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Questões sobre Doutrina 2
Sumário
Contra-Capa
Opiniões
Prefácio à Edição Anotada
Introdução Histórica e Teológica à Edição Anotada
Introdução à Edição Original
Crenças Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia
I. Questões Preliminares
1. Doutrinas que Temos em Comum com Outros Cristãos
2. A Bíblia, Única Regra de Fé e Prática
3. A Relação dos Adventistas com as Posições do Passado
II. Perguntas Sobre Cristo
4. A Divindade e a Preexistência Eterna de Cristo
5. A Divindade de Cristo e os Membros da Igreja
6. A Encarnação e o "Filho do Homem"
7. A Ressurreição Corpórea de Cristo
8. Cristo e o Arcanjo Miguel
III. Perguntas Sobre Ellen White
9. A Relação Entre os Escritos de Ellen White e a Bíblia
IV. Perguntas Sobre a Lei e o Legalismo
10. Cristo: o Centro da Mensagem Adventista
11. Base e Frutificação da Experiência Cristã
12. Os Dez Mandamentos: a Norma Divina de Conduta
13. Distinção Entre o Decálogo e a Lei Cerimonial
14. O Relacionamento da Graça com a Lei e as Obras
V. Perguntas Sobre o Sábado, o Domingo e o Sinal da Besta
Questões sobre Doutrina 3
15. O Fundamento da Observância Sabática
16. O Sábado e a Lei Moral
17. A Observância do Sábado: Um Critério Válido
18. O Conceito Histórico do Sinal da Besta
19. Quando se Receberá o Sinal da Besta?
20. Quem Constitui a Igreja Remanescente?
21. Quem Constitui Babilônia?
VI. Perguntas Sobre Profecia
22. Princípios Básicos de Interpretação Profética
23. A Preeminência de Cristo em Daniel 8 e 9
24. Problemas Concernentes a Daniel 8
25. As Setenta Semanas de Daniel 9 e os 2.300 Dias de Daniel
26. A Septuagésima Semana de Daniel 9 e a Teoria do Intervalo
27. O Término dos 2.300 Dias-Anos em 1844
28.Antíoco Epifânio e as Especificações Proféticas de Daniel
VII. Perguntas Sobre Cristo e Seu Ministério no Santuário
29. Um Conceito Mais Amplo a Respeito da Expiação
30. Expiação Sacrifical Provida e Aplicada
31. Salvação Prefigurada no Ritual do Santuário
32.O Santuário Celestial: Conceito Figurado ou Literal?
33. O Ministério de Cristo Como Sumo Sacerdote
34. O Significado de Azazel
35. O Procedimento com o Bode Emissário
36. O Juízo Investigativo no Cenário do Conceito Arminiano
VIII. Perguntas Sobre o Segundo Advento e o Milênio
37. A Segunda Vinda de Cristo
38. Vários Conceitos Sobre o Milênio
39. A Compreensão Adventista do Milênio
IX. Perguntas Sobre a Imortalidade
40. Imortalidade Inata ou Condicional?
41. O Estado do Homem na Morte
42. O Castigo dos ímpios
Questões sobre Doutrina 4
43. O Rico e Lázaro
44. Campeões da Imortalidade Condicional
X. Perguntas Diversas
45. O Propósito da Expressão "Evangelho Eterno"
46. Satanás, Demônios e Anjos
47. A Questão dos Alimentos Impuros
48. Os Adventistas e o Programa das Missões Mundiais
XI. Apêndices
A. O Lugar de Cristo na Divindade
B. A Natureza de Cristo Durante a Encarnação
C. A Expiação
Literatura Adventista
Índice Geral
Questões sobre Doutrina 5
Contra-capa
QUESTÕES SOBRE DOUTRINA é o produto de uma série
de reuniões e diálogos entre alguns porta-vozes adventistas e uns
poucos líderes protestantes. O livro foi escrito para apresentar uma
visão mais clara sobre os ensinos adventistas para o mundo
evangélico. Na época, muitos evangélicos consideravam a Igreja
Adventista apenas uma seita.
O objetivo, em grande parte, foi alcançado. Walter Martin, um dos
interlocutores, considerava um dos pontos altos de sua carreira o fato
de ajudar o público evangélico a ver os adventistas com outros olhos.
Além disso, a publicação do livro motivou a Igreja Adventista a refinar
sua teologia em vários aspectos.
Ironicamente, porém, o livro que deveria aproximar a Igreja
Adventista e a comunidade evangélica acabou gerando muitos
debates dentro da própria igreja. O historiador George Knight o
classificou como "o livro mais divisivo" na história do adventismo e um
símbolo da tensão na teologia adventista.
Embora o livro tenha tido grande aceitação dentro e fora da igreja,
nunca havia sido publicado em forma de livro no Brasil. Agora, com o
lançamento desta edição anotada, o público de fala portuguesa tem a
oportunidade de conhecer esta obra-prima da apologia adventista de
forma mais acessível.
Questões sobre Doutrina 6
Opiniões
"Há muitas coisas boas no livro que podem servir de ajuda real para
muitos; e alguns podem pensar que rejeito tudo, quando a minha
preocupação é somente com a seção sobre a expiação, que é totalmente
inaceitável e deve ser revogada."
M. L. Andreasen, "The Atonement", 4 de novembro de 1957
"Meu desapontamento [...] foi muito grande quando descobri que
não houve mudança essencial na posição histórica dos adventistas. [...] O
volume não é um repúdio dos adventistas do sétimo dia a nenhum de
seus pontos de vista anteriores, mas uma reafirmação deles."
M. R. DeHaan, The King's Business, março de 1958
"O ponto de especial interesse é o testemunho [de DeHaan] de que
o livro não representa nenhuma mudança na doutrina adventista. [...] O
que aparentemente confundiu alguns foi o fato de se evitar certa
fraseologia adventista e de se usar a 'terminologia atualmente empregada
nos círculos teológicos'. Ao longo dos anos, os adventistas desenvolve-
ram um vocabulário próprio que diz muito para eles, mas nem sempre
comunica aos não-adventistas as ideias pretendidas. O livro busca
apresentar da maneira mais clara possível a razão de nossa esperança, de
modo que os sinceros investigadores não-adventistas possam entender."
R. R. Figuhr, Pres. da Associação Geral, Review and Herald
24 de Abril de 1958
"Questões Sobre Doutrina desencadeou uma mudança problemática
na teologia adventista; uma mudança feita de tal modo que alienou
teologicamente vários segmentos da igreja. A publicação do livro
contribuiu mais do que qualquer outro evento na história adventista para
criar o que parece ser uma guerra permanente entre grupos dentro da
denominação."
Questões sobre Doutrina 7
George R. Knight, janeiro de 2003
"A leitura da edição original de Questões Sobre Doutrina ajudou
muitos evangélicos a superar sua postura tradicionalmente preconcei-
tuosa para com o adventismo e a compreender melhor as doutrinas
adventistas. Mas, ao mesmo tempo, o livro acabou sendo alvo de sérias
críticas, especialmente por parte de alguns adventistas com tendências
perfeccionistas. A presente edição anotada ajudará o leitor a se
familiarizar com o rico conteúdo da obra, bem como a entender os
principais pontos em discussão."
Alberto R.Timm,
reitor do Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia
Questões sobre Doutrina 8
Prefácio à Edição Anotada
Questões Sobre Doutrina tem figurado no centro do diálogo
adventista desde a década de 1950, provendo o cenário para uma
contínua tensão teológica. Essa história será contada na introdução
histórica e teológica.
Enquanto isso, deve ser observado que a presente edição contém
tanto uma introdução extensiva quanto anotações ampliadas. Não apenas
o texto completo da edição original é reproduzido,mas muitas notas
discutem declarações problemáticas feitas na primeira edição (em inglês)
de Questions ou Doctrine. Outras notas atualizam a bibliografia ou
provêem informações explicativas. Algumas são breves, enquanto outras
ocupam muitas páginas.
Um tratamento especialmente detalhado é fornecido tanto na
introdução quanto nas notas da apresentação do livro a respeito de
assuntos como a posição adventista sobre a Trindade, a expiação e a
natureza humana de Cristo, uma vez que essas seções do livro têm sido
vistas como problemáticas por alguns leitores.
É minha esperança que um tratamento franco dos assuntos
explosivos expostos pelo livro Questões Sobre Doutrina e as respostas
providas por esta edição sejam esclarecedores para os adventistas e para
a comunidade mais ampla de leitores. A análise histórico-teológica e as
notas ajudarão a comunidade em geral a compreender mais plenamente
as crenças adventistas e também a entender mais profundamente o
debate que houve dentro da denominação depois da publicação do livro.
Esses dois benefícios serão de igual valor para os que pertencem à
comunidade adventista.
E importante ressaltar que todas as notas de rodapé adicionadas
ao texto na edição anotada foram impressas com um fundo cinza [nesta
edição eletrônica, em amarelo]. As notas que não estão em caixa cinza
[ou em amarelo] são da edição de 1957.
Questões sobre Doutrina 9
Como editor da edição anotada em inglês de Questões Sobre
Doutrina, eu gostaria de expressar minha apreciação a Juhyeok (Julius)
Nam e A. Leroy Moore pela sua brilhante pesquisa da história do livro; a
A. L. Hudson pelas sérias reflexões que foram dadas ao tópico; a
Gerhard Pfandl pelo auxílio na atualização das notas nas seções que
lidam com interpretação profética; a W. Richard Lesher, Woodrow W.
Whidden, Ronald Knott, Gerhard Pfandl e Juhyeok Nam pela crítica do
manuscrito e pelas sugestões para a correção; a Bonnie Beres por digitar
os manuscritos; e a Ronald Knott, da Editora da Universidade Andrews,
por partilhar comigo o vislumbre de uma Biblioteca Clássica Adventista.
Acredito que esta edição anotada de Questões Sobre Doutrina será
uma bênção para os leitores na medida em que procurarem adquirir uma
compreensão maior da teologia e da história adventista.
George R. Knight
Andrews University
Questões sobre Doutrina 10
Introdução Histórica e Teológica
à Edição Anotada
Questões Sobre Doutrina pode ser facilmente qualificado como o
livro que mais provocou divisão na história adventista do sétimo dia.
Trata-se de um livro publicado para trazer paz entre o adventismo e o
protestantismo conservador, mas sua publicação trouxe prolongada
alienação e separação às facções adventistas que surgiram ao seu redor.
PERSPECTIVA HISTÓRICA
Questões Sobre Doutrina é o produto de uma série de reuniões
mantidas entre alguns porta-vozes adventistas e uns poucos líderes
protestantes em 1955 e 1956. As raízes dessas reuniões remontam à carta
que T.E.Unruh (pres. da Associação Leste da Pensilvânia) escreveu ao
Dr. Donald Grey Barnhouse (o editor da revista Eternity e um
destacado líder da ala conservadora do protestantismo americano)
elogiando-o pelos sermões sobre justificação pela fé baseados no livro de
Romanos.
Barnhouse replicou com assombro pelo fato de um ministro
adventista cumprimentá-lo por sua pregação a respeito de justificação
pela fé, "já que, em sua opinião, era fato bem conhecido que os
adventistas do sétimo dia criam na justificação pelas obras. Ele afirmou
ainda que desde a infância estava familiarizado com os adventistas e os
seus ensinos, e que, em sua opinião, a visão deles a respeito da natureza
e obra de Cristo era satânica e perigosa. Concluiu convidando esse
estranho adventista a almoçar com ele".1
Embora aquele compromisso para almoçar nunca tenha ocorrido, os
dois homens se corresponderam até junho de 1950, quando Barnhouse
publicou na Eternity uma crítica mordaz ao livro Steps to Christ
(Caminho a Cristo), chamando Ellen White de fundadora de uma seita e
denunciando o livro como sendo "falso em todas as suas partes". Unruh
Questões sobre Doutrina 11
havia lhe dado o livro como algo que eles poderiam debater. Mas, depois
da crítica contundente de Barnhouse, Unruh escreveu que "não via
nenhuma finalidade em continuar a correspondência".2
Posteriormente, em 1954, Barnhouse comissionou um jovem
erudito evangélico chamado Walter Martin para escrever um livro
sobre os adventistas do sétimo dia. Martin trabalhava na equipe da
revista Eternity como editor-conselheiro sobre cultos e já havia publica-
do o seu Jehovah of the Watchtower em 1953, e quase já havia completa-
do um manuscrito que mais tarde seria publicado como The Rise of the
Cults.
3
Na primavera de 1955, Martin, que havia lido a correspondência
entre Unruh e Barnhouse, comunicou-se com Unruh e requisitou um
"debate com pessoas representativas dos adventistas do sétimo dia".
Diferentemente de muitos que naqueles dias escreviam contra os
adventistas, Martin "declarou que queria acesso direto" a pessoas
autorizadas e à literatura adventista, de maneira que "pudesse lidar com o
adventismo de maneira honesta".4
Unruh fez arranjos com alguns líderes na sede geral adventista em
Washington, DC, para se encontrarem com Martin. Como resultado, as
reuniões começaram em março de 1955 entre LeRoy E. Froom (líder da
Associação Ministerial da Associação Geral de 1941 a 1950) e W. E.
Read (um secretário de campo da Associação Geral) do lado adventista,
e Martin e George R. Cannon (um professor de teologia do Colégio
Missionário de Nyack, em Nova York). Posteriormente, Roy A.
Anderson (que servia então como diretor da Associação Ministerial da
Associação Geral) e Barnhouse se envolveram nos diálogos.5
"A princípio", observa Barnhouse, "os dois grupos olhavam um
para o outro com grande suspeita." Porém, Martin, que "havia lido uma
vasta quantidade de literatura adventista", apresentou aos delegados
adventistas uma série de 40 perguntas concernentes às suas posições
teológicas.6 A medida que trabalhavam sobre as perguntas e os adventis-
Questões sobre Doutrina 12
tas respondiam através de uma série de reuniões, os dois lados se
sentiram mais confortáveis em relação um ao outro e começaram a
desenvolver um genuíno respeito mútuo.
Entre as principais preocupações de Martin estavam quatro itens
vastamente sustentados em relação às crenças adventistas: "(1) que a
expiação de Cristo não foi completada na cruz; (2) que a salvação é o
resultado da graça em junção com as obras da lei; (3) que o Senhor Jesus
Cristo era um ser criado, não existente por toda a eternidade; (4) e que,
na encarnação, Ele participou da natureza humana caída e pecaminosa".7
Evidentemente, havia outros assuntos, mas esses quatro eram cruciais,
uma vez que os evangélicos não podiam considerar os adventistas
verdadeiros cristãos a menos que fossem ortodoxos em relação a tais
questões.
Como resultado, os líderes adventistas se esforçaram tenazmente
para explicar suas crenças sobre esses quatro pontos. Não tiveram muito
problema para demonstrar que os adventistas crêem na salvação apenas
pela graça e que a denominação chegou a crer tanto na Trindade quanto
no fato de que Cristo fora um com Deus desde o começo da eternidade.
Por outro lado, tiveram que tirar alguns livros de circulação, os quais
reivindicavam que "a guarda do sábado era uma base para a salvação".8
Igualmente, como as notas históricas no texto demonstram, eles não
compreendiam plenamentea extensão do semi-arianismo (isto é, que
Cristo não era plenamente Deus desde a eternidade) e do antitrinitaria-
nismo nos primórdios do adventismo.
Os outros dois assuntos provaram ser mais problemáticos para os
líderes adventistas. Uma expiação completada na cruz foi mais proble-
mática porque os adventistas tendiam a referir-se à expiação em termos
de Dia Antitípico da Expiação, que acreditavam ter começado em 1844.
Froom e seus colegas resolveram a confusão entre o uso evangélico da
palavra "expiação" e a terminologia adventista ao falar de expiação
"realizada" na cruz e a que estava então sendo "aplicada" no santuário
Questões sobre Doutrina 13
celestial. Assim, Cristo havia feito um sacrifício completo de expiação
na cruz e estava pondo em atividade os frutos dessa expiação no Seu
ministério celestial. Os delegados adventistas acreditavam estar seguros
ao fazer aquele ajuste verbal porque Ellen White havia usado a palavra
expiação de maneira similar.9
O assunto mais problemático com o qual os adventistas tiveram que
lidar foi a natureza humana de Cristo. Esse tópico foi problemático
porque os evangélicos calvinistas com os quais estavam tratando criam
que, se Cristo teve uma natureza pecaminosa, então necessariamente
tinha de ser um pecador. E, se era um pecador, não poderia ser um
salvador.
Este foi um problema real para os delegados adventistas, uma vez
que, em pesquisa recente entre vários líderes adventistas, o próprio
Froom havia descoberto que "quase todos eles" achavam "que Cristo
tivera a nossa natureza pecaminosa". Além disso, a edição de 1950 do
livro Drama of the Ages, de W. H. Branson, ex-presidente da Associação
Geral, afirmava claramente que na encarnação Cristo tomou "sobre Si a
carne pecaminosa" e que Ele precisava ter aceitado a "natureza pecami-
nosa do homem". Branson havia "corrigido" aquelas afirmações na
edição de 1953 do seu livro, mas elas e outras ainda estavam registra-
das.10
Não vendo solução para o problema, parece que Froom e seus
associados foram pouco transparentes quanto à posição da denominação
sobre o tópico desde meados de 1890. De acordo com Barnhouse, os
líderes adventistas haviam dito a ele e a Martin que "a maioria da
denominação sempre sustentou" a natureza humana de Cristo "como
sendo sem pecado, santa e perfeita, a despeito do fato de que alguns dos
seus escritores ocasionalmente têm impresso material com pontos de
vista contrários, inteiramente repugnantes à igreja de maneira geral.
Também explicaram ao Dr. Martin que havia entre seus membros alguns
Questões sobre Doutrina 14
da 'extremidade lunática', assim como há pessoas irresponsáveis de visão
extravagante em cada setor do cristianismo fundamentalista".11
A interpretação mais positiva dessa explicação do parecer
adventista sobre a natureza humana de Cristo é o fato de ser verdade que
todos os adventistas sustentavam que Cristo era "sem pecado, santo e
perfeito" no sentido de que nunca pecou. Mas essa interpretação positiva
não chega a exaurir o significado da explicação dada a Martin. Afinal de
contas, uma vez que nenhum adventista estava ensinando que Cristo
havia pecado, aqueles "irresponsáveis" que foram classificados de
"extremidade lunática" devem ter tido o que os delegados adventistas
viram como uma perspectiva problemática sobre a natureza de Cristo em
Sua humanidade. Froom e os seus associados estavam indubitavelmente
se referindo ao tipo de natureza humana que Cristo tomou sobre Si na
encarnação, que tinha sido, nas palavras de Branson (e muitos outros),
"natureza pecaminosa".
A desconfiança de que os delegados adventistas podem ter ocultado
a verdade da posição tradicional adventista é aparentemente confirmada
na seção do apêndice do livro Questões Sobre Doutrina sobre "A
Natureza de Cristo Durante a Encarnação". No apêndice das citações de
Ellen White, os autores do livro acrescentam um título afirmando que
Cristo "Assumiu a Natureza Humana Sem Pecado". Esse título é
problemático, pois implica que essa era a ideia de Ellen White, quando
de fato ela foi bem enfática em declarar repetidamente que Cristo tomou
a "nossa natureza pecaminosa" e que "tomou sobre Si a natureza humana
caída e sofredora, degradada e contaminada pelo pecado".12 (Ver as
anotações históricas ampliadas sobre esse tópico nas páginas 437-445 do
livro impresso [Apêndice B, III], 277, 278 [Cap. 33, IX].)
Durante as próprias conferências, Froom, ao escrever para o
presidente da Associação Geral a respeito de suas respostas aos
evangélicos, reconheceu que "algumas declarações são um pouco
diferentes do que você possa antecipar". Ele continuou explicando que
Questões sobre Doutrina 15
suas respostas precisavam ser consideradas no contexto daqueles com
quem estavam lidando. "Se você conhecesse as raízes, as atitudes e o
contexto de tudo isso, compreenderia a razão pela qual afirmamos essas
coisas da forma como fizemos."13
A partir dessas palavras, fica evidente que Froom e seus associados
reconheceram que precisavam usar um vocabulário que fosse compre-
endido pelos evangélicos e que os adventistas estavam lidando com
alguns líderes fundamentalistas claramente preconceituosos e agressivos.
Isso era certamente verdadeiro em relação a Barnhouse, que foi descrito
como "impiedoso com outros pontos de vista, incluindo [...] aqueles que
não partilhavam a sua concepção pré-milenista [dispensacionalista] da
segunda vinda".14 Outros autores o descreveram como "inflamado",
"destemido e brusco", e alguém disposto a criticar "livremente".15
Com esses fatos em mente, não é difícil ver por que os delegados
adventistas ajustaram a sua linguagem sobre a expiação. Afinal de
contas, o ajuste permitiu-lhes manter suas crenças teológicas sustentadas
durante tanto tempo e, ao mesmo tempo, expressar suas ideias de
maneira que se adequassem ao vocabulário e ao entendimento dos
evangélicos.
Por outro lado, é muito mais difícil justificar a apresentação e a
manipulação de dados dos delegados adventistas sobre a natureza
humana de Cristo. Se a questão de uma mudança na teologia adventista
sobre a expiação pode ser vista como semântica, o assunto da mudança
de posição sobre a natureza humana de Cristo era de índole substancial.
Quer Froom e seus colegas estivessem ou não dispostos a admitir, o
ponto de vista sobre a natureza humana de Cristo que expuseram foi uma
genuína revisão da posição sustentada pela maioria da denominação
antes da publicação do livro Questions on Doctrine (Questões Sobre
Doutrina).
De qualquer forma, Froom, Read e Anderson conduziram as coisas
de maneira a convencer Barnhouse e Martin de que os adventistas eram
Questões sobre Doutrina 16
realmente ortodoxos quanto aos assuntos essenciais com os quais
estavam preocupados. Assim, Barnhouse pôde escrever no verão de 1956
que, "em certos casos, a posição dos adventistas parece para alguns de
nós uma nova posição. Para eles, parece ser meramente a opinião do
grupo majoritário da liderança sensata que está determinada a frear
qualquer membro que procure sustentar posições divergentes daquela
relativa à liderança responsável da denominação".16
Barnhouse publicou os resultados das reuniões entre adventistas e
evangélicos na revista Eternity em setembro de 1956, em um artigo
intitulado "Are Seventh-day Adventists Christians?". Ao falar dessa
posição revisada do adventismo, ele escreveu: "Gostaria de dizer que nos
deleitamos em fazer justiça a um grupo muito caluniado de crentes
sinceros, e em nossa mente e coração tirá-los do grupo dos que são
completamente heréticos, comoas testemunhas de Jeová, os mórmons e
os cientistas cristãos, reconhecendo-os como irmãos redimidos e
membros do corpo de Cristo." O preço por essa tomada de posição
custou caro para os delegados evangélicos. Unruh observa que a revista
"Eternity perdeu um quarto dos seus assinantes em protesto, e a venda
dos livros de Martin caiu vertiginosamente".17
Enquanto isso, a revista Time de dezembro de 1956 noticiou as
conferências como um tempo de cura entre a ala fundamentalista do
movimento evangélico e os adventistas. Também indicava que os
adventistas haviam "anunciado que publicariam - provavelmente na
primavera seguinte - uma nova e definitiva declaração de sua fé".18 Esse
livro, que não apareceu antes do outono de 1957, seria intitulado:
Seventh-day Adventists Answer Questions on Doctrine: An Explanation
of Certain Major Aspects of Seventh-day Adventist Belief.
Do lado adventista, o presidente da Associação Geral, ao se reportar
ao público adventista, considerando os diálogos e os artigos publicados
na revista Eternity, escreveu que "foi muito tranquilizante notar que
nenhuma objeção ou questão de qualquer importância foi levantada por
Questões sobre Doutrina 17
aqueles de nosso meio que leram as respostas" dadas aos delegados
evangélicos. "Ao contrário, um coro geral de aprovação e profunda
apreciação foi o resultado. Essas respostas permitiram que nossos
amigos cristãos pudessem compreender claramente e diretamente de nós,
e não de nossos oponentes, o que cremos e ensinamos."19
Mas isso não significa que todos no acampamento adventista
estivessem felizes. Isso foi especialmente verdade em relação a alguns
que não "leram as respostas". Entre os que se tornaram desgostosos, o
principal foi M. L. Andreasen, recém-aposentado e que havia sido o
mais influente teólogo e autor teológico da denominação nos últimos
anos da década de 1930 e durante a década de 1940. Ele foi deixado fora
do processo tanto na formulação das respostas quanto na crítica delas,
embora fosse visto geralmente como uma autoridade em vários dos
pontos discutidos.
O descontentamento de Andreasen começou a aparecer com a
edição da revista Eternity em setembro de 1956. Nela, aqueles que
adotavam a posição dele sobre a natureza pecaminosa de Cristo foram
classificados como pertencendo à "extremidade lunática" do adventismo.
Esse ardente descontentamento irrompeu abertamente quando Froom
publicou um artigo sobre a expiação na revista Ministry, em fevereiro de
1957. Especialmente ofensivo para Andreasen foi uma sentença se
referindo à morte de Cristo em favor de cada pecador, que dizia: "Esse é
o tremendo escopo do ato sacrifical da cruz - uma expiação completa,
perfeita e final pelos pecados do homem."20 O que Froom queria dizer
com essa sentença era que o sacrifício na cruz foi pleno e completo (em
termos de aspecto sacrifical da expiação) pelo pecado.
Mas esta não foi a maneira como Andreasen o leu em 15 de
fevereiro, quando interpretou mal e equivocadamente citou as palavras
de Froom. Andreasen repetidamente citou Froom como dizendo que "o
ato sacrifical na cruz (é) uma expiação completa, perfeita e final pelos
pecados do homem".21 Mas a interpretação feita por Andreasen da
Questões sobre Doutrina 18
sentença de Froom mudou o seu significado. A palavra "é" não consta na
sentença original de Froom. Em vez disso, ele pôs um travessão após a
palavra "cruz", com as palavras seguintes funcionando como uma frase
explanatória para as várias palavras que estavam antes. Assim, o
significado de Froom era que a cruz foi um sacrifício completo (ou o
aspecto sacrifical da expiação). Mas Andreasen, ao citar Froom,
removeu o travessão e acrescentou a palavra "é" entre parênteses. Com
esse pequeno retoque, ele mudou o significado pretendido por Froom de
um sacrifício completo (ou aspecto sacrifical da expiação) na cruz para
uma expiação completa na cruz. Evidentemente, essa interpretação
colocava Froom e seus associados em desarmonia com o adventismo
tradicional, que frequentemente usara a expiação para se referir
exclusivamente ao ministério celestial de Cristo voltado para o dia da
expiação.
Que Froom não estava abandonando a compreensão tradicional
adventista está claro pelo contexto da declaração controvertida. Dois
parágrafos antes, ele havia escrito que "o termo 'expiação', que estamos
considerando, obviamente tem um significado muito mais amplo do que
normalmente é concebido. A despeito da crença de multidões nas igrejas
[evangélicas] a nosso respeito, a expiação não é, por um lado, limitada
apenas à morte sacrifical de Cristo na cruz. Por outro lado, não está
confinada ao ministério de nosso Sumo Sacerdote celestial no santuário
de cima, no dia antitípico da expiação - ou hora do juízo de Deus - como
alguns de nossos antepassados [adventistas] a princípio pensavam e
escreveram erroneamente. Em vez disso, como comprovado pelo
Espírito de Profecia, ela claramente envolve ambos — um aspecto sendo
incompleto sem o outro, e cada um sendo o complemento indispensável
do outro".22
O contexto seguindo a declaração controvertida é igualmente claro.
Assim, a sentença que segue a declaração de Froom, de que o ato
sacrifical de Cristo foi completo e final, afirma "que [o ato sacrifical na
Questões sobre Doutrina 19
cruz] não é tudo, nem é o suficiente. O ato completo da expiação na cruz
é sem valor para qualquer pessoa, a menos que, e até que, seja aplicado
por Cristo, nosso Sumo Sacerdote, e apropriado pelo recipiente
individual". Dessa maneira, Froom não estava substituindo a expiação na
cruz pela expiação no santuário celestial, mas estava se referindo ao que
ele e Andreasen consistentemente aludiam como "expiação provida" na
cruz e "expiação aplicada" no ministério celestial de Cristo durante o dia
antitípico da expiação.23 Concluindo, pode ser dito que, embora seja
verdade que Froom acreditava que a morte de Cristo na cruz foi
completa como um sacrifício de expiação, ele não sustentava que ela
representasse uma expiação completa.
Nessa posição, Froom e seus delegados associados estavam em boa
companhia. Afinal de contas, Ellen White retratou o Pai como prostrado
perante a cruz "em reconhecimento de sua perfeição. 'Basta', Ele disse, 'a
expiação está completa' ". Mais uma vez ela havia escrito que, quando
Cristo "ofereceu-Se na cruz, uma expiação perfeita foi realizada pelos
pecados do povo".24 Naturalmente, ela também usou a palavra
"expiação" ao lidar com a obra celestial de Cristo na era presente.
Além disso, é interessante notar que Andreasen havia reivindicado
em 1948 que "Cristo finalizou a Sua obra como vítima e sacrifício na
cruz". E mais: ele nunca restringiu o significado da expiação ao
ministério celestial de Cristo. Com percepção, ele notou que "a expiação
não é um evento único, mas um processo, que se estende através dos
séculos, o qual não será terminado até que não mais exista o tempo". De
fato, o próprio Andreasen considerava a cruz como a conclusão do que
chamou de a "segunda fase" na "obra expiatória de Cristo".25 Assim, em
essência, Andreasen e Ellen White estavam em harmonia com Froom de
que uma obra fora completada na cruz e que havia necessidade de haver
um ministério celestial para aplicar inteiramente os benefícios daquela
obra completa de sacrifício, embora eles às vezes usassem palavras
diferentes para expressar a sua compreensão.
Questões sobre Doutrina 20
Mas esse não era o ponto de vista de Andreasen apresentado em sua
reação ao livro Questions on Doctrine. De sua perspectiva, os delegados
haviam traído o adventismohistórico. Começando com uma monografia
que escreveu em 15 de fevereiro de 1957, ele persistiria martelando o
assunto de traição até o seu leito de morte.
Havia uma boa razão pela qual Andreasen estava especialmente
interessado no ensino de uma expiação completada na cruz. Ele havia
exposto essa razão em vários de seus antigos escritos. Essencial para a
teologia de Andreasen era uma compreensão das três fases da expiação.
A primeira fase se relacionava com Cristo vivendo uma vida
perfeitamente sem pecado. A segunda fase foi a Sua morte na cruz.
Essas duas fases na obra de expiação foram importantes, mas para
Andreasen a terceira fase era absolutamente essencial. "Na terceira fase",
ele escreveu, "Cristo demonstra que o homem pode fazer o que Ele fez,
com o mesmo auxílio que Ele teve. Esta fase inclui a Sua sessão à mão
direita de Deus, o Seu ministério sumo sacerdotal, a exibição final de
Seus santos em sua última luta contra Satanás e a sua gloriosa vitória.
[...]
"A terceira fase está agora em processo no santuário de cima e na
igreja na Terra. Durante Sua obra e vida na Terra, Cristo subjugou o
poder do pecado. Por Sua morte, destruiu o pecado e Satanás. Agora está
eliminando e destruindo o pecado em Seus santos na Terra. Isso é parte
da purificação do verdadeiro santuário."26
É o que Andreasen chama de a terceira fase da expiação que se
tornou o ponto focal de sua teologia. Utilizando o conceito vastamente
sustentado de que Cristo possuía uma natureza pecaminosa exatamente
como a de Adão depois da queda (isto é, uma natureza pecaminosa com
tendências para o pecado), Andreasen formulou a sua interpretação da
teologia da "última geração", com Cristo sendo um exemplo do que
poderia ser realizado na vida de Seus seguidores. Essa teologia é bem
claramente delineada no capítulo intitulado "A Última Geração", do livro
Questões sobre Doutrina 21
The Sanctuary Service (1937,1947 (em português, O Ritual do
Santuário, 1983]). Esse livro afirma especificamente que Satanás não foi
derrotado na cruz, mas seria derrotado pela última geração em sua
demonstração de que uma geração inteira de pessoas poderia viver uma
vida impecavelmente perfeita. Possuindo a natureza humana com todos
os seus problemas, Cristo provou que isso poderia ser feito. A última
geração teria condições de viver a mesma vida impecavelmente perfeita
que Ele viveu com o mesmo auxílio que Ele tivera. Assim, por meio
deles, Deus "derrota Satanás e ganha o pleito". "No remanescente
encontrará Satanás sua derrota". "Na última geração, Deus será
reivindicado." Nessas circunstâncias, Cristo poderá vir novamente.27
Com essa teologia em mente, é fácil compreender a razão pela qual
Andreasen ficou perturbado com a ideia de uma expiação completada na
cruz e o ensino de que Cristo não era exatamente como os outros seres
humanos em Sua natureza humana.28 Uma expiação completada teria
depreciado a sua interpretação da teologia adventista. Aí está o motivo
de sua reação apaixonada contra os delegados evangélicos e a posição de
Froom, que ele via como uma traição da teologia adventista em troca de
um reconhecimento evangélico. Tal preço era muito alto, pois
representava, aos olhos de Andreasen, nada menos do que apostasia.
As apreensões de Andreasen em relação à concepção da expiação
sustentada pelos delegados durante as conferências evangélicas logo se
tornaram fixadas no projeto do livro Questions on Doctrine, no qual as
respostas apresentadas pelos adventistas seriam impressas. Em 11 de
março de 1957, ele escreveu para R. R. Figuhr, presidente da Associação
Geral, reivindicando que, "se o livro for publicado, haverá repercussões
até os confins da Terra, porque os fundamentos [da teologia adventista]
estão sendo removidos".29 Em 21 de junho, escreveu para Figuhr
novamente, observando que, "se os líderes tolerarem as ações desses
homens, se tiverem permissão para atuar como autores ou aprovarem a
publicação do livro, devo protestar, e me sentirei justificado pela voz e
Questões sobre Doutrina 22
pela pena a revelar essa conspiração contra Deus e o Seu povo. [...] Está
em suas mãos dividir a denominação ou curá-la".30
Duas semanas mais tarde, escreveu de novo, afirmando que achou
"difícil se concentrar enquanto Roma está queimando, ou melhor,
enquanto o inimigo está destruindo os fundamentos sobre os quais
estivemos construindo todos esses anos. A própria essência de nossa
mensagem, de que no santuário do Céu está ocorrendo agora mesmo
uma obra de juízo e de expiação, está sendo descartada. Retire essa
mensagem, e estará tirando o próprio adventismo. [...] Para mim, irmão
Figuhr, essa é a maior apostasia que esta denominação já enfrentou, e ela
certamente dividirá o povo. Não é apenas um ou dois homens que estão
advogando essa monstruosa proposição, mas um 'grupo' de homens da
Associação Geral, mais um número de 'estudantes da Bíblia' com quem
estão se reunindo".31
No outro lado do muro adventista que se erguia, a revista Ministry
de abril de 1957 alardeou o reconhecimento evangélico como um
positivo e "emocionante capítulo na história do adventismo".32 Dois
meses depois, a revista Ministry estava "feliz em anunciar que [...] o
livro Questions on Doctrine (Questões Sobre Doutrina) está prestes a ser
lançado". Foi afirmado que nenhum livro publicado na história da
denominação "obteve maior escrutínio do que este. [...] O manuscrito,
depois de ter sido cuidadosamente estudado aqui [na sede da Associação
Geral] por um grande grupo, foi enviado para a nossa liderança de todas
as Divisões do mundo. Além disso, foi para os professores de Bíblia de
nossas faculdades e editores de nossos maiores periódicos. As cópias
também foram enviadas para os nossos líderes de Uniões e Associações
locais da América do Norte".33 Ao todo, o manuscrito foi enviado para
cerca de 250 eruditos e líderes de igreja. Uma pessoa significativa dei-
xada fora do processo parece ter sido Andreasen — a autoridade da
denominação sobre expiação nos anos de 1940. Esse tratamento
Questões sobre Doutrina 23
certamente deve ter adicionado combustível aos seus sentimentos de que
uma conspiração havia sido engendrada.
Em 12 de setembro de 1957, Andreasen novamente escreveu a
Figuhr, dessa vez com um ultimato de que ele estaria indo a público na
primeira semana de outubro com as suas inquietações, "a menos que eu
receba o seu pronunciamento de que irá considerar a questão antes ou
durante o Concílio Outonal". Ele temia que o presidente da Associação
Geral ainda não tivesse "considerado a seriedade do assunto". O dia 15
de outubro viu a circulação da "Review and Protest" de Andreasen, na
qual ele apresentou suas preocupações.34
Enquanto isso, o livro Questions on Doctrine foi lançado pela
denominação no fim de outubro ou início de novembro, com a modesta
tiragem de cinco mil exemplares. Surpreendentemente, Andreasen foi
bem favorável à maior parte do conteúdo do livro. Em 4 de novembro,
ele escreveu para Figuhr que "há muitas coisas boas no livro que podem
ser de real auxílio para muitos; e alguns podem pensar que repudio todo
o volume, quando a minha preocupação é apenas em relação à seção
sobre a expiação, que é completamente inaceitável e deve ser
revogada".35
A campanha de Andreasen para recolher o livro Questions on
Doctrine foi contínua até dezembro. "Estou angustiado de coração,
profundamente magoado", escreveu ao presidente da denominação,
"quanto à obra que os seus conselheiros recomendaram. A unidade da
denominação está sendo rompida, e o livro Questions on Doctrine ainda
está circulando e sendo recomendado. Ele deve ser prontamente
repudiadoe retirado de circulação, caso a situação deva ser salva."36
Mas Figuhr estava tomando justamente a atitude oposta. Em 6 de
novembro, ele escreveu para todos os presidentes de Uniões da América
do Norte, apelando por pedidos coletivos cujo montante estaria entre 100
mil e 200 mil exemplares, de maneira que o livro Questions on Doctrine
pudesse ser vendido mais barato e tivesse uma circulação extremamente
Questões sobre Doutrina 24
ampla. Em 27 de dezembro, estava feliz em informar à liderança que
haviam encomendado uma segunda impressão de 50 mil exemplares,
mas essa logo subiu para 100 mil.37 O livro estaria circulando
agressivamente, tanto entre os adventistas quanto entre os pastores e
líderes de outras denominações. Por volta de 1965, milhares de
exemplares haviam sido postos em seminários, universidades, colégios e
bibliotecas públicas. Perto de 1970, Froom estimou que a circulação total
havia excedido 138 mil exemplares. Nessa ocasião, o livro tinha
alcançado uma circulação mundial.38
Enquanto isso, no fim de 1957, a batalha entre Andreasen e a
liderança denominacional sobre o livro Questions on Doctrine começou
a aumentar progressivamente. Em 16 de dezembro, Figuhr escreveu-lhe
afirmando que era extremamente difícil entender o seu propósito na sua
contínua agitação contra o livro. Havendo suprido a Andreasen com uma
bateria de citações de Ellen White sobre o tópico da expiação realizada e
aplicada, o principal administrador da denominação ainda fez um outro
apelo: "Lamento profundamente, irmão Andreasen, que o senhor afirme
tão incorretamente o que o livro ensina. O senhor realmente leu o livro
com seriedade? Ele não diz, como o senhor insiste em afirmar, que 'a
expiação foi realizada apenas na cruz'. Isso não é correto. Para fazê-lo
dizer isso, alguém deve torcer as coisas gravemente. Ele não ensina que
na cruz a parte sacrifical da expiação foi inteiramente realizada. Porém,
que há muito mais na expiação do que o oferecimento do perfeito
sacrifício, é vastamente claro a partir das Escrituras e do Espírito de
Profecia. Isso o livro estabelece nitidamente."39
Mas, para Andreasen, não havia como enxergar esse ponto ou voltar
atrás. "Choro por meu povo", escreveu em 9 de março de 1958. "Essa é a
apostasia predita há muito tempo. [...] Tenho avaliado o preço que terei
que pagar ao continuar minha oposição; mas estou tentando salvar minha
amada denominação de cometer suicídio. Devo ser verdadeiro para com
Questões sobre Doutrina 25
o meu Deus, da forma como vejo as coisas, e devo ser fiel aos homens
que confiam em mim."40
Andreasen publicaria nove artigos de ampla circulação, intitulados
"The Atonement" [A Expiação], no fim de 1957 e início de 1958. Essa
série foi seguida, em 1959, por seis "Letters to the Churches" [Cartas às
Igrejas], que seriam publicadas mais tarde como um livreto de 100
páginas com o mesmo título. As cartas focalizariam tanto o problema da
expiação quanto a questão da natureza humana de Cristo. Andreasen
continuou a se entristecer à medida que via "sendo destruídos" o que
considerava os "pilares da fundação" da teologia adventista.41
Enquanto os adventistas estavam lutando entre si sobre temas
levantados pelo livro Questions on Doctrine, Martin e outros continua-
vam a escrever sobre o adventismo de maneira favorável. Por volta de
1960, Martin estava pronto para publicar a sua resposta ao livro
adventista. Naquele ano, a Zondervan lançou o livro The Truth About
Seventh-day Adventism. Barnhouse preparou um prefácio para o livro no
qual escreveu: "Como resultado de nossos estudos do adventismo do
sétimo dia, Walter Martin e eu chegamos à conclusão de que os
adventistas do sétimo dia são um grupo verdadeiramente cristão, em vez
de uma seita anticristã. Quando publicamos nossa conclusão na revista
Eternity (setembro de 1956), fomos recebidos com uma tempestade de
protestos por pessoas que não tiveram a nossa oportunidade de con-
siderar as evidências.
"Seja compreendido que fizemos apenas uma reivindicação; isto é,
que aqueles adventistas do sétimo dia que seguem ao Senhor de maneira
idêntica à de seus líderes que interpretaram para nós a posição
doutrinária de sua igreja devem ser considerados verdadeiros membros
do corpo de Cristo!"42
Os outros, incluindo Andreasen e os seus seguidores, foram ainda
considerados sectários devido às suas crenças absurdas. O livro, então,
continuava a esboçar em alguns detalhes a compreensão de Martin e
Questões sobre Doutrina 26
Barnhouse sobre o adventismo, como explicado a eles no volume
Questões Sobre Doutrina e nas conferências evangélicas.
H. W. Lowe, líder do Grupo de Estudo Bíblico e de Pesquisa da
Associação Geral, respondeu ao livro de Martin através de uma
declaração ["A Statement"] encontrada no próprio livro. "Apreciamos
profundamente a atitude bondosamente cristã demonstrada através deste
livro", Lowe escreveu, "mesmo naquelas áreas onde ele está em
assinalado desacordo conosco."43
Evidentemente, Lowe não estava completamente feliz com o
tratamento da doutrina adventista no volume de Martin. "Há lugares [...]
neste livro", escreveu, "onde acreditamos que o autor tenha criticado
erroneamente alguns aspectos do início de nossa história e nossos
ensinos teológicos contemporâneos."44
Como resultado, a revista Ministry publicou uma série de artigos
entre junho de 1960 e julho de 1961 sobre os pontos divergentes -
incluindo a lei, o juízo pré-advento, o sábado, a imortalidade
condicional, o papel de Ellen White, as três mensagens angélicas de
Apocalipse 14 e a natureza do ser humano. Aqueles 15 artigos logo
foram publicados sob o título de Doctrinal Discussions e constituíram
uma resposta direta ao livro de Martin.45
Nesse ínterim, nem todos na ala protestante conservadora estavam
felizes com Questions on Doctrine e com o livro de Martin. Norman F.
Douty, no seu Another Look at Sevetith-day Adventism (1962),
sustentava que Martin e Barnhouse haviam sido muito generosos e que o
adventismo tinha se afastado dos ensinos da Palavra de Deus como man-
tido pelo cristianismo histórico. De forma similar, Herbert S. Bird via a
denominação, na sua Theology of Seventh-day Adventism, como uma
"séria corrupção do evangelho".46
Se houve divisões sobre o adventismo entre os protestantes
conservadores, houve problemas ainda mais sérios entre os próprios
adventistas. Durante 1961, Andreasen continuou seus protestos. Como
Questões sobre Doutrina 27
resultado, em 6 de abril daquele ano, a Associação Geral em seu concílio
da primavera votou suspender sua credencial ministerial. Andreasen
responderia a essa ação em 19 de janeiro de 1962 em uma carta circular
intitulada "Shooting the Watchdog".47
Porém, a batalha entre Andreasen e a denominação estava quase
terminada. Ele passaria para o repouso em 19 de fevereiro de 1962. Três
dias antes desse evento, Figuhr e R.R.Bietz (presidente da União do
Pacífico) visitaram Andreasen e sua esposa no Sanatório e Hospital de
Glendale. Nesse encontro, Andreasen fez as pazes com a igreja. Ao fazê-
lo, de acordo com os relatos, expressou o seu remorso pela confusão que
havia causado na denominação, afirmou que pelos últimos dois anos
havia instruído seus seguidores a parar de duplicar suas cartas e
panfletos, e contou a Figuhr e a Bietz que, no futuro, suas declarações
"quanto às suas convicções seriam direcionadas apenas para os oficiais
da Associação Geral ou outros membros da sua comissão".48
Poucos dias depois da morte do esposo, a Sra. Andreasen escreveu
para Figuhr acerca da alegria no coração domarido devido àquela
reconciliação. "Estou tão agradecida pela sua conversa com meu querido
esposo", escreveu ela, "e [que] tudo tenha sido acertado e esclarecido
antes que ele morresse. Ele disse que não poderia morrer até que isso
fosse esclarecido. Passou muitas noites expressando a dor de seu
coração. Pobre amor, estou tão alegre que ele tenha morrido feliz. [...]
