Um quarto bios
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DisciplinaCultura das Mídias529 materiais1.901 seguidores
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Antropológica do espelho
com a televisão pode ascender, mas no interior do modelo neoliberal
para o setor da mídia e das telecomunicações. É isto mesmo a dita
"sociedade da informação": um slogan tecnicista, manejado por in-
dustriais e políticos.
Nada há aqui do que antes se chamaria de "revolucionário". Há
tão-só hibridização dos meios, acompanhada da reciclagem acelerada
dos conteúdos (sampling, no jargão da tecnocultura), com novos efei-
tos sociais. Uma fórmula já antiga, como o noticiário jornalístico,
quando transmitida em tempo real, torna-se estratégica nos termos
globalistas do mercado financeiro: um pequeno boato pode repercutir
como terremoto em regiões do planeta fisicamente distantes.Uma en-
ciclopédia temporalmente acelerada torna-se "hipertexto".
Apoiadas no computador, as redes e as neotecnologias do virtual
deixam intacto, todavia, o conceito de médium, entendido como ca-
nalização - em vez de inerte "canal" ou "veículo" - e ambiência es-
truturados com códigos próprios. É inadequada, por isto, a designa-
ção de "pós-midiáticas" - baseada na consideração de que a nova mí-
dia não implica apenas uma extensão linear da tradicional - para as
novas tecnologias.
Médium, entenda-se bem, não é o dispositivo técnico. Um exem-
plo comparativo: o género musical conhecido como "rock'n roll" é,
na verdade, o negro rythm'n blues, acoplado à então novidade técnica
do disco de vinil em 33 rotações por minuto e socialmente produzi-
do por rádio (disc-jockey) e mercado. Da mesma maneira, médium é o
fluxo comunicacional, acoplado a um dispositivo técnico (à base de
tinta e papel, espectro hertziano, cabo, computação, etc.) e social-
mente produzido pelo mercado capitalista, em tal extensão que o có-
digo produtivo pode tornar-se "ambiência" existencial. Assim, a
Internet, não o computador, é médium.
O médium televisivo (com possibilidades de mutação técnica, a
exemplo das previsões de especialistas sobre o "telecomputador")
permanece ainda hoje como fulcro da mídia tradicional, enquanto
que o virtual e as redes (Internet), até agora isentos do regime de
concessões estatais, apontam para caminhos ainda não totalmente
discerníveis. Indiscutível é a evidência de que tempo real e espaço
virtual operam midiaticamente o redimensionamento da relação es-
pácio-temporal clássica.
I - O ethos midiatizaclo
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Tudo isto, associado a um tipo de poder designável como "cibe-
rocracia", confirma a hipótese, já não tão nova, de que a sociedade
contemporânea (dita "pós-industrial") rege-se pela midiatização,
quer dizer, pela tendência à "virtualização" ou telerrealização das re-
lações humanas, presente na articulação do múltiplo funcionamento
institucional e de determinadas pautas individuais de conduta com
as tecnologias da comunicação. A estas se deve a multiplicação das
iccnointerações setoriais.
É preciso esclarecer o alcance do termo "midiatização", devido à
sua diferença com "mediação" que, por sua vez, distingue-se sutilmente
de "interação", um dos níveis operativos do processo mediador. Com
i to, toda e qualquer cultura implica mediações simbólicas, que são
linguagem, trabalho, leis, artes, etc. Está presente na palavra mediação
0 significado da ação de fazer ponte ou fazer comunicarem-se duas par-
tes (o que implica diferentes tipos de interação), mas isto é na verdade
\u2022 l i vorrência de um poder originário de descriminar, de fazer distinções,
1 " > i tanto de um lugar simbólico, fundador de todo o conhecimento. A
linguagem é por isto considerada mediação universal.
Para inscrever-se na ordem social, a mediação precisa de bases ma-
i « 1 1 ais, que se consubstanciam em instituições ou formas reguladoras
ilo relacionamento em sociedade. As variadas formas da linguagem e as
i M I l i t a s instituições mediadoras (família, escola, sindicato, partido, etc.)
i n \e de valores (orientações práticas de conduta) mobilizadores
\u2022 l i consciência individual e coletiva. Valores e normas institucionaliza-
i l i is legitimam e outorgam sentido social às mediações.
