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Artigo Cegueira Deliberada

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de	dinheiro. 10	Nesse	diapasão,	ter-se-ia,	segundo	uma	percepção	clássica,	que
haver	manifesta	 a	 vontade	do	 agente	 em	proceder	 a	 lavagem	de	dinheiro.	 Entretanto,	 a	 jurisprudência	parece
seguir	outro	caminho.
Assim,	autores	como	Moro, 11	pretendem	uma	leitura	mais	simplista,	e	aceitam	a	incidência	do	dolo	eventual.	Isso
tomou,	 aliás,	 uma	 proporção	 bastante	 significativa,	 principalmente	 após	 inúmeras	 iniciais	 decisões	 afirmando
pela	aceitação,	para	além	do	dolo	eventual,	da	própria	cegueira	deliberada	em	termos	de	lavagem	de	dinheiro.	A
questão	 posta,	 portanto,	 diz	 respeito	 ao	 fato	 de	 serem,	 dolo	 eventual	 e	 cegueira	 deliberada,	 sinônimos,	 como
parece	pretender	a	jurisprudência	nos	casos	coletados.	Muito	embora,	em	termos	amplos,	encontrem-se	decisões	a
aceitar	 e	 referendar	 essa	 segunda	 tese,	 com	 o	 emprego	 do	 dolo	 eventual	 nessa	 quadra,	 tal	 leitura	 parece
equivocada,	principalmente	hoje,	sob	a	égide	das	alterações	advindas	da	Lei	12.683/2012.	Mais	do	que	isso,	com	o
aparente	reforço	da	cegueira	deliberada,	ter-se-ia,	sim,	um	reforço	dessa	tese.
2.2.	A	origem	do	instituto	da	cegueira	deliberada	––	realidade	de	common	law
A	questão	relativa	à	tentativa	de	verificação	de	um	dolo	eventual	em	crimes	de	lavagem	de	dinheiro,	muitas	vezes
se	mostra	de	extrema	dificuldade	prática,	quanto	mais	se	a	noção	básica	se	dá	em	termos	e	bases	volitivas.	Por
essa	razão,	parte	da	doutrina	e,	mais	especialmente,	nos	julgamentos	derivados	da	Operação	Lava	Jato,	acaba	por
se	 valer	 do	uso	 emprestado	de	um	 instituto	 próprio	 da	 common	 law,	 conhecido	 como	 cegueira	 deliberada,	 em
sentido	complementar,	e	não	sinônimo,	como	fazem	parecer.	Sustentariam	eles,	assim,	que	a	cegueira	nada	mais
seria	 do	 que	 uma	 modalidade	 do	 dolo	 eventual,	 afirmação	 com	 a	 qual	 não	 se	 concorda.	 Entretanto,	 o	 mais
preocupante	é	que	aparentemente	não	se	sabe	exatamente	sobre	o	que	está	a	se	falar	quando	se	menciona	sobre	a
cegueira	deliberada. 12
Em	termos	bastante	rasos,	seria	de	se	dizer	que	se	recorre	a	tal	noção	nos	casos	daquele	que,	ao	invés	de	assumir
um	risco	da	ocorrência	do	resultado,	prefere	não	saber	do	 fato.	Como	alude	Robbins,	 isso	poderia	se	referir	ao
caso	do	viajante	que	aceita	uma	grande	quantidade	de	dinheiro	de	um	desconhecido	para	transportar	uma	valise,
mas	escolhe	não	examinar	 seu	 conteúdo,	pois	desconfia	que	ela	possa	 conter	 contrabando. 13	De	 acordo	 com	o
Ministério	 Público	 Federal,	 tal	 entendimento	 (que	 poderia	 ser	 visto	 como	 um	 fechar	 os	 olhos	 à	 verdade,	 ou
simplesmente	a	mencionada	 figura	do	avestruz),	por	vezes,	poderia	se	confundir	com	o	que	a	dogmática	penal
continental	entende	por	dolo	eventual.	Esse,	o	nó	górdio	a	ser,	aqui,	pretensamente	explicado.
Inicialmente	 que	 se	 observar	 que	 alguns	 dados	 e	 informações	 costumeiramente	 empregados	 sobre	 a	 teoria	 da
cegueira	 deliberada	 são	 corretos.	 Outros,	 nem	 tanto.	 Em	 primeiro	 lugar,	 é	 de	 se	 dizer	 que	 a	willful	 blindness
doctrine	é	presente,	de	fato,	em	uma	realidade	de	common	law,	notadamente	nos	Estados	Unidos	da	América.	A
princípio,	portanto,	mostrar-se-ia	presente	em	um	outro	sistema	legal,	que	não	o	brasileiro.	Inicialmente,	contudo,
é	necessário	que	se	diga	que	não	existe	uma	única	doutrina	sobre	a	cegueira	deliberada,	mas	muitas, 14	vistas	de
forma	 variada	 e	 atualmente	 reinterpretadas,	 aliás,	 de	 modo	 diverso	 pelos	 vários	 Circuitos	 da	 Justiça	 Federal
norte-americana.
Pois	bem.	A	origem	do	conceito,	bem	posta	por	Marcus,	se	dá	na	Inglaterra,	no	conhecido	caso	Regina	vs.	Sleep,	em
1861,	 com	uma	aplicabilidade	bastante	 limitada. 15	Naquele	 evento,	um	 ferreiro	 foi	 acusado	de	malversação	de
bens	públicos	por	ter	embarcado,	em	um	navio,	com	um	barril	de	cobre	que	continha	à	marca	real	do	Império
Britânico.	Apesar	de	considerar-se	que	o	crime	exigia	o	conhecimento	do	agente	sobre	o	fato	dos	bens	vistos	como
do	Estado,	a	decisão	ponderou	sobre	a	equiparação	da	abstenção	de	se	buscar	o	devido	conhecimento	como	um
sendo	o	próprio	e	verdadeiro	conhecimento,	estipulando-se,	pela	primeira	vez,	uma	noção	de	cegueira	deliberada.
