parte II, Cap. II, § 250, pág. 275.
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ram que o estudo da jurisprudência se transformasse na expressão 
de uma doutrina certa nos seus princípios, meios e fins, e, por este 
motivo, não é fora de propósito lembrar que o Compêndio Histó­
rico insistia particularmente sobre as conseqüências do pombalismo, 
do pirronismo moral e do ateísmo da ética arisíotélica que, conjun­
tamente com a filosofia escolástica, se implantara nas escolas jesuí- 
ticas e no Colégio das Artes de Coimbra, O pombalismo ignorou 
os caminhos tortuosos da dúvida, porque os reais objetivos de sua 
política não permitiam perplexidades e nem tampouco indecisões, 
Sua velada ambição foi talvez o ideal de um sistema ético construído; 
com toda a evidência de princípios iguais aos da geometria. O di-| 
reito como expressão da moral era um mundo era que a razão na-1 
turai, por si só, devia encontrar as evidências supremas, Nestas 
condições o método sintético, compendiário, demonstrativo, de ins­
piração Cujaciana, se prestava muito mais para atender aos ideais* 
políticos dominantes do que as glosas e os comentários analíticos da | 
escola de Bártolo. J
A nova concepção do direito, que, na vida intelectual porta- I 
guesa, o Compêndio Histórico e o segundo volume dos Estatutos 1 
preconizaram, constituiu o fundamento ideológico sobre o qual, ti-1 
midamente, tentou o pombalismo a constituição de uma doutrina 1 
que, sem comprometer os dogmas e as verdades da fé católica, se J 
compadecia com os interesses do pensamento político dominante.
O ensino teológico realizado na Universidade de Coimbra fora, até I 
então, uma disputa de partidos entre aqueles que escolhiam como 
mestre Santo Tomaz de Aquino e os que viam em Duns Scott o 
mestre por excelência em matéria de teologia. À leitura dos textos 
do dominicano e do franciscano, se acrescentavam ainda nos cursos 
conimbriceuses os comentários aos livros de Gabriel Biel, de Duran­
do e às Sentenças de Pedro Lombardo. Com cautelosos cuidados, 
examinou a Junta de Providênca Literária o valor da contribuição 
de cada um destes autores escolásticos. Reconheceu as Sentenças 
de Pedro Lombardo como obra digna da sabedoria e do zelo do 
seus autor, porém, não sem defeitos, aliás explicáveis pela insufi­
ciente informação de que poderia dispor na época88. Quanto a 
Santo Tomaz de Aquino, acreditou a Junta que as suas luzes, “supe­
riores às do seu século”, conduziram-no a compreender os vícios 
que comprometiam a teologia, a fundar esta disciplina nos princí-
88. Compêndio Histórico, Parte II, Cap, I, § 68, pág. 126.
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pioá revelados e a ver que “a razão e a filosofia só serviam para 
melhor se ilustrarem os dogmas” st\
O programa teológico traçado pela Junta de Providência Lite­
rária, para os estudos da Universidade de Coimbra, traduziu, dentro 
da concepção dos ideais católicos, os objetivos regalistas da admi- 
nistação pombalina. É muito significativo, neste sentido, o trecho 
do Diário do bispo Cenáculo, rememorando os fatos referentes à 
escolha dos compêndios que deveriam ser adotados nos cursos de 
Coimbra. Dá a entender um dos passos deste Diário que o Reitor 
da Universidade, D. Francisco de Lemos, José de Seabra da Silva, 
e talvez o próprio irmão do Reitor, se inclinavam pela adoção dos 
compêndios de Martin Gerbert que, de acordo com Grabmann foi 
teólogo que sustentou “os ensinamentos da Igreja contra os erros do 
febromanismo” numa de suas obras, escrita com certo tom apocalí- 
tico90. O bispo Cenáculo insistira em demonstrar o ultramontanis­
mo do teólogo alemão. Vale a pena citar um dos trechos desse diá­
rio: “Na segunda-feira, 2 de setembro, fui ao Marquês, a ele me 
acudiu; — “Oh homem! é verdade, grande teólogo é o Gerbert; eis 
