Notas Sobre Registro e Averbação
19 pág.

Notas Sobre Registro e Averbação


DisciplinaDireito Civil I61.176 materiais667.389 seguidores
Pré-visualização9 páginas
\ufffdPAGE \ufffd
\ufffdPAGE \ufffd19\ufffd
Notas sobre registros públicos
Prof. Natanael Sarmento, Dr. titular da UNICAP. 
Resumo: Faz breve introdução de natureza meta jurídica sobre a atividade de registro público; esboça breve histórico da evolução do sistema do serviço de registro público e da forma de acesso ao cargo de oficial; analisa os aspectos jurídicos dos registros e das averbações públicas concernentes às pessoas naturais. Tem por ponto de partida a lei de registros públicos lei n.\u25e6 6.015/73 e lei a n.\u25e6 8.935/94 que regem, respectivamente, registros públicos e serviços notariais e de registro. Aborda questões históricas e econômicas do serviço notarial no Brasil e de outros registros: pessoas jurídicas, registro de imóveis, registro e protesto de títulos.
Introdução 
Os cartórios de registro público exercem uma atividade delegada pelo poder público em caráter privado, ex vi do Artigo 236 da Constituição Federal de 1988.
Trata-se de negócio que envolve altas somas em dinheiro, razão pela qual é mantido na penumbra, ou debaixo de sete chaves, a despeito do caráter público do serviço executado por particular com delegação estatal.
Com efeito, são enormes as dificuldades a se chegar aos valores econômicos movimentados nos cartórios de registro público. Faltam informações precisas e não tem, em todo território nacional, um único Tribunal de Justiça que divulgue, de forma clara, precisa e transparente, os valores monetários arrecadados pelos cartórios. 
Não dão publicidade aos valores arrecadados as corregedorias dos tribunais estaduais responsáveis pela fiscalização dos cartórios. Muito menos, as entidades representativas dos tabeliães e registradores. 
O Ministério da Justiça tem apenas um controvertido cadastro com mais de quatorze mil cartórios extrajudiciais ao passo que as associações de notários afirmam não passarem de oito mil. 
Há cartórios que acumulam atividades nos serviços de registros civis e tabelionato de notas, registros de títulos e documentos e registro de imóveis, com evidentes conflitos de interesses. Não devia fazer o registro da escritura do imóvel quem também examina e analisa a regularidade documental, tabelionato de notas e registros de imóveis. 
Sérgio Jacomino, diretor de relações internacionais do Instituto de Registro de Imóveis do Brasil, estima um faturamento do setor em torno de dois e milhões e meio de reais, uma receita anual por cartório de quatrocentos e sessenta mil reais, em média. Portanto, sendo uma média, há receitas superiores e inferiores.
Os emolumentos dos cartórios são tabelados em cada estado da federação. Um percentual desses emolumentos é destinado, por lei, a um fundo do respectivo Tribunal de Justiça para cobrir despesas de atos de natureza gratuita. 
Paulo Gaiger Ferreira, professor de direito notarial e oficial do 26º Cartório de Notas de São Paulo, com base na numeração dos selos dos cartórios de São Paulo, estima que somente os registros de notas (reconhecimento de firmas, lavraturas de certidões e procurações e autenticação de documentos) movimentam 1,7 bilhão de reais, por ano, no Brasil. Esses valores explicam porque um cartório é objeto de desejo e disputas, uma galinha dos ovos de ouro, uma mina. 
Ouro mantido em segredo de caixa preta, não raro, de aspecto exterior decrépito a melhor disfarçar e não despertar cobiças, é esse negócio bilionário de cartórios no Brasil. Pode movimentar mais ou menos do que as cifras bilionárias estimadas, porém, de certo mesmo, apenas quem tem raposa cuidando dessa galinha na história. Livre inclusive da inefável fome de fiscalização do leão do imposto de renda. A atividade não é empresarial e escapa da caçada fazendária. 
Breve histórico
Os registros públicos há séculos estão na privada
Desde o século XVIII, esse negócio da China dos cartórios no Brasil beneficia os amigos do rei. O advento da república, em 1889, não acaba a safadeza da indicação política na distribuição dos cartórios. 