Ainda	que	algumas	outras	decisões	insulares	tenham	seguido	aquela	premissa,	somente	tempos	depois	ela	iria	se
sedimentar. 16
A	partir	de	1899,	os	Estados	Unidos	da	América	referendam	sua	utilização,	em	especial	no	caso	Spurr	vs.	United
States.	 Naquela	 realidade,	 a	 Suprema	 Corte	 estadunidense,	 espelhando	 uma	 situação	 bancária,	 pela	 qual	 o
Presidente	do	Commercial	National	Bank	of	Nashville	teria	vistado	cheques	de	uma	pessoa	jurídica	sem	a	devida
verificação	da	existência	de	fundos	para	tanto,	foi-se	além	daquela	noção,	para	entender-se	que	o	se	colocar	em
ignorância	 equivaleria	 ao	 conhecimento	 em	 si.	 Especificamente,	 passou-se	 a	 entender	 que	 o	 réu	 poderia	 ser
condenado	se	tivesse	fechado	os	olhos	para	algum	fato	criminalmente	relevante,	como	o	questionamento	sobre	a
existência	de	saldo.	É	de	se	notar	que	essa	primeira	noção	sobre	o	que	seria	essa	autocolocação	em	ignorância,	ou
cegueira,	é	que	vai	ser,	tempos	depois,	adotada	na	civil	law,	sem,	contudo,	os	questionamentos	posteriores	dados
na	própria	common	law.
A	partir	de	então,	instâncias	inferiores	daquele	país	passaram	a	utilizar	essa	doutrina,	em	especial	em	questões
relativas	 a	 drogas,	 nas	 quais	 não	 se	 notava	 um	 dever	 especial	 em	 si	 mesmo. 17	 Nesse	 momento,	 portanto,
verificava-se	 um	 uso	 bastante	 limitado	 da	 cegueira	 deliberada,	 a	 qual	 se	 desenvolve,	 nos	 anos	 1970,	 com	 o
aumento	de	 interesse	penal	 em	casos	 relativos	a	drogas	 ilícitas.	Não	 se	 tratava,	 então,	de	algo	banal	ou	de	uso
indistinto,	mas	de	uma	construção	que	caminhou	com	o	tempo.
Cabem,	aqui,	algumas	observações	necessárias,	feitas,	ao	seu	tempo,	também	por	Ragués	I	Vallès, 18	mas	que,	ao
que	parece,	passaram	desapercebidas	por	alguma	nacional.	Tenha-se,	assim,	em	mente	o	fato	de	que,	em	1962,	os
Estados	Unidos	da	América	intentaram	a	criação,	por	meio	do	American	Law	Institute,	do	chamado	Model	Penal
Code	(MPC),	com	o	evidenciado	intuito	de	padronizar	alguns	conceitos,	absolutamente	díspares	em	uma	realidade
de	 ampla	 criação	 jurisprudencial.	 O	Model	 Penal	 Code	 não	 se	 mostra,	 de	 fato,	 como	 lei, 19	 mas,	 na	 realidade,
estabelece	diversas	noções	dentro	do	que	poderia	se	ter	como	dimensão	subjetiva	de	avaliação	(mens	rea).	Esse,
um	ponto	de	obrigatória	verificação	ao	se	pretender	o	acoplamento	conceito	à	realidade	brasileira.
Seria,	 assim,	 de	 se	 ver	 quatro	 distintos	 e	 crescentes	 graus	 de	 subjetividade:	 1)	 como	 uma	 noção	 de
intencionalidade	–	purposely;	2)	 como	o	 conhecimento	 certo	–	knowingling	–	 de	 um	 resultado	 delitivo;	 3)	 como
irresponsabilidade	 frente	aos	efeitos	do	risco	criado	–	recklessly;	 ou,	ainda,	4)	 como	negligência	–	negligently. 20
Tais	dados	serão,	sim,	fundamentais	para	a	consideração	futura	sobre	a	cegueira	deliberada.
Visto	isto,	resta	mencionar	que,	em	1969,	a	Suprema	Corte	americana	deu	início	à	embrionária	construção	do	que
se	 entende	 pela	moderna	 doutrina	 da	 cegueira	 deliberada,	 inicialmente	 com	o	 caso	Leary	 v.	 United	 States.	 Foi
então	que	se	passou	a	adotar	as	premissas	do	Model	Penal	Code.	A	título	 informativo,	é	de	se	ter	que,	na	secção
2.02(7)	do	Código,	verifica-se	a	noção	do	requisito	de	conhecimento,	mas	de	um	conhecimento,	que	é	satisfeito	por
um	conhecimento	de	alta	probabilidade.	Essa	 seria,	pois,	 a	noção	mais	próxima	de	cegueira	deliberada.	Assim,
quando	o	conhecimento	da	existência	de	um	fato	particular	é	elementar	de	um	crime,	tal	conhecimento	se	perfaz
quando	o	agente	está	ciente	de	uma	alta	probabilidade	de	sua	existência,	a	menos	que	ele	efetivamente	acredite
que	essa	probabilidade	não	exista.	Apesar	de	entendimentos	diversos,	de	vários	Tribunais	diferentes,	passou-se	a
adotar,	genericamente,	um	equivalente	à	necessidade	de	conhecimento	baseada	em