aqui um teólogo como eu desejava! Mandei-o buscar para o ver; 
e acho que é o melhor curso que há”. Eu lhe toquei, todavia, algu­
mas espécies do meu sentimento, acrescentando que seria porque 
não tenho grande üção dele. Respondeu: — Pois leia, que há de 
achar isto; veja os prefácios; — e me mostrou em um a passagem 
em que Ceiller reprovou o sistema de Gerbert; e lendo eu reprovavit, 
disse o Marquês: — é erro, porque deve ser approvavit. Calei-me,mas é reprovavit. Depois fez-me ver o Febrônio, Jus Ecdesiasticwn 
ad usum catholicorum. Eu lhe disse: este sim, que é metódico; se 
o Gerbert escrevesse assim e o necessário, seria ótimo, porque tem 
bom latim e é muito douto” ftl. Todavia, apesar da relutância do 
esclarecido bispo Cenáculo, os livros de Gerbert foram adotados na 
Universidade, Fato tanto mais surpreendente, pois o Padre Anto­
nio Pereira de Figueiredo escrevera, em 1769, a sua Tentativa Teo­
lógica, na qual o poder dos bispos de dispensar nos impedimentos
89. Idem, ibidem, § 76, in fine, pág. 230,
90. Martin Grabmann, História de la Teologia Católica, desde Fines de 
la Era Patrística Hasta Nuestros Dias, versão espanhola do Pe David Gu- 
tiérrez, Madrid, Espasa-Calpe, S. A ., 1940, pág. 259.
91. “Notícias secretas inéditas e muitos curiosas” . . . cit., m Conimbri- 
cense, reproduzidas por Teófiio Braga, na História da Universidade de Coimbra, 
t. III, págs. 398 a 416.
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públicos do matrimônio, e de prover espiritualmente em todos os 
mais casos reservados ao Papa, todas as vezes que assim o pedir a 
urgente necessidade dos súditos era, posto à luz dos fatos da his­
tória eclesiástica, interpretada pelo tradutor da Bíblia, no mesmo 
plano em que sc achavam as atribuições do chefe supremo da Igreja. 
Se, no domínio dos problemas da economia interna da Igreja, um 
homem como Antonio Pereira de Figueiredo, que tão integrado es­
teve nas reformas da administração pombalina, se atreveu a sus­
tentar, com imensa repercussão, uma doutrina tão ousada, dificil­
mente se compreede a cautela adotada pela Junta de Providência 
Literária ao planejar o programa de estudos teológicos da Univer­
sidade de Coimbra. £ verdade que, ao lado de Gerbert, de orto­
doxia até certo ponto insuspeita, apareciam as Institutiones Eccle- 
siasticae de Fleury, que tanto escândalo causaram aos homens do 
govemo de D. Maria I, que o próprio Reitor da Universidade, na 
sua Relação Geral do Estado da Universidade de Coimbra, se aba- 
lançou, num adendo, a justificar a adoção desta obra. “Quando na 
Junta Literária se tratou de nomear livros para as lições do curso 
jurídico, foram examinadas todas as Instituições Canônicas, que 
constava terem composto; e entre todas não apareceu alguma, que 
pudesse disputar a preferência às de Fleury; por serem todas poucos 
conformes com o Novo Plano dos Estudos Canônicos, e não tra­
zerem nas matérias as suas origens. Conhecendo-se, que as ditas 
Instituições deviam ser aprovadas, asseníou-se, que se mandassem 
imprimir para uso dos estudantes. E porque na Alemanha se tinha 
feito uma edição delas com notas de Bochmero; muitas das quais 
eram úteis, porque não tocando na religião ilustravam mais o que 
dizia Fleury em Compêndio; pareceu que na impressão se deviam 
meter as ditas notas, exceto aquelas, que não fossem convenientes 
à mocidade: Para o que se passaram ordens ao revisor. Estas 
foram as cautelas, com que se procedeu na edição da dita Instituta. 
É digno de reflexão, que nunca ninguém declarasse contra o Har- 
precto, o Vinnis, e outros A.A. muitos velhos, e vulgares na Univer­
sidade, e fora dela, contendo eles sobre algumas matérias erros con­
tra a religião; e só lembre agora o declamar contra Fleury e as notas, 
por darem notícia de muitos abusos, aliás muitos conhecidos a quem 
revolve os monumentos da Igreja” SB.
