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Fund_Jurid_1oPeriod.indb 1 13/1/2008 14:57:49 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 179 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ 1ª versão Aline Salles Jair Maldaner 2ª versão Ana Patrícia R. Pimentel Marcelo Rythowem Aspectos Históricos e Filosóficos do Direito 1° Período Fund_Jurid_1oPeriod.indb 2 13/1/2008 14:57:49 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 180 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ 1ª versão Aline Salles Jair Maldaner 2ª versão Ana Patrícia R. Pimentel Marcelo Rythowem Aspectos Históricos e Filosóficos do Direito 1° Período Fund_Jurid_1oPeriod.indb 3 13/1/2008 14:57:50 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 181 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ EMPRESA DE EDUCAÇÃO CONTINUADA LTDA Diretor Presidente Luiz Carlos Borges da Silveira Diretor Executivo Luiz Carlos Borges da Silveira Filho Diretor de Desenvolvimento de Produto Márcio Yamawaki Diretor Administrativo e Financeiro Júlio César Algeri FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DO TOCANTINS Reitor Humberto Luiz Falcão Coelho Vice-Reitor Lívio William Reis de Carvalho Pró-Reitor de Graduação Galileu Marcos Guarenghi Pró-Reitor de Pós-Graduação e Extensão Claudemir Andreaci Pró-Reitora de Pesquisa Antônia Custódia Pedreira Pró-Reitora de Administração e Finanças Maria Valdênia Rodrigues Noleto Diretor de EaD e Tecnologias Educacionais Marcelo Liberato Coordenador Pedagógico Geraldo da Silva Gomes Coordenador do Curso José Kasuo Otsuka MATERIAL DIDÁTICO – EQUIPE UNITINS Organização de Conteúdos Acadêmicos 1ª versão: Aline Salles Jair Maldaner 2ª versão: Ana Patrícia R. Pimentel Marcelo Rythowem Coordenação Editorial Maria Lourdes F. G. Aires Assessoria Editorial Darlene Teixeira Castro Assessoria Produção Gráfica Katia Gomes da Silva Revisão Didático-Pedagógica Marilda Piccolo Revisão Lingüístico-Textual Ivan Cupertino Dutra Revisão Digital Douglas Donizeti Soares Projeto Gráfico Douglas Donizeti Soares Irenides Teixeira Katia Gomes da Silva Ilustração Geuvar S. de Oliveira Capa Edglei Dias Rodrigues MATERIAL DIDÁTICO – EQUIPE FAEL Coordenação Editorial Leociléa Aparecida Vieira Assessoria Editorial William Marlos da Costa Revisão Juliana Camargo Horning Lisiane Marcele dos Santos Programação Visual e Diagramação Denise Pires Pierin Kátia Cristina Oliveira dos Santos Rodrigo Santos Sandro Niemicz William Marlos da Costa Fund_Jurid_1oPeriod.indb 4 13/1/2008 14:57:50 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 182 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ A pr es en ta çã o Vamos estudar juntos os “Aspectos históricos e filosóficos do Direito”. Ora, pelo próprio nome é muito fácil compreender o que vamos trabalhar. Mas quando lhe apontamos as duas facetas de nossa disciplina o que lhe vem à cabeça é: História? Não gosto. Filosofia? Não entendo. Nós convidamos você a deixar de lado antigos preconceitos e embarcar conosco nessa viagem histórica e filosófica pelo Direito. Afinal, essa apostila foi feita com o objetivo de fazê-lo se aproximar desses dois temas pelo ponto de vista do Direito e da Justiça, temas que você deve gostar, já que escolheu fazer esse curso de Fundamentos e Práticas Judiciárias. E olhar a história e conhecer a filosofia sob um ângulo que nos interessa, esteja certo, é outra coisa... Este material poderá auxiliá-lo em todas as outras disciplinas, na medida em que pretende despertar em você, estudante, uma aproximação crítica do Direito, para conhecê-lo com profundidade e não aceitar respostas fáceis ou prontas para questões a ele relacionadas. A apostila tem uma proposta ousada: partimos da Pré-história, que termina cerca de 3500 a.C., e vamos até meados da década de 1980, com o fim da ditadura militar brasileira. Ou seja, mais de 5000 anos de história em cerca de 100 páginas. Ela seguiu uma ordem cronológica na organização dos temas, que buscou mesclar os aspectos históricos e filosóficos nas aulas, como pres- supõe a disciplina. Esta apostila é apenas uma base, um roteiro para seu estudo; você deverá recorrer à bibliografia básica e complementar, participação nas aulas, resolução das atividades, contatos com o web-tutor, além de pesquisas individuais e em grupo, para as quais a Internet é uma ferramenta inestimável. Procuramos sugerir sítios, filmes e livros, para que você possa se aprofundar nos temas que lhe chamarem mais atenção. Esperamos que esse material possa auxiliá-lo na trilha do conhecimento jurídico, que é sua a partir de agora. Bons estudos. Prof. Marcelo Rythowem Profª. Ana Patrícia R. Pimentel Fund_Jurid_1oPeriod.indb 5 13/1/2008 14:57:50 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 183 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ Pl an o de E ns in o EMENTA Introdução aos conhecimentos básicos da História e pressupostos lógicos para o estudo da Filosofia do Direito. Definição, visão histórica e moderna. Teorias jusfilosóficas (Naturalismo e Positivismo). Axiologia: Sociedade. Ordem. Poder. Origem e Legitimidade do Poder. História das Instituições Jurídicas: Civilizações não-ocidentais. Formação do Direito Ocidental: Grécia, Roma. Direito Econômico. Evolução do Direito Ocidental: Codificação. Direito Luso Brasileiro – Colônia, Império, República. OBJETIVOS Compreender as contribuições da Filosofia para o desenvolvimento • do Direito. Conhecer os aspectos históricos mais relevantes da trajetória jurídica • da humanidade, com ênfase no Direito brasileiro e suas raízes. Despertar um olhar crítico e questionador sobre o fenômeno jurídico.• CONTEÚDO PROGRAMÁTICO O Direito na antiguidade com seus fundamentos históricos e • filosóficos O Direito e a Filosofia na antiguidade grega• Pressupostos históricos e filosóficos do Direito Romano• Pressupostos históricos e filosóficos do Direito na Idade Média• Pressupostos históricos e filosóficos do Direito na Idade Moderna• Pressupostos históricos e filosóficos do Direito na Idade Contemporânea• Aspectos históricos do Direito no Brasil• Fund_Jurid_1oPeriod.indb 6 13/1/2008 14:57:50 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 184 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 7 BIBLIOGRAFIA BÁSICA BITTAR, Eduardo C. B.; ALMEIDA, Guilherme de Assis. Curso de Filosofia do Direito. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2005. CRETELLA JR., José. Curso de Filosofia do Direito. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2004. MASCARO, Alysson Leandro Barbate. Introdução à Filosofia do Direito: dos Modernos aos Contemporâneos. São Paulo: Atlas, 2002. NADER, Paulo. Filosofia do Direito. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2003. NUNES, Rizzatto. Manual de Filosofia do Direito. São Paulo: Saraiva, 2004. BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à Filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. CASTRO, Flávia Lages de. História do Direito: geral e do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005. CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. 6. ed. São Paulo: Ática, 1997. COTRIM, Gilberto. História Global. São Paulo: Saraiva, 1997. FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Estudos de filosofia do direito: reflexões sobre o poder, a liberdade, a justiça e o direito. São Paulo: Atlas, 2002. GILISSEN, John. Introdução histórica ao Direito. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. LOPES, José Reinaldo de Lima. O Direito na História. São Paulo: Max Limonad, 2000. MALDANER, Jair José; RYTHOWEM, Marcelo. Filosofia, ética e cidadania. In: Caderno deConteúdos e Atividades do Curso de Administração do Sistema EaD/ Unitins Interativo. Palmas, TO: Unitins, 2005. MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. 9. ed. São Paulo: Paulus, 1981. v. 2. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 5. ed. São Paulo: Paulus, 1990. v. 1. SHIRLEY, Robert. Antropologia Jurídica. São Paulo: Saraiva, 1987. VEYNE, Paul. Como se escreve a História. 4. ed. Brasília: UnB, 1998. WOLKMER, Antonio Carlos. História do Direito no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005. ______ (Org.). Fundamentos de História do Direito. 2. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2001. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 7 13/1/2008 14:57:50 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 185 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ Su m ár io Aula 1 – O Direito na antiguidade com seus fundamentos históricos e filosóficos ............................................................................9 Aula 2 – O Direito e a Filosofia na antiguidade grega ..........................23 Aula 3 – Pressupostos históricos e filosóficos do Direito Romano ............37 Aula 4 – Pressupostos históricos e filosóficos do Direito na Idade Média ...47 Aula 5 – Pressupostos históricos e filosóficos do Direito na Idade Moderna .............................................................61 Aula 6 – Pressupostos históricos e filosóficos do Direito na Idade Contemporânea .................................................................75 Aula 7 – Aspectos históricos e filosóficos do Direito no Brasil .................91 Fund_Jurid_1oPeriod.indb 8 13/1/2008 14:57:50 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 186 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 9 Objetivos Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: compreender a relação existente entre o Direito, a Filosofia e a História;• analisar o papel dos costumes e da religião na formação do Direito • em seus primórdios. Pré-requisitos Para esta aula, é importante que você tenha espírito aberto e curiosidade para familiarizar-se com a temática e os conceitos do Direito, da Filosofia e da História. Como você já deve ter percebido ao ler o sumário de nosso caderno de conteúdo e atividades, esta disciplina deve acompanhar a linha do tempo da história, trabalhando os aspectos jurídicos e jusfilosóficos mais importantes na trajetória humana. Assim, você deve recordar os principais períodos da História, que você aprendeu no Ensino Médio. Lembrou? Se não, nós damos uma ajuda. Jusfilosofia – jus (Direito) + filosofia = Filosofia do Direito Introdução Você pensa que a Filosofia, a História e o Direito são coisas distantes do seu dia-a-dia? Pois bem, neste nosso primeiro encontro, vamos abordar estes temas e mostrar que essas três áreas do conhecimento estão intrinsecamente relacionadas e fazem parte do nosso cotidiano. Por isso queremos convidá-lo para refletir essa relação. Veremos também os primórdios do Direito. Aula 1 O Direito na antiguidade com seus fundamentos históricos e filosóficos Fund_Jurid_1oPeriod.indb 9 13/1/2008 14:57:50 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 187 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 10 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS 1.1 Investigando os conceitos de filosofia, história e Direito 1.1.1 A Filosofia Uma pergunta comum, que se faz muito quando se estuda Filosofia é: para que Filosofia? Fazer essa pergunta é natural. Mas não é natural perguntar: Por que Matemática? Por que História? Por que Direito? No fundo, é porque, em nossa sociedade, uma coisa só tem direito a existir se tiver alguma utilidade prática imediata, o que, para a maioria das pessoas, parece não ser o caso da filosofia. É muito provável, no entanto, que você já tenha ouvido as seguintes expressões: “A filosofia de nossa Instituição é....” ou, “A nossa empresa têm a seguinte filosofia...” ou ainda, “A minha filosofia é essa...”. Percebam que a palavra filosofia é empregada muitas vezes e em diversos sentidos. Mas, vamos às origens! A palavra filosofia tem sua origem e significado nos termos gregos philo (que significa amor, amizade) e shopia (que significa sabedoria). Significa, portanto, amor à sabedoria, amor e respeito ao saber. Dessa forma, filosofia é um estado de espírito, o da pessoa que ama, deseja, estima, procura e respeita o conhecimento, o saber. Atribui-se ao filósofo grego Pitágoras a invenção da palavra filosofia. Mas, o que é a atividade filosófica, qual é a atividade própria dos filósofos? Há praticamente tantas respostas quantos são os autores. Não há uma defi- nição única. Cada filósofo contribui e, juntos, eles produzem o que chamamos filosofia. Filosofia não é teoria distante da Vida. Ela é uma forma de vida. Não é algo que se contempla, mas algo que se vive. Fala do sentido profundo de nossa existência. Uma das maiores dificuldades para um filósofo é definir Filosofia. Vamos expor agora algumas definições possíveis, e sua crítica (CHAUÍ, 1997 p. 16-17). 1. Visão de mundo: de um povo, de uma civilização ou de uma cultura. É uma definição muito ampla e genérica que não permite, por exemplo, distinguir a filosofia da religião. 2. Sabedoria de vida: a filosofia seria uma contemplação do mundo e dos homens, para nos conduzir a uma vida justa, sábia e feliz. Essa definição nos diz somente o que se espera da filosofia (a sabedoria interior), mas não o que é e o que faz a filosofia. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 10 13/1/2008 14:57:50 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 188 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 11 3. Esforço racional para conceber o universo como uma totalidade orde- nada e dotada de sentido: essa definição dá à Filosofia a tarefa de explicar e compreender a totalidade das coisas, o que é impossível. 4. Fundamentação teórica e crítica dos conhecimentos e das práticas: a filosofia se interessa por aquele instante em que a realidade natural e histórica tornam-se estranhas, espantosas, incompreensíveis. Quando o senso comum já não sabe o que pensar e dizer, e as ciências ainda não sabem o que pensar e dizer. Segundo Chauí (1997, p. 16-17), essa última definição é completa, pois abarca a filosofia como análise das condições das ciências, da religião, da moral, como reflexão sobre si mesma, e como crítica das ilusões e precon- ceitos individuais e coletivos das teorias científicas, políticas. A Filosofia é a busca do fundamento e do sentido da realidade em suas múltiplas formas. Mas quais as atitudes e características que a filosofia possui? A admiração, a indagação, a atitude crítica e a reflexão. A origem do filosofar, o impulso para o filosofar emana da admiração, espanto e inquietação. A única coisa de que precisamos para nos tornar bons filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas. A admiração inicia, carrega e sustenta a filosofia. Ela nos aproxima do espetáculo da vida, no dia-a-dia da nossa existência, e nos deixa constan- temente surpresos, nos deixa em dúvida, nos induz ao perguntar, ao ques- tionar. O espanto mantém a filosofia, é sua alma e inspiração. A indagação, o questionamento filosófico surge, pois, de um sentimento de surpresa, de estupefação e de susto diante do devir das coisas. Diante da realidade que aparece, o filósofo é tomado de espanto e pergunta: Que é isto? Por que é assim e não diferente? A atitude filosófica do indagar, na qual nos dirigimos ao mundo que nosrodeia, perguntando o porquê das coisas, é central para a filosofia. A capacidade da admiração aliada à indagação cria a terceira característica da filosofia: a atitude crítica. Ter uma atitude filosófica é, acima de tudo, ter uma atitude crítica, diante de todas as coisas, não se contentar com respostas prontas. Algumas perguntas básicas da filosofia em sua atitude crítica são: o quê? por quê? como? Admiração, inda- gação e atitude crítica proporcionam, finalmente, a característica da reflexão. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 11 13/1/2008 14:57:51 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 189 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 12 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS A reflexão, movimento pelo qual o pensamento volta-se para si mesmo, interrogando a si mesmo, também é atitude básica da filosofia. Assim, temos o caminho/ciclo percorrido por aqueles que buscam o conhecimento: a observação da realidade suscita espanto que leva à indagação sobre o mundo. Essas perguntas não podem se contentar com respostas fáceis, mas devem se submeter à reflexão para se construir o conhecimento. 1.1.2 A História A História não é uma sucessão de fatos que naturalmente se encadeiam entre si. As histórias contadas pela História são apenas uma leitura, dentre outras tantas que se pode(ria)m fazer sobre os mesmos fatos. Disto, conforme Veyne (1998) afirma, decorrem verdades incontestáveis: a história é uma narra- tiva de eventos acontecidos (ela não revive estes eventos e tampouco pode trabalhar com fatos fantasiosos) e é lacunar e parcial (sempre será uma pers- pectiva do evento, pois é impossível reunir todas as visões sobre o mesmo). História é a ciência que estuda, de maneira crítica, o conjunto das transformações, continuidades, rupturas, revoluções e transições pelas quais passou a humanidade, desde sua existência. A análise do Direito, através da História, deve-se revestir de cuidado, para que não se caia no erro de ver o direito atual como a expressão final (melhor, absoluta, imutável) do Direito. José Reinaldo de Lima Lopes (2001, p. 19-22) coloca algumas suspeitas que devem nortear o trabalho com a História: suspeita do poder• : a História sempre conta com um elemento de poder; sua narrativa baseia-se em ideologias; suspeita do romantismo• : a História não é determinista e nada é decor- rência natural quando se trata de sociedade humana; suspeita das continuidades• : as coisas são diferentes do que foram e serão, ainda que sejam nominadas da mesma forma. Ademais, deve-se ter em mente que as continuidades temporal e espacial nem sempre andam juntas, ainda que a História, muitas vezes, faça um recorte que aparente este sentido; suspeita da idéia de progresso e evolução• : o presente não é um mero desenvolvimento do passado, assim como o futuro não será expressão do progresso dos dias atuais. O mundo (físico e social) traz inovações Fund_Jurid_1oPeriod.indb 12 13/1/2008 14:57:51 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 190 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 13 imprevisíveis que podem mudar o rumo da História, trazendo um grande avanço em alguma área e retrocedendo ou paralisando alguma outra. A História pode, assim como o Direito ou a Filosofia, desempenhar, em momentos de mudanças, um papel legitimador da situação vigente, pode, também, ter um papel restaurador ou reacionário, mas pode, ainda, ter um papel crítico diante da realidade. Para fazer a história, não podemos consi- derar somente as estruturas, os episódios e os grandes feitos; há que consi- derar também o cotidiano das pessoas, a vida material, ou seja, vestimentas, alimentação, medicação, diversão, os hábitos mais cotidianos das pessoas de uma determinada época. Levando em consideração esta vida material, coti- diana das pessoas, descobre-se um elemento indispensável no historiador que o identifica com o filósofo: a estranheza, a curiosidade. Dessa forma, o histo- riador se aproxima das coisas com a surpresa e o assombro da diferença. Completando nosso tripé, neste momento, falaremos da relação da Filosofia e da História com o Direito. 1.1.3 O Direito “Direito” é uma palavra que traz em si uma grande margem de impre- cisão. Ferraz Jr. nos ensina que ele é denotativamente vago porque tem muitos significados (extensão). [...] Ele é conotativamente ambíguo porque, no uso comum, é impossível enunciar uniformemente as propriedades que devem estar presentes em todos os casos em que a palavra se usa (FERRAZ JR., 1988, p. 37). A definição de Direito pode adquirir vários significados e ser entendida sob diversos ângulos, dependendo daquele que a estuda e seus objetivos. Segundo André Franco Montoro (2000), o Direito pode assumir até cinco sentidos dife- rentes: norma, faculdade, justiça (valor), ciência e fato social. Você irá tratar disso com mais profundidade em Introdução ao Estudo do Direito. Para nós, agora, basta saber que ele, o Direito, vai aparecer como uma expressão das sociedades em que se inserem, sendo, ao mesmo tempo, fruto e causa de suas manifestações, ou seja, o Direito ao mesmo tempo que influencia um grupo social, também é influenciado por ele. Qualquer que seja a acepção ou conceito adotado, será sempre objeto de reflexão tanto da História quanto da Filosofia, devido à sua importância para a organização e sobrevivência da espécie humana. Como fato social e norma, aparece desde a formação dos grupos sociais; como faculdade e justiça, é Fund_Jurid_1oPeriod.indb 13 13/1/2008 14:57:51 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 191 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 14 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS base no nascimento da filosofia, além da história e da filosofia serem facetas do estudo da ciência do Direito. Quanto aos desdobramentos dessa aula, você deve aplicar as noções trabalhadas de filosofia e história a toda a matéria dessa apostila. Pesquise, critique, desconfie, admire-se, reflita, assuma uma posição, mude de posição, não pare... Só assim o conhecimento pode se desenvolver. Não esqueça que a atitude filosófica é para todos e pode mudar o mundo, e que você é sujeito da história, que está sendo construída agora. Iniciar esse curso é só o primeiro passo nessa nova etapa da sua história. Boa caminhada. 1.2 O Direito da Pré-história aos impérios orientais da antiguidade Quando nasce o Direito? Os “homens das cavernas” já o conheciam? Como era esse Direito, ou que tipos de regras apresentava? A partir dessa aula, você poderá perceber que o Direito é uma manifestação que acompanha toda a trajetória humana, desde antes da invenção da escrita. Também notará uma contínua mudança do Direito, que vai variar conforme a época e a sociedade na qual ele se insere. Por fim, vamos conhecer as legislações primitivas desenvolvidas pelos povos orientais da Antiguidade e compreender sua importância em seu contexto social. 1.2.1 As sociedades e seus Direitos Diferentes tipos de sociedades humanas se desenvolveram no decorrer do tempo e do espaço global: sociedades nômades e sedentárias, agrárias e urbanas, simples e complexas, entre tantos outros tipos. Cada uma delas, a seu modo, desenvolveu seu próprio Direito. Mas que Direito é esse? Em que ele se parece com o atual? Você irá estudar, durante a nossa disciplina e em Introdução ao Direito, que há um longo e fecundo debate sobre o que é o Direito e as facetas que ele apresenta, mas, para esse momento do nosso estudo, vamos encarar o Direito apenas no seu sentido mais aparente: denormas de conduta social, normal- mente associada a alguma noção de justiça. Todas as sociedades têm algum tipo de cultura jurídica, uma vez que desenvolveram mecanismos de controle social e aplicação de sanções, muitos dos quais se mantêm até os dias atuais. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 14 13/1/2008 14:57:51 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 192 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 15 Vale ressaltar que “as regras são feitas a partir de bases sociais e econô- micas e precisam ser vistas em seu conteúdo social” (SHIRLEY, 1987, p. 12). Isso significa que cada sociedade desenvolve seu próprio direito, de acordo com seu nível de intercâmbio social com outros povos, suas características e necessidades, que são únicas e se modificam com o tempo. 1.2.2 O Direito primitivo dos povos pré-históricos Desde o surgimento do homem no mundo, ele precisa do “outro” para sobre- viver e perpetuar a espécie. Nasce daí a necessidade, que nos acompanha desde então, de formar agrupamentos humanos e estabelecer regras sociais. Uma vez que a Pré-história se refere a um longo período de tempo, que vai até a invenção da escrita (cerca de 3500 a.C.), encontramos aí muitos e variados povos, em diversos estágios das forças produtivas e econômicas, desenvolvendo diferentes atividades de sobrevivência. Nesse momento, o Direito não é um sistema autônomo, mas se estabelece junto com a religião e a moral. As principais áreas regulamentadas por esse direito primitivo são a criminal e a de família. A característica principal que une sociedades assim tão díspares é a ausência de escrita, fazendo com que sua maior fonte de direito sejam os costumes. Outra fonte importante do Direito arcaico são as normas postas pelas auto- ridades locais, sejam em caráter geral, seja na decisão de casos particulares. O poder dessas autoridades na aceitação de suas regras também é variável conforme o tipo de sociedade a que se destina e seu grau de legitimação (obedi- ência e oposição). Para cada tipo de atividade desenvolvida (caça, pesca, coleta, agricultura, comércio, artesanato, etc.), corresponde um tipo de organização social (bando, comunidade primitiva ou Estado) (SHIRLEY, 1987, p. 25). Observe as imagens a seguir. A imagem nos mostra uma cena de uma caçada pré-histórica, com um grupo composto basicamente por homens. Após o abatimento da presa, não há realmente a neces- sidade de o grupo continuar a existir. Caso ele se mantenha, até que ponto seus membros estariam dispostos a se submeter às regras do coletivo, caso algo viesse a lhe desagradar? Situação muito diferente é o caso de uma comunidade agrícola, na qual o resultado do trabalho não é imediato (antes de colher, é Fund_Jurid_1oPeriod.indb 15 13/1/2008 14:57:51 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 193 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 16 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS necessário plantar e esperar a planta se desenvolver). Numa organização assim, o indivíduo insatisfeito tem muito a perder se abandonar ou for expulso do grupo. Entre algumas sociedades sem escrita mais desenvol- vidas, já se pode notar a formação de um Estado, ainda em estágio primário, com forte influência religiosa, de caráter teocrático. Aqui a presença de leis gerais postas pelas autoridades já se faz sentir com mais intensidade, baseada na força da fé e no sobrenatural. Esse Direito primitivo, próprio das socie- dades apócrifas (sem escrita), refere-se tanto aos povos pré-históricos, que existiam antes da invenção da escrita no mundo, quanto aos povos altamente desenvolvidos que viviam na América pré-colombiana, e outros que sobrevivem até hoje isolados, como certas tribos da Amazônia brasileira. O surgimento da escrita vai fazer com que o Direito deixe de ser apenas costumeiro e oral, viabilizando maior segurança e estabilidades às relações sociais e ao poder do Estado. 1.2.3 O aparecimento da escrita e o Código de Hamurábi Os mais antigos documentos jurídicos de que se tem notícia datam do terceiro milênio a.C., das regiões do Egito e da Mesopotâmia. Essas socie- dades, de poder teocrático, desenvolveram a escrita e deixaram documentos que explicitam ou se referem às leis e costumes da época. Ambas as civilizações, a egípcia e a mesopotâmica, eram politeístas (acredi- tavam em vários deuses) e teocêntricas (governo chefiado por um deus ou sacer- dote, conforme a vontade divina). O Egito deixou um imenso legado cultural para a humanidade, mas pouco se sabe a respeito do seu sistema de Direito. Enquanto o Egito não apresenta um legado jurídico importante, a Mesopotâmia nos deixou vários códigos de leis escritas, como o de Ur-Nammu, de Eshnunna, de Lipt-Ishtar. Nenhum deles se compara com uma das mais importantes fontes legis- lativas já conhecidas e que se tem preservada (no museu do Louvre, em Paris) até os dias atuais: o Código de Hamurábi. Fruto do governo de um rei que expandiu e fortaleceu o império babilônico, contém 282 artigos e foi redigido em um bloco de pedra em escrita cuneiforme, por volta de 1750 a.C. Inicia com a proclamação Fund_Jurid_1oPeriod.indb 16 13/1/2008 14:57:51 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 194 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 17 da origem divina do Rei e daquelas normas, sendo que as disposições ali contidas expressavam “um regulamento de paz”, no qual o rei aparece como um justiceiro, um protetor dos oprimidos e um guardião da liberdade de seu povo (GILISSEN, 2001, p. 62). Essa legislação apresenta aspectos sociais interessantes, ao prever regras de proteção a órfãos e viúvas e regulamentar questões trabalhistas. A Lei de Talião (“olho por olho, dente por dente”) ali expressa, apesar de hoje nos parecer cruel, trazia em si os princípios de pessoalidade de pena e proporcionalidade na sua aplicação. Sem esses princípios de justiça, o que prevalecia era a vingança grupal, que impossibilita qualquer equilíbrio entre ofensa e reparação. A Lei de Talião não é exclusiva do Código de Hamurábi, mas um preceito de justiça presente em vários Direitos antigos. Esses Códigos, na verdade, consolidavam os costumes que já eram viven- ciados pela população da região naquela época, e não se confundem com nossos Códigos atuais, pela forma como eram redigidos e elaborados. 