Pelo \u201csistema das capitanias cartorárias\u201d, o oficial indicado pelo rei - depois pelos presidentes e governadores - escolhe o seu substituto. E eles escolhiam os familiares, o que gerou o \u201ccostume\u201d e alimentou a ideologia do cartório como herança familiar, transmitida de pai para filho. 
Durante o regime militar, houve a estatização dos cartórios, no chamado Pacote de abril do presidente Ernesto Geisel. A reforma alcança o intocável Judiciário. A estatização dos cartórios dada pela EC nº 7 da Carta de 1967 transformava os donos dos cartórios em funcionários públicos, remunerados com salários pagos pela fazenda pública. Não regulava o concurso para o cargo, remetia o tema à lei complementar, tendo a Constituição sido revogada sem que jamais fosse regulamentada. 
Diante desse quadro, cessam os atos de nomeações e transferências. Mas, diante das mortes ou afastamentos dos oficiais, assumiam os cartórios os substitutos ou outros oficiais maiores em caráter interino. 
O advento da EC nº 22 no ano 1982 não resolve o problema. Pela emenda constitucional, separa-se o cartório judicial (de serventia interna e direta do Judiciário) do cartório extrajudicial. Os cartórios extrajudiciais readquirem o stato quo ante e deixam de ser estatais. A Constituição menciona o concurso público, porém, sem regulamentação, o barco encalha no banco de areia. 
Nessa conformidade, sem lei regulamentadora de concurso nem titular disposto a largar a rapadura; sem novas indicações, os substitutos que haviam assumido simplesmente permanecem interinos por décadas a consolidar a condição de novos donos dos cartórios e mantendo, inclusive, ancièn regime da herança familiar para os filinhos queridos. Nessa situação, ficaram mais de mil cartórios no país. 
A Constituição Federal de 1988 representa o paradigma da mudança da indicação e hereditariedade para o concurso público. Contudo, a classe dos donatários de capitanias cartorárias postergou, ao máximo, a regulamentação do concurso público para oficial de cartório. Apenas no ano de 1994, houve a edição da Lei nº 8.935, que regulamenta essa matéria. 
A lei 8935/94 restringe a participação nos concursos públicos a bacharéis em direito ou a pessoas com experiência de mais de dez anos trabalhando em cartórios. No dizer do outro, quem usa o cachimbo não perde o jeito da boca.
Pelo citado diploma legal, os concursos são da responsabilidade dos tribunais estaduais. A partir de 1994, diversos estados iniciam a realização dos concursos públicos.
Nesse imenso e diferenciado Brasil, as decisões governamentais e as efetivações legais nem sempre são simultâneas em todo território. E, nessa matéria, tem muito cachorro grande sem querer largar o osso. Por isso, há ainda muita indefinição e resistência quanto à adoção da nova disciplina da matéria.
Para tentar acelerar o processo, o Conselho Nacional de Justiça cria uma comissão para fiscalizar e obrigar a realização dos concursos públicos para os cartórios. Mas esse barco parece encalhado. 
Em janeiro de 2010, o CNJ determinou a vacância de 7.828 cartórios pela desobediência constitucional e realização de concurso no prazo de seis meses.
Nesse sentido, os oficiais das serventias teriam de deixar os cargos e os tribunais estaduais deviam organizar concurso para o preenchimento das vagas.
No entanto, o lobby dos favorecidos atingidos pela decisão do CNJ, com apoio do então presidente da câmara dos deputados \u2013 atual vice-presidente da república, Michel Temer \u2013 agiliza a pauta pra votar a PEC 471 dos cartórios que, na prática, desfaz a decisão do CNJ em favor dos ocupantes do cargo sem concurso público.
A PEC não foi votada. A luta da moralidade administrativa defendida pelo CNJ - e exigida pelo estado democrático de direito - contra a mantença de privilégios indevidos em nome dos direitos adquiridos como se imoralidades gerassem direitos - dos donos dos \u201ccartórios hereditários\u201d e dos lobistas e deputados por eles financiados -, não chegou ao fim. 
Todavia, luta travada nas sombras, entre tabeliães, deputados