Muito obrigada pela sua bondosa carta. Eu a guardarei e a
entesourarei."49
Em 1° de março, a Comissão da Associação Geral revogou a ação
de anos atrás na qual havia suspendido a credencial de Andreasen. Em
dezembro daquele ano, a Sra. Andreasen escreveu para W. P. Bradley,
na sede da Associação Geral, dizendo que "estava muito feliz por obter a
credencial de M. L. Sei que ela não tem nenhum significado especial
agora que ele se foi, mas sei com certeza que ele esperava que eu a
conseguisse e ficaria bem contente com a devolução dela".50
Questões sobre Doutrina 28
Embora a paz tenha sido estabelecida entre Andreasen e a liderança
da igreja, ela não aconteceu entre a liderança e aqueles que haviam
seguido Andreasen em sua reação ao livro Questions on Doctrine. Em
2003, quando foi publicada a edição anotada em inglês, o adventismo
estava se aproximando de meio século de divisão em torno da crise sobre
o livro.
Contemplando o passado, alguém pode apenas especular sobre o
diferente curso da história, se Andreasen tivesse sido consultado sobre a
redação da posição adventista sobre a expiação, se Froom e seus
associados não tivessem sido divisivos na sua manipulação das questões
relacionadas à natureza humana de Cristo, se tanto Froom quanto
Andreasen tivessem personalidades mais brandas.
Mas os "se"s não são a essência da história. O relato histórico nesse
caso é que cada lado contribuiu para a desarmonia que surgiu no
adventismo em relação ao livro Questions on Doctrine. E, além das
fileiras dos adventistas, a linguagem repetidamente agressiva do sempre
combativo Barnhouse indubitavelmente fez muito para criar divisão.
Logo depois da publicação do livro, por exemplo, ele escreveu que o
livro Questions on Doctrine "é uma declaração definitiva que poda os
escritos dos adventistas que têm sido independentes e contraditórios para
com a sua liderança reconhecida".51 Essa é apenas uma das muitas
declarações feitas por Barnhouse sugerindo que ele procurou ativamente
criar distância entre os seguidores de Andreasen e a "liderança sensata
que está determinada a deter qualquer membro que procure sustentar
posições divergentes daquela relativa à liderança responsável da
denominação".52 Dado o fato de que ninguém gosta de ser podado ou
estar em oposição àqueles que são sensatos, é evidente que o próprio
Barnhouse contribuiu muito para exacerbar as dificuldades internas entre
os adventistas.
Questões sobre Doutrina 29
PERSPECTIVA TEOLÓGICA
Uma das declarações mais surpreendentes de M.L.Andreasen em
sua batalha prolongada com a denominação sobre o livro Questions on
Doctrine é que "há muitas coisas boas no livro que podem ser de real
auxílio para muitos". Ele continuou a dizer que não repudiava todo o
volume. Sua única preocupação era quanto "à seção sobre a expiação,
que é completamente inaceitável e deve ser revogada".53
Em outras palavras, Andreasen achou que quase todo o livro
Questions on Doctrine reflete a teologia tradicional adventista. Assim, o
livro inteiro não era problemático, mas apenas aquelas seções que
lidavam com a expiação e o assunto da natureza humana de Cristo.
O elogio de Andreasen à maior parte do conteúdo do livro pode
chocar alguns que estão familiarizados apenas com o seu contínuo
conflito com a Associação Geral quanto à sua publicação. A verdade é
que ele reconheceu o volume como sendo geralmente uma reafirmação
proveitosa da compreensão histórico-teológica da denominação. Dessa
forma, ele estava longe de ser uma traição total.
Aquela compreensão é reforçada tanto por ex-adventistas quanto
por aqueles líderes protestantes que ainda estavam agressivamente
atacando a denominação. Um ex-adventista escreveu para a Kings
Business em abril de 1957 que "o recente artigo na revista Eternity foi
desagradável para nós. [...] Eles ainda imprimem [na Review and
Herald] as próprias coisas que a Eternity diz que agora negam".54
Ainda mais incisivas foram as reivindicações de E.B.Jones, um ex-
missionário adventista que teve "os fatos em primeira mão" quanto "à
natureza herética, profundamente enraizada e inalterável do adventismo
do sétimo dia". Jones teve um ministério intitulado Guardiões da Fé, que
tinha a seguinte descrição: "Especializado na Distribuição de Publica-
ções Autorizadas, Biblicamente Sadias, Expondo os Ensinos Enganosos
e Métodos de Propaganda Sutis do Adventismo do Sétimo Dia".55
Questões sobre Doutrina 30
Na opinião de Jones, Martin e Barnhouse tinham sido "completa-
mente enganados" pelos líderes adventistas. O fato real, ele declarou em
dezembro de 1957, é que "o sistema de religião adventista do sétimo dia
de maneira alguma foi alterado". O adventismo "não [era] uma
denominação genuinamente evangélica"; ao contrário, era "uma contra-
fação engenhosamente camuflada".56
Falando especificamente do livro Questions on Doctrine, Jones
escreveu que "neste livro aparentemente inocente em exame superficial
que está reivindicando revelar 'a verdadeira natureza evangélica das
crenças e dos ensinos adventistas' - aqui, nesta mais recente manobra
astutamente planejada da seita, obviamente divisada por devotos es-
quematizadores para enganar os não iniciados e facilmente extraviar as
pessoas para dentro de sua armadilha caçadora de almas - descobrimos
que o adventismo do sétimo dia é precisamente aquilo que desde o
princípio temos sustentado que seja: FALSO!
"Julgamos que ele ainda é diametralmente oposto às verdades vitais
do genuíno movimento evangélico. De forma alguma é diferente daquele
que sempre foi. A despeito de todas as reivindicações contrárias, o
adventismo do sétimo dia é exatamente tão conflitante em relação à
Bíblia e tão envenenador de almas agora como sempre foi no passado –
na verdade, ainda mais enganoso e perigoso. [...] E a sua desesperada
tentativa atual de 720 páginas de 'esclarecer' as suas doutrinas apenas
confirma ainda mais a acusação factual e solidamente fundamentada de
que o credo do adventismo é composto de 'uma chocadeira de erros e
heresias' ".57
E quais eram as "doutrinas pervertedoras das Escrituras ainda
completamente inalteradas" esboçadas no livro Questions on Doctrine
que perturbavam tanto esse ex-missionário adventista? Nada menos do
que a evidente declaração do volume sobre o ministério de Cristo no
santuário celestial, o Juízo Investigativo, a importância contemporânea
da lei e do sábado, a interpretação adventista do inferno e do sono da
Questões sobre Doutrina 31
morte, a inspiração de Ellen White ("a fundadora do movimento
mentalmente enferma e sem escolaridade"), e as suas exposições
claramente apresentadas sobre o Selo de Deus e a marca da besta.58
Assim, a crítica perceptiva de Jones ao livro Questions on Doctrine
demonstra que, longe de ser uma capitulação teológica para os
evangélicos, o livro foi uma reafirmação eficaz da teologia tradicional
adventista, ainda que alguns ensinos tenham sido expressos de forma
diferente da maneira como eram feitos no passado.
Esta verdade não foi vista apenas pelos ex-adventistas. Ela também
foi observada por muitos inimigos fundamentalistas da denominação,
tais como Louis B. Talbot e M. R. DeHaan.
DeHaan publicouuma crítica do livro Questions on Doctrine em
março de 1958. Escreveu que havia esperado ansiosamente a publicação
do livro, porque lhe tinha sido assegurado firme e repetidamente que "ele
seria uma reviravolta na posição adventista do sétimo dia e um repúdio
de muitas de suas doutrinas censuráveis". DeHaan continuou a falar de
seu desapontamento quando descobriu que não tinha ocorrido "nenhuma
mudança essencial na posição histórica dos adventistas. [...] O livro não
é um repúdio aos adventistas do sétimo dia a nenhum de seus pontos de
vista anteriores, mas uma reafirmação deles. [...] Não há nenhum
lampejo de que eles tenham tido qualquer intenção de retratar, modificar,
mudar ou repudiar qualquer de suas antigas doutrinas, as quais os
evangélicos sempre consideraram não escriturísticas, falsas e desonrosas
a Deus. É o mesmo erro em uma nova terminologia".59
Embora DeHaan esteja essencialmente correto em sua avaliação,
uma leitura cuidadosa revelará uma mudança teológica - a que se refere à
natureza humana de Cristo. Mas essa mudança está amplamente
escondida no Apêndice das citações de Ellen White e não teria estado
evidente especialmente para um leitor evangélico.
Por outro lado, tanto Jones quanto DeHaan perceberam o que havia
passado despercebido para Andreasen - que a assim chamada mudança
Questões sobre Doutrina 32
na doutrina da expiação tinha ocorrido na terminologia e não na
substância.
Mas em uma coisa Andreasen, DeHaan e Jones concordavam. É
que o livro Questions on Doctrine foi basicamente uma reafirmação
corajosa e perceptiva da teologia tradicional adventista. Evidentemente,
para Andreasen isso foi bom, enquanto para DeHaan e Jones a
continuidade foi um desastre.
De sua parte, os autores do livro achavam-se bem cientes do fato de
que estavam fazendo uma reafirmação das crenças tradicionais
adventistas. Escreveram em sua introdução que "as respostas constantes
neste volume podem ser consideradas como representando com exatidão
a fé e a crença da Igreja Adventista do Sétimo Dia".60
Estamos agora a ponto de chegar à primeira conclusão teológica
sobre o livro Questions on Doctrine: Que o livro é quase inteiramente
constituído de claras reafirmações da teologia tradicional adventista.
Essas reafirmações foram redigidas de tal maneira que o livro per-
manece fiel às crenças adventistas e, ao mesmo tempo, fala em uma
linguagem que os de fora do adventismo possam compreender mais
facilmente. A única exceção a essa generalização tem que ver com a
natureza humana de Cristo, na qual a forma de explicá-la representa uma
mudança substancial na compreensão adventista. Por outro lado, a
suposta mudança de posição sobre a expiação foi reconhecida por todos
os principais envolvidos, exceto Andreasen, como sendo uma questão de
redação (ver as declarações extensas sobre a expiação na parte histórica
desta introdução). E, como ficará claro, o próprio Andreasen havia usado
terminologia similar à do livro Questions on Doctrine ao discutir os
vários aspectos da expiação.
Deve ser observado que os autores de Questões Sobre Doutrina
estavam bem cientes da necessidade de fazer ajustes na terminologia se
quisessem se comunicar genuinamente com os parceiros evangélicos.
Assim, na introdução do livro, eles escreveram que seu "alvo era
Questões sobre Doutrina 33
apresentar nossas crenças básicas na terminologia corrente nos círculos
teológicos".61 Em outras palavras, sabiam que não estavam escrevendo
essencialmente para adventistas e, por isso, teriam que apresentar as
doutrinas adventistas em um vocabulário e com definições facilmente
compreensíveis aos evangélicos para os quais estavam escrevendo.
A melhor maneira de captar o fato de que Questões Sobre Doutrina
é tradicional em sua apresentação da doutrina adventista é ler o livro. Ele
está longe de ser uma capitulação aos evangélicos para ganhar seu
reconhecimento. Representa uma total rejeição da compreensão
dispensacionalista de Barnhouse e Martin acerca da segunda vinda e do
concerto, enquanto é uma corajosa declaração da posição adventista
sobre tópicos controvertidos, como o sábado, a marca da besta, Daniel 8,
o Juízo Investigativo, o Estado dos Mortos, o Inferno, Babilônia, o
Remanescente e outros assuntos que eram ofensivos à comunidade
evangélica.
O presidente da Associação Geral estava correto quando observou
que, embora Questões Sobre Doutrina utilizasse em certos tópicos uma
linguagem familiar aos evangélicos, "não há nenhuma tentativa de
encobrir nossos ensinos ou comprometê-los".62 O tratamento franco de
assuntos controvertidos é ainda mais notável quando consideramos que o
livro havia sido escrito para o benefício de alguns indivíduos bastante
preconceituosos, a fim de demonstrar que a denominação era realmente
um corpo cristão, em vez de uma seita.
Esse mesmo padrão não comprometedor em favor das doutrinas
distintivas do adventismo é encontrado nos artigos da revista Ministry de
1960-1961, respondendo ao livro The Truth About Seventh-day
Adventism, de Martin, e que foram publicados como Debates
Doutrinários. Parece que a última coisa na mente daqueles que conduzi-
ram a publicação do livro Questões Sobre Doutrina era trair os principais
ensinos da denominação adventista do sétimo dia. Em vez disso,
propuseram-se a explicar o adventismo e chegar à unidade com os
Questões sobre Doutrina 34
evangélicos onde quer que isso fosse possível, sem comprometer as
crenças distintivas da denominação.
Naturalmente, Questões Sobre Doutrina não está livre de erros. Os
autores às vezes forçam um pouco mais os fatos em tais questões como a
compreensão histórica do adventismo em relação à Trindade, e mesmo
apresentam seus dados de maneira a criar uma falsa impressão sobre a
natureza humana de Cristo. Mas, tendo em vista o desejo de agradar e a
importância das respostas, o livro todo é uma declaração notavelmente
corajosa da compreensão doutrinária tradicional adventista.
Um segundo ponto teológico importante a ser observado é que
―Questões Sobre Doutrina‖ não foi escrito para ser uma declaração bem
equilibrada da crença adventista. Ao contrário, o conteúdo foi
desenvolvido para responder certas questões apresentadas por Martin e
seus associados. Como resultado, os autores anunciaram em sua
introdução que "isto não deve constituir nova declaração de fé, mas antes
uma resposta a perguntas específicas concernentes à nossa fé".63
Dessa forma, para que os leitores compreendam adequadamente
as respostas às perguntas, é necessário que compreendam as perguntas, e,
se quiserem entender adequadamente as perguntas, deverão possuir
alguma ideia das crenças gerais evangélicas e especificamente da
teologia dispensacionalista daqueles que indagaram.
Martin, Barnhouse e seus associados pertenciam à ala conservadora
do movimento evangélico norte-americano. Imprescindíveis para a
ortodoxia evangélica eram a centralidade da Bíblia como a Palavra de
Deus e como único padrão para a formação doutrinária, a crença na
Trindade e na plena Divindade de Cristo, o fato de que a morte
substituinte de Cristo na Cruz é a resposta para o problema do pecado e o
fato de que a Salvação é resultado da graça de Deus aceita através da fé.
Estas eram as crenças não negociáveis, conforme os evangélicos
conservadores dos anos de 1950 viam as coisas.
Questões sobre Doutrina 35
Porém, mais especificamente, e igualmente importante para
compreender muitas das questões formuladas por Barnhouse e Martin, é
que eles pertenciam à ala calvinista/dispensacionalista do movimento
evangélico.64O Dispensacionalismo deriva o seu nome do fato de que
os seus proponentes dividem a história mundial em várias dispensações
(normalmente sete) ou períodos de tempo, em cada uma das quais Deus
supostamente lida de maneira diferente com a humanidade. Duas dessas
dispensações correspondem à era da lei (de Moisés até a morte de Cristo)
e à era da igreja, durante a qual a graça é essencial. Assim, há uma
Dispensação da lei e uma Dispensação da graça. Esse esquema levou
muitos dispensacionalistas a crer que a lei foi abolida na cruz.
A era da igreja chegará ao fim, defendem os dispensacionalistas,
quando Cristo retornar para começar a era milenial. O dispensacio-
nalismo difere do pré-milenismo clássico (a posição sustentada pelos
adventistas) no que assegura que a segunda vinda de Cristo ocorrerá em
dois estágios. O primeiro estágio será num arrebatamento secreto
invisível dos verdadeiros crentes. Esse evento finalizará a era da igreja e
o chamado grande "parêntese" profético.
A teoria do parêntese sustenta que a era da igreja representa uma
brecha de dois mil anos entre a sexagésima nona e a septuagésima
semana de Daniel 9. A sexagésima nona semana terminou quando Cristo
morreu na cruz. Nesse ponto, os dispensacionalistas argumentam, o
cumprimento parou até o arrebatamento secreto, quando Cristo vier para
os Seus santos e levá-los para o Céu. Então, seguirá a septuagésima
semana ou o tempo da grande tribulação. Durante sete anos (a
septuagésima semana de anos) de tribulação, o anticristo reinará e os
judeus serão convertidos. A tribulação termina com a Batalha do
Armagedom, inteiramente literal, e a vinda de Cristo com os Seus santos
gentios.
Nesse ponto da história, o anticristo e suas forças serão destruídos.
Então, com a septuagésima semana de Daniel completada, o Messias
Questões sobre Doutrina 36
restaurará o trono de Davi e a era milenial começará. Escreve Timothy P.
Weber: "Uma vez que todas as profecias antigas concernentes a Israel
devem ser cumpridas literalmente, o milênio será um reino judaico,
completado com um templo restaurado, sacrifícios diários de sangue, e
um poderoso Rei Jesus reinando a partir de Jerusalém e exercendo a
hegemonia judaica sobre o resto do mundo. Assim, todas as profecias
originalmente prometidas para o primeiro advento de Cristo (antes que a
rejeição de Israel tivesse forçado o seu adiamento) se cumprirão na
segunda vinda."65
Tendo em mente essa compreensão do movimento evangélico, é
fácil ver a razão pela qual a Pergunta 2 lidava com a Bíblia como "a
única regra infalível de fé e prática",66 as Perguntas 4 a 8 lidavam com
Cristo e a Trindade, as Perguntas 10 a 14 com a Salvação e o Legalismo,
e as Perguntas 29 a 36 tratavam do assunto da Expiação. As respostas
tinham como alvo espectadores com interesses específicos.
De igual modo, uma compreensão do Dispensacionalismo nos ajuda
a desvendar as implicações daquelas seções que lidam com a Lei e a
Graça, os princípios e as conclusões da interpretação profética adventista
(Perguntas 22-28), e as interpretações adventistas do segundo advento e
do milênio (Perguntas 37-39). Ainda mais especificamente, tais
Perguntas como as de número 26 e 37, com suas referências à septuagé-
sima semana de Daniel 9 e a "Teoria do Intervalo", o Arrebatamento
Secreto, a Tribulação e o Anticristo, obviamente têm como objetivo
comparar a interpretação adventista com a do Dispensacionalismo.
Há outras preocupações originando-se da orientação evangélica/
fundamentalista/ dispensacionalista de Barnhouse e Martin que podem
não ser óbvias, tendo em vista a discussão acima. Uma delas era a
questão de um profeta moderno. Aqueles que têm uma formação
dispensacionalista geralmente sustentam que o dom de profecia finalizou
com a morte dos últimos apóstolos. De fato, a definição fundamentalista
de uma seita religiosa frequentemente inclui a reivindicação do dom de
Questões sobre Doutrina 37
profecia. Assim, escreve um erudito sobre o tópico, "uma 'seita' é um
grupo que tem um 'profeta' fundador chamado por Deus para dar uma
mensagem especial não encontrada na própria Bíblia, geralmente
apocalíptica em natureza e esboçada em escritos 'inspirados' ".67 Com
isso em mente, não é de se admirar que os fundamentalistas
considerassem o adventismo como suspeito ou que os adventistas, de sua
parte, tivessem um desejo de demonstrar que suas visões doutrinárias
eram bíblicas e não baseadas nos escritos de Ellen White.
Uma preocupação final que normalmente não aparece na discussão
evangélica/ dispensacionalista é a natureza humana de Cristo. Como
observamos acima, aqueles teólogos calvinistas com quem os adventistas
estavam lidando nos diálogos evangélicos acreditavam que, se Cristo
tivesse natureza pecaminosa, então necessariamente teria cometido
pecado. E, evidentemente, se Ele era um pecador, não poderia ser um
Salvador. Essa questão não apenas precisava ser respondida, mas
também apresentava aos autores de Questões Sobre Doutrina seus
maiores desafios sobre como lidar com as evidências.
Em conclusão, podemos dizer que quase todo o livro Questões
Sobre Doutrina foi uma clara e vigorosa reafirmação da teologia
tradicional adventista, embora em alguns casos com nova terminologia.
Mas também deve ser reiterado que as reafirmações não visavam tanto
ser uma declaração equilibrada da teologia adventista como prover
respostas às perguntas de um grupo particular de protestantes
conservadores que tinham preocupações bem específicas sobre o
adventismo. Ninguém pode ler o livro inteligentemente, no sentido mais
pleno da palavra, sem compreender as preocupações que deram origem a
perguntas específicas e a respostas igualmente específicas.
Antes de terminar, é necessário mencionar uma singularidade
metodológica encontrada no livro. Mais especificamente, nas perguntas
12, 13 e 44 (sobre a perpetuidade da lei e a imortalidade condicional)
encontramos os autores do livro Questões Sobre Doutrina amontoando
Questões sobre Doutrina 38
grande número de citações de outros cristãos que basicamente sustentam
a interpretação adventista da lei e do estado dos mortos. Isso não foi feito
para provar o ponto teológico, mas para indicar que outros cristãos
haviam mantido essas posições através dos séculos. Ambos os lados no
diálogo concordavam que esse ponto poderia ser demonstrado apenas a
partir da Bíblia. A lógica é que, se aquelas pessoas bem-aceitas sustenta-
vam essas concepções e ainda eram consideradas ortodoxas, então não
havia razão para que os adventistas também não pudessem ser considera-
dos ortodoxos, mesmo que os delegados evangélicos não aceitassem a
sua posição.
Os delegados adventistas durante os diálogos evangélicos de 1955-
1956 elaboraram o que consideravam ser respostas úteis às perguntas
que tinham sido formuladas para eles.
Finalmente, concluíram que as explanações que haviam sido
proveitosas para os evangélicos seriam igualmente benéficas para os
membros da Igreja Adventista. Como resultado, decidiram publicar o
livro Questions on Doctrine. Notaram que, "conquanto o formato da obra
[perguntas e respostas] seja algo incomum em nosso meio, confiamos
que venha satisfazer uma necessidade definida".68 Essa mesma esperança
proveu o motivo racional aos editores para publicarem esta edição
anotada de uma obra clássica adventista.
Referências
1. T.E.Unruh, "The Seventh-day Adventist Evangelical Conferences of 1955-
1956", Adventist Heritage, v.4, n°2, 1977, p. 35.
2. Ibid., p. 36; Donald Grey Barnhouse, "Spiritual Discernment, or How to
Read Religious Books", Eternity, junho de 1950, p. 9,42-44; ver também Juhyeok
Nam,capítulo 2 de "Reactions to the Seventh-day Adventist Evangelical
Conferences and Questions on Doctrine, 1955-1971" (dissertação de Ph.D, Andrews
University, 2005).
3. "Peace with the Adventists", Time, 31 de dezembro de 1956, p. 48-49;
Donald Grey Barnhouse, "Are Seventh-day Adventists Christians? Another Look at
Questões sobre Doutrina 39
Seventh-day Adventism", Eternity, setembro de 1956, p. 6; Nam, capítulo 2 de
"Reactions to the Seventh-day Adventist Evangelical Conferences and Questions on
Doctrine, 1955-1971" (dissertação de Ph.D, Andrews University, 2005).
4. Unruh, "Conferences of 1955-1956", p. 36, 37.
5. Ibid.
6. Barnhouse, "Are Seventh-day Adventists Christians?", p. 6.
7. Walter R. Martin, "Seventh-day Adventism Today". Our Hope, novembro
de 1956, p. 275.
8. Barnhouse, "Are Seventh-day Adventists Christians?", p. 6.
9. Ellen G. White, "Without Excuse", Review and Herald, 24 de setembro de
1901, p. 615; Ellen G. White, "The Only True Mediator", Signs of the Times, 28 de
junho de 1899, p. 1. Essas declarações também são encontradas em Questions on
Doctrine (edição de 1957), p. 663.
10. L.E.Froom para R.R.Figuhr, 10 de maio de 1955; W. H. Branson, Drama of
the Ages (Nashville; Southern Publishing Associatíon, 1950), p. 81, 101. As seções
corrigidas dizem: "nossa carne" e "agora é natureza real". Ver Drama of the Ages
(Southern Publishing Association, 1953), p. 69, 89; ver também Nam, capítulo 2 de
"Reactions to the Seventh-day Adventist Evangelical Conferences and Questions on
Doctrine, 1955-1971" (dissertação de Ph.D., Andrews University, 2005).
11. Barnhouse, "Are Seventh-day Adventists Christians?", p. 6. As palavras
"extremidade lunática" e outras ideias nessa citação quase certamente vieram dos
delegados adventistas. Unruh mais tarde escreveu que "em agosto de 1956, Russell
Hitt, o editor-chete da revista Eternity, veio a Washington para revisar conosco o
artigo longamente esperado de Barnhouse repudiando a sua antiga posição sobre o
adventismo. Artigos em apoio do Dr. Martin, a serem publicados na revista Eternity,
também foram revisados. Foi-nos dada permissão para citar ou, de outra forma,
referir-nos a esses artigos" (Unruh, "Conferences of 1955-1956". p. 42). Além dessa
declaração positiva de um dos participantes adventistas, em nenhum outro lugar
encontramos os líderes adventistas argumentando que a linguagem não foi sua,
embora Andreasen a houvesse reivindicado como sua em Letters to the Churches (p.
15).
12. Ver, por exemplo, Ellen G White. "The Importance of Obedience", Review
and Herald, 15 de dezembro de 1896, p. 789; Ellen G.White,"Christs Humiliation",
The Youths Instructor, 20 de dezembro de 1900, p. 394. Ambas as declarações são
encontradas na nota ampliada da página 652 do livro Questions on Doctrine. O
Instituto Bíblico de Pesquisa da Associação Geral procurou corrigir a injustiça do
Questões sobre Doutrina 40
enganoso título em 1972, ao mudá-lo de "Assumiu a Natureza Humana Sem Pecado"
para "Ao Tomar a Natureza Humana Cristo Não Participou de seu Pecado nem
Propensão Para o Mal". Essa mudança foi publicada como parte de um suplemento
de 12 páginas na edição de fevereiro da revista Ministry. Em essência, o suplemento
foi uma edição revisada e mais acurada do Apêndice B do livro Questions on
Doctrine. Ele foi reproduzido nas páginas 453-467 [do livro, ou após Apêndice B].
13. L. E. Froom para R. R. Figuhr, 26 de abril de 1955.
14. Oliver R. Barclay, citado em Timothy Dudley-Smith, John Stott: The
Making of a Leader (Downers Grove: InterVarsity, 1999), p. 335.
15. Walter A. Elwell, ed., Evangelical Dictionary of Theology (Grand Rapids:
Baker, 1984), verbete "Barnhouse, Donald Grey", por W. C. Ringenberg; Daniel G.
Reid, ed., Dictionary of Chiristianity in America (Downers Grove: InterVarsity,
1990), verbete "Barnhouse, Donald Grey", por J. A Carpenter.
16. Barnhouse, "Are Seventh-day Adventists Christians?", p. 7.
17. Ibid., p. 45; Unruh, "Conferences of 1955-1956", p. 44.
18. "Peace with the Adventists", Time, 31 de dezembro de 1956, p. 48. 49.
19. R. R. Figuhr, "A Non-Adventist Examines Our Beliefs", Review and
Herald, 13 de dezembro de 1956, p. 3.
20. LeRoy Edwin Froom, "The Priestly Application of the Atoning Act",
Ministry, fevereiro de 1957, p. 10.
21. M. L. Andreasen,"The Atonement", documento mimeografado de 15 de
fevereiro de 1957. Em "A Review and Protest", documento mimeografado de 15 de
outubro de 1957, Andreasen faz suas acusações contra Froom de forma ainda mais
explícita.
22. Froom, "The Priestly Application", p. 9.
23. Ibid., 10; Seventh-day Adventists Answer Questions on Doctrine
(Washington, DC: Review and Herald, 1957), p. 349-355. Ver também as anotações
ampliadas para esse capítulo.
24. E. G. White, "Without Excuse", p. 615; E. G. White, "The Only True
Mediator", p. 1. Essas declarações também são encontradas em Questions on
Doctrine, p. 663.
25. M. L. Andreasen, The Book of Hehrews (Washington, DC: Review and
Herald, 1948), p. 53, 59; M. L. Andreasen, "The Atonement V", documento
mimeografado de 2 de dezembro de 1957.
26. Andreasen, Hebrews, p. 59, 60, cf. p. 58.
Questões sobre Doutrina 41
27. M.L.Andreasen, The Sanctuary Service, 2a ed. rev. (Washington, DC:
Review and Herald, 1947), p. 299-321, ou O Ritual do Santuário, 3a ed. (Santo
André: Casa Publicadora Brasileira, 1983), p. 253-257. Para uma crítica
contextualizada da teologia de Andreasen e da crise sobre o livro Questions on
Doctrine, ver George R. Knight, Em Busca de Indentidade: O Desenvolvimento das
Doutrinas Adventistas do Sétimo Dia (Tatui: Casa Publicadora Brasileira, 2005), p.
148-156, 170-178.
28. Para uma crítica do assunto da natureza humana de Cristo, ver as anotações
ampliadas das páginas 437-445 [após Apêndice B], 277, 278.
29. M. L. Andreasen para R. R. Figuhr, 11 de março efe 1957.
30. M. L. Andreasen para R. R. Figuhr, 21 de junho de 1957.
31. M. L.Andreasen para R. R. Figuhr, 4 de julho de 1957.
32. Louise C. Kleuser, "Adventism's New Milestone", Ministry, abril de 1957,
p. 31.
33. R. A. Anderson, "Seventh-day Adventists Answer Questions on Doctrine",
Ministry, junho de 1957,p.24.
34. M. L.Andreasen para R. R. Figuhr, 12 de setembro de 1957; M. L.
Andreasen. "A Review and Protest", documento mimeografado de 15 de outubro de
1957.
35. M. L.Andreasen, "The Atonement", documento mimeografado de 4 de
novembro de 1957; ver também R. R. Figuhr para M. L.Andreasen, 14 de novembro
de 1957.
36. M. L.Andreasen para R. R. Figuhr, 3 de dezembro de 1957.
37. R. R. Figuhr para os presidentes de uniões, 6 de dezembro de 1957; R. R.
Figuhr para os irmãos, 27 de dezembro de 1957; R. R. Figuhr. "The Pillars of Our
Faith Unmoved". Review and Herald. 24 de abril de 1958, p. 6.
38. LeRoy Edwin Froom. Movement of Destiny (Washington, DC: Review and
Herald, 1971), p. 489,492.
39. R. R. Figuhr para M. L.Andreasen, 16 de dezembro de 1957.
40. M.L.Andreasen para R. R. Figuhr, 9 de março de 1958.
41. M.L.Andreasen, Letters to the Churches (Baker: Hudson Printing, cerca de
1959), p. 18.
42. Donald Grey Barnhouse, "Foreword", em Walter R. Martin, The Truth
About Seventh-day Adventism ((Irand Rapids: Zondervan, 1960), p. 7.
43. H.W. Lowe,"A Statement", em Ibid., p. 15.
44. Ibid.
Questões sobre Doutrina 42
45. Doctrinal Discussions: A Compilation of Articles Originally Appearing in
The Ministry, June, 1960-July, 1961, em Answer to Walter R.Martin's Book The
Truth About Seventh-day Adventism (Washington, DC: Review and Herald, [cerca
de 1961]).46. Norman F. Douty, Another Look at Seventh-day Adventism: With Special
Reference to Questions on Doctrine (Grand Rapids: Baker, 1962); Herbert S. Bird.
Theology of Seventh-day Adventism (Grand Rapids: Eerdmans, 1961), p. 130.
47. "Suspension of Credentials of M. L.Andreasen", um relatório não
publicado de uma ação de 6 de abril de 1961, tomada pelo Concílio Primaveril da
Associação Geral, W R. Beach para M. L.Andreasen, 14 de abril de 1961; M. L.
Andreasen, "Shooting the Watchdog", documento mimeografado de 19 de janeiro de
1962.
48. General Conference Orficers Minutes, 26 de fevereiro de 1962; General
Conference Committee Minutes. Io de março de 1962; R. R. Figuhr para a Sra. M.
L.Andreasen, 22 de fevereiro de 1962.
49. Sra. M. L.Andreasen para R. R. Figuhr, 27 de fevereiro de 1962; ver
também Sra. M. L. Andreasen para R. R. Figuhr, [abril de 1963].
50. General Conference Committee Minutes, Io de março de 1962; Sra. M.
L.Andreasen para W. P. Bradley, 4 de dezembro de 1962.
51.Donald Grey Barnhouse, "Postcript on Seventh-day Adventism", Eternity,
novembro de 1957, p. 22 (itálicos supridos).
52. Barnhouse, "Are Seventh-day Adventists Christians?", p. 7.
53. M. L.Andreasen, "The Atonement", documento mimeografado de 4 de
novembro de 1957 (itálicos supridos); ver também R. R. Figuhr para M.
L.Andreasen, 14 de novembro de 1957.
54. Carta para o editor, The Kings Business, abril de 1957,p. 2.
55. E. B. Jones, carta circular para os "Queridos Amigos em Cristo", 10 de
dezembro de 1957.
56. Ibid.
57. Ibid.
58. Ibid.
59. M. R. DeHaan, "Questions ou Doctrine", The Kings Business, março de
1958, p. 19.
60. Questions on Doctrine, p. 9.
61. Ibid., p. 8.
62. R. R. Figuhr para M. L. Netf. 14 de janeiro de 1958.
Questões sobre Doutrina 43
63. Questions on Doctrine, p. 8.
64. Para uma discussão proveitosa do dispensacionalismo, verTimothy P.
Weber, Liuing in the Shadow of the Second Corning, edição ampliada (Grand
Rapids: Zondervan, 1983); Ernest R. Sandeen, The Roots of Fundamentalism: British
and American Millenarianism, 1800-1930 (Grand Rapids: Baker, 1978).
65. Weber, Living in the Shadow, p. 23.
66. Questions on Doctrine, p. 26.
67. Ruth A. Tucker, Another Gospel: Alternativo Religion and the New Age
Movement (Grand Rapids: Zondervan, 1989), p. 16.
68. Questions on Doctrine, p. 8.
Questões sobre Doutrina 44
Introdução à Edição Original
Este livro veio à existência para satisfazer uma necessidade
definida. O interesse concernente à crença e obra adventista do sétimo
dia tem aumentado à medida que o movimento se tem desenvolvido.
Contudo, de modo especial em anos recentes, parece haver um desejo da
parte de muitos não-adventistas de terem uma compreensão mais clara
de nossos ensinos e objetivos. A incerteza com relação às nossas crenças
básicas torna-se fartamente evidente em muita literatura publicada a
nosso respeito. Há muitos livros que pretendem apresentar a história
deste povo.
Recentemente, entretanto, uma das grandes editoras protestantes
nos Estados Unidos planejou a produção de ainda outro livro. Um autor
de várias obras que tratam da história e crenças de certos grupos
religiosos foi solicitado a preparar este livro, cujo propósito seria
apresentar um panorama geral de nossa história e crença. Devia ser uma
análise objetiva, com ênfase especial nos pontos em que o ensino
adventista difere do de outros grupos cristãos.
Para ser realista em sua abordagem, esse autor fez o que outros em
geral deixaram de fazer: visitou nossa sede denominacional em
Washington, DC, onde obteve informações de primeira mão. Além disso,
não apenas nos fez uma visita, mas, em companhia de outros eruditos,
realizou uma porção de viagens à Associação Geral abrangendo um
período de quase dois anos. Centenas de horas foram dedicadas a esta
pesquisa, e foram examinados centenas de livros e folhetos, tanto
adventistas como não-adventistas. Além disso, houve grande número de
entrevistas. Durante muitos meses de estudo, os principais aspectos do
ensino adventista foram cuidadosamente analisados. As indagações que
se originaram dessa investigação foram por fim enunciadas em uma série
de perguntas para as quais foram solicitadas respostas bem claras.
Questões sobre Doutrina 45
As respostas foram preparadas por um grupo de dirigentes
credenciados, em consulta com professores de Bíblia, editores e
administradores. O alvo era apresentar nossas crenças básicas na
terminologia corrente nos círculos teológicos. O material não deveria
constituir nova declaração de fé, mas sim uma resposta a perguntas
específicas concernentes à nossa fé. Era natural que estas respostas
fossem provenientes da estrutura da declaração oficial das crenças
fundamentais dos adventistas do sétimo dia, que aparece em nosso
Manual da Igreja e se acha incluída neste volume (ver páginas 35-47). A
vista deste fato, estas respostas representam a posição de nossa
denominação quanto à doutrina da igreja e à interpretação profética.
A medida que prosseguia o trabalho das respostas, sentiu-se que os
membros de nossa igreja seriam igualmente beneficiados pelo material
que estava sendo preparado; e, portanto, decidiu-se publicar o trabalho
completo em forma de livro. Desse modo, este volume veio à existência.
Embora este tipo de obra seja incomum em nosso meio, cremos que
satisfaça uma necessidade definida.
Os escritores, conselheiros e editores que produziram as respostas a
estas perguntas trabalharam conscienciosamente para declarar com
exatidão as crenças dos adventistas do sétimo dia. Devido, porém, à
própria natureza da organização da Igreja Adventista do Sétimo Dia,
nenhuma declaração sobre a crença adventista pode ser considerada
oficial a menos que seja adotada pela Associação Geral em assembleia
quinquenal, estando presentes delegados dos campos de todo o mundo.
As respostas constantes neste volume podem ser consideradas como
representando com exatidão a fé e a crença da Igreja Adventista do
Sétimo Dia.
Os que prepararam as respostas não pretendem ter dito a última
palavra sobre doutrina cristã. Os adventistas do sétimo dia crêem que o
conhecimento humano da verdade divina é progressivo. "A vereda aos
justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia
Questões sobre Doutrina 46
perfeito" (Pv 4:18). Certamente devíamos saber mais sobre a vontade e o
propósito de Deus do que os justos de épocas passadas, e no futuro
devemos, justificadamente, esperar maior desdobramento da verdade
bíblica.
Conquanto aceitemos a Bíblia e exclusivamente a Bíblia como
nossa regra de fé e prática, reconhecemos claramente que não
entendemos com perfeição toda a verdade que Deus desejaria que Seus
filhos conhecessem hoje. Tampouco pretendemos tal conhecimento.
Honramos a nobre linha de testemunhas como Wycliffe, Lutero,Tyndale,
Calvino, Knox, Wesley e outros grandes líderes do passado, cujo
conhecimento trouxe nova luz e levou a igreja a prosperar em sua mais
plena compreensão da vontade de Deus. E cremos que Deus tem dado
luz especial nestes últimos dias que está além da luz evangélica
percebida pelos líderes cristãos de antigamente.
Em harmonia com a recomendação apostólica de estar "sempre
preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da
esperança que há em vós" (1Pe 3:15), procuramos aqui dar razões da
nossa fé. Convidamos nossos amigos cristãos a examinarem as respostas
à luz da Palavra de Deus.
Os oficiais da Associação Geral dos Adventistasdo Sétimo Dia
julgaram que o conteúdo deste volume não seria apenas útil aos
membros de nossa igreja, mas que forneceriam informações fidedignas
sobre as doutrinas adventistas. Solicitaram, portanto, que o livro fosse
publicado para uso geral com oração fervorosa e esperança de que possa
ser útil em esclarecer o caminho da salvação por meio de nosso Senhor
Jesus Cristo.
Os Editores
Questões sobre Doutrina 47
Crenças Fundamentais
dos Adventistas do Sétimo Dia1
Os adventistas do sétimo dia mantêm certas crenças fundamentais
cujos principais aspectos, juntamente com uma porção das referências
das Escrituras sobre as quais se baseiam, podem ser resumidas assim:
1. As Santas Escrituras do Antigo e Novo Testamentos foram dadas
por inspiração de Deus, encerram uma revelação todo-suficiente de Sua
vontade aos homens e são a única regra infalível de fé e prática (2Tm
3:15-17).
2. A Divindade, ou Trindade, consiste do Pai Eterno, ser pessoal,
espiritual, onipotente, onipresente, onisciente, infinito em sabedoria e
amor; do Senhor Jesus Cristo, Filho do Pai Eterno, por quem todas as
coisas foram criadas e por quem se realizará a salvação dos remidos; e
do Espírito Santo, terceira pessoa da Divindade, o grande poder
regenerador na obra da redenção (Mt 28:19).
3. Jesus Cristo é o próprio Deus, sendo da mesma natureza e
essência que o Pai Eterno. Conservando Sua natureza divina, tomou
sobre Si a natureza da família humana, vivendo na Terra como homem;
exemplificou em Sua vida, como nosso modelo, os princípios da justiça;
testificou Sua filiação divina por muitos poderosos milagres; morreu na
cruz por nossos pecados; foi ressuscitado dos mortos; e ascendeu para
junto do Pai, onde vive para sempre para fazer intercessão por nós (Jo
1:1, 14; Hb 2:9-18; 8:1, 2; 4:14-16; 7:25).
4. Toda pessoa, para obter salvação, tem de passar pela experiência
do novo nascimento; isso compreende a inteira transformação da vida e
do caráter pelo poder remador de Deus mediante a fé no Senhor Jesus
Cristo (Jo 3:16; Mt 18:3; At 2:37-39).
5. O batismo é uma ordenança da igreja cristã e deve seguir ao
arrependimento e perdão dos pecados. Por sua observância demonstra-se
Questões sobre Doutrina 48
a fé na morte, sepultamento e ressurreição de Cristo. A verdadeira forma
do batismo é a imersão (Rm 6:1-6; At 16:30-33).
6. A vontade de Deus relativamente à conduta moral se acha
compreendida na lei dos Dez Mandamentos, que são grandes preceitos
morais, imutáveis, obrigatórios a todos os homens, em todas as épocas
(Ex 20:1-17).
7. O quarto mandamento desta lei imutável requer a observância do
sábado do sétimo dia. Esta santa instituição é ao mesmo tempo um
memorial da criação e um sinal de santificação, símbolo do descanso do
crente de suas obras de pecado e sua entrada no repouso que Jesus
promete aos que se chegam a Ele (Gn 2:1-3; Ex 20:8-11; 31:12-17; Hb
4:1-10).
8. A lei dos Dez Mandamentos revela o pecado, cuja penalidade é a
morte. A lei não pode salvar do pecado o transgressor, nem lhe comuni-
car poder que o guarde de pecar. Com infinito amor e misericórdia, Deus
provê um meio pelo qual isso se torna possível. Apresenta um substituto,
o próprio Cristo, o justo, para morrer em lugar do homem - "Aquele que
não conheceu pecado. Ele O fez pecado por nós; para que, nEle,
fôssemos feitos justiça de Deus" (2Co 5:21). O ser humano é justificado
não pela obediência à lei, mas pela graça que há em Cristo Jesus.
Aceitando a Cristo, ele é reconciliado com Deus, justificado por Seu
sangue quanto aos pecados cometidos no passado e salvo do poder do
pecado pela permanência de Sua vida nele. Assim o evangelho se torna
"o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê" (Rm 1:16).
Este processo é efetuado pela agência divina do Espírito Santo, o qual
convence o homem do pecado e o conduz Aquele que levou sobre Si os
pecados, introduzindo o crente na comunhão do novo concerto, sob o
qual a lei de Deus lhe é escrita no coração. Pelo poder que lhe comunica
o Cristo que nele habita, sua vida é posta em conformidade com os
preceitos divinos. A honra e o mérito dessa maravilhosa transformação
Questões sobre Doutrina 49
pertencem inteiramente a Cristo (1Jo 2:1, 2; 3:4; Rm 3:20; 5:8-10; 7:7;
Et 2:8-10; 3:17; Gl 2:20; Hb 8:8-12).
9. Deus é "o único que possui imortalidade" (1Tm 6:16). O homem
é mortal, possuindo natureza inerentemente pecaminosa e sujeita à
morte. A vida eterna é o dom de Deus mediante a fé em Cristo (Rm
6:23). "Aquele que tem o Filho tem a vida" (1Jo 5:12). A imortalidade é
concedida aos justos por ocasião da segunda vinda de Cristo, quando os
justos mortos ressuscitam e os justos vivos são arrebatados para encon-
trarem o Senhor. Então, os que forem considerados fiéis serão "revesti-
dos da imortalidade" (1Co 15:51-55).
10. O estado do homem na morte é de inconsciência.Todos os
homens, tanto bons como maus, permanecem no túmulo desde a morte
até a ressurreição (Ec 9:5, 6; Sl 146:3,4; Jo 5:28,29).
11. Haverá ressurreição tanto dos justos como dos injustos. A
ressurreição dos justos se dará por ocasião da segunda vinda de Cristo; a
dos injustos, mil anos mais tarde, no fim do milênio (Jo 5:28,29; 1Ts
4:l3-18; Ap 20:5-10).
12. Os que até o fim forem impenitentes, inclusive Satanás, o autor
do pecado, serão, pelos fogos do último dia, reduzidos ao estado de não-
existência, tornando-se como se não houvessem sido, sendo assim o
Universo de Deus purificado do pecado e pecadores (Rm 6:23: Ml 4:1-3;
Ap 20:9, 10; Ob 16).
13. A Bíblia não apresenta nenhum período profético que alcance o
segundo advento; o período mais longo (os 2.300 dias de Daniel 8:14)
terminou em 1844, levando-nos ao acontecimento denominado purifica-
ção do santuário.
14. O verdadeiro santuário, do qual o tabernáculo terrestre era tipo,
é o templo de Deus no Céu, do qual fala Paulo em Hebreus 8 e em outras
passagens, e do qual o Senhor Jesus é ministro, como nosso grande
Sumo Sacerdote. A obra sacerdotal de nosso Senhor é o antítipo da obra
dos sacerdotes judeus da antiga dispensação. Esse santuário celeste é o
Questões sobre Doutrina 50
que deve ser purificado no fim dos 2.300 dias de que fala Daniel 8:14.
Assim como no tipo, trata-se de uma obra de julgamento, a qual começa
com a entrada de Cristo como Sumo Sacerdote na tase judiciária de Seu
ministério no santuário celestial, simbolizado no serviço terrestre da
purificação do santuário pelo dia da expiação. Esta obra de julgamento
no santuário celestial começou em 1844. Quando terminar, terminado
estará também o tempo de graça para os homens.
