Psicopatologia da esfera Oro-alimentar - Capitulo 7 MARCELLI
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Psicopatologia da esfera Oro-alimentar - Capitulo 7 MARCELLI

Disciplina:Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais7 materiais306 seguidores
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Capitulo 7 MARCELLI – Psicolatologia da Esfera Oro- alimentar
Generalidades: Além de a alimentação estar voltada para a sobrevivência, crescimento e desenvolvimento, esta é principalmente um ato de relacionamento do indivíduo com o mundo. Nesse sentindo, a associação que cada um estabelece com a alimentação ao longo da vida é fruto da dinâmica das primeiras relações que ele, enquanto bebê criou com a mãe, com a família e com tudo que estava ao seu redor. Em torno da alimentação, portanto, se fixa principalmente um eixo de interação entre mãe e filho, que irá constituir o núcleo referência das diversas fases de desenvolvimento posteriores, sendo uma fonte de experiências psíquicas socioculturais.
O recém-nascido possui desde o seu nascimento um equipamento neurofisiológico bem desenvolvido no nível do comportamento de sucção. Entretanto, nem por isso se deve concluir que todos os bebês apresentam o mesmo comportamento frente ao alimento. Por exemplo, alguns bebês mamam em um ritmo rápido, quase sem pausa; já outros mamam num ritmo mais lento e cortado por numerosas paradas. Mas esse comportamento de sucção, que já é diferente de um recém-nascido para outro, é acompanhado de um conjunto de manifestações também variáveis. Alguns bebês choram, agitam-se, outros esperaram mais calmamente a chegada do alimento; alguns mamam com os olhos abertos, outros com os olhos fechados. Seja como forem tais variações individuais, a alimentação de um bebê não se reduz apenas ao apaziguamento da fome fisiológica, mas representa um protótipo das interações humanas. Freud distinguiu, assim, a satisfação da própria necessidade alimentar (fome) e o prêmio de prazer (sucção), que o lactente daí retira. Em torno deste “prêmio de prazer”, não participa somente a satisfação da fome, mas também, como destaca Winnicott, os contatos corporais, palavras, olhares, carícias ou embalos maternais e a necessidade de apego (Bowlby). Sendo assim, a alimentação pode ser considerada o primeiro organizador da vida psíquica, pois proporciona ao bebê prazer, conforto, além de saciar sua fome, estabelecendo um elo entre o alimento e os sentimentos.
	Não se pode pensar que a agressividade esteja excluída da troca entre mãe e filho: engolir, fazer desaparecer, suprimir já é um movimento agressivo e, ainda se deve acolher com prudência a hipótese de fantasma agressivo precoce dirigido contra o seio materno (Klein), pois basta dizer que nutrir um bebê é também fazer desaparecer um estado de tensão. Se a troca alimentar não for bem sucedida, o bebê poderá sentir que existe uma ameaça ou até o perigo de aniquilamento.
	A atitude da mãe é função não apenas do comportamento de seu filho e de seus próprios afetos frente à oralidade, mas também de sua capacidade de aprendizagem ou de adaptação às novas situações. Poucas mães que tiveram seu primeiro filho encontram os gestos que devem fazer para segurar o bebê, manipulá-lo, acalmá-lo e satisfazê-lo de modo imediatamente gratificante. No princípio, o ritmo do processo de alimentação que impõe não corresponde ao ritmo próprio do bebê. Porém, a partir do quarto dia aproximadamente, produz-se uma espécie de adaptação recíproca. Além desse processo de adaptação recíproca, as mães reagem diferentemente às manifestações da criança: umas parecem assustadas com a avidez desta, outras se orgulham disso. Inversamente, algumas mães podem exprimir o receio de que uma sucção lenta e interrompida seja o indício de futuras dificuldades alimentares. Essas diversas atitudes despertadas pela criança provêm dos próprios fantasmas inconscientes ou pré-conscientes da mãe, fantasmas cuja reativação pode levar o par mãe e filho a uma situação patogênica tanto para um como para outro.
	A sociedade, por fim, intervém também de modo privilegiado na troca alimentar mãe e filho. Atualmente, com a alimentação livre e sem a orientação por vezes tranquilizadora dos conselhos e recomendações dietéticas para os bebês, práticas que eram muito comuns até certo tempo atrás existem o risco de a jovem mãe estar completamente desarmada frente a seus receios e fantasmas relacionados com a alimentação de seu filho.