92. "Relação Gerai do Estado da Universidade de Coimbra”, nota 1, 
às págs. 13/4.
A concepção que presidiu à organização dos cursos de teolo­
gia traduz as mesmas diretrizes que nortearam o plano dos estudos 
jurídicos. No lugar das questões abstratas, procuraram os estatu­
tos estabelecer o gosto pelos estudos históricos e pelo critério seguro 
de discernimento das doutrinas teológicas. Evidentemente, o res­
peito às verdades reveladas, à autoridade dos santos padres e às 
decisões dos Concílios constituíam as diretrizes básicas do pensa­
mento nuclear da concepção do Compêndio Histórico e dos Esta­
tutos da Universidade. Nem por isso, entretanto, a história deixou 
de representar, na teologia recomendada pela Junta de Providência 
Literária, uma função fundamental. Contra os artificiosos e arbi­
trários caprichos da dialética, tão expressivos do espírito da esco- 
lástica, a Reforma de 1772 fez prevalecer as preocupações de uma 
teologia voltada para as lições da história eclesiástica, como meio 
capaz de afastar as inteligências das disputas sobre as questões pro- 
babilísticas, que tantos prejuízos causavam a todos os que preten­
diam superar as dúvidas para alcançar o terreno firme dos princí­
pios indiscutíveis. O mal do ensino universitário nesse setor era, 
sem dúvida, a inclinação que o espírito da filosofia escolástica e 
o sistema universitário favoreciam, conduzindo os estudantes muito 
mais ao gosto das disputas do que ao interesse pelas questões que 
não comportavam diversidade de opiniões. O método dos escolás- 
ticos, dizia D . Francisco de Lemos, “não tinha outro espírito senão 
o de disputar”, por isso, “foi o veículo de muitos absurdos. Porque 
como as matérias, de que tratavam, eram meras possibilidades de 
entes imaginários e coisas fúteis nas quais não podia haver verda­
des que subministrassem princípios para a resolução das questões; 
é claro que a análise não podia ser utilmente aplicada ao exame e 
discussão das ditas matérias e que precisamente deviam ficar as 
questões sempre irresolúveis e vacilantes, para nelas ter lugar o 
sim e o não” B3. Por esta razão, no lugar da dialética, como meio 
de interpretação dos textos, os Estatutos colocaram a história, tal 
como fora preconizada para os estudos de direito civil e canônico. 
Unicamente a história poderia livrar as inteligências das seduções 
que as abstrações metafísico-teológicas exerciam nos espíritos. O 
que pedagogicamente importava, no que se refere aos problemas de 
teologia, era criar o gosto por esses estudos, demonstrando, à luz 
dos fatos históricos, a força e o valor da palavra revelada.
93. “Relação Geral do Estado da Universidade de Coimbra", pág. 8.
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Onde, entretanto, o programa pedagógico do pombalismo se 
traduz de forma mais expressiva é na crítica, longa e minuciosamente 
desenvolvida no Compêndio Histórico, à ética de Aristóteles. Os 
historiadores que trataram dos fatos referentes ao governo de D. 