15. Deus, no tempo do Julgamento e de acordo com Seu trato
uniforme com a família humana, advertindo os homens quanto aos
acontecimentos vindouros que afetam vitalmente o seu destino (Am 3:6,
7), faz proclamar a aproximação do segundo advento de Cristo. Esta hora
é simbolizada pelos três anjos de Apocalipse 14. Sua tríplice mensagem
expõe uma obra de reforma que prepare um povo para O encontrar
quando Ele vier.
16. O tempo da purificação do santuário, simultâneo com o período
da proclamação da mensagem de Apocalipse 14, é o tempo do juízo
investigativo; primeiro, relativamente aos mortos, e em seguida,
relativamente aos vivos. Este Juízo Investigativo determina quem, dentre
os milhões dos que dormem no pó da terra, é digno de ter parte na
primeira ressurreição, e quem, dentre as multidões dos seres humanos
vivos, é digno de ser trasladado (1Pe 4:17, 18; Dn 7:9,10; Ap 14:6, 7; Lc
20:35).
17. Os seguidores de Cristo devem ser um povopiedoso, não
adotando as regras profanas nem se conformando com os caminhos
injustos do mundo, nem amando seus prazeres pecaminosos nem
abonando as suas loucuras. O crente deve considerar seu corpo templo
do Espírito Santo, devendo, pois, cobrir esse corpo com traje asseado,
modesto e digno. No comer e beber e em todo o seu procedimento, deve
moldar a vida como convém aos seguidores do manso e humilde Mestre.
Assim, o crente será levado a abster-se de todas as bebidas intoxicantes,
Questões sobre Doutrina 51
fumo e outros narcóticos, e a evitar todos os hábitos e práticas nocivos
ao corpo e à mente (1Co 3:16, 17; 9:25; 10:31; 1Tm 2:9,10; 1Jo 2:6).
18. O divino princípio dos dízimos e ofertas para a manutenção do
evangelho é um reconhecimento do direito de propriedade de Deus sobre
nossa vida. Somos mordomos que têm de prestar-Lhe conta de tudo que
Ele confiou à nossa posse (Lv 27:30; Ml 3:8-12; Mt 23:23; 1Co 9:9-14;
1Co 9:6-15).
19. Deus pôs em Sua igreja os dons do Espírito Santo, enumerados
em 1 Coríntios 12 e Efésios 4. Esses dons atuam em harmonia com os
divinos princípios da Bíblia, e são dados para o aperfeiçoamento dos
santos, a obra do ministério, a edificação do corpo de Cristo (Ap 12:17;
19:10; 1Co 1:5-7). O dom do Espírito de Profecia é um dos sinais que
identificam a igreja remanescente (1Co 1:5,7; 12:1,28; Ap 12:17; 19:10;
Am 3:7; Os 12:10,13). Esse dom se manifestou na vida e no ministério
de Ellen G.White.
20. A Segunda Vinda de Cristo é a grande esperança da igreja, o
grande ponto culminante do evangelho e do plano da salvação. Sua vinda
será literal, pessoal e visível. Muitos acontecimentos importantes estarão
associados à Sua volta, tais como a ressurreição dos mortos, a destruição
dos ímpios, a purificação da Terra, a recompensa dos justos e o
estabelecimento de Seu reino eterno. O cumprimento quase completo de
várias profecias, particularmente as que se encontram nos livros de
Daniel e Apocalipse, e as condições existentes no mundo físico, social,
industrial, político e religioso indicam que a vinda de Cristo está
próxima, "às portas" (Mt 24:33). A ocasião exata desse acontecimento
não foi predita. Os crentes são exortados a estar apercebidos, "porque, à
hora em que não cuidais, o Filho do homem virá" (Mt 24:44; Lc 17:26-
30; 21:25-27; Jo 14:1-3; At 1:9-11; Ap 1:7; Hb 9:28; Tg 5:1-8; Jl 3:9-16;
2Tm 3:1-5; Dn 7:27: Mt 24:36. 44).
21. O reino milenar de Cristo cobre o período entre a primeira e
segunda ressurreições, tempo durante o qual os santos de todos os
Questões sobre Doutrina 52
séculos viverão no Céu, com seu bendito Redentor. No fim do Milênio, a
Cidade Santa, com todos os santos, descerá á Terra. Os ímpios,
ressurgidos na segunda ressurreição, se espalharão sobre a Terra, com
Satanás à frente, a fim de sitiar a cidade dos santos, quando descerá fogo
da parte do Deus do Céu e os devorará. Na conflagração que destruirá
Satanás e seus exércitos, a própria Terra será regenerada e purificada dos
efeitos da maldição. Assim, o Universo de Deus será purificado da
horrível mancha do pecado (Ap 20; Zc 14:1-4; 2Pe 3:7-10).
22. Deus renovará todas as coisas. A Terra, restaurada à sua pureza
original, tornar-se-á para sempre a habitação dos santos do Senhor.
Cumprir-se-á, então, a promessa feita a Abraão de que, por Cristo, ele e
sua semente deveriam possuir a Terra através dos séculos da eternidade.
"O reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu
serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será reino
eterno, e todos os domínios O servirão e Lhe obedecerão" (Dn 7:27).
Cristo, o Senhor, reinará supremo, e toda criatura que está no Céu, e na
Terra, e debaixo da Terra, e que está no mar dará "Aquele que está
sentado no trono e ao Cordeiro [...] o louvor, e a honra, e a glória, e o
domínio pelos séculos dos séculos" (Ap 5:13). (Gn 13:14-17; Rm 4:13:
Hb 11:8-16; Mt 5:5; Is 35; Ap 21:1-7; 5:13; Dn 7:27).
Referência
1. Esta declaração das crenças fundamentais foi publicada primeiramente no
Yearbook (anuário) denominacional em 1931. Foi substituída em 1980 pela
declaração das 27 crenças fundamentais adotadas pela assembleia da Associação
Geral desse ano. A declaração mais recente das crenças fundamentais da
denominação, que sofreu um acréscimo em 2005, segue o texto da declaração de
1931.
Questões sobre Doutrina 53
Crenças Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia [2005]
Os adventistas do sétimo dia aceitam a Bíblia como seu único credo e
mantêm certas crenças fundamentais como sendo o ensino das Escrituras
Sagradas. Estas crenças, da maneira em que são apresentadas aqui,
constituem a compreensão e a expressão do ensino das Escrituras por
parte da igreja. Podem ser esperadas revisões destas declarações numa
assembleia da Associação Geral, quando a igreja for levada pelo Espírito
Santo a uma compreensão mais completa da verdade bíblica ou
encontrar linguagem melhor para expressar os ensinos da Santa Palavra
de Deus.
l. As Escrituras Sagradas
As Escrituras Sagradas, o Antigo e Novo Testamentos, são a
Palavra de Deus escrita, dada por inspiração divina, através de santos
homens de Deus que falaram e escreveram ao serem movidos pelo
Espírito Santo. Nesta Palavra, Deus transmitiu ao homem o
conhecimento necessário para a salvação. As Escrituras Sagradas são a
infalível revelação de Sua vontade. Constituem o padrão do caráter, a
prova da experiência, o autorizado revelador de doutrinas e o registro
fidedigno dos atos de Deus na história (2Pe 1:2,21; 2Tm 3:16,17; Sl
119:105; Pv 30:5, 6; Is 8:20; Jo 17:17; 1Ts 2:13; Hb 4:12).
2. A Trindade
Há um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, uma unidade de três
Pessoas co-eternas. Deus é imortal, onipotente, onisciente, acima de tudo
e sempre presente. Ele é infinito e está além da compreensão humana,
mas é conhecido por meio de Sua auto-revela-ção. E para sempre digno
de culto, adoração e serviço por parte de toda a criação (Dt 6:4;Mt 28:19;
2Co 13:13; Ef 4:4-6; 1Pe 1:2; 1Tm l:17; Ap 14:7).
3. O Pai
Questões sobre Doutrina 54
Deus, o Eterno Pai, é o Criador, o Originador, o Mantenedor e o
Soberano de toda a criação. Ele é justo e santo, compassivo e clemente,
tardio em irar-Se, e grande em constante amor e fidelidade. As
qualidades e os poderes manifestados no Filho e no Espírito Santo
também constituem revelações do Pai (Gn l:l; Ap 4:11; 1Co 15:28; Jo
3:16; 1Jo 4:8; 1Tm 1:17; Êx 34:6, 7; Jo 14:9).
4. O Filho
Deus, o Filho Eterno, encarnou-Se em Jesus Cristo. Por meio dEle
foram criadas todas as coisas, é revelado o caráter de Deus, efetuada a
salvação da humanidade e julgado o mundo. Sendo para sempre
verdadeiramente Deus, Ele tornou-Se também verdadeiramente
homem,Jesus, o Cristo. Foi concebido do Espírito Santo e nasceu da
virgem Maria.Viveu e experimentou a tentação como ser humano, mas
exemplificou perfeitamente a justiça e o amor de Deus. Por Seus
milagres manifestou o poder de Deus e atestou que era o Messias
prometido por Deus. Sofreu e morreu voluntariamente na cruz por
nossos pecados e em nosso lugar, foi ressuscitado dentre os mortos e
ascendeu para ministrar em nosso favor no santuário celestial. Virá outra
vez. em glória, para o livramento final de Seu povo e a restauração de
todas as coisas (Jo 1:1-3, 14: Cl l:15-19;Jo 10:30; 14:9; Rm 6:23; 2Co
5:17-19; Jo 5:22; Lc 1:35; Fp 2:5-11; Hb 2:9-18; 1Co 15:3,4; Hb 8:1,2;
Jo 14:1-3).
5. O Espírito Santo
Deus, o Espírito Eterno, desempenhou uma parte ativa com o Pai e
o Filho na Criação, Encarnaçãoe Redenção. Inspirou os escritores das
Escrituras. Encheu de poder a vida de Cristo. Atrai e convence os seres
humanos; e os que se mostram sensíveis são por Ele renovados e
transformados à imagem de Deus. Enviado pelo Pai e pelo Filho para
estar sempre com Seus filhos. Ele concede dons espirituais à igreja, a
Questões sobre Doutrina 55
habilita a dar testemunho de Cristo e, em harmonia com as Escrituras,
guia-a em toda a verdade (Gn 1:1, 2; Lc 1:35; 4:18; At 10:38; 2Pe 1:21;
2Co 3:18; Ef 4:11,12; At 1:8; Jo 14:16-18,26; 15:26,27; 16:7-13).
6. A Criação
Deus é o Criador de todas as coisas e revelou nas Escrituras o relato
autêntico de Sua atividade criadora. "Em seis dias fez o Senhor os céus e
a Terra" e tudo que tem vida sobre a Terra, e descansou no sétimo dia
dessa primeira semana. Assim Ele estabeleceu o sábado como perpétuo
monumento comemorativo de Sua esmerada obra criadora. O primeiro
homem e a primeira mulher foram formados à imagem de Deus como
obra-prima da criação, foi-lhes dado domínio sobre o mundo e atribuiu-
se-lhes a responsabilidade de cuidar dele. Quando o mundo foi
concluído, ele era "muito bom", proclamando a glória de Deus (Gn 1; 2;
Êx 20:8-11; Sl 19:1-6; 33:6, 9; 104; Hb 11:3).
7. A Natureza do Homem
O homem e a mulher foram formados à imagem de Deus, com
individualidade, poder e liberdade de pensar e agir. Conquanto tenham
sido criados como seres livres, cada um é uma unidade indivisível de
corpo, mente e espírito, e dependente de Deus quanto à vida, respiração e
tudo o mais. Quando nossos primeiros pais desobedeceram a Deus, eles
negaram sua dependência dEle e caíram de sua elevada posição abaixo
de Deus. A imagem de Deus neles foi desfigurada, e tornaram-se sujeitos
à morte. Seus descendentes partilham dessa natureza caída e de suas
consequências. Eles nascem com fraquezas e tendências para o mal. Mas
Deus, em Cristo, reconciliou consigo o mundo e por meio de Seu
Espírito restaura nos mortais penitentes a imagem de seu Criador.
Criados para a glória de Deus, eles são chamados para amá-Lo e uns aos
outros, e para cuidar de seu ambiente (Gn 1:26-28; 2:7; Sl 8:4-8; At
Questões sobre Doutrina 56
17:24-28; Gn 3; Sl 51:5; Rm 5:12-17; 2Co 5:19, 20; Sl 51:10; 1Jo 4:7,
8,11, 20; Gn 2:15).
8. O Grande Conflito
Toda a humanidade está agora envolvida num grande conflito entre
Cristo e Satanás quanto ao caráter de Deus, Sua lei e Sua soberania sobre
o Universo. Este conflito originou-se no Céu quando um ser criado,
dotado de liberdade de escolha, por exaltação própria, tornou-se Satanás,
o adversário de Deus, e conduziu à rebelião uma parte dos anjos. Ele
introduziu o espírito de rebelião neste mundo, ao induzir Adão e Eva em
pecado. Este pecado humano resultou na deformação da imagem de
Deus na humanidade, no transtorno do mundo criado e em sua
consequente devastação por ocasião do dilúvio mundial. Observado por
toda a criação, este mundo tornou-se o palco do conflito universal,
dentro do qual será finalmente vindicado o Deus de amor. Para ajudar
Seu povo nesse conflito, Cristo envia o Espírito Santo e os anjos leais,
para os guiar, proteger e amparar no caminho da salvação (Ap 12:4-9; Is
14:12-14; Ez 28:12-18; Gn 3; Rm 1:19-32; 5:12-21; 8:19-22; Gn 6-8;
2Pe 3:6; 1Co 4:9; Hb 1:14).
9. A Vida, a Morte e a Ressurreição de Cristo
Na vida de Cristo, de perfeita obediência à vontade de Deus, e em
Seu sofrimento, morte e ressurreição, Deus proveu o único meio de
expiação do pecado humano, de modo que os que aceitam esta expiação
pela fé possam ter vida eterna, e toda a criação compreenda melhor o
infinito e santo amor do Criador. Esta expiação perfeita vindica a justiça
da lei de Deus e a benignidade de Seu caráter; pois ela não somente
condena o nosso pecado, mas também garante o nosso perdão. A morte
de Cristo é substituinte e expiatória, reconciliadora e transformadora. A
ressurreição de Cristo proclama a vitória de Deus sobre as forças do mal,
e assegura a vitória final sobre o pecado e a morte para os que aceitam a
Questões sobre Doutrina 57
expiação. Ela declara a soberania de Jesus Cristo, diante do qual se
dobrará todo joelho, no Céu e na Terra (Jo 3:16; Is 53; 1Pe 2:21, 22; 1Co
15:3, 4, 20-22; 2Co 5:14, 15,19-21; Rm 1:4; 3:25; 4:25; 8:3, 4; 1Jo
2:2:4:10; Cl 2:15; Fp 2:6-11).
10. A Experiência da Salvação
Em infinito amor e misericórdia, Deus fez com que Cristo, que não
conheceu pecado, Se tornasse pecado por nós, para que nEle fôssemos
feitos justiça de Deus. Guiados pelo Espírito Santo, sentimos nossa
necessidade, reconhecemos nossa pecaminosidade, arrependemo-nos de
nossas transgressões e temos fé em Jesus como Senhor e Cristo, como
Substituto e Exemplo. Esta fé que aceita a salvação advém do divino
poder da Palavra e é o dom da graça de Deus. Por meio de Cristo, somos
justificados, adotados como filhos e filhas de Deus, e libertados do
domínio do pecado. Por meio do Espírito, nascemos de novo e somos
santificados; o Espírito renova nossa mente, escreve a lei de Deus, a lei
de amor, em nosso coração, e recebemos o poder para levar uma vida
santa. Permanecendo nEle, tornamo-nos participantes da natureza divina
e temos a certeza de salvação agora e no Juízo (2Co 5:17-21; Jo 3:16; Gl
1:4; 4:4-7; Tt 3:3-7; Jo 16:8; Gl 3:13, 14; 1Pe 2:21,22; Rm 10:17; Lc
17:5; Mc 9:23, 24; Ef 2:5-10; Rm 3:21-26; Cl 1:13, 14; Rm 8:14-17; Gl
3:26; Jo 3:3-8; 1Pe 1:23; Rm 12:2; Hb 8:7-12; Ez 36:25-27; 2Pe 1:3, 4;
Rm 8:1-4; 5:6-10).
11. Crescimento em Cristo
Por Sua morte na cruz, Jesus triunfou sobre as forças do mal. Tendo
subjugado os espíritos demoníacos durante Seu ministério terrestre,
quebrantou-lhes o poder e garantiu sua condenação final. A vitória de
Jesus nos dá a vitória sobre as forças do mal que ainda procuram
controlar-nos, enquanto caminhamos com Cristo em paz, gozo e na
segurança de Seu amor. Agora, o Espírito Santo mora em nosso interior
Questões sobre Doutrina 58
e nos dá poder. Continuamente consagrados a Jesus como nosso
Salvador e Senhor, somos libertos do fardo de nossas ações passadas.
Não mais vivemos nas trevas, sob o temor dos poderes do mal, da
ignorância e insensatez da nossa antiga maneira de viver. Nesta nova
liberdade em Jesus, somos chamados a crescer à semelhança de Seu
caráter, mantendo comunhão diária com Ele por meio da oração,
alimentando-nos de Sua Palavra, meditando nela e na providência divina,
cantando Suas bênçãos, reunindo-nos para adorá-Lo e participando na
missão da igreja. Ao nos dedicarmos ao serviço amorável em favor dos
que nos rodeiam e ao testemunharmos da salvação de Cristo, a presença
constante do Senhor em nós, por meio do Espírito, transformará cada
momento e cada tarefa em uma experiência espiritual (Sl 1:1,2; 23:4;
77:11,12; Cl 1:13, 14; 2:6,14,15; Lc 10:17-20; Ef 5:19,20; 6:12-18; 1Ts
5:23; 2Pe 2:9; 3:18; 2Co 3:17,18; Fp 3:7-14; 1Ts 5:16-18; Mt 20:25-28;
Jo 20:21; Gl 5:22-25; Rm 8:38, 39; 1Jo 4:4; Hb 10:25).
12. A Igreja
A igreja é a comunidade de crentes que confessam a Jesus Cristo
como Senhor e Salvador. Em continuidade do povo de Deus nos tempos
do Antigo Testamento, somos chamados para fora do mundo; e nos
unimos para prestar culto, para comunhão, para instrução na Palavra,
para a celebração da Ceia do Senhor, para serviço a toda a humanidade, e
para a proclamação mundial do evangelho. A igreja recebe sua autori-
dade de Cristo, o qual é a Palavra encarnada, e das Escrituras, que são a
Palavra escrita. A igreja é a família de Deus; adotados por Ele como
filhos, seus membros vivem com base no novo concerto.A igreja é o
corpo de Cristo, uma comunidade de fé, da qual o próprio Cristo é a
Cabeça. A igreja é a noiva pela qual Cristo morreu para que pudesse
santificá-la e purificá-la. Em Sua volta triunfal, Ele a apresentará a Si
mesmo igreja gloriosa, os fiéis de todos os séculos, a aquisição de Seu
sangue, sem mácula, nem ruga, porém santa e sem defeito (Gn 12:3; At
Questões sobre Doutrina 59
7:38; Ef 4:11-15; 3:8-11; Mt 28:19, 20; 16:13-20; 18:18; Ef 2:19-22;
1:22,23; 5:23-27; Cl 1:17,18).
13. O Remanescente e Sua Missão
A igreja universal se compõe de todos os que verdadeiramente
crêem em Cristo; mas, nos últimos dias, um tempo de ampla apostasia,
um remanescente tem sido chamado para fora, a fim de guardar os
mandamentos de Deus e a fé de Jesus. Este remanescente anuncia a
chegada da hora do juízo, proclama a salvação por meio de Cristo e
prediz a aproximação de Seu segundo advento. Esta proclamação é
simbolizada pelos três anjos de Apocalipse 14; coincide com a obra de
julgamento no Céu e resulta numa obra de arrependimento e reforma na
Terra. Todo crente é convidado a ter uma parte pessoal neste testemunho
mundial (Ap 12:17; 14:6-12;18:1-4; 2Co 5:10; Jd 3,14; 1Pe 1:16-19; 2Pe
3:10-14; Ap 21:1-14).
14. Unidade no Corpo de Cristo
A igreja é um corpo com muitos membros, chamados de toda
nação, tribo, língua e povo. Em Cristo somos uma nova criação;
distinções de raça, cultura e nacionalidade, e diferenças entre altos e
baixos, ricos e pobres, homens e mulheres, não devem ser motivo de
dissensões entre nós. Todos somos iguais em Cristo, o qual por um só
Espírito nos uniu numa comunhão com Ele e uns com os outros;
devemos servir e ser servidos sem parcialidade ou restrição. Mediante a
revelação de Jesus Cristo nas Escrituras, partilhamos a mesma fé e
esperança, e estendemos um só testemunho para todos. Esta unidade
encontra sua fonte na unidade do Deus triúno, que nos adotou como Seus
filhos (Rm 12:4,5; 1Co 12:12-14; Mt 28:19,20;Sl 133:1; 2Co 5:16,17; At
17:26,27; Gl 3:27,29; Cl 3:10-15; Ef 4:14-16; 4:1-6; Jo 17:20-23).
15. O Batismo
Questões sobre Doutrina 60
Pelo batismo confessamos nossa fé na morte e ressurreição de Jesus
Cristo e atestamos nossa morte para o pecado e nosso propósito de andar
em novidade de vida. Assim reconhecemos a Cristo como Senhor e
Salvador, tornamo-nos Seu povo e somos aceitos como membros por
Sua igreja. O batismo é um símbolo de nossa união com Cristo, do
perdão de nossos pecados e de nosso recebimento do Espírito Santo. É
por imersão na água e depende de uma afirmação de fé em Jesus e da
evidência de arrependimento do pecado. Segue-se à instrução nas
Escrituras Sagradas e à aceitação de seus ensinos (Rm 6:1-6; Cl 2:12,13;
At 16:30-33; 22:16; 2:38; Mt 28:19,20).
16. A Ceia do Senhor
A Ceia do Senhor é uma participação nos emblemas do corpo e do
sangue de Jesus como expressão de fé nEle, nosso Senhor e Salvador.
Nesta experiência de comunhão, Cristo está presente para encontrar-Se
com Seu povo e fortalecê-lo. Participando da Ceia, proclamamos
alegremente a morte do Senhor até que Ele volte. A preparação para a
Ceia envolve o exame de consciência, o arrependimento e a confissão. O
Mestre instituiu a cerimónia do lava-pés para denotar renovada
purificação, para expressar a disposição de servir um ao outro em
humildade semelhante à de Cristo e para unir nossos corações em amor.
A cerimónia da comunhão é franqueada a todos os crentes cristãos (1Co
10:16,17; 11:23-30; Mt 26:17-30; Ap 3:20; Jo 6:48-63; 13:1-17).
17. Dons e Ministérios Espirituais
Deus concede a todos os membros de Sua igreja, em todas as
épocas, dons espirituais que cada membro deve empregar em amoroso
ministério para o bem comum da igreja e da humanidade. Outorgados
pela atuação do Espírito Santo, o qual distribui a cada membro como Lhe
apraz, os dons provêem todas as aptidões e ministérios de que a igreja
necessita para cumprir suas funções divinamente ordenadas. De acordo
Questões sobre Doutrina 61
com as Escrituras, esses dons abrangem ministérios como a fé, cura,
profecia, proclamação, ensino, administração, reconciliação, compaixão
e serviço abnegado e caridade para ajuda e animação das pessoas.
Alguns membros são chamados por Deus e dotados pelo Espírito para
funções reconhecidas pela igreja em ministérios pastorais, evangelísti-
cos, apostólicos e de ensino especialmente necessários para habilitar os
membros para o serviço, edificar a igreja com vistas à maturidade
espiritual e promover a unidade da fé e do conhecimento de Deus.
Quando os membros utilizam esses dons espirituais como fiéis despen-
seiros da multiforme graça de Deus, a igreja é protegida contra a
influência demolidora de falsas doutrinas, tem um crescimento que
provém de Deus e é edificada na fé e no amor (Rm 12:4-8; 1Co 12:9-
11,27,28; Ef 4:8, 11-l6; At 6:1-7; 1Tm 3:1-13; 1Pe 4:10, 11).
18. O Dom de Profecia
Um dos dons do Espírito Santo é a profecia. Este dom é um sinal
identificador da igreja remanescente e foi manifestado no ministério de
Ellen G. White. Como a mensageira do Senhor, seus escritos são uma
contínua e autorizada fonte de verdade que proporciona conforto,
orientação, instrução e correção à igreja. Eles também tornam claro que a
Bíblia é a norma pela qual devem ser provados o ensino e a experiência
(Jl 2:28, 29; At 2:14-21; Hb 1:1-3; Ap 12:17; 19:10).
19. A Lei de Deus
Os grandes princípios da lei de Deus estão incorporados nos Dez
Mandamentos e foram exemplificados na vida de Cristo. Expressam o
amor, a vontade e os desígnios de Deus quanto à conduta e às relações
humanas, e são obrigatórios a todas as pessoas, em todas as partes. Estes
preceitos constituem a base do concerto de Deus com Seu povo e a
norma no julgamento divino. Por meio da atuação do Espírito Santo, eles
apontam para o pecado e despertam o senso da necessidade de um
Questões sobre Doutrina 62
Salvador. A salvação é inteiramente pela graça, e não pelas obras, mas
seu fruto é a obediência aos mandamentos. Esta obediência desenvolve o
caráter cristão e resulta numa sensação de bem-estar. É uma evidência de
nosso amor ao Senhor e de nossa solicitude por nossos semelhantes. A
obediência por fé demonstra o poder de Cristo para transformar vidas, e
fortalece, portanto, o testemunho cristão (Êx 20:1-17; Sl 40:7, 8; Mt
22:36-40; Dt 28:1-14: Mt 5:17-20; Hb 8:8-10; Jo 15:7-10; Ef 2:8-10; 1Jo
5:3; Rm 8:3, 4; SI 19:7-14).
20. O Sábado
O bondoso Criador, após os seis dias da criação, descansou no
sétimo dia e instituiu o sábado para todas as pessoas, como memorial da
criação. O quarto mandamento da imutável lei de Deus requer a
observância deste sábado do sétimo dia como dia de descanso, adoração
e ministério, em harmonia com o ensino e a prática de Jesus, o Senhor do
sábado. O sábado é um dia de deleitosa comunhão com Deus e uns com
os outros. É um símbolo de nossa redenção em Cristo, um sinal de nossa
santificação, uma prova de nossa lealdade e um antegozo de nosso futuro
eterno no reino de Deus. O sábado é o sinal perpétuo do eterno concerto
de Deus com Seu povo. A prazerosa observância deste tempo sagrado de
uma tarde a outra tarde, do pôr-do-sol ao pôr-do sol, é uma celebração
dos atos criadores e redentores de Deus (Gn 2:1-3; Ex 20:8-11; Lc 4:16;
Is 56:5,6; 58:13, 14; Mt 12:1-12; Êx 31:13-17; Ez 20:12,20; Dt 5:12-15;
Hb 4:1-1 l; Lv 23:32; Mc 1:32).
21. Mordomia
Somos despenseiros de Deus, responsáveis a Ele pelo uso
apropriado do tempo e das oportunidades, das capacidades e posses, e
das bênçãos da Terrae seus recursos, que Ele colocou sob o nosso
cuidado. Reconhecemos o direito de propriedade da parte de Deus por
meio de fiel serviço a Ele e a nossos semelhantes, e devolvendo os
Questões sobre Doutrina 63
dízimos e dando ofertas para a proclamação de Seu evangelho e para a
manutenção e o crescimento de Sua igreja. A mordomia é um privilégio
que Deus nos concede para desenvolvimento no amor e para vitória
sobre o egoísmo e a cobiça. O mordomo se regozija nas bênçãos que
advêm aos outros como resultado de sua fidelidade (Gn 1:26-28; 2:15;
1Cr 29:14; Ag 1:3-11; Ml 3:8-12; 1Co 9:9-14; Mt 23:23; 2Co 8:1-15;
Rm 15:26,27).
22. Conduta Cristã
Somos chamados para ser um povo piedoso que pensa, sente e age
de acordo com os princípios do Céu. Para que o Espírito recrie em nós o
caráter de nosso Senhor, nós só nos envolvemos naquelas coisas que
produzirão em nossa vida pureza, saúde e alegria semelhantes às de
Cristo. Isto significa que nossas diversões e entretenimentos devem
corresponder aos mais altos padrões do gosto e beleza cristãos. Embora
reconheçamos diferenças culturais, nosso vestuário deve ser simples,
modesto e de bom gosto, apropriado àqueles cuja verdadeira beleza não
consiste no adorno exterior, mas no ornamento imperecível de um
espírito manso e tranquilo. Significa também que, sendo o nosso corpo o
templo do Espírito Santo, devemos cuidar dele inteligentemente. Junto
com adequado exercício e repouso, devemos adotar a alimentação mais
saudável possível e abster-nos dos alimentos imundos identificados nas
Escrituras.Visto que as bebidas alcoólicas, o fumo e o uso irresponsável
de medicamentos e narcóticos são prejudiciais a nosso corpo, também
devemos abster-nos dessas coisas. Em vez disso, devemos empenhar-nos
em tudo que submeta nossos pensamentos e nosso corpo à disciplina de
Cristo, o qual deseja nossa integridade, alegria e bem-estar (Rm 12:1,2;
1Jo 2:6; Ef 5:1-21; Fp 4:8; 2Co 10:5; 6:14-7:1; 1Pe 3:1-4; 1Co 6:19,20;
10:31; Lv 11:1-47; 3Jo 2).
23. O Casamento e a Família
Questões sobre Doutrina 64
O casamento foi divinamente estabelecido no Éden e confirmado
por Jesus como união vitalícia entre um homem e uma mulher, em
amoroso companheirismo. Para o cristão, o compromisso matrimonial é
com Deus bem como com o cônjuge, e só deve ser assumido entre
parceiros que partilham da mesma fé. Mútuo amor, honra, respeito e
responsabilidade constituem a estrutura dessa relação, a qual deve
refletir o amor, a santidade, a intimidade e a constância da relação entre
Cristo e Sua igreja. No tocante ao divórcio, Jesus ensinou que a pessoa
que se divorcia do cônjuge, a não ser por causa de relações sexuais
ilícitas, e casa com outro comete adultério. Conquanto algumas relações
de família fiquem aquém do ideal, os consortes que se dedicam
inteiramente um ao outro, em Cristo, podem alcançar amorosa unidade
por meio da orientação do Espírito e a instrução da igreja. Deus abençoa
a família e quer que seus membros ajudem uns aos outros a alcançar
completa maturidade. Os pais devem educar os seus filhos a amar o
Senhor e a obedecer-Lhe. Por seu exemplo e suas palavras, devem en-
sinar-lhes que Cristo é um disciplinador amoroso, sempre terno e
solícito, desejando que eles se tornem membros do Seu corpo, a família
de Deus. Crescente intimidade familiar é um dos característicos da
mensagem final do evangelho (Gn 2:18-25; Mt 19:3-9; Jo 2:1-11; 2Co
6:14; Ef 5:21-33; Mt 5:31, 32; Mc 10:11, 12; Lc 16:18; 1Co 7:10,11; Êx
20:12; Ef 6:1-4; Dt 6:5-9; Pv 22:6; Ml 4:5, 6).
24. O Ministério de Cristo no Santuário Celestial
Há um santuário no Céu, o verdadeiro tabernáculo que o Senhor
erigiu, não o homem. Nele Cristo ministra em nosso favor, tornando
acessíveis aos crentes os benefícios de Seu sacrifício expiatório
oferecido uma vez por todas na cruz. Ele foi empossado como nosso
grande Sumo Sacerdote e começou Seu ministério intercessor por
ocasião de Sua ascensão. Em 1844, no fim do período profético dos
2.300 dias, Ele iniciou a segunda e última etapa de Seu ministério
Questões sobre Doutrina 65
expiatório. É uma obra de juízo investigativo, a qual faz parte da
eliminação final de todo pecado, prefigurada pela purificação do antigo
santuário hebraico, no Dia da Expiação. Nesse serviço típico, o santuário
era purificado com o sangue de sacrifícios de animais, mas as coisas
celestiais são purificadas com o perfeito sacrifício do sangue de Jesus. O
juízo investigativo revela aos seres celestiais quem dentre os mortos
dorme em Cristo, sendo, portanto, nEle, considerado digno de ter parte
na primeira ressurreição. Também torna manifesto quem, dentre os
vivos, permanece em Cristo, guardando os mandamentos de Deus e a fé
de Jesus, estando, portanto, nEle, preparado para a trasladação ao Seu
reino eterno. Este julgamento vindica a justiça de Deus em salvar os que
crêem em Jesus. Declara que os que permaneceram leais a Deus
receberão o reino. A terminação desse ministério de Cristo assinalará o
fim do tempo da graça para os seres humanos, antes do segundo advento
(Hb 8:1-5;4:14-16; 9:11-28; 10:19-22; 1:3;2:16,17; Dn 7:9-27; 8:13,14;
9:24-27; Nm 14:34; Ez 4:6; Lv 16; Ap 14:6, 7; 20:12; 14:12; 22:12).
25. A Segunda Vinda de Cristo
A segunda vinda de Cristo é a bendita esperança da igreja, o grande
ponto culminante do evangelho. A vinda do Salvador será literal,
pessoal, visível e universal. Quando Ele voltar, os justos falecidos serão
ressuscitados e, junto com os justos que estiverem vivos, serão
glorificados e levados para o Céu, mas os ímpios irão morrer. O
cumprimento quase completo da maioria dos aspectos da profecia, junto
com a condição atual do mundo, indica que a vinda de Cristo é iminente.
O tempo exato desse acontecimento não foi revelado, e somos portanto
exortados a estar preparados emtodootempo (Tt 2:13; Hb 9:28; Jo 14:l-3;
At 1:9-1 l; Mt 24:14; Ap 1:7; Mt 24:43, 44: 1Ts 4:13-18; 1Co 15:51-54;
2Ts 1:7-10; 2:8; Ap 14:14-20; 19:11-21; Mt 24; Mc 13; Lc 21; 2Tm 3:1-
5; 1Ts 5:1-6).
Questões sobre Doutrina 66
26. Morte e Ressurreição
O salário do pecado é a morte. Mas Deus, o único que é imortal,
concederá vida eterna a Seus remidos. Até aquele dia, a morte é um
estado inconsciente para todas as pessoas. Quando Cristo, que é a nossa
vida, Se manifestar, os justos ressuscitados e os justos vivos serão
glorificados e arrebatados para o encontro de seu Senhor. A segunda
ressurreição, a ressurreição dos ímpios, ocorrerá mil anos mais tarde
(Rm 6:23; 1Tm 6:15, 16; Ec 9:5, 6; Sl 146:3, 4; Jo 11:11-14; Cl 3:4; 1Co
15:51-54; 1Ts 4:13-17; Jo 5:28, 29; Ap 20:1-10).
27. O Milênio e o Fim do Pecado
O milênio é o reinado de mil anos de Cristo com Seus santos, no
Céu, entre a primeira e a segunda ressurreições. Durante esse tempo
serão julgados os ímpios mortos; aTerra estará completamente desolada,
sem habitantes humanos com vida, mas ocupada por Satanás e seus
anjos. No fim desse período, Cristo com Seus santos e a Cidade Santa
descerão do Céu à Terra. Os ímpios mortos serão então ressuscitados e,
com Satanás e seus anjos, cercarão a cidade; mas fogo de Deus os
consumirá e purificará a Terra. O Universo ficará assim eternamente
livre do pecado e dos pecadores (Ap 20; 1Co 6:2, 3; Jr 4:23-26; Ap 21:1-
5; Ml 4:1; Ez 28:18, 19).
28. A Nova Terra
Na Nova Terra, em que habita justiça, Deus proverá um lar eterno
para os remidos e um ambiente perfeito para vida, amor, alegria e
aprendizado eternos, em Sua presença. Pois aqui o próprio Deus habitará
com o Seu povo, e o sofrimento e a morte terão passado.O grande
conflito estará terminado e não mais existirá pecado. Todas as coisas,
animadas e inanimadas, declararão que Deus é amor; e Ele reinará para
todo o sempre. Amém (2Pe3:13; Is 35; 65:17-25; Mt 5:5; Ap 21:1-7;
22:1-5; 11:15).
Questões sobre Doutrina 67
PARTE I – QUESTÕES
PRELIMINARES
Questões sobre Doutrina 68
1
Doutrinas Que Temos Em Comum
Com Outros Cristãos
PERGUNTA 1
Que doutrinas os adventistas do sétimo dia mantêm em comum com
os cristãos em geral, e em que aspectos diferem do pensamento
cristão?
De modo geral, os cristãos se dividem em várias escolas de
pensamento praticamente em todas as doutrinas da Bíblia. Em algumas
delas, nós, adventistas do sétimo dia, nos encontramos em determinado
grupo e, em outras, podemos ser classificados de modo bem diferente.
Mantemos doutrinas em comum com alguns grupos religiosos. Com
outros, encontramos pouca afinidade no terreno doutrinário. Não
aceitamos certas doutrinas sustentadas por alguns cristãos porque
julgamos não estarem baseadas na Palavra de Deus.
Praticamente todas as crenças adventistas do sétimo dia são
mantidas por um ou mais grupos cristãos. Umas poucas são
exclusivamente nossas. Em relação às crenças de outros cristãos, as
nossas podem ser classificadas como a seguir:
I. EM HARMONIA COM OS CRISTÃOS CONSERVADORES E OS CREDOS
PROTESTANTES HISTÓRICOS, CREMOS:
1. Que Deus é o soberano Criador, Mantenedor e Governador do
Universo, sendo eterno, onipotente, onisciente e onipresente.
2. Que a Divindade, a Trindade, compreende Deus o Pai, Cristo o
Filho e o Espírito Santo.
Questões sobre Doutrina 69
3. Que as Escrituras constituem a revelação inspirada de Deus para
o homem; e que a Bíblia é a única regra de fé e prática.
4. Que Jesus Cristo é Deus real, e existiu com o Pai desde toda a
eternidade.
5. Que o Espírito Santo é um ser pessoal, participando dos atributos
da divindade com o Pai e o Filho.
6. Que Cristo, a Palavra de Deus, encarnou por meio da miraculosa
concepção e do nascimento virginal; e viveu na Terra uma vida
absolutamente sem pecado.
7. Que a morte vicária e expiatória de Jesus Cristo, uma vez por
todas, é todo-suficiente para a redenção da raça perdida.
8. Que Jesus Cristo ressuscitou literal e corporeamente da sepultura.
9. Que Ele ascendeu literal e corporeamente ao Céu.
10. Que Ele presentemente serve como nosso advogado no
ministério sacerdotal e mediação diante do Pai.
11. Que Ele voltará em um segundo advento pré-milenar, pessoal e
iminente.
12. Que o homem foi criado sem pecado, mas pela queda subse-
quente entrou em estado de alienação e depravação.
13. Que a salvação por meio de Cristo é pela graça somente, pela fé
em Seu sangue.
14. Que a posse de uma nova vida em Cristo ocorre pela regenera-
ção, ou novo nascimento.
15. Que o homem é justificado pela fé.
16. Que o homem é santificado pela permanência em Cristo através
do Espírito Santo.
17. Que o homem será glorificado por ocasião da ressurreição ou
trasladação dos santos, quando o Senhor voltar.
18. Que haverá um julgamento de todos os homens.
19. Que o evangelho deve ser pregado em testemunho a todo o
mundo.
Questões sobre Doutrina 70
II. SOBRE DETERMINADAS DOUTRINAS CONTROVERTIDAS ENTRE
CRISTÃOS CONSERVADORES, MANTEMOS UMA DE DUAS OU MAIS
OPINIÕES ALTERNADAS. CREMOS:
1. Que o homem é livre para escolher ou rejeitar o oferecimento da
salvação por meio de Cristo; não cremos que Deus tenha predeterminado
que alguns homens sejam salvos e outros se percam.
2. Que a lei moral dos Dez Mandamentos, ou Decálogo, é a norma
de vida e à conduta para todos os homens em todas as épocas; não
cremos que o Decálogo tenha sido alterado ou abolido.
3. Que o batismo deve ser ministrado por simples imersão; não
cremos que deva ser aplicado por aspersão, afusão ou tripla imersão.
4. Que o homem, na criação, foi dotado de imortalidade condicio-
nal; não cremos que o homem tenha imortalidade inata ou uma alma
imortal.
5. Que os ímpios serão punidos com sofrimento e completa destrui-
ção no lago de fogo; não cremos num inferno ardendo eternamen-te, no
qual as almas são atormentadas para sempre.
6. Que o sétimo dia da semana é o dia de repouso; não cremos que
este dia de repouso tenha sido abolido, muciado para o primeiro dia, ou
seja apenas uma sétima parte de tempo.
7. Que o princípio do dízimo é o plano de Deus para sustentar Sua
igreja; não cremos que o dízimo era apenas para os judeus.
8. Que Deus criou o mundo em seis dias literais; não cremos que a
criação se tenha realizado por longos eons ou processos evolutivos.
9. Que o ponto de vista correto da interpretação profética é mais
bem apresentado pelo que é conhecido como escola histórica; não
aceitamos os sistemas seguidos pelos pretenstas e pelos futuristas.
10. Que a igreja e o estado devem atuar em esteras totalmente
separadas; não cremos que, numa tentativa de controlar a religião dos
homens ou atividades religiosas, a igreja deva dominar o estado, ou o
estado governar a igreja.
Questões sobre Doutrina 71
11. Que a ordenança do lava-pés, instituída por Cristo, deve ser
praticada por ocasião da Ceia do Senhor; não cremos que tenha sido
apenas uma acomodação aos costumes e necessidades daqueles tempos.
12. Que nos devemos abster de certas práticas como o uso do álcool
e do fumo; não cremos que a condescendência nestas coisas represente
plenamente o caráter de nosso Senhor.
III. EM POUCAS ÁREAS DO PENSAMENTO CRISTÃO, NOSSAS
DOUTRINAS SÃO DISTINTIVAS. CREMOS:
1. Que há um Santuário no Céu onde Cristo, nosso Sumo Sacerdote,
ministra em duas fases distintas de Sua obra mediadora.
2. Que deve haver um Juízo Investigativo no qual o destino de
todos os homens deve ser decidido antes da volta de Cristo em glória.
3. Que o Espírito de Profecia, ou dom profético, é um dos dons do
Espírito prometido à igreja nos últimos dias, e que esse dom se
manifestou na Igreja Adventista do Sétimo Dia na obra e nos escritos de
Ellen G.White.
4. Que o selo de Deus e o sinal da besta, mencionados em
Apocalipse, são símbolos das forças antagônicas do bem e do mal no
último grande conflito antes de Cristo vir pela segunda vez.
5. Que os três anjos de Apocalipse 14 representam a proclamação
da última mensagem de Deus ao mundo em preparação para a vinda de
nosso Senhor.
Questões sobre Doutrina 72
2
A Bíblia, Única Regra de Fé e Prática
PERGUNTA 2
Com relação à inspiração da Bíblia, ensinam os adventistas do sétimo
dia que ela é a Palavra de Deus, a única infalível regra de fé e prática?
Nós, os adventistas do sétimo dia, cremos que "toda a Escritura",
tanto o Antigo como o Novo Testamentos, do Génesis ao Apocalipse, foi
"inspirada por Deus" (2Tm 3:16), e constitui a própria Palavra de Deus
— a verdade que "vive e é permanente" (1Pe 1:23). Reconhecemos a
Bíblia como última e definitiva autoridade sobre o que é a verdade. As
Sagradas Escrituras nos vieram por meio do ministério dos profetas que
falaram e escreveram "movidos pelo Espírito Santo" (2Pe 1:21). Os
apóstolos declararam que o Deus que fez os céus e a Terra falou pela
boca de Davi e dos profetas do passado (At 4:24-26; Mt 1:22; 2:15; At
3:18-20; 28:25, 26; Hb 1:1; 4:7).
E esses mensageiros escolhidos por Deus declararam que o que foi
dado por meiodeles era a própria Palavra de Deus (Is 43:1;45:l; Jr 17:19,
20; 18:1,2; 22:1,2; 26:1, 2). Paulo lembrava a seus conversos que, ao
ouvirem a leitura das Escrituras, estavam ouvindo não palavras de
homens, mas, na realidade, a Palavra de Deus (1Ts 2:13).
Pelo ministério desses mensageiros do passado, Jeová declarou Sua
verdade ao mundo. Citando a mensagem de Moisés: "Suscitar-lhes-ei um
profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as
Minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que Eu lhe ordenar" (Dt 18:18).
E Jeremias registra o Senhor como dizendo: "Eis que ponho na tua boca
as Minhas palavras" (Jr 1:9). As palavras que estes homens falaram e
escreveram não eram de si mesmos; eram do Deus vivo. E a Ezequiel
Questões sobre Doutrina 73
disse Deus: "Filho do homem, vai, entra na casa de Israel e dize-lhe as
Minhas palavras" (Ez 3:4).
Expressões como "Ouvi a palavra do Senhor"; "Ouvi a voz do
Senhor, dizendo"; "A palavra do Senhor veio a mim", etc, ocorrem mais
de 1.300 vezes nos escritos proféticos do Antigo Testamento. E os
escritores do Novo Testamento fazem com frequência a mesma reivindi-
cação. Diz o apóstolo Paulo: "Recebi do Senhor o que também vos
entreguei" (1Co 11:23)."Se alguém se considera profeta ou espiritual,
reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo" (1Co 14:37).
Tomamos a Bíblia na sua inteireza, crendo que ela não apenas
contém a Palavra de Deus, mas é a Palavra de Deus.
Cremos na autoridade, credibilidade e veracidade das Escrituras
Sagradas. A mesma união do divino com o humano que se manifesta em
Cristo existe na Bíblia. Suas verdades reveladas são "inspiradas por
Deus" (2Tim. 3:16); contudo, são redigidas em palavras de homens.