1.2.4 O Direito e as religiões no mundo antigo Mais do que pertencer a um território, um forte fator de coesão social, desde a Antiguidade, é a religião. Desses agrupamentos, nasceram impor- tantes leis e sistemas jurídicos. Por volta de 1500 a.C., os judeus, que se encontravam escravizados, fogem do Egito, sob a liderança de Moisés. Esse foi o primeiro povo monoteísta do mundo, e na sua caminhada pelo deserto rumo à Terra Prometida, origina-se o Pentatêuco, ou Torah, que corresponde aos livros de Gênesis, Números, Levídico e Deuteronômio do antigo testamento da Bíblia. Por ser um povo que vai sofrer grandes perseguições ao longo de sua história, a evolução do seu direito vai depender da tradição oral, e vai se desenvolver, a partir do sec. VI a.C., por meio de compilações e comentários de costumes e leis que regem o grupo. Esses ensinamentos vão compor o Talmud, que forma o verdadeiro corpo de leis hebreu. Dessa religião, vão surgir o cristianismo e o islamismo. Uma lei que vale a pena conhecer é o Código de Manu, que tinha vigência entre os seguidores do Hinduísmo (Índia). Apesar de ter sido escrito entre os anos 200 a.C. e 200 d.C., é consensoque suas disposições já existiam em Fund_Jurid_1oPeriod.indb 17 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 195 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 18 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS forma de costume, de direito oral. O hinduísmo se baseia num sistema de castas, no qual cada pessoa pertence, por nascimento, a um determinado estrato social, sem a possibilidade de haver mobilidade ou cruzamento entre eles, e o Código de Manu, estabelecido pelos brâmanes (a casta mais elevada, que representa os sacerdotes) confirma essa organização. Essa legislação, no entanto, nunca alcançou a mesma legitimidade do Torah ou do Código de Hamurábi. Também vale a referência ao Direito Chinês, por ser essa uma das civiliza- ções mais antigas do mundo. Surgida há cerca de 4000 atrás, desenvolveu-se isolada de outros povos, sendo o Direito muito influenciado pelo confuncionismo, sistema religioso e filosófico que representa a base cultural desse povo, a partir do sec. V a.C. É um direito ritual que prega a harmonia entre homem e natureza, reservando ao Direito uma função menor, valorizando a busca do consenso. Com exceção da China, não é possível falarmos na filosofia que permeia esses sistemas jurídicos nesse momento histórico, uma vez que ela ainda não se fazia presente na sociedade humana. O mundo, até então, era explicado apenas pelos mitos e deuses, e não havia se desenvolvido, ainda, o questionamento racional. Essa reviravolta do conhecimento humano vai se dar ainda na Idade Antiga, no contexto da civilização grega, que veremos a partir da próxima aula. Como você percebeu, há uma estreita relação entre a História a Filosofia e o Direito. Ambas as formas de conhecimento se relacionam e se influenciam reciprocamente. Mesmo que não haja uma reflexão explicita e sistematizada, como vimos nos primórdios da civilização, tratam a humanidade como um processo em que há constante transformação. Síntese da aula Nesta aula, apresentamos a você os conceitos da Filosofia, Direito e História e a relação que eles têm entre si. A curiosidade, a reflexão, a crítica e o entedimento dos fatos históricos são essenciais para as abordagens na área do Direito. Você pode perceber que o Direito, como regra de organização social, é uma manifestação que acompanha o homem desde suas origens. Na Pré-história, encontramos uma variedade de direitos, conforme o grupo em que ele se desen- volve. Em comum, encontramos a não-autonomia do Direito, que se expressa mesclado com regras morais e religiosas, e a ausência de escrita, que faz com E a filosofia do Direito nos Impérios Orientais? Fund_Jurid_1oPeriod.indb 18 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 196 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 19 que sejam todos eles baseados nos costumes e na autoridade. Com o surgimento da escrita, civilizações como a babilônica, a hebraica e a hindu vão criar códigos de leis para reger seus povos. Desses, sem dúvida, a mais conhecida fonte do Direito Antigo é o Código de Hamurábi que regeu o povo mesopotâmico, a partir do séc. XVIII a.C. Com exceção do Direito Chinês, nenhum sofreu influência filosó- fica especificamente, haja vista ela ainda não ter se desenvolvido. Não se pode desprezar, no entanto, a importância da religião na elaboração dessas leis. Atividades 1. Todas as sociedades têm algum tipo de cultura jurídica, uma vez que desen- volveram mecanismos de controle social e aplicação de sanções, muitos dos quais se mantêm até os dias atuais, isto é, possuem, de alguma forma, um corpo de direito. Nesse sentido, é correto afirmar que: a) na Pré-história, o Direito é um sistema autônomo, que se estabelece sem vínculos com a religião e a moral; b) a Lei de Talião trazia em si os princípios em que prevalecia a vingança grupal, que possibilitava equilíbrio entre ofensa e reparação; c) na China, o Direito se desenvolve de forma autônoma, sem uma base filosófica; d) por meio de compilações e comentários de costumes e leis que regem o povo hebreu, o Talmud forma seu corpo de leis. 2. Explique a importância da autoridade local na formulação das normas das comunidades primitivas. Para isso, elabore um texto dissertativo de 20 linhas com suas percepções. 3. A partir das discussões apresentadas nesta aula, analise a importância da filosofia e da história no estudo do Direito. 4. Diferentes tipos de sociedades humanas se desenvolveram no decorrer do tempo e do espaço global: sociedades nômades e sedentárias, agrárias e urbanas, simples e complexas, entre tantos outros tipos. Cada uma delas, a seu modo, desenvolveu seu próprio Direito. Nesse sentido, é correto afirmar que: a) o Direito é superior à sociedade; b) o Direito determina, de forma exclusiva o comportamento social; c) Direito e sociedade se influenciam mutuamente; d) há entre o Direito e a sociedade uma relação de indiferença. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 19 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 197 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 20 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Comentário das atividades Na atividade 1, você deverá perceber que cada código de Direito está vinculado à sua cultura. A alternativa correta é a (d), pois o povo hebreu vincula seu Código de Direito à vida religiosa. A alternativa (a) está incorreta porque, nesse período, o Direito está atrelado aos códigos morais e religiosos, a (b) porque a Lei de Talião trazia em si os princípios de pessoalidade de pena e proporcionalidade na sua aplicação e não a vingança pura e simples; a (c) está incorreta porque na China o Direito foi muito influenciado pelo confuncionismo, sistema religioso e filosófico que representa a base cultural desse povo, a partir do séc. V a.C. Na atividade 2, você deverá perceber que o direito recebe influências da cultura e do modo de vida do povo em que está inserido. Você deve ter claro que o período que abarca a Pré-história e parte da história antiga é rico no surgi- mento de vários sistemas de Direito, cada qual com características bem peculiares. Apesar de nos parecerem muitas vezes cruéis, insensíveis ou mesmo insensatos, é importante ter em conta que eles respondem às necessidades de seu tempo e sua sociedade, sendo que algumas características atravessaram os tempos até nós. Para as atividades 3 e 4, leve em conta que o Direito recebe influências da cultura e do modo de vida do povo em que está inserido. Você deve ter claro que o período que abarca a Pré-história e parte da história antiga é rico no surgimento de vários sistemas de Direito, cada qual com características bem peculiares. Apesar de nos parecerem muitas vezes cruéis, insensíveis ou mesmo insensatos, é importante ter em conta que eles respondem às necessidades de seu tempo e sua sociedade, sendo que algumas características atravessaram os tempos até nós. De modo específico, na atividade 4 está correta a alterna- tiva (c), porque há uma influência mútua entre ambos. As demais alternativas estão incorretas porque tratam o Direito e a sociedade de forma separada (d) ou porque criam um grau hierárquico entre ambos (a) e (b). Referências FERRAZ JR., Tércio Sampaio. Introdução ao estudo do Direito: técnica, decisão, dominação. São Paulo: Atlas, 1988. GILISSEN, John. Introdução histórica ao Direito. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. _______. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. 5. ed. São Paulo: Paulus, 1990. v. 1. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 20 13/1/200814:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 198 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 21 MONTORO, André Franco. Introdução à ciência do Direito. 25. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. SHIRLEY, Robert. Antropologia jurídica. São Paulo: Saraiva, 1987. Na próxima aula Como afirmamos, a Filosofia só irá se desenvolver na Grécia, a partir da realidade construída por aquele povo. E foi uma revolução... Depois do surgi- mento da Filosofia, o mundo nunca mais será o mesmo. Novas idéias e visões de mundo irão “contaminar” definitivamente o pensamento ocidental e, por conseguinte, o Direito. É isso que veremos a partir da próxima aula. Anotações Fund_Jurid_1oPeriod.indb 21 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 199 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 1 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 22 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Fund_Jurid_1oPeriod.indb 22 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 200 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 23 Objetivos Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: interpretar como o desenvolvimento histórico e filosófico na Grécia • influenciou a construção das normas jurídicas; analisar o desenvolvimento da Filosofia no período clássico.• Pré-requisitos Para a compreensão do tema desta aula, é importante que você tenha presente a inter-relação entre a Filosofia, a História e o Direito, conforme estudado na primeira aula, além das características predominantes dos outros povos e direitos que se desenvolveram na Antiguidade. Essa revisão será importante para que você estabeleça a relação entre as instituições gregas e a filosofia inerente. Introdução A Grécia é uma civilização que se desenvolveu às margens do Mar Mediterrâneo, o que explica sua vocação comercial, que vai acabar por reper- cutir em várias inovações sociais, como se verá. Partindo de uma análise histó- rica da Grécia, logo após entraremos na questão da mitologia e nas condições que permitiram o nascimento da filosofia entre os gregos. Daremos especial atenção aos fatos que marcam a passagem da administração da lei e da justiça das mãos de uma organização familiar para as mãos do Estado, bem como a influência dos pensadores gregos para a construção de normas jurídicas. 2.1 Períodos da história grega A civilização grega contou com quase dois mil anos de história na Antiguidade. Sua formação se inicia quando povos indo-europeus, como Aula 2 O Direito e a Filosofia na antiguidade grega Fund_Jurid_1oPeriod.indb 23 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 201 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 24 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS jônios, aqueus, dórios, chegam à Península de Peloponeso. Nesse período, conhecido como o das Sociedades pré-helênicas (2000-1100 a.C.), aconteceu a Guerra de Tróia. Após essa fase, encontramos os Tempos Homéricos (1100-800 a.C.), marcados pelo aparecimento de dois clássicos da literatura, a Ilíada e a Odisséia, ambos de autoria de Homero (por isso o nome dessa etapa histórica grega), que narram os acontecimentos da Guerra de Tróia. O Período Arcaico (800-500 a.C.) vai ser marcado pela formação das cida- des-Estado (pólis) e suas leis, enquanto a Época Clássica (500-336 a.C.) vai ser o período áureo da filosofia grega e de sua expansão territorial com Alexandre, o Grande, que se dará a partir da conquista da Grécia pela Macedônia. Por fim, temos o Período Helenístico (336-146 a.C.) que se refere ao que aconteceu após o domínio macedônio, com a expansão da cultura grega para além das fronteiras do antigo Império, que termina definitivamente com a domi- nação romana. 2.1.1 A formação da sociedade e do direito grego Os Legisladores construíram o Direito grego por meio de Constituições, cujas disposições ficavam expressas nos muros das pólis. Em 621 a.C., Drácon recebeu a missão de preparar uma legislação escrita. Até essa época, a legis- lação era oral. Drácon promoveu a diferenciação entre homicídios voluntários e involuntários, e impôs a pena de morte para a maioria dos crimes. A impor- tância desse período está no fato da administração da justiça passar das mãos dos eupátridas (justiça familiar) para o Estado (pólis). O problema é que poli- ticamente nada mudou, pois os eupátridas mantiveram o monopólio do poder, antes apoiados no costume, agora na lei escrita. A crise permaneceu, e Drácon foi substituído por Sólon, em 594 a.C., como legislador. Sólon aboliu a escravidão por dívida e promoveu mudanças na legislação, com o objetivo principal de estabelecer uma justiça baseada na igualdade de todos perante a lei. Sólon lançou as bases do futuro regime político de Atenas, a Democracia, implantado por Clístenes em 507 a.C. Clístenes reformou a estrutura política grega. Os princípios básicos eram: direitos políticos para todos os cidadãos e participação direta deles no governo por meio de assembléias. É nesse período que surge a democracia grega. O sistema de tribos, base da democracia grega, era formado por elementos de todas as camadas sociais, quebrando o sistema de Sólon que Fund_Jurid_1oPeriod.indb 24 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 202 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 25 ainda era baseado na origem regional e familiar. Para participar das assem- bléias, todo cidadão devia se inscrever numa tritie, perdendo com isto o nome de família. Esse sistema foi chamado de democracia, porque o demos era o elemento principal. “Costuma-se dizer que da Grécia veio pouca coisa na tradição jurídica e que a rigor o Ocidente deve mais a Roma nesta área. Trata-se de meia verdade [...]” (LOPES, 2000, p. 35). A própria filosofia trouxe muita influência, na medida em que se preocupou com temas como a liberdade, a justiça, a política e a ética, e com isso ajudou o centro do debate jurídico a se deslocar da tradição e da revelação divina, para um direito feito por e para a socie- dade humana. Ou seja, o Direito se torna laico e passível de modificações, conforme a necessidade da pólis. Aliás, essa mesma pólis também traz uma influência significativa para o Direito, já que as leis da cidade são universais, atingem a todos os habitantes, limitando o poder familiar. Percebe-se que as contribuições do Direito grego se deram mais na esfera não-institucional, mas há uma exceção importante: os contratos consensuais. Os gregos determinaram que a principal característica dos contratos era o acordo entre as partes (como é até hoje, conforme vocês verão em Direito Civil I), e não a forma como ele se reveste. 2.2 A formação filosófica da Grécia: Sofistas e Sócrates O nascimento da filosofia da Grécia se deu com uma série de pensadores que tinham como principal objeto de reflexão o surgimento do universo. Aqueles que compunham esse período da filosofia grega, conhecido como Cosmológico, eram os pré-socráticos, como Tales de Mileto, Heráclito, Anaximandro, Pitágoras, entre outros. Os Sofistas inauguram o período Humanístico dessafilosofia, que busca estudar o homem em profundidade. Foram importantes na formação dos cidadãos na arte da argumentação e da retórica, essenciais para participar efetivamente nas assembléias da democracia grega. Sócrates vai introduzir a temática da ética e da justiça na questão dos valores universais. 2.2.1 Os Sofistas No século V a.C., auge da democracia, Atenas tornou-se o centro da vida cultural e política da Grécia. O ideal de educação aristocrática, baseada em Homero e Hesíodo, do guerreiro belo e bom nos quais a virtude maior era a coragem, é substituído pela educação do cidadão, a formação do bom orador, que participa das decisões da pólis, argumentando e persuadindo os outros. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 25 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 203 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 26 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Para educar os jovens desse novo período, surgem os Sofistas (sábios, especia- listas do saber), que eram cidadãos da Hélade (toda Grécia), não só de uma cidade-estado. Dentre os mais importantes pensadores sofistas, podemos citar Protágoras, Pródicos, Hípias e Górgias. Para os sofistas, o pensamento dos pré-socráticos estava cheio de erros, era contraditório e não tinha utilidade para a vida da pólis (cidades). É inútil procurar as causas primeiras das coisas, a metafísica, sem antes estudar o homem em profundidade e determinar com exatidão o valor e o alcance de sua capacidade de conhecer. O interesse dos Sofistas era essencialmente humanístico. A realidade e a lei moral, para os Sofistas, ultrapassam a capacidade cognitiva do homem: ele não pode conhecê-las. Tudo o que o homem conhece é arquitetado por ele mesmo: “O homem é a medida de todas as coisas” (Protágoras). Não pode haver conhecimento verdadeiro, absoluto, mas somente conhecimento provável. O fim supremo da vida para os sofistas é o prazer. Nesse contexto, como exemplificação, podemos destacar os seguintes méritos dos sofistas: iniciaram uma reflexão sistemática sobre os problemas humanos, ao invés das questões naturais e cosmológicas dos filósofos pré-socráticos; aperfei- çoaram a dialética e a discussão crítica sobre as limitações e o valor do conheci- mento; destacaram o caráter diverso e relativo das leis, próprias de cada cidade, enfatizando a contraposição entre natureza (physis), lei (nómos) e pacto (thésis), em que se baseiam o direito natural e o direito positivo; defenderam o conceito de natureza comum a todos os homens, o que serviu para fundamentar a lei de modo mais igualitário e universalista; desenvolveram princípios educativos para o ensino de gramática e retórica; Protágoras considerava-se um mestre da sabe- doria e da virtude política (politiké areté), formando os jovens para o debate público e o governo do Estado. O ideal sofístico de uma natureza humana que pode ser educada e constantemente aperfeiçoada deu início à ciência pedagó- gica e à formação humanista na antiguidade. O movimento sofístico tinha como pilar de sustentação a opinião, a argumentação e a retórica. A técnica da oratória definia o homem público. E foi com essa idéia de formação dos jovens na técnica de instrumentos de oratória e retórica que se basearam os sofistas, respondendo às necessidades da democracia grega. E, no contexto histórico que se sustentava, cada vez mais o homem buscava, pelas palavras e dentro de contradições sobre política, planos de guerra, Fund_Jurid_1oPeriod.indb 26 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 204 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 27 deliberações legislativas, definir o que era justo e injusto. Construindo, os Sofistas, na prática política e jurídica, a idéia de um discurso persuasivo e respeitável. Como os Sofistas se destacavam no campo do Direito e da justiça? Eles romperam com a convicção de que os deuses criavam as leis humanas, pois somente os homens podem fazer regras para o convívio social; as leis são atos humanos e racionais que se forjam no seio das necessidades sociais, o que só é possível por meio de discussão comum, da deliberação consensual, da comunicação participativa e do discurso. E de fato, o que há de comum entre os sofistas é o fato de, em sua generalidade, apontarem para os conceitos de legalidade e justiça, de modo a favorecer o desenvolvimento de idéias que se associavam à inconstância da lei a inconstância do justo (BITTAR; ALMEIDA, 2005, p. 63). 2.2.2 Sócrates Sócrates viveu em Atenas entre 469 e 399 a.C. Na sua própria inter- pretação de si próprio, concluiu que era o mais sábio porque tinha cons- ciência da sua própria ignorância. Sua vocação era ajudar os homens a procurar a verdade, sendo, dessa forma, um ferrenho opositor do relativismo dos sofistas. Seu objetivo era incitar os homens a se preocuparem, antes de tudo, com os interesses da própria alma, procurando adquirir sabedoria e virtude. Antes de conhecer as causas primeiras, princípios metafísicos, é preciso conhecer-se a si mesmo, saber qual é a essência do Homem. O homem é a sua alma. Ela é claramente superior ao corpo, que a aprisiona. A alma é a razão, o lugar sede de nossa atividade pensante e eticamente operante; é o eu consciente. É preciso educar os homens para cuidarem de sua alma mais do que do corpo. Sócrates compara a construção do conhecimento ao trabalho de uma parteira: ela pode ajudar a trazer ao mundo uma criança, mas o parto só ocorrerá com a vontade e ação da mulher para dar a luz. Essa comparação sofria forte influência de seu ambiente doméstico, pois sua mãe era parteira e seu pai, escultor. Disso decorre sua certeza de que o conhecimento é indivi- dual, só pode ser produzido de dentro para fora. Os métodos utilizados por ele eram o da ironia e o da maiêutica: parte de uma simulação (um caso hipotético ou real) estabelecendo um diálogo com perguntas desconcertantes. Sócrates deixa embaraçado e perplexo aquele que está seguro de si mesmo, faz com que o homem veja os seus Fund_Jurid_1oPeriod.indb 27 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 205 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 28 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS problemas, desperta curiosidade e o estimula a refletir. Não ensina a verdade, mas ajuda a cada um descobri-la em si mesmo. Para ele, aprender não é coisa fácil, só lenta e progressivamente se chega ao conhecimento da verdade. Há, para Sócrates, conhecimentos universais. Enquanto a opinião varia de pessoa para pessoa, o conceito universal é o mesmo para todos. Sócrates se preocupou mais com os conceitos de bem, justiça, felicidade e virtude. A moralidade identifica-se com o conhecimento, pois se o homem peca é por ignorância, porque não é admissível que, conhecendo o bem e o mal, escolha o mal e não o bem. Quem faz o mal, ou ignora o bem, ou não sabe o que escolheu, é mau. A felicidade consiste na consciência reta, seguir os ditames da razão prática, da virtude. O pensamento socrático era profundamente preocupado com as questões éticas. A ética socrática dedicou-se à ética de respeito às leis e, portanto, à coletividade. Entendia o Direito como um instrumento de coesão em favor do bem-comum. Vislumbrava nas leis um conjunto de preceitos de obediência incontornável, independente de essas serem justas ou injustas. No entanto, as leis que havia ensinado a obedecer contra ele se voltaram. Foi condenado à morte por negar as divindades da cidade. E aceitou essa morte como prova do que ele defendia:o valor da lei como elemento de ordem do todo. Por fim, Sócrates entendia que é pela submissão às leis que a ética da cidade se organiza, já que a ética do coletivo está sempre acima da ética do individual. 2.2.3 Platão (427–347 a.C.) Seu nome era Aristócles, mas pelo vigor físico e extensão de sua testa recebe o apelido de Platão (platôs em grego significa amplitude, largueza, extensão). Platão foi discípulo de Sócrates por cerca de dez anos. Por causa da morte de seu mestre, deixa Atenas por um período. Quando volta àquela cidade, funda a Academia. A Academia é por muitos considerada a primeira universidade que existiu. A estrutura do programa era a geometria e a matemática. Durante séculos, a academia foi o centro de atração para todos os estudiosos. Platão pôs-se à procura da verdadeira causa das coisas. Para encontrá-la, julgou que devia refugiar-se nas idéias e considerar nelas a realidade das coisas existentes. Uma coisa é bela porque participa da Beleza (idéia, conceito de Fund_Jurid_1oPeriod.indb 28 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 206 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 29 beleza, que está no mundo ideal); é verdadeira porque participa da verdade. A causa do mundo sensível é a sua participação no mundo inteligível. A doutrina das idéias é a intuição fundamental de Platão. Delas derivam todos os outros conhecimentos. Platão demonstra a existência do mundo das idéias da seguinte forma: a) reminiscência: não tiramos as idéias universais da experiência, mas sim da recordação de uma intuição que se deu em outra vida; b) o verdadeiro conhecimento: a ciência só é possível se trabalhando com conceitos universais. Para isso, deve existir o mundo inteli- gível, universal; c) contingência: idéia necessária e estática para que se explique o nascer e o perecer das coisas. As idéias, segundo Platão, são incorpóreas, imateriais, não sensíveis, incorruptíveis, eternas, divinas, imutáveis, auto-suficientes, transcendentes. E como Platão entendia a Ética? A ética platônica ensina a desprezar os prazeres, as riquezas, honras, a renunciar aos bens do corpo, as coisas deste mundo e a praticar a Virtude. A vida aqui na terra é passageira, é uma prova. A verdadeira vida está no além, no Hades (o invisível), onde a alma é julgada. Para ele, a virtude consiste no conhecimento, e o mal, na ignorância. A virtude é uma só: a conquista da verdade. O ensinamento moral de Platão entra em choque com os valores tradicionais baseados nos poetas Homero e Hesíodo e codificados na religião pública. Os valores de beleza do corpo, saúde física são desprezados por Platão. O verdadeiro e autêntico fim da vida moral é a alma. Procurando purificá-la, libertá-la dos laços que a prendem ao corpo e ao mundo material elevando-a ao supremo conhecimento do inteli- gível, ou seja, a contemplação das idéias. E a Política? Platão sentia forte atração pela política e se empenhou nela. A política tradicional tinha como instrumento a retórica típica dos sofistas. Para Platão, o instrumento da política é a Filosofia, pois só ela é via segura de acesso aos valores de justiça e bem, os quais são as bases autênticas de um Estado autên- tico. Suas obras políticas são: República e As Leis. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 29 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 207 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 30 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Na República, Platão defende que o Estado se origina porque os homens não se bastam a si mesmos. Estado ideal é o que quer viver no bem, na justiça e na verdade. No estado ideal há três classes. Veja o quadro a seguir: TRABALHADORES (LAVRADORES, COMERCIANTES E ARTESÃOS) GUERREIROS GOVERNANTES Prevalece o aspecto concupiscível da alma, o mais elementar, sua virtude principal é a temperança que consiste na ordem, domínio e disciplina dos prazeres e desejos. Pressupõe-se também, desta classe, a submissão às ordens das classes superiores. Sobressai a força volitiva da alma. A característica destes deve ser, ao mesmo tempo, a mansidão e a fero- cidade. A virtude dos guerreiros deve ser a fortaleza ou a coragem. Esta classe é responsável pela vigi- lância, deve cuidar dos perigos externos e internos da Cidade. Devem observar também para que as tarefas sejam confiadas aos cidadãos, conforme a índole de cada um. Estes deverão amar a cidade como ninguém. Tem de cumprir com zelo sua missão e, acima de tudo, tenham aprendido a conhecer e a contemplar o Bem e a Justiça. Nos governantes domina a alma racional e sua virtude principal é a sabedoria. A justiça, portanto, nada mais é do que a harmonia que se estabelece entre essas três virtudes. Quando cada cidadão e cada classe social desempenham as funções que lhes são próprias da melhor forma e fazem aquilo que por natu- reza e por lei são convocados a fazer, então se realiza a justiça perfeita (REALE; ANTISERI, 1990, p. 163). O conceito de justiça em Platão é, segundo a natu- reza, cada um fazer aquilo que lhe compete fazer. A justiça só existe exterior- mente, nas suas manifestações, enquanto existir interiormente, na sua raiz, ou seja, na alma. O regime ideal para Platão é o do filósofo-rei, pois o filósofo governa pela sabedoria e sabe discernir melhor do que ninguém o que é justo ou injusto para a pólis. Bom governo é o que realiza o bem do homem (da alma). Para entendermos melhor estes conceitos, deve-se conhecer o Mito de Er narrado por Platão, no final do Livro X da República, que conta a história de alguém que retornou do Hades. Platão nos sugere que o homem encontra-se de passagem na terra e que a vida terrena constitui uma prova como mostra o mito de Er. Segundo esse mito, a vida verdadeira está no Hades (Além). No Hades, a alma é julgada com base exclusivamente no critério da justiça e da injustiça, da virtude e do vício, podendo receber prêmios, castigo eterno ou castigo temporário. Os juízes do Além somente se preocupam com isso, não importa se a alma foi de um imperador, de um sapateiro, de um legislador ou de um agricultor. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 30 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 208 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 31 O que conta são os sinais de justiça ou injustiça que a alma traz em si. Para Platão, existe uma justiça divina, para além da realidade humana. Essa justiça é infalível, impecável, absoluta, da qual nenhum infrator pode furtar-se. A justiça humana é relativa e ineficaz (condenou Sócrates à morte, por exemplo). 2.2.4 Aristóteles (384–322 a.C.) Aristóteles nasceu em Estagira, na fronteira com a Macedônia. Seu pai era médico e serviu a Corte Macedônica. Aos 17 anos, vai a Atenas e entra para a Academia de Platão, na qual permanece por 20 anos, até a morte de Platão. Com isso, volta à Macedônia e torna-se preceptor de Alexandre Magno, retornando depois novamente a Atenas, onde abriu uma escola chamada Peripatética, pois dava suas lições num corredor do Liceu (Perípatos). O interesse da Escola de Aristóteles está nas ciências naturais. Enquanto Platão, mestre de Aristóteles, escrevera suas obras em forma de diálogo, Aristóteles preferiu o Tratado, pois permitia mais clareza, ordem e objetividade. Aristóteles também rejeitou a teoria das idéias de seu mestre, privi- legiando o mundo concreto. A observação da realidade, segundo Aristóteles, leva-nos à constatação da existênciade inúmeros seres individuais concretos e mutáveis que são captados por nossos sentidos. Para isso, ele elege a expe- riência como fonte de conhecimento, mostrando que as formas são a essência das coisas, que não há separação entre os objetos e as formas: estas são imanentes àqueles. As idéias não existem fora das coisas: dependem da exis- tência individual dos objetos. É da observação das coisas concretas que se chega ao conceito por meio da abstração. 2.2.4.1 Ética e política O Homem é um ser racional e sua felicidade consiste na atuação da razão, não em riquezas e honrarias. Felicidade é a plena realização das próprias capacidades. A atuação da razão está na contemplação. Mas os sentidos devem ser satisfeitos. É preciso haver harmonia entre razão e sentidos. Prazer e razão. O caminho para conseguir a felicidade é a virtude, hábito de escolher o justo meio. Aristóteles não identifica virtude com saber (como Platão), mas dá importância à escolha, que depende mais da vontade que da razão. Para Aristóteles, o Homem é, por natureza, um animal político. A origem do Estado se dá de maneira instintiva, natural. O Estado deve tornar possível a Fund_Jurid_1oPeriod.indb 31 13/1/2008 14:57:52 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 209 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 32 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS vida feliz, pois só ele torna possível a completa realização de todas as capaci- dades humanas. A finalidade do Estado é o Bem Comum. Segundo Aristóteles, quem vive fora do Estado ou não precisa dele, ou é Deus, ou um animal. O que irá tornar possível a relação entre o homem e a política é a justiça. Para a realização da justiça, é preciso que haja vontade: o sujeito irá praticar determi- nado ato não porque foi condicionado a isso, mas sim porque ele próprio optou. Para que você possa compreender a formas de justiça, apresentaremos agora a Tipologia do Justo, segundo Aristóteles, a partir de Bittar e Almeida (2005). Observe, a seguir, essa tipologia. JUSTO TOTAL É a justiça universal ou integral. A abrangência de sua aplicação • é a mais extensa possível: as leis valem para o bem de todos, para o bem comum. Consiste na virtude de observância da lei, no respeito àquilo • que é legítimo e que vige para o bem da comunidade. JUSTO PARTICULAR Refere-se ao outro singularmente no relacionamento direto • entre as partes. É a justiça aplicada na relação entre particulares.• Pode ser dividido em: distributivo e corretivo. • JUSTO PARTICULAR DISTRIBUTIVO Refere-se a todo tipo de distribuição feita pelo Estado, seja de • dinheiro, honras, cargos, etc. Leva em consideração aspectos subjetivos, méritos, qualifica-• ções, desigualdades, etc. Confere a cada um o que lhe é devido, dentro de uma razão de • proporcionalidade participativa, evitando os extremos tanto do excesso como da falta. O atendimento às demandas da comunidade deve ser feito da • maneira mais eqüitativa possível. JUSTO PARTICULAR CORRETIVO Consiste no estabelecimento e aplicação de um juízo corretivo • nas transações entre os indivíduos em paridade de direitos e obrigações diante da legislação. Refere-se à reparação nas relações e na igualdade nas trocas.• É objetiva, não se observa a condição dos indivíduos para • averiguação do que é justo ou injusto. É exercido por meio do retorno das partes a situação ante-• rior vigente. Entre o mais e o menos, entre o ganho e a perda, o justo. Novamente Aristóteles retorna à justa medida (Mesotés). JUSTO POLÍTICO Consiste na aplicação da justiça na cidade, na pólis.• Tem como objeto a criação de uma situação de convivência • estável e organizada. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 32 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 210 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 33 JUSTO DOMÉSTICO É a justiça que se exerce na casa, na família. Justiça para • com a mulher, justiça para com os filhos e justiça para com os escravos. JUSTO NATURAL São as leis fundamentadas não na vontade humana, mas na • própria natureza (physis). Decorrem da essência e da estrutura das coisas sem que • para isso sejam necessárias a intervenção ou a vontade legislativas. Não depende, para existir, de qualquer decisão, de qualquer • opinião ou conceito. A justiça natural é o princípio e a causa de todo movimento • realizado pela justiça legal. JUSTO LEGAL Corresponde à parte das prescrições vigentes entre os cidadãos • de determinada pólis. Surgida da lei, tem sua existência definida pelo legislador.• A lei possui força não natural, apenas fundada na convenção, • podendo ser a lei de várias maneiras que uma vez definida deve ser obedecida. O justo legal deve ser construído com base no justo natural.• A idéia de lei natural traz em si a idéia da eqüidade, equiparação, igual- dade. Isto equivale aos conceitos de justiça distributiva de Aristóteles, conforme o direito natural. Outro conceito essencial desenvolvido por Aristóteles é o da Eqüidade. Na aplicação de uma lei, pode ocorrer uma injustiça. Daí nasce o conceito da eqüidade. Uma lei, quando feita, tem sua aplicação generalizada. O fato é que a lei é para todos, mas nem todos os casos devem ser punidos com o máximo de justiça. A eqüidade indica um direito que, embora não formulado pelos legisladores, se acha difundido na consciência das pessoas. A eqüidade nasce do fato de que se deve tratar de maneira desigual os desiguais. Segundo Bittar e Almeida (2005, p. 115-119), há casos para os quais se aplicada a lei em sua generalidade, será causada uma injustiça por meio do próprio justo legal. Assim como a necessidade de aplicação da equidade surge a partir da singularidade dos casos concretos, é exatamente no julga- mento desses casos que dela deve lançar mão o julgador. Nas relações privadas, a equidade representa a excelência do homem altruísta que, ao ter de recorrer ao império coativo da lei, prefere valer-se de técnicas de civilidade e virtuosismo que seguem os princípios da moral, que permearam a escola socrática. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 33 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 211 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 34 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Síntese da aula Nesta aula, trabalhamos o contexto histórico, político e cultural que criou as condições para o surgimento da Filosofia na Grécia, bem como a passagem da mitologia à Filosofia. Vimos também como as características da sociedade grega influenciaram a formação do Direito nesse período. Os Sofistas introduziram a argumentação e a retórica como elementos essencias para a participação na democracia grega. Sócrates fundamentou a ética em valores universais e não em opiniões. Foi exemplo de coerência e levou ao extremo o respeito às leis e à coletividade, sendo por isso julgado e conde- nado à morte. Vimos também que Platão e Aristóteles influenciaram decisi- vamente a formação do pensamento filosófico, histórico e jurídico ocidental, contribuindo para que a justiça andasse sempre de mãos dadas com a ética e os valores morais. Atividades 1. Elabore uma análise de 15 linhas dos principais elementos da história grega. Procure refletir sobre as instituições e a cultura gregas na formação de seu sistema de direitos. 2. O período clássico foi rico em termos de discussão filosófica. Analise as afirmações abaixo classificando-as em verdadeiras ou falsas. I. Para ensinar, Sócratesusava o método expositivo, no qual só ele falava, posto que era o detentor da verdade. II. Platão desenvolveu uma filosofia de cunha materialista Estão corretas pois fora desse mundo não há nada que mereça ser refletido. III. Os sofistas buscavam, pelas palavras e dentro de contradições sobre política, planos de guerra, deliberações legislativas, definir o que era justo e injusto. IV. Aristóteles compreendia que a eqüidade nasce do fato de que se deve tratar de maneira desigual os desiguais. São assertivas verdadeiras: a) apenas I e II b) todas c) apenas II, III e IV d) apenas III e IV Fund_Jurid_1oPeriod.indb 34 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 212 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 35 3. No quadro A Escola de Atenas, o pintor renascentista Rafael diferencia Aristóteles e Platão mostrando que o primeiro aponta com a mão para o solo e o segundo aponta o céu. Explique como ambos concebem a filo- sofia em um texto dissertativo de 10 linhas. 4. Costuma-se dizer que da Grécia veio pouca coisa na tradição jurídica e que, a rigor, o Ocidente deve mais a Roma nesta área. Trata-se de meia verdade [...]” (LOPES, p. 35). Essa afirmação se justifica porque: a) não há uma formulação típica do Direito na Grécia; b) para os gregos as leis tinham pouco valor; c) entre os gregos não havia um interesse prático em discutir as normas; d) a filosofia ajudou a deslocar o debate jurídico da tradição e da reve- lação divina, para um Direito feito por e para a sociedade humana. Comentário das atividades Você deve considerar que a sociedade grega é, no período de sua formação, caracterizada pelo patriarcalismo e pelo poder exercido, em termos de justiça, pelas famílias tradicionais. Isso se modifica ao longo de sua história, pois com a pólis o espaço público passa a se sobrepor ao poder familiar, para responder a atividade 1. Na atividade 2, estão corretas as assertivas II e IV, pois os Sofistas baseavam sua atividade na retórica e na argumentação a Aristóteles compre- endia que os casos devem ser tratados de forma particular, para que não se aplique de forma genérica e se cause alguma injustiça. Estão incorretas as assertivas I e II, porque Sócrates se julgava um parteiro de idéias que, por meio do diálogo, fazia com que seus interlocutores chegassem à verdade. Platão desenvolveu uma filosofia idealista, pois a verdade estava além desse mundo sensível em que vivemos. Lembre-se, para responder a atividade 3, de que, enquanto Platão, mestre de Aristóteles, escrevera suas obras em forma de diálogo, Aristóteles preferiu o Tratado, pois permitia mais clareza, ordem e objetividade. Aristóteles também rejeitou a teoria das idéias de seu mestre, privilegiando o mundo concreto. A observação da realidade, segundo Aristóteles, leva-nos à constatação da exis- tência de inúmeros seres individuais concretos e mutáveis, que são captados Fund_Jurid_1oPeriod.indb 35 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 213 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 2 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 36 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS por nossos sentidos. Platão defendia que a verdade se fazia presente no mundo das idéias e não na realidade empírica. Na atividade 4, atente para o fato de que a alternativa (a) está incor- reta, pois, para os gregos, o Direito foi colocado de forma escrita nos muros da cidade. Isso torna incorretas também as alternativas (b) e (c). A alterna- tiva correta é a letra (d), porque a filosofia cumpriu um importante papel na discussão sobre o justo e o injusto de forma racional. Referências BITTAR, Eduardo C. B.; ALMEIDA, Guilherme de Assis. Curso de Filosofia do Direito. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2005. LOPES, José Reinaldo de Lima. O Direito na História. São Paulo: Max Limonad, 2000. Na próxima aula O Direito, como o conhecemos hoje, é tributário de muitas das idéias que foram desenvolvidas pelos romanos. Veremos, a seguir, os principais elementos do Direito Romano, com suas instituições e idéias, bem como faremos uma incursão por sua história. Anotações Fund_Jurid_1oPeriod.indb 36 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 214 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 3 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 37 Objetivos Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: compreender os períodos do Direito Romano, as características de cada • um deles, e a importância atribuída até hoje ao Direito Romano; entender as principais correntes filosóficas do Império Romano.• Pré-requisitos Roma foi uma civilização que sofreu grande influência helênica, por isso, para compreendê-la, e ao seu Direito, é necessário conhecer um pouco sobre a cultura grega, conforme você viu na aula anterior. Introdução Roma foi uma civilização que se formou a partir de povos etruscos, sabinos e latinos, que ocupavam a península itálica. Para entendermos a cultura romana e o Direito que ali se desenvolve, é necessário que possamos partir de duas premissas: a primeira é que o Direito de um povo é expressão de sua cultura e suas neces- sidades; a segunda se refere a uma constatação histórica que toda civilização segue uma trajetória que, ao alcançar seu ápice, parte para a decadência. Dessas premissas, é possível auferir que o Direito Romano também vai, acompanhando a marcha de seu povo, conhecer um período de formação, o auge e o declínio. 3.1 A história de Roma Ao longo de sua história de mais de mil anos, podemos apontar cinco etapas políticas romanas (LOPES, 2000, p. 43). Aponta o autor que da formação da cidade (em 753 a.C.) até o início da República (em 509 a.C.) temos o período da Realeza (ou Monarquia), em Aula 3 Pressupostos históricos e filosóficos do Direito Romano Fund_Jurid_1oPeriod.indb 37 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 215 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 3 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 38 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS que os reis, não hereditários, mas eleitos pelo Senado, têm poder absoluto. A classe dominante até então eram os patrícios, representantes das famílias que formaram Roma. Afirma ainda que o próximo período foi o da República abarca quase cinco séculos (de 509 a 27 a.C.) e torna a administração romana mais complexa com a criação de várias magistraturas que vão ser responsáveis pela justiça (pretores, que veremos a seguir), pelas finanças (questões), pelos costumes (censores) e pela própria gestão do Império (cônsules). É nesse período que começa a conquista romana dos territórios. Também é aqui que plebeus, traba- lhadores livres mas sem direitos até então, adquirem o poder de participar dos negócios públicos. Também é aqui que se desenrola a escravidão romana, a partir da prisão dos povos conquistados (LOPES, 2000, p. 43-47). A próxima fase é a do Império, que se subdivide em duas: Alto (Principado, de 27 a.C. a 284 d.C.) e Baixo Império (Dominato, até 476). Essa fase, que chega até o fim do Império Romano Ocidental, que cai sob a força das invasões bárbaras, caracteriza-se pela maior concentração de poder nas mãos do Imperador. Antonio Carlos Wolkemer reconhece o Principado como o momento de maior expansão e estabilidade do Império, enquanto o Dominato, que vai fazer do Imperador senhor absoluto e assistir à divisão do Império emOcidental e Oriental, acontecerá durante o período de decadência. Aqui a religião cristã passa a ser a oficial (WOLKEMER, 2005, p. 93). O último período é o Império Bizantino (476 a 1453), que era a porção oriental de Roma. Sua formação, com a queda do Ocidente, dá início à Idade Média (tema das aulas posteriores) e seu fim, com a tomada de Constantinopla pelos muçulmanos, põe fim ao Medievo. Numa sociedade estratificada e cristã, o imperador detinha poder absoluto (LOPES, 2000, p. 65-66). Essas são as fases políticas de Roma; as jurídicas são outras (arcaica, clássica, pós-clássica) (LOPES, 2000, p. 43). Vejamos: CRIAçÃO DE ROMA (753 a.C.) Período Político Período Jurídico Realeza (até 509 a.C.) Arcaico (até o século II a.C.) República (de 509 a 27 a.C.) Principado (de 27 a.C. a 284 d.C) Clássico (do século II a.C. ao séc. III d.C.) Dominato (de 284 d.C. a 456 d.C.) Pós-Clássico (do séc. III a 565)Império Bizantino (ano de 456 a 1453) Fund_Jurid_1oPeriod.indb 38 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 216 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 3 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 39 Apesar de o movimento jurídico acompanhar o político, é importante enfatizar, desde já, que, como se pode perceber da figura anterior, as divi- sões dos períodos de Direito não seguem a política pari passu, uma vez que o Direito, como regra social, acompanha a evolução política e social de um povo, e não o inverso. 3.2 A formação do Direito Romano: o período arcaico ou quiritário (origens até séc. II a.C.) O nome dado a essa fase (quiritário) é muito esclarecedor quando sabemos que quirites eram os cidadãos romanos. De fato, os doutrinadores afirmam que uma das grandes características desse período é o fato do Direito Romano ser aplicado apenas aos romanos (WOLKEMER, 2005, p. 98). Assim como afirma a doutrina, nesse período foi estabelecida (cerca de 450 a.C.) a Lei das XII Tábuas, fruto da luta de patrícios e plebeus, transformou em leis escrita antigos costumes romanos, tornando acessíveis as leis a todos que pudessem lê-las. Reza a tradição que sua confecção foi influenciada pelas Constituições gregas, a partir da visita de um grupo enviado por Roma para conhecer a experiência (LOPES, 2000, p. 45). Esse Direito apresenta-se, então, rígido, cheio de formalismos e solenidades na resolução de controvérsias. Os pontífices, que eram sacerdotes-funcionários romanos, tinham o monopólio da interpretação das leis. Eram os tempos das ações da lei, em que o processo era iniciado perante o pretor (magistrado responsável pela administração da justiça), e decidido frente a um árbitro, um cidadão romano escolhido entre as partes. Tanto a fase perante o pretor, quanto aquela junto ao árbitro (ou juiz privado) eram guiadas pela interpre- tação das leis feita pelos pontífices (LOPES, 2000, p. 45-46). Vê-se, portanto, que, estando no seu período inicial de formação, já era um Direito escrito, mas ainda um tanto quanto primitivo, voltado para aquela população que formou Roma. 3.3 O apogeu: o Direito Romano clássico (séc. II a.C. a III d.C.) O surgimento do pretor peregrino (que como o nome indica, peregrinava, caminhava, pelas terras conquistadas pelos romanos) trouxe uma grande mudança no Direito de Roma. Diferente do período anterior, que os pretores ficavam nas cidades, sem se locomover, com o crescimento do território do Império, tornou-se importante a existência de alguém que levasse a justiça Fund_Jurid_1oPeriod.indb 39 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 217 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 3 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 40 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS a todos. Até porque o crescimento do território implicava o crescimento de interação entre povos diversos, e o sistema jurídico romano era importante instrumento de dominação desses povos. Assim, uma vez que o Direito Quiritário era muito rígido e exclusivo dos romanos, surgiu a necessidade de construir soluções jurídicas mais condi- zentes com a realidade do império e a diversidade cultural que ele abarcava. Começa, assim, como nos afirma a doutrina, a se desenvolver um direito para- lelo, a partir dos editos dos pretores (lembre-se que os pretores eram eleitos para administrar a justiça, e os editos eram como seus “planos de governo”, ou seja, sua proposta de como interpretar e aplicar as leis) e dos pareceres dos jurisconsultos (estudiosos, conhecedores da lei). Esse direito ficou conhecido como Direito Pretoriano, ou Direito Honorário. Esse direito dinâmico, formado a partir de seu uso, também valia para reger as relações entre romanos e não- romanos (LOPES, 2000, p. 47-52). É o momento de maior criatividade e desenvolvimento do Direito Romano, indo ao encontro das necessidades do Império, que também se expandia e exigia (novas) respostas jurídicas a (novas) questões sociais. Essa capacidade de adaptação e adequação possibilitou que o Direito Romano se tornasse grande e exercesse essa imensa influência até hoje (os países latinos todos, entre outros, apresentam raízes romanas). 3.4 O Direito Pós-clássico e as compilações de Justiniano (séc. III a 565) Afirma a doutrina que o Direito pós-clássico é caracterizado pela total concen- tração de poder nas mãos do Imperador e seus funcionários. Dessa forma, tanto a legislação quanto o processo, conhecido como cognição extraordinária, é centralizado (abolindo a bipartição do poder a que ele se submetia: pretor e árbitro), surgindo um recurso processual muito utilizado até hoje: a apelação. Uma vez que o poder era unicamente do Imperador, as decisões emitidas por seus funcionários poderiam ser revistas pelo próprio (LOPES, 2000, p. 53-58). Com a dimensão territorial alcançada pelo Império, um outro aconteci- mento importante nessa etapa foi a sua divisão em Oriental e Ocidental. Já com o fim do Império Romano do Ocidente, Justiniano, imperador bizantino, na ânsia de restaurar o esplendor perdido do antigo império romano, encomenda uma reunião dos principais textos jurídicos do período clássico e pós-clássico. Desse trabalho de compilação, nasce o Corpus Iuris Civilis, composto de quatro Fund_Jurid_1oPeriod.indb 40 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 218 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 3 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 41 livros: o Codex, que reunia as Constituições imperiais romanas da época clás- sica e pós-clássica; o Digesto, ou Pandectas, com os escritos dos jurisconsultos, da clássica; as Institutas, manual de estudo do Direito Romano; as Novelas, reunião de suas próprias Constituições (GAVAZZONI; ALUISIO, 2002, p. 80). O Corpus Iuris Civilis vai passar a ser o principal veículo de conservação e propagação do Direito Romano até os nossos dias. Perceba que ela é uma obra de sistematização de textos antigos, não é, com exceção das Novelas, um direito vivo, visto que busca recuperar um direito de uma estrutura já morta. O reinado de Justiniano foi o suspiro final desse Império que tanto legou ao Direito ocidental. 3.5 Institutos do Direito Romano Ao se ler um livro ou fazer um curso de Direito Romano, ficamos admirados com a sabedoria dessa ciência jurídica. Além de um direito centralizado, siste- matizado e escrito, há institutos que você consegue visualizar exatamente da forma que é ainda hoje. Sem dúvida, a área do Direito que mais se destaca é a do Direito Privado. Direito das coisas, das obrigações, das sucessões... Impressiona a semelhança com os dias atuais. Em Roma se desenvolvea proteção jurídica da posse e a diferenciação com a propriedade (que vocês verão em Direito Civil III), toda a base da teoria geral das obrigações e diversos tipos de contratos (Direito Civil I), além de vários direitos reais, como o usufruto, a hipoteca etc. (Direito Civil III também), e institutos do Direito de Família, como a tutela, a adoção (Direito Civil II). Não pensem, no entanto, que esses institutos foram criados de uma única vez, e exatamente igual nós o conhecemos (ou vamos conhecer). Lembre-se de que, no início, havia muita formalidade e rigidez, e prova disso era o poder quase absoluto que era dado ao pater familias (chefe da família), o ritualismo e restrições para contrair obrigações e celebrar contratos. Tudo isso foi se modifi- cando e ficando mais maleável, à medida que avançava o Império e o Direito. 