interpretação hermeneutica
21 pág.

interpretação hermeneutica


DisciplinaHermenêutica Jurídica439 materiais5.345 seguidores
Pré-visualização7 páginas
APONTAMENTOS PARA UMA RELEITURA DA TEORIA DA INTERPRETAÇÃO 
DE KELSEN 
 
 
Cláudio de Oliveira Santos Colnago1 
 
 
RESUMO: o presente estudo aborda a teoria da interpretação de Hans Kelsen, 
buscando fazer uma leitura fiel das concepções deste teórico do Direito, dentre 
elas a indeterminação da norma jurídica, o binômio \u201cinterpretação autêntica\u201d e 
\u201cinterpretação não-autêntica\u201d e a formulação da moldura como significados 
possíveis da norma. A partir da exposição sobre Kelsen, busca uma releitura da 
referida teoria da interpretação, a partir do enfoque lingüístico do fenômeno 
jurídico, buscando entender a \u201cmoldura\u201d como limitação dos significados possíveis 
dos enunciados que integram os textos de direito positivo. 
 
PALAVRAS-CHAVE: Hans Kelsen, interpretação, linguagem. 
 
 
1 INTRODUÇÃO 
 
A temática da interpretação é, sem sombra de dúvidas, um dos assuntos mais 
instigantes sobre os quais costuma-se debruçar o cientista do direito. As 
contribuições para a evolução da interpretação foram muitas, sem dúvida. Nosso 
intento, porém, não é fazer um apanhado geral dos estudiosos da hermenêutica 
jurídica, mas focalizar os aspectos da interpretação em um dos grandes 
estudiosos do Direito do século XX \u2013 Hans Kelsen. 
 
Mas os limites de nossa abordagem vão além: com base na análise preliminar da 
hermenêutica kelseniana, buscamos empreender uma releitura, conjugada com 
modernos entendimentos que vislumbram o Direito como fenômeno lingüístico, 
 
1 O autor é Advogado e Mestre em Direitos e Garantias Constitucionais Fundamentais pela Faculdades de 
Vitória \u2013 FDV. 
demonstrando, assim, a possibilidade de sua aplicação no entendimento do Direito 
vigente. 
 
 
2 ESCLARECIMENTOS NECESSÁRIOS SOBRE KELSEN 
 
Antes que passemos às considerações de fundo do presente trabalho, urge deixar 
consignados alguns breves esclarecimentos sobre a metodologia kelseniana, a 
qual influencia brutalmente a concepção da interpretação para este teórico. 
 
Ao realizar um corte metodológico2 e restringir suas considerações às normas 
jurídicas, Kelsen tinha como único intento conferir cientificidade ao conhecimento 
sobre o Direito, imerso que estava, àquela época, em outros ramos do saber. 
Podemos afirmar que Kelsen pretendia retirar a ciência jurídica da sua condição 
de parasita3 de outras ciências sociais, dependente que estava de análises 
sociológicas e políticas, sempre vinculadas a uma dada ideologia, o que lhes 
conferia uma parcialidade inadmissível para os padrões científicos da época. 
Sobre o assunto, eis a explicação de Kelsen4, presente nas primeiras páginas da 
Teoria Pura do Direito, ignorada por muitos: 
 
De um modo inteiramente acrítico, a jurisprudência tem-se confundido com a 
psicologia e a sociologia, com a ética e a teoria política. Esta confusão pode 
porventura explicar-se pelo fato de estas ciências se referirem a objetos que 
indubitavelmente têm uma estreita conexão com o Direito. Quanto a Teoria Pura 
empreende delimitar o conhecimento do Direito em face destas disciplinas, fá-lo não 
por ignorar ou, muito menos, por negar essa conexão, mas porque intenta evitar um 
sincretismo metodológico que obscurece a essência da ciência jurídica e dilui os 
limites que lhe são impostos pela natureza do seu objeto. 
 