Os adventistas do sétimo dia sustentam a posição protestante de que
a Bíblia e somente a Bíblia é a única regra de fé e prática para os
cristãos. Cremos que todas as crenças teológicas têm que ser aferidas
pela Palavra viva, julgada pela sua verdade, e o que quer que não seja
capaz de suportar essa prova, ou seja achado em desarmonia com sua
mensagem, deve ser rejeitado.
―O verdadeiro cristianismo recebe a Palavra de Deus como o grande
tesouro de verdade inspirada, e como a prova de toda inspiração‖ (O
Grande Conflito, p. 193).
―Temos de recebê-la [a Palavra de Deus] como a autoridade
suprema‖ (Testemunhos Para a Igreja, v. 6, p. 402).
―Há em nosso tempo um vasto afastamento das doutrinas e
preceitos bíblicos, e há necessidade de uma volta ao grande princípio
protestante - a Bíblia, e a Bíblia só, como regra de fé e prática‖ (O
Grande Conflito, p. 204, 205).
Questões sobre Doutrina 74
3
A Relação dos Adventistas
com as Posições do Passado
PERGUNTA 3
Têm os adventistas do sétimo dia mudado quanto a algumas posições
advogadas por certos adeptos nos primeiros anos, cujas citações ainda
circulam? Tais citações não representam incorretamente os ensinos
atuais da liderança adventista?
Como adventistas do sétimo dia, cremos que a luz da verdade
bíblica é progressiva, e deve brilhar "mais e mais até ser dia perfeito" (Pv
4:18). E temos procurado andar na luz progressiva da verdade. Jamais
nos conduzimos por credos formais e fixos, dizendo: "Isto é a verdade;
até aqui e não mais além." Ellen G.White, que está entre nossos
principais escritores, escreveu em 1892:
―Ao que está em viva comunhão com o Sol da Justiça, sempre se
revelará nova luz sobre a Palavra de Deus. Ninguém deve chegar à
conclusão de que não há mais verdades a serem reveladas. O que busca a
verdade com diligência e oração encontrará preciosos raios de luz que
ainda hão de brilhar da Palavra de Deus‖ (Conselhos Sobre a Escola
Sabatina, p. 34).
Há mais de um século, os fundadores da Igreja Adventista do
Sétimo Dia eram de várias procedências denominacionais. Conquanto
todos fossem pré-milenistas, alguns eram trinitarianos; outros, arianos. A
maioria era arminiana; uns poucos eram calvinistas. Alguns insistiam no
imersionismo; uns poucos sustentavam o aspersiomsmo. Havia diversi-
dades nesses pontos. E, à semelhança de outros grupos religiosos, nosso
período inicial foi caracterizado pela transição e adaptação. Surgia uma
igreja. Como aqueles homens fossem já crentes nascidos de novo, o
Questões sobre Doutrina 75
estudo e a ênfase foram sobre os ensinos distintivos do movimento. E
eles estavam, de igual modo, ocupados em criar uma organização
efetiva.
Naqueles dias primitivos se deu relativamente pouca atenção aos
respectivos méritos do arminianismo em contraste com a posição
calvinista. As diferenças históricas de pensamento remontavam a
Agostinho e Crisóstomo. Não havia interesse algum em definir assuntos
como os "decretos absolutos", a "soberania divina", "eleição particular"
ou "expiação limitada". Tampouco procurou-se, a princípio, definir a
natureza da Divindade, ou os problemas da cristologia, envolvendo a
deidade de Cristo e Sua natureza durante a encarnação; a personalidade e
divindade do Espírito Santo; a natureza, escopo e plenitude da expiação;
a relação da lei com a graça ou a plenitude da doutrina da justiça pela fé;
e coisas semelhantes.
Com o passar dos anos,1 porém, a diversidade inicial de ideias sobre
certas doutrinas gradualmente deu lugar à unidade de opinião. Posições
claras e firmes foram tomadas pela grande maioria sobre doutrinas como
a da Divindade, a deidade e preexistência eterna de Cristo e a personali-
dade do Espírito Santo. Estabeleceram-se ideias precisas sobre a justiça
pela fé, a legítima relação entre a lei e a graça, e sobre a morte de Cristo
como expiação sacrifical completa para o pecado.
Uns poucos, entretanto, sustentavam suas ideias anteriores, e por
vezes estas ideias chegaram a ser impressas. Contudo, nas últimas
décadas, a igreja tem estado praticamente unida nas verdades básicas da
fé cristã.
O próprio fato de nossa posição estar agora esclarecida nos parecia
suficiente. Percebemos que nossos ensinos se tornaram claros e nenhuma
declaração especial de mudança quanto a essas ideias se tornou
necessária. Hoje, a ênfase principal de toda a nossa literatura denomina-
cional, bem como das contínuas apresentações da mensagem pelo rádio e
televisão, é posta nos fundamentos históricos da fé cristã.
Questões sobre Doutrina 76
Contudo, as acusações e ataques têm persistido. Alguns continuam
a reunir citações extraídas de nossas publicações mais antigas, há muito
obsoletas, e que não mais são impressas. Citam-se determinadas
declarações, frequentemente torcidas e deslocadas do contexto, de modo
a darem uma descrição totalmente desvirtuada das crenças e ensinos que
a Igreja Adventista do Sétimo Dia hoje sustenta.
Outra consideração se deve levar em conta. É que os adventistas do
sétimo dia, não tendo nenhum credo formal, não controlam rigidamente
o pensamento de seu ministério. Seria realmente estranho se, da parte de
algum escritor adventista do sétimo dia, não surgisse uma declaração
ocasional em divergência com o consenso da crença adventista do sétimo
dia. De quando em quando, a maioria das corporações religiosas enfrenta
essa dificuldade ou problema.
Tudo isto faz com que seja aconselhável e necessário que declare-
mos novamente nossa posição sobre os grandes ensinos fundamentais da
fé cristã, e rejeitemos toda declaração ou implicação de que Cristo, a
segunda pessoa da Divindade, não era um com o Pai desde a eternidade,
e que Sua morte na cruz não se constituiu num sacrifício expiatório
completo. No tocante a estas grandes verdades, a crença dos adventistas
do sétimo dia é clara eenfática. E julgamos que não podemos ser
estigmatizados devido a certos conceitos falhos e limitados sustentados
por alguns, especialmente nos primeiros anos de nossa formação.
Esta declaração, portanto, deve anular o conjunto de "citações" que
têm circulado contra nós. Estamos unidos com nossos amigos cristãos
dos grupos denominacionais nos grandes fundamentos da fé que uma vez
foi entregue aos santos. Nossa esperança repousa num Salvador
crucificado, ressurreto, ministrante e prestes a voltar.
Referência
Questões sobre Doutrina 77
1. "Com o passar dos anos." Esta frase não deveria ser interpretada como uns
poucos anos. Por exemplo, a maioria dos adventistas do sétimo dia não aceitava a
Trindade, a preexistência eterna de Cristo ou a personalidade do Espírito Santo como
sendo bíblicas. Essas posições nem mesmo começariam a mudar até os anos de 1890,
e as perspectivas trinitarianas seriam um ponto de conflito até a década de 1940. Ver
as notas da Pergunta 5 para mais informações sobre este tópico.
PARTE II –
PERGUNTAS SOBRE
CRISTO
Questões sobre Doutrina 78
4
A Divindade e a Preexistência Eterna de Cristo
PERGUNTA 4
Os adventistas do sétimo dia são frequentemente acusados de negar a
divindade real e a eterna preexistência de Cristo, o Verbo Eterno. É
exata esta asserção? É aceita entre os adventistas a crença na
Trindade? Dêem, por favor, os fundamentos bíblicos de suas crenças.
I. CRENTES NA DIVINDADE DE CRISTO E NA TRINDADE
Nossa crença na deidade e eterna preexistência de Cristo, a segunda
pessoa da Divindade, consta de nossas "Crenças Fundamentais dos
Adventistas do Sétimo Dia", que são anualmente reproduzidas em nosso
anuário oficial (Yearbook), e também em nosso autorizado Manual da
Igreja (ed. 1951, p. 29-36).1 Além disso, os que são batizados na Igreja
Adventista subscrevem um sumário de crenças doutrinárias impresso no
Certificado de Batismo, cujo artigo segundo declara:
―Jesus Cristo, a segunda pessoa da Divindade e eterno Filho de
Deus, é o único Salvador do pecado; e a salvação do homem é pela graça
por meio da fé nEle.‖2
Antes do batismo, o candidato assina esta declaração como uma
afirmação de sua crença. E no Apêndice A encontra-se uma compilação
de declarações sobre a divindade e a eterna preexistência de Cristo, bem
como Sua posição na Divindade, feitas por uma de nossas escritoras
mais representativas, Ellen G. White.
A respeito do lugar de Cristo na Divindade, cremos que Ele é a
segunda pessoa na Trindade celestial - composta do Pai, Filho e Espírito
Santo, unidos não somente na Divindade, mas nas providências da
redenção. Uma série de breves declarações sobre a Trindade consta
também do Apêndice A, "O Lugar de Cristo na Divindade", claramente
Questões sobre Doutrina 79
apresentando (1) que Cristo é um com o Pai Eterno, um em natureza,
igual em poder e autoridade, Deus no mais alto sentido, eterno e
existente por Si mesmo, com vida original, não emprestada, não
derivada; e (2) que Cristo existiu desde toda a eternidade, distinto do Pai
mas unido a Ele, possuindo a mesma glória e todos os atributos divinos.
Os adventistas do sétimo dia baseiam sua crença na Trindade nas
declarações das Sagradas Escrituras mais do que num credo histórico. O
segundo artigo das Crenças Fundamentais é explícito:
―A Divindade, ou Trindade, consiste do Pai Eterno, Ser pessoal,
espiritual, onipotente, onipresente, onisciente, infinito em sabedoria e
amor; do Senhor Jesus Cristo, Filho do Pai Eterno, por quem todas as
coisas foram criadas e por quem se realizará a salvação dos remidos; do
Espírito Santo, terceira pessoa da Divindade, o grande poder regenerador
na obra da redenção (Mt 28:19).‖3
Outra declaração autorizada consta do "Sumário de Crenças
Doutrinárias" no Certificado de Batismo:
"1. O Deus vivo e verdadeiro, primeira pessoa da Divindade, é
nosso Pai celestial, e Ele, por meio de Seu Filho, Cristo Jesus, criou
todas as coisas (Mt 28:18, 19; 1Co 8:5,6; Ef 3:9; Jr 10:10-12; Hb 1:1-3;
At 17:22-29; Cl 1:16-18).
"2. Jesus Cristo, a segunda pessoa da Divindade e o eterno Filho de
Deus, é o único Salvador do pecado; e a salvação do homem é pela graça
por meio da fé nEle (Mt 28:18, 19; Jo 3:16; Mq 5:2; Mt 1:21; 2:5, 6; At
4:12; 1Jo 5:11, 12; Ef 1:9-15; 2:4-8; Rm 3:23-26).
"3. O Espírito Santo, terceira pessoa da Trindade, é o representante
de Cristo na Terra, e conduz os pecadores ao arrependimento e à
obediência a todas as reivindicações divinas (Mt 28:18, 19; Jo 14:26;
15:26; 16:7-15; Rm 8:1-10; Ef 4:30)."4
II. BASES BÍBLICAS PARA A CRENÇA NA DIVINDADE DE CRISTO
Questões sobre Doutrina 80
A divindade de nosso Senhor Jesus Cristo se firma, pelo menos, em
sete linhas distintas de evidências, as quais, tomadas em conjunto,
estabelecem plenamente Sua divindade:
1. Reconhecimento do Título "Filho de Deus" Pelo Próprio
Cristo. Enquanto esteve entre os homens, o próprio Cristo reconheceu
ser o Filho de Deus (Mt 27:41-43;Jo 5:23; 9:35-37; 10:36; 17:1).
Confirmou o testemunho de outros de que era o Filho de Deus (Mt
16:15-17; Jo 1:32-34,48,49; 11:27). E inúmeras outras declarações
atestam o fato de que Ele era o que Se declarava ser: o Filho de Deus
(Mt 3:16, 17; Jo 19:7; 20:30, 31; At 9:20; Rm 1:1-4; 2Co 1:19; Hb 4:14;
2Pe 1:16, 17).
Cristo empregou o título "Filho de Deus" sem a menor reserva, e
com a maior liberdade e franqueza. Este é o único título que abrange, de
maneira mais explícita, Sua relação original com o Pai.
2. Aplicação a Jesus Cristo de uma Porção de Nomes e Títulos
que se Restringem à Divindade. No Antigo Testamento, cerca de 70
nomes e títulos são atribuídos a Jesus Cristo, e no Novo Testamento mais
170. Os que são exclusivamente restritos à Divindade incluem "Deus"
(Jo l:l); "Deus conosco" (Mt 1:23); "o grande Deus" (Tt 2:13); "Deus
bendito eternamente" (Rm 9:5); "Filho de Deus" (40 vezes); "Filho
unigênito" (cinco vezes); "o primeiro e o último" (Ap 1:17); "Alfa e
Omega" (Ap 22:13); "o princípio e o fim" (Ap 22:13); "o Santo" (At
3:14); "Senhor" (empregado constantemente); "Senhor de todos" (At
10:36); "Senhor da glória" (1Co 2:8); "Rei da glória" (SI 24:8-10);
"Maravilhoso" (Is 9:6); "Pai da eternidade" (Is 9:6); "Palavra de Deus"
(Ap 19:13); "Verbo" (Jo 1:1); "Emanuel" (Mt 1:23); "Mediador" (1Tm
2:5); e "Rei dos reis e Senhor dos senhores" (Ap 19:16).
3. Imputação a Cristo de Atributos que Pertencem Exclusiva-
mente à Divindade. Estes incluem onipotência (Mt 28:18), onisciência
(Mt 9:4), onipresença (Mt 18:20), imutabilidade (Hb 13:8) - aparecendo
também em vários outros textos.
Questões sobre Doutrina 81
4. Atribuição a Cristo de Funções e Prerrogativas Exclusivas da
Divindade. Estas compreendem a criação do Universo (Jo 1:1-3);
preservação do Universo (Hb 1:3); direito e poder de perdoar pecados
(Mc 2:5-12); direito e poder de julgar todos os homens (At 17:31);
autoridade e poder de ressuscitar mortos (Jo 5:28, 29); de transformar
nosso corpo (Fp 3:21); de conceder a imortalidade (1Co 15:52,53).
5. A Aplicação do "Eu Sou" do Antigo Testamento a Jesus
Cristo no Novo Testamento. Quando Cristo disse aos judeus: "Antes
que Abraão existisse, Eu sou" (Jo 8:58), Ele estava reclamando
divindade, e Seus ouvintes reconheceram as implicações de Suas
palavras, pois apanharam "pedras para atirar nEle" - castigo judaico para
grandes blasfêmias. Certamente, Ele empregou as palavras de Deus no
Antigo Testamento "EU SOU O QUE SOU" (Ex 3:14),desde a antiguidade
reconhecidas como símbolo da divindade, aplicando a Si mesmo o
atributo de existência própria.
6. Identificação do Jeová do Antigo Testamento com Jesus no
Novo Testamento. No Antigo Testamento existem vários textos que
contêm o nome Jeová e que foram aplicados a Jesus Cristo pelos
escritores do Novo Testamento.
A palavra "Senhor" (Yahweh) no Salmo 102:22, e nos versículos
25-28 correlatos, é aplicada a Jesus em Hebreus 1:10-12. O mesmo nome
divino (Yahweh) aparece em Habacuque 2:2, 3, e é aplicado a Cristo em
Hebreus 10:37.
Três outras vezes em que tanto Yahweh como Elohim se aplicam a
nosso Senhor são vistas nas seguintes passagens: Em Jeremias 31:31
Yahweh é empregado, e é retendo como a obra de Cristo em Hebreus,
capítulos 8 e 10. A referência a Yahweh em Ageu 2:6 é também
messiânica, e aplica-se à obra de Jesus em Hebreus 12:26. O nome divi-
no Elohim em Salmo 45:6, 7 aplica-se ao Filho de Deus em Hebreus 1:8,
9.
Questões sobre Doutrina 82
7. O Nome do Filho Posto em Plena Igualdade com o Pai no
Novo Testamento. Isso aparece na bênção apostólica (2Co 13:14), na
fórmula batismal (Mt 28:19) e em outros textos em que Seus nomes se
acham unidos.
8. Jesus Cristo É Proclamado sem Pecado Através de Toda a
Sua Vida Entre os Homens. Isso estava claramente predito no Antigo
Testamento (Sl 45:7; Is 53:9; Jr 23:5; Zc 9:9). E acha-se expressamente
declarado no Novo Testamento — como "o Santo de Deus" (Mc 1:24),
"Ente Santo" (Lc 1:35), "Santo Servo Jesus" (At 4:27), "nenhum mal
fez" (Lc 23:41), "nEle não há injustiça" (Jo 7:18), "o Santo e o Justo" (At
3:14), "não conheceu pecado" (2Co 5:21), "sem mácula" (1Pe 1:19),
"sem defeito" (1Pe 1:19),"não cometeu pecado" (1Pe 2:22), "separado
dos pecadores" (Hb 7:26).
9. Culto Divino e Orações a Jesus, os Quais São Devidos
Unicamente a Deus. Há muitas passagens em que Jesus Cristo, como
Deus e Criador, sem hesitação, aceitou culto que Lhe prestaram com
temor e reverência os próprios anjos e homens piedosos, como criaturas
(Ap 19:10; At 10:25, 26). A prerrogativa de divindade foi assumida e
declarada inúmeras vezes através de toda a vida de Jesus no Novo
Testamento (Mt 14:33; 28:9, 17).
10. O Conhecimento de Cristo Quanto à Sua Pessoa Divina e
Sua Missão. Aos 12 anos de idade, Ele reconheceu a Deus como Seu Pai
(Lc 2:41-52). Aos 30, este conhecimento de Sua missão divina foi
revelado em Seu batismo (Mt 3:13-17). Ele aparece também no registro
da tentação (Mt 4:1-11), no chamado dos 12 e dos 70 e nas reivindica-
ções do Sermão do Monte (Mt 5-7).
11. A Convergência das Múltiplas Especificações Proféticas do
Antigo Testamento Como Cumpridas em Jesus Cristo Constitui a
Prova Culminante. Muitas predições separadas, específicas e
pormenorizadas apontam com precisão para Ele como o único que
deveria vir de Deus (como em Isaías 7:14; 9:6).
Questões sobre Doutrina 83
Referências:
1. As Declarações das Crenças Fundamentais, revisadas em 1980 e ampliadas
em 2005, continuam a ser publicadas na sua inteireza tanto no Yearbook da Igreja
Adventista do Sétimo Dia quanto no Manual da Igreja.
2. O melhor sumário deste ponto na declaração batismal atual (2002) é o artigo
1 do Certificado de Batismo, que diz: "Creio que existe um só Deus: Pai, Filho e
Espírito Santo, uma unidade de três Pessoas co-e ternas."
3. A declaração de 1980 sobre a Trindade é como segue: "Há um só Deus: Pai,
Filho e Espírito Santo, uma unidade de três Pessoas co-eternas. Deus é imortal,
onipotente, onisciente, acima de tudo e sempre presente. Ele é infinito e está além da
compreensão humana, mas é conhecido por meio de Sua auto-rcvelação. É para
sempre digno de culto, adoração e serviço por parte de toda a criação (Dt 6:4: Mt
28:19; 2Co 13:14; Ef 4:4-6; 1Pe 1:2; 1Tm l:17; Ap 14:7)."
4. Em 2002, esses itens no Certificado de Batismo afirmavam:
"3. O Eterno Pai é o Criador, o Originador, o Mantenedor e o Soberano de toda
a criação. Ele é justo e santo, compassivo e clemente, tardio em irar-Se e grande em
constante amor e fidelidade. As qualidades e os poderes manifestados no Filho e no
Espírito Santo também constituem revelações do Pai (Gn l:l;Ap4:ll; 1Co 15:28; Jo
3:16; 1Jo 4:8; 1Tm 1:17; Êx 34:6, 7;Jo 14:9).
"4. O Filho Eterno encarnou-Se em Jesus Cristo. Por meio dEle foram criadas
todas as coisas, é revelado o caráter de Deus, efetuada a salvação da humanidade e
julgado o mundo. Sendo para sempre verdadeiramente Deus, Ele tornou-Se também
verdadeiramente homem, Jesus, o Cristo. Foi concebido do Espírito Santo e nasceu
da virgem Maria.Viveu e experimentou a tentação como ser humano, mas
exemplificou perfeitamente a justiça e o amor de Deus. Por Seus milagres manifestou
o poder de Deus e atestou que era o Messias prometido por Deus. Sofreu e morreu
voluntariamente na cruz por nossos pecados e em nosso lugar, foi ressuscitado dentre
os mortos e ascendeu para ministrar em nosso favor no santuário celestial. Virá outra
vez, em glória, para o livramento final de Seu povo e a restauração de todas as coisas
(Jo 1:1-3, 14; Co 1:15-19; Jo 10;30; 14:9; Rm 6:23: 2Co 5:17-19;Jo 5:22; Lc 1:35;
Fp 2:5-11; Hb 2:9-18; 1Co 15:3,4; Hb 8:1,2; Jo 14:1-3).
"5. O Espírito Eterno desempenhou uma parte ativa com o Pai e o Filho na
Criação, Encarnação e Redenção. Inspirou os escritores das Escrituras. Encheu de
poder a vida de Cristo. Atrai e convence os seres humanos; e os que se mostram
sensíveis são por Ele renovados e transformados à imagem de Deus. Enviado pelo
Questões sobre Doutrina 84
Pai e pelo Filho para estar sempre com Seus filhos, Ele concede dons espirituais à
igreja, a habilita a dar testemunho de Cristo e, em harmonia com as Escrituras, guia-a
em toda a verdade (Gn 1:1, 2; Lc l:35; 4:18; At 10:38; 2Pe 1:21; 2Co 3:18; Ef 4:11,
12; At 1:8; Jo 14:16-18,26; 15:26, 27; 16:7-13)."
5. A igualdade de Cristo com Deus o Pai é demonstrada de muitas maneiras no
Novo Testamento:
• A honra do Filho é a honra do Pai (Jo 5:23).
• Ver a Cristo é ver a Deus (Jo 14:7-9).
• Conhecer Cristo é conhecer o Pai (Jo 14:7).
• Crer em Jesus é crer em Deus (Jo 12:44).
• Cristo faz as mesmas coisas que o Pai faz (Jo 5:19).
• Cristo ressuscita os mortos como o faz o Pai (Jo 5:21).
• Cristo tem vida em Si mesmo como o Pai (Jo 5:26).
Questões sobre Doutrina 85
5
A Divindade de Cristo e os Membros da Igreja
PERGUNTA 5
Se um unitariano ou ariano (que rejeita a trindade da Divindade e
nega a divindade de Cristo) buscasse ser admitido na Igreja
Adventista, o pastor adventista do sétimo dia o batizaria e o admitiria
na coletividade de membros?
É possível uma pessoa permanecer como membro fiel se recusar-se
sistematicamente a se submeter à autoridade da igreja quanto à
doutrina histórica da divindade de Jesus Cristo?
Embora a primeira pergunta pareça tocar em um problema de
elevada importância, é todavia hipotética - pela simples razão de que um
unitariano ou ariano confesso não procura ser membro de uma igreja
confessadamente trinitariana, enquanto sustentar suas velhas ideias
quanto à Divindade. Uma enquete entre vários pastores de muita ex-
periência ligados à liderança de nossa obra denominacional revela que
nenhum pastor deste grande grupo religioso jamais recebeu tal
solicitação.1
Os pastores adventistas são solicitados a instruir rigorosamente
todos os candidatos a membro da igreja que se preparam para o batismo.
Esse período de instrução prossegue geralmente por alguns meses. Se o
candidato persistir em manter opiniõeserróneas concernentes a nosso
Senhor e Salvador, o único que pode salvar o pecador, então apenas um
caminho pode ser tomado: o pretendente terá que ouvir com franqueza
que está totalmente despreparado para o batismo, e não poderá ser
recebido como membro de nossa irmandade. Será aconselhado a estudar
mais até que compreenda e aceite plenamente a divindade de Jesus
Cristo e Seu poder redentor. Não podemos permitir que se torne membro
Questões sobre Doutrina 86
quem nega o que cremos, e creia o que negamos, porque jamais
poderemos coexistir em harmonia. Contendas e desintegração seriam o
resultado.
Além disso, a Igreja Adventista do Sétimo Dia adota um Certifica-
do de Batismo que é dado ao candidato por ocasião do seu batismo. Ele
apresenta um sumário das crenças dos adventistas do sétimo dia. Após o
artigo 1, que trata da Trindade, o segundo artigo declara:
"2. Jesus Cristo, a segunda pessoa da Divindade e o eterno Filho de
Deus, é o único Salvador do pecado; e a salvação do homem é pela graça
por meio da fénEle (Mt 28:18,19; Jo 3:16; Mq 5:2; Mt 1:21; 2:5,6; At
4:12; 1Jo 5:11, 12; Ef 1:9-15; 2:4-8; Rm 3:23-26)."2
A seguir, na página 4, se encontra o "Voto Batismal"3 do candidato,
com treze precisas declarações a serem feitas afirmativamente antes de
ser ministrado o batismo, sendo após assinado e datado o certificado. A
primeira destas declarações refere-se à nossa crença em Deus o Pai,
Deus o Filho e o Espírito Santo. Na segunda da lista de declarações,
lemos:
"2. Aceita a morte de Jesus Cristo no Calvário como sacrifício pelos
pecados e crê que, pela fé em Seu sangue derramado, os homens são
salvos do pecado e de sua penalidade?"4
Este é o procedimento preparatório para o batismo na fé adventista.
Que este Certificado de Batismo é autorizado e de uso constante na
igreja, é visto pela sua inclusão em nosso Manual da Igreja oficial.
Parece-nos, portanto, que há muito menos probabilidade de alguém que
mantenha posição ariana ou unitariana entrar na Igreja Adventista do que
em outra comunhão protestante.
A segunda pergunta, como a primeira, é em grande parte hipotética.
Nossa posição pode ser vista nas instruções oficiais para a Igreja
Adventista do Sétimo Dia, o Manual da Igreja, que abrange deveres,
responsabilidades e procedimento nos relacionamentos eclesiásticos.
Esse livro foi aprovado e editado pela Associação Geral em sessão
Questões sobre Doutrina 87
regular. Com relação à autoridade e responsabilidade da igreja nestes
assuntos, lemos às páginas 218 e 219 (edição de 1951):
―O Redentor do mundo conferiu grande poder à Sua igreja. Ele
declara as regras a serem aplicadas em casos de demanda entre seus
membros. [...] Deus considera Seu povo um corpo responsável pelos
pecados que existam em seus membros. Se os dirigentes da igreja
negligenciam a obra de buscar diligentemente até descobrir os pecados
que atraem o desagrado de Deus sobre o corpo, tornam-se responsáveis
por esses pecados. [...] Caso haja erros evidentes entre Seu povo, e os
servos de Deus os passem adiante, indiferentes a isso, estão, por assim
dizer, apoiando e justificando o pecador, e são igualmente culpados,
incorrendo tão certo como ele no desagrado de Deus; pois serão tidos
como responsáveis pelos pecados do culpado.‖5
Na página 224, sob o título "Razões Para a Disciplina dos
Membros", encontram-se listados doze motivos definidos, que podem
servir de base para a remoção de um membro. Diz o primeiro:
"1. Negação da fé nos princípios fundamentais do evangelho e nas
doutrinas básicas da igreja, ou o ensino de doutrinas contrárias a eles."6
Estes "fundamentos do evangelho", ou "crenças fundamentais", se
encontram às páginas 29-36 do Manual da Igreja.7 O segundo, terceiro,
quarto e quinto destes fundamentos tratam da doutrina de Deus,
realçando nossa crença na Trindade, na onipotência, onisciência e eterna
existência do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Citamos:
"2. A Divindade, ou Trindade, consiste no Pai Eterno, Ser pessoal,
espiritual, onipotente, onipresente, onisciente, infinito em sabedoria e
amor; no Senhor Jesus Cristo, Filho do Pai Eterno, por quem todas as
coisas foram criadas e por quem se realizará a salvação dos remidos; no
Espírito Santo, terceira pessoa da Divindade, o grande poder regenerador
na obra da redenção (Mt 28:19).
"3. Jesus Cristo é verdadeiramente Deus, sendo da mesma natureza
e essência que o Pai Eterno. Conservando Sua natureza divina, tomou
Questões sobre Doutrina 88
sobre Si a natureza da família humana, vivendo na Terra como homem;
exemplificou em Sua vida, como nosso modelo, os princípios da justiça;
testificou Sua filiação divina por muitos poderosos milagres; morreu na
cruz por nossos pecados; foi ressuscitado dos mortos; e ascendeu para
junto do Pai, onde vive para sempre para fazer intercessão por nós (Jo
1:1; 14; Hb 2:9-18; 8:1, 2; 4:14-16; 7:25)."8
A quarta destas "crenças fundamentais" realça a natureza de nossa
salvação:
"4.Toda pessoa, para obter salvação, tem que passar pela
experiência do novo nascimento. Isso compreende a inteira
transformação da vida e do caráter pelo poder recriador de Deus
mediante a fé no Senhor Jesus Cristo (Jo 3:16; Mt 18:3; At 2:37-39)."9
A salvação, então, vem unicamente pela "fé no Senhor Jesus
Cristo". Portanto, quem se recusa a reconhecer a divindade de nosso
Senhor e Salvador Jesus Cristo não pode compreender nem experimentar
esse poder recriador em sua plenitude. Não apenas está desqualificado
para integrar a irmandade por sua própria descrença, mas na realidade
está fora do corpo místico de Cristo: a Igreja. E nada mais resta à igreja
fazer senão reconhecer esta separação devido à descrença, e agir em
harmonia com as instruções constantes no Manual da Igreja. A seção
das razões para remoção de um membro diz:
"Persistente negativa quanto a reconhecer a autoridade da igreja
devidamente constituída, ou por não querer submeter-se à ordem e à
disciplina da igreja."10
Embora se reconheça a autoridade da igreja em agir num caso
desses, a remoção de membro jamais se deve processar com precipita-
ção, mas somente depois de muito conselho, oração e esforço no sentido
de recuperar o faltoso. Em geral, na realidade, a pessoa que perde a fé
nos fundamentos do evangelho se encontra de tal maneira em
desarmonia com seus irmãos que se afasta voluntariamente, ou sua
conduta é tal que a igreja precisa tomar medidas.
Questões sobre Doutrina 89
A doutrina histórica da divindade de nosso Senhor e Salvador Jesus
Cristo é crença primordial da Igreja Adventista do Sétimo Dia.
A BASE HISTÓRICA DE UM MAL-ENTENDIDO11
Os adventistas do sétimo dia têm sido frequentemente mal-
entendidos quanto à sua crença relativa à divindade de Cristo e à
natureza da Divindade. As razões desse mal-entendido residem, de certo
modo, em questões de definição e fundo histórico.
No movimento interdenominacional milerita, ao qual pertenceram
os adventistas do sétimo dia, havia alguns dirigentes que eram membros
da denominação conhecida como "cristãos". Esse grupo proclamava não
possuir credo algum, mas valer-se exclusivamente da Bíblia, reeditando
a revolta arminiana do princípio do século 19 contra o calvinismo
eclesiástico-político dominante na Nova Inglaterra, e no qual o assenti-
mento à Confissão de Westminster era fator sine qua non. No seu zelo de
rejeitar tudo que não estivesse na Bíblia, os "cristãos" foram traídos pela
excessiva literalidade na interpretação da Divindade em termos de
relacionamentos humanos sugeridos pelas palavras "Filho", "Pai" e
"Unigênito",ou seja, para uma tendência de desacreditar a palavra não-
bíblica "Trindade" e sustentar que o Filho devia ter tido um princípio em
passado remoto. (Contudo, esse povo, a despeito de ser chamado ariano,
achava-se no pólo oposto ao dos arianos liberais e humanísticos que se
tornaram unitarianos, e cujas opiniões sobre Cristo O representavam
como mero homem.)
Alguns desses "cristãos" valorizavam mais a Bíblia como guia e
formadora do caráter do que a afiliação a determinada igreja. Por isso,
inclinaram-se a ouvir com simpatia a pregação revivalista de Guilherme
Miller na década de 1840 e acolheram bem os mileritas quando outras
igrejas lhes fechavam as portas. Contudo, no movimento milerita, a
especulação sobre a natureza da Divindade não desempenhou papel
importante.
Questões sobre Doutrina 90
Os primeiros adventistas do sétimo dia haviam sido mileritas,
provindos de várias denominações, e entre eles havia dois pregadores
"cristãos" e possivelmente também alguns membros leigos. A proporção
deles em nossa primitiva coletividade religiosa é desconhecida. Seus
parcos descendentes não influíram no pensamento de nossos membros,
nem a compreensão que tinham da Divindade se tornou parte de nossa
mensagem essencial para o mundo. Hoje, provavelmente, uma ínfima
parte de nossos membros talvez tenha apenas ouvido de alguma
controvérsia quanto a Cristo ter tido um princípio nas épocas imensurá-
veis do passado. E mesmo os pouquíssimos denominados "arianos" que
estiveram entre nós — embora errados em sua teologia especulativa em
torno da natureza das relações da Divindade — foram, como seus irmãos
mais ortodoxos, isentos de qualquer pensamento de diminuir a glória e
soberania de Jesus como Criador, Redentor, Salvador e Advogado.
Nosso povo sempre creu na divindade e preexistência de Cristo, a
maioria certamente ignorando qualquer divergência quanto aos exatos
relacionamentos da Divindade.Tampouco nossa pregação pública
discutiu a cristologia, mas pôs ênfase na mensagem distintiva da volta do
Senhor. Temos, contudo, declarações de Ellen G. White de pelo menos
1870 e 1880 sobre a divindade de Cristo e Sua unidade e igualdade com
Deus. A partir de 1890, ela expressou-se com crescente frequência e
firmeza no intuito de corrigir opiniões erradas mantidas por alguns -
como a noção literal de que Cristo como "Filho Unigênito" tivera, em
épocas remotas do passado, um princípio.
Por que, desde o princípio, ela não se expressou com mais energia?
Sem dúvida, pela mesma razão que aconselhava contra a busca de
controvérsia teológica com irmãos respeitáveis, embora errados, tendo
em vista a unidade nos principais aspectos da mensagem do iminente
retorno de Cristo. Todos se sentiam chamados por Deus para proclamar
essa mensagem ao mundo. Sua advertência, em suma, era: não importa
Questões sobre Doutrina 91
quão certos estejam, não agitem o assunto no tempo presente porque
causará desunião.
Nossa tolerância de algumas poucas teorias variáveis possivelmente
não foi um preço excessivamente elevado pago para nos livrar de
dogmatismos de credos e controvérsias, e manter a unidade de espírito e
esforço em nossa tarefa mundial.
Referências
l. A posição de auto-segurança provida pelos autores de Questões Sobre
Doutrina neste parágrafo não é mais tão óbvia como foi em meados da década de
1950. Enquanto ainda se supõe que um ministro adventista do sétimo dia não
batizaria uma pessoa que estivesse em desacordo com aquelas quatro crenças
fundamentais da denominação que tratam das pessoas da Trindade, também é
verdade que a denominação, nos anos finais do século 20 e início do 21, presenciou o
ressurgimento de um antitrinitarianismo e semi-arianismo sobre a base de que os
pioneiros fundadores da denominação sustentavam essas concepções. No início do
século 21, o assunto foi se tornando causador de divisão no adventismo em muitas
partes do mundo. No entanto, deve ser observado que o movimento atual é predomi-
nantemente dissidente e leigo. A posição oficial da denominação e a vasta maioria de
seus clérigos e leigos são firmemente trinitarianas.
2. Atualmente, essa declaração não é mais impressa no Certificado de Batismo.
Contudo, ela ainda é parte do "Sumário das Crenças Doutrinárias" provido para a
instrução dos candidatos ao batismo. Na edição de 2005 do Manual da Igreja, ela é
encontrada na página 218. Note-se que a primeira crença mencionada no Manual é
sobre Deus Pai, e não sobre a Trindade.
3. A igreja no Brasil atualmente não adota este certificado de 4 páginas, mas
um certificado com o voto batismal no verso e um local para assinatura de
compromisso do membro (nota do tradutor).
4. A redação do voto batismal mudou do formato de perguntas para o de
afirmação. O atual compromisso a ser assinado diz:
"2. Aceito a morte de Jesus Cristo no Calvário como o sacrifício expiatório
pelos meus pecados e creio que pela graça de Deus, mediante a fé em Seu sangue
derramado, sou salvo do pecado e de sua penalida-de."
5. Esta declaração ainda é encontrada no Manual da Igreja (edição de 2005, p.
188-189). Contudo, deve ser notado que a citação no livro Questões Sobre Doutrina
Questões sobre Doutrina 92
encobre o fato de que este parágrafo é, na verdade, constituído de três citações
distintas de Ellen White.
6. Na edição de 2005 do Manual da Igreja, esta declaração é encontrada na
página 194.
7. Como observado previamente, a declaração das Crenças Funda-mentais de
1980 tem 27 artigos. Na edição revisada de 2005 os artigos são 28. Esta declaração é
impressa na íntegra em cada edição do Year-book e do Manual da Igreja Adventista
do Sétimo Dia. A reprodução completa da declaração das 22 Crenças Fundamentais
de 1931, das 27 de 1980 e das 28 de 2005 é encontrada nesta edição do livro
Questões Sobre Doutrina no material introdutório classificado como "Crenças
Fundamentais dos Adventistas do Sétimo Dia".
8. Na declaração das Crenças Fundamentais de 2005, estas declarações sobre
as Pessoas da Trindade consistem de quatro artigos. Citamos:
"2. A Trindade - Há um só Deus: Pai, Filho e Espírito Santo, uma unidade de
três Pessoas co-eternas. Deus é imortal, onipotente, onisciente, acima de tudo e
sempre presente. Ele é infinito e está além da compreensão humana, mas é conhecido
por meio de Sua auto-revelação. É para sempre digno de culto, adoração e serviço
por parte de toda a criação (Dt 6:4; Mt 28:19; 2Co 13:13; Ef 4:4-6; 1Pe 1:2; 1Tm
l:17; Ap 14:7).
"3. O Pai - Deus, o Eterno Pai, é o Criador, o Originador, o Mantenedor e o
Soberano de toda a criação. Ele é justo e santo, compassivo e clemente, tardio em
irar-Se e grande em constante amor e fidelidade. As qualidades e os poderes
manifestados no Filho e no Espírito Santo também constituem revelações do Pai (Gn
1:1; Ap 4:1 1; 1Co 15:28; Jo 3:16; 1Jo 4:8; 1Tm 1:17; Êx 34:6, 7; Jo 14:9).
"4. O Filho - Deus, o Filho Eterno, encarnou-Se em Jesus Cristo. Por meio
dEle ioram criadas todas as coisas, é revelado o caráter de Deus, efetuada a salvação
da humanidade e julgado o mundo. Sendo para sempre verdadeiramente Deus, Ele
tornou-Se também verdadeiramente homem,Jesus, o Cristo. Foi concebido do Es-
pírito Santo e nasceu da virgem Mana.Viveu e experimentou a tentação como ser
humano, mas exemplificou perfeitamente a justiça e o amor de Deus. Por Seus
milagres manifestou o poder de Deus e provou que era o Messias prometido por
Deus. Sofreu e morreu voluntariamente na cruz por nossos pecados e em nosso lugar,
foi ressuscitado dentre os mortos e ascendeu para ministrar em nosso favor no
santuário celestial. Virá outra vez, em glória, para o livramento final de Seu povoe a
restauração de todas as coisas (Jo 1:1 -3,14; Cl 1:15-19; Jo 10:30; 14:9; Rm 6:23;
Questões sobre Doutrina 93
2Co 5:17-19; Jo 5:22; Lc 1:35; Fp 2:5-11; Hb 2:9-18; 1Co 15:3,4; Hb 8:l,2; Jo 14:1-
3).
"5. O Espírito Santo - Deus, o Espírito Eterno, desempenhou uma parte ativa
com o Pai e o Filho na Criação, Encarnação e Redenção. Inspirou os escritores das
Escrituras. Encheu de poder a vida de Cristo. Atrai e convence os seres humanos; e
os que se mostram sensíveis são por Ele renovados e transformados á imagem de
Deus. Enviado pelo Pai e pelo Filho para estar sempre com Seus filhos, Ele concede
dons espirituais à igreja, a habilita a dar testemunho de Cristo e, em harmonia com as
Escrituras, guia-a em toda a verdade (Gn 1:1,2; Lc l:35; 4:18; At 10:38; 2Pe 1:21;
2Co 3:18; Ef 4:11, 12; At 1:8; Jo 14:16-18,26; 15:26,27; 16:7-13)."
9. A natureza da salvação é refletida na crença número 10 da declaração das
Crenças Fundamentais de 2005. Ela diz:
"10. A Experiência da Salvação — Em infinito amor e misericórdia, Deus fez
com que Cristo, que não conheceu pecado. Se tornasse pecado por nós, para que nEle
fôssemos feitos justiça de Deus. Guiados pelo Espírito Santo, sentimos nossa
necessidade, reconhecemos nossa pecaminosidade. arrependemo-nos de nossas
transgressões e temos fé em Jesus como Senhor e Cristo, como substituto e exemplo.
Esta fé que aceita a salvação advém do divino poder da Palavra e é o dom da graça
de Deus. Por meio de Cristo, somos justificados, adotados como filhos e filhas de
Deus, e libertados do domínio do pecado. Por meio do Espírito, nascemos de novo e
somos santificados; o Espírito renova nossa mente, escreve a lei de Deus, a lei de
amor. em nosso coração, e recebemos o poder para levar uma vida santa.
Permanecendo nEle, tornamo-nos participantes da natureza divina e temos a certeza
da salvação agora e no juízo (2Co 5:17 21; Jo 3:16; Gl 1:4; 4:4-7; Tt 3:3-7; Jo 16:8;
Gl 3:13,14; 1Pe 2:21,22: Rm 10:17; Lc 17:5; Mc 9:23, 24; Ef 2:5-10; Rm 3:21-26: Cl
1:13. 14; Rm 8:14-17; Gl 3:26; Jo 3:3-8; 1Pe 1:23; Rm 12:2; Hb 8:7-12; Ez 36:25-
27; 2Pe 1:3,4; Rm 8:1-4; 5:6-10)."
10. Na edição de 2005 do Manual da Igreja, esta declaração é encontrada na
página 195, como artigo número 9.
11. Esta é uma das seções mais problemáticas do livro Questões Sobre
Doutrina. Para começar, a declaração final da página 49 [da edição de 1957], que
admite "teorias diversas" no adventismo sobre a Trindade e tópicos relacionados,
parece contradizer a primeira metade do capítulo, que enfatiza uma negação da
variação. A verdade é que tem sempre havido alguma diversidade de pontos de vista
nos tópicos durante o século e meio de adventismo, embora os dissidentes da posição
Questões sobre Doutrina 94
oficial trinitariana da denominação foram extremamente poucos desde os anos de
1950 até o início da década de 1990.
A declaração mais problemática nessa seção é encontrada na página 48 [edição
de 1957], onde os autores de Questões Sobre Doutrina afirmam que "nosso povo
sempre creu na divindade e preexistência de Cristo". Enquanto é verdade que os
primeiros adventistas criam em alguma forma de preexistência de Cristo, também é
verdade que muitos deles acreditavam que Ele não possuía eternidade no passado, e
uns poucos, como Uriah Smith, criam que Cristo era um ser criado. Assim, muitos
adventistas antes da década de 1890 eram antitrinitarianos e semi-arianos. Isto é,
eram opostos à doutrina da Trindade e à plena divindade de Cristo.
Como resultado, a declaração feita na página 46 da edição original de Questões
Sobre Doutrina de que os "adventistas do sétimo dia têm sido frequentemente mal-
entendidos quanto à sua crença relativa à divindade de Cristo e à natureza da
Divindade" é falsa no sentido histórico. A verdade é que muitos dos primeiros
adventistas não eram ortodoxos quanto à Divindade. Tiago White, José Bates,
J.N.Andrews. Uriah Smith, Ellet J.Waggoner e outros líderes estavam entre esse
número. A posição deles era bem conhecida na maior parte da comunidade
protestante. Dessa maneira, poderia ser argumentado que a denominação havia sido
compreendida em vez de mal-entendida nessas discussões em relação à Trindade.
Nesse ponto, os autores de Questões Sobre Doutrina podem não estar tão em
falta como a discussão acima parece indicar. Eles mesmos podiam ter estado em
verdadeira ignorância da ampla extensão do antitrinitarianismo e semi-arianismo
entre os pioneiros adventistas. Afinal, a primeira pesquisa histórica significativa
sobre o tópico foi completada em 1963, vários anos depois da publicação do livro
Questões Sobre Doutrina (ver Erwin R. Gane, "The Arian or Anti-Trinitarian Views
Presented in Seventh-day Adventist Literature and the Ellen G. White Answer", tese
de M. A., Andrews University, 1963; Russell Holt, "The Doctrine of theTrinity in the
Seventh-day Adventist Denomination: Its Rejection and Acceptance", monografia,
Andrews University, 1969).
Do lado menos favorável da questão em "falta" entre os autores de Questões
Sobre Doutrina está o fato de que tão tarde quanto 1971, em seu Movement of
Destiny (Washington, DC: Review and Herald, 1971, ver especialmente as páginas
269-299), LeRoy Edwin Froom, um dos principais autores de Questões Sobre
Doutrina, ainda estava se recusando a reconhecer a grande profundidade do
problema antitrinitari-ano entre a liderança pioneira adventista e o contínuo semi-
arianismo nos escritos de E. J.Waggoner na década de 1890.