Estudo Psicopatológico – Anorexia do segundo trimestre: Ocorre mas frequentemente entre 5 a 8 meses, surge quer progressiva quer brutalmente e as vezes por mudanças no regime alimentar (desmame ou ablactação – anorexia do desmame). Essa recusa esta relacionada a relação com a mãe surge então todos um comportamento cujo objetivo é o de fazer a criança comer (mãe ansiosa – essa anorexia não precisa estar ligada à perda de peso, é somente pela recusa). Nesse sentindo, a anorexia infantil ou falta de apetite é a condição na qual a criança não ingere espontaneamente a quantidade de alimento necessária para o seu crescimento e desenvolvimento normais, ou seja, há um desequilíbrio entre a satisfação da sua necessidade psíquica em se alimentar e a necessidade orgânica. A anorexia do segundo trimestre se apresenta isolada, o lactente continua crescendo e, muitas vezes, engordando. É raro que a anorexia seja tão profunda que provoque uma quebra na curva de ganho de peso e altura do bebê. Uma constipação pode acompanhá-la. Uma apetência viva por líquidos compensa, com frequência, a anorexia em relação a sólidos. Não é raro, por fim, que essa anorexia esteja centrada na relação com a mãe, e que o lactente coma perfeitamente com qualquer outra pessoa (pai, avó). A mãe sente essa conduta como uma recusa centrada diretamente sobre ela, fica angustiada, contrariada, não tem mais a disponibilidade necessária. Além disso, a mãe pode associar a recusa alimentar do bebê e sentimentos de insuficiência maternal, o que provoca uma baixa da autoestima e leva a que tenham atitudes que agravam as dificuldades da criança.

A anorexia simples surge como um distúrbio essencialmente reacional (ao desmame, a uma doença intercorrente, a uma mudança no contexto da vida), passageira, conduta de recusa ligada frequentemente a uma atitude da mãe a forçar a criança. O problema é facilmente resolvido com uma mudança de comportamento da mãe, após ter sido tranquilizada, ou com alguns manejos práticos (refeição dada pelo pai, por exemplo).
A anorexia mental grave não difere em nada no princípio da precedente. Mas seja porque a reação anorética da criança esteja profundamente inscrita em seu corpo, seja porque a atitude maternal não seja suscetível de mudança, o comportamento anorético persiste. Outros distúrbios podem surgir como dificuldades no sono, cóleras intensas, espasmos do soluço. Diante do alimento, a criança mostra quer um total desinteresse, quer uma viva oposição. Nestes últimos casos, as refeições constituem batalhas entre uma mãe que tenta utilizar todos os ardis possíveis para introduzir um pouco de alimento na boca da criança (sedução, chantagem, ameaça, coerção) e uma criança que se debate, cospe, joga seu alimento por tudo, vira seu prato. Esse comportamento anorético pode ser entrecortado por períodos durante os quais a criança come melhor, mostrando-se, no entanto, ainda caprichosa: unicamente alimentos açucarados, ou laticínios, ou legumes. Os vômitos são frequentes e pontuam as poucas refeições que consentiu em realizar. Nessas condições, uma repercussão somática pode ocorrer: a criança empalidece, passa a ter um aspecto abatido sem, todavia, estar desenvolvendo uma verdadeira doença.

Distinguem-se diferentes tipos de anorexia infantil, sendo eles: a anorexia essencial precoce, a anorexia do segundo trimestre e a anorexia da segunda infância. Ainda é importante destacar que, de acordo com o autor, em função da idade, o primeiro e o último tipo de anorexia infantil acontecem mais raramente.

A abordagem psicopatológica: A atenção é a acercas das mães dos anoréticos. Toda a relação alimentar parece ser o eixo privilegiado de interação que mascara sob a necessidade de alimentar uma viva angustia de não ser uma boa mãe ou uma angustia de abandono ou de morte.
A anorexia é compreendida de diferentes formas a partir de visões distintas,