 
2 Segundo Tárek Moysés Moussallem, \u201cCorte metodológico é o ato linguístico delineador da linguagem do 
objeto de estudo\u201d. (MOUSSALLEM, Tárek Moysés. Fontes do direito tributário. São Paulo: Max limonad, 
2001, p. 34, grifos no original) 
3 Parasito, segundo Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira: \u201cDiz-se de um organismo que, pelo menos numa 
fase de seu desenvolvimento, vive na superfície ou no interior de outro organismo, o hospedeiro, obtendo dele 
parte, ou a totalidade de seus nutrientes\u201d. (FERREIRA, Aurélio Buarque de Hollanda. Novo dicionário 
Aurélio da língua portuguesa. 2. Ed. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, p. 1268, vocábulo parasito). 
4 KELSEN, Hans. Teoria pura do direito. Trad. João Baptista Machado. 6. ed. São Paulo: Martins Fontes, 
1999, p. 1-2. 
Há mesmo quem considere o maior feito de Kelsen a importância que deu, em sua 
obra, à metodologia de uma ciência jurídica. Esta é a opinião, por exemplo, de 
Eduardo García Maynez5, 
 
O maior mérito de Kelsen foi introduzir, com energia e acuidade por nada igualadas, a 
questão metodológica. Nenhum jurista sustentou com tamanho rigor a necessidade de 
desvendar, dentro da órbita do conhecimento jurídico, os campos e os setores de 
estudo de cada disciplina. (tradução nossa) 
 
Assim, pedimos ao leitor que, ao analisar a teoria da interpretação de Kelsen, não 
procure alguém que imaginava ser o Direito exclusivamente norma, mas sim que 
tenha renunciado a buscas científicas acerca de outros elementos que não a 
norma jurídica. Acerca desta perspectiva, Tércio Sampaio Ferraz Jr.6 Pondera que 
 
A redução do objeto jurídico à norma causou inúmeras polêmicas. Kelsen foi 
continuamente acusado de reducionista, de esquecer as dimensões sociais e 
valorativas, de fazer do fenômeno jurídico uma mera forma normativa, despida de seus 
caracteres humanos. Sua intenção, no entanto, não foi jamais a de negar os aspectos 
multifaciais de um fenômeno complexo como é o direito, mas de escolher, dentre eles, 
um que coubesse autonomamente ao jurista. Sua idéia era a de que uma ciência que 
se ocupasse de tudo corria o risco de se perder em debates estéreis e, pior, de não se 
impor conforme os critérios de rigor inerentes a qualquer pensamento que se 
pretendesse científico. 
 
 
3 A INTERPRETAÇÃO EM KELSEN 
 
As principais considerações7 de Kelsen a respeito da interpretação são 
encontradas na segunda edição de sua mais famosa obra, Teoria Pura do Direito. 
 
5 Para conferir credibilidade, segue o original: \u201cEl más grande mérito de Kelsen es haberse planteado, con 
energia y agudeza por nadie igualadas, la cuestión metodológica. Ningún jurista ha sostenido con mayor rigor 
la necesidad de deslindar, dentro de la órbita del conocimiento jurídico, los campos y sectores de estudio de 
cada disciplina\u201d. (MAYNEZ, Eduardo García. Importancia de la teoría jurídica pura. 2. ed. Ciudad de 
México: Distribuciones fontamara, 1999, p. 41) 
6 FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Por que ler Kelsen, hoje. Apud COELHO, Fábio Ulhôa. Para entender 
Kelsen. 3. ed. 3. Tiragem. São Paulo: Max Limonad, 2001, p. 15-16. 
7 Como nos informa Mario G. Losano, além do capítulo da \u201cTeoria Pura do Direito\u201d voltado à interpretação, 
somente em um artigo (Zur theorie der Interpretation, publicado na Revue Internationale de la Théorie du 
Droit, 1934, p. 9-17) são encontradas considerações de Kelsen sobre o tema que, ainda assim, em nada 
discrepam daquelas constantes em sua obra mais conhecida. (LOSANO, Mario G. Teoría pura del derecho: 
evolución y puntos cruciales. Trad. de Jorge Guerrero R. Santa Fé de Bogotá \u2013 Colômbia: Editora Temis, 
1992, p. 113). 
O citado capítulo se inicia com a distinção entre as chamadas interpretações 
autêntica e não-autêntica, passando pela indeterminação presente no ato de 
aplicação do Direito, os métodos de interpretação e retomando a distinção do ato 
de interpretação enquanto \u201cato de conhecimento\u201d e \u201cato de vontade\u201d (cisão já 
presente na distinção entre interpretação não-autêntica e autêntica). Procuremos, 
então, analisar estes tópicos. 
 
3.1 INTERPRETAÇÃO NÃO-AUTÊNTICA E INTERPRETAÇÃO AUTÊNTICA 
 
No capítulo sobre a interpretação, Kelsen começa a tecer considerações sobre a 
atividade de aplicação do Direito. Esta, para ele, é indissociável da atividade 
hermenêutica, já que