Questões sobre Doutrina 95
Em seu desejo de ganhar a aceitação dos evangélicos, é possível que Froom e
os outros autores de Questões Sobre Doutrina tenham achado difícil lidar com os
problemas histórico-teológicos denominacio-nais em sua própria mente, quanto mais
em publicações. Enquanto os acordos e mal-entendidos dos autores do livro em
relação à posição histórica da denominação sobre a natureza de Cristo e a Divindade
eram problemáticos, a conduta seguida na abordagem da natureza humana de Cristo
foi ainda muito mais.
Os pontos válidos na discussão do tópico da posição histórica do adventismo
sobre a Divindade em Questões Sobre Doutrina são que (1) é verdade que a
"especulação sobre a natureza da Divindade não desempenhou parte importante" no
movimento milerita, (2) a Conexão Cristã (da qual José Bates e Tiago White vieram
para o adventismo) era um movimento amplamente antitrinitariano, (3) em meados
dos anos de 1950, era indubitavelmente verdade que "provavelmente apenas uma
minúscula porção de nossa membresia sequer já tivesse ouvido de qualquer discussão
quanto a se Cristo alguma vez teve um começo nas eras imensuráveis do passado", e
(4) foi Ellen White que finalmente direcionou a denominação para o estudo da Bíblia
que conclusivamente conduziu à afirmação da Trindade, à plena divindade de Cristo
e à personalidade do Espírito Santo.
Ellen White foi uma das poucas pessoas entre os líderes pioneiros adventistas
que não era agressivamente antitrinitariana. Conquanto isso seja verdade, também é
fato que suas antigas declarações não são claras quanto ao que ela cria. Mas, depois
da assembleia da Associação Geral de 1888, com sua ênfase em Cristo e a salvação
nEle, ela se tornou explicitamente clara sobre o ponto de vista trinitariano. Isso foi
especialmente verdadeiro em seu livro O Desejado de Todas as Nacões (1898), onde
escreveu que "em Cristo há vida original, não emprestada, não derivada" (p. 530).
Essa e outras declarações provaram ser bem controvertidas e impeliram os eruditos
adventistas a se voltarem para a Bíblia, onde chegaram à compreensão mais plena
dos tópicos relacionados à Divindade. (Para uma abordagem mais extensa do pontode vista histórico dos adventistas do sétimo dia sobre a Trindade, ver Woodrow
Whidden, Jerry Moon e John W. Reeve, A Trindade [Tatuí, SP: Casa Publicadora
Brasileira, 2003], p. 207-249; George R. Knight. Em Busca de Identidade: O
Desenvolvimento das Doutrinas Adventistas do Sétimo Dia [Tatuí: Casa Publicadora
Brasileira, 2005], p. 112-120, 157-160, 203, 16-18, 31. Para a mudança de
compreensão sobre a Trindade em Ellen White, ver George R. Knight, "Adventists
and Change", Ministry, outubro de 1993, p. 10-15.)
Questões sobre Doutrina 96
6
A Encarnação e o "Filho do Homem"
PERGUNTA 6
Que entendem os adventistas pelo uso que Cristo fez do título "Fílho
do homem"? E o que vocês consideram ter sido o propósito básico da
Encarnação?
A Palavra Inspirada e o Verbo Encarnado, ou o Verbo feito carne,
são pilares gêmeos na fé dos adventistas do sétimo dia, em comum com
todos os cristãos fieis.Toda nossa esperança de salvação repousa sobre
estas duas imutáveis provisões de Deus. Na verdade, consideramos a
encarnação de Cristo o fato mais assombroso, em si mesmo e nas suas
consequências, na história do homem, e chave de todas as providências
redentoras de Deus. Tudo antes da encarnação conduziu a ela; e tudo que
se segue depois procede dela. Isso envolve todo o evangelho e é
absolutamente essencial à fé cristã. Esta união da Divindade com a
humanidade - do Infinito com o finito, do Criador com a criatura, a fim
de que a Divindade pudesse ser revelada na humanidade - está além de
nossa compreensão humana. Por meio dessa provisão, Cristo uniu em
Sua própria Pessoa o Céu e a Terra, Deus e o homem.
Além disso, por ocasião de Sua encarnação, Cristo Se tornou o que
não era antes. Tomou sobre Si a forma corpórea humana, e aceitou as
limitações da vida corpórea humana, como o modo de viver enquanto
esteve na Terra entre os homens. Dessa maneira, a Divindade ligou-Se
com a humanidade numa única Pessoa, quando Ele Se tornou um e único
Deus-homem. Isso é básico em nossa fé. A morte expiatória vicária de
Cristo na cruz foi a consequência inevitável desta provisão original.
Quando Cristo Se identificou com a raça humana, através da
encarnação, o eterno Verbo de Deus entrou numa relação terrena de
Questões sobre Doutrina 97
tempo. Daí em diante, porém, desde que o Filho de Deus Se tornou
homem, não cessou de ser homem. Adotou a natureza humana e, ao
voltar a Seu Pai, não somente levou consigo a humanidade que assumira
pela encarnação, como reteve para sempre Sua perfeita natureza humana
— identificando-Se eternamente com a raça que redimira. Isso tem sido
expresso de forma clara por uma de nossas mais preeminentes escritoras,
Ellen G.White:"Ao tomar a nossa natureza, o Salvador ligou-Se à
humanidade por um laço que jamais se partirá. Ele nos estará ligado por
toda a eternidade" (O Desejado de Todas as Sacões, p. 25).
I. O FILHO DE DEUS SE TORNA FILHO DO HOMEM
Pela encarnação, a majestade e glória do Verbo Eterno, o Criador e
Senhor do Universo, ficaram veladas (Jo 1:1-3). E aconteceu então que o
Filho de Deus Se tornou Filho do homem — expressão usada mais de
oitenta vezes no Novo Testamento.Tomando sobre Si a humanidade,
tornou-Se um com a raça humana para que pudesse revelar a paternidade
de Deus à raça pecadora e remir a humanidade perdida. Por ocasião da
Sua encarnação, tornou-Se carne. Teve fome, teve sede, sentiu cansaço.
Necessitou de alimento e repouso, e restaurou-Se pelo sono. Partilhou a
sorte do homem, carecendo de simpatia e necessitando de assistência
divina. Contudo, sempre permaneceu o inculpável Filho de Deus.
Ele jornadeou na Terra, foi tentado e provado, foi tomado pelos
sentimentos de nossas enfermidades humanas; contudo, viveu uma vida
totalmente livre de pecado. Sua humanidade foi genuína e verdadeira,
passando pelos vários estágios do crescimento, como qualquer outro
membro da raça humana. Esteve sujeito a José e Maria, e foi um
adorador na sinagoga e no templo. Chorou sobre a culpada cidade de
Jerusalém e na sepultura de uma pessoa amada. Expressou Sua
dependência de Deus em oração. Contudo, todo o tempo reteve Sua
divindade — um e único Deus-homem. Foi o segundo Adão, que veio na
"semelhança" da carne humana pecaminosa (Rm 8:3); porém, sem
Questões sobre Doutrina 98
mancha de suas propensões e paixões pecaminosas (ver também o
Apêndice B).1
A primeira vez que aparece o título "Filho do homem" no Novo
Testamento é aplicado a Jesus como um peregrino sem lar. sem mesmo
um lugar onde pender a cabeça (Mt 8:20); e a última vez, como um Rei
glorificado, prestes a vir (Ap 14:14). Foi na qualidade de Filho do
homem que veio para salvar os perdidos (Lc 19:10). Como Filho do
homem atribuia-Se autoridade para perdoar pecados (Mt 9:1-8). Como
Filho do homem semeou a semente da verdade (Mt 13:37), foi traído (Mt
17:22; Lc 22:48), foi crucificado (Mt 26:2), ressurgiu dos mortos (Mc
9:9) e ascendeu ao Céu (Jo 6:62).
De idêntica maneira, como Filho do homem está agora no Céu (At
7:56) e cuida de Sua igreja na Terra (Ap 1:12, 13. 20). Além disso, é
como Filho do homem que Ele voltará nas nuvens do céu (Mt 24:30;
25:31). E como Filho do homem executará o juízo (Jo 5:27) e receberá
Seu reino (Dn 7:13, 14). Este é o registro inspirado acerca de Seu papel
como Filho do homem.
II - MIRACULOSA UNIÃO DO DIVINO COM O HUMANO
Cristo Jesus nosso Senhor era uma união miraculosa da natureza
divina com nossa natureza humana. Era o Filho do homem enquanto
esteve aqui na carne, mas era também o Filho de Deus. O mistério da
encarnação é claramente e definitivamente expresso nas Escrituras
Sagradas.
"Grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na
carne" (1Tm 3:16). "Deus estava em Cristo" (2Co 5:19). "OVerbo Se fez
carne e habitou entre nós" (Jo 1:14).
Que maravilhosa verdade! Ela foi referida por Ellen G.White como
segue:
"Ele vestiu Sua divindade com a humanidade. Durante todo o
tempo foi Deus, mas não apareceu como Deus.Velou as demonstrações
Questões sobre Doutrina 99
de Divindade que impunham a veneração e exigiam a admiração do
Universo de Deus. Foi Deus enquanto esteve na Terra; porém, Se
desvestiu da forma de Deus e, em seu lugar, assumiu a forma de um
homem. Andou na Terra como homem. Tornou-Se pobre para que por
meio de Sua pobreza pudéssemos tornar-nos ricos. Pôs de lado Sua
glória e majestade. Era Deus, mas as glórias pertinentes a Deus, Ele por
algum tempo as renunciou" (Review and Herald, 5 de julho de 1887).
"Quanto mais pensarmos acerca da vinda de Cristo como um bebê
na Terra, tanto mais maravilhoso isso nos afigura. Como pode ser que a
criancinha indefesa na manjedoura de Belém fosse ainda o divino Filho
de Deus? Embora não possamos compreender isso, podemos crer que
Aquele que fez os mundos tornou-Se um frágil bebê por nossa causa.
Embora mais elevado do que qualquer dos anjos, embora tão grande
como o Pai no trono do Céu, Ele Se tornou um conosco. Nele, Deus e
homem se tornaram um, e é nesse fato que encontramos a esperança para
a nossa raça caída. Contemplando a Cristo na carne, contemplamos a
F)eus em humanidade, e vemos nEle o fulgor da glória divina, a expressa
imagem de Deus, o Pai (The Youth's Instructor, 21 de novembro de
1895).
"O Criador dos mundos. Aquele em quem habitava corporalmente a
plenitude da Divindade. Se manifestou no indefeso bebê na manjedoura.
Muito mais elevado do que qualquer dos anjos, igual ao Pai em
dignidade e glória, e, contudo, revestido da humanidade! A divindade e a
humanidade combinaram-se misteriosamente, e o homeme Deus se
tornaram um. E nessa união que encontramos a esperança de nossa raça
decaída. Contemplando a Cristo em humanidade, contemplamos a Deus,
e vemos nEle o brilho de Sua glória, a expressa imagem de Sua pessoa"
(Signs of the Times, 30 de julho de 1896).
Em ambas as naturezas, a divina e a humana, Ele foi perfeito; foi
sem pecado. Não há a menor dúvida de que isso é verdade quanto à Sua
natureza divina. Quanto à Sua humanidade é também verdade. Em Seu
Questões sobre Doutrina 100
desafio aos fariseus de Seus dias. Ele disse:"Quem dentre vós Me
convence de pecado?" (Jo 8:46). O apóstolo dos gentios declarou que Ele
"não conheceu pecado" (2Co 5:21); que Ele era "santo, inculpável, sem
mácula, separado dos pecadores" (Hb 7:26). Pedro pôde testificar que
Ele "não cometeu pecado" (1Pe 2:22); e João, o amado, nos assegura que
"nEle não existe pecado" (1Jo 3:5). Não apenas os Seus amigos
realçaram-Lhe a natureza sem pecado; também Seus inimigos o fizeram.
Pilatos foi forçado a confessar não ter encontrado nEle nenhuma culpa
(Lc 23:14). A esposa de Pilatos avisara o marido para que não entrasse
na questão desse justo (Mt 27:19). Os próprios demónios foram
compelidos a reconhecer-Lhe a filiação divina e consequentemente Sua
divindade. Quando lhes foi ordenado que saíssem do homem a quem
deixaram possesso, retrucaram: "Que temos nós contigo, ó Filho de
Deus!" (Mt 8:29). O evangelho de Marcos registra "o Santo de Deus"
(Mc 1:24).
Escreveu Ellen G. White: Ele tomou "a natureza, mas não a
pecaminosidade do homem" (Signs of the Times, 29 de maio de 1901).
"Não devemos ter nenhuma dúvida em relação ã perfeita
impecabilidade da natureza humana de Cristo" (The SDA Bible
Commentary, v. 5, p. 1131).
Por que tomou Cristo a natureza humana? Isso foi dito com
propriedade como segue:
"Pondo de lado Suas vestes e coroa reais, Cristo vestiu Sua
divindade com a humanidade, para que os seres humanos pudessem
erguer-se de sua degradação e ser colocados em posição de
superioridade. Cristo não podia ter vindo à Terra com a glória que
possuía nas cortes celestiais. Seres humanos pecadores não suportariam
vê-Lo. Ele velou Sua divindade com a roupagem da humanidade; porém,
não Se desfez de Sua divindade. Salvador divino-humano, Ele veio para
colocar-Se à frente dos seres caídos, e compartilhar na experiência deles
desde a meninice até a varonilidade. Para que os seres humanos
Questões sobre Doutrina 101
pudessem participar da natureza divina, Ele veio à Terra, e viveu em
perfeita obediência." (Ellen G. White, Review and Herald, 15 de junho
de 1905, itálicos acrescentados).
"Cristo tomou sobre Si a humanidade, a fim de alcançar a
humanidade. [...] Eram necessários tanto o divino como o humano para
trazer salvação ao mundo." (O Desejado de Todas as Nações, p. 296).
"Revestindo-Se da humanidade, Cristo veio para ser um com ela e
ao mesmo tempo revelar nosso Pai celestial a seres humanos
pecaminosos. Em tudo Se fez semelhante a Seus irmãos. Tornou-Se
carne, assim como somos. Tinha fome, sede, fadiga. Era sustentado pelo
alimento e refrigerado pelo sono. Partilhou da sorte dos homens, e
todavia era o irrepreensível Filho de Deus. Era peregrino e forasteiro na
Terra — estava no mundo, mas não era do mundo; tentado e provado
como o são hoje em dia homens e mulheres, mas vivendo, não obstante,
vida isenta de pecado." (Testemunhos Para a Igreja, v. 8, p. 286).
De novo acentuamos que, em Sua natureza humana, Cristo foi
perfeito e sem pecado.
A este respeito, algo de importância vital deve ser considerado.
Aquele que é sem pecado, nosso bendito Senhor, voluntariamente tomou
sobre Si a carga e penalidade de nossos pecados. Este foi um ato que se
efetivou em pleno consenso e cooperação com Deus, o Pai.
Deus "fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos" (Is 53:6).
"Quando der Ele a Sua alma como oferta pelo pecado" (v. 10).
Contudo, isso se constituiu ato voluntário de nosso bendito
Salvador, pois lemos:
"As iniquidades deles levará sobre Si" (v. 11).
"Derramou a Sua alma na morte" (v. 12).
"Carregando Ele mesmo em Seu corpo, sobre o madeiro, os nossos
pecados" (1Pe 2:24).
"Como membro da família humana, era mortal; mas, como Deus,
era a fonte da vida do mundo. Podia, em Sua pessoa divina, haver detido
Questões sobre Doutrina 102
continuamente as investidas da morte, e haver-Se recusado a ficar sob
seu domínio; porém, Ele depôs voluntariamente a vida, para que, assim
fazendo, pudesse dar vida e trazer à luz a imortalidade. [...] Que
humilhação! Causou espanto aos anjos. A língua jamais a pode
descrever; não a pode abranger a imaginação. O Verbo eterno consentiu
em fazer-Se carne. Deus tornou-Se homem! Maravilhosa humildade!"
(Ellen G. White, Review and Herald, 5 de julho de 1887, itálicos
acrescentados).
Somente o impecável Filho de Deus podia ser nosso substituto.
Nosso impecável Redentor fez isso. Tomou sobre Si os pecados do
mundo inteiro, mas, ao fazê-lo, não houve nEle a mais leve mancha de
corrupção. A Bíblia Sagrada, contudo, diz que Deus "O fez pecado por
nós" (2Co 5:21). Essa expressão paulina tem desconcertado teólogos
durante séculos, mas, por mais que signifique, certamente não quer dizer
que nosso imaculado Senhor Se tornou um pecador. O texto declara que
Ele foi feito "[como] pecado". Portanto, deve significar que Ele tomou
nosso lugar, que morreu em nosso lugar, que "foi contado com os
transgressores" (Is 53:12) e que tomou o fardo e a penalidade que nos
cabiam.
Todos os fiéis cristãos reconhecem este ato redentor de Jesus na
cruz do Calvário. Sobre este fato há abundância de testemunho
escriturístico.
Os escritos de Ellen G.White acham-se inteiramente em harmonia
com os textos bíblicos a respeito do assunto.
"O Filho de Deus suportou a ira de Deus contra o pecado. Todos os
pecados acumulados do mundo foram lançados sobre o Portador de
pecado, Aquele que era inocente, o único Ser que podia ser a propiciação
pelo pecado, porque Ele próprio fora obediente. Ele era um com Deus.
Sobre Ele não havia sequer uma mancha de corrupção'' (Signs of the
limes, 9 de dezembro de 1897, itálicos acrescentados).
Questões sobre Doutrina 103
"Como um conosco, cumpria-Lhe suportar o fardo de nossa culpa e
aflição. O Inocente devia sentir a vergonha do pecado. O amigo da paz
tinha que habitar entre a luta, a verdade com a mentira, a pureza com a
vileza. Todo pecado, toda discórdia, toda contamiuadora concupiscên-
cia trazida pela transgressão, Lhe era uma tortura para o espirito. [...]
Sobre Aquele que abrira mão de Sua glória, e aceitara a fraqueza da
humanidade, devia repousar a redenção do mundo" (O Desejado de
Todas as Nações, p. 111, itálicos acrescentados).
"O peso dos pecados do mundo oprimia-Lhe a alma, e Seu
semblante expressou angústia indescritível, uma aflição tão profunda
que o homem caído jamais concebera. Sentira a torrente arrasadora da
desgraça que inundara o mundo. Compreendera a força do apetite
acariciado e paixões não santificadas que dominavam o mundo" (Review
and Herald, 4 de agosto de 1874).
"Justiça completa foi feita na expiação. Em lugar do pecador, o
imaculado Filho de Deus recebera a penalidade, e o pecador ficou livre
ao receber a Cristo e apegar-se a Ele como seu Salvador pessoal. Embora
culpado, é considerado inocente. Cristo cumpriu todas as reivindicações
exigidas pela justiça" (The Youth’s Instructor, 25 de abril de 1901,
itálicos acrescentados).
"Sem culpa, Ele suportou a punição da culpa. Inocente, contudo Se
ofereceu como substituto do transgressor. A culpa de cadapecado pesou
sobre a divina alma do Redentor do mundo" (Sígns of the Times, 5 de
dezembro de 1892, itálicos acrescentados).
Tudo isso Ele suportou vicariamente. Tudo isso tomou sobre Sua
alma inocente e levou na cruz cruel.
Há outro aspecto dessa questão que necessita ser realçado: é o fato
de Jesus não apenas ter sido portador das "iniquidades de todos nós",
mas tomar e levar algo mais, algo intimamente relacionado com nossos
pecados.
Questões sobre Doutrina 104
"Certamente, Ele tomou sobre Si as nossas enfermidades" (Is 53:4).
Era "Homem de dores e que sabe o que é padecer" (v. 3).
Assim Mateus se refere a esta passagem:
"Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as
nossas doenças" (Mt 8:17).
A versão de Weymouth assim declara: "Ele tomou sobre Si nossas
fraquezas e levou o tardo de nossas doenças."
Uma outra tradução inglesa, a Twentieth Century, diz:
"Ele tomou nossas enfermidades sobre Si e levou a carga das nossas
doenças."
Enquanto Ele levava (grego phero, Septuaginta) nossas iniquidades
(Is 53:11), também levava (grego anaphero) nossas debilidades (Mt
8:17,Weymouth).
Observemos o que está implicado nisso. Notemos as palavras
empregadas para expressar o pensamento tanto em Isaías 53 como em
Mateus 8. Ele levou nossas dores, nossos sofrimentos, nossas
enfermidades ou moléstias. As palavras originais também se traduzem
por moléstias, fraquezas, debilidades.
Sobre isso notemos o seguinte nos escritos de Ellen G.White:
"Ele esteve sujeito às enfermidades e fraquezas que cercam o
homem ‗para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta
Isaías: Ele tomou nossas enfermidades e carregou com as nossas
doenças‘. Ele foi tocado pelo sentimento de nossas enfermidades, e em
todos os pontos foi tentado como o somos. E, contudo, ‘não conheceu
pecado’. Era o Cordeiro ‗sem culpa e sem mancha‘. [...] Não devemos
ter dúvidas quanto a perfeita impecaminosidade da natureza humana de
Cristo" (Signs of the Times, 9 de junho de 1898, itálicos acrescentados).
"Ele não Se contaminava com a corrupção, era um estranho ao
pecado, e contudo orava, e isto muitas vezes com forte clamor e
lágrimas. Orava por Seus discípulos e por Si mesmo, assim Se
identificando com nossas necessidades, com nossas fraquezas e filhas,
Questões sobre Doutrina 105
tão comuns à humanidade. Era um poderoso solicitador, não possuindo
as paixões de nossa natureza humana caída, mas rodeado das mesmas
enfermidades, tentado em todos os pontos como nós o somos. Jesus
suportou sofrimentos que requeriam ajuda e sustento da parte de Seu
Pai" (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 508-509, itálicos acrescenta-
dos).
"Ele é irmão em nossas fraquezas, mas não em possuir idênticas
paixões. Sendo sem pecado, Sua natureza recuava do mal. Jesus
suportou lutas e torturas íntimas, em um mundo de pecado. Sua
humanidade tornava a oração necessidade e privilégio. Reivindicava
todo o mais forte apoio divino e o conforto que o Pai estava pronto a
conceder-Lhe - a Ele que, em beneficio do homem, havia deixado as
alegrias do Céu, preferindo morar em um mundo frio e ingrato" (ibid., p.
202, itálicos acrescentados).
Tanto do registro de Isaías como do de Mateus, dificilmente se pode
interpretar que Jesus tivesse ficado doente ou que tivesse experimentado
as fragilidades de que a raça caída é herdeira. Mas Ele suportou tudo
isso. Não se daria que Ele suportasse isso também vicariamente,2 da
mesma forma como suportou os pecados de todo o mundo?
Essas fraquezas, fragilidades, enfermidades e deficiências são
coisas que nós, devido à nossa natureza pecaminosa e caída, temos que
suportar. Para nós, elas são naturais e inerentes; porém, quando Ele as
suportou, não as tomou como alguma coisa que Lhe era inata, mas
suportou-as como nosso substituto. Observamos de novo que Cristo
suportou tudo isso vicariamente, da mesma forma como vicariamente
levou as iniquidades de todos nós.
É nesse sentido que todos devemos entender os escritos de Ellen G.
White ao referir-se, de quando em quando, à natureza humana
pecaminosa, caída e arruinada. Lemos que Jesus tomou "nossa natureza"
(O Desejado de Todas as Nações, p. 25); "tomou sobre Si a natureza
humana" (The SDA Bible Commentary, v. 5, p. 1128); "tomou sobre Sua
Questões sobre Doutrina 106
natureza sem pecado a nossa pecaminosa natureza" (Medicina e
Salvação, p. 181); tomou "nossa natureza caída" (Special Instruction
Relating to the Review and Herald Office, p. 13, 26 de maio de 1896);
tomou "a natureza do homem em sua condição caída" (Signs of the
Times, 9 de junho de 1898).
Todas essas declarações são convincentes e taxativas, mas
certamente nenhuma tem o propósito de dar sentido àquelas que
circulam em contrário ao que a mesma escritora apresentou em outros
lugares de suas obras. Notemos o contexto em que são empregadas essas
expressões.
Ele tomou "a natureza do homem, mas não a sua pecaminosidade"
(Signs of the Times, 29 de maio de 1901).
Ele tomou "a natureza do homem em sua condição caída, mas [...]
de maneira nenhuma participou de seus pecados" (The SDA Bible
Commentary, v. 5, p. 1131).
"Ele é um irmão em nossas fraquezas, mas não em possuir idênticas
paixões" (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 202).
Assim, "Se identificando com nossas necessidades, com nossas
fraquezas e falhas, [...] era um poderoso solicitador, não possuindo as
paixões de nossa natureza humana, caída" (Testemunhos Para a Igreja,
v. 2, p. 508, 509, itálicos acrescentados).
"Não devemos ter dúvidas quanto à perfeita impecaminosidade da
natureza humana de Cristo" (The SDA Bible Commentary, v. 5, p. 1131,
itálicos acrescentados).
O Filho de Deus "tornou-Se como um de nós, exceto no pecado"
(TheYouth's Iustructor, 20 de outubro de 1886, itálicos acrescentados).
"Não havia nEle a menor mancha de corrupção" (Signs of the
Times, 9 de dezembro de 1897, itálicos acrescentados).
Deve-se notar nas declarações citadas que, embora a escritora
mencione que Jesus tomou nossa natureza, Ele próprio não era pecador,
mas sem pecado.
Questões sobre Doutrina 107
O que quer que Jesus haja tomado, não era intrinsecamente ou
inerentemente Seu. O fato de Ele haver tomado o fardo de nossas
fraquezas e filhas herdadas, mesmo depois de quatro mil anos de
enfermidades e degenerescência acumuladas (O Desejado de Todas as
Nações, p. 49, 117), não manchou, nem em mínimo grau, Sua natureza
humana. "Ele tomou sobre Sua natureza sem pecado a nossa pecaminosa
natureza" (Medicina e Salvação, p.l81)."Não devemos ter nenhuma
dúvida acerca da perfeita ausência de pecado na natureza humana de
Cristo" (The SDA Bible Commentary, v. 5, p. 1131).
"Ele voluntariamente assumiu a natureza humana. Foi um ato
espontâneo, por Seu próprio consentimento" (Review and Herald, 5 de
julho de 1887).
Sujeitou-Se "voluntariamente Se submetendo a todas as condições
humilhantes da natureza humana" (Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p.
458),"assumindo a forma de servo" (Fp 2:7). Tomou sobre Si "a
descendência de Abraão" (Hb 2:16) para que fosse feito "pecado por
nós" (2Co 5:21) e para que Se tornasse em todas as coisas "semelhante
aos irmãos" (Hb 2:17).
Tudo que Jesus tomou, tudo que suportou, quer fossem o fardo e a
penalidade de nossas iniquidades, ou as doenças e fragilidades de nossa
natureza humana - tudo foi tomado e suportado vicariamente. Assim
como o suportar vicariamente os pecados de todo o mundo não maculou
Sua alma perfeita e sem pecado, tampouco o suportar as doenças e
fragilidades de nossa natureza caída O manchou sequerem mínimo grau
com a corruptora influência do pecado.
Lembremo-nos sempre de que nosso bendito Senhor era sem
pecado. "Não devemos ter nenhuma dúvida acerca da perfeita ausência
de pecado na natureza humana de Cristo" (The SDA Bible Commentary,
v. 5, p. 1131).
"Ao tratarmos da humanidade de Cristo, necessitamos cuidar
energicamente de cada afirmação, para que nossas palavras não venham
Questões sobre Doutrina 108
a ser tomadas para significarem mais do que implicam, e assim
perdermos de vista ou obscurecermos as claras percepções de Sua
humanidade combinada com a divindade. Seu nascimento foi um
milagre de Deus. [...] 'O Santo, que de ti [Maria] há de nascer, será
chamado Filho de Deus.' [...] Nunca, de modo algum, deixemos a mais
leve impressão na mente humana de que uma mancha de corrupção ou
inclinação para ela havia em Cristo, ou que Ele, de algum modo, cedeu à
corrupção. Ele foi tentado em todos os pontos como o homem, contudo é
chamado 'o Santo'. Este é um mistério não desvendado aos mortais:
Cristo poder ser tentado em todos os pontos como o somos, mas ficar
sem pecado. A encarnação de Cristo sempre tem sido e continuará a ser
mistério. Aquilo que foi revelado é para nós e nossos filhos; contudo,
cada ser humano se precavenha de tornar Cristo totalmente humano,
como um de nós; pois isso é impossível" (The SDA Bible Commentary,
v. 5, p. 1128, 1129).
Que Salvador maravilhoso é Jesus, nosso Senhor!
III. PODIA CRISTO TER PECADO?
Esta questão vital apresenta diversidade de opiniões na igreja cristã
em geral. Alguns julgam que era impossível Jesus pecar; outros, que era
possível. Associamo-nos aos últimos em nossa maneira de compreender
o assunto e, assim como em muitos outros aspectos da doutrina cristã,
eminentes eruditos da igreja através dos séculos têm-se expressado de
maneira muito semelhante à nossa. Nossa posição sobre isto foi bem
definida por Ellen G.White:
"Muitos sustentam que era impossível Cristo ser vencido pela
tentação. Neste caso, não teria sido colocado na posição de Adão; não
poderia haver obtido a vitória que aquele deixara de ganhar. Se
tivéssemos, em certo sentido, um mais probante conflito do que teve
Cristo, então Ele não estaria habilitado para nos socorrer. Mas nosso
Salvador Se revestiu da humanidade com todas as contingências da
Questões sobre Doutrina 109
mesma. Tomou a natureza humana com a possibilidade de ceder a
tentação. Não temos que suportar coisa nenhuma que Ele não tenha
sofrido. [...] Cristo venceu em favor do homem pela resistência à mais
severa prova" (O Desejado de Todas as Nações, p. 117).
É evidente que, no passado, teólogos respeitados sustentaram a
mesma ideia. Notemos o que se segue:
"Se Ele tivesse sido dotado, desde o princípio, de absoluta
impecabilidade, ou da impossibilidade de pecar, não poderia ter sido
verdadeiramente homem, nem nosso modelo. Sua santidade, em vez de
ser um ato adquirido por Si mesmo e um mérito inerente, seria um dom
acidental ou exterior, e Sua tentação uma exibição irreal. Tendo sido
verdadeiramente humano, Cristo deve ter sido um agente moral livre e
responsável: liberdade implica a faculdade de escolha entre o bem e o
mal, e a faculdade de desobedecer ou obedecer à lei de Deus (Philip
Schaff, The Person of Christ, p. 35, 36).
"Se deve ser passada por alto a verdade [...] de que a força da
tentação era suficientemente forte para criar a consciência de uma luta,
então todo o percurso da prova moral pela qual Jesus passou na Terra se
degenera de uma vez em mera exibição teatral. [...] Em nosso tempo essa
ideia docetista não tem aceitação. Teólogos de todas as escolas
concordam que as forças do mal, contra as quais o Filho do homem
travou tão admirável combate, não eram sombras, mas inimigos reais e
poderosos" (Alexander B. Bruce, The Humiliation of Christ, p. 268).
"Sempre que atribuímos a Jesus, na maneira devida e no sentido das
Escrituras, todos os elementos morais do homem, não devemos separar
deles a liberdade que é a taculdade de escolher entre o bem e o mal; e
por essa razão devemos admitir como compreensível que Ele pudesse em
alguma ocasião ter sido influenciado a um desvio da vontade de Deus. A
menos que isso seja admitido, a história da tentação, por melhor que
possa ser explicada, não teria significado algum; e ficaria sem sentido
Questões sobre Doutrina 110
esta expressão que encontramos na epístola aos Hebreus: 'Ele foi tentado
em todos os pontos como nós'."
"Como Jesus era completamente homem, essa suscetibilidade e essa
possibilidade devem supor-se ter coexistido nEle. Se não coexistissem
dessa forma, Ele teria deixado de ser um exemplo de perfeita moralidade
humana" (Karl Ullmann, An Apologetic View on the Sinless Character of
Jesus [1841], p. 11).
"Não devemos entender pela expressão [impecaminosidade de
Jesus] uma impossibilidade absoluta de pecar, mas unicamente o fato
real de não pecar. O que está contido em uma natureza racional e livre,
inseparável deste fato, é a mais elevada perfeição moral e santidade"
(ibid., p. 13).
IV. O PROPÓSITO DA ENCARNAÇÃO
Quanto ao propósito da encarnação de Cristo, a resposta aparece
nos textos que apoiam os seguintes seis pontos, que resumem as razões
de Sua vinda à Terra em forma humana.
l.Veio para revelar Deus ao mundo (Jo 1:14, 18; 3:1-36; 17:6. 26:
1Jo 1:2; 4:9).
2. Veio para unir Deus e o homem (Jo 1:51; comparar com Gn
28:12; Mt 1:23; 1Pe 3:18).
3.Veio para identificar-Se com o homem pelo nome. E chamado o
"Filho do homem" 77 vezes nos Evangelhos (como em Lucas 19:10).
4.Veio para levar os pecados da humanidade (Is 53:6,11; Jo 1:29;
1Pe 2:24; 1Jo 3:5).
5.Veio para morrer em nosso lugar (Is 53:5-10; Mt 26:28; At 20:28;
Rm 4:25; 5:6-10; 1Co 15:3; Gl 1:4; 1Tm 2:6; Hb 2:9; 1Pe 1:18, 19; 2:24;
3:18).
6.Veio para destruir o diabo e suas obras (Jo 12:31; 16:33; Hb 2:14;
1Jo 3:8).
Questões sobre Doutrina 111
V. UM MISTÉRIO INSONDÁVEL
Ao considerarmos assunto de tal transcendência e importância vital
como a encarnação de Cristo, temos sempre que nos lembrar de que há
muitos aspectos que não podemos penetrar. Mesmo quando captamos
um vislumbre de verdade, a linguagem humana é inteiramente
inadequada para expressar as maravilhas e belezas do mistério
incomparável e inimitável da encarnação de Jesus Cristo. Ellen G.White
escreveu:
"Ao contemplarmos a encarnação de Cristo em humanidade,
ficamos pasmados diante de um mistério insondável, que a mente
humana não pode compreender. Quanto mais refletimos sobre ela, tanto
mais assombrosa ela parece" (Signs of the Times, 30 de julho de 1896).
Ainda que isso seja verdadeiro, há, graças a Deus, certos aspectos
da verdade que têm sido revelados. E o que se tornou conhecido na
Palavra de Deus é para nosso estudo. A mesma autora escreveu o
seguinte sobre este ponto:
"Quando queremos estudar um problema profundo, fixemos nossa
mente na coisa mais maravilhosa que ocorreu na Terra ou no Céu - a
encarnação do Filho de Deus" (Manuscrito 76, 1903).
Referências
1. Para uma discussão mais completa sobre este tópico, ver as páginas 277-278;
437-445 do livro. [Pergunta 33, ítem IX; Apêndice B].
2. As páginas 59-62 da edição de 1957 estabelecem a posição bastante curiosa
de que Cristo tomou a natureza humana vicariamente de maneira idêntica à que
carregou o pecado humano vicariamente. Isto é, de acordo com o livro Questões
Sobre Doutrina, em Sua encarnação, Cristo realmente não tomou as enfermidades e
as fraquezas humanas como sendo Suas de maneira inata, mas apenasem sentido
vicário ou substitumte.
Essa posição certamente não é exposta no Novo Testamento nem foi sustentada
por Ellen White. No Desejado de Todas as Nações, ela declara que "Jesus aceitou a
humanidade quando a raça tinha sido enfraquecida por quatro mil anos de pecado.
Questões sobre Doutrina 112
Como qualquer filho de Adão Ele aceitou os resultados da operação da grande lei de
hereditariedade" (p. 49).
E mais: "Por quatro mil anos a raça tinha estado decrescendo em força física,
em poder mental, e em dignidade moral; e Cristo tomou sobre Si as enfermidades da
humanidade degenerada" (p. 117, itálicos acrescentados).
Dessa maneira, de acordo com Ellen White, na encarnação Cristo de fato, em
vez de vicariamente, tomou sobre Si a "nossa natureza pecaminosa" (Review and
Herald, 15 de dezembro de 1896, p. 789). Ou, conforme ela diz em citação
semelhante, "Ele tomou sobre Si mesmo a natureza humana caída e sofredora,
degradada e contaminada pelo pecado" (TheYouth’s Instructor, 20 de dezembro de
1900, p.394). Como resultado, Cristo encarnou em um corpo que estava sujeito à
fadiga, à dor e á morte. Tornou-Se um com a humanidade de maneira que "é um
irmão em nossas fraquezas, mas não em possuir idênticas paixões" (Testemunhos
Para a Igreja, v. 2, p. 202).
As razões pelas quais os autores de Questões Sobre Doutrina apresentam o
argumento de que Cristo tomou a natureza humana "vicariamente" serão examinadas
em nossa nota principal sobre a natureza humana de Cristo relacionada ao Apêndice
B (ver também a Introdução Histórica e Teológica à Edição Anotada).
Questões sobre Doutrina 113
7
A Ressurreição Corpórea de Cristo
PERGUNTA 7
Qual é a posição adventista do sétimo dia sobre a ressurreição física
ou corpórea de Cristo?
Nós, adventistas do sétimo dia, cremos na ressurreição física ou
corpórea de Jesus Cristo tão certamente como cremos em Sua morte
expiatória no Calvário. Esta é uma doutrina primordial da fé cristã, pois
o cristianismo repousa no fato indisputável de que Cristo ressurgiu dos
mortos (1Co 15:17).
A ressurreição de Cristo não deve ser entendida apenas no sentido
espiritual. Ele, de fato, ressurgiu dos mortos. Aquele que saiu da tumba
era o mesmo Jesus que vivera em carne. Ressurgiu num corpo
glorificado, mas real — tão real que as mulheres que foram ao sepulcro e
os discípulos O viram (Mt 28:17; Mc 16:9,12,14). Os dois discípulos a
caminho de Emaús conversaram com Ele (Lc 24). Ele mesmo disse aos
discípulos: "Vede as Minhas mãos e os Meus pés" (Lc 24:39). Tinha
carne e ossos (v. 39). Comeu com eles (v. 43).
Tomé tinha motivos para crer que se tratava do mesmo Jesus, pois
fora desafiado: "Põe aqui o teu dedo e vê as Minhas mãos; chega
também a tua mão e põe-na no Meu lado" (Jo 20:27). Realmente, era o
próprio Salvador. Não era um espírito, um fantasma. Era o real divino
Filho de Deus que ressurgira da sepultura.
A ressurreição de nosso Senhor Jesus constituiu parte vital da
mensagem da igreja primitiva. Ao pregarem, os apóstolos pregavam
Cristo, o Messias que Se levantara dos mortos. Anunciavam "em Jesus, a
ressurreição dentre os mortos" (At 4:2); "davam testemunho da
Questões sobre Doutrina 114
ressurreição do Senhor Jesus" (v. 33); Paulo lhes anunciava "a Jesus e a
ressurreição" (At 17:18).
A ressurreição de Jesus Cristo é de vital importância no grande
plano divino da salvação. A própria morte de Jesus, sublime como foi,
seria de nenhuma valia se não houvesse Sua ressurreição dos mortos. O
grande apóstolo dos gentios torna isso claro no seu vibrante testemunho
do Cristo vivo. Naquele maravilhoso capítulo sobre a ressurreição, em
sua mensagem à igreja de Corinto, vemos o lugar essencial que este
grande acontecimento ocupa no propósito de Deus. Notemos qual seria a
situação se Cristo não houvesse ressuscitado dos mortos:
1. Não haveria benefício algum da pregação do evangelho: "E, se
Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação" (1Co 15:14).
2. Não haveria perdão dos pecados:"E, se Cristo não ressuscitou,
[...] ainda permaneceis nos vossos pecados" (v. 17). 3. Não haveria
propósito na crença em Jesus: "E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa
fé" (v. 17).
4. Não haveria ressurreição geral dos mortos: "Ora, se é corrente
pregar-se que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como, pois, afirmaram
alguns dentre vós que não há ressurreição de mortos?" (v. 12).
5. Não haveria esperança nenhuma além da sepultura:"E, se Cristo
não ressuscitou, [...] os que dormiram em Cristo pereceram" (v. 17, 18).
Esta é uma mensagem de poder, pois é pelo poder de Sua
ressurreição que vivemos a vida cristã, e Sua vida é vivida na vida de
todo o crente.
Os que são sepultados com Cristo no batismo são representados
como ressuscitando com Ele, em Sua ressurreição (Rm 6:5, 8, 11; Ef 2:4,
5; Cl 2:12, 13). Como consequência dessa união com Cristo, nova vida é
comunicada ao crente (Rm 6:4; 2Co 4:10,11; Cl 3:10). O poder da
ressurreição.de Cristo fica desta forma à disposição dele (Ef 1:19. 20; Fp
3:10; Hb 7:16).
Questões sobre Doutrina 115
Outrora estávamos mortos nos pecados; agora estamos vivos em
Cristo. Fomos crucificados com Cristo; agora Cristo vive em nós (Gl
2:20). Nossa experiência pessoal deste avivamento da alma, desta açào
liberadora do Espírito de vida, constitui testemunha interior e a prova
suprema da realidade da ressurreição.
Acima de tudo, a ressurreição de nosso Senhor é a certeza de que
nós, igualmente, seremos ressuscitados por ocasião de Sua segunda
vinda (1Co 15:20, 23).
A HISTORICIDADE DA RESSURREIÇÃO
Muitas evidências deste surpreendente acontecimento foram dadas
aos cristãos primitivos. Houve, pelo menos, dez aparições de Jesus
depois de Sua ressurreição: (1) a Maria Madalena (Mc 16:9;Jo 20:14-
17); (2) às mulheres no caminho para que dissessem aos discípulos que
Cristo havia ressuscitado (Mt 28:9); (3) a Pedro (Lc 24:34); (4) aos dois
discípulos na estrada de Emaús (Mc 16:12; Lc 24:15,31); (5) aos
discípulos reunidos na noite do dia da ressurreição (Mc 16:14; Lc 24:36;
Jo 20:19); (6) aos discípulos reunidos uma semana depois (Jo 20:26-29);
(7) aos discípulos no Mar da Galileia (Jo 21:1-22); (8) aos onze num
monte na Galileia, estando presentes quinhentos irmãos (Mt 28:16; Mc
16:7; 1Co 15:6); (9) a Tiago (1Co 15:7); (10) aos onze discípulos por
ocasião da ascensão (Mc 16:19; Lc 24:50-52; At 1:4-12).
A.T. Robertson assim comenta a reunião com os 500 discípulos:
―O vigor deste testemunho reside no fato de que a maioria (hoi
pleios) deles estava ainda viva quando Paulo escreveu esta Epístola, [...]
não mais de 25 anos depois da ressurreição de Cristo‖ (Word Pictures in
the NewTestament, 1931, v. 4. p. 188).
Além do testemunho dos apóstolos e das mulheres, há o testemunho
do conselho judaico (Mt 28:11-15), e também das autoridades romanas,
de acordo com os primeiros escritores da igreja. Pilatos tomou
conhecimento dos fatos e os registrou em seu relatório regular ao
Questões sobre Doutrina 116
imperador. Eusébio, bispo do 4o século e historiador eclesiástico,
escreveu:
―E quando a maravilhosa ressurreição e ascensão de nosso Salvador
já tinham sido propaladas em toda a parte, consoante antigo costume
prevalecente entre os governadores das províncias de relatarem ao
imperador as novidades que nelas ocorriam, a fim de que nada lhe
pudesse escapar, Pôncio Pilatos informou a Tibério dos relatórios que
eram divulgados em toda a Palestinaconcernentes à ressurreição de
nosso Salvador Jesus Cristo. Ele também deu um relato de outras
maravilhas que ouvira a respeito dEle e como, depois de Sua morte,
tendo ressuscitado, era agora crido por muitos como sendo um deus.‖
―Que Pilatos fizera relatório oficial a Tibério é confirmado por
Tertuliano (Apol. 21), e em si mesmo é perfeitamente provável. Justino
Mártir (Apol. 1:35, 48) menciona um Atos de Pilatos, bem conhecido em
seus dias, mas o suposto Atos de Pilatos que ainda existe em várias
formas é espúrio, e pertence a um período bem posterior. É fantasioso e
curioso (Nicene and Post-Nicene Fathers, segunda série. v. 1, p. 105).‖1
O povo devia estar ciente do fato, pois, por ocasião da ressurreição
houve um terremoto e muitos santos ressuscitaram. Eles eram antítipo,
pelo menos em parte, do molho movido que era oferecido nos dias
antigos. Diz o registro: "Abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de
santos, que dormiam, ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros, depois da
ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos"
(Mt 27:52. 53).
Comentando essa experiência, Ellen G.White escreveu:
Quando Cristo ressurgiu, trouxe do sepulcro uma multidão de
cativos. O terremoto, por ocasião de Sua morte, abrira-lhes o sepulcro e,
ao ressuscitar Ele, ressurgiram juntamente. [...] Agora deviam ser
testemunhas dAquele que os ressuscitara dos mortos. [...] Esses entraram
na cidade e apareceram a muitos, declarando: Cristo ressurgiu dos
Questões sobre Doutrina 117
mortos, e nós ressurgimos com Ele. Assim foi imortalizada a sagrada
verdade da ressurreição (O Desejado de Todas as Nações, p. 786).
Referência
l. A estrutura um tanto confusa dos dois parágrafos acima reproduz
o original, onde o segundo parágrafo é uma nota de rodapé do primeiro.
Questões sobre Doutrina 118
8
Cristo e o Arcanjo Miguel
PERGUNTA 8
Tem sido feita a acusação de que os adventistas do sétimo dia
sustentam a mesma crença das testemunhas de Jeová a respeito de
Miguel — que Miguel, o arcanjo, era Jesus Cristo antes de Sua
encarnação, e que Ele era um ser criado. É válida essa acusação? Se
Miguel é Cristo, como explicar Judas 9?