3.6 A Filosofia Romana Roma sofreu forte influência grega e pouco desenvolveu a Filosofia. Muitas das idéias filosóficas da Grécia foram aplicadas ao Direito Romano, como por exemplo, o estoicismo e o epicurismo. Ambas as doutrinas filosóficas se desen- Fund_Jurid_1oPeriod.indb 41 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 219 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 3 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 42 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS volveram no mesmo contexto de crescimento do Império Romano e perda do refe- rencial coletivo da pólis grega. São consideradas doutrinas éticas, pois buscam indicar um referencial para esse “homem que se vê perdido em um imenso universo político, ele não pode atingir a felicidade senão apoiando-se em suas próprias forças e recolhendo-se em si mesmo” (MONDIN, 1982, p. 108). O Estoicismo foi fundado no século IV a.C. e teve influências em toda Filosofia Antiga e Medieval-Cristã. A palavra estoicismo vem de Stoa que significa pórtico (entrada do Templo ou Edifício Nobre), pois os estóicos ensinavam sob os pórticos de Atenas. São expoentes dessa corrente Zenão, fundador da Escola, Cícero, Crisipo, Epicleto, Sêneca e Marco Aurélio (GAVAZZONI, 2002, p. 83). Segundo Bittar e Almeida (2005, p. 140-141) a ética estóica é uma ética da ataraxia, voltada não só para a finalidade da conduta humana, mas para a ação, pois é nessa que reside a capacidade de conferir felicidade ao homem. A ética estóica determina os cumprimentos éticos pelo simples dever, ou seja, a ética deve ser cumprida porque se tratam de mandamentos certos e incon- tornáveis da ação, mandamentos esses decorrentes de lei natural; é a intuição das normas naturais que conferem ao homem a capacidade de discernir o que é favorável do que é desfavorável ao seu bom agir. Isso vem bem espelhado nas obras de Cícero, quando explica que deve agir não pelo temor social da punição, mas pela vontade de praticar justiça. Marcus Tullius Cícero (106-43 a.C.) é, sem dúvida, um grande legatário de uma sincrética tradição filosófica. A base da ética ciceroniana é a stoa; no entanto, não há um purismo nessa filosofia, pois suas exposições repousam tanto no estoicismo, como também apelam para um sincretismo filosófico que remonta ao socratismo, ao platonismo, ao aristotelismo. Ao expandir suas fronteiras, formando um vasto império, Roma desenvolve conhecimentos práticos, tais como construir estradas duradouras para trânsito de seus soldados e das mercadorias, e absorva a ética estóica, enquanto necessita de guerreiros fortes, valentes e destemidos, que saibam controlar as paixões e a dor. O estoicismo valoriza a igualdade e a liberdade e disso resultou a adoção do Jus Gentium, ou Direito das gentes, um direito baseado no direito natural (MARKY, 1992, p. 15) que era aplicado a todos, e não apenas aos romanos. O maior destaque dessa filosofia é a capacidade de suportar as vicissitudes da vida com calma e dignidade. A ética estóica foi considerada impressionante Fund_Jurid_1oPeriod.indb 42 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 220 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 3 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 43 e admirável e teve influência indiscutível sobre a ética cristã, que começava a se difundir na época. Já o Epicurismo é a doutrina de maior influência no mundo romano. Deve seu nome ao pensador grego Epicuro de Samos (347-270 a.C.), que foi seu iniciador. No entanto não divulgou suas idéias sozinho, deixou discípulos que a disseminaram, quais sejam Menequeu, Heródoto, Pitocles, Metrodoro, Hermano e Colotes. Foi reconhecendo a importância dos sentidos e seu papel para o homem é que o epicurismo delineia seus princípios éticos, tendo como base fundamental a dor evitada e o prazer almejado (a ausência de dor). Assim adverte Epicuro que quando dizemos que o prazer é a meta, não nos referimos aos prazeres terrenos dos depravados e dos bêbados, como imaginam os que desconhecem nosso pensamento ou nos combate ou nos compreendem mal, e sim à ausência de dor psíquica e à ataraxia da alma (EPICURO citado por ALMEIDA; BITTAR, 2005, p. 132). A ética social epicurista leva à conclusão de que a consciência de dor e de prazer induz o homem a se furtar da dor, e, portanto, a evitar produzi-la injustamente em outrem, fazendo, com isso, surgir a ética social do prazer. Essa é a chave da sociabilidade ética do epicurismo e também a chave para a compreensão dos preceitos de justiça. A justiça consiste em conservar-se longe da possibilidade de causar dano a outrem e de sofrê-lo. Assim podemos concluir que, para o epicurismo, a sensação é a origem de tudo, uma vez que, na busca do prazer e a repulsão a dor, a si e a outrem, faz com que as relações humanas sejam firmadas em pactos, a fim de gozar de um bem estar social. Nesse sentido, a prática da injustiça reside não só no medo da dor, mas da sanção ou punição aplicada pelo descumprimento do pacto. Com o advento do cristianismo, os epicuristas eram vistos como sinônimo de perdição, pois negavam a imortalidade e a existência de um deus benévolo e afirmavam ser fundamental viver os valores deste mundo. Esta filosofia foi a primeira versão racionalizada de uma postura de vida que tem sido muito abraçada em nossa própria época, lançadas com os gregos e cultivadas com os romanos. Portanto os romanos, tanto na história politica e jurídica, como na sua filo- sofia (com influências helênicas), trouxe à sociedade atual fontes abundantes de conhecimento. Seu campo de observações jurídicas se destaca até hoje no Direito do Mundo Ocidental, uma vez que trouxe para o nosso Direito, só no campo do Direito Civil das Obrigações, diversos tipos de contratos, como por exemplo a Fund_Jurid_1oPeriod.indb 43 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 221 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 3 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 44 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS hipoteca, o penhor e o depósito. Já sua filosofia, que se apresentou com indiscu- tíveis influências gregas, tem destaque no campo jurídico e social, pois se apre- sentam como a busca do homem, por melhor convivência individual e social, quer com base no Direito Ético, ou para evitar a dor e buscar felicidade. Síntese da aula O Direito Romano acompanhou a trajetória da civilização romana desde sua formação política - social, crescendo e decaindo com ela. Enquanto no primeiro período do Direito era apenas para os romanos, ou seja, quiritário; quando o Império se expande, também expande suas normas jurídicas, criando o Direito Pretoriano. Já no último período, o pós-clássico, todo o poder se centraliza no imperador, inclusive o de fazer e dizer o direito. Mesmo com influência em outras áreas,o Direito Privado é quem mais recebeu as contribuições do Direito Romano. Com técnica refinada, esse Direito se adaptou às mudanças de sua sociedade e, compilado por Justiniano, pôde se manter mesmo após o fim do Império Ocidental e exercer tanta influência até hoje. No campo da filosofia, com influências gregas, a sociedade se destacou, pela busca de melhor convivência social e individual, agregando a sua história o Direito Ético do estoicismo e a busca por felicidade, ou ainda evitando a dor, pela filosofia do epicurismo. Atividades 1. Relacione os períodos do Direito Romano com suas características (um período vai se repetir). I. Direito arcaico II. Direito clássico III. Direito pós-clássico ( ) Depois da queda do Império Romano do Ocidente, Justiniano realiza suas compilações, reunindo o melhor do Direito Romano. ( ) É o auge da jurisprudência, tendo como principais personagens o pretor e o jurisconsulto. ( ) Com o poder centralizado nas mãos do imperador, surge o recurso de apelação. ( ) Exclusivo para romanos, era muito rígido e formal. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 44 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 222 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 3 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 45 Aponte a seqüência correta: a) A seqüência correta é: III, II, III e I. b) A seqüência correta é: II, III, III, e I. c) A seqüência correta é: I, II, III e II. d) A seqüência correta é: II, I, III e III. 2. Qual o recurso criado no Período pós-clássico que, nos dias atuais, ainda tem aplicação? 3. A __________________ determina os cumprimentos éticos pelo simples dever, ou seja, a ética deve ser cumprida, porque se tratam de manda- mentos certos e incontornáveis da ação e é essa ética que confere ao homem a capacidade de discernir o que é favorável do que é desfavorável ao seu bom agir. a) Filosofia Estóica b) Filosofia Epicurista c) Filosofia da Idade Média d) Direito Romano 4. Relacione pontos de convergência entre o epicurismo e o estoicismo. Comentário das atividades Na atividade 1, observem o quadro exemplificativo da criação de Roma; lá você poderá identificar os períodos político e jurídico, para relacionar os tópicos da alternativa (1). Lembrando, portanto, que o período arcaico foi o do quiritário (exclusivo para os romanos), sendo juridicamente muito rígido com regras extremante formal. Já no período do Direito Clássico, o formalismo foi substituído por interpretações jurisprudenciais, tendo como principais persona- gens o pretor e o jurisconsulto. O período do Direito Pós-clássico, ocorreu a centralização do direito nas mãos do Imperador, sendo que depois da queda do Império Romano do Ocidente, Justiniano (Imperador do Oriente romano) começou a codificar o Direito Romano existente. Portanto, a alternativa correta é a letra (a). Já para responder à atividade 2, você deve analisar novamente os requi- sitos do período pós-clássico, período esse em que ocorreu a centralização do direito nas mãos do Imperador e nele surge então a primeira figura do recurso Fund_Jurid_1oPeriod.indb 45 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 223 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 3 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 46 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS de apelação, nome e forma de recurso, até hoje utilizada no recurso atuais, em especial, na esfera civil. Para você responder as atividades 3 e 4, deve novamente analisar os pontos de convergências entre as duas correntes filosóficas (Epicurismo e Estoicismo) que estudamos. Assim, a filosofia que defende a ética como conduta natural sendo que por ela o homem vai escolher o que é o bem e o que é o mal, foi a filosofia estóica. Já a Filosofia da Idade Média, centraliza toda os seus conceito em um ser supremo e criador, e o Direito Romano, não é basicamente uma filosofia, mas compilação de normas, jurisconsultas e decisões proferidas desde o apogeu do Direito Romano a sua derrogada. E, para responder a atividade 4, é necessário que se faça um quadro, elevando a idéia central da filosofia do estoicismo e do epicurismo, uma defende a ética natural (bem ou mal) e a outra defende a busca pelo prazer evitando a dor. Referências GAVAZZONI, Aluisio. História do Direito: dos suméricos até a nossa era. 2. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2002. LUIZ, Antônio Filardi. Curso de Direito Romano. 3. ed. São Paulo: Atlas, 1999. MALDANER, Jair José; RYTHOWEM, Marcelo. Filosofia, ética e cidadania. In: Caderno de Conteúdos e Atividades do Curso de Administração do Sistema EaD/Unitins Interativo. Palmas, TO: Unitins, 2005. MARKY, Thomas. Curso elementar de Direito Romano. 6. ed. São Paulo: Saraiva, 1992. Na próxima aula Roma é uma civilização da Idade Antiga, cujo fim marca a transição para a Era Medieval. É esse período da História que começaremos a ver na próxima aula. Anotações Fund_Jurid_1oPeriod.indb 46 13/1/2008 14:57:53 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 224 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 47 Objetivos Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: contextualizar a centralidade cultural e filosófica da Igreja na • Idade Média; analisar as contribuições do Direito Canônico para o Direito.• Pré-requisitos Para compreender significativamente os temas desta aula, é necessário que você tenha presente os pontos centrais da Filosofia grega, do domínio romano até o século V, e o surgimento e expansão do Cristianismo. Você deve saber o que aconteceu durante a Idade Média, observando, em especial, o avanço do poder da Igreja e a ausência de centralização do poder político. Assim você perceberá o terreno fértil sobre o qual o Direito da Igreja e a Inquisição puderam florescer. Introdução Se, durante o Medievo o poder da Igreja Católica foi crescente, é natural que ela, como instituição, buscasse se organizar, a fim de manter e expandir seu domínio. Para tanto, estrutura um Direito próprio, ao mesmo tempo centra- lizado e centralizante, no Papado de Roma, conhecido como Direito Canônico (cânones são os dogmas, as verdades incontestáveis da religião católica). Com as transformações por que passa a sociedade medieval, na medida em que avançam o comércio e a urbanização, a Igreja vai sofrer ataques ao seu poder hegemônico. Para se proteger, cria a Inquisição, instituição que irá perseguir por séculos os hereges, ou seja, todos aqueles que se opunham à doutrina católica. Aula 4 Pressupostos históricos e filosóficos do Direito na Idade Média Fund_Jurid_1oPeriod.indb 47 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 225 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 48 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS 4.1 O Feudalismo Com a decadência da escravidão, desestruturação do Império Romano e as invasões dos povos considerados “bárbaros”, há uma transformação nas relações de trabalho e na sociedade em geral que resultou na estruturação da sociedade feudal, com a instalação do modo de produção conhecido como feudalismo. Muitas pessoas migraram da cidade para o campo. Construíram-se vilas fortificadas e castelos cercados por muralhas. Cada um se defendia como podia. Os mais fracos procuravam ajuda de nobres poderosos. Os camponeses que buscavam a proteção dos senhores de terra foram submetidos à servidão. O sistema feudal tem como características principais: a terra éo principal meio de produção e pertencia aos senhores feudais; a sociedade é rigidamente hierarquizada, tendo como classes sociais: senhores feudais, clero e servos; os trabalhadores tinham direito ao usufruto e à ocupação das terras, mas nunca à propriedade delas. Os senhores, pelos laços feudais, tinham o direito de arrecadar tributos sobre os produtos ou sobre a própria terra; existência de um sistema de deveres entre senhores e servos. Os servos trabalhavam em regime de servidão, no qual não se goza de plena liberdade, mas, também, não se é escravo; os servos eram os que efetivamente trabalhavam; os senhores feudais e o clero viviam do trabalho dos outros; a produção era basicamente de subsistência. A servidão na sociedade feudal perdurou um longo tempo, porque havia forte solidariedade entre as famílias senhoriais, cumprimento irrestrito de compromissos e juramentos, e também pela presença da Igreja sancionando esses compro- missos, definindo claramente o lugar das classes servis nessa comunidade. Desse modo, os senhores conseguem não só manter pleno domínio da situação, mas também fazer com que essa dominação fosse aceita pelos dominados. O feudalismo alcança seu apogeu durante a Alta Idade Média, entrando progressivamente em declínio durante a Baixa Idade Média, com o renasci- mento urbano e comercial e a gradual centralização política. 4.2 A Igreja: poder e saber O período medieval tinha a concepção de que o homem teria a natureza sujeita ao pecado e ao descontrole das paixões, o que exige vigilância cons- tante, cabendo à Igreja intimidar os homens, para que ajam corretamente. Nesse momento, o poder do Estado encontrava-se fragmentado. A existência de um rei tinha um caráter mais simbólico (de união, abençoada pela Igreja) e Fund_Jurid_1oPeriod.indb 48 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 226 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 49 não significava centralização do poder político, exercido de fato pelos senhores feudais. A lealdade entre rei e senhores feudais era condicionada a essa auto- nomia feudal, dentro da qual o rei quase não se diferenciava, em poder, dos demais nobres detentores da terra. O desejo de unidade de poder, de restauração da antiga ordem perdida se expressa na difusão do cristianismo, que representa, na Idade Média, o ideal de Estado Universal. Desde o final do Império Romano, quando o cristianismo se tornara religião oficial do Império, estabelece-se a ligação entre Estado e Igreja. A igreja legitima o poder do Estado, atribuindo-lhe uma origem divina (ARANHA; MARTINS, 1996, p. 199). O Estado medieval tem em suas mãos o poder temporal, voltado para as necessidades mundanas. A igreja possui o poder espiritual, voltado para os interesses da salvação da alma, objetivo e horizonte ético central do homem medieval, e deve encaminhar o rebanho para a verdadeira religião, por meio da força da educação e da persuasão. Há, dessa forma, uma estreita ligação entre política e moral, com a exigência de se formar o governante justo, que consiga obrigar, muitas vezes pelo medo, à obediência aos prin- cípios da moral cristã. Também neste período foi fundamental a descoberta do Purgatório. Até o século XIII, o purgatório não existia no imaginário cristão, nem existia um lugar assim em nenhuma outra religião. Chega-se a um lugar de mediação entre o Céu e o Inferno, no qual os vivos podem fazer algo a favor dos mortos: pagar missas e indulgências pelo resgate da alma deles, tornando a Igreja mediadora da salvação. 4.2.1 Fé e razão Nesse período, ocorre, também, um intenso debate que procura estabe- lecer as relações entre fé e razão. Dois pensadores se destacam no período pela tematização que construíram sobre esse assunto: Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. 4.2.2 Santo Agostinho (354-430) Agostinho nasceu em Tagaste, onde hoje é a Argélia. Foi bispo de Hipona, norte da África, por isso é conhecido como Agostinho de Hipona. Sua vida pode ser dividida em dois períodos distintos: antes da conversão, e depois da conversão ao cristianismo. Antes da conversão, Agostinho interessa-se, princi- palmente, por retórica e filosofia. Depois da conversão, concentra seu interesse sobretudo na Sagrada Escritura e na Teologia. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 49 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 227 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 50 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Santo Agostinho cria uma doutrina para conciliar a filosofia grega, prin- cipalmente o pensamento de Platão, com o cristianismo. Os pressupostos da visão de justiça, em Agostinho, são teológicos, mesclados com os escritos de Platão. O tema justiça para o filósofo divide-se em humana e divina; aquela realizada entre os homens, por meio das decisões da sociedade, que tem como fonte primordial a lei dos homens. Já as leis divinas são imutáveis, perfeitas e infalíveis, infinitamente justas e boas. As reflexões sobre o Direito e o Estado acham-se fundamentalmente na obra De Civitate Dei (A cidade de Deus). Nesta obra, Agostinho diz que, antes do pecado original, a humanidade passou por uma fase de esplendor, com o pleno acatamento do Direito Natural. Todos os homens eram iguais, puros, imortais e viviam como irmãos. Com o pecado original, surge a Cidade Terrena e, com ela, nasce a miséria, a morte, a paixão. O Estado e o Direito foram criados por causa dessa nova condição humana. Para o filósofo, não há república sem ordem, não há ordem sem Direito e não há Direito sem justiça. Agostinho se refere à justiça como elemento essencial do Direito: “onde não há verdadeira justiça não pode existir verdadeiro Direito” (NADER, 1997, p. 120). Para Santo Agostinho, a lei terrena está subordinada à lei divina e, sempre que houvesse conflito entre ambas, a lei divina deveria prevalecer (NADER, 1997, p. 120). Conclui-se, por isso, que a política humana deve refletir os anseios da lei divina, e é nesse sentido que a teoria agostiniana define que, para a realização desses anseios, deve haver a intervenção de um chefe condutor das leis humanas sob o prisma de uma lei divina. Baseado nesse compromisso, nasce o Estado teocrático defendido pelo filósofo. 4.2.3 Santo Tomás de Aquino (1225–1274) Nasceu em Roccasecca, Itália, em 1225. Em 1239, entrou para a Universidade de Nápoles e, pouco depois, para a ordem dos dominicanos. Depois de obter o grau de mestre em teologia, ensinou essa disciplina em Sorbona e, mais tarde, assumiu o cargo de teólogo papal na corte ponti- fícia. Passou seus últimos anos no convento de Nápoles, compondo a Suma Teologica, comentando Aristóteles e pregando ao povo. O problema das relações entre fé e razão é também a temática central do pensamento de Tomás de Aquino. Tomás era estudioso e admirador de Aristóteles e promoveu a conciliação entre a doutrina aristotélica e o Fund_Jurid_1oPeriod.indb 50 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 228 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 51 cristianismo. Na obra Suma Teológica, Tomás de Aquino expõe sua doutrina básica sobre a justiça como problema ligado à ação humana. No que se diz respeito à natureza humana, Santo Tomás definia que o homem é composto de corpo e de alma, sendo aquele o material para o aperfeiçoamento da alma que é criada por Deus. Para ele, a Filosofia deveria subordinar-se à revelação, que é critério único de verdade. Tomás definiu o termo justiça mesclado noconceito de ética, afir- mando, assim, com base nas influências aristotélicas, que justiça é uma vontade perene de dar a cada um o que é seu. Caracterizou a justiça como igualdade de pessoas, exteriorizada em seus comportamentos em poder discernir o que é seu e o que não é. Aceitava o estudioso que o Direito é objeto da justiça, ou seja, não se pode confundir Direito e justiça, porque são diferentes seus conceitos e inspira- ções, mas o Direito busca a realização da justiça, por sua vez, o efeito da lei. Tomás de Aquino distinguiu três espécies de lei: a eterna, a natural e a humana. A lei eterna era a própria razão divina no governo do universo, e como Deus nada concebia temporariamente, a lei seria eterna. Todas as leis humanas derivam da lei eterna. A lei humana teria natureza de lei apenas quando se conformasse à razão reta; quando se afastasse, não seria lei, mas violência (NADER, 1997 p. 124). A lei natural, na Filosofia Tomista, segundo Nader, é a participação da criatura racional na lei eterna. É um reflexo parcial da razão divina que permite aos homens conhecer princípios da lei eterna. O preceito básico do Direito Natural é o que manda observar o bem e evitar a prática do mal. Ao bem, corresponderiam as inclinações naturais da criatura humana. Estariam de acordo com a lei natural: a) a conservação da vida; b) a união dos seres para a formação da prole; c) a busca da verdade; d) a parti- cipação na vida social. 4.3 A Igreja e a construção do Direito Canônico Com no papado de Gregório VII, em 1073, a Igreja Católica centralizou seu poder nas mãos de um papa único em Roma, e conseguiu liberdade e inde- pendência, organizando o clero e passando a exercer, ela mesma, o poder político na sociedade medieval, se constituindo como a única instituição polí- tica centralizada da Europa nessa época. O episódio que demarcou definitivamente a separação do poder religioso do secular é conhecido como Querela das Investiduras; a partir daí só o papa poderia investir alguém na função clerical. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 51 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 229 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 52 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Fruto dessas transformações, surge o Direito Canônico, inaugurando a jurisdição religiosa como um Direito disciplinador não só dos componentes do clero (competência absoluta, ou seja, eles só podiam ser julgados pelas instituições e leis canônicas), como também dos fiéis (em questões que envol- vessem matéria religiosa, como os sacramentos e heresias). Com isso, o papa afirma seu poder de legislar e criar novas leis, sendo que somente ele, como representante de Deus na Terra, poderia explicar as antigas normas e realizar a interpretação autêntica delas. A partir desse momento, a Igreja, que já tinha a obediência e lealdade da população, passou a contar também com um Direito escrito, formal e racional (enquanto em toda a Europa feudal o Direito era eminentemente oral e costumeiro), instrumento importante para a manutenção e crescimento do seu domínio. Estamos falando da Europa dos séculos XI a XV. Imagine as dificuldades de trânsito e de divulgação das informações... É de se imaginar que, após todas essas mudanças, a Igreja vá precisar sistematizar seu Direito, a fim de que suas normas alcancem a maior abrangência possível nesse contexto. Assim, dá-se início ao Corpus Iuris Canonici (Corpo do Direito Canônico), formado por compilações dos decretos dos concílios (reuniões do clero), dos decre- tais, constituições, bulas e encíclicas papais, todos fontes do Direito Canônico (lembre-se, você já viu o que são fontes do Direito em Introdução ao Direito). O Copus Iuris Canonici só será revogado em 1917, com a publicação do Codex Iuris Canonici (Código de Direito Canônico) (HESPANHA, 2005, p. 150). Desse conjunto, o documento mais importante é o Decreto de Graciano, do início do século XII, que reúne cerca de 4000 textos jurídicos relevantes, organizados por matéria e brevemente comentados ou somente sinteti- zados (HESPANHA, 2005, p. 150). Podemos citar, ainda, os Decretais, as Clementinas, as Extravagantes, todas posteriores e complementares à compi- lação de Graciano. 4.3.1 Inovações jurídicas trazidas pelo Direito Canônico O Direito Canônico nasceu sob os imperativos de racionalidade que come- çavam a surgir no panorama europeu, que já tinha assistido ao surgimento das universidades. Tendo se organizado em especial nas Universidades, cria uma classe técnica e burocratizada, apta a se utilizar de seus institutos. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 52 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 230 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 53 Desses, o que sofreu maiores transformações foi o processo. A partir de então, o princípio da escrita passou a imperar no desenvolvimento processual, diminuindo o papel da oralidade, base da administração da justiça. Também se formalizaram e se organizaram as etapas processuais, que deixaram de ser aleatórias. Deu-se início ao sistema cartorial (uma vez que os processos eram escritos, era possível arquivá-los, para que se tivesse acesso aos mesmos a qualquer momento) e, o mais importante, mudou-se o sistema de provas, abolindo os ordálios e passando a aceitar somente provas racionais (já veremos o papel da tortura na obtenção dessas provas). Tudo isso significou a superação do processo acusatório pelo inquisitório, que instrumentalizou o Santo Ofício, como já se verá. Outra área de grande contribuição desse sistema de Direito foi ligado à teoria das pessoas jurídicas. As pessoas jurídicas são criadas a partir da manifestação da vontade de pessoas físicas ou naturais, constituindo uma personalidade diferente das que a criaram, com direitos e obrigações indepen- dentes. Essa estrutura foi montada pela Igreja, justamente para que seus bens e responsabilidades não se misturassem com os dos clérigos (se não fosse assim, quando da morte de um padre, seria possível que seus sucessores herdassem bens que deveriam pertencer à instituição religiosa). Ordálios (ou ordálias) eram provas irracionais que tinham sua força probatória baseada na “vontade divina”. Como exemplo, podemos citar andar em um caminho de brasas (aquele cujos pés não sofreram queimaduras, ou se curaram mais rápido, seria considerado inocente, pois “Deus” quis assim), ou ter a cabeça mergulhada (aquele que agüentasse mais tempo imerso, sairia o inocente). Também eram comuns os duelos. Por fim, uma vez que o Direito Canônico também era responsável por reger questões ligadas aos sacramentos, desenvolveu regras ligadas a casa- mentos, sucessões, testamentos, etc. 4.4 A Inquisição Medieval e Moderna Apesar do predomínio da igreja durante o período feudal, não devemos perder de vista que vários outros grupos religiosos coexistiam no território europeu e adjacências (como o norte da África e Oriente próximo), como os judeus, cátaros (cristãos não católicos) e muçulmanos, além daqueles “credos” primitivos ligados às forças da natureza. Com o fim da Idade Média, surgem ainda os protestantes, como veremos na próxima aula. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 53 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 231 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 54 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Para reconquistar os territórios sagrados ocupados (em especial por muçul- manos), a Igreja organizou as Cruzadas, para combater os infiéis e delas nasceu o Santo Ofício da Inquisição,uma instituição jurídica especializada em julgar crimes contra a fé cristã. A Inquisição Medieval era uma empreitada basicamente religiosa, feita pela Igreja para punir aqueles que contestassem ou não seguissem seus dogmas, os hereges. Posteriormente, ela se ajusta a uma nova realidade marcada pela união da força dos Reis dos recentes Estados Modernos abso- lutistas (que serão a instituição característica da Modernidade, como veremos na aula a seguir) e da Igreja Católica Romana. A chamada Inquisição Moderna vai acontecer principalmente nos países ibéricos (Espanha e Portugal), unindo o poder político ao religioso e incluindo entre suas here- sias o crime de lesa-majestade (aqueles que iam contra o poder do Rei, coroado pela Igreja). A Inquisição chegou até a América que estava sendo colonizada na mesma época. As colônias espanholas e o Brasil (colônia portuguesa) rece- beram Visitações do Santo Ofício. 4.4.1 O Processo Inquisitorial A Inquisição Medieval é, em muitos pontos, diferente da Moderna, mas uma faceta importante foi mantida, e talvez esteja ai seu maior legado: o processo inquisitorial. Ao contrário do que parece indicar hoje o senso comum, que relaciona a Inquisição com bruxas queimando na fogueira, o processo inquisitorial tinha como premissa básica a racionalidade. Representou a superação do modelo acusatório que responsabilizava o acusador pela denúncia e cuja decisão era dada por um juiz imparcial, que julgava por meio dos ordálios ou dos duelos. A partir do séc. XIII, a Igreja instituindo um novo sistema racional de provas, destituiu a responsabilidade do acusador pela denúncia que agora poderia ser feita por qualquer pessoa, inclusive o próprio Tribunal. Esse processo, chamado inquisitorial, era previsto de forma escrita nos Regimentos da Inquisição, e dividido em duas partes: a primeira, o interroga- tório, para que o réu confessasse suas culpas, e a segunda, o julgamento, na qual o réu se “defendia” das acusações feitas pelo libelo, que se baseava nas denúncias. Tanto a primeira como a segunda fases eram secretas e a sentença era votada na mesa da inquisição. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 54 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 232 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 55 Após a denúncia, o acusado tinha seus bens confiscados e era levado para interrogatórios, que eram acompanhados de tormentos. “O uso da tortura judicial baseia no pressuposto de que uma pessoa, quando submetida ao sofrimento físico durante o interrogatório, acaba por confessar a verdade” (LEVACK, 1988, p. 73). A denúncia de outros nomes, supostos cúmplices, era um dos objetivos da tortura, o que garantia uma auto-perpetuação da Justiça inquisitorial que sempre tinha pessoas a “investigar”. Várias eram as espécies de tortura que eram utilizadas, ajustando-se as técnicas aos crimes a serem desvendados. Após os interrogatórios e as torturas, a fase posterior era a acusação, feita por um funcionário da Inquisição, o Promotor, que baseava seu libelo nos testemu- nhos e nas perguntas feitas ao réu nos interrogatórios. Se não houvesse provas ou fatos concretos, a acusação era baseada nas suposições e presunções, inverten- do-se a máxima jurídica atual que prega que a dúvida deve beneficiar o réu. Pode parecer paradoxal, mas é a Inquisição que torna a presença do advo- gado de defesa figura obrigatória no processo (LOPES, 2000, p. 108). Ele era, no entanto, empregado do Santo Oficio e seu poder era bastante limitado, já que ele não tinha vista do processo e só sabia o que era comunicado ao réu. Na notificação da sentença, terminava a jurisdição dos Tribunais Eclesiásticos, pois já que a Igreja não podia tirar a vida de ninguém, o condenado era entregue à justiça secular, isto é, aos funcionários da Coroa, que executavam a pena. Os recursos não eram obrigatoriamente aceitos, e ficava ao bel-prazer dos inquisidores a decisão de encaminhar a apelação para o Conselho Geral. As sentenças do Tribunal do Santo Ofício eram lidas e executadas nos autos de fé. Depois da realização de uma missa, eram lidas as sentenças e os conde- nados à fogueira eram transportados para o lugar do fogareiro. Os autos de fé públicos eram verdadeiras festas populares, cheias de pompa e ostentação, em que compareciam o povo, a corte e convidados de honra. 4.5 Outros sistemas de Direito Medievais Enquanto a Europa vivia o predomínio da Igreja durante a Idade Média, além dos direitos locais de cada feudo, baseados nos costumes e no poder do senhor feudal, outros sistemas de Direito se desenvolviam. Na Ásia, no século VII, surge uma nova religião, o islamismo, que reúne rapidamente uma multidão, sob os mandamentos de um livro sagrado, o Corão, que é, ao mesmo tempo, lei escrita e palavra de Deus. O Corão tem Fund_Jurid_1oPeriod.indb 55 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 233 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 56 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS grande importância jurídica, uma vez que ele continua sendo a lei máxima a ser seguida por um grande contingente populacional no mundo, além de vários Estados, que baseiam seu direito nacional nas regras dali emanadas. Para esses países, o Direito é apenas uma face da religião. A Inglaterra inaugura, no séc. XI, um novo sistema de Direito, a Common Law, que concilia o feudalismo com a centralização do poder político e a criação de um direito comum a todo o reino (nos assuntos públicos, preva- lecia sobre os direitos feudais), que foi construído a partir dos costumes e dos precedentes judiciais. O sistema de Direito Inglês, como também é conhecido, vai proporcionar, ao longo do tempo, grandes inovações jurídicas, ligadas principalmente aos direitos individuais e políticos, à história do Direito. É hoje empregado em várias ex-colônias britânicas, como os EUA, a Austrália, entre outros. Ainda podemos apontar o Direito Bárbaro, próprio de cada um desses povos, normalmente oral, costumeiro e primitivo. Por fim, o próprio Direito Romano, cuja influência e reconhecimento, mesmo depois do fim do Império, fez com que seja incorporado, em alguns lugares, aos direitos dos bárbaros, criando um Direito Romano vulgar, como o Breviário de Alarico e a Lex Burgundiorum. O Direito Romano também passa a ser estudado nas Universidades, por meio das Compilações de Justiniano (reunião de textos jurídicos clássicos do Direito Romano, realizada já na Idade Média no Império Bizantino, como já vimos na aula 5). O fato de ser o Direito Romano um Direito sistematizado, escrito e com legitimidade cultural, seu ressurgimento vai auxiliar no desenvolvimento do comércio e da burguesia, na centralização do poder político e na formação de uma burocracia técnica para os incipientes Estados-nação europeus. Como vimos até aqui, a Idade Média conheceu o surgimento e o ressur- gimento de vários sistemas de Direito. Perceba o imenso poder da Igreja e sua centralização, bem como o ambiente de racionalidade e formalização que envolve o estabelecimento do processo inquisitorial, com a abolição das provas irracionais (ordálios e duelos) entre outras mudanças, mas mantendo a tortura e o segredo, o que propiciou que o elemento irracional se mantivesse presente. Você pode perceber que a Inquisição é uma instituição que se iniciou na Idade Média e seguiu por toda a Idade Moderna, em especial nos dois Estados ibéricos (Espanha e Portugal) recém-organizados. Os Estados-nação são apenas uma das grandes transformações, cujo desenrolar vamos assistir na Modernidade, nas próximas páginas. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 56 13/1/200814:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 234 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 57 Síntese da aula Nesta aula, vimos alguns aspectos da formação e desenvolvimento histó- rico e filosófico no período medieval. Observamos que o feudalismo provocou uma fragmentação no poder político na Europa, enquanto a Igreja Católica Romana desempenhava um importante papel na cultura, na política, no Direito, na Filosofia; enfim, em todas as áreas do conhecimento. A Patrística, cujo principal representante foi Santo Agostinho, procurou, nos primórdios do cris- tianismo, conciliar este com a Filosofia de Platão. A Escolástica, mais no final da Idade Média, desenvolve-se nas Universidades, com o ensino de Direito, e teve como principal pensador Santo Tomás de Aquino, que buscou conciliar a Filosofia de Aristóteles com o cristianismo. Vimos também que a Igreja construiu o Direito Canônico para instrumenta- lizar seu poder durante a Idade Média. Esse Direito trouxe grandes inovações, em especial na área de processo. Como forma de manter seu poder, a Igreja instaura a Inquisição, para perseguir e punir os hereges, aqueles que ousam contestar suas verdades. Para tanto, utiliza-se do processo inquisitorial, que, ao mesmo tempo em que é regido por princípios racionais, autoriza o uso da tortura. Ainda durante a Idade Média, além dos direitos feudais, estão surgindo na Ásia o Direito Muçulmano, na Inglaterra a Common Law, e, nas universidades européias, ressurgindo o Direito Romano. Atividades 1. Explique a importância de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino para a difusão das idéias cristãs na Filosofia. 2. O Direito Canônico nasceu sob os imperativos de racionalidade que come- çavam a surgir no panorama europeu, que já tinha assistido ao surgimento das universidades. Tendo se organizado em especial nas Universidades, cria uma classe técnica e burocratizada, apta a se utilizar de seus insti- tutos. Assinale a alternativa que não corresponde a uma conseqüência do Direito Canônico. a) A Igreja instituindo um novo sistema racional de provas, destituiu a responsabilidade do acusador pela denúncia que agora poderia ser feita por qualquer pessoa, inclusive o próprio Tribunal. b) O estudo do Direito exigia uma formação básica prévia e dividia-se em Romano e Canônico. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 57 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 235 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 4 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 58 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS c) Mudou-se o sistema de provas, abolindo os ordálios e passando a aceitar somente provas racionais. d) Para esse código de Direito, a religião não poderia influenciar nas decisões jurídicas. 3. A Igreja ocupa uma posição de centralidade na organização da socie- dade e da cultura medievais. Confirma essa tese o fato de que: a) a Igreja busca apoio dos reis, que eram figuras políticas de extrema relevância; b) todo o saber acumulado e produzido era controlado pela Igreja; c) a Igreja denunciou as torturas nos processos inquisitórios; d) a partir da ascensão do Império Romano a Igreja garantiu-se como uma instituição militar e jurídica fundamental. 4. O Direito Canônico representou um novo período na organização do sistema de justiça de então. Explique como o processo de racionalização contribui para isso. Comentário das atividades Na atividade 1, para conciliar a nova religião – o Cristianismo – com o pensamento filosófico dos gregos e romanos, pois somente com tal conci- liação seria possível convencer os pagãos à nova verdade e convertê-los a ela. Ambos procuram cumprir a tarefa religiosa de evangelização e consolidação da doutrina católica, além da defesa da religião cristã contra os ataques teóricos e morais que recebia dos antigos. Seu pensador mais importante é Santo Agostinho. Na atividade 2, a alternativa que apresenta uma idéia incoerente com o Direito Canônico é a (d), porque todo esse código se baseia na fé cristã. As demais, (a), (b) e (c), estão corretas, porque representam o processo de racio- nalização do Direito efetuado pelo Direito Canônico. Esse mesmo processo de racionalização pode ser abordado na atividade 4, na qual o acadêmico deverá desenvolver de forma crítica as alternativas da atividade 2. Poderá produzir o texto enfocando que o princípio da escrita passou a imperar no desenvolvimento processual, diminuindo o papel da oralidade, base da admi- nistração da justiça. Também se formalizaram e se organizaram as etapas processuais, que deixaram de ser aleatórias. Deu-se início ao sistema cartorial (uma vez que os processos eram escritos, era possível arquivá-los, para que Fund_Jurid_1oPeriod.indb 58 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 236 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ AulA 4 • Aspectos Históricos e FilosóFicos do direito uNitiNs • FuNdAmeNtos jurídicos • 1º período 59 se tivesse acesso aos mesmos a qualquer momento) e, o mais importante, mudou-se o sistema de provas, abolindo os ordálios e passando a aceitar somente provas racionais. A atividade 3 deve levar o acadêmico a compreender que a Igreja centra- lizou em suas mãos a posse do saber produzido. Está correta a alternativa (b). As demais alternativas estão incorretas porque vinculam a Igreja ao poder dos reis que na época eram uma figura irrelevante politicamente, ou porque tratam a Igreja como uma instituição militar o que não ocorreu. A alternativa é incorreta, porque a Igreja, nesse período, chegou a fazer uso da tortura como forma de extrair uma confissão do réu. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à Filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. LOPES, José Reinaldo de Lima. O Direito na História. São Paulo: Max Limonad, 2000. NADER, Paulo. Filosofia do Direito. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2003. Na próxima aula Após a queda do Feudalismo e conseqüente questionamento do excesso de poder exercido pela Igreja, surge a Modernidade que é um período carac- terizado pelo uso da razão. Essa temática será abordada na próxima aula. Anotações Aspec_Hist_Filos_Direito.indd 59 14/1/2008 10:21:15 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 5ª PROVA - 14/01/2008 - Page 1 of 1 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 60 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Fund_Jurid_1oPeriod.indb 60 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 238 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 61 Objetivos Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: identificar as características do Estado e do Direito modernos, a impor-• tância do Renascimento e da Reforma Protestante, com suas implica- ções na formação do Direito; compreender as principais características do Iluminismo e as teorias • do Direito, segundo Kant e Hegel. Pré-requisitos Para integralizar bem os temas desta aula, você terá que ter em mente as prin- cipais características da Idade Média, a passagem do Feudalismo para o capi- talismo, que estudamos no tópico anterior, destacando os novos pensamentos, influenciados pela nova realidade do capitalismo. No entanto, para melhor compreensão desta aula, deve também buscar na históriaque você estudou no ensino médio, como nasceu a Idade Moderna, o que foi o Renascimento e por que se deu a Reforma Protestante, pontos relevantes para que você compreenda as características da Idade Moderna e, por conseqüência, também possa assi- milar, com maior facilidade, as contribuições dos jusnaturalistas para o desen- volvimento do Direito e do Estado Moderno, no qual cada período, com suas devidas peculiaridades, influenciaram os filósofos da sua geração. Introdução Após a Idade Média que representou o apogeu de uma sociedade fundada em valores transcendentais, sustentados por uma visão de mundo dualista: as coisas de Deus são boas. A modernidade vem oferecer ao homem a possibili- dade de ele próprio construir um sentido novo para seu existir: buscar a felici- dade por seus próprios méritos. Essa concepção transformará a organização Aula 5 Pressupostos históricos e filosóficos do Direito na Idade Moderna Fund_Jurid_1oPeriod.indb 61 13/1/2008 14:57:54 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 239 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 62 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS social, o modo de produzir conhecimento, a regulação da vida cotidiana e a atitude humana perante o mundo e as demais pessoas. No campo da Filosofia moderna, há uma interrupção do pensamento filo- sófico cristão, desenvolvendo suas doutrinas sem se prender à autoridade da Igreja, se revelando estritamente crítica e profana. O foco de grandes filósofos dessa época é o Estado Moderno e o Direito, em especial a idéia de Direito Natural (Jusnaturalismo, como vimos no tema anterior). Há uma tentativa de justificar a existência do Estado por decisão racional dos homens. E para fecharmos, com assunto também muito importante ao propósito desta aula, destacaremos na História e Filosofia do Direito, na Idade Moderna, o Iluminismo, que têm uma confiança ilimitada na razão humana que, segundo eles, aliada à ciência, será capaz de resolver todos os problemas que afligem a humanidade. Vários pensadores desenvolveram suas teorias dentro desse espírito, dentre eles Kant e Hegel. Portanto, o elemento central desta aula é o homem e sua colocação social, que rompe a barreira da visão mítica do mundo, passando a conceber e formar a sociedade de acordo com sua própria razão. 5.1 Idade Moderna: panorama histórico 5.1.1 Renascimento O movimento intelectual e cultural que caracterizou a transição da mentalidade medieval para a mentalidade moderna ficou conhecido como Renascimento. Esse nome se dá porque muitos artistas e intelectuais do séculos XV e XVI quiseram recu- perar ou retomar a cultura antiga greco-romana, que esmorecera na Idade Média. O Renascimento iniciou-se na Itália, e espalhou-se por toda a Europa, adquirindo diferentes feições. É no Renascimento que se encontram, numa só, as três correntes de pensa- mento que preservaram a cultura grega, as quais haviam se separado no início da Idade Média, quais sejam: cultura católico-romana no ocidente (Roma), cultura romano-oriental (Bizâncio) e cultura árabe. Os renascentistas desenvolvem uma crença totalmente nova no homem que passou a ser visto, agora, como algo infinitamente grandioso e valioso. Foi o movimento renascentista que renovou a concepção de natureza e a partir da Fund_Jurid_1oPeriod.indb 62 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 240 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 63 concepção de Estado fundado na razão, desenvolveu-se a idéia do Direito Natural baseado no homem e não na origem divina. A Renascença atingiu o campo da Política e também o campo jurídico. O espírito renascentista provocou também mudanças no interior da Igreja Católica, que foi duramente criticada nesse período. As insatisfações culmi- naram com um movimento de ruptura na unidade cristã: a Reforma Protestante, cujo principal autor foi Martinho Lutero. 5.1.2 A Reforma Protestante A preocupação de Martinho Lutero deu-se na perspectiva religiosa. Ele queria voltar às origens, às fontes do cristianismo. Conseqüentemente, as Sagradas Escrituras eram o centro das interpretações. Para Lutero, cada um deveria ter acesso à leitura da Bíblia. Ninguém tinha o direito de ser interme- diário entre o homem e Deus. Para ele, os padres não desfrutavam de uma relação privilegiada com Deus e não se obtinha o perdão de Deus e a liber- tação dos pecados por meio dos rituais da igreja. A redenção era concedida ao homem de forma inteiramente gratuita, unicamente através da fé. As obras não seriam necessárias. A Reforma Protestante iniciada por Lutero vai se espalhar pela Europa, provocando uma série de rupturas com a Igreja Católica e a formação de várias denominações cristãs, como o calvinismo, na França e Suíça, e o anglicanismo, na Inglaterra. Essas profundas mudanças sociais que se iniciaram na Baixa Idade Média com o reaquecimento do comércio e das cidades, impulsionadas pela Reforma e pelo Renascimento, vão incidir diretamente na política. Para entender as transformações nesse campo, vamos conhecer o Estado Moderno. 5.1.3 O Estado e o Direito Moderno Com o declínio do Feudalismo e a influência das idéias de Maquiavel e outros, a Europa passa a um processo de centralização do poder político. O crescimento do comércio e da burguesia exigia maior estabilidade para o desenvolvimento da atividade, mas isso era muito difícil com a pluralidade de unidades feudais, cada qual com suas regras e tributos. Assim, numa aliança estratégica entre rei e burguesia (e a Igreja, em alguns casos) ocorre uma unificação do poder político, que deixa as mãos dos senhores feudais e passa a ser monopólio dos reis. É nesse momento da história que se dá a formação dos Estado-nação, reunindo os três elementos Fund_Jurid_1oPeriod.indb 63 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 241 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 64 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS que o constitui: território, povo e soberania (vocês já devem ter visto isso na disciplina de Organização Política e Judiciária do Estado). Esses Estados modernos são soberanos frente aos demais Estados, não havendo hierarquia entre eles. Orientam-se pela disposição de que dentro de determinado território “autônomo”, independente, a sociedade, as pessoas que ali se encontram devem obediência às regras emanadas pelo poder polí- tico do Estado, neste momento totalmente nas mãos do Rei, senhor absoluto, sem qualquer limite ao seu poder. Nenhum outro poder, como o poder da família ou da igreja, pode ir contra ou se sobrepor às normas estatais. Desta maneira, o Direito passa a ser de âmbito nacional e se restringe basicamente às leis feitas pelo Estado, tal qual encontramos hoje. Cada Estado vai organizar seu próprio Direito nacional, bem como suas estruturas políticas. Em comum, a base Jusnaturalista dos direitos nacionais e o fato de serem Estados Absolutistas, apoiados, nesse caso, na tese de Maquiavel e Hobbes (falaremos dessas teses posteriormente). A concepção de Direito Natural ganha, na Idade Moderna, uma impor- tante evolução. O Direito Natural já não seria identificado com a natureza cósmica, como fizeram os estóicos e os romanos, nem imaginado como produto da vontade divina. A valorização da pessoa humana, que se registrou com a Renascença, atingiu o âmbito da Filosofia Jurídica, quando então o Direito Natural passou a ser reconhecido como emanação da natureza humana. São representantes da escola de Direito Natural, dentre outros, Hobbes,Locke e Rousseau. Todas essas transformações impulsionaram a Europa a se lançar ao mar, em busca de novas rotas comerciais e novas terras para dominar e colonizar. Dependente do comércio com o Oriente, com seus produtos que tornavam a vida dos nobres europeus mais belas e luxuosas, a Europa se viu em maus lençóis quando os turcos obstruíram essa rota. Portugal e Espanha, Estados modernos, centralizados, animadas com as inovações técnicas da navegação, como a bússola, a caravela e os mapas, resolvem então encontrar um novo caminho para as Índias, que era como se chamava o Oriente. Primeiro Portugal descobre um caminho, dando a volta em todo o conti- nente africano. Depois, em 1492, numa tentativa de alcançar as Índias pelo Ocidente, a Espanha se depara com terras oficialmente desconhecidas pelos europeus até então, que mais tarde serão batizadas de América. Em 1500, é a vez dos portugueses “descobrirem” uma porção de terra, a qual será dado Fund_Jurid_1oPeriod.indb 64 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 242 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 65 o nome Brasil. A partir daí, os outros estados europeus começaram a enviar expedições com vistas também à posse das terras do Novo Mundo. A coloni- zação que aqui se empreende (Brasil) é de exploração das riquezas, com total desrespeito à cultura local e extermínio da população nativa. A nova ordem se consolida com o mercantilismo, sistema que supõe o controle de economia pelo Estado e que resultou da aliança entre reis e burgueses. Estes financiavam a monarquia absoluta necessitada de exército e marinha, enquanto os reis ofereciam em troca vantagens como incentivos e concessão de monopólios que aumentaram a acumulação de capital. 5.2 A Filosofia moderna e as implicações para a formação do Estado e do Direito 5.2.1 Maquiavel (1469-1527) Vivenciando uma sociedade politicamente sem centralização, onde o Estado italiano passava por inúmeras disputas e constantes invasões externas, gerando uma instabilidade por parte dos governantes que não conseguia se manter no poder por muito tempo. Maquiavel enfrentar essas adversidades, com a necessidade de criar um governo soberano com poderes absolutos (daí o nome Absolutismo, se referindo à ausência de limites do poder do rei), que ele descreve em sua obra O Príncipe. Esse livro tem provocado inúmeras interpretações e controvérsias. Apresenta frases do tipo: “É necessário a um príncipe, para se manter, que aprenda a poder ser mau e que se valha ou deixe de valer-se disso segundo a necessi- dade”, de onde surge a expressão “os fins justificam os meios”, também rela- cionada à teoria política de Maquiavel. O príncipe virtuoso, segundo Maquiavel, é aquele que tem a capaci- dade de perceber o jogo de forças que caracteriza a política, para agir com energia, a fim de conquistar e manter o poder. O príncipe não deve obedecer às normas preestabelecidas da moral cristã. A ética proposta por Maquiavel analisa as ações não mais em função de uma hierarquia de valores dada a priori, mas sim em vista das conseqüências, dos resultados da ação política. O critério para se definir o que é moral é o bem da comunidade e, nesse sentido, às vezes é legítimo o recurso ao mal, como o emprego da força coercitiva do Estado, a guerra, a prática da espionagem, o emprego da violência. Estamos diante de uma moral imanente, mundana, que vive do relacionamento entre os homens. E se há possibilidade de os homens serem Fund_Jurid_1oPeriod.indb 65 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 243 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 66 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS corruptos, constitui dever do príncipe manter-se no poder a qualquer custo (ARANHA; MARTINS, 1993, p. 204-205). A finalidade da política não é, como diziam os pensadores gregos, romanos e cristãos, a justiça e o bem comum, mas, como sempre souberam os políticos, a tomada e manutenção do poder. Ao afastar a ética e moral da política, a doutrina de Maquiavel não comportava a idéia de Direito Natural, fonte dos valores morais e da justiça. 