José I, colocaram-se sempre em posições sistemáticas, de tal forma 
que, para uns, este período histórico apareceu como uma época 
precursora das idéias liberais e, para outros, como uma fase his­
tórica que se caracterizou pelos abusos do poder decorrentes da 
vontade indômita de um homem e do próprio absolutismo. Distan­
ciados pelos prejuízos doutrinários ou pela força das paixões, in­
sistiram estes mesmos historiadores, entre os quais se contam algu­
mas figuras insignes, nos aspectos acidentais e inexpressivos da ad- 
minitração pombalina. Náo é de estranhar, portanto, que a ação 
do gabinete de D . José I fosse apreciada como obra exclusiva de 
um homem, e o que é mais lastimável, como expressão de um pen­
samento desligado da realidade portuguesa. O pombalismo não foi 
obra de uma pessoa: foi um denominador comum de aspirações, 
integradas na vontade resoluta de um ministro que procurou reali­
zar o ideal da recuperação econômica, política e cultural da nação 
portuguesa. Compreendem-se, portanto, o exagero e as paixões que 
acompanharam todos os atos no período de 1750 a 1777. O que, 
todavia, não se avaliou, suficientemente, exceção feita aos trabalhos 
de Latino Coelho, foi o sentido das aspirações do grupo político 
que, neste período, ensaiou novas diretrizes à nacionalidade. Fato 
tanto mais estranhável quanto quase todas as ações do governo 
foram acompanhadas de amplas razões, fundamentadas no conhe­
cimento dos fatos da história portuguesa e em algumas das lições 
mais expressivas dos corifeus do pensamento moderno.O pombalismo representou, na sua essênda, a forma caracterís­
tica do iluminismo português. A sua justificação, como forma de 
modernização ideológica, política e econômica, embora concretiza­
da sob as limitações do absolutismo, traduz as preocupações gené­
ricas do movimento iluminista. As reformas da instrução pública, 
nos múltiplos aspectos por que se apresentaram, embora inicial­
mente determinadas pela pressão dos acontecimentos históricos, 
constituíram um esforço destinado a fornecer ao poder público os 
recursos indispensáveis ao progresso do país. Dentro dos quadros 
do regalismo, elevado ao grau extremo do absolutismo, a ordem 
política almejada pelo gabinete de D. José I exprimia o ideal de 
realizar a união cristã na sociedade civil.
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Foi precisamente este ideal de união cristã que conduziu os 
elaboradores do Compêndio Histórico a condenar a ética de Aris­
tóteles, adotada nas escolas da Companhia de Jesus, como propi- 
ciadora do probabilismo e do pirronismo moral, que tantos prejuí­
zos causavam à doutrina cristã e à ordem civil. Lembrando o que, 
sobre a ética de Aristóteles, escreveram os autores modernos, entre 
os quais Luiz Vives, o Compêndio Histórico enumera e analisa os 
fundamentos e os conceitos das virtudes da moral aristotélica, de­
monstrando o quanto se distanciavam da filosofia genuinamente 
cristã. Este esforço, entretanto, representava a aspiração de fazer 
da ética a ciência do homem em todas as suas relações com a so­
ciedade civil e religiosa. O objetivo do pombalismo foi também 
neste aspecto eminentemente prático e político. As longas e exaus­
tivas justificações teóricas se destinaram a reforçar e a valorizar o 
programa de ação, objetivo direto da administração pombalina. Na 
medida em que o pombalismo se caracterizou pelo predomínio dos 
valores de ação sobre os princípios especulativos, representou uma 
atitude ética, ou melhor diríamos, pedagógica: a realidade portuguesa 
era apenas a matéria-prima sobre a qual o pensamento político de­
veria exercer-se, modelando, tal como um artista, a imagem do Por­
tugal de amanhã.