Rejeitamos vigorosamente a ideia apresentada nesta pergunta, e a
posição sustentada pelas testemunhas de Jeová. Não cremos que Cristo
seja um ser criado.1 Como povo, não temos considerado a identificação
de Miguel de relevância suficiente para insistirmos nela extensamente,
quer em nossa literatura, quer em nossa pregação.Temos, porém, ideias
claras sobre o assunto, e estamos em condições de apresentá-las. E
nossas ideias concernentes a Miguel — podemos acrescentar — têm sido
sustentadas por vários eminentes eruditos através dos séculos. Não
estamos, portanto, sozinhos em nosso modo de entender.
Cremos que a palavra "Miguel" não é senão um dos muitos títulos
aplicados ao Filho de Deus, a segunda pessoa da Divindade. No entanto,
esta ideia, de modo nenhum, colide com nossa crença em Sua plena
divindade e eterna preexistência, tampouco Lhe desmerece a pessoa e a
obra.
Miguel é citado no livro de Judas como o Arcanjo. E se não fosse
por outras referências da Escritura, que O apresentam em outra relação,
poderia alguém, de primeira mão, concluir que Ele é um ser criado,
como os anjos em geral. Cremos, no entanto, que essas outras relações
indicam Sua condição verdadeira, e que, em adição, Ele atua como diri-
gente supremo dos exércitos angelicais. Mas o Seu serviço naquela
Questões sobre Doutrina 119
qualidade não o torna um anjo criado. Vários fatores importantes devem
ser considerados num estudo desta matéria.
I. CRISTO EM RELAÇÃO COM OS EXÉRCITOS ANGELICAIS
Os anjos são seres criados (Cl 1:16) e, como tais, não devem ser
adorados (Cl 2:18; Ap 19:10). São mensageiros de Deus enviados em
favor daqueles que hão de herdar a salvação (Hb 1:13, 14).
Cristo, porém, tem "mais excelente nome" do que os anjos (Hb
1:4).Tem um "nome que está acima de todo nome" (Fp 2:9), acima do
nome de qualquer anjo no Céu (Ef 1:21). Os anjos estão-Lhe sujeitos
(1Pe 3:22). Encurvam-se diante dEle (Fp 2:10), e O adoram (Hb 1:6).
Anjos de Deus recusam a adoração de homens (Ap 22:8, 9).
II. O FILHO DE DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO
No Antigo Testamento há o registro de um Ser divino denominado
o "anjo do Senhor" (Ex 3:2), o "anjo de Deus" (Ex 14:19), o "anjo da Sua
presença" (Is 63:9),"anjo da aliança" (Ml 3:1); também "um Anjo" (Ex
23:20), "meu Anjo" (v. 23), e "Seu Anjo" (Dn 3:28). Observemos
algumas destas referências:
1. O "Anjo do Senhor", (a) Como se manifestou a Gideão (Jz 6:11-
22). O "anjo do Senhor" (v. 11) é igualado com "o Senhor" (v. 14); e
"Gideão edificou ali um altar ao Senhor" (v. 24).(b) Como se manifestou
a Manoá (Jz 13:21). A esposa de Manoá refere-se ao "anjo do Senhor"
(v. 3) que vira como "um homem de Deus" (v. 6), e Manoá disse: "vimos
a Deus" (v. 22). (c) Como se manifestou a Josué (Zc 3:1-6). "O anjo do
Senhor" faz passar a iniquidade, e promove a troca das vestes, ou da
justiça (v. 4). Isso é prerrogativa da Divindade.
2. "O Anjo" que Apareceu a Jacó. Este Anjo (Os 12:4) apareceu a
Jacó na forma de homem (Gn 32:24). O Anjo (homem) abençoou Jacó
(v. 29), e Jacó disse: "Vi a Deus face a face" (v. 30). O culto aos anjos
Questões sobre Doutrina 120
não é permitido (Cl 2:18;Ap 19:10; 22:8,9). Esta é uma diferença
importante entre Cristo e os anjos.
3. O "Anjo de Sua Presença". Este Anjo "salvou" e "remiu" (Is
63:9); portanto, iguala-Se à Divindade (conferir Is 43:11; 44:6).
4. "Meu Anjo". Este "Anjo" (Ex 23:23) podia perdoar transgressão,
"pois nEle está o Meu nome" (v. 21). Como o perdão de pecados é
prerrogativa de Deus (Mc 2:7), é inevitável a conclusão de que "Meu
Anjo" é membro da Divindade. Com esses elementos, não é difícil
reconhecer que, em dias passados, havia juntamente com Deus, Alguém
conhecido nos exemplos precedentes como "o anjo do Senhor", ou "Meu
Anjo" e posteriormente como "Meu Filho" (SI 2:7). Ao mesmo tempo.
Ele era "Meu ungido" (hebraico Mashiach).
Ele é também denominado "um Menino","um Filho" (Is 9:6). E este
"filho" não é outro senão o "Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da
Paz" (v. 6). O Targum sobre Isaías 9:5 declara: "Maravilhoso
Conselheiro, Poderoso Deus, Aquele que vive para sempre, o Ungido [ou
Messias]."
III. IDENTIDADE DO "PRÍNCIPE DOS PRÍNCIPES"
A expressão "Príncipe dos príncipes" ocorre apenas uma vez no
Livro divino: em Daniel 8:25. Na visão de Daniel, um poder opositor
"engrandecia-se a si mesmo até ao Príncipe do exército"; na explanação
feita pelo anjo a Daniel, este poder é mencionado como se levantando
"contra o Príncipe dos príncipes". O "príncipe do exército" é igualado ao
"Príncipe dos príncipes". Aqui se faz clara referência à Divindade. Na
Palavra de Deus a expressão é idêntica a outras. O Salmo 136:3 fala do
"Senhor dos senhores", Deuteronômio 10:17 fala do "Deus dos deuses",
e Apocalipse 19:16, do "Rei dos reis".
O Dr. Slotki, em seu comentário sobre Daniel, mostra que a
expressão "Príncipe dos príncipes" (Dn 8:25) deve ser a mesma que
"Príncipe do exército" do verso 11. Comentando essas duas expressões,
Questões sobre Doutrina 121
diz a Cambridge Bible: "Isto é, Deus". Mas este "Príncipe dos príncipes",
ou "Príncipe do exército", é também mencionado como sendo Miguel.
Daniel 10:21 fala de "Miguel, vosso príncipe", e Daniel 12:1 menciona
Miguel, "o grandepríncipe". E este Príncipe é também o Messias, pois
lemos "Messias, o Príncipe" em Daniel 9:25. Há outros que concordam.
Joseph Parker declara:
"Miguel era conhecido entre os antigos judeus como o anjo ou
príncipe a quem incumbia proteção especial da nação de Israel. Mesmo
os melhores escritores judaicos concordam em ensinar que o nome
"Miguel" é o mesmo que o título "Messias". Sustentam que as poucas
passagens em que ele é mencionado podem ser muito mais
satisfatoriamente explicadas com base nessa admissão. O homem que
discursava, no texto, estava "vestido de linho, cujos ombros estavam
cingidos com ouro puro de Ufaz; o seu corpo era como o berilo, o seu
rosto, como um relâmpago, os seus olhos, como tochas de fogo, os seus
braços e os seus pés brilhavam como bronze polido; e a voz das suas
palavras era como o estrondo de muita gente" (Dn 10:5, 6). Este é o
personagem deslumbrante e sem nome que tem provocado a imaginação
religiosa através de todos os séculos. Um dia — não um dia terreno de
frio, cinzento, mas um dia venturoso e brilhante — veremos esse
Personagem, e saberemos seu nome, e lhe agradeceremos a ternura com
que encobriu uma luz que poderia ter cegado a criação" (The People's
Bible, v. 16, p. 438).
Este Alguém sem nome apresentado em Daniel 10:5,6 — porém,
descrito como tendo a aparência do relâmpago — é bem conhecido na
visão apocalíptica. Uma descrição idêntica dEle se encontra em
Apocalipse 1:13-15. Não seria o "homem vestido de linho" de Daniel
10:5 e 6 o mesmo personagem que aparece em Daniel 10:13 como
"Miguel"?
Os escritores do Novo Testamento também apreendem este
pensamento e aplicam a terminologia de Daniel a Jesus Cristo, nosso
Questões sobre Doutrina 122
Senhor. Ele é declarado como "o Autor da vida" (At 3:15); "um
Príncipe" e um "Salvador" (At 5:31); e "o Soberano dos reis da Terra"
(Ap 1:5).
Este Príncipe, ou Messias, das visões apocalípticas dos dias antigos
é assim igualado a Miguel. Portanto, o nome Miguel é, conforme
cremos, um dos títulos do Filho do Deus vivo. Miguel, contudo, é
chamado Arcanjo (Jd 9) e esta palavra, como cremos, também se aplica a
nosso Senhor Jesus.
IV. A PALAVRA "ARCANJO"
Tendo considerado Cristo como o "Anjo do Senhor" e mencionado
o fato de que "Miguel" e "arcanjo" são títulos de nosso Senhor,
observemos o significado da primeira parte da palavra "arcanjo".
"Arc" provém do prefixo grego archi, mas palavras correlatas como
arche e archon também devem ser consideradas.
Arche significa princípio e também envolve ideia de governo e
autoridade. É traduzida como "governo" em 1 Coríntios 15:24 na Bíblia
inglesa King James; por "principado" em Efésios 1:21 e "primeiros
rudimentos" em Hebreus 5:12. Archon significa "príncipe",
"governador". Arche e archon às vezes são empregados em relação a
nosso Senhor, como na expressão "Anjo do Senhor". Arche é empregado
messianicamente em Isaías 9:6, onde na Septuaginta (tradução de
Bagster) é vertido por "governo" na expressão "cujo governo [arche]
está sobre Seus ombros [do Messias]".
No Novo Testamento, nosso Senhor Jesus é chamado "o princípio"
[arche] (Cl 1:18), também "Alfa e o Omega, o princípio [arche]" (Ap
21:6; ver também Ap 22:13).
Archon é frequentemente traduzido por "governador", "príncipe",
etc. Contudo, é empregado uma vez no Novo Testamento em relação a
Jesus, "o Soberano [archon] dos reis da Terra" (Ap 1:5).
Questões sobre Doutrina 123
Archon é por vezes empregado em sentido messiânico, e assim se
refere a Cristo nosso Salvador. Ele é um "príncipe [archon] e governador
dos povos" (Is 55:4); Ele é Aquele que "será condutor [archon] em
Israel" (Mq 5:2, versão Septuaginta de Bagster).
Outra palavra grega com o mesmo prefixo archi é archegos,
derivada de archi e hegeomai ou ago - "conduzir", etc.
O termo archegos como se encontra na Septuaginta é geralmente
vertido pela tradução de Bagster como "cabeça", "capitão", "chefe",
"governador", "príncipe", etc. No Novo Testamento, porém, é
empregado unicamente com referência a nosso Senhor. Ele é referido
como Capitão - "o Capitão [archegos] da salvação deles" (Hb 2:10);
como autor - "o autor [archegos] da fé" (Hb 12:2; algumas versões
trazem à margem a observação: "iniciador"); como Príncipe - "Príncipe
[archegos] e Salvador" (At 5:31): e "Autor [archegos] da vida" (At 3:15,
à margem "autor").
O estudo das palavras gregas acima demonstra que, por vezes, elas
foram aplicadas a Cristo nosso Senhor; mais ainda, que archegos no
Novo Testamento em todos os casos se aplica a Jesus.
V. CRISTO EM RELAÇÃO AOS EXÉRCITOS ANGELICAIS
A luz do que foi exposto, cremos que o divino Filho de Deus, um de
cujos títulos é "Miguel, o arcanjo", é o dirigente dos exércitos angelicais.
Para nós, contudo, isso de modo algum Lhe subtrai a divindade, como
também não Lhe subtraiu o fato de ter-Se tornado homem e assumido
nossa carne. Certamente, Ele Se tornou "o Filho do homem", mas,
durante todo o período em que esteve na Terra como homem, era ao
mesmo tempo Deus manifesto em carne (1Tm 4:10). Além disso, Ele é
também revelado nas Escrituras como o Capitão dos exércitos de Israel,
sob o título de "Anjo de Jeová", o "Anjo de Sua presença", além de
outros. Entretanto, Sua divindade não é restringida nem subtraída. Por
que não poderia Ele, então, ser considerado o "Comandante-chefe"
Questões sobre Doutrina 124
(Septuaginta)2 dos exércitos de anjos sem equiparar-Se com eles como
seres criados?
Aquele que apareceu a Josué como "Príncipe do exército do
Senhor" era um Ser divino, a quem Josué adorou (Js 5:14). Vemos assim
que os exércitos do Senhor estão sob o comando de um Ser divino digno
de adoração, cuja presença torna santo um lugar (v. 15). Este Ser divino,
cremos, não era outro senão nosso Senhor Jesus Cristo.
Cremos, portanto, que há boas razões para reconhecer nosso
bendito Senhor como o chefe dos exércitos celestiais.
VI. MIGUEL NA LITERATURA JUDAICA
Nos escritos judaicos, Miguel é reconhecido como o Advogado em
Israel, Mediador em muitas maneiras. Assim, evitou que Isaque fosse
sacrificado (Yalkut Reubeni, seção Wayera); empenhou-Se em luta
corporal com Jacó (Targum, Gn 32:25); foi Advogado quando Israel
merecia a morte no Mar Vermelho (Exodus Rabbah 18:5); conduziu
Israel durante quarenta anos no deserto (Abravanel, em Ex 23:20); deu a
Moisés as tábuas de pedra (Apocalipse de Moisés. 1); deu instruções a
Moisés no Sinai (Livro dos Jubileus, i. 27. ii, 1); destruiu o exército de
Senaqueribe3 (Midr. Ex 18:5); foi um dos anjos que visitaram Abraão
(Yoma, 37a; Shebu'oth, 35b, rodapé); foi o anjo guardião de Israel (Yoma,
77a); ministra no santuário celestial (Menahoth, 110a).
VII. MIGUEL NO CONTEXTO DA EPÍSTOLA DE JUDAS
A epístola de Judas foi escrita para combater a heresia que invadira
a igreja naquela época, pois falsos ensinadores corrompiam e tornavam
nula a "fé que uma vez por todas foi entregue aos santos" (v. 3). A carta
de Judas era um apelo aos membros leais a romperem a associação com
esses subversores da verdade. O autor não entra em pormenores a
respeito dessa heresia, pois sua carta não é uma teologia sistemática, mas
antes um grito de combate.
Questões sobre Doutrina 125
O livro é pequeno, mas rico em alusões e citações. E evidente que
os ensinos corruptos contra os quais Judas advertia a igreja eram o
libertinismo e o anominianismo. Essa filosofia era não apenas basica-
mente errada em conceito, mas, quando aplicada à vida, conduzia à
depravação e revoltante imoralidade. Os que introduziram essa heresiasubversiva tinham evidentemente entrado para a igreja de modo sub-
reptício, e ameaçavam minar a própria estrutura do templo da verdade.
1. O Fim da Rebelião. A depravação deste ensino é evidenciada
pela referência do autor à imoralidade geral de Sodoma e Gomorra. E,
quanto à atitude dos próprios ensinadores, ele a ilustra comparando-a
com a rebelião de Core. "Ai deles!", ele adverte, "porque prosseguiram
pelo caminho de Caim" (v. 11). Realçando o fim desses difamadores da
justiça, ele menciona particularmente o destino dos anjos rebeldes. Estes
seres celestiais, "que não guardaram o seu estado original, mas
abandonaram o seu próprio domicílio" (v. 6), estão reservados até o
julgamento. Aguardam a vinda do dia da punição final.
É clara a razão por que Judas se refere à rebelião dos anjos e à
rebelião do antigo Israel contra a autoridade. Ele adverte a igreja de que
todos os que "dizem mal do que não sabem" perecerão (v. 10). Fala
daqueles hereges como contaminadores da carne, e declara que eles não
apenas reduzem a nada o conselho da autoridade da igreja, mas
realmente negam a autoridade de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo.
Suas "palavras insolentes" (v. 15), ou acusações zombeteiras, não eram
apenas denúncias contra a autoridade apostólica, mas acusações contra o
próprio Deus.
2. A Referência de Judas a Miguel. Não era evidentemente o
propósito de Judas identificar Miguel, a não ser chamar a atenção para o
fato de que Ele é o arcanjo. Sua referência a Miguel é, na verdade, um
contraste. Esse contraste é percebido entre os que fizeram acusação
escarnecedora e Miguel, que não a faria. Por um lado, ele contrasta os
"sonhadores alucinados" que "rejeitam governo e difamam autoridades
Questões sobre Doutrina 126
superiores" (v. 8) com Miguel, o arcanjo, por outro lado. Este Ser
celestial, mesmo quando em disputa com o príncipe do mal, embora
houvesse justa razão para isso, "não ousou" pronunciar um juízo de
maldição. Este é o contraste: eles, meros homens, desprezavam a
autoridade a ponto de injuriarem os que se achavam em elevada
autoridade, enquanto Miguel, o arcanjo, não agiu assim, mesmo quando
disputava com Satanás.
O demônio, príncipe do mal, podia com justiça merecer uma
acusação demolidora, mas a isso Miguel não Se inclinou. Dizer que
Miguel não podia, no sentido de que Ele não dispunha de poder ou
autoridade para fazê-lo, não é verdade. Não que Miguel não pudesse,
num sentido de restrição, mas sim que Ele não quis tomar essa atitude.
A Bíblia de Scott comenta:
"Ele, contudo, não ousou proferir qualquer expressão insultuosa:
não por medo do demônio, mas porque, mesmo naquelas circunstâncias,
isso não seria coerente com a perfeição de Seu caráter."
O que aqueles críticos obstinados ousaram fazer, Miguel não ousou.
Eles eram abusivos, ditamadores, caluniadores e mesmo blasfemos.
Miguel, porém, mesmo tratando com o diabo, revelou dignidade e
paciência celestial. Não podia descer ao nível das palavras difamatórias.
Com autoridade, declarou: "O Senhor te repreenda" (v. 9).
O uso da expressão "o Senhor te repreenda" é significativo. Essa
expressão é encontrada apenas em outro lugar nas Sagradas Escrituras
(Zc 3:2). Ali, quem fala é o "anjo do Senhor" (v. 1), mas no verso 2 é
expressamente o "Senhor" quem fala. Aqui encontramos o "anjo do
Senhor" igualado ao próprio Jeová, e é Ele quem diz a Satanás: "O
Senhor te repreenda."
Essa é uma expressão original. Seu primeiro emprego na Bíblia
ocorre com o Senhor ao tratar com Satanás. A mesma expressão é
empregada em Judas. Não é, então, o caso de o mesmo Ser divino ser
Questões sobre Doutrina 127
revelado aqui? Em Zacarias Ele Se manifestou sob um de Seus títulos
("o anjo do Senhor"), e em Judas sob outro de Seus títulos ("Miguel").
Além disso, o arcanjo é referido duas vezes nas Sagradas Escrituras
(1Ts 4:16; Jd 9). Escrevendo aos tessalonicenses, Paulo fala da "voz de
arcanjo" e a associa à ressurreição geral dos santos, enquanto em Judas a
referência é específica ao corpo de Moisés.
Outra referência a Miguel como chefe do exército angelical se
encontra em Apocalipse 12:7-10. Muitos eruditos através dos séculos
aplicaram isso aos dias em que Satanás se rebelou, antes mesmo que o
mundo fosse criado. Então, houve guerra no Céu. Miguel e Seus anjos
combatiam contra o dragão e seus anjos. Eis, sem dúvida, o início do
grande conflito entre as forças da justiça e do mal. Nesta passagem,
Miguel e Satanás são postos em contraste. Quem é o Miguel dessa
passagem apocalíptica? Se Cristo é o chefe dos exércitos celestiais, então
vemos aqui a primeira batalha no grande conflito entre Cristo e Satanás.
Há boa razão para este conceito, pois lemos que foi através do
"poder de seu Cristo" que "o acusador de nossos irmãos" foi derribado
(Ap 12:10). A vitória para os santos somente é possível mediante nosso
Senhor ressuscitado. Foi Cristo que triunfou sobre Satanás no confronto
original. E é por intermédio de Cristo que vencemos em nossas contínuas
lutas contra o diabo e seus exércitos malignos.
Matthew Henry comentou a respeito desta passagem:
" 'Miguel e seus anjos' de um lado, e 'o dragão e seus anjos' do
outro. Cristo, o magnífico anjo do concerto, e seus fiéis seguidores; e
Satanás e todos os seus agentes."
VIII. RESUMO DA EVIDÊNCIA
1. Expressões empregadas em relação a Cristo são idênticas às
empregadas a respeito de Miguel: (a) Cristo é descrito como "Príncipe
dos príncipes", como "Príncipe do exército", como "Messias, o príncipe"
Questões sobre Doutrina 128
e como "Príncipe da vida"; (b) Miguel é descritos como "vosso príncipe"
e como o "grande príncipe".
2. Como arcanjo é empregado em relação a Miguel, assim são
archegos e archon empregados em relação a Cristo. Assim: Cristo é o
archegos, o "capitão" (Hb 2:10); o "autor" (Hb 12:2); o "Príncipe" (At
3:15).
3. O início do grande conflito entre Cristo (Miguel) e Satanás
encontra-se em Apocalipse 12:7-10.
4. Miguel exerce as mesmas prerrogativas de Jeová ao dizer a
Satanás: "O Senhor te repreenda."
5. Miguel é igualado a Cristo por muitos eruditos da Bíblia.
Do exposto se deduz que nosso conceito de Miguel, como outro
título para o Senhor Jesus Cristo, difere amplamente das ideias dos que
ensinam que Miguel é apenas um ser angélico criado, e não o Verbo
Eterno de Deus. Em contraste direto com essa cristologia depreciativa,
os adventistas do sétimo dia sustentam que Jesus é "o próprio Deus, da
mesma substância que o Pai" - coigual, coexistente e coeterno com Deus
o Pai. Cremos que jamais houve tempo em que Cristo não existisse. Ele é
Deus para todo o sempre, tendo vida "original, não emprestada, não
derivada".
Referências
1. Deve-se observar que alguns pioneiros adventistas do sétimo dia
acreditavam que Cristo fosse um ser criado. Uriah Sniith, por exemplo, sustentava
que Cristo foi "o primeiro ser criado, datando a Sua existência muito tempo antes de
qualquer outro ser ou coisa criada" (Thoughts on Revelation [Battle Creek, MI:
Seventh-day Adventist Publishing Association, 1865], p. 59).
2. Js 5:14, traduzido por Charles Thomson.
3. Esta declaração refere-se ao "Anjo de sua presença", que a Enciclopédia
Judaica afirma ser Miguel.
Questões sobre Doutrina 129
Notas Adicionais
1. Cristo Como "Anjo do Senhor".
Sobre Êxodo 23:20:
" 'Eis que Eu envio um Anjo adiante de ti.' Comentaristas judaicos
consideram esse mensageiro como sendo Moisés que, sem dúvida, era
embaixador especialmente comissionado por Deus, e que podia, por-
tanto, ser denominado mensageiro[anjo] de Deus. Mas as expressões
'Ele não perdoará a vossa rebelião' e 'Meu nome está nele' são demasiado
elevadas para Moisés. Deve-se entender um anjo - provavelmente 'o
Anjo do Concerto' - a quem os melhores expositores identificam com a
segunda Pessoa da Trindade, o sempre Bendito Filho de Deus" (George
Rawlinson, Pulpit Commentary, "Exodus", v. 2, p. 212).
"Supõem outros que este ['um anjo', Ex 23:20: 'meu anjo', Ex 23:23]
seja o Filho de Deus, o Anjo do concerto: pois é dito que os israelitas no
deserto 'tentaram a Cristo', e podemos também supô-Lo mensageiro de
Deus, e Redentor da igreja, antes de Sua encarnação, como Cordeiro
morto desde a fundação do mundo" (Matthew Henry's Connnentary, Ex
23, nota geral).
"Parece não haver motivo de dúvida que, neste Mensageiro de
Jeová, captamos um vislumbre do mistério da Divindade. Para contraste
com um mensageiro inferior, ver capítulo 33:2, 3" (J. B. Rotherham, The
Emphasized Old Testament [1916], nota sobre Ex 23:20).
Sobre Juízes 6:
"A pessoa que lhe deu a comissão era 'um anjo do Senhor': parece
não um anjo criado, mas o próprio Filho de Deus, o Verbo Eterno, o
Senhor dos anjos. [...] Este anjo é aqui denominado Jeová, o incomu-
nicável nome de Deus (v. 14, 16); e ele diz: 'Serei contigo' " (Matthew
Henry's Connnentary).
Sobre Juízes 13:
Questões sobre Doutrina 130
"E este anjo [...] era o próprio Senhor, isto é, o Verbo do Senhor,
que deveria ser o Messias, pois Seu nome é Maravilhoso (v. 18) e Jeová
(v. 19)" (ibid.).
Sobre Daniel 3:
"Havia uma quarta pessoa vista com eles no fogo, cuja forma, no
julgamento de Nabucodonosor, era semelhante à do 'Filho de Deus';
aparecera como uma pessoa divina, mensageiro do Céu, não como um
servo, mas como um Filho, 'semelhante a um anjo', e os anjos eram
chamados 'filhos de Deus' (Jó 37:7). Na narrativa apócrifa deste fato se
diz: 'O anjo do Senhor desceu à fornalha"; e Nabucodonosor aqui diz (v.
28) que Deus enviara Seu anjo e os livrara; e foi um anjo que tapou a
boca dos leões quando Daniel se achava na cova (6:22). Alguns, porém,
julgam que era o eterno Filho de Deus, o anjo do concerto, e não um anjo
criado. Apareceu muitas vezes em forma humana antes de a ter assumido
permanentemente [na Sua encarnação]; e nada é mais oportuno para
demonstrar Sua grande peregrinação no mundo, na plenitude dos tempos,
do que agora ao livrar Seus escolhidos do fogo; por isso, veio e andou
com eles nas chamas" (ibid.).
"Na realidade era Cristo, o Filho de Deus, quem apareceu nessa
ocasião em forma humana" (T.Robinson, Preacher's Homiletic Com-
mentary [1892], "Daniel", p. 72).
"No verso 28, o rei o chama de 'anjo' de Deus, que era, sem dúvida,
o 'anjo do Senhor', aliás denominado 'Mensageiro do Concerto', o Filho
de Deus, o qual na plenitude dos tempos 'Se fez carne e habitou entre
nós'" (ibid., p. 73).
Sobre Hebreus 12:
"Isto é referido por muitos modernos expositores a Deus: mas por
antigos e alguns modernos estudiosos, a Cristo: o que se harmoniza
muito melhor com o contexto" (S.T Bloomfield, Greek New Testament,
1847. v. 2. p. 475, sobre Hb 12:25).
Questões sobre Doutrina 131
"A voz que soa do Sinai." Ver acima verso 19. Os melhores
expositores, em geral, concordam que [a palavra] oú refere-se (como o
requer a propriedade gramatical) a Cristo, apesar de no Êxodo ela ser
atribuída a Deus. Não há nisso qualquer incoerência, desde que o Novo
Testamento e o escritos rabínicos concordam em apresentá-la como o
Filho de Deus, que apareceu aos patriarcas, que fez a entrega da Lei
pelos anjos, e que era o Anjo-Jeová adorado na igreja judaica. Ver At
7:53; 1Co 10:4, 9" (ibid., v. 2. p. 475, sobre Hb 12:26).
2. Concernente a Miguel Como um Título de Cristo.
Sobre Daniel 10:
"Alguns [...] pensam que Miguel, o arcanjo, não é outro senão o
próprio Cristo, o anjo do concerne o Senhor dos anjos; Aquele a quem
Daniel viu em visão (v. 5). Ele 'veio para ajudar-me' (v. 13);'e inguém há
que se esforce comigo contra aqueles' (v. 21). Cristo é o Príncipe da
igreja, e os anjos não o são. (Matthew Henry's Commentary).
Sobre Daniel 12:
"Jesus Cristo aparecerá como patrono e protetor de Sua igreja
‗Naquele tempo‘, em que a perseguição estiver no auge, 'Miguel Se
levantará' (v. 1). O anjo dissera a Daniel que Miguel seria amigo
constante da igreja (10:21). Em todo o tempo, demonstrara isso no
mundo superior, os anjos o sabiam; mas agora ‗Miguel Se levantará‘ em
Sua providência, e efetuará a libertação dos judeus, 'quando vir que o seu
poder se foi' (Dt 32:36). Cristo é o 'grande Príncipe', pois é o 'Príncipe
dos reis da Terra' (Ap 1:5)" (ibid.).
Sobre Judas 9:
"Muito se diz nos escritos judaicos sobre este personagem. 'Rabi
Judah Hakkodesh diz: 'Onde quer que se espera a presença de Miguel
sempre se deve entender a glória da Divina Majestade.' Shemoth Rabba,
Sec. ii., fol. 104. 3. Assim quer-nos parecer que consideraram Miguel de
Questões sobre Doutrina 132
algum modo como o fazemos em relação ao Messias manifesto em carne'
(Clarke’s Commentary).
"A palavra Miguel [significa] aquele que é semelhante a Deus; em
consequência, no Apocalipse, este personagem [...] é entendido por
muitos como sendo o Senhor Jesus" (ibid.).
Sobre Apocalipse 12:7:
"Miguel era o filho varão, a quem a mulher deu à luz" (Clarke's
Commentary).
"Esta 'guerra no Céu' travada por Miguel, que é Cristo (cujo
combate não é igual aos dos reis terrestres), e por Seus mensageiros,
consiste num conflito intelectual e polêmico" (J.D.Glasgow,
Commentary on the Apocalypse, 1872).
"Demonstramos em outra parte que o Arcanjo Miguel é uma
imagem de Cristo vitoriosamente combatente. Cristo é um Arcanjo em
Sua qualidade de Juiz; e Ele aparece como Juiz, não apenas no fim do
mundo, mas também na preservação da pureza de Sua igreja" (Langes's
Commentary (1874), sobre Apocalipse 12:1-12, Exegetical and Critical
Synoptic View, p. 238).
" 'Miguel e Seus anjos' por um lado, 'o dragão e seus anjos' de
outro. Cristo, o magnífico Anjo do concerto, e Seus fiéis seguidores; e
Satanás com todos os seus agentes. Esta última facção seria muito
superior em número e de poder bem mais visível que a outra; mas a força
da igreja está em ter o Senhor Jesus como Capitão de sua salvação"
(Matthew Henry's Commentary).
"A ideia do Ser celestial que nos aparece como característica de
antiga tradição apocalíptica é a origem da concepção do Messias
celestial - o Filho do homem. [...] Já vimos que o Ser celestial
'semelhante ao Filho do homem' como está em Daniel 7 era
provavelmente identificado pelo autor [...] com Miguel, o Príncipe
angélico de Israel. Este ser angélico foi posteriormente, como veremos,
Questões sobre Doutrina 133
investido dos atributos messiânicos, e assim Se tornou o preexistente
Messias celestial" (Abingdon Bible Commentary, p. 846).
(Ver também Calvin's Commentaries sobre "Daniel", v. 2, p. 253,
368, 13.)
PARTE III –
PERGUNTAS SOBRE
ELLEN WHITE
Questões sobre Doutrina 134
9
A Relação Entre os Escritos de
Ellen White e a Bíblia
PERGUNTA 9
Os adventistas do sétimo dia consideram os escritos de Ellen G. White
em igualdade com os escritos da Bíblia? Eles a colocam na categoria
dos profetas, como Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel? As interpreta-
ções que ela faz da Bíblia são consideradas autoridade final, e
constitui a crença nesses escritos prova de comunhão na Igreja
Adventista do Sétimo Dia?Qualquer que seja o intento destas perguntas, nós queremos
observar o seguinte, que será desenvolvido mais plenamente ao longo do
capítulo:
1. Que não consideramos os escritos de Ellen G. White uma adição
ao cânon sagrado das Escrituras.
2. Que não os julgamos de aplicação universal, como o é a Bíblia,
mas particularmente se destinam à Igreja Adventista do Sétimo Dia.
3. Que não os consideramos no mesmo sentido das Escrituras
Sagradas, que permanecem como padrão único e exclusivo pelo qual
todos os demais escritos devem ser julgados.
Nós, adventistas do sétimo dia, cremos uniformemente que o cânon
da Escritura se encerrou com o livro do Apocalipse. Sustentamos que
todos os demais escritos e ensinos, qualquer que seja a fonte de que
provenham, têm que ser julgados pela Bíblia e subordinados a ela, que é
a fonte e norma da fé cristã. Aferimos os escritos de Ellen G. White pela
Bíblia, mas em sentido algum medimos a Bíblia pelos ensinos dela. Ellen
G. White e outros escritores nossos se têm pronunciado muitas e muitas
vezes sobre este ponto.
Questões sobre Doutrina 135
Em seu primeiro livro, no ano de 1851, ela disse a respeito da
Bíblia:
"Recomendo-lhe, caro leitor, a Palavra de Deus como regra de sua
fé e prática. Por essa Palavra seremos julgados" (Primeiros Escritos, p.
78).
Tempos depois, escreveu:
"O Espírito não foi dado - nem nunca o poderia ser - a fim de
sobrepor-Se às Escrituras, pois estas declaram explicitamente acerca de
si mesmas serem a norma pela qual todo ensino e experiência devem ser
aferidos (O Grande Conflito, p. 9, Introdução).
Em sua última aparição diante de delegados reunidos em
Assembleia da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, em
Washington, em 1909, após ter proferido mensagem a um enorme
auditório, ela ergueu a Bíblia com as mãos trêmulas pela idade avançada
e disse: "Irmãos e irmãs, recomendo-lhes o Livro." Era uma atitude tí-
pica em toda a sua existência sempre exaltar, acima de tudo, as Santas
Escrituras como fundamento de nossa fé.
Jamais consideramos Ellen G.White na mesma categoria dos
escritores do cânon das Escrituras. Contudo, além dos escolhidos
escritores dos livros canônicos da Bíblia, Deus Se utilizou de uma linha
de profetas ou mensageiros que viveram contemporaneamente com os
escritores de ambos os Testamentos, mas cujas declarações jamais
fizeram parte do cânon escriturístico.
Esses profetas ou mensageiros foram chamados por Deus para dar
ânimo, conselho e admoestação ao antigo povo de Deus. Entre eles havia
figuras como Natã, Gade, Enã, Asafe, Semaías, Azarias, Eliézer, Aías,
Ido e Obede no AntigoTestamento, e Simeão, João Batista, Ágabo e
Silas no Novo. A linha inclui também mulheres como Miriã, Débora e
Hulda, que foram denominadas profetisas, em tempos antigos, bem
como Ana ao tempo de Cristo, e as quatro filhas de Filipe, "que
profetizavam" (At 21:9). As mensagens desses profetas, deve-se
Questões sobre Doutrina 136
reconhecer, provieram do mesmo Deus que falava através dos profetas
cujos escritos foram incluídos no cânon sagrado.
Que alguns desses profetas não somente falaram mas também
escreveram suas mensagens inspiradas é evidente da própria Escritura:
"Os atos, pois, do rei Davi, tanto os primeiros como os últimos, eis
que estão escritos nas crónicas, registrados por Samuel, o vidente, nas
crónicas do profeta Nata, e nas crónicas de Gade, o vidente" (1Cr 29:29).
"Quanto aos mais atos de Salomão, tanto os primeiros como os
últimos, porventura, não estão escritos no livro da história de Nata, o
profeta, e na profecia de Aias, o silonita, e nas visões de Ido, o vidente,
acerca de Jeroboâo, filho de Nebate?" (2Cr 9:29).
E nesta última categoria de mensageiros que classificamos Ellen
G.White. Entre os adventistas do sétimo dia, ela foi reconhecida como
possuindo o dom do espírito de profecia, embora jamais evocasse para si
o título de profetisa. Em 1906, ela deu a razão disso. Membros da igreja
que criam ser ela chamada para o encargo profético ficaram perplexos
com uma de suas declarações públicas. Eis sua explicação:
"Alguns se escandalizaram com o fato de eu ter dito não pretender
ser profetisa. [...] Ainda em minha mocidade fui indagada várias vezes:
És profetisa? Sempre respondi: Sou a mensageira do Senhor. Sei que
muitos me chamavam profetisa, porém, jamais pretendi este título. [...]
Por que não reivindiquei ser profetisa? Porque nestes últimos dias muitos
que ousadamente pretendem ser profetas constituem uma reprovação à
causa de Cristo; e porque minhas obras incluem muito mais do que
significam a palavra 'profeta'. [...] Pretender ser profetisa é uma coisa
que jamais fiz. Se outros me chamam por esse nome, não contendo com
eles. Minha obra, porém, abrangeu tantos setores que não posso chamar-
me senão mensageira" (Review and Herald, 26 de julho de 1906).
Os adventistas do sétimo dia consideram os escritos dela como
contendo conselhos e instruções inspirados concernentes à religião
pessoal e à conduta de nossa obra denominacional. Sob a mesma
Questões sobre Doutrina 137
inspiração, ela também escreveu muito no grande terreno da história
sagrada, abrangendo experiências do povo de Deus desde a criação do
mundo até o estabelecimento final do reino de Deus, com ênfase especial
na escato-logia. Essa porção de seus escritos, contudo, que pode ser
classificada como predição, não é na verdade senão uma pequena parte.
E, mesmo ao tratar daquilo que sobrevêm ã Terra, suas declarações são
apenas ampliações de clara profecia bíblica.
E significativo que em seus conselhos, ou "testemunhos", a atenção
do leitor é constantemente dirigida para a autoridade da Palavra de Deus
como o único fundamento de fé e doutrina. Na introdução de um de seus
maiores livros, ela apresenta importantes princípios:
"Em Sua Palavra, Deus conferiu aos homens o conhecimento
necessário à salvação. As Santas Escrituras devem ser aceitas como
autorizada e infalível revelação de Sua vontade. Elas são a norma do
caráter, o revelador das doutrinas, a pedra de toque da experiência
religiosa. 'Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a
repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o
homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para tocia boa
obra' " (2Tm 3:16, 17).
"Todavia, o fato de que Deus revelou Sua vontade aos homens por
meio de Sua Palavra não tornou desnecessária a contínua presença e
direção do Espírito Santo. Ao contrário, o Espírito foi prometido por
nosso Salvador para aclarar a Palavra a Seus servos, para iluminar e
aplicar os seus ensinos. E visto ter sido o Espírito de Deus que inspirou
as Escrituras Sagradas, é impossível que o ensino do Espírito seja
contrário ao da Palavra" (O Grande Conflito, p. 9, Introdução).
Conquanto os adventistas mantenham os escritos de Ellen G.White
na mais elevada estima, eles não são a fonte de nossas exposições.
Baseamos nossos ensinos nas Escrituras, o único fundamento de toda
verdadeira doutrina cristã.1 No entanto, é nossa crença que o Espírito
Santo franqueou-lhe à mente importantes acontecimentos e a chamou
Questões sobre Doutrina 138
para dar certas instruções para estes últimos dias. E, conquanto essas
instruções, em nosso entender, estejam em harmonia com a Palavra de
Deus, a qual unicamente nos torna sábios para a salvação, nós, como
denominação, as aceitamos como conselhos inspirados do Senhor.
Jamais, porém, as igualamos com a Escritura como falsamente nos
acusam alguns. A própria Sra.White explicou claramente a relação entreseus escritos e a Bíblia:
"Pouca atenção é dada à Bíblia, e o Senhor tem dado uma luz
menor para guiar os homens e mulheres à luz maior (Review and Herald,
20 de janeiro de 1903).
"Por meio dos testemunhos, o Senhor Se propõe advertir,
repreender e aconselhar Seus filhos, e impressionar-lhes a mente com a
importância da verdade de Sua Palavra" (Testemunhos Para a Igreja, v.
5, p. 665).
Embora os adventistas do sétimo dia reconheçam que o cânon das
Escrituras se encerrou há aproximadamente dois mil anos, e que não
houve acréscimos a essa compilação dos livros sagrados, crêem que o
Espírito de Deus, que inspirou a Palavra divina conhecida por nós como
Bíblia, empenhou-Se em revelar-Se à igreja mediante os diversos dons
do Espírito. O apóstolo Pedro, explicando os acontecimentos do
Pentecostes, citou a profecia de Joel aplicando-a à obra magnífica do
Espírito Santo naquele dia memorável.
E o apóstolo Paulo, falando dos diferentes dons que Deus concedera
à igreja, disse: "E Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para
profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com
vistas ao aperfeiçoamento dos santos, para o desempenho do Seu
serviço, para edificação do corpo de Cristo" (Ef 4:11, 12).
E por quanto tempo deveriam esses dons perdurar na igreja? "Até
que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho
de Deus, à perfeita varo-nilidade, à medida da estatura da plenitude de
Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado
Questões sobre Doutrina 139
para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha
dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro" (v. 13, 14).
Enquanto os filhos de Deus forem assediados pela astúcia do
espírito do mal, a igreja necessitará desses dons especiais. Além disso, o
mesmo apóstolo declarou que à igreja que aguardaria a volta do Senhor
Jesus não faltaria nenhum dom, a fim de se achar irrepreensível no dia de
nosso Senhor Jesus Cristo (1Co 1:7, 8).
Não entendemos que esses dons do Espírito tomem o lugar da
Palavra de Deus, nem a aceitação dos mesmos anule a Escritura da
verdade. Ao contrário, a aceitação da Palavra de Deus levará o povo de
Deus a reconhecer e aceitar as manifestações do Espírito. Essas
manifestações estarão, naturalmente, em harmonia com a Palavra de
Deus. Sabemos que cristãos fervorosos têm a impressão de que esses
dons cessaram com a igreja apostólica.
Os adventistas, porém, crêem que o encerramento do cânon das
Escrituras não encerrou a comunicação do Céu com os homens através
dos dons do Espírito,2 mas, ao contrário, Cristo, pelo ministério de Seu
Espírito, guia Seu povo, edificando-o e fortalecendo-o, especialmente
nestes últimos dias desafiadores da história humana. E é o Espírito Santo
quem reparte os dons "como Lhe apraz, a cada um, individualmente"
(1Co 12:11). É Deus quem concede os dons, e é o próprio Deus quem
assume a responsabilidade dessas manifestações do Espírito entre os
crentes. Ele chama um aqui, outro lá, e os faz depositários de dons
espirituais específicos. Ele chama um para ser apóstolo, outro
evangelista, outro pastor ou ensinador, e a outro Ele dá o dom de
profecia.
Entendemos que todos esses dons estarão em evidência na igreja
que estará "aguardando [...] a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo"
(1Co 1:7). Nossa interpretação da profecia bíblica nos leva a crer que
todos quantos integram o povo remanescente de Deus, nos últimos dias
da história da igreja, enfrentarão toda a fúria do poder do dragão ao
Questões sobre Doutrina 140
empreender ele guerra aos que "guardam os mandamentos de Deus, e
têm o testemunho de Jesus" (Ap 12:17). A expressão "testemunho de
Jesus" é claramente definida, cremos, pelo anjo em Apocalipse 19:10.
Diz ele a João: "O testemunho de Jesus é o espírito de profecia."
Comentando isto, diz James Moffat:
" 'Pois o testemunho de [suportado por] Jesus é [constitui] o espírito
de profecia.' Isso [...] especificamente define os irmãos que foram
portadores do testemunho de Jesus como possuidores da inspiração
profética. O testemunho de Jesus equivale praticamente a testificar de
Jesus (22:20). É a própria revelação de Jesus (de acordo com 1:1, ela se
deve em última análise a Deus) que move os profetas cristãos" (The
Expositor's Greek Testament, v. 5, p. 465).
O Espírito de profecia acha-se intimamente relacionado com o dom
de profecia, sendo um o Espírito que dita a profecia, e outro a prova do
dom outorgado. Andam juntos, cada um ligado inseparavelmente ao
outro. O dom é a manifestação daquilo que o Espírito de Deus concede
ao que, de acordo com Seu bom propósito e Seu plano, Ele escolhe para
dar a orientação espiritual. Os adventistas do sétimo dia crêem que esse
dom se manifestou na vida e no ministério de Ellen G.White.
Em resumo, essa é a maneira adventista de entender os escritos de
Ellen G.White. Eles têm sido por quase 150 anos, conforme expressão
dela mesma, "uma luz menor" guiando homens e mulheres sinceros à
"luz maior".
Para responder a parte final da pergunta, com respeito à comunhão
da igreja, declaramos que, enquanto respeitamos os escritos de Ellen G.
White, e esperamos que todos os que se unem à igreja aceitem a doutrina
dos dons espirituais manifestos na experiência dela, não fazemos da
aceitação de seus escritos motivo de disciplina na igreja. Ela mesma foi
explícita neste ponto. Falando daqueles que não compreendiam plena-
mente o dom, disse:
Questões sobre Doutrina 141
"Essas pessoas não devem ser separadas dos benefícios e privilégios
de membros da igreja, se no demais a sua vida cristã se prova correta, e
tenham um bom caráter cristão" (Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p.
328).
J. N. Andrews, um dos fundadores do movimento adventista,
escreveu em 1870:
"Nós, pois, não aferimos o mundo, de modo algum, por esses dons.
Tampouco, em nossas relações com outras corporações religiosas que se
esforçam por andar no temor de Deus, de modo algum fazemos deles
uma prova de caráter cristão" (Review and Herald. 15 de fevereiro de
1870).
Tiago White, por três vezes presidente da Associação Geral,
falando da obra de Ellen G. White, declara expressamente que os
adventistas crêem que Deus a chamou "para realizar uma obra especial
neste tempo, entre este povo. Contudo, eles não fazem da crença nessa
obra uma prova de comunhão cristã" (Review and Herald, 13 de junho
de 1871, p. 205).
E essa tem sido nossa atitude coerente através de toda a nossa
história. Contudo, se alguém que é membro de nossa igreja perde a
confiança nesses conselhos e depois promove animosidade entre os
crentes, reservamos o direito de removê-lo da comunhão. Esse ato,
porém, não é realizado por causa da falta de confiança de alguém nesses
escritos, mas pelo fato de o descontente promover contenda entre os
crentes.