5.2.2 Thomas Hobbes (1588-1679) A teoria política e jurídica de Hobbes é uma resposta, em parte, à instabi- lidade política da Inglaterra de sua época, na qual as discórdias entre coroa e parlamento impediam a unidade do Estado. Por outro lado, seu pensamento político é fruto do racionalismo científico-mecanicista reinante no século XVII. A política de Hobbes está preocupada com a unidade do Estado, e somente o Estado Absoluto pode garantir essa unidade. O soberano que detém o poder, para evitar desordem, deve evitar a participação e liberdade de opinião dos súditos em seu governo. Antes de ingressar no Estado Civil, o homem hobbesiano vive em Estado de Natureza. Este se caracteriza por não haver limites, há liberdade total e cada qual tem direito a tudo. Dessa situação nasce a predominância de uns sobre os outros, gerando a guerra de todos contra todos. Hobbes diz que todos os homens aspiram às mesmas coisas e, quando não as conseguem, sobrevêm a inimizade e o ódio. Aquele que não consegue o que deseja, desconfia do outro e, para precaver-se, o ataca. Nessas condições, o homem é lobo do homem, porque só tem interesse na companhia do outro quando pode submetê-lo. O que impulsiona o homem contra o homem é o inesgotável desejo de poder que cada um possui. No Estado de Natureza, só pertence ao homem aquilo que ele é capaz de conservar e proteger. No Estado de Natureza, há uma insegurança generalizada, e o homem tem ameaçado o seu bem primário que é a vida. Isso levou os homens a tomar uma atitude para se livrarem das desvantagens: fazer um pacto social para sair do Estado de Natureza e instituir o Estado Civil. Para Hobbes, o Estado deve ser construído sobre bases tão sólidas que seja impossível sua dissolução. Somente um Estado forte poderá garantir a paz aos homens; dessa maneira, o soberano pode usar de todos os meios para garantir os direitos de seus súditos. O mal que Hobbes mais teme não é Fund_Jurid_1oPeriod.indb 66 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 244 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 67 a opressão que deriva do excesso do poder soberano, mas a insegurança que resulta da escassez de poder. Ao interpretar as leis do Estado soberano, Hobbes destaca que leis são aquelas que os homens são obrigados a respeitar por serem membros de um Estado. E o conhecimento da lei civil é de caráter geral e compete a todos os homens. A lei não é um conselho, mas uma ordem, e não é uma ordem dada por qualquer um a qualquer um, mas a lei civil é ordenada apenas pelo Estado numa única pessoa: o soberano. E a finalidade das leis civis não é outra senão a restrição da liberdade natural do homem: sem essa restrição não é possível haver paz. A lei foi trazida ao mundo para que os indivíduos não causem danos uns aos outros, mas ao contrário, se ajudem e unam-se contra o inimigo comum. A concepção de Estado absolutista em Hobbes está fundada no princípio de igualdade a respeito da natureza humana. E o Estado absoluto só existe porque o homem o criou mediante contrato. O homem é, porém, artífice de sua condição, de seu destino e não Deus ou a Natureza. Hobbes idealizou um Estado forte, um Leviatã monstruoso tão poderoso que não há na terra poder que se lhe possa comparar. Contudo, seu Estado era desumano, pelo menos tão desumano quanto o homem lobo do Estadode Natureza. Hobbes contrapôs a um Estado monstruoso, que era o Estado de Natureza, um outro Estado, também monstruoso, o Estado Civil. 5.2.3 John Locke (1632-1704) Como Hobbes, Locke também faz distinção entre Estado de Natureza e Estado Civil, mas difere no modo de concebê-los. Para Locke, o Estado de Natureza não é um estado de guerra constante e de egoísmo. No Estado Natural, cada um é juiz em causa própria; portanto, as incertezas, a instabi- lidade, os riscos das paixões e da parcialidade são muito grandes e podem desestabilizar as relações entre os homens. São Direitos Naturais para Locke, a vida, a liberdade, a propriedade privada e a família. Por isso, visando à segurança e à tranqüilidade necessárias ao gozo desses direitos, as pessoas consentem em instituir o corpo político. Uma Sociedade Civil e um Estado nascem quando os homens decidem, de comum acordo, confiar à sua comunidade o poder de estabelecer leis que regulem a punição das ofensas e o uso da força contra as transgressões destas leis. O contrato civil cria a autoridade, isto é, confia a alguns o encargo de Fund_Jurid_1oPeriod.indb 67 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 245 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 68 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS velar pelos direitos de todos. O cidadão conserva sempre os seus direitos naturais e o contrato social implica somente a renúncia à defesa privada dos direitos e ao uso de alguns deles, quando o bem-comum o exige. A autoridade é legítima quando usa os seus poderes para o bem dos cidadãos; tirânica, quando os usa em benefício próprio, contra a autoridade dos cidadãos. No segundo caso, os cidadãos têm o direito (negado por Hobbes) de se rebelar contra o poder tirânico (MONDIN, 1981, p. 106). Os Direitos Naturais dos homens, portanto, não desaparecem com a insti- tuição do Estado Civil, mas subsistem para limitar o poder do soberano. A concepção de sociedade civil, em Locke, representa um aspecto progressista do pensamento liberal, pois destaca a origem democrática, parlamentar do poder político. O poder está fundamentado nas instituições políticas, e não no arbítrio dos indivíduos. Enquanto Hobbes destacava a soberania da função executiva, Locke consi- dera o legislativo a função suprema, ao qual deve se subordinar o executivo. Em Locke, os direitos inalienáveis do indivíduo à vida, à liberdade e à propriedade constituem o cerne do estado civil, por isso Locke é considerado o pai do individualismo liberal. 5.2.4 Jean Jacques Rousseau (1712-1778) Rousseau vê o estado de natureza como um primeiro estado da humani- dade, que se poderia chamar de estado de inocência, no qual não haveria nenhum dos abusos que se pode observar em nossa sociedade. Os homens foram induzidos a sair desta condição feliz pelo desejo, pela necessidade e pelo temor. Reunindo-se, eles se dedicaram à consecução daquilo que é chamado civilização e que não é senão a progressiva corrupção dos valores primitivos. É preciso reorganizar o Estado segundo a natureza e pela educação, pela vida moral, pelo trabalho, recuperar a verdadeira civilização. A base desta organização é o Estado Social, no qual os indiví- duos livres se submetem a uma disciplina, visando ao maior bem de cada um e de todos. Rousseau preconiza a democracia direta ou participativa, mantida através de assembléias freqüentes de todos os cidadãos. Enquanto soberano, o povo é ativo e considerado cidadão. Mas há também uma soberania passiva, assumida pelo povo como súdito. Então, o homem, enquanto faz a lei, é um cidadão e, enquanto a ela obedece e se submete, é um súdito. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 68 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 246 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 69 Sendo o povo a única fonte do Direito (no contrato social faz-se a renúncia ao uso de alguns direitos, mas não os direitos como tais), os governantes não gozam de nenhuma autoridade definitiva sobre ele: ele permanece o único verdadeiro soberano (MONDIN,1981, p. 164). O próprio Rousseau admitiu que o projeto de democracia direta só seria possível em uma sociedade de reduzidas proporções. Porém, suas idéias não são desprezíveis ou utópicas, pois é possível combinar mecanismos de democracia representativa com alguns recursos da democracia direta. Vai influenciar diretamente a Revolução Francesa. 5.2.5 Montesquieu (1689-1755): Teoria dos Três Poderes e a crítica à Escola Clássica do Direito Natural De acordo com Aranha e Martins (1993, p. 222), ao procurar descobrir as relações que as leis têm com a natureza e o princípio de cada governo, Montesquieu desenvolve uma teoria de governo que alimenta idéias fecundas do constitucionalismo, pelo qual se busca distribuir a autoridade por meios legais, de modo a evitar o arbítrio e a violência. Tais idéias caminham para a melhor definição da separação dos poderes, ainda hoje uma das pedras angulares do exercício do poder democrático para Montesquieu, “somente o poder freia o poder”, daí a necessidade de cada poder – executivo, legislativo e judiciário – manter-se autônomo e constituído por pessoas diferentes. 5.3 O Iluminismo, Kant, Hegel e a influência no Direito Esse movimento, também conhecido como Ilustração, era herdeiro do Renascimento e se caracterizava por apresentar uma confiança absoluta no progresso humano. Esse momento se celebrizou pelo seu grande avanço cien- tífico e tecnológico, como o nascimento da química e descobertas no campo da física, botânica e astronomia (CASTRO, 2004, p. 205). No campo das Ciências Sociais, ficou famosa a Enciclopédia, além das obras de Voltaire e Rousseau (que vimos no tópico anterior). Essa crença inabalável no desenvolvimento humano refletia as bases indi- vidualistas e racionais sobre as quais se desenvolve o Iluminismo. Por isso, torna-se o escopo ideológico para os interesses da burguesia que, apesar de possuir o poder econômico, não participa politicamente do poder e é obri- gada a sustentar os privilégios da nobreza pelo pagamento de impostos. O lema “sapere aude” (ouse fazer uso da tua razão) indica que somente aquilo Fund_Jurid_1oPeriod.indb 69 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 247 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 70 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS que pode ser racionalmente justificado é válido. A origem do poder não é mais de ordem teológica, mas os seres humanos, por meio de um contrato, baseado em critérios racionais, é que constituirão o poder. Instaura-se o conflito entre a burguesia e a nobreza, desencadeando nas Revoluções Inglesa (1688), Americana (1776) e Francesa (1789), que serão objeto de estudo de nossa próxima aula. Algo que esses dois filósofos têm em comum é que ambos se filiam à corrente idealista da filosofia, apesar de terem posições diferentes sobre a mesma. 5.3.1 Emanuel Kant (1724–1804): Direito e Moral A moralidade em Kant é entendida a partir de seu conceito de impe- rativo categórico e imperativo hipotético. O categórico comanda uma ação como necessária em si mesma, independente das circunstâncias, dizendo; é preciso agir desta forma; ao passo que o hipotético diz-nos: é preciso X, se Y. Esse tipo de imperativo, diz Kant, pode ser uma regra de prudência ou de técnica, mas jamais da moralidade. Apenas o imperativo categórico é uma regra moral. Para Kant, a consciência moral só atingiria seu sentido pleno, regido por um imperativo categórico. Ele recebia essa denominação por serum dever incondicional, para quem age racionalmente. Como Kant entendia que o homem tendia naturalmente para o egoísmo, só o dever seria capaz de torná-lo um ser moral. Assim, os imperativos categóricos como leis racionais não eram meramente subjetivos, mas universais e necessá- rios para todos aqueles que atingissem esse nível elevado de entendimento. Só atingimos a consciência de estarmos nos comportando guiados por uma lei moral, quando agimos livremente. E só alcançamos a liberdade, quando seguimos nossa razão. Kant situa a liberdade como o valor máximo a ser alcançado, e “o Direito é o conjunto de condições segundo as quais o arbítrio de cada um pode coexistir com o arbítrio dos demais, de harmonia com uma lei universal de liberdade”. A noção de liberdade em suas obras é importantíssima, uma vez que o homem, na busca do convívio social pacífico, aceita, segundo seus preceitos morais, a imposição do imperativo da lei positiva. O Estado deverá assegurar aos cidadãos o gozo dos seus direitos, mas não deve ingerir-se nas atividades nem cuidar dos interesses individuais. A Fund_Jurid_1oPeriod.indb 70 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 248 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 71 sua função acha-se cumprida, quando a todos assegurou a liberdade; nesse sentido, deverá ser Estado de Direito (DEL VECCHIO citado por BITTAR; ALMEIDA, 2005, p. 280). 5.3.2 Hegel (1770–1831) O sistema hegeliano é a apresentação de todo o real e de todo o cognos- cível como expressão da automanifestação do absoluto. Perceba que essa construção filosófica se dá no plano ideal. A moralidade, segundo Kant, pressupõe liberdade de escolha, autonomia, e a juridicidade pressupõe coercitividade. Vamos ler e analisar algumas implicações do pensamento de Hegel. De acordo com Mondin (1981, p. 45), para desenvolver-se progressiva- mente e manifestar-se objetivamente na história, o espírito se serve não tanto dos indivíduos, que não toma em consideração, mas da nação e do Estado. A história se exprime nas sucessivas hegemonias dos povos que encarnavam nas várias épocas o espírito absoluto: cada povo representa o absoluto de modo e forma particulares. Para Hegel, o absoluto se manifestou primeiro nos impérios orientais, onde a liberdade era reservada ao monarca, depois no Império Romano, onde a liberdade estendeu-se à aristocracia e, finalmente, no Estado germânico, onde a liberdade foi assegurada a todos, sendo, portanto, a manifestação máxima do espírito absoluto. Segundo Aranha e Martins (1993, p. 234), Hegel critica a tradição jusna- turalista típica dos filósofos contratualistas. Esses, ao elaborar a hipótese do homem em estado de natureza, desenvolveram a concepção de que a socie- dade é composta por indivíduos isolados que se reúnem motivados por um pacto, a fim de formar artificialmente o Estado e garantir a liberdade indi- vidual e a propriedade privada. Ao contrário das teorias contratualistas, a concepção hegeliana nega a anterioridade dos indivíduos, pois é o Estado que fundamenta a sociedade. Não é o indivíduo que escolhe o Estado, mas sim é por ele constituído. Ou seja, não existe o homem em estado de natureza, pois o homem é sempre um indivíduo social. O Estado supera a contradição existente entre o público e o privado. A melhor forma de governo para Hegel Fund_Jurid_1oPeriod.indb 71 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 249 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 5 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 72 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS seria a monarquia constitucionalista, pois nela não se corre o risco de pôr o indivíduo em primeiro lugar, já que o domínio do monarca não é autônomo e independente, mas regido pelas leis e pelo bem do Estado. A Filosofia do Direito, em Hegel, culmina no Estado. O Estado têm como elemento primordial a formação dos direitos. A missão do Estado é instrumen- talizar a boa aplicação e a conquista gradativa da justiça por meio do Direito. O Estado é ético e justo quando se coloca a serviço das necessidades jurídico- sociais, quando a pessoa é protegida e vista como fim e nunca como meio. Da nova visão do homem, como ser que pode formar, por suas próprias razões, o seu destino, nasce a necessidade de organização social, e com o surgimento do capitalismo (contrapondo-se ao feudalismo), torna-se necessária a transformação do homem no fortalecimento do Estado. O Renascimento é o ponto inicial definidor de uma nova visão do homem como ser livre e dotado de razão para construir o seu próprio meio social. Já o Estado, que se consolida com a evolução social, tem suas formações, teórico-filosóficas, de acordo com o momento e a desejo da sua sociedade. As teorias que estudamos, quer seja a contratualista, que nasce da necessidade do homem ao Estado; quer seja a teoria dos anticontratualistas, consagrada pelo Iluminismo, tem papel importantíssimo tanto na construção do Direito, como também na concretização do próprio Estado. Síntese da aula A nossa aula foi dividida em três momentos distintos, mas todos voltados a Historia e a Filosofia do Direito na Idade Moderna. No primeiro vimos a transição entre a Idade Medieval e a Idade Moderna que se dá através do Renascimento. A modernidade procura superar a visão teocêntrica do mundo e introduz uma nova forma de compreender a realidade tendo o homem como centro e construtor de seu próprio destino, utilizando-se da sua razão e de sua capacidade de pensar. Desse fato, decorrem a Reforma Protestante, as grandes navegações e a formação dos Estados Modernos e, a partir da formação desse, passamos ao segundo momento de aula que é a análise das concepções contratualistas dos principais filósofos que pensaram o Estado e o Direito na modernidade. Cada um deles, a seu modo, contribuiu para a cons- trução teórica do Estado Moderno. Pelas suas influências no pensamento polí- tico moderno, Maquiavel, Locke, Hobbes, Rousseau e Montesquieu são consi- derados os clássicos da política moderna. E no terceiro e último momento da nossa aula, estudamos o Iluminismo (filosofia de total confiança no progresso Fund_Jurid_1oPeriod.indb 72 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 250 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ AulA 5 • Aspectos Históricos e FilosóFicos do direito uNitiNs • FuNdAmeNtos jurídicos • 1º período 73 humano), teoria que muito influenciou o pensamento de Kant e Hegel. Esses dois filósofos são basilares para a construção do pensamento ocidental. Suas contribuições, no campo do Direito e da moral, são relevantes. Atividades 1. Como era visto o Direito Natural após a criação do Estado Moderno. E qual ponto primordial de análise na Idade Moderna? 2. Vimos, neste tema, às contribuições de Maquiavel, Locke, Hobbes, Rousseau e Montesquieu para o Direito e a Política. A partir do pensamento deles, relacione corretamente as colunas. a) Maquiavel b) Locke c) Hobbe d) Rousseau e) Montesquieu ( ) O Estado de natureza é o Estado da Inocência. ( ) É considerado o pai do individualismo. ( ) “O homem é lobo do homem”. ( ) “Somente o poder freia o poder”. ( ) Os fins justificam os meios. 3. A idéia de crença inabalável no desenvolvimento humano se firmou nas idéias do: a) contrato social b) homem no seu estágio natural c) Teocentrismo d) Iluminismo 4. Diferencie os ideais contratualista, e os anticontratualistas, que defendem a criação do Estado. Comentário das atividades Na alternativa 1, você deve analisar quem era o ponto primordial de análise na Idade Moderna. Assimvocê vai encontrar que o Teocentrismo foi substituído pelo Antropocentrismo (o homem como ponto primordial), estado agora o Direito Natural, não ligado às idéias do cosmo, mas na emanação da natureza humana. Na atividade 2, que são as teorias filosóficas que justificam a criação e trans- formação do Estado, é necessário relacionar cada ponto relevante de concepção de Estado, aos seus criadores (filosofo). A seqüência correta é d, b, c, e, a. Aspec_Hist_Filos_Direito.indd 73 14/1/2008 10:22:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 5ª PROVA - 14/01/2008 - Page 1 of 1 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ AulA 5 • Aspectos Históricos e FilosóFicos do direito 74 1º perÍodo • FundAmentos jurÍdicos • unitins Para encontrar a resposta da atividade 3, você deve ler novamente o tópico que fala sobre o iluminismo, sendo o sua principal crença, no desenvolvimento humano. Já os demais institutos, cada um defende, na sua época e no seu contexto histórico, outros pontos essenciais. O Teocentrismo, eleva a idéia de que tudo emana de Deus. E no contrato social, defende a criação do Estado em prol da sociedade. A atividade 4 requer que você faça uma comparação entre as teorias contratualistas que defende a criação do Estado para seu próprio bem, com a teoria anticontratualista, que pressupõe que não é o Estado criado para o homem, mas o homem criado para o Estado. Referências ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à Filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. BITTAR, Eduardo C. B.; ALMEIDA, Guilherme de Assis. Curso de Filosofia do Direito. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2005. CASTRO, Flávia Lages de. História do Direito: geral e do Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Lúmen Júris, 2005. MONDIN, Battista. Curso de Filosofia. 9. ed. São Paulo: Paulus, 1981. v. 2. Na próxima aula Analisaremos as características da Idade Contemporânea e das Revoluções Burguesas e a influência dessas no Direito, assim como estudaremos a Revolução Industrial, o pensamento de Karl Marx, dentro desse cotidiano e as mudanças do estado, até chegarmos nos dias atuais, na globalização e as novas tendên- cias da Filosofia do Direito. Anotações Aspec_Hist_Filos_Direito.indd 74 14/1/2008 15:10:27 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 5ª PROVA - 14/01/2008 - Page 1 of 1 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 75 Objetivos Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: compreender a Revolução Burguesa e a Revolução Industrial, essas • que muito influenciaram o pensamento de Karl Marx; entender o surgimento e as principais características do mundo globa-• lizado e as principais tendências atuais da Filosofia do Direito. Pré-requisitos Para melhor compreensão desta aula, você deve acompanhar a tran- sição da Idade Moderna à Idade Contemporânea. Esse assunto pode ser encontrado nos livros de história do Nível médio, para que você possa observar as peculiaridades revolucionárias da época. Ainda será neces- sário relembrar as aulas de História que você teve no Ensino Fundamental e Médio, no que diz respeito a transição do feudalismo ao capitalismo, e por conseqüência a Revolução Burguesa, para que você possa compreender a formação social do Estado e o pensamento de Karl Marx. Esses assuntos devem ser assimilados, porque são de extrema importância para que, na análise e compreensão dos mesmos, você possa entender as novas tendên- cias mundiais sociais, políticas e jurídicas, com o advento da globalização e a visão filosófica atual. Introdução Oficialmente, a Idade Contemporânea se refere ao intervalo de tempo que vem desde a Revolução Francesa (em 1789) até os dias de hoje. Os movimentos revolucionais e formação do Estado Nacional, nasce o pensamento de Karl Marx, fruto das contradições provocadas pela industriali- zação, principalmente no século XIX. Aula 6 Pressupostos históricos e filosóficos do Direito na Idade Contemporânea Fund_Jurid_1oPeriod.indb 75 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 253 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 76 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Sendo, ainda, assunto desta nossa aula, os dias atuais, com seus reflexos da formação social revolucionária do passado, que deu ensejo às varias maneiras de transformação do Estado, cada qual se adaptando à razão social da sua época. Nos dias atuais temos a globalização, movimento que destaca o surgimento de uma comunidade jurídica em nível global (mundial). Sendo que, a partir dessa nossa nova realidade, possamos, também, entender os pensamentos filosóficos no Direito nos tempos mais recentes. 6.1 Inicia a Idade Contemporânea: as Revoluções Burguesas e o Direito 6.1.1 Revoluções Burguesas Apesar do crescimento do comércio e da produção manufatureira impac- tando a consolidação do poder econômico da burguesia, essa classe conti- nuava afastada do poder político e submetida ao poder do soberano. A aliança entre nobreza e burguesia que está na raiz da formação dos Estados modernos absolutistas, conforme vimos na aula anterior, deixa de ser interes- sante para o desenvolvimento do capitalismo, em virtude da falta de limitação do poder político, que restringia demasiado a liberdade necessária para a expansão do capital. Assim, precisaram romper com a ordem vigente, para garantir limitação ao poder do Estado e participação nas decisões políticas que afetavam sua vida por meio de movimentos revolucionários. A Revolução Inglesa, a Independência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa são três revoluções significativas, pioneiras e fontes de inspiração para tantas outras que se seguiram, em especial as de independência das colô- nias latino-americanas (sobre a independência do Brasil, que faz parte desse contexto, trataremos na aula seguinte). 6.1.2 Liberalismo e Estado de Direito A ideologia que permeou esses movimentos revolucionários foi o Liberalismo. Como já foi mencionada em aulas anteriores, o Liberalismo prega a liberdade como valor supremo, e a propriedade como um direito absoluto, que não pode ser restringido pelo Estado. Ela foi na Europa e Estados Unidos a ideologia revolucionária articulada pelos novos setores emergentes, burguesia e trabalhadores livres, e forjado na luta contra o absolutismo e os privilégios da nobreza (WOLKMER, 2005, p. 75). O Liberalismo refletiu em várias frentes da sociedade, em especial nas vertentes econômica e jurídico-política. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 76 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 254 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 77 Ao assumir uma postura de defesa intransigente da liberdade do indivíduo e de sua propriedade privada, é necessário criar freios à ação do Estado que os garante, e é aí que surge o Estado de Direito, que mantém a idéia de um poder político soberano que detém o monopólio de dizer o Direito, mas agora esse poder político não é mais absoluto, mas limitado pelo próprio direito que produz. O Estado continua com o monopólio de produzir as leis, agora por meio do Poder Legislativo, uma vez que a repartição de poderes proposta por Montesquieu foi instituída com as Revoluções, mas também deve se submeter a elas, tal qual os demais cidadãos. Ou seja, nesse tipo de Estado, todos devem obediência ao ordenamento jurídico, inclusive o próprio Estado e seus agentes. Sua instituição vem acompanhada, normalmente, de uma abertura política à participação social, que escolhe seusrepresentantes e vota suas leis. Perceba que se espera do Estado uma atuação negativa, ou seja, de não intervenção na sociedade e no mercado. Ele deve apenas garantir liberdade para que o jogo das forças do mercado possa moldar a sociedade. 6.1.3 Constituições e Códigos Da ruptura com a antiga ordem absolutista e da criação de uma nova organização política pautada no Direito, surge a necessidade de se construir um sistema jurídico que responda a essa necessidade. As Declarações de Direito que marcaram as revoluções burguesas que vimos acima, foram seguidas, nos EUA e França, pela redação de Constituições, como instrumentos de organização e limitação do poder e de assegurar garan- tias individuais (em especial a liberdade individual, a igualdade formal e a propriedade privada). Essas Constituições eram atos escritos feitos pelo Legislativo e passaram a ocupar o mais elevado grau na hierarquia do ordenamento jurídico de cada país. Lembre-se que essas constituições contemporâneas não se confundem com aquelas vistas na Grécia e em Roma, uma vez que, na Antiguidade, Constituição eram as leis feitas pelos imperadores (GILISSEN, 2001, p. 419). Como atualmente, o texto constitucional deve tratar apenas, em maior ou menor grau, dos temas fundamentais do contrato social. Não cabe numa Constituição reger temas muito específicos por sua característica de maior formalidade e estabilidade que a legislação ordinária (que você já viu em Introdução ao Estudo do Direito). Fund_Jurid_1oPeriod.indb 77 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 255 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 78 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Em uma sociedade em grau crescente de complexidade, é de se imaginar a necessidade da elaboração e adoção de leis extra constituição, com status infe- rior, que regulamente situações mais delimitadas, com formalidades menores a fim de acompanhar a evolução social que obriga a mudança de algumas leis e a produção de outras novas. Uma vez que todos devem conhecer a lei, já que ela é basilar para o cidadão nesse tipo de Estado, deve-se buscar construir mecanismos para tornar acessível esse conhecimento. Dessa idéia, surgem os Códigos (que, assim como as constituições, não representam a mesma coisa que seu homônimo, seu “xará”, na Antiguidade, como o Código de Hamurábi ou de Manu). Assim pertinente se faz o comentário de Lopes de que o jusnaturalismo racionalista e iluminismo são duas correntes que confluem no espírito de clareza e sistematização a impulsionar o movimento de codificação do Direito. “Ela já não é uma compilação [...]