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Conclusão
Nos quatro capítulos deste trabalho, deixando de lado alguns 
problemas que nenhuma relação direta têm com a questão pedagó­
gica patente no programa de reformas da instrução pública, no pe­
ríodo pombalino, procuramos indicar, numa tentativa de interpre­
tação histórica, as íntimas conexões das diretrizes deste programa 
com as condições políticas e culturais do terceiro quartel do século 
XVIII português. Pareceu-nos que as reformas realizadas no perío­
do que vai de 1750 a 1777, do ponto de vista pedagógico, traduzi­
ram um esforço característico, de ajustamento e integração dos 
ideais de cultura, no sentido de dotar o poder público dos recursos 
humanos indispensáveis ao progresso da nacionalidade. O pomba­
lismo foi, sem dúvida, uma concepção política e cultural inspirada, 
até certo ponto, na ideologia iluminista Os motivos que nortea­
ram a ação dos homens do gabinete de D. José I foram, sobre­
tudo, de ordem prática e, o que é mais significativo, apresentaram-se 
como manifestações teóricas de problemas que a força dos aconte­
cimentos históricos parecia impor como solução oportuna dos pro­
blemas que afligiam o País. A criação das aulas régias de latim, 
do Colégio dos Nobres, dos estudos relacionados com a arte militar, 
assim como a instituição da aula de comércio e a reforma da Uni­
versidade são expressões, e mais do que isso, são conseqüências de 
uma concepção política orientada no sentido de fazer da nação por­
tuguesa um Estado progressista à altura das demais nações européias,
O absolutismo e o iluminismo politicamente confundem-se na 
medida em que ambos, em certo sentido, convergem para o objetivo 
comum de lutar contra a força do poder eclesiástico. Sem dúvida, 
o iluminismo foi muito além, pois procurou, num esforço indaga-
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tório, as raízes legítimas e racionais deste poder. A instrução pú­
blica, na sua estrutura e nos seus diversos níveis, foi o meio de que 
lançou mão o grupo político de D. José I para reforçar os funda­
mentos da ordem civil. O programa traçado no Alvará de 1759, as 
diretrizes adotadas na criação do Colégio dos Nobres, das aulas mi­
litares e do comércio e na reforma universitária de 1772 consti­
tuem a expressão pedagógica tanto do absolutismo quanto do ilu­
minismo. Absolutismo na medida em que a Coroa reivindica para si 
a execução de uma tarefa que, até então, fora, de modo quase gene­
ralizado, atribuição própria do poder eclesiástico. Iluminismo por­
que o programa e as diretrizes da reforma pombalina traduziram 
os ideais de uma cultura que, nas suas manifestações, se apresentou 
como a expressão autêntica do pensamento moderno, definido em 
função dos valores e ideais do passado e da tradição vigente.
A modernidade da pedagogia pombalina, por maiores que se­
jam as suas conseqüências políticas, só poderá ser compreendida 
à luz dos fatos pretéritos. Na reorganização do ensino das escolas 
menores, como, aliás na própria Universidade, prevaleceram as li­
ções dos humanistas que lutaram contra o jugo da autoridade do 
filósofo peripatético e contra o saber verba! e dialético até então 
imperantes nas escolas européias. Ao contrário do que possam 
pensar os intérpretes afoitos do governo de D. José I, o pombalismo 
foi a expressão de um ideal político cultural muito mais voltado 
para o passado do que para o futuro. Não é fora de sentido lem­
brar que uma das diretrizes básicas da administração pombalina 
foi o combate ao messianismo sebastianista. Nesse sentido, o pom­
balismo foi antecipada expressão dos' ideais burgueses, pois o 
burguês ignora o conforto da esperança e a incerteza do futuro; seu 
cálculo, frio e matemático, atinge apenas o imediato e a realidade 
presente. A pedagogia pombalina, concretizando estas aspirações, 
apresentou-se como a solução por intermédio da qual os problemas 
políticos que afligiam a nacionalidade encontraram, a posteriori, os 
fundamentos teóricos capazes de justificar os objetivos imediatos do 
governo de D. José I.
A reforma dos estudos de latim e humanidades representou 
uma volta à tradição humanista do quinhentismo, renovado pelo 
progresso dos estudos literários dos séculos posteriores, e o progra­
ma traçado pela Junta de Providência Literária constituiu, por sua 
vez, um esforço de recuperação dos ideais da cultura superior que 
o predomínio dos interesses religiosos havia comprometido. Em-
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bora a reforma pedagógica do pombalismo expressamente visasse a 
atingir os jesuítas, as suas diretrizes foram de tal alcance que emer­
giram das condições políticas da época. Assimilando os valores do 
pensamento contemporâneo, integrando-os na tradição nacional 
conscientemente interpretada, ajustando-os às peculiares condições 
da realidade portuguesa, o pombalismo, na sua finalidade, exprimiu 
e definiu o sentido de «ma época. A pedagogia, no sentido amplo 
do termo, constitui sempre uma das formas que traduzem, com in- 
dividuação característica, as culturas; nela se concretizam os ideais 
dos grupos humanos, das épocas históricas e das nações, consciente 
ou inconscientemente sentidos.
A pedagogia pombalina foi a expressão de uma época, expres­
são tanto mais significativa quanto ainda hoje sugere fecundas lições 
propiciadoras de perplexidades para uns e certezas para outros.
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