"Depois de homens e mulheres terem tido prova de que a obra é de
Deus e, mesmo assim, derem as mãos aos que a combatem, nosso povo
tem o direito de separar-se deles" (ibid.).
F. M. Wilcox, por 35 anos redator da Review and Herald, nossa
revista denominacional, diz:
"Na prática da igreja não tem sido costume eliminar alguém por não
reconhecer a doutrina dos dons espirituais. [...] O membro da igreja não
Questões sobre Doutrina 142
deve ser removido da comunhão devido à sua incapacidade de
reconhecer claramente a doutrina dos dons espirituais e sua aplicação ao
movimento do segundo advento" (The Testimony of Jesus, p. 141-143).
Essas declarações refletem nossa atitude coerente através dos anos,
e é nossaatual posição.
Referências
1. Conquanto esta declaração seja verdadeira em relação à posição
oficial da igreja e quase toda a sua liderança, também é verdade que
alguns indivíduos e subgrupos tradicionais dentro da denominação
parecem basear alguns de seus ensinos nos escritos de Ellen White.
2.Ver A. G. Daniells, Abiding Gift of Prophecy.
PARTE IV –
PERGUNTAS SOBRE
A LEI
E O LEGALISMO
Questões sobre Doutrina 143
10
Cristo: o Centro da Mensagem Adventista
PERGUNTA 10
Não são o conteúdo espiritual e a ênfase evangélica do seu programa
radiofônico "A Voz da Profecia "e do programa de televisão "Fé Para
Hoje" um contraste com o âmago doutrinário e legal do adventismo?
Não são um convite à boa vontade e uma sutil tentativa de atrair os
que se matriculam em sua Escola Radiopostal para que aceitem
paulatinamente o âmago doutrinário e legal do adventismo? A ênfase
doutrinária e legalista é um reflexo dos conselhos de Ellen G. White?
Em nossas atividades evangelísticas, quer por meio de programas
radiofônicos, pregação pública ou literatura, não há nenhuma tentativa
sutil ou esforço com o objetivo de enganar. O centro da mensagem
adventista é Cristo e Ele crucificado.
Podemos dizer com toda a sinceridade que os adventistas sustentam
ser o cristianismo não apenas um assentimento intelectual a um corpo de
doutrinas, não importa quão verdadeiras ou ortodoxas possam ser.
Cremos que cristianismo é uma experiência real com Cristo.
Cristianismo é uma relação com uma Pessoa — nosso bendito Senhor e
Salvador Jesus Cristo. E possível conhecer milhares de coisas acerca de
Cristo e, contudo, não O conhecer. Essa situação, naturalmente, deixa o
professo cristão tão distante de Deus como está o pecador perdido.
Como adventistas, cremos claramente em doutrina. Sustentamos
um corpo unificado de verdades bíblicas. Contudo, o que salva é
unicamente a graça, por meio da fé no Cristo vivo. E, de igual modo, o
que justifica é Sua graça gratuita e bendita. Cremos, de modo idêntico,
em obras, e na plena obediência à vontade e aos mandamentos de Deus.
Contudo, as obras nas quais cremos, e que procuramos realizar, são o
Questões sobre Doutrina 144
resultado, o fruto da salvação, e nunca um meio de salvação, no todo ou
em parte. E a obediência que prestamos é a reação amorável de uma vida
salva pela graça. A salvação jamais é adquirida em troca de algo; é um
dom de Deus através de Jesus Cristo. Por outro lado, conquanto sincero
o esforço feito, as obras frustram a graça de Deus (Gl 2:21).
Cremos também que uma mensagem especifica é devida hoje ao
mundo, e que somos chamados à existência para ter uma parte na
proclamação dela. Além disso, essa mensagem é simplesmente o
evangelho eterno uo plano da grande hora do juízo de Deus, da iminente
segunda vinda de nosso Senhor e do preparo das pessoas para se
encontrarem com Deus. O que, porém, prepara as pessoas para se
encontrarem com Deus não é apenas uma mensagem de advertência,
mas um evangelho que salva. Esta grande verdade fundamental está
constantemente diante de nós, em nosso coração e em nossos esforços.
Repetimos que essa ênfase não é nenhuma sutileza, como sugere a
pergunta. Não é um engodo, um truque ou uma isca. Ao contrário,
constitui sério esforço para pôr as primeiras coisas definitivamente em
primeiro lugar em nossas apresentações públicas, e para que o mundo
veja, ouça e conheça que a preocupação central do adventismo é Cristo e
Sua salvação.
Quanto aos conselhos de Ellen G.White sobre esse assunto, suas
mensagens por mais de meio século foram coerentemente invocadas para
exaltar a Cristo e dar ênfase primordial na plena salvação nEle. Citamos
alguns trechos de seus escritos:
―De todos os professos cristãos, devem os adventistas do sétimo dia
ser os primeiros a exaltar a Cristo perante o mundo. [...] O grande centro
de atração, Cristo Jesus, não deve ser deixado à parte. Na cruz de Cristo
é que a misericórdia e a verdade se encontram, e a justiça e a paz se
beijam‖ (Obreiros Evangélicos, p. 156).
―Exaltai a Jesus, vós que ensinais o povo, exaltai-O nos sermões,
em cânticos, em oração. Que todas as vossas forças convirjam para
Questões sobre Doutrina 145
dirigir ao "Cordeiro de Deus" almas confusas, transviadas, perdidas. [...]
Seja a ciência da salvação o tema central de todo o sermão, de todo hino.
Seja ela manifestada em toda súplica. Não introduzais em vossas
pregações coisa alguma que seja um suplemento a Cristo, a sabedoria e o
poder de Deus‖ (ibid., p. 160).
―Apresentai a verdade como é em Jesus, tornando claras as
exigências da lei do evangelho. Apresentai a Cristo, o caminho, a
verdade e a vida, e falai de Seu poder de salvar a todos quantos a Ele se
chegam‖ (ibid., p. 154).
―Cristo crucificado por nossos pecados, Cristo ressurgido dos
mortos, Cristo que subiu ao Céu, eis a ciência da salvação que devemos
aprender e ensinar. [...] É através de Cristo que recebemos todas as
bênçãos‖ (Testemunhos Para a Igreja, v.8, p. 287, 288).
―Nunca se deve pregar um sermão sem apresentar como a base do
evangelho a Cristo, e Ele crucificado. Os pastores alcançariam mais
corações, se salientassem mais a piedade prática‖ (Obreiros Evangélicos,
p. 158, 159).
―Cristo e Sua justiça - seja isto a nossa plataforma, a própria vida de
nossa fé‖ (Review and Herald, 31 de agosto de 1905).
―O sacrifício de Cristo como expiação pelo pecado é a grande
verdade em torno da qual se agrupam as outras. A fim de ser
devidamente compreendida e apreciada, toda verdade da palavra de
Deus, de Génesis a Apocalipse, precisa ser estudada à luz que dimana da
cruz do Calvário‖ (Obreiros Evangélicos, p. 315).
―A mensagem do evangelho de Sua graça devia ser dada à igreja em
linhas claras e distintas, para que não mais o mundo dissesse que os
adventistas do sétimo falam na lei, na lei, mas não ensinam a Cristo nem
nEle crêem‖ (Testemunhos Para Ministros, p. 92).
Essas citações típicas tornam evidente que os adventistas não
podem extrair logicamente qualquer ênfase legalista de Ellen G.White, e
jamais o fizeram.
Questões sobre Doutrina 146
11
Base e Frutificação da Experiência Cristã
PERGUNTA 11
Pode alguém que mantenha as opiniões dos adventistas do sétimo dia
ter a certeza absoluta da salvação presente, dos pecados perdoados e
de ser plenamente aceito pelo Senhor? Ou terá ele que viver na
incerteza, dependendo da decisão que possa ser tomada no juízo
investigativo? E essa incerteza não se reflete nos escritos de Ellen G.
White?
Quem verdadeiramente compreende e aceita os ensinos da Igreja
Adventista do Sétimo Dia pode, com clareza, saber que nasceu de novo,
sendo plenamente aceito pelo Senhor. Tem absoluta certeza da salvação
presente, e não necessita estar em nenhuma incerteza. De fato,
compreende isso tão plenamente que pode sinceramente regozijar-se no
Senhor (Fp 4:4) e no "Deus de sua salvação" (Sl 24:5). Como as per-
guntas acima atingem todo o plano da salvação divina para o homem,
chamamos a atenção para os seguintes pontos.
I. PLANO DE DEUS E PROVIDÊNCIA DE REDENÇÃO
1.A Iniciativa do Plano de Salvação é de Deus, não do Homem.
"Tudo", lemos, "provém de [grego ek, ‗de‘] Deus" (2Co 5:18). Sabemos
que Ele "nos reconciliou" (v. 18); que "Deus estava em Cristo
reconciliando consigo o mundo" (v. 19); que não fomos nós quem
primeiro amou a Deus, mas Ele nos amou primeiro (1Jo 4:9. 10); que
Cristo é a "propiciação pelos nossos pecados" (1Jo 2:2); e que "fomos
reconciliados com Deus mediante amorte do Seu Filho" (Rm 5:10).
Tudo isso nos vem "conforme o dom da graça de Deus" (Et 3:7). E,
quanto aos escritos de Ellen G. White, podemos citar uma porção de
Questões sobre Doutrina 147
afirmações claríssimas e coerentes sobre os princípios fundamentais da
salvação pessoal e da experiência cristã. Por exemplo:
"A graça é um atributo de Deus, exercido para com as indignas
criaturas humanas. Não a buscamos, porém, ela foi enviada a procurar-
nos. Deus Se regozija de conceder-nos Sua graça, não porque somos
dignos, mas porque somos tão completamente indignos. Nosso único
direito à Sua misericórdia é nossa grande necessidade" (A Ciência do
Bom Viver. p. 161).
2. Cristo é o Único Salvador da Humanidade Perdida. Não há,
nem pode haver, outro Salvador. Essa ideia foi há muito tempo trazida á
atenção do antigo povo de Deus.
Disse Jeová:'"Eu, Eu sou o Senhor, e fora de Mim não há Salvador"
(Is 43:1 l); "não há outro Deus, senão Eu; Deus justo e Salvador não há
além de Mim. Olhai para Mim, e sede salvos" (Is 45:21, 22; ver também
Is 60:16; Os 13:4).
Jesus Cristo, nosso Senhor, é o único fundamento (1Co 3:11); Seu
nome é o único "pelo qual importa que sejamos salvos" (At 4:12). Este
conceito - de que não há salvação em nenhum outro - foi posto em foco
na declaração feita a José concernente à obra de Deus: "Ele salvará o Seu
povo dos pecados deles" (Mt 1:21). A tradução literal do texto grego é:
"Ele próprio salvará Seu povo." "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar
os pecadores, dos quais eu sou o principal" (1Tm 1:15); Somente Ele
"pode salvar totalmente" (Hb 7:25). Essa compreensão é básica.
Unicamente através de Cristo podemos ser salvos.
3. O Homem não Pode Salvar-se; Por Si ou de si Mesmo Está
Desesperançadamente Perdido. (a) Não há nenhuma salvação no
homem para o homem. Homem algum pode "remir seu irmão" (Sl 49:7).
(b) Sem a salvação providenciada em Cristo Jesus, nosso Senhor, os
homens estariam irremediavelmente perdidos. "Não há justo, nenhum se-
quer" (Rm 3:10); "não há quem faça o bem, não há nenhum sequer" (v.
12); "Todos pecaram e carecem da glória de Deus" (v. 23). Não há, pois,
Questões sobre Doutrina 148
esperança alguma fora de Jesus, o Salvador. Isaías descreve vividaniente
a condição natural do homem: "Toda a cabeça está doente, e todo o
coração, enfermo. Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã,
senão feridas, contusões e chagas inflamadas" (Is 1:5, 6).
Jeremias acrescenta: "Enganoso é o coração, mais do que todas as
coisas, e desesperadamente corrupto" (Jr 17:9). Declara o apóstolo Paulo
que o homem "sem Deus" não tem esperança (Ef 2:12). Está de fato
morto "em ofensas e pecados" (v. 1). Consequentemente, se o homem
precisa ser salvo, deve buscar somente o auxílio divino.
4. Estando o Homem Morto no Pecado, Mesmo o Impulso
Inicial Para uma Vida Melhor Tem que Vir de Deus. Cristo é "a
verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem" (Jo 1:9).
Esta luz, em certos aspectos conhecida somente pela providência divina,
penetra as trevas do coração humano e acende a primeira fagulha do
desejo de buscar a Deus. Se a pessoa começa a buscá-Lo, então o Pai,
que enviou Cristo, atrairá o pecador (Jo 6:44). Mais ainda:"E Eu, quando
for levantado da terra, atrairei todos a Mim mesmo" (Jo 12:32). Dessa
forma, mesmo o desejo de arrependimento provém de cima, pois Jesus,
nosso Salvador, dá "arrependimento" e concede "remissão de pecados"
(At 5:31).
A completa mudança assim realizada no coração humano não se dá
por ato de nossa própria vontade, certamente não por exaltação ética ou
esforço de reforma social, mas exclusivamente pelo novo nascimento.
Devemos "nascer de novo" ["Nascer de cima", rodapé] (Jo 3:3). O
cristão é "nascido de Deus" (1Jo 3:9); nascido do Espírito Santo (Jo 3:5,
6); gerado pela Palavra de Deus (1Pe 1:23). Verdadeiramente essa é uma
obra da graça divina.No sentido mais exato, somos "feitura dEle" (Ef
2:10). No ato de "regeneração", Deus nos salva; é Ele quem derrama
sobre nós o Espírito Santo (Tt 3:5, 6).
5. Nada do que Fizermos Merecerá o Favor de Deus. A salvação
é de graça. É a graça que traz a salvação (Tt 2:11). "Fomos salvos pela
Questões sobre Doutrina 149
graça do Senhor Jesus" (At 15:11). Não somos salvos pelas obras (Rm
4:6; Ef 2:9; 2Tm 1:9), embora sejam boas (Tt 3:5), ou mesmo envolvam
"maravilhas" (Mt 7:22). Tampouco somos salvos pela lei (Rm 8:3), nem
por atos ou obras da lei (Rm 3:20, 28; Gl 3:2, 5, 10). E nem a "lei de
Moisés" nem o Decálogo nos podem salvar (At 13:39; Rm 7:7-10). A lei
de Deus jamais se destinou a salvar os homens. É um espelho em que
nos miramos para ver nossa pecaminosidade. Isso é até onde a lei de
Deus pode ir com o pecador. Pode revelar-lhe o pecado, mas é destituída
de poder para removê-lo, ou salvar o pecador de sua culpa, penalidade e
poder.
Graças a Deus, porém, que "o que fora impossível à lei, no que
estava enferma pela carne" (Rm 8:3), Deus o fez na pessoa de Sen Filho.
NEle se abre uma fonte "para remover o pecado e a impureza" (Zc 13:1).
Nessa fonte, todos se podem banhar e ser "lavados" de seus pecados pelo
próprio sangue de Cristo (Ap 1:5). Por mais maravilhoso que possa
parecer, os remidos podem agora rejubilar-se, pois "lavaram suas
vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro" (Ap 7:14). De fato, é
pela Sua graça (Ef 2:5, 8), Sua misericórdia (Tt 3:5), Seu dom (Ef 2:8),
Seu evangelho (Rm 1:16), e de acordo com Seu propósito (Rm 8:28), que
somos salvos.
6. Conquanto a Salvação Venha de Deus, Requer-se uma
Submissão da Vontade. Depois das primeiras sugestões do Espírito de
Deus e de atrativos sinais do amor de Deus, a pessoa deve aceitar o
grande Libertador e render-se a Ele. Esse ato de entrega, motivado pela
graça divina, possibilita a Deus estender ao ser humano todas as
maravilhosas provisões de Sua generosidade. Tal atitude da parte do ser
humano é expressa de vários modos na Santa Escritura.
Devemos crer ("todo aquele que nEle crê", Jo 3:16); render-nos
("apresentai-vos a Deus", Rm 6:13); devemos submeter-nos ("sujeitai-
vos, portanto, a Deus", Tg 4:7); mortificar-nos (mortificai "as obras do
corpo", Rm 8:13), literalmente "matar", "exterminar"; apresentar nosso
Questões sobre Doutrina 150
corpo a Deus ("apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo", Rm 12:1);
considerar-nos mortos para o pecado ("considerai-vos mortos para o
pecado", Rm 6:11); e morrer por causa do pecado ("se, porém, Cristo
está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado", Rm
8:10).
Tudo quanto é representado por esses atos da vontade não está
certamente na natureza das "obras", e nada acrescenta, nem em mínimo
grau, à eficácia da salvação. Não! Ao contrário, denota a atitude de
alguém correspondendo às propostas da livre graça de Deus,
possibilitando ao nosso coração que lhe seja concedida de maneira
ilimitada a graça divina.
7. A Vida e Experiência Cristãs São um Crescimento na Graça.
A vida cristã é mais do que um ato inicial de fé, ou aquele ato de entrega
ao aceitar a Jesus Cristo como Senhor. Por esse ato passamos "da morte
para a vida" (Jo 5:24) e nascemos de novo (Jo 3:3); mas, a partir de
então, precisamos crescer. O mesmo ocorre na vida fisiológica. Uma
coisa é o nascimento, o começo da vida. Ninguém, no entanto, apreciará
uma criança que não tenha crescido. Semelhantemente, é propósito de
Deus que devamos crescer "na graça e no conhecimento de nosso Senhor
e Salvador Jesus Cristo" (2Pe 3:18). Como meninos espirituais, devemos
nutrir-nos do "genuíno leite espiritual" da Palavra (1Pe 2:2), mas tem
que haver crescimento, de modo a podermos alimentar-nos de "alimento
sólido" (Hb 5:12, 14).
II. CRER EM JESUS
Nossa vida cristã deve ser uma constante atitude de crer em Jesus.
Começamos pelo crer e, pela graça, devemos nos manter crendo. Não
devemos apenas nos "entregarmos", mas nos mantermos nessa entrega.
Devemos "submeter-nos" e nos manter em submissão. Não devemos
apenas "morrer" para o pecado, mas devemos "considerar-nos" mortos
Questões sobre Doutrina 151
para ele e nos manter nessa atitude. Devemos "apresentar" nosso corpo a
Deus, e mantê-lo nessa postura.Tudo isso é obra da graça.
A vida cristã requer constante entrega, constante consagração,
constante rendição do coração e da vida a Deus. Nós, os que estávamos
mortos no pecado (Et 2:1), estamos agora mortos para o pecado (Rm
6:11). Identificamo-nos com Jesus em Sua morte, e dessa forma
morremos com Ele (Cl 2:20); de fato, nossa "vida" está escondida com
Cristo em Deus" (Cl 3:3).
Esse pensamento é maravilhosamente expresso pelos tempos de
verbo empregados pelo grego no Novo Testamento. Em João 3:18, 36,
onde lemos "quem crê", tem no grego a forma de particípio presente,
incluindo a ideia de que "quem crê nEle e continua a crer" e faz "disso
um hábito de vida" será salvo. O tempo verbal presente contendo a ideia
de continuação também ocorre na expressão "mortificardes os feitos do
corpo" (Rm 8:13). A ideia é a de uma atitude contínua de mortificar os
apetites carnais.
Ellen G.White declara desta forma:
"Não é seguro ser cristãos ocasionais. Cumpre-nos ser semelhantes
a Cristo em nossas ações a todo tempo. Então, pela graça, estamos
seguros para o tempo e a eternidade" (Conselhos aos Pais, Professores e
Estudantes, p. 487).
E ainda:
"Necessita-se da graça divina no começo, da graça divina em cada
passo de avanço; só a graça divina pode completar a obra. [...] Podemos
ter tido uma medida do Espírito de Deus, mas tanto pela oração como
pela fé devemos buscar continuamente mais do Espírito" (Testemunhos
para Ministros, p. 508).
III. NENHUMA CONFIANÇA NA CARNE
Há uma luta constante na vida cristã. "Porque a carne milita contra
o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para
Questões sobre Doutrina 152
que não façais o que, porventura, seja do vosso querer" (Gl 5:17). Os que
vivem segundo a carne não podem agradar a Deus (Rm 8:8), porque o
que semeia na carne colherá corrupção (Gl 6:8). Viver conforme a carne
significa "caminhar para a morte" (Rm 8:13). E o fato é que em nossa
carne não habita bem algum (Rm 7:18).
Por isso, não "confiamos na carne" (Fp 3:3). Enquanto vivermos
neste vale de lágrimas, nossa esperança repousará unicamente em Cristo,
nosso Senhor. Se andarmos "no Espírito", não cumpriremos a
"concupiscência da carne" (Gl 5:16). E, mesmo aqui e agora, podemos
ter a vitória se passarmos pela experiência de Paulo: "Logo, já não sou
eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na
carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e Si mesmo Se
entregou por mim"(Gl 2:20).
IV. CRESCIMENTO NA VIDA CRISTÃ
O crescimento na vida cristã significa íntima comunhão com Jesus
Cristo; nosso Senhor. Significa alegria e certeza; significa constante
gratidão a Deus pelo maravilhoso livramento que Ele executou por nós.
Há, porém, um grave aspecto nessa experiência. Observemos:
Requer renúncia diária - "Se alguém quer vir após Mim, a si
mesmo se negue, dia a dia, tome a sua cruz e siga-Me" (Lc 9:23).
Requer sacrifício diário - "Rogo-vos, pois, irmãos, pelas
misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo,
santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional" (Rm 12:1).
Requer consagração diária - "Oferecei, agora, os vossos membros
para servirem à justiça, para a santificação" (Rm 6:19). "Oferecei-vos a
Deus" (v. 13).
E ainda testifica a Sra.White:
"Não é só no princípio da vida cristã que esta entrega do próprio eu
deve ser feita. Deve ser renovada a cada passo dado em direção do
Céu.Todas as nossas boas obras dependem de um poder que não está em
Questões sobre Doutrina 153
nós. Portanto, deve haver um contínuo almejar do coração após Deus,
uma contínua, fervorosa, contrita confissão de pecado e humilhação da
alma perante Ele. Só podemos caminhar com segurança por uma
constante negação do próprio eu e confiança em Cristo" (Parábolas de
Jesus, p. 159, 160).
V. É IMPERATIVO NÃO CONFIAR EM SI MESMO
Na vida cristã não há lugar para orgulho. Nada temos de que nos
vangloriar (Et 2:9). Bem poderíamos todos nós aprender a lição de
humildade vista na vida de Paulo: "Sou o menor dos apóstolos" (1Co
15:9);"a mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça" (Ef
3:8).
Afinal de contas, nada podemos fazer de nós mesmos. Disse Jesus:
"Sem Mim nada podeis fazer" (Jo 15:5). Nada conhecemos de nós
mesmos (1Co 4:4; 2Co 3:5). Bem podemos perguntar: "Quem, porém, é
suficiente para estas coisas?" (2Co 2:16). Contudo, nos é assegurado nas
Escrituras que "a nossa suficiência vem de Deus" (2Co 3:5). E esta
capacidade é todo-suficiente. Nossa fé deve apoiar-se "no poder de
Deus" (1Co 2:5). O poder em nossa vida e ministério deve provir "de
Deus e não de nós" (2Co 4:7).Vivemos "pelo poder de Deus" (2Co 13:4),
pois é "Seu poder que opera em nós" (Ef 3:20). "Porque Deus é quem
efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa
vontade" (Fp 2:13), "operando em vós o que é agradável diante dEle, por
Jesus Cristo" (Hb 13:21).
Mais uma vez declara a Sra.White:
"Nenhum dos apóstolos e profetas jamais pretendeu estar isento de
pecado. Homens que viveram mais achegados a Deus, homens que
sacrificariam antes a vida a cometer conscientemente uma ação injusta,
homens que Deus honrou com luz e poder divinos, confessaram a
pecaminosidade de sua natureza. Nunca confiaram na carne, nunca
pretenderam ser justos em si mesmos, mas confiaram inteiramente na
Questões sobre Doutrina 154
justiça de Cristo. O mesmo se dará com todos os que contemplam a
Cristo" (Parábolas de Jesus, p. 160).
VI. TER FOME E SEDE DE DEUS
"Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça" (Mt 5:6).
Este é o sinal do verdadeiro filho de Deus. Nada tendo de si mesmo,
anseia pela justiça de Deus. Gratos a Deus pela certeza: "sereis fartos"
(Lc 6:21). Cristo aqui esteve realçando a experiência de Davi no
passado: "A minha alma tem sede de Ti; meu corpo Te almeja" (Sl 63:1);
"a minha alma tem sede de Deus" (Sl 42:2); "o meu coração e a minha
carne exultam pelo Deus vivo" (Sl 84:2). Essa é a legitima fome do
espírito, o anelo do coração humano em ser semelhante a Cristo. E sob
essas condições que Deus sacia "a alma sequiosa" e farta "de bens a alma
faminta" (Sl 107:9).
1. Haverá Genuína Frutificação na Vida dos Fiéis Filhos de
Deus. Haverá genuíno progresso no produzir fruto na vida cristã. E isso
se desenvolverá à medida que avançarmos de fé em fé. No evangelho de
João, lemos de "fruto" (Jo 15:2), "mais fruto" (v. 2), ainda "muito fruto"
(v.5) e, finalmente, que "vosso fruto permaneça" (v. 16). Assim devemos
prosseguir "de força em força" (Sl 84:7) e de vitória em vitoria, porque é
Deus quem nos dá "a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus
Cristo" (1Co 15:57). "Graças, porém, a Deus, que, em Cristo, sempre nos
conduz em triunfo" (2Co 2:14).
Então, haverá o "fruto de justiça" (Fp 1:11; comparar com Tg 3:18).
"O fruto do Espírito está em toda a bondade, e justiça, e verdade" (Ef
5:9). Um sumário mais completo ocorre na epístola aosGálatas: "o fruto
do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade,
fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei"
(Gl 5:22, 23).
Que maravilhosa descrição! O supremo fruto do Espírito é o amor.
Tudo o que se segue são aspectos dessa qualidade divina. Assim como
Questões sobre Doutrina 155
várias cores perfazem a luz solar, também essas graças juntas constituem
o amor. Dessa forma, alegria é o amor exultante; paz é o amor em
repouso; longanimidade é o amor incansável; benignidade é o amor
paciente; bondade é o amor em ação; fidelidade é o amor em forma de
confiança; mansidão é o amor sob disciplina; enquanto domínio próprio
é o amor no autocontrole.
Essa frutificação deve ser vista na vida do cristão. Essas virtudes
não crescem por algum esforço nosso, mas se manifestam em nossa vida
porque Cristo habita em nosso coração pela fé (Ef 3:17). Estas virtudes
existem em Cristo; e, quando Ele habita em nós, faz existir em nós as
maravilhosas qualidades de Seu caráter perfeito.
As obras como meio de salvação não têm nenhum lugar no plano
de Deus. Não podemos ser justificados de forma alguma por qualquer
espécie de obras. A justificação é totalmente um ato de Deus, e não
somos senão receptores de Sua ilimitada graça.
Mas as obras como frutificação da salvação têm um lugar definido
no plano de Deus. Isso se manifesta nas graças ou virtudes espirituais
que se vêem nos filhos de Deus, como já notamos. Devemos "realizar as
obras de Deus" (Jo 6:28). Existe a "obra da vossa fé" (1Ts 1:3); e todo
aquele que "pratica a justiça é nascido dEle" (1Jo 2:29). As "boas obras"
são muitas vezes mencionadas no Novo Testamento (ver Ef 2:10), mas
deve-se ter em mente que, em toda a nossa obra de fé (2Ts 1:11), nossa
fé tem que ser ativada pelo amor de Deus (Gl 5:6). Assim, em todas as
coisas, "o amor de Cristo nos constrange" (2Co 5:14).
Escreve Ellen G.White:
"Nenhuma cerimônia exterior pode substituir a simples fé e a
renúncia completa do eu. Entretanto, ninguém consegue, por si mesmo,
renunciar o próprio eu. Somente podemos consentir em que Cristo
execute essa obra. Então, a linguagem do ser humano será: Salva-me a
despeito de mim mesmo, de minha fraqueza, e falta de identidade com
Cristo. Senhor, toma meu coração; pois não o posso dar. É Tua
Questões sobre Doutrina 156
propriedade. Conserva-o puro; pois não posso conservá-lo para Ti.
Molda-me, forma-me e eleva-me a uma atmosfera pura e santa, onde a
rica torrente de Teu amor possa fluir por minha alma" (Parábolas de
Jesus, p. 159).
Deve-se observar que o "fruto do Espírito" (Gl 5:22, 23) é plena
harmonia com a lei de Deus, pois contra a manifestação dessas virtudes
na vida "não há lei" (v. 23). Em outras palavras, a pessoa em cuja vida se
manifestam essas virtudes cumprirá os mandamentos de Deus. Ela não
pode fazer isso por si mesma; não se espera que o faça. Mas, com Cristo
habitando em sua vida, a própria vida justa de Cristo (Jo 15:10) é
atribuída e comunicada ao filho de Deus. Assim exclamou Davi:
"Grande paz têm os que amam a Tua lei; para eles não há tropeço" (Sl
119:165). Por isso, o apóstolo amado pôde escrever: "Ora, sabemos que
O temos conhecido por isto: se guardarmos os Seus mandamentos."
"Aquele, entretanto, que guarda a Sua palavra, nele, verdadeiramente,
tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos
nEle" (1Jo 2:3, 5). E "nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus:
quando amamos a Deus e praticamos os Seus mandamentos" (1Jo 5:2).
Devemos ter uma visão equilibrada do plano de Deus. É Seu
propósito que Seu povo seja justo. Eles não são naturalmente justos. Mas
no evangelho da graça de Deus há provisão para que "o preceito da lei se
cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o
Espírito" (Rm 8:4). Assim, "a circuncisão, em si, não é nada; a
incircuncisão também nada é, mas o que vale é guardar as ordenanças de
Deus" (1Co 7:19). A versão inglesa Twentieth Century diz: "A
observância dos mandamentos de Deus é tudo."
2. O Filho de Deus Pode Ter Confiança e Certeza. É nosso
privilégio e, na verdade, nossa herança como filhos de Deus comprados
pelo sangue termos a "forte convicção do entendimento" (Cl 2:2),
desfrutar a "plena certeza de fé" (Hb 10:22) e conhecer a "plena certeza
Questões sobre Doutrina 157
da esperança" (Hb 6:11). Temos confiança nEle (1Jo 5:14), "confiança
diante de Deus" (1Jo 3:21).
Ao sincero filho de Deus, essa experiência não é um boato, uma
fantasia ou crença. É experiência real e genuína. Podem dizer com toda
confiança, embora com humildade: "Sabemos que já passamos da morte
para a vida" (1Jo 3:14); sabemos "que estamos nEle" (1Jo 2:5); sabemos
"que Ele permanece em nós" (1Jo 3:24).
VII. TRÊS TEMPOS NA SALVAÇÃO
A salvação do pecado é apresentada em três "tempos": passado,
presente e futuro. É obra progressiva. O filho de Deus pode, com
propriedade, dizer: "Fui salvo da penalidade do pecado". Também:
"Estou sendo salvo do poder do pecado." E também pode dizer, com
verdade: "Serei salvo até da presença e possibilidade do pecado."
Com relação à primeira expressão, "fui salvo", Paulo escreveu a
Tito: "Segundo Sua misericórdia, Ele nos salvou" (Tt 3:5); semelhante-
mente: "Na esperança, fomos salvos" (Rm 8:24). Em ambos os casos, o
verbo grego está no aoristo. Por exemplo, essa última citação poderia ser
lida de maneira mais correta: "fomos salvos" ou "temos sido salvos"
(Revised Standard e Weymouth). E isso realça o aspecto da salvação que
é um fato consumado.
Contudo, é também verdade que, como sinceros crentes em Cristo,
estamos sendo salvos. Há algo em andamento a ser completado dia a dia.
Lemos: "Para nós, que somos salvos" (1Co 1:18). E aqui a mais exata
tradução do grego é "para nós que estamos sendo salvos" (RSV). Esse
mesmo pensamento ocorre em Atos 2:47, onde a tradução correta é
"aqueles que estavam sendo salvos" (RSV).
Por último, a expressão "serei salvo". Lemos também: "cremos que
seremos salvos" (At 15:11 - RC), "seremos por Ele salvos" (Rm 5:9).
Questões sobre Doutrina 158
Essa é a tríplice maneira pela qual a obra de salvação toca o coração
humano. Assim fomos salvos (justificação), estamos sendo salvos
(santificação) e seremos salvos (glorificação).
VIII. O POVO DE DEUS DELEITA-SE NO SENHOR
Quando Deus perdoa nossos pecados e nos dá, em Sua Palavra, a
certeza de que estão perdoados (Ef 4:32), não temos necessidade alguma
de nos preocuparmos e ficar apreensivos quanto ao futuro. É verdade que
haverá um julgamento onde os pecados dos homens serão tratados. Mas
isso não deve inquietar os filhos de Deus, pois, como cristãos, habitam
agora em Deus, e Deus habita neles (Jo 14:20). "Vossos pecados são
perdoados, por causa do Seu nome" (1Jo 2:12). A fé apodera-se de Sua
palavra e rejubila em saber que os pecados foram perdoados.
Quem, na verdade, passou da morte para a vida e mantém atitude de
constante submissão não vive na incerteza. Tendo posto seu caso nas
mãos de seu poderoso Advogado, não mais teme o futuro. Cristo é sua
segurança, e ele vive a fé numa atmosfera de completa confiança em
Deus, regozijando-se naquele "perfeito amor" que "lança fora o medo"
(1Jo 4:18).
A luz dessa grandiosa salvação, não deveria a vida do povo de Deus
ser de regozijo? Mesmo os israelitas nos remotos tempos do Antigo
Testamento sabiam o que isso significava. Notemos suas expressões de
contentamento e alegria: "Exultai, ó justos, no Senhor!" (Sl 33:l);
"Alegrai-vos, pois, filhos de Sião, regozijai-vos no Senhor, vosso Deus"(Jl 2:23). E o salmista disse: "Exultem os Teus fiéis" (Sl 132:9);
"exultem eternamente" (Sl 5:11).
Vez após vez, temos o estribilho: "Louvai ao Senhor". E o povo o
fazia de coração, pois lemos: "Alegrar-me-ei e exultarei em Ti" (Sl 9:2);
"minha alma se regozijará no Senhor" (Sl 35:9);"regozijar-me-ei muito
no Senhor, a minha alma se alegra no meu Deus" (Is 61:10); "contarei o
que tem Ele feito por minha alma" (Sl 66:16).
Questões sobre Doutrina 159
No Novo Testamento há a mesma nota de regozijo. "Alegria" é uma
das grandes palavras do Novo Testamento. Na verdade, o evangelho é,
em si mesmo, "boa-nova de grande alegria" (Lc 2:10). E Jesus, o autor
da salvação eterna (Hb 5:9), desejava que Seus discípulos participassem
de Sua alegria, pois nEle e por Ele a alegria deles seria completa (Jo
15:11; 16:24). O grande apóstolo dos gentios expressou o mesmo
pensamento ao exortar os santos a se regozijarem "no Senhor" (Fp 3:1).
"Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos" (Fp 4:4).
Assim, podemos unir nossa voz à dos coros celestiais, "proclamando em
grande voz: Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e
riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor" (Ap 5:12).
Questões sobre Doutrina 160
12
Os Dez Mandamentos:
a Norma Divina de Conduta
PERGUNTA 12
Muitos cristãos têm a impressão de que os adventistas do sétimo dia
são legalistas por ensinarem que é necessário guardar a lei afim de
sermos salvos. Qual é a exata posição adventista para com a lei? E
como sua crença se compara à posição histórica protestante?
A posição adventista do sétimo dia em relação aos Dez
Mandamentos é apresentada sucintamente em nossa declaração de
Crenças Fundamentais, parte 6, que assim declara:
"6. Que a vontade de Deus relativamente à conduta moral se acha
compreendida em Sua lei dos Dez Mandamentos; que estes são grandes
preceitos morais, imutáveis, obrigatórios a todos os homens, em todas as
épocas (Êx 20:1-17)".
Os Dez Mandamentos proferidos por Deus no Monte Sinai são
distintos de todos os demais preceitos divinos registrados na Bíblia, pela
sua própria natureza e pela forma como foram entregues. Em si mesmos,
contêm a prova de seu caráter permanente. A natureza moral do ser
humano a eles corresponde com aprovação, e é impossível a um cristão
esclarecido supor que não estejam em vigor, enquanto Deus for Deus e o
homem, criatura moral.
Vista corretamente, a lei moral é muito mais do que um código
legal; é um transcrito do caráter de Deus. Diz A. H. Strong, teólogo
batista:
"A lei de Deus é, por conseguinte, simplesmente uma expressão da
natureza divina em forma de reivindicações morais (Sl 19:7; cf. 1).
Todos os homens testemunham a existência dessa lei. Mesmo a
Questões sobre Doutrina 161
consciência dos pagãos a testifica (Rm 2:14,15). Os que têm a lei escrita
reconhecem essa lei básica como a de maior extensão e penetração (Rm
7:14; 8:4). A perfeita concretização e o perfeito cumprimento dessa lei
são vistos unicamente em Cristo (Rm 10:4; Fp 3:8,9)" (Systematic
Theology, p. 538).
Ellen G.White expressou essas verdades em palavras ligeiramente
diferentes:
"A lei de Deus é tão sagrada como Ele próprio. E uma revelação de
Sua vontade, uma transcrição de Seu caráter, expressão do amor e
sabedoria divinos. A harmonia da criação depende da perfeita
conformidade de todos os seres [...] com a lei do Criador (Patriarcas e
Profetas, p. 52).
"A divina beleza de caráter de Cristo, de quem o mais nobre e mais
suave entre os homens não é senão um pálido reflexo; de quem Salomão,
pelo Espírito de inspiração escreveu: "Ele traz a bandeira entre dez mil.
[...] Sim, Ele é totalmente desejável" (Ct 5:10,16); de quem Davi, vendo-
O em profética visão, disse; "Tu és mais formoso do que os filhos dos
homens" (Sl 45:2). Jesus, a expressa imagem da pessoa do Pai, o
resplendor de Sua glória, o abnegado Redentor, através de Sua
peregrinação de amor na Terra, foi uma viva representação do caráter da
lei de Deus. Em Sua vida se manifesta que o amor de origem celeste, os
princípios cristãos, fundamenta as leis de retidão eterna" (O Maior
Discurso de Cristo, p. 49).
Para a compreensão exata e completa do que Deus tem em mente
com Sua lei moral, o cristão precisa volver-se para Cristo. É Ele quem
habilita a alma nascida de novo a viver nova vida. Esta é, de fato, a
permanência de Cristo em seu coração, e daí o crente, pela sua
submissão a seu Senhor, corporifica no coração e na vida os princípios
do caráter de Deus.
Questões sobre Doutrina 162
A posição adventista sobre a relação entre os Dez Mandamentos e a
salvação é exposta nas "Crenças Fundamentais dos Adventistas do
Sétimo Dia", parágrafo 8:
"Que a lei dos Dez Mandamentos revela o pecado, cuja penalidade
é a morte. A lei não pode salvar do pecado o transgressor, nem lhe
comunicar poder que o guarde de pecar. Com infinito amor e
misericórdia, Deus provê um meio pelo qual isso se torna possível. Ele
oferece um substituto, o próprio Cristo, o Justo, para morrer em lugar do
homem – ‗Aquele que não conheceu pecado, Ele O fez pecado por nós;
para que, nEle, fôssemos feitos justiça de Deus‘ (2Co 5:21). O homem é
justificado, não pela obediência da lei, mas pela graça que há em Cristo
Jesus. Aceitando a Cristo, ele é reconciliado com Deus, justificado por
Seu sangue quanto aos pecados cometidos no passado e salvo do poder
do pecado pela permanência de Sua vida nele. Assim, o evangelho se
torna ‗o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê‘ (Rm 1:16).
Este processo é efetuado pelo agente divino que é o Espírito Santo, o
qual convence o homem do pecado e o conduz Aquele que levou sobre
Si os pecados, introduzindo o crente na comunhão do novo concerto, sob
o qual a lei de Deus lhe é escrita no coração. E, pelo poder que lhe
comunica o Cristo que no crente habita, sua vida é posta em conformi-
dade com os preceitos divinos. A honra e o mérito dessa maravilhosa
transformação pertencem unicamente a Cristo (1Jo 2:1, 2; 1Jo 3:4; Rm
3:20; Rm 5:8-10; Rm 7:7; Ef 2:8-10; Ef 3:17; Cl 2:20; Hb 8:8-12)."
E isso está em plena harmonia com o que é ensinado nas históricas
confissões de fé:
O Catecismo Valdense (c. 1500) e a Confissão dos Valdenses
(1655) citam os Dez Mandamentos e a Oração do Senhor como
"fundamentos de nossa fé e de nossa devoção". E mais: "A fé viva
consiste em crer em Deus, ou seja, amá-Lo e guardar Seus manda-
mentos" (Schaff, The Creeds of Christendon, v. 1, p. 572, 573, 575; v. 3,
p. 757, 768).
Questões sobre Doutrina 163
O Pequeno Catecismo de Lutero (1529), depois de citar os Dez
Mandamentos, conclui: "Devemos, portanto, amá-Lo e confiar nEle e
jubilosamente obedecer Seus mandamentos" (Schaff, v. 3, p. 77).
O Catecismo de Heidelberg (1563), o mais popular de todos os
símbolos da Reforma (e o primeiro a ser introduzido em solo americano)
entre as igrejas reformadas da Holanda e da Alemanha (ibid., v. 1, p.
549), depois de extensa série de perguntas sobre o Decálogo, declara que
os Dez Mandamentos são rigorosamente ordenados para que possamos
"buscar com mais zelo o perdão dos pecados e a justiça em Cristo"; e
"transformar-nos mais e mais à imagem de Deus" (ibid., v. 3, p. 340-
349).
A Fórmula de Concórdia (luterana, datada de 1576) afirma que os
cristãos estão livres da "maldição e sujeição da lei", mas não da lei em si
mesma. Sobre os Dez Mandamentos devem eles meditar dia e noite,e
"exercitar-se continuamente na guarda deles". Condena como "falsa e
perniciosa" a ideia de que o Decálogo não é a norma de justiça para o
cristão (ibid.,p. 130-135).
A Confissão Escocesa de Fé (1560), artigo XV, destaca a perfeição
da lei e a imperfeição do homem (ibid., p. 456. 457).
O Catecismo Menor de Westminster (1647) foi adotado pela Igreja
da Escócia em 1648, pelo Sínodo Presbiteriano de Nova York e
Filadélfia em 1788, e por quase todas as igrejas calvinistas,
presbiterianas e congregacionais. É o mais adotado que qualquer outro,
exceto o Pequeno Catecismo de Lutero e a Confissão de Heidelberg
(ibid., p. 676). Declara que os Dez Mandamentos, ou lei moral, revela o
dever que Deus requer do homem. E acrescenta: "Estamos ligados à
guarda de todos os Seus mandamentos" (ibid.. p. 678, 684, 685).
A Confissão Batista de New Hampshire (1833), aceita pelos
Estados do Norte e do Oeste dos Estados Unidos, artigo XII, "Da
Harmonia da Lei com o Evangelho", declara que a lei de Deus é "a
eterna e imutável regra de Seu governo moral", e que devemos, por meio
Questões sobre Doutrina 164
de nosso Mediador,"sincera obediência à santa Lei", como um dos
grandes fins do evangelho (ibid., p. 746).
Além disso, os adventistas partilham com milhares de homens
eminentes de várias confissões religiosas - Calvino, Wesley, Clarke,
Barnes, Spurgeon, Moody, G. Campbell Morgan, Henry Clay Trumbull,
Billy Graham - a crença na perpetuidade da lei moral de Deus, os Dez
Mandamentos, em vigor em todas as dispensações, como se pode
confirmar por estas citações:
Calvino: Eterna regra de vida. "Não devemos supor que a vinda de
Cristo nos tenha livrado da autoridade da lei; pois ela é a eterna regra de
uma vida santa e devota, e é, portanto, tão imutável como a justiça de
Deus, que a lei abrange de modo constante e uniforme (Commentary on
a Harmony of the Evangelists [1845], v. 1, p. 277).
Wesley: Permanece em vigor. "Mas a lei moral contida nos Dez
Mandamentos, e aplicada pelos profetas, Ele não aboliu. Não era
objetivo de Sua vinda revogar qualquer parte dela. Trata-se de uma lei
que jamais pode ser violada, que ‗permanece como fiel testemunha no
Céu‘. A lei moral assenta-se em fundamento inteiramente diferente
daquele em que repousa a lei cerimonial ou ritual. [...] Todas as partes
desta lei permanecem em vigor sobre toda a humanidade, e em todas as
épocas, não dependendo de lugar, ou quaisquer outras circunstâncias
sujeitas à mudança, mas da natureza de Deus e da natureza do homem, e
a imutável relação entre uma e outra (Sermons on Several Occasions, v.
1, p. 221, 222).
Morgan: Obediência pela fé. "É somente quando a graça capacita o
homem a guardar a lei que ele fica livre dela, assim como o homem que
vive de acordo com as leis do país está livre de ser preso. Deus não põe
de lado a lei, mas encontrou um meio pelo qual o homem pode cumpri-
la, e assim esteja livre dela" (The Ten Commandments [1901], p. 23).
Spurgeon: A lei de Deus é perpétua. "Grandíssimos erros se têm
cometido acerca da lei. Há não muito tempo havia ao nosso redor os que
Questões sobre Doutrina 165
afirmavam estar a lei totalmente revogada e abolida, e ensinavam
abertamente que os crentes não estavam na obrigação de fazer da lei
moral a regra de vida. O que teria sido pecado em outros homens, não
consideravam pecado em si mesmos. Deus nos livre de um
antinominianismo como este. [...]"
"A lei de Deus deve ser perpétua. Não há nela nenhuma revogação
nem emenda. Deve ser ajustada à nossa condição de seres caídos; mas
cada um dos juízos justos de Deus permanece para sempre. [...]"