. Ela reflete um desejo de ordem, de hierarquia e de concentração legislativa no poder central, no Estado. Nestes termos, ela contraria os costumes e a tradição” (WIEACKER, citado por LOPES, 2000, p. 208). A elaboração de códigos, em vários ramos do Direito, inicia com Napoleão Bonaparte, com o Código Civil e Penal franceses, em 1804, e espalha-se por todos os Estados, na medida em que eles vão incorporando as inovações jurídico-políticas da Contemporaneidade. 6.1.4 Hans Kelsen (1881-1973) e o Positivismo Jurídico No contexto do iluminismo e dessas revoluções, emerge uma crença inques- tionável na ciência e no progresso, que vai influenciar diretamente a Filosofia do séc. XIX, possibilitando o nascimento do Positivismo. Para essa corrente, “o espírito humano deve contentar-se com o mundo já dado e ater-se à experiência”, pois o conhecimento só deve ser “explicado de acordo com os nexos de causalidade, mediante constatação da realidade” (NADER, p. 174-175). A Filosofia Positivista era uma verdadeira religião que cultuava a ciência e a humanidade. O Positivismo teve intensa penetração no mundo jurídico, originando diversas tendências. Deles se destaca Hans Kelsen e sua Teoria Pura do Direito. Como o próprio nome está a indicar, o objetivo do autor era expurgar do Direito qualquer elemento estranho ao seu objeto, que, no caso, por ser de Fund_Jurid_1oPeriod.indb 78 13/1/2008 14:57:55 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 256 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ AulA 6 • Aspectos Históricos e FilosóFicos do direito uNitiNs • FuNdAmeNtos jurídicos • 1º período 79 vertente normativista, Kelsen identificava com a lei, que seria o único fato concreto sobre o qual se assenta a Ciência jurídica. A norma é a categoria fundamental que expressa o dever ser, a conduta que o indivíduo deve assumir em determinadas circunstâncias, é um mandamento. “A norma jurídica, em si, não ensina, apenas dispõe sobre a conduta” (NADER, 2003 p. 202). Ou seja, para Kelsen, o Direito não precisa se legitimar pela instância da justiça ou qualquer outra, mas deve, sobretudo, atentar à validade da norma. Não que ele desconheça outros planos sobre os quais o Direito também se assenta como a justiça e o fato, mas defendia que esses planos pertenciam à filosofia, à ética ou à sociologia, não à Ciência do Direito. Essa perspectiva é, ainda hoje, muito presente no estudo e aplicação do Direito. 6.2 Da Revolução Industrial ao Estado Social: contribuições de Karl Marx 6.2.1 Revolução Industrial A Revolução Industrial, que começa na Inglaterra por volta de 1750 e se expande por toda Europa no século XIX, foi um salto de uma época a outra, em função da descoberta de novas fontes energéticas (máquina a vapor, eletrici- dade), uma nova divisão do trabalho (nas indústrias) e uma nova organização do poder (com a consolidação da burguesia). Essas mudanças trazem consigo uma nova forma de ver a ciência, o conhecimento, o progresso e o mundo. As teorias sociais sobre o trabalho se enfrentam neste período. Para os católicos, o trabalho é uma sentença condenatória. Para os liberais, é uma disputa mercantil. Para os marxistas (comunistas) é a única possibilidade de redenção, junto com a revolução, e por isso é um direito a ser conquistado. Consolidou a Revolução Industrial, definitivamente, o capitalismo como modo de produção. É nesse contexto que se desenvolve o pensamento de Marx que conviveu de perto com a realidade de exploração dos trabalhadores e contradições que a Revolução Industrial provocou na sociedade da época. 6.2.2 Karl Marx (1818-1883) “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo.” Aspec_Hist_Filos_Direito.indd 79 14/1/2008 10:25:29 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 5ª PROVA - 14/01/2008 - Page 1 of 1 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 80 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Com essa frase, Marx inaugurava um novo modo de ser e de pensar o homem. Em sua crítica à concepção de Hegel, ele afirma que pensar a história como uma realização do Espírito é uma inversão filosófica que a põe de cabeça para baixo. Para Marx, o homem que deveria ser o fim de todas as ações humanas é reduzido à condição de um meio de realização do capital. As mercadorias produzidas são elevadas à condição de ser, passando a assumir uma vida exterior ao homem, ganhando vida própria. E, em sentido contrário, a ativi- dade própria do sujeito lhe é negada, terminando por ser reduzido a uma mera condição de objeto (alienação). Assim, tudo em que o capital põe a mão termina por ser invertido, através de uma existência negada. Marx chegou a antever que a produção na sociedade capitalista atingiria um nível tão grande de automação, que a produção da riqueza social já não mais diria respeito ao trabalho, mas à potência da ciência e da tecnologia postas em movimento. E atingido esse estágio, eles se comportariam mais como supervi- sores e reguladores do processo produtivo autômato,realizado pelas máquinas. Essa transformação, ao reduzir a participação do trabalho vivo (mão-de-obra) em função do trabalho morto (máquinas), estaria anunciando o esgotamento sistêmico da sociedade baseada na produção do valor e no trabalho. Na medida em que sucumbe a sociedade capitalista e com ela a proprie- dade privada, a divisão de mercadorias, seria necessário que se constituísse um novo código de moralidade que corresponderia às novas exigências de convivência social que transcenda os valores emanados da sociedade do trabalho, que permita a constituição de um ser indivisivo, plural e, por isso, efetivamente emancipado. Assim, só na superação da sociedade capitalista, com o fim do trabalho abstrato e, portanto, da base sobre a qual se ergue a moderna exploração do homem pelo homem, é que poderá surgir uma moral realmente autêntica, baseada no princípio da igualdade e na fraternidade humana, tomada como valor universal. É a sociedade comunista. Em uma sociedade dividida em classes, as idéias predominantes são as das classes dominantes. Na sociedade capitalista, os burgueses, detentores dos meios de produção fundamentais, enquanto expressões personificadas do poder do capital, dominam também a produção das idéias e dos valores. Os códigos de moralidade que aqui se constroem correspondem às suas idéias hegemônicas, organizadas de acordo com os atuais interesses de valorização do capital. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 80 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 258 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 81 As relações jurídicas, para Marx, não podem ser entendidas de modo formal, isoladamente de fatores sociais e econômicos. O Direito têm um fundo econômico e está em função da classe dominante, os burgueses. O Direito não é nem instrumento para a realização da justiça, nem a emanação da vontade do povo (volkgeist), nem a mera vontade do legislador, mas uma superestrutura ideológica a serviço das classes dominantes. A ordem instaurada pela regra jurídica é causa da manutenção das distorções político - econômicas, que estão na base das desigualdades sociais e da exploração do proletariado (BITTAR; ALMEIDA, 2005, p. 324). A democracia real não se sustenta nos direitos da burguesia, mas no acesso da população aos bens produzidos socialmente pelos trabalhadores, sejam materiais ou culturais. Uma nova noção de cidadania é proposta: a conquista real dos direitos sociais, não apenas proclamados. 6.2.3 Estado Social No fim do séc. XIX, início do séc. XX, o movimento operário se fortalecia em todos os lugares do mundo, em especial nos países desenvolvidos, que concentravam essa massa de trabalhadores, bem como a ideologia socilaista e anarquista. A expansão da economia capitalista, a sua crescente complexidade e o aumento das desigualdades resultantes da relação entre capital e trabalho (e dentro do próprio capital) exigiram que o Estado passasse a intervir, cada vez mais fortemente, na regulação dos mercados. A pretensa abstenção do Estado Liberal, deixando a cargo das forças do mercado a regulação da economia e da sociedade, não tinha alcançado os resultados desejados. Assim percebeu-se que a garantia dos direitos individuais só poderia se efetivar se houvesse condições para tanto, e essas só poderiam ser satisfeitas com o atendimento de direitos sociais por parte do Estado. Isso poderia se dar de duas maneiras: uma que seria a formação de um Estado Socialista, que, como vimos, tem esse papel. A segunda maneira seria a formação de um Estado Social, como um Estado que buscaria uma maior intervenção na sociedade, que acrescentaria ao conteúdo do Estado Liberal (proteção da liberdade, igualdade e propriedade) a garantia de direitos sociais como a saúde, a educação, direitos trabalhistas, entre outros. Nesse segundo tipo de Estado, o poder público tende a se expandir, já que ele seria responsável por prover direitos sociais, que se daria às custas de tributação da sociedade e do mercado. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 81 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 259 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 82 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS A consolidação dessa estrutura de Estado, no entanto, e sua difusão entre os países acontecem, mormente a partir do fim da II Guerra Mundial, quando vamos encontrar as famosas “Décadas de Ouro” (de 1940 a 1970) do chamado Estado de Bem-Estar Social (nome muito sugestivo, levando em consideração que era exatamente isso o que se desejava). Esse tipo de Estado nunca pôde se realizar em toda sua inteireza em todos os países, tendo em vista que ele custa caro para a iniciativa privada, que afinal é de onde provêm os fundos para sua manutenção. Ademais, não são todos os países que dispõem de um amplo terreno de arrecadação de tributos para financiá-lo. A partir da década de 1970, esse modelo entra em crise, com o início da globalização neoliberal. 6.3 O Mundo Globalizado e a Filosofia do Direito nos dias atuais 6.3.1 A construção de uma comunidade internacional e seu Direito Desde o início do séc. XX, os Estados soberanos começam a sentir a neces- sidade de encontrar meios de estabelecer regras válidas internacionalmente sobre assuntos de interesse comum. A primeira iniciativa dessa natureza foi a Liga das Nações, logo ao final da I Guerra Mundial (1914-1918), com o objetivo de preservar a paz mundial. Após a humanidade assistir às atrocidades da I e II Guerra Mundial (1939-1945), consolida-se a construção de um sistema e de um Direito Internacional que garantem e promovem os direitos fundamentais da pessoa humana. Isso acontece com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e a aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, que é, ainda hoje, o principal documento jurídico que influencia até mesmo o Direito de países não-signatários. Se as leis e o Direito são expressão de seu tempo e lugar, sendo também um reflexo de experiências e aprendizado de um povo, nenhum documento retrata isto melhor que essa Declaração. Apesar das acusações de lhe faltar um olhar relativista, este documento serve de registro daquele tempo e de guia para tempos atuais e futuros. Não como um dogma ou uma lei que seja “a verdade” jurídica e que todos devam seguir, mas como uma fonte de conhecimento e respeito pelo ser humano e pelo diferente. Ademais, vai ser o primeiro de uma série de documentos multi- laterais que vêm tentando regular uma melhor integração global, como os Pactos Internacionais sobre os Direitos Civis e Políticos e sobre os Direitos Fund_Jurid_1oPeriod.indb 82 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 260 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 83 Econômicos, Sociais e Culturais (ambos de 1966), Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes (1984), entre outros, mas que não são, entretanto, objeto deste estudo, bem como os documentos legislativos nacionais posteriores. Após a formação desse sistema global, outros regionais se seguiram, bem como as Declarações e pactos. O Brasil participa da Organização dos Estados Americanos (OEA). Mais tarde, começaram a surgir blocos econômicos, como o Nafta, na América do Norte, o Mercosul, entre outros. Mais recentemente temos a União Européia, numa forma e grau de integração até então inéditos, cuja trajetória está sendo acompanhada com curiosidade por todos que se interessam pelas questõesdo Estado. No entanto, aluno, note que esse Direito internacional se constrói respeitando a soberania desses países, que se associam a essas instituições e se submetem ao Direito construído coletivamente de forma voluntária. Esse arranjo internacional é frágil e se encontra atualmente em crise, em função das intensas mudanças pelas quais vem passando o quadro geopolítico mundial, como veremos agora. 6.3.2 Pós-Modernidade e Globalização A Pós-Modernidade diz respeito a novas posturas frente à sociedade tecnológica, virtual, cujos valores vêm subvertendo, sobretudo a partir das duas últimas décadas do século XX, os padrões culturais, modos de vida, éticos e morais até então defendidos e apregoados. O termo pós-moderno designa, genericamente, toda uma corrente de pensamento que se expressa em diferentes áreas e tem em comum uma critica à visão de mundo da modernidade em seus pressupostos básicos: o racionalismo iluminista, a crença na ciência como redentora dos males da humanidade, a concepção de história como processo de evolução social. Quanto à racionalidade, afirma que ela tem servido para legitimar a domi- nação do homem pelo homem e justificar, desde o século passado, duas guerras mundiais, o armamentismo nuclear, o totalitarismo, a concentração de riquezas, a fome, a degradação do meio ambiente. Nesse sentido, a ciência moderna teria servido a um inegável processo que possibilitou a destruição e não impediu a fome e a exploração da miséria. Por sua vez, a promessa de evolução da humanidade se concentrou no processo técnico e na degradação social. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 83 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 261 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 84 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Essa crítica à modernidade se desenvolve paralelamente ao processo de globalização. A partir da década de 1970, o mundo vai começar a viver um processo de reestruturação, que afeta profundamente várias faces da vida. Nesse processo, cada vez há menos barreiras para o capital, enquanto o poder do Estado se dilui frente aos agravamentos dos problemas sociais, e sua crise de financiamento e legitimidade, ainda mais num cenário internacional dominado por um único país (EUA) e uma única forma de encarar o mundo (capitalismo). É a chamada globalização neoliberal. Percebam que a globalização traz muitas novidades a nos exigir outro posicionamento frente à vida. As mudanças no mundo do trabalho, a perda do referencial territorial nas relações mediadas pelas novas tecnologias, a força da mídia e do capital transnacional, o meio-ambiente, o encontro de povos e culturas que nem sempre caminham bem... São transformações que estamos vivendo (ou assistindo) e que trazem novos desafios ao Direito: o Direito baseado no espaço do Estado-nação, esse conceituado como um ente soberano se mostra cada vez mais insuficiente para atender às necessidades da sociedade atual. 6.3.3 Perspectivas atuais da Filosofia do Direito Uma vez que as mudanças são muitas e os desafios, variados, você vai perceber que a filosofia jurídica também vai apresentar múltiplas linhas na atualidade. Vamos encontrar vários jusfilósofos contemporâneos que vêm influenciando significativamente o Direito; não há, no entanto, uniformidade entre eles. Em comum, todos eles reconhecem a insuficiência do positivismo normativista jurídico para o enfrentamento da sociedade complexa e dinâmica em que vivemos, e buscam formas de superá-lo. Uma corrente importante no contexto mais recente da Filosofia do Direito foi o Existencialismo, que, em suas múltiplas correntes, tem como base funda- mental o reconhecimento que a existência precede a essência. É uma filosofia humanista que pensa o homem real, individual, com liberdade para escolher seus caminhos e responsabilizar-se por eles. O Direito, a partir dessa perspec- tiva, é fruto da experiência humana em concreto, expressão de sua liberdade. Aqui são expoentes Heiddeger e Jaspers, na área jurídica (GUIMARÃES, citado por BITTAR; ALMEIDA, 2005, p. 356). Também em meados do século passado, a filósofa Hannah Arendt (1906-1975) abriu novas perspectivas para o campo da filosofia política, Fund_Jurid_1oPeriod.indb 84 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 262 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 85 assim como nos afirmam Bittar e Almeida, a pensadora, ao desvincular o poder da força, afirma que a convivência pacífica entre os homens é o fator que propicia a ação conjunta e é esta ação que é geradora do poder. [...] A ação não violenta é a única forma de ação que possibilita o encontro dos homens pela palavra. [...] Significa dizer: onde há política, há espaço público; onde há espaço público, há diálogo; onde há diálogo, há direitos (BITTAR; ALMEIDA, 2005, p. 376-387). As lições de Hannah Arendt serão muito importantes para o estudo dos Direitos Humanos. Devemos citar ainda John Rawls (1921-2002), cuja idéia de justiça baseia-se no conceito de eqüidade. Para Bittar e Almeida (2005, p. 389-391) a eqüidade dá-se quando do momento inicial em que se definem as premissas com as quais se construirão as estruturas institucionais da sociedade. As institui- ções têm por meta distribuir os direitos e deveres na sociedade. Dessa forma, cabe analisar se essas podem ou não realizar os anseios da justiça do povo ao qual se dirigem. Theodor Viehweg recupera a tópica de Aristóteles para fazer o Direito pensar através de situações-problema. Assume-se “lugares comuns” (topoi) como os primeiros argumentos para o início do diálogo, que podem ser supe- rados pelo exercício comunicacional. “Ao sopesar os diversos argumentos, a tópica oferece uma forma de abordar e pensar o problema, caso a caso, e não uma infalível resposta científica. A tópica é um estilo de pensar e não um método científico” (BITTAR; ALMEIDA, 2005, p. 407). Também no viés da argumentação, Chäim Perelman (1912-1984), que vê a lógica jurídica como dialética e argumentativa. O raciocínio jurídico baseia-se em fatos concretos, em situações flagrantes, em meio a contextos políticos de onde emergem decisões que realizam a justiça concretamente, caso a caso. A argumentação, nesse sentido, tem a tarefa de instrumentalizar as atividades do jurista e dos operadores do Direito. É uma teoria muito voltada às questões judiciárias, uma vez que pensa o processo de decisão do juiz, de estabele- cimento da lei na situação concreta (o juiz decide baseado nas provas e nos argumentos das partes. Ele, por sua vez, também apresenta seus argumentos na sentença) (BITTAR; ALMEIDA, 2005, p. 412-421). Por fim, apontamos as teorias de semiótica jurídica, que surgem a partir do reconhecimento de que o Direito depende da linguagem para existir. A Fund_Jurid_1oPeriod.indb 85 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 263 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 86 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS linguagem jurídica não é mero instrumento, mas constitui o próprio Direito, que se expressa através dos discursos jurídicos (normativo, decisório, burocrático, científico), nos quais se ocultam valores, questões culturais e de interesses. Nessa linha, podemos citar L. A. Hart, Niklas Luhman, Luís Alberto Warat, e no Brasil, Lourival Villanova e Tércio Sampaio Ferraz Junior (BITTAR; ALMEIDA, 2005, p. 423-432). Os métodos de pensamento bem como os objetos de reflexão são diversos, há muitas linhas diferentes entre si, mas um dos pontos em que muitasdelas se tocam é a questão da linguagem jurídica, buscando conhecer sua função no processo de construção e aplicação do Direito. Com as rápidas mudanças pelas quais estamos passando, o grande acesso à informação e ao conheci- mento devem trazer muitas outras questões para a filosofia. Certamente, haverá destemidos dispostos a (tentar) respondê-las. Com a evolução da sociedade, foram se redesenhando novas necessi- dades para então a classe predominante, cada uma à sua época. A Idade contemporânea foi marcada por grandes revoluções; cada uma, ao seu tempo, e com o seu objetivo, ocasionou mudanças no âmbito político-social e jurí- dico do Estado. Esse se transformou e se adaptou às necessidades do que se exigia para a sua época. Como por exemplo, o Estado de Direito, com o liberalismo, não intervindo nas relações privadas, era a necessidade imposta pela burguesia que buscava expansão da comercialização, sem intervenção estatal. No entanto, a exploração capitalista sem qualquer proteção social aos obreiros, faz surgir a idéia de Estado social que nasce da necessidade de uma proteção mínima aos trabalhadores explorados. Nesse contexto sócio político o Estado passa de do liberalismo, ao intervencionismo, unindo-se aos ideais sociais e adquirindo força para intervir nas relações sociais, políticas e econômicas afim de que possa arrecadar recursos para o custeio e amparo da sociedade. Nasce dessa visão protetiva, o Estado do Bem-estar Social. No entanto, com as novas tendências de mercado aberto, o mundo sendo visto, não como divisões de países soberanos, mas como um todo, fenômeno esse da globalização, o Estado, vem se redesenhando novamente para se adaptar a essa nova realidade. Por fim não foi somente no campo político social as grandes inovações, uma vez que a filosofia, mais precisamente a Filosofia do Direito, vem buscando caminhos de descoberta dessa nova visão social política e jurídica, ampla- mente mundial. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 86 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 264 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 87 Síntese da aula As Revoluções Burguesas inauguram um novo ciclo de poder, a partir da ordem liberal, buscando assegurar uma estrutura de poder com claras limitações em relação à interferência do Estado sobre a liberdade individual e a proprie- dade privada; é o Estado de Direito. Com o seu surgimento, apresenta-se a necessidade de haver uma estrutura jurídica capaz de instrumentalizar essa nova realidade política. Para tanto, temos as Constituições e Códigos, a fim de sistema- tizar as leis e estruturá-las hierarquicamente. Complementando essas mudanças e identificando de vez a lei com o Direito, surge o positivismo e a influência kelseniana que vem até nossos dias. No entanto, as revoluções, em especial a Revolução Industrial, trouxe contradições com o surgimento de novos modelos de organização do trabalho, exploração da classe trabalhadora que foi exposta a uma carga horária de trabalho excessiva, baixos salários, grande quantidade de acidentes de trabalho; impulsionaram a análise da sociedade por Marx. Por sua vez, as análises de Marx impactaram na formação do Estado Social, que busca aliar as conquistas liberais a uma postura mais intervencio- nista visando a garantir os direitos sociais. Contudo, a sociedade vem evoluindo e se transformando, e o Estado e a sociedade como um todo se vêem diante de uma comunidade internacional; a partir das experiências das duas grandes Guerras Mundiais, redundou na criação de organismos multilaterais e adoção de normas internacionais, para viabilizar uma convivência harmônica em nível mundial. A partir da década de 1970, outro processo de globalização veio à tona, com o avanço das novas tecnologias e as mudanças no mundo do trabalho. Isso tem trazido novos desafios à sociedade mundial e ao Direito. A filosofia do Direito atual, fragmentada em várias linhas e interesse, é um reflexo dessa realidade que se dá em todas as áreas da vida e do conhecimento. Atividades 1. São características jurídicas da Idade Contemporânea, exceto: a) Códigos b) Declarações de Direito c) O Direito Romano d) Constituições 2. Explique, em um texto crítico de 15 linhas, o que Karl Marx quis dizer com o “novo código de moralidade social”. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 87 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 265 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 88 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS 3. Qual o documento que melhor retrata a Globalização no campo sociopolítico- jurídico? a) Declarações dos Direitos Humanos b) Código Civil c) Teoria Pura do Direito d) Estado Social 4. Com base no estudo desta aula e buscando exemplos e justificativas do caderno de estudos de Organização Política e judiciária do Estado, que tipo de Estado, o Brasil é nos tempos atuais? Justifique sua resposta. Comentário das atividades Na atividade 1, as características jurídicas da Idade Contemporânea, conforme estudamos nesta aula, são a formação do Código, da Constituição, muito defendida por Hans Kelsen (Teoria Positivista); como também a Declaração de Direito, já nos tempos atuais, sendo a nova tendência jurídica – política, em virtude da globalização. Já o Direito Romano, não é característica jurídica da Idade Contemporânea, uma vez que ele se deu em época diversa dessa. É inegável que o Direito Romano muito influenciou a cultura jurídica do mundo ocidental, mas não é ela característica da Idade Contemporânea. Para que você possa responder a atividade 2, deve ler novamente a teoria de Karl Marx e a influência do período da Revolução Industrial nas suas bases teóricas, ou seja, a influência social que aquele período ocasionou ao filosofo, com a explosão do capitalismo e a exploração da mão-de-obra. A atividade 3 requer que você analise as bases da globalização, e qual foi o documento relevante que destaca essa ruptura de fronteiras. O documento foi a Declaração dos Direitos Humanos. Já para que você responda a atividade 4, será necessário que você sabia quais foram as formas de Estado no decorrer da historia, podendo encontrar tais respostas no caderno de estudos de Organização Política e judiciária do estado. Analisando posteriormente seus requisitos formais para poder identi- ficar qual forma de Estado é o Brasil. Referências BITTAR, Eduardo C. B.; ALMEIDA, Guilherme de Assis. Curso de Filosofia do Direito. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2005. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 88 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 266 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 89 GILISSEN, John. Introdução histórica ao Direito. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. LOPES, José Reinaldo de Lima. O Direito na História. São Paulo: Max Limonad, 2000. NADER, Paulo. Filosofia do Direito. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2003. WOLKMER, Antonio Carlos. História do Direito no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2005. Na próxima aula Você terá oportunidade de conhecer o Direito brasileiro em suas origens, no Período Colonial, Império e República, até do dias atuais, com a Constituição Federal de 1988. Anotações Fund_Jurid_1oPeriod.indb 89 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 267 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 6 • aSPecToS HISTórIcoS efIloSófIcoS do dIreITo 90 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Fund_Jurid_1oPeriod.indb 90 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 268 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 91 Objetivos Esperamos que, ao final desta aula, você seja capaz de: conhecer a estrutura jurídica do Brasil colônia, Império e República;• compreender sobre herança do nosso Direito atual.