J ú midiatização é uma ordem de mediações socialmente realizadas
no sentido da comunicação entendida como processo informacional,
i i rboque de organizações empresariais e com ênfase num tipo parti -
\u2022 1 1 lar de interação - a que poderíamos chamar de "tecnointeração" -,
u icrizada por uma espécie de prótese tecnológica e mercadológica
< l i realidade sensível, denominada médium5. Trata-se de dispositivo
l&quot; I I I &quot; é, na História humana, a prótese primitiva que mais se assemelha ao médium
COM I M I M I I C O , j;uardudas as devidas diferenças. É que o espelho - superfície capaz de re-
i l ' I N .1 i . iduçio l um ino s a i r a d u x ix- f lcx iva i iK-nic <> mundo sensível, fechando em sua rasa
llpcrflcic tudo aquilo que i r l l r l i - . ( I n i f i l i n i n , por sim \v/, .V I /MH/ Í Í o espelho, nus 11:10 c jamais
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cultural historicamente emergente no momento em que o processo da
comunicação é técnica e industrialmente redefinido pela informação,
isto é, por um regime posto quase que exclusivamente a serviço da lei
estrutural do valor, o capital, e que constitui propriamente uma nova
tecnologia societal (e não uma neutra &quot;tecnologia da inteligência&quot;) em-
penhada num outro tipo de hegemonia ético-política.
A astúcia das ideologias tecnicistas consiste geralmente na ten-
tativa de deixar visível apenas o aspecto técnico do dispositivo mi-
diático, da &quot;prótese&quot;, ocultando a sua dimensão societal compro-
metida com uma forma específica de hegemonia, onde a articula-
ção entre democracia e mercadoria é parte vital de estratégias cor-
porativas. Essas ideologias costumam permear discursos e ações de
conglomerados transnacionais e de ideólogos dos novos forma-
tos de Estado.
Aplicado a médium, o termo &quot;prótese&quot; (do grego prosthenos, ex-
tensão), entretanto, não designa algo separado do sujeito, à maneira
de um instrumento manipulável, e sim a forma tecnointeracional re-
sultante de uma extensão especular ou espectral que se habita, como
um novo mundo, com nova ambiência, código próprio e sugestões
de condutas. Isto equivale a dizer que essa forma é que não se pode
instrumentalizar por inteiro, isto é, objetivá-la socialmente como
um dispositivo submetido a um sujeito, por ser uma entidade capaz
de uma retroação expropriativa de faculdades tradicionalmente ati-
nentes à soberania do sujeito, como saberes e memória.
Já existe, aliás, algo de especular em toda e qualquer conduta,
como bem viu Goethe, ao dizer que &quot;a conduta é o espelho em que
todos exibem a sua imagem&quot;. Mas a canalização em que implica a
prótese midiática não se confunde com a prótese clássica de um es-
pelho, ainda que possa, a exemplo da imagem especular, ser chama-
da de &quot;extensiva e intrusiva&quot;, por nos permitir olhar onde o olho não
alcança (o rosto, as costas, etc.). A palavra deve ser agora tomada
como metáfora intelectiva, para um ordenamento cultural da socie-
dade em que as imagens deixam de ser reflexos e máscaras de uma
realidade referencial para se tornarem simulacros tecnicamente au-
to-referentes, embora político-economicamente a serviço de um novo
tipo de gestão da vida social.
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No espclhamcnto de parte da mídia tradicional ou &quot;linear&quot; (ci-
nema, televisão), ainda se mostra ou se aponta com imagens &quot;paraes-
peculares&quot;, para um espaço externo (como na figura retórica da hi-
potipose), que se busca representar realisticamente. Ou seja, ainda
há na representação um efeito irradiado do referente externo. Já nos
ambientes digitais da nova mídia, porém, o usuário pode &quot;entrar&quot; e
mover-se, graças à interface gráfica, trocando a representação clássi-
ca pela vivência apresentativa.
O &quot;espelho&quot; midiático não é simples cópia, reprodução ou refle-
xo, porque