"Eis que alguém me diz: 'Olhe, em lugar dos Dez Mandamentos
recebemos dois, e estes são mais fáceis de guardar.' Respondo que essa
compreensão da lei não é, de modo nenhum, mais fácil. Essa
interpretação denota falta de conhecimento e de experiência. Esses dois
mandamentos abrangem os dez em sua mais plena extensão, e não
podem ser considerados como exclusão de um jota ou til daqueles. [...]"
"Cristo, pois, não revogou nem mesmo enfraqueceu a lei para vir ao
encontro de nossa fragilidade; manteve-a em toda a sua sublime
perfeição, como sempre deve ser deixada, e demonstrou quão profundos
são seus fundamentos, quão elevada sua altura, quão imensuráveis seu
comprimento e largura. [...]"
"Para mostrar que Ele jamais pretendeu revogar a lei, nosso Senhor
Jesus exemplificou em Sua vida todos os Seus mandamentos. Em Sua
própria Pessoa havia uma natureza perfeitamente em harmonia com a lei
de Deus; e como era Sua natureza, também era Sua vida. Podia dizer:
"Quem de vós Me convence de pecado?" e acrescentar: 'Tenho guardado
os mandamentos de Meu Pai e permaneço em Seu amor.' [...]"
"Por meio de Sua morte, Ele vindicou a honra do governo moral de
Deus, e o fez por iniciativa própria, para ser misericordioso. Quando o
próprio Legislador Se submete à lei, quando o próprio Soberano suporta
a extrema punição dessa lei, então a justiça de Deus é posta num trono
glorioso e exaltado para que todos os mundos admirados possam
maravilhar-se à vista dela. Se, pois, está claramente provado que Jesus
Questões sobre Doutrina 166
foi obediente à lei, até a ponto de morrer, certamente Ele não veio para
aboli-la ou revogá-la; e se Ele não a mudou, quem pode fazê-lo? Se Ele
declara que veio para estabelecê-la, quem a subverterá? [...]
"A lei é absolutamente completa, e nada pode ser acrescentado a ela
ou dela retirado. 'E qualquer que guardar toda a lei, e tropeçar num só
ponto, torna-se culpado de todos. Porque Aquele que disse: Não
cometerás adultério, também disse: Não matarás. Se tu pois não
cometeres adultério, mas matares, estás feito transgressor da lei' (Tg 2:
10-11). Se, portanto, nenhuma parte dela pode ser desfeita, ela
permanece e para sempre" (The Perpetuity of The Law of God, publicado
na Spurgeon's Expository Encyclopedia, por Baker).
Billy Graham: Permanente e imutável. "A palavra 'lei' é emprega-
da pelos escritores do Novo Testamento em dois sentidos. Às vezes,
refere-se à lei cerimonial do Antigo Testamento, que diz respeito à
matéria ritualística e regulamentos sobre alimentos, bebidas e coisas
desse tipo. Desta lei os cristãos estão, de fato, livres. Mas o Novo
Testamento fala também da lei moral, que é de caráter permanente e
imutável e se acha sintetizada nos Dez Mandamentos (Associated Press
Dispatch, Chicago Tribune Syndicate).
Moody: Lei eterna, obedecida com amor no coração. "A pergunta
a cada um de nós é: Estamos guardando os mandamentos? Se Deus nos
pesar por eles, seremos ou não achados em falta? Guardamos a lei, toda a
lei? Estamos obedecendo a Deus de todo o coração? Prestamos-Lhe
plena e espontânea obediência?"
"Esses dez mandamentos não são dez leis diferentes; são uma só lei.
Se me acho suspenso no espaço por uma corrente de dez elos, e quebro
um deles, vou ao chão tão certamente como se quebrasse todos os dez.
Se estou proibido de sair de um terreno cercado, não faz diferença o
ponto em que posso romper a cerca. 'Pois qualquer que guardar toda a lei
mas tropeçar num só ponto, tornou-se culpado de todos.' A corrente de
ouro da obediência se rompe se faltar um elo. [...]".
Questões sobre Doutrina 167
"Por 1.500 anos, o homem esteve debaixo da lei, e nenhum se
igualou a ela. Cristo veio e demonstrou que os mandamentos estavam
além da mera letra; e pode alguém, depois disso, dizer que é capaz de
guardá-la em sua própria força? [...]"
"Posso imaginar o que vocês estão dizendo a si mesmos: 'Se
devemos ser julgados pelas leis, como devemos ser salvos?Cada um de
nós tem quebrado uma delas - se não na letra, pelo menos no espírito.' E
quase os ouço dizer: 'Gostaríamos de saber se o Sr. Moody se acha
preparado para ser pesado. Gostaria ele de passar por esses testes?' "
"Com toda humildade, respondo que, se Deus me ordenasse a entrar
nos pratos da balança agora, estou preparado.
" 'Como?', dirão vocês. 'O senhor não tem quebrado a lei?' "
"Sim, quebrei-a. Era, diante de Deus, um pecador como vocês; mas,
há quarenta anos, confessei-me culpado diante de Seu tribunal. Clamei
por misericórdia e Ele me perdoou. Se eu entrar nos pratos da balança, o
Filho de Deus prometeu estar comigo. Não ouso entrar lá sem Ele. Se o
fizesse, quão depressa os pratos se ergueriam!"
"Cristo guardou a lei. Se Ele a tivesse violado, teria que morrer por
Si próprio; mas, como era o Cordeiro sem mancha ou culpa, Sua morte
expiatória é eficaz para vocês e para mim. [...] Cristo é o fim da lei para
a justiça a todo o que crê. Somos justos à vista de Deus devido à Sua
justiça, que, pela fé em Jesus Cristo, é para todos e sobre todos os que
crêem. [...]"
"Se o amor de Deus for derramado sobre o coração, vocês serão
capazes de cumprir a lei." (Weighed and Wanting, p. 119-124).
Moody Monthly: Cristo ampliou o objetivo da lei. Há alguns anos,
publicou-se uma série de artigos na revista Moody Bible Institute
Monthly sob o título geral "Estão os Cristãos Livres da Lei?". Declara o
autor logo no primeiro artigo: "Vejamos agora como a lei moral é
realçada, ampliada e vigorada em todos os seus pormenores no Novo
Testamento." Demonstra como Cristo e os apóstolos a trataram:
Questões sobre Doutrina 168
"Longe de anular qualquer dos Dez Mandamentos, Ele [Cristo]
ampliou-lhes o desígnio, ensinando que um pensamento irado ou palavra
amarga transgredia o sexto mandamento, e um olhar lascivo transgredia
o sétimo (Mt 5:21, 22, 27, 28)."
"O ensino dos apóstolos sob a inspiração do Espírito Santo é ainda
mais enfático e explícito em relação ao desígnio e obrigações da lei
moral" (Moody Bible Institute Monthly, outubro de 1933).
Questões sobre Doutrina 169
13
Distinção Entre o Decálogo
e a Lei Cerimonial
PERGUNTA 13
Em que base os adventistas do sétimo dia consideram como separadas
a "lei moral" e a "lei cerimonial", em vista daquilo que nosso Senhor
cumpriu na cruz do Calvário?
Verificamos que há amplas bases bíblicas para ser feita essa
distinção. Os Dez Mandamentos, ou o Decálogo, constituem, em
princípio, a eterna lei de Deus. Essa lei não é apenas eterna, mas
imutável. É o fundamento de Seu trono; é a expressão de Seu caráter.
Desde que ela representa Seu caráter - ou aquilo que o próprio Deus é -,
cremos que é eterna como o eterno Deus.1
Essa ideia pode ser vista nos seguintes atributos inerentes em Deus
e em Sua lei:
Deus é Sua Lei é
Justo Ed 9:15 Justa Sl 119:172
Perfeito Mt 5:48 Perfeita Sl 19:7
Santo Lv 19:2 Santa Rm 7:12
Bom Sl 34:8 Boa Rm 7:12
Verdadeiro Dt 32:4 Verdadeira Sl 119:142
Conquanto isso seja exato em relação à eterna lei de Deus como se
acha expressa no Decálogo, não o é em relação à lei cerimonial que Deus
deu a Israel.2 Esta lei compreende os tipos e sombras que pertenciam ao
sistema sacrifical de Israel.Todas as ofertas sacrificais, dias de festa e
mesmo o sacerdócio - tudo o que era típico do sacrifício e ministério de
Questões sobre Doutrina 170
Cristo nosso Senhor - encontraram seu fim na cruz do Calvário.3 Isso,
cremos, é que o apóstolo Paulo expressou ao escrever que Cristo "aboliu,
na Sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças" (Ef 2:15).
"Tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que
constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu-o
inteiramente, encravando-o na cruz" (Cl 2:14).4
"Porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir;
porém, o corpo é de Cristo" (v. 17).
A distinção entre a Lei moral de Deus, o Decálogo, e a lei
cerimonial pode ser vista nos seguintes fatos:
O Decálogo A Lei Cerimonial5
1. Proferido pelo próprio
Deus (Ex 20:1, 22).
1. Proferida por Moisés (Ex
24:3).
2. Escrito por Deus (Êx 31:18;
32:16).
2. Escrita por Moisés (Ex 24:4;
Dt 31:9).
3. Sobre pedras (Ex 31:18). 3. Num livro (Êx 24:4,7; Dt
31:24).
4. Entregue por Deus, seu autor,
a Moisés (Êx 31:18).
4. Entregue por Moisés, seu
autor, aos levitas (Dt 31:25, 26).
5. Depositado por Moisés "na
arca" (Dt 10:5).
5. Depositada pelos levitas "ao
lado; da arca" (Dt 31:26).
6.Trata de preceitos morais (Êx
20:3-17).
6. Trata de assuntos cerimoniais
e rituais (ver partes de Êxodo,
Levítico, Números e Deut.).
Questões sobre Doutrina 171
7. Revela o pecado (Rm 7:7). 7. Prescreve ofertas pelos
pecados (ver Levítico).
8.A transgressão "da lei" é
"pecado" (1Jo 3:4).
8. Nenhum pecado em sua
transgressão, pois agora está
abolida (Ef 2:15). ("Onde não
há lei, também não há
transgressão" [Rm 4:15]).
9. Deve ser guardada "toda a
lei" (Tg 2:10).
9. Os apóstolos não deram
"nenhum mandamento" para
"guardar a lei" (At 15:24, KJV).
10. Devemos "ser julgados" por
essa lei Tg 2:12).
10. Não devemos ser julgados
por ela (Cl 2:16).
11. O cristão que guarda essa lei
é "bem- aventurado no que
11. O cristão que guarda essa
lei é bem-aventurado
realizar" (Tg 1:25). (ver, por exem plo, Gl 5:1-6).
12. A perfeita "lei da
liberdade" (Tg 1:25; cf. 2:12).
12. O cristão que guarda essa
lei perde sua liberdade
(Gl 5:1, 3).
13. Estabelecida pela fé em
Cristo (Rm 3:31).
13. Abolida por Cristo (Ef
2:15).
14. Cristo devia "engrandecer a
lei e fazê-la gloriosa"(Is 42:21).
14."Cancelado o escrito de
dívida que era contra nós e que
constava de ordenanças" (Cl
2:14).
Questões sobre Doutrina 172
15."Sabemos que a lei é
espiritual" (Rm 7:14; cf.v.7).
15."A lei de mandamento
carnal" (Hb 7:16).
Deve-se também observar que as principais confissões de fé e os
credos históricos da cristandade reconhecem a diferença e distinção entre
a lei moral de Deus, os Dez Mandamentos, ou Decálogo, e os preceitos
cerimoniais. Vejamos alguns deles:
A Segunda Confissão Helvética (1566), da Igreja Reformada de
Zurique, e um dos mais autorizados símbolos do continente (Philip
Schatf, The Creeds of Christendom, v. 1, p. 391, 394, 395), no capítulo
12, intitulado "Da Lei de Deus", depois de contrastar as leis "moral" e
"cerimonial", diz a respeito daquela: "Cremos que toda a vontade de
Deus e todos os preceitos necessários para todos os deveres desta vida
são totalmente outorgados nesta lei" (não que devamos ser justificados
por ela, mas que devemos volver a Cristo pela fé). Os tipos e figuras da
lei cerimonial cessaram."A sombra cessou, quando veio o corpo",
contudo, a lei moral não deve ser desdenhada ou rejeitada e todos os
ensinos contrários à lei são condenados (ver Schaff, v. 3, p. 854-856).
Trinta e Nove Artigos de Religião da Igreja da Inglaterra (1571).
O Artigo VII declara que, embora "a leidada por Deus a Moisés"
concernente a "cerimônias e ritos" não esteja em vigor, "nenhum cristão
se acha livre da obediência aos mandamentos denominados morais" (ver
Schatf, v. 3, p. 491, 492).
A Revisão Americana dos 39 Artigos da Igreja Protestante
Episcopal (1801) é idêntica à precedente (ver Schaff, v. 3, p. 816).
Os Artigos Irlandeses de Religião (1615), que se admite terem sido
compostos pelo arcebispo Ussher, depois de afirmar que a lei cerimonial
foi abolida, conclui: "Nenhum cristão se acha livre de obediência aos
mandamentos chamados morais" (ver Schaff, v. 3, p. 526, 541).
Questões sobre Doutrina 173
A Confissão de Fé de Westminster (1647), depois de mostrar a
diferença entre as leis cerimonial e moral, a revogação daquela e a
perpetuidade desta, no capítulo 19 declara: "a lei moral compromete a
todos para sempre", não para justificação, mas como regra de vida, a fim
de reconhecer o poder capacitador de Cristo. Esta lei continua a ser "uma
perfeita regra de justiça". E acrescenta: "Nem Cristo no evangelho de
modo algum desfaz esta obrigação, mas a fortalece muito" (ver Schaff, v.
3. p. 640-644).
A Declaração de Savóia das Igrejas Congregacionais (1658). Não
há nenhuma alteração no capítulo 19, "Da Lei de Deus", extraído da
Confissão de Westminster (ver Schaff, v. 3, p. 718).
A Confissão Batista de 1688 (Filadélfia), baseada na de Londres,
de 1677, não apresenta nenhuma alteração da parte extraída da Confissão
de Westminster no capítulo 19, "Da Lei de Deus". Trata da distinção
entre a lei moral e a cerimonial, e afirma que nenhum cristão está livre
da obediência à lei moral (ver Schaff, v. 3, p. 738).
Artigos Metodistas de Religião (1784). Estes 25 artigos, redigidos
por João Wesley para os metodistas americanos, são um resumo dos 39
Artigos da Igreja da Inglaterra e declaram: "Embora a lei dada por Deus
a Moisés, no que se refere a cerimônias e ritos, não obrigue os cristãos, e
nem os preceitos civis necessitem ser recebidos em qualquer
comunidade, contudo, nenhum cristão está livre da obediência aos
mandamentos chamados morais" (ver Schaff, v. 3, p. 807, 808).
A conclusão de tudo que se mencionou é, pois, clara: a posição
mantida pelos adventistas do sétimo dia a respeito da sua relação com o
Decálogo, incluindo a distinção entre as leis moral e cerimonial, é
plenamente sustentada pelos principais credos, artigos de fé e catecismos
do protestantismo histórico. O conceito de que o Decálogo foi abolido
pela morte de Cristo é relativamente recente. Certamente, isso não estava
na cogitação dos pais fundadores do Protestantismo, pois está em total
conflito com a crença deles.
Questões sobre Doutrina 174
Referências
1. Em meio século, desde a publicação de Questões Sobre
Doutrina, a compreensão da denominação tem se movido além de
algumas ideias expressas neste capítulo. Por exemplo, o livro sustenta
que os Dez Mandamentos "constituem, em princípio, a eterna lei de
Deus" (p. 129).
Muitos adventistas hoje tendem a ver os dois grandes mandamentos
de Mateus 22:36-40 como a expressão básica do princípio da eterna lei
de Deus. Neste contexto, os Dez Mandamentos são vistos como uma
extensão dos princípios dos dois grandes mandamentos de amar a Deus
sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo (ver Rm 13:8-10).
Essa posição se harmoniza com Ellen White, que escreveu: "Os
princípios dos Dez Mandamentos existiam antes da queda, e eram de um
caráter adequado às condições de uma ordem de seres santos. Depois da
queda, os princípios daqueles preceitos não foram mudados, mas
preceitos adicionais foram dados para atender ao homem em seu estado
caído" (Spiritual Gifts, v. 3, p. 295); ver também Mensagens Escolhidas,
livro 1, p. 220, 230. Tiago White foi ainda mais claro sobre o tópico do
que sua esposa.Ver o seu material em Life Incidents [Battle Creek, MI:
Seventh-day Adventist Publishing Association, 1867], p. 346-348.
De modo interessante, os autores de Questões Sobre Doutrina, na
página 155 da edição original em inglês, tomam a mesma posição como
a apresentada nesta nota: "Acreditamos que a lei moral em sua forma
original, embora a fraseologia não tenha sido registrada, encontra
expressão compreensível nos princípios estabelecidos por Jesus - amar
supremamente a Deus e o nosso próximo como a nós mesmos." Essa
interpretação mais detalhada teria sido útil se tivesse sido usada na
introdução do capítulo 13.
2. Os adventistas atualizados não reivindicariam que a lei
cerimonial não era "justa", "perfeita", "santa", "boa" e "verdadeira" (p.
123). No contexto de seu propósito, a lei cerimonial é todas essas coisas.
Questões sobre Doutrina 175
A lei dos Dez Mandamentos e a lei cerimonial ambas participam dessas
qualidades, mas elas têm diferentes propósitos e limitações. Em sua
essência, a lei cerimonial era um tipo do plano da salvação. Evidente-
mente, suas ministrações não poderiam salvar uma pessoa (Hb 10:11),
mas eram "sombras" ou "parábolas" (Hb 10:1; 9:9) da obra do Cordeiro
de Deus que verdadeiramente podia tirar o pecado do mundo através de
Sua morte, ressurreição e ministério celestial (Jo 1:29). Assim, até onde
fosse possível, a lei cerimonial era "justa", "perfeita", "santa", "boa" e
"verdadeira".
3. É problemática a declaração de que "todas as ofertas sacrificais,
os dias de festa e mesmo o sacerdócio - tudo o que era típico do
sacrifício e do ministério de Cristo nosso Senhor - encontraram o seu fim
na cruz do Calvário". Por um detalhe, ela contradiz a Cristo: "Porque em
verdade vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til
jamais passará da Lei, até que tudo se cumpra" (Mt 5:18).
O principal propósito da lei cerimonial não terminou na cruz. Ao
contrário, o ministério que ela indicava foi transferido para Cristo, que
agora ministra como nosso sumo sacerdote no santuário celestial. A
ministração da lei cerimonial funcionava como um tipo que apontava
para a obra de Cristo como antítipo. Assim, há uma continuidade de uma
para a outra.
4. O livro Questões Sobre Doutrina não é particularmente proveito-
so em seu uso de textos como Colossenses 2:14 para descrever a lei
cerimonial. As cerimônias não eram "contra nós". Ao contrário, eram
sombras da graça de Deus. Cada vez que o cordeiro morria, ele apontava
para Cristo, que no futuro morreria pelos pecados do mundo. O sistema
cerimonial foi uma prefiguração do evangelho. Na realidade, era um
relato do pecado que foi cravado na cruz. A English Standard Version o
expressa corretamente ao observar que "Deus [nos] tornou vivos
juntamente com Ele, tendo nos perdoado todas as nossas ofensas, ao
cancelar o relato de débito que se colocava contra nós com suas
Questões sobre Doutrina 176
demandas legais. Este Ele pôs de lado, cravando-o na cruz" (Cl 2:13, 14,
ESV). Bastante interessante, Questões Sobre Doutrina usou Colossenses
2:14 no sentido de relato de pecado sendo cravado na cruz, na página
386 do original [ou Perg 33, XI, 2º§].
5. Os itens 8,13 e 14 nesta lista são problemáticos. Como observado
acima, o principal propósito da lei cerimonial não terminou no Calvário.
Além disso, os escritos de ordenanças que eram contra nós (ponto 14)
não eram a lei cerimonial (um tipo da graça), mas, em vez disso, o
registro que trouxe condenação pela lei moral quebrada.
Questões sobre Doutrina 177
14
O Relacionamento
da Graça com a Lei e as Obras
PERGUNTA 14
Admite-se geralmente que osadventistas ensinam que a salvação é
pela graça de Deus, mas acrescentando as obras da lei. Qual é o exato
conceito adventista da relação da graça com a lei e as obras? A ênfase
que a Sra. White põe na necessidade das obras e da obediência não é
maior do que a colocada na abundante graça salvadora de Deus?
Tem havido lamentáveis mal-entendidos a respeito de nosso ensino
sobre a graça, lei e obras, e seus inter-relacionamentos. De acordo com a
crença adventista do sétimo dia, não há nem pode haver salvação pela lei
ou pelas obras humanas da lei, mas unicamente pela graça salvadora de
Deus. Para nós, este princípio é básico. A transcendente provisão da
graça de Deus é destacada tanto no Antigo como no Novo Testamento,
embora a verdade da maravilhosa graça divina alcance sua mais ampla
revelação e sua completa manifestação nos tempos e no registro do Novo
Testamento.
I. PRIMAZIA DA GRAÇA NO NOVO TESTAMENTO
A palavra "graça" (grego, charis) ocorre cerca de 150 vezes no
Novo Testamento. Paulo emprega esse termo significativo mais do que
qualquer outro escritor neotestamentário, havendo 100 ocorrências em
suas epístolas. Lucas, seu companheiro íntimo, empregou a palavra cerca
de 25 vezes em seu evangelho e em Atos, totalizando cinco sextos de
todo o Novo Testamento o emprego que ambos fazem. "Graça", de modo
algum, foi uma palavra inventada pelos apóstolos. O termo era
amplamente empregado com uma variedade de significados afins na
Questões sobre Doutrina 178
versão Septuaginta e na posterior literatura grega clássica. O Novo
Testamento, contudo, parece emprestar-lhe significado não encontrado
em outra parte.
No Novo Testamento, a graça é apresentada como uma qualidade
distintiva de Deus. Os escritores neotestamentários falam da "graça de
nosso Deus" (Jd 4), "graça de Cristo" (Gl 1:6) e "a graça de nosso
Senhor Jesus Cristo" (Gl 6:18). Expressões como essas constituem
saudações de abertura e encerramento nas cartas dos apóstolos. São
encontradas no início de ambas as cartas de Pedro, bem como nas
catorze epístolas do apóstolo Paulo. Aparecem também no encerramento
dessas cartas de conselho e reavivamento espirituais.
Além disso, a graça divina é descrita por uma porção de adjetivos e
advérbios notáveis. É denominada a "genuína graça de Deus" (1Pe 5:12);
graça abundante (2Co 4:15); "a multiforme graça de Deus" (1 Pe 4:10); a
graça que basta (2Co 12:9); "a superabundante graça de Deus" (2Co
9:14). Há também a expressão "graça sobre graça" (Jo 1:16) e a
referência a Cristo Jesus nosso Senhor como sendo "cheio de graça e de
verdade" (Jo 1:14; comparar com o v. 17). E também o "dom gratuito"
de Deus (Rm 5:15, 18).
II. A DEFINIÇÃO OU DESCRIÇÃO BÍBLICA DA GRAÇA
O sentido distintivo dado ao termo "graça" no Novo Testamento,
especialmente nos escritos de Paulo, é o do abundante e salvador amor
divino para com os pecadores revelado em Jesus Cristo. Certamente,
uma vez que todos os homens pecaram e se acham destituídos da glória
de Deus (Rm 3:23), o favor e a amorosa simpatia da parte de Deus são
outorgados totalmente sem nenhum mérito da parte do homem pecador.
Este tem vivido em oposição e rebelião contra Deus (Rm 1:21, 31, 32),
pervertido Sua verdade (v. 18, 25), preferido adorar animais e répteis (v.
23), profanado Sua imagem no próprio corpo (v. 24-27), blasfemado Seu
nome (Rm 2:24), e mesmo injuriado a Deus pela Sua paciência e
Questões sobre Doutrina 179
longanimidade (v. 4). Finalmente, assassinaram o Filho, enviado para
salvá-los (At 7:52). Contudo, Deus continuou a considerar o homem com
amor e bondade, para que a revelação de Sua bondade pudesse levá-lo ao
arrependimento (Rm 2:4).
Essa é a graça de Deus e seu peculiar sentido neotestamentário. E o
ilimitado, todo-abrangente e transformador amor divino para com
homens e mulheres pecadores; e as boas-novas dessa graça revelada em
Cristo Jesus são "o poder de Deus para a salvação" (Rm 1:16). Não é
apenas a misericórdia de Deus e Sua disposição de perdoar, mas também
um ativo, enérgico e transformador poder de salvar. Dessa forma, ele
pode tornar uma pessoa plena (Jo 1:14), pode ser dado (Rm 12:3, 6), é
todo-suficiente (2Co 12:9; comparar com Rm 5:20); ele reina (Rm 5:21),
ensina (Tt 2:11, 12), fortifica o coração (Hb 13:9). Em alguns casos,
"graça" parece equivaler a "evangelho" (Cl 1:6) e à atuação de Deus de
modo geral (At 11:23; 1Pe 5:12). Escreveu Ellen G.White:
"A graça divina, eis o grande elemento do poder salvador"
(Obreiros Evangélicos, p.70).
"Cristo deu a vida a fim de tornar possível ao homem o ser
restaurado à imagem de Deus. É o poder de Sua graça que une os
homens na obediência da verdade" (Conselhos aos Pais, Professores e
Estudantes, p. 249).
A "graça de Deus" tem sido, com justiça, denominada o "amor de
Deus"; isto é, amor, não tanto no sentido geral, mas em sentido especial;
não apenas amor comum, mas amor num sentido orientador. Graça é o
amor de Deus fluindo não para cima ou para fora, mas para baixo. É a
misericórdia divina e o favor imerecido que fluem do grande coração
amorável de Deus. E é especificamente Seu amor que flui para baixo,
procedente do Céu para os pecadores na Terra, os quais não têm nenhum
mérito. Conquanto nada merecendo, a não ser a ira de Deus, tornamo-
nos, através dessa graça maravilhosa, recipientes desse amor, dessa
graça, a que de modo algum teríamos direito.
Questões sobre Doutrina 180
III. QUE DIZ ELLEN G.WHITE SOBRE A SOBERANIA DE DEUS
Quanto aos mal-interpretados ensinos de Ellen G. White a respeito
da relação existente entre a graça, a lei e as obras, observemos as
seguintes expressões, escritas em 1905. Seus escritos se acham em
rigorosa harmonia com as Escrituras, e também com a sã teologia
histórica.
"A graça é um atributo de Deus, exercido para com as indignas
criaturas humanas. Não a buscamos, porém, ela foi enviada a procurar-
nos. Deus Se regozija de conceder-nos Sua graça, não porque somos
dignos, mas porque somos tão completamente indignos. Nosso único
direito a Sua misericórdia é a nossa grande necessidade" (A Ciência do
Bom Viver, p. 161).
Mais do que isso, a mesma escritora acrescenta que tudo quanto
desfrutamos, nas incomparáveis bênçãos da salvação, nos vem por meio
da graça de Deus. Assim:
"Tudo devemos à graça, abundante graça, graça soberana. A graça
no concerto ordenou nossa adoção. A graça do Salvador efetuou nossa
redenção, regeneração e adoção como co-herdeiros de Cristo" (Testemu-
nhos Para a Igreja, v. 6, p. 268).
Reconhecidas autoridades clássicas em Teologia declararam essas
mesmas verdades de maneira idêntica. Carlos Hodge, ex-professor de
Teologia Sistemática no Seminário Teológico de Princeton, declara:
"A palavra [charis,"graça"] [...] significa uma disposição favorável
ou sentimento bondoso; e especialmente amor exercido para com um
inferior, dependente ou indigno. Isso é representado como o atributo
coroador da natureza divina. Declara-se ser essa manifestação o grande
fim de todo o plano da redenção. [...] Ele [Deus] ressuscita homens da
morte espiritual, "e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo
Jesus; para mostrar nos séculos vindouros, a suprema riqueza da Sua
graça" (Ef 2:6,7). Por isso, frequentemente se afirma que a salvação é
Questões sobre Doutrina 181
gratuita. O evangelho é um sistema de graça. Todas as suas bênçãos são
concedidas gratuitamente; tudo se acha ordenado de modo que, em cada
passo do processo evolutivo da redenção e sua consumação, a graça, ou
amor imerecido da parte de Deus, é estendida de modo proeminente.Nada é dado ou prometido no terreno do mérito. Tudo é favor imerecido.
Essa salvação assim providenciada é assunto de graça e não de dívida"
(Systematic Theology [1871], v. 2, p. 654).
Os adventistas concordam plenamente com essa declaração.
IV. A FRUTIFICAÇÃO DA GRAÇA DIVINA
Muitas e variadas são as manifestações da graça divina. Nosso Pai
celestial é chamado "o Deus de toda a graça" (1Pe 5:10). Podemos fazer
ultraje "ao Espírito da graça" (Hb 10:29). "Temos a redenção [...]
segundo a riqueza de Sua graça" (Ef 1:7). Devemos pregar "o evangelho
da graça de Deus" (At 20:24) e "a palavra da Sua graça" (At 14:3).
Somos também "eleitos" pela graça (Rm 11:5).
Tudo que desfrutamos na experiência cristã nos é concedido em
virtude da incomparável graça de Deus. Somos chamados "pela Sua
graça" (Gl 1:15). Cremos "pela graça" (At 18:27). Fomos "justificados
por graça" (Tt 3:7). Paulo podia dizer: "Pela graça de Deus, sou o que
sou" (1Co 15:10). Somos também salvos pela Sua graça (Et 2:5,8).
A graça divina nos confere posição original e segura diante de
Deus. Devemos "perseverar na graça de Deus" (At 13:43) e crescer "na
graça ... de nosso Senhor" (2Pe 3:18). Ao fazermos isso, permanecere-
mos na graça de Deus (Rm 5:2).
Dessa forma, é unicamente a graça de Cristo que pode salvar o
pecador; somente ela pode erguer o homem caído das profundezas da
degradação e do pecado. O testemunho de Ellen G.White sobre esse
ponto é claro e imutável: "A graça divina, eis o grande elemento do
poder salvador; sem ela, todo esforço humano é inútil" (Conselhos aos
Professores, Pais e Estudantes, p. 538).
Questões sobre Doutrina 182
"Cristo Se deleita em tomar material de que, aparentemente, não há
esperança - aqueles que Satanás tem degradado, e por cujo intermédio
tem atuado - e torná-los objeto de Sua graça" (Testemunhos Para a
Igreja, v. 6, p. 308).
Além disso, ela escreveu que é também a graça de Deus que nos
impede de cair, habilitando-nos a permanecer firmes e fiéis ao chamado
divino. "Só há um poder capaz de tornar-nos firmes, ou assim nos
conservar na verdade - a graça de Deus. Quem confia em outra coisa
qualquer já está vacilante, prestes a cair" (íbid., v. 7, p. 189).
E ainda é a graça divina, manifestada na vida dos filhos de Deus, o
maior argumento da verdade e do poder da fé cristã. "Pelo poder da Sua
graça manifestado na transformação do caráter, o mundo será
convencido de que Deus enviou Seu Filho como Redentor" (A Ciência
do Bom Viver, p. 470).
E quando, finalmente, os remidos circundarem o trono de Deus,
isso ocorrerá pela maravilhosa graça divina.
"Se durante esta vida vocês forem leais a Deus, afinal "verão o Seu
rosto, e nas suas testas estará o Seu nome" (Ap 22:4). E qual é a
felicidade do Céu senão a de ver a Deus? Que maior alegria poderia
sobrevir ao pecador salvo pela graça de Cristo do que contemplar o rosto
de Deus, e conhecê-Lo como Pai? (ibid., p. 421).
V. A RELAÇÃO DA GRAÇA COM AS OBRAS
A salvação não se concretiza agora, nem jamais se concretizou, pela
lei ou pelas obras; ela é efetivada unicamente pela graça de Cristo. Além
disso, no plano de Deus jamais houve tempo em que a salvação se
realizasse por quaisquer obras ou esforço humano. Nada do que o
homem possa fazer, ou tenha feito, pode de algum modo merecer a
salvação.
Conquanto as obras não constituam meio de salvação, as boas obras
são o resultado inevitável dela. Contudo, essas boas obras são possíveis
Questões sobre Doutrina 183
somente para o filho de Deus cuja vida se ache permeada pelo Espírito
de Deus, e efetuada por Ele. É para esses crentes que João escreve ao
ordenar-lhes que guardem os mandamentos de Deus (1Jo 3:22-24: 5:2,
3). Essa relação e sua sequência são absolutamente necessárias, mas são
frequentemente mal-entendidas ou desvirtuadas.
Mesmo nos dias da antiguidade, os homens não eram justificados
pelas obras, mas pela fé. Assim escreveu o profeta Habacuque: "O justo
viverá pela sua fé" (Hc 2:4; comparar com Rm 1:17; Gl 3:8, 11; Fp 3:9;
Hb 10:38). Deus convoca os homens a se tornarem justos; contudo, o
homem é, por natureza, injusto. Se ele deseja preparar-se para o reino de
Deus, terá que se tornar justo. Isso é algo que o homem não pode fazer
por si mesmo, pois é imundo e injusto. Quanto mais trabalhar nesse
sentido e quanto maiores forem seus esforços, tanto mais revelará a
iniquidade de seu coração. Portanto, se o homem deve, de alguma forma,
tornar-se justo, terá que ser por um poder fora de si - e o será pelo poder
de Deus.
Não há de fato nenhum conflito real entre a graça e a lei - os Dez
Mandamentos. Cada qual serve a um objetivo especial no plano de Deus.
A graça, como tal, não é oposta à lei, a qual é a divina norma de justiça;
tampouco é a lei oposta à graça. Cada uma tem funções específicas, e
não interferem na função da outra.
Uma coisa é certa: o homem não se pode salvar por nenhum esforço
próprio. Cremos profundamente que nenhuma obra da lei, ou ações
legais, nenhum esforço, embora louvável, nenhuma boa ação — possam
as obras serem muitas ou poucas, mesmo feitas com sacrifício — podem,
de modo nenhum, justificar o pecador (Tt 3:5; Rm 3:20). A salvação é
totalmente de graça; é o dom de Deus (Rm 4:4, 5; Et 2:8).
No princípio, o homem foi criado reto (Ec 7:29). Não havia nele
nenhuma nódoa de pecado ao sair das mãos de seu Criador. Foi criado à
imagem de Deus, e seu caráter achava-se em harmonia com os princípios
da santa lei de Deus. Mas o homem pecou. Agora, por meio do
Questões sobre Doutrina 184
evangelho, Deus tem o propósito de restaurar no homem a perdida
imagem divina. Originalmente, o homem não tinha pecado; agora é
pecador. Quando, porém, o evangelho da graça de Deus realiza sua obra
no coração, o ser humano é revestido com as vestes da justiça de Cristo.
Essa justiça lhe é imputada, e ele é justificado. Ela lhe é comunicada em
santificação. E por meio de Cristo - e exclusivamente por Ele - o homem
será Seu, e Seu para sempre, em glorificação.
Há, porém, perigos contra os quais os filhos de Deus necessitam
guardar-se. E isso também tem sido enfaticamente declarado por Ellen
G.White:
"Há dois erros contra os quais os filhos de Deus - particularmente
os que só há pouco vieram a confiar em Sua graça - devem,
especialmente, precaver-se. O primeiro [...] é o de tomar em considera-
ção as suas próprias obras, confiando em qualquer coisa que possam
fazer, a fim de por-se em harmonia com Deus. Aquele que procura
tornar-se santo por suas próprias obras, guardando a lei, tenta o
impossível. Tudo que o homem possa fazer sem Cristo está poluído de
egoísmo e pecado. É unicamente a graça de Cristo pela fé, que nos pode
tornar santos."
"O erro oposto e não menos perigoso é o de que a crença em Cristo
isente o homem da observância da lei de Deus; que, visto como só pela
fé é que nos tornamos participantes da graça de Cristo, nossas obras nada
têm que ver com nossa redenção."
"Mas notai aqui que a obediência não é mera aquiescência externa,
mas sim o serviço de amor. A lei de Deus é uma expressão de Sua
própria natureza; é uma corporificação do grande princípio do amor,
sendo daí o fundamento de Seu governo no Céu e na Terra. Se nosso
coração estiver renovado à semelhança de Deus, se o amor divino for
implantado na alma, não será então praticada na vida a lei de Deus?
Implantado no coração o princípio do amor, renovado o homem segundo
a imagem dAquele que o criou, cumpre-se a promessa do novo concerto:
Questões sobre Doutrina 185
"Porei no seu coração as Minhas leis e sobre a suamente as escreverei"
(Hb 10:16). E se a lei estiver escrita no coração, não moldará ela a vida?
A obediência - nosso serviço e aliança de amor - é o verdadeiro sinal de
discipulado (Caminho a Cristo, p. 59, 60)."
"O Senhor não espera agora menos do ser humano do que esperava
do homem no Paraíso, obediência perfeita, justiça irrepreensível. A
exigência sob o pacto da graça é tão ampla quanto os requisitos ditados
no Éden - harmonia com a lei de Deus, que é santa, justa e boa"
(Parábolas de Jesus, p. 391).
Ray C. Stedman, na edição de setembro de 1953 da publicação Our
Hope, apresentou de modo impressionante a relação da graça com a lei e
alguns mal-entendidos comuns:
"Se hoje a pergunta 'É a lei oposta à graça?' fosse formulada a um
grupo representativo de crentes evangélicos, a resposta seria, em muitos
casos, um enfático 'Sim'. Mesmo estudantes de seminários e institutos
bíblicos conservadores provavelmente fariam uma forte afirmativa a esta
pergunta. Mas estariam errados! A despeito de arregalarem os olhos de
espanto diante desta declaração, permanece o fato de que, bíblica e
teologicamente, estão completamente equivocados.
"For outro lado, é fácil entender por que cristãos bem-esclarecidos
se acham confusos sobre esse assunto. Nenhuma tecla teológica é hoje
mais fortemente batida do que essa da lei contra a graça. Nenhuma
questão é mais claramente descrita do que essa que separa o campo dos
legalistas dos adeptos da graça. E isso, naturalmente, está bem correto. O
que comumente é passado por alto e quase incompreendido é o atual
conflito entre lei e graça e que a questão não reside nesses dois
princípios, como tais, mas entre o abuso da lei, de um lado, e da graça,
de outro."
"Pondo o assunto em seu devido lugar, somente quando a lei é
transformada em um meio de salvação ou de restringir o pecado é que
entra em choque com os princípios da graça. Em qualquer outro sentido,
Questões sobre Doutrina 186
ambas são complementares e nunca entram em conflito. A lei, porém,
jamais foi destinada a salvar. Em seu princípio essencial, não é e jamais
pode ser oposta à graça, porque ambas atuam em campos distintamente
separados e para propósitos amplamente diversos. A lei destina-se a
revelar o pecado; a graça destina-se a salvar do pecado. Nenhum
conflito pode existir entre ambas."
"A diferença não reside em mandamentos da lei versus a vida sob a
graça livre dos mandamentos, pois o fato é que a graça tem também os
seus mandamentos! Os que sempre associam a palavra "mandamento"
com a palavra "lei" deixaram de ler cuidadosamente a Bíblia. Afinal de
contas, mandamento é apenas a expressão de um desejo da parte de
alguém que tenha autoridade. Se Cristo é Senhor de nossa vida, então
Ele tem autoridade sobre nossa vida e Seus pedidos se tornam manda-
mentos para todos os que O amam. Estes são os mandamentos da graça.
A diferença entre estes e os mandamentos da lei reside no motivo. Por
que alguém obedece à lei? Por temor! Por que alguém obedece um
mandamento da graça? Por amor! Aí reside a diferença. O mandamento
pode ser o mesmo em ambos os casos; somente o motivo difere. O que
tornava a lei aborrecível era o senso de restrição que ela gerava. Éramos
instados a fazer aquilo que realmente não desejávamos fazer. O mesmo
mandamento, na relação da graça, consegue de nós pronta e disposta
obediência porque amamos Aquele que nos pede isso. O senso de
restrição foi totalmente abolido."
"Que aconteceu, então, quando a graça superou a lei? Mudou o
desejo de Deus para com o homem, como se achava expresso na lei?
Não; foi até mesmo intensificado. A lei tornou-se interior em vez de
meramente exterior. O que, então, mudou? O motivo do coração
humano! Outrora, em vão nos esforçávamos por obedecer a uma lei
justa, movidos pelos nossos temores da ira por vir. Agora, como crentes
em Cristo, permaneceremos diante de Deus na perfeita justiça de Cristo
e, porque amamos Aquele que nos amou primeiro, procuramos agradar-
Questões sobre Doutrina 187
Lhe. Obedecer é algo que achamos grande prazer em fazer - e assim,
inconscientemente, cumprimos a lei. "Porquanto, o que fora impossível à
lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o Seu
próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao
pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que
o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne,
mas segundo o Espírito" (Rm 8:3,4). A última sentença é descritiva do
que a graça nos leva a fazer." (Itálicos acrescentados.)
Esta declaração da posição adventista pode ser bem-concluída com
a seguinte admoestação de Ellen C.White à nossa igreja:
"Cristo intercede pela igreja nas cortes celestiais, lá em cima,
rogando por aqueles por quem pagou o preço da redenção - Seu sangue.
Os séculos, o tempo, nunca poderão diminuir a eficácia de Seu sacrifício
expiatório. A mensagem do evangelho de Sua graça devia ser dada à
igreja em linhas claras e distintas, para que não mais o mundo dissesse
que os adventistas do sétimo dia falam na lei, na lei, mas não ensinam a
Cristo nem nEle crêem." (Testemunhos Para Ministros, p. 92).
Um poeta cristão disse com acerto:
"Não trabalho para salvar minha alma,
porque isso já o fez o meu Senhor;
mas trabalho como o faz o escravo,
pelo amor do precioso Salvador."
Questões sobre Doutrina 188
PARTE V –
PERGUNTAS SOBRE O
SÁBADO, O DOMINGO
E O SINAL DA BESTA
Questões sobre Doutrina 189
15
O Fundamento da Observância Sabática
PERGUNTA 15
Qual é, de fato, a base para os adventistas do sétimo dia observarem
o sábado como dia de repouso, em lugar do domingo, comumente
denominado "dia do Senhor" ou "sábado cristão"?
Cremos que o sábado foi instituído no Éden antes que o pecado
entrasse no mundo, que ele foi honrado por Deus, separado por
determinação divina e dado à humanidade como memorial perpétuo da
criação concluída. Isso se fundamenta no fato de o próprio Deus ter
repousado de Sua obra criadora, abençoado o sábado, ou dia de repouso,
e o santificado, separando-o para o homem (Gn 2:1-3; Mc 2:27).
Cremos, igualmente, que não foi outro senão o próprio Filho de Deus, a
segunda pessoa da eterna Divindade, o Criador mencionado em Gênesis
1:1-3, e que, portanto, estabeleceu o sábado original (Jo 1:3; 1Co 8:6; Cl
1:16, 17; Hb 1:1,2).
Conquanto esteja o sábado entesourado no centro dos mandamentos
de Deus, cumpre lembrar que Jesus disse: "O Filho do homem é Senhor
também do sábado" (Mc 2:28). Em outras palavras, Ele é seu Autor e seu
Instituidor. É seu Protetor. O sábado é o "sábado do Senhor [Jeová] teu
Deus" (Ex 20:10). Portanto, Cristo é seu Senhor; o sábado Lhe pertence.
É Seu dia; o dia do Senhor. Pelo fato de nós, como Seus filhos
adquiridos pelo Seu sangue Lhe pertencermos e vivermos nEle, e Ele
viver em nós (Gl 2:20), quão natural é que a observância do sábado,
entre outras expressões de amor e lealdade para com Ele, deva ser
revelada em nossa vida.
Entendemos que o sábado não fora inicialmente dado apenas para
proporcionar descanso da exaustão física, mas sim para o mais elevado
Questões sobre Doutrina 190
bem do homem - bem espiritual, intelectual e físico. Destinava-se
originalmente à comunhão com Deus, visto que é a presença de Deus
que proporciona o repouso e santifica. Depois, porém, da queda do
homem, proporcionou também o necessário repouso físico.
Muitos séculos depois,o repouso semanal do sétimo dia foi
reafirmado no Sinai (Ex 20:8-11; 31:16, 17). Deus outorgou a Seu povo
escolhido um sistema organizado de culto. Esse preceito do sábado foi
colocado no centro da lei moral, ou Dez Mandamentos, dados por Deus
ao homem. A lei formulava princípios eternos, baseados no permanente
relacionamento do homem para com Deus e do homem para com o
próximo, sendo aplicada na Terra. Assim, o sábado lembra ao homem a
obra de Cristo como Criador, Sustentador e Benfeitor e agora, por causa
do pecado, como Redentor.
Além disso, foram introduzidos certos festivais anuais, ou sábados
cerimoniais, que caíam em determinados dias do mês e estavam em
ligação com ritos sacrificais mosaicos. Prefiguravam a provisão
evangélica da salvação pela vinda do "Cordeiro de Deus que tira o
pecado do mundo" (Jo 1:29). O Decálogo, porém, selado com os lábios e
com o dedo de Deus, foi exaltado acima de todas as cerimônias e ritos
judaicos. Isso se torna evidente à vista do fato de que o sábado foi
estabelecido antes de o homem ter pecado e, portanto, antes que ele
tivesse necessidade de um Redentor. Não era parte dos regulamentos
cerimoniais motivados pela entrada do pecado, os quais foram anulados1
pela morte de Cristo (Cl 2:17). Assim, os Dez Mandamentos e o
evangelho em figura, em união inseparável, foram confirmados ao antigo
Israel.
Dessa forma o sábado, estabelecido no Éden, foi guardado pelos
patriarcas, pelos profetas e pelo povo de Deus através dos séculos das
trevas do paganismo. E quando