• Pré-requisitos Para ajudá-lo nesta aula, você deve recordar as características da moderni- dade em relação aos Estados-nação e conquista da América (estudada em aula anterior). Quanto aos períodos da história Brasileira (colônia, império e república), é necessário que você relembre a história do Brasil que você aprendeu no Nível Médio de escolaridade, pois irá ajudá-lo na melhor compreensão desta aula. Introdução Como vimos em aula anterior, o advento da modernidade trouxe consigo o “descobrimento” de um novo mundo, por meio das navegações empreen- didas principalmente por Portugal e Espanha, em busca de riquezas. O Brasil entra então nesse cenário, como colônia portuguesa, a partir de 1500, passa, posteriormente à fase de Impérios e, por fim, chega ao período de República, situação em que nos encontramos até hoje. Vamos então conhecer um pouco sobre os primórdios dessa formação, buscando enfocar o sistema jurídico e as mudanças sociais que se sucederam. 7.1 O Direito brasileiro nas suas origens: colônia e império 7.1.1 Portugal e a conquista do território americano Portugal é o primeiro Estado europeu a se centralizar e tomar moldes modernos, a partir da dinastia absolutista de Avis, no séc. XIV, depois de sepa- Aula 7 Aspectos históricos e filosóficos do Direito no Brasil Fund_Jurid_1oPeriod.indb 91 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 269 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 92 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Patrimonialismo – doutrina presente em toda a história administrativa brasileira, desde a colônia, tem como característica a não diferenciação precisa entre o espaço público e o privado, sendo que bens e cargos públicos são tratados como honras dadas pelo rei e incorporados ao patrimônio privado (LOPES, 2000, p. 239). rar-se da Coroa espanhola, possibilitando uma unifi cação de suas fontes jurí- dicas que passou a ser unicamente o Estado por meio do Soberano. Criam-se as Ordenações Reais Portuguesas que irão se confi gurar na lei máxima de todo o Reino, tanto na metrópole, quanto nas colônias. As Ordenações eram a reunião de leis já existentes para melhor organização do reino, feitas a pedido dos reis portugueses que dão nome a elas. Foram três Ordenações: as Afonsinas (1446), Manuelinas (1521) e Filipinas (1603). Elas apresentavam forte infl u- ência do Direito Romano e quando uma era feita, a anterior era incorporada à nova e deixava de ter validade. As ordenações eram divididas em 5 livros: Livro I - Administração e cargos públicos, Livro II - Direito eclesiástico, Livro III - Direito processual civil, Livro IV - Direito civil, Livro V - Direito penal e processual penal (WOLKMER, 2005, p. 301). Concorrendo com a Espanha na conquista de territórios do Novo Mundo (América), ao chegarem por aqui, os portugueses não encontram imediatamente nada do que eles estavam à procura (especiarias, pedras e metais preciosos), a não ser o pau-brasil, que passou a ser explorado precariamente com a ajuda dos índios, por particulares que recebiam da coroa os direitos de extração. Foi só a partir de 1530, com o ataque constante de piratas de outros paises, que Portugal resolveu realmente iniciar a colonização do Brasil, a partir da insti- tuição de capitanias hereditárias. As capitanias eram uma espécie de concessão a donatários, para a exploração e colonização particular das terras, em nome da Coroa. Contudo, a distância física entre colônia e metrópole redundava em distância do controle da segunda sobre a primeira, deixando esses capitães donatários com poder praticamente ilimitado (WOLKMER, 2005, p. 41). Isso levou Portugal a implantar o governo geral e iniciar uma nova fase no sistema de colonização, em que ela se fi zesse mais presente, e é então que começa a fase que via marcar efetivamente a colonização brasileira. Uma das características mais marcantes da administração portuguesa, que irá se estender ao Brasil é o patrimonialismo, que está no cerne de nossos males de corrupção e mau uso da coisa pública (WOLKMER, 2005, p. 296-308). – doutrina presente em toda a história administrativa brasileira, desde Saiba mais Fund_Jurid_1oPeriod.indb 92 13/1/2008 14:57:56 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 270 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 93 Notem que não houve uma ruptura violenta com Portugal, pois, para conseguir o reco- nhecimento de sua soberania, o Brasil inaugura sua primeira dívida externa, tomando um empréstimo com a Inglaterra para pagar a Portugal. Além disso, formamos o único império na América, mantendo a Monarquia como regime de governo, com a mesma dinastia do Reino Português, além da língua e religião. O Direito permanece pautado nas Ordenações como fonte suplementar até que seja elaborado o Direito nacional. Ele só vai deixar de compor defi nitivamente o Direito Nacional brasileiro em 1916, com a edição do 1º. Código Civil. Por fi m, vale lembrar-se das infl uências da Universidade de Coimbra na formação do nosso bacharel que vai organizar o Estado brasileiro. A relação entre Brasil e Portugal era de completa dependência e falta de autonomia; há uma total submissão aos interesses e instituições da metró- pole, inclusive em relação ao Direito, que tinha como base legal, durante todo esse período, as Ordenações, além de leis extraordinárias, criadas na metró- pole para reger as colônias (alvarás, regimentos, cartas de foral) (WOLKMER, 2005, p. 296-308). A justiça era administrada por uma grande variedade de cargos, sem limitações exatas de atribuições entre um e outro, que mesclava poder real, poder local, poder da igreja e poder privado (WEHLING; WEHLING, 2004, p. 36-48). Em relação à administração da Justiça, mesmo a real, vale ressaltar que ainda não podemos apontar a existência de um verdadeiro Poder Judiciário nesse momento, uma vez que não havia independência de Poderes (estamos numa época de poder absoluto do Rei), e os órgãos encarregados de julgar também desempenhavam, em maior ou menor grau, papéis de aconselhamento e assessoramento do soberano ou das demais instituições administrativas. Isso começa a mudar com a independência do Brasil. 7.2 A formação do Direito Nacional no Brasil Império No início do séc. XIX, a Corte Portuguesa vem fugida de Napoleão Bonaparte para o Brasil. Esse fato vai acelerar nossa modernização e a entrada de idéias liberais que se desenvolviam no Hemisfério Norte. Com a volta da Corte e a tentativa de retirar as liberdades dadas ao Brasil (que agora detinha o status de Reino Unido), estavam dadas as condições para nossa independência. Notem que não houve uma ruptura violenta com Portugal, pois, para conseguir o reco- Pensando sobre o assunto Fund_Jurid_1oPeriod.indb 93 13/1/2008 14:57:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 271 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoSdo dIreITo 94 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS O Liberalismo, como doutrina que impulsionou esse processo, sofreu grandes adaptações à realidade brasileira, apresentando várias contradições com a ideologia original. Aqui foi usado como uma manobra para manu- tenção da elite agrária no poder (já que não tínhamos uma burguesia conso- lidada), proporcionando a continuidade da escravidão (que coloca em xeque a igualdade e a liberdade, essências do Liberalismo) e do patrimonialismo, e fazendo com que o Estado interviesse na economia de modo a assegurar os privilégios daquela classe. Após a independência, o Brasil vai começar a estruturar juridicamente seu Estado, com a Constituição de 1824 (outorgada, imposta). Ele será um estado unitário, o regime de governo será a Monarquia Constitucional, com a criação de um 4º Poder chamado Moderador, que se coloca acima dos demais (Legislativo, Executivo e Judiciário) e só pode ser exercido pelo Imperador (resquício do Absolutismo) (LOPES, 2000, p. 279-283). Essa mesma Constituição que adota uma Declaração de Direitos indivi- duais prevê ainda a interferência normativa das regras religiosas na organi- zação social do Estado, ou seja, o Estado permite que a igreja faça as leis em alguns casos como, por exemplo, o casamento e o registro civil. Ainda se torna pertinente ressaltar que mesmo após a Constituição não fazer qualquer menção a escravidão, ela continua sendo mantida de fato. Será elaborada uma série de códigos e leis brasileiras, com destaque para o Código Comercial (de 1850, e vigente, em pequenos trechos, até hoje), Criminal e Processual Criminal, além da Lei de Terras (que separou as terras públicas das particulares, instituindo a propriedade privada no Brasil), a Consolidação das Leis Civis, o Regulamente 737 (que funcionou como o Código de Processo Civil), e leis relativas aos escravos (que tratavam da proibição do tráfico negreiro e da libertação de alguns segmentos escravizados, como crianças e idosos, mediante indenização de seus proprietários, com exceção da Lei Áurea, que foi geral e sem previsão de indenização, em 1888, já no fim do Império) (LOPES, 2000, p. 281-295). Para construir tal arcabouço jurídico, fez-se necessária a formação de pessoas qualificadas para o ofício, o que levou à criação, em 1827, dos primeiros cursos de Direito no Brasil (São Paulo e Olinda), com vistas a formar o corpo administrativo e político do novo Estado. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 94 13/1/2008 14:57:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 272 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 95 O Brasil adota todos os instrumentos jurídicos consagrados pelo libera- lismo, mas vai se apegar basicamente ao seu formalismo e retórica jurídica, para encobrir uma realidade ainda presa ao regime absolutista. Daí o professor Antônio Carlos Wolkmer (2005, p. 79) afirmar que o Liberalismo brasileiro no século XIX tem um “profundo traço ‘jurisdicista’.” Durante todo o Império, haverá a luta política entre republicanos e monar- quista, além de várias revoltas sociais em todo território (como Cabanagem no Pará, Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, Sabinada na Bahia, Balaiada no Maranhão e Revolução Praieira em Pernambuco). A abolição da escravatura e a transição para o trabalho assalariado, a expansão industrial inglesa e a lenta industrialização brasileira e a mudança de mãos do poder econômico (de uma aristocracia agrária a outra) propiciaram a queda do império e a proclamação da República. 7.3 História do Direito no Brasil república 7.3.1 A República Velha (1889-1930) Se a independência de Portugal não foi provocada por nenhuma grande insurreição popular, tampouco a proclamação da república se deu dessa forma. Essa proposta não era uma luta da sociedade, mas foi antes resultado de que “parte dos grupos dominentes da epoca considerava que o governo monár- quico não atendia mais seus interesses, principalmente depois da abolição. [...] A República nasceu de um golpe militar” (CASTRO, 2004, p. 407). A República veio com o governo de dois militares (a República da Espada). Logo após esse período, a história brasileira vai ficar conhecida como República do Café-com-Leite, cujo nome nos remete aos dois produtos que simbolizavam a economia dos dois Estados hegemônicos nesse período: São Paulo (café) e Minas Gerais (leite), que se revezavam, consensualmente, no poder. Logo no início, foi feita uma nova Constituição, em 1891. Ela inaugura um Estado repu- blicano, federalista e laico, pois elimina definitivamente os laços entre Igreja e a esfera pública. O federalismo instituído, aliado a uma política eleitoral que desconhecia o voto secreto formaram a base perfeita para a consolidação do poder dos coronéis. A estrutura se fez de forma piramidal, numa hierarquia de favores e leal- dades que tinha o coronel na base, manipulando o poder local (através de sua força política e econômica, e do voto do cabresto), passando pelo poder esta- Fund_Jurid_1oPeriod.indb 95 13/1/2008 14:57:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 273 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 96 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS dual dos governadores e deputados, articulados por uma lado com os coronéis e por outro, com a esfera federal, que, centralizando boa parte das competên- cias e tributos, “comprava” o apoio dos estados e dos coronéis (WOLKMER, 2005, p. 108-112). É desse período o maior predomínio dos bacharéis na vida política brasileira, sendo que a grande maioria dos presidentes dessa época eram formados nas Academias de Direito de São Paulo ou Recife. É o ápice do positivismo no Estado e no direito brasilerios (KOZIMA, citado por WOLKMER, 2005, p. 324-329). No âmbito legislativo, além da Constituição de 1891, devemos apontar a edição de um Código Penal, em 1890, e do nosso primeiro Código Civil, em 1916, que só foi substituído pelo atual Código Civil de 2002 (WOLKMER, 2005, p. 122-123). A sociedade e a economia passavam por mudanças, transitando lenta- mente, de um cenário agrário para um mais voltado à perspectiva urbana, com o comércio, os bancos, a indústria, a cidade, favorecendo o surgimento de uma classe média, com aspirações diferentes da elite agrária dominante. No cenário internacional, o fim da I Guerra Mundial ainda fazia estrago em escala mundial, e o Brasil sentia essas dificuldades, já que tinha forte dependência desse mercado internacional, sendo sua principal fonte o café. A quebra da bolsa de Nova York, o movimento tenentista, a Semana de Arte Moderna são fatores, entre outros, que provocaram um rompimento com a ordem instituída e colocaram fim à República Velha. 7.3.2 Era Vargas (1930-1945) A Era Vargas inicia com um golpe de Estado que acabou com o poder já fragilizado da República Velha. É um período de intensas transformações sociais, políticas e jurídicas, como se verá. A sociedade vai, finalmente, entrar num processo de urbanização e industrialização. O Estado passa a ser interventor, apostando nas indústrias de base como forma de impulsionar o desenvolvimento de outras áreas (a Companhia Siderúrgica Nacional - CSN e a Cia. Vale do Rio Doce nascem nesse período). A política será marcada por uma postura forte e centralizadora do Executivo, que vai ficar 15 anos no poder, 8 dos quais como ditador, e por uma cassação aos comunistas (LOPES, 2000, p. 382-388). Desse período saíram duas cartas constitucionais: a Constituição de 1934 e a Constituição de 1937. Mas por que duas Constituições tão próximas uma da outra? Porque a Era Vargas vai se dividir em um período provisório Fund_Jurid_1oPeriod.indb96 13/1/2008 14:57:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 274 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 97 (1930-1934) e constitucional (1934-1937), e outro de ditadura (1937-1945), conhecido como Estado Novo. As Constituições são reflexos dessa ruptura ao longo de seu governo (LOPES, 2000, p. 387-388). Enquanto a Carta de 1934 traz uma série de direitos, como não podia deixar de ser, a Constituição de 1937 é centralizadora e antifederal, tanto que elimina a Justiça Federal e paralisa o processo legislativo, sendo o país governado por decretos e decretos-lei (LOPES, 2000, p. 388). Tão logo Vargas assume o poder (governo provisório), começa a criar uma série de direitos para os trabalhadores, seguindo a tendência do que estava acontecendo em vários locais no mundo. Isso se estendeu por todo seu governo, que garantiu vários direitos trabalhistas (como décimo terceiro salário, férias e descanso semanal remunerados, salário mínimo, licença maternidade, entre outros) culminando, em 1943, na criação da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que, como o próprio nome indica, reuniu, no mesmo diploma legal, os direitos que foram sendo implementados até ali. Também organiza os sindicatos (que não eram livres, como hoje o conhecemos, precisavam da autorização do Estado para serem reconhe- cidos), a Justiça do Trabalho (em separado da comum), e, no âmbito admi- nistrativo, cria o Ministério do Trabalho. Notem que parte desses direitos sociais estavam sendo garantidos, ao mesmo tempo em que os direitos indi- viduais eram suprimidos. Muitos deles foram usados como “moeda de troca” em troca de apoio político. Também atua na área da educação, tratando-a como direito de todos, traçando diretrizes nacionais, criando as primeiras universidades. Na seguridade social, foram criadas caixas de assistência profissionais (mutualismo) (NASCIMENTO, 2001, p. 69-70). Em relação ao Direito e à justiça eleitoral, o Código Eleitoral de 1932 dispõe, pela primeira vez na História brasileira, que o voto seria secreto e organizado por um órgão federal e especializado, que faria o registro prévio dos eleitores. Os partidos, no entanto, eram estaduais e o voto de analfabetos, vetado. Institui-se a representação classista, em que os sindi- catos indicariam parte do Legislativo, e outra parte seria eleita pelo voto direto (LOPES, 2000, p. 387). Por fim, a estruturação da Administração Pública foi outra área de forte presença do governo Vargas. Inicia-se uma tentativa de tornar a administração mais técnica, mais profissional, instituindo-se os concursos públicos para ingresso e aquisição da estabilidade (LOPES, 2000, p. 387). Fund_Jurid_1oPeriod.indb 97 13/1/2008 14:57:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 275 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 98 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Percebe-se o impacto desse período político na história do Brasil. É o momento de rompimento de um Brasil antigo (rural, coronelista, patrimonia- lista) para a construção de um país moderno, urbano, industrial. 7.3.3 A Redemocratização (1946-1954) Depois da ditadura de Vargas, inicia-se um período de democracia e desenvolvimento nacional. É onde se efetiva a industrialização impulsionada por Vargas, com a vinda principalmente da indústria automobilística multina- cional. Desenrola-se justamente durante a Guerra Fria e vai refletir essa tensão entre comunismo e capitalismo que faz parte do panorama mundial. Internamente, promulga-se a Constituição de 1946, que se baseava na Constituição de 1934. “No tocante aos Direitos individuais, esta é uma das Constituições mais interessantes, por sua época, pelas palavras utilizadas e, principalmente, por terem alguns de seus contemporâneos chamado-a de ‘A Liberal’” (CASTRO, 2004, p. 520); essa carta reinseriu muitas garantias e constitucionalizou outras tantas, mas mantinha restrição quanto a partidos e manifestações contrárias ao regime. 7.3.4 A Ditadura Militar (1964-1985) Depois de tomar o poder com o argumento de livrar o Brasil do comu- nismo, os militares governaram todo esse período praticamente sob estado de exceção, a partir da edição de Atos Institucionais (os famosos “AI’s”, dentre o qual se destaca o AI-5, que suspendeu as garantias individuais, em 1968). Uma nova Constituição, em 1967, procurou dar legitimidade ao governo militar (incorporado os AI’s, a Lei de imprensa, que instituia a censura, e a Lei de Segurança Nacional, para a investigação de subversivos), que agora gozava de amplo poder, constitucionalmente assegurado. O fim da década de 1970 foi marcada pela perda de poder por parte do regime militar: greves, mortes na prisão, crise econômica e impopularidade, levaram o último presidente militar a declarar a “Abertura” política (gradual). O começo dos anos 80 assistiu a algumas das maiores manifestações popu- lares que o Brasil já tinha visto: o movimento das “Diretas Já”, lutando pela aprovação de uma emenda constitucional que garantisse a eleição direta para presidente já na próxima eleição (CASTRO, 2004, p. 561-562). Mais uma vez os representantes do povo, os componentes do Legislativo, não ouviram a voz das ruas e não aprovaram a emenda, garantindo mais um pleito em que só Fund_Jurid_1oPeriod.indb 98 13/1/2008 14:57:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 276 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 99 eles manifestariam a opinião de milhões de brasileiros, sob o argumento que nós não estávamos preparados para votar (também, depois de 20 anos sem exercitar esse direito...). Assim a Ditadura Militar termina como começou e se estabeleceu, de forma antidemocrática. Em 1985, assume o poder o primeiro presidente civil em 2 décadas (José Sarney, no lugar de Tancredo Neves que morreu sem tomar posse) e em 1986 toma posse a Assembléia constituinte, convocada por meio de Emenda Constitucional n.º 26, de 27 de novembro de 1985 (FERREIRA FILHO, 1999, p. 31). Essa Assembleia irá confeccionar a Constituição de 1988, ainda hoje em vigor. É o início da nossa atual etapa na história do Brasil, que está sendo construída por nós no nosso dia-a-dia. 7.4 Filosofia do Direito no Brasil A Filosofia, talvez por herança daquela crença na ciência que tanto influen- ciou os positivistas, ficou por muito tempo afastada do ensino em qualquer dos seus níveis, e em relação ao ensino jurídico, voltou a ser obrigatória apenas em 1994. Ainda assim, a Filosofia do Direito nacional tem seus nomes e suas contribuições. No fim do Período Imperial e começo da República, o destaque nessa área, era a Escola de Direito do Recife, da qual podemos citar três nomes importantes: Tobias Barreto, Silvio Romero e Clóvis Bevilacqua. Foram influen- ciados pelas correntes evolucionistas, tão em voga na época na Europa. No decorrer do séc. XX, vamos encontrar em São Paulo o prof. Miguel Reale e sua famosa Teoria Tridimensional do Direito que concebe o “Direito em fórmula própria, em que os elementos fato, valor e norma, sem predomi- nância e sem justaposição, se interdependem na formação do Direito, à escola alemão do Direito” (NADER, 2005, p. 270-271). Reale vê o poder como um conector entre os elementos do Direito, sendo sua atuação indispensável à própria formação da norma jurídica. Ele percebe que o significado de uma norma poderá se alterar, mesmo sem mudança de sua redação. É justamente essas possibilidades que se abrem para a análise do Direito, a partir da Teoria Tridimensional que a torna tãoprovocante. Vários outros nomes podem ser citados nesse cenário, mais antigos como Tomás Antonio Gonzaga, ainda na colônia, ou Avelar Brotero, primeiro diretor do curso de Direito de São Paulo. Mais recentes, e ainda em atividade, Celso Lafer, Tércio Sampaio Ferraz Junior, João Batista Herkenhoff e outros. Fund_Jurid_1oPeriod.indb 99 13/1/2008 14:57:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 277 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 100 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS O Brasil, pais colonizado por Portugal, no decorrer da história, passou por diversas transformações no campo social, politico e juridico. Nasce como colonia de exploração, e devidos às transformações liberais do mundo, após a sua independência, transformou- se em Império, adotando uma estrutura juridica de Estado a partir da Constituição de 1824 (outorgada, imposta). No entanto, o liberalismo, associado a diversos fatores sociais que ocorriam no mundo e refletiam no Brasil, propriciaram a queda do Império e a proclamação da República. No Brasil República, foram implantados regimes juridicos e poli- ticos diversos, que a sua época, e devido a prerrogativa sociais e políticas, moldaram as inúmeras Constituições brasileiras, até chegarmos a Constituição dos dias atuais, a Constituição Federal de 5 de outubro de 1988. Já no campo da Filosofia do Direito, destacam-se diversas escolar e filósofos, desde o Brasil Colônia, ao periodo atual. Grande movimento filosófico se deu com a teoria Tridimensional de Miguel Reale, explicando a formação do Direito, pelo fato (histórico), valor (moral) e norma. Síntese da aula O Brasil entra no cenário mundial como colônia de Portugal e assim perma- nece até 1822, não havendo nesse período qualquer autonomia jurídica formal, tendo validade aqui as Ordenações reais portuguesas, além das legislações extra- vagantes. Administravam a justiça três esferas distintas: a real, a concedida e a particular (essa última, na prática, era quem chegava à maior parte da população). Inspirado pelos ideais em voga no hemisfério norte, o Brasil torna-se independente de Portugal e, ao implantar o Império, desenvolve uma legislação formalmente liberal (Constituição, repartição de poderes, códigos), que esconde a manutenção da escravidão e o poder da Igreja e da elite agrária. Contudo, diversos fatores de ordem social e política (impulsionados por essa legislação liberal), propiciam a queda do Império e, por conseqüência, a proclamação da República, que, exata- mente, não nasceu de revoluções populares, mas de um golpe militar. Percebe-se que, no Brasil República, tivemos Constituições vigentes mesmo nos períodos de ditadura, que se alternavam com os de democracia. Em 1930, o cenário jurídico- institucional brasileiro começa a mudar, com a inclusão de direitos sociais e a mudança da postura do Estado, mais intervencionista. E após passar por outras Constituições que deram legitimidade a Ditadura Militar, chegamos à Constituição Federal dos tempos atuais, que é a de 1988, tambem chamada por muitos de Constitução Cidadã. Em relação à filosofia jurídica, o destaque é Miguel Reale, com a Teoria Tridimensionaldo Direito (fato, valor e norma). Fund_Jurid_1oPeriod.indb 100 13/1/2008 14:57:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 278 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo UNITINS • fUNdameNToS jUrídIcoS • 1º Período 101 Atividades 1. Relacione as Constituições com suas respectivas características. a) Constituição de 1891 b) Constituições de 1934 e 1937 c) Constituição de 1946 d) Constituições de 1967 e 1969 ( ) procurou dar legitimidade ao governo militar. ( ) aumentou o rol de garantias constituci onais individuais. ( ) introduz direitos trabalhistas como Direito Social. ( ) institui a República Federalista. A seqüência correta da alternativa é: a) a, b, c, d b) d, c, b, a c) b, a, d, c d) d, a, b, c 2. Nos dias atuais, em qual período o Brasil se encontra? Justifique sua resposta com classificação do período. 3. Qual foi a época em que primeiro se falou, no Brasil, em texto escrito, sobre os Direitos Sociais? a) Ditadura Militar b) Era Vargas c) Brasil Império d) República Velha 4. Como é chamada a nossa Constituição Federal dos dias atuais? Justifique a sua resposta. Comentário das atividades Para responder essa primeira atividade, você deve analisar em qual período histórico foi formada as constituições, assimilando nesta analise, qual o principal fato jurídico da época. A seqüência correta da alternativa é (b). Fund_Jurid_1oPeriod.indb 101 13/1/2008 14:57:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 279 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________ aUla 7 • aSPecToS HISTórIcoS e fIloSófIcoS do dIreITo 102 1º Período • fUNdameNToS jUrídIcoS • UNITINS Já na atividade 2, você deve fazer uma análise de qual época nos estamos, Colônia, Império ou República e quais são os requisitos diferenciadores dessa República dos demais. A época em que primeiro se falou em Direito Sociais no Brasil, resposta da atividade 3, foi a Era Vargas, uma vez que nas demais, no Brasil Império, não se falava em direitos sociais, a Velha República foi a primeira forma de república vivenciado no Brasil, após o império e na ditadura militar, os direitos sociais foram suprimidos. Na atividade 4, a nossa Constituição Federal de 1988, é chamada de constituição cidadã, nascida democraticamente, é a constituição que prever mais direitos ao seu povo. Referências AMADO, Janaína; FIGUEIREDO, Luiz Carlos. O Brasil no Império português. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. FERREIRA FILHO, Manoel Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. 25. ed. São Paulo: Saraiva, 1999. NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Curso de Direito do Trabalho. 17. ed. São Paulo: Saraiva, 2001. WEHLING, Arno; WEHLING, Maria José. Direito e justiça no Brasil colonial. Rio de Janeiro: Renovar, 2004. Anotações Fund_Jurid_1oPeriod.indb 102 13/1/2008 14:57:57 01 - FUND. JURÍDICOS - 1º P. - 4ª PROVA - 13/01/2008 - Page 280 of 612 APROVADA? NÃO ( ) / SIM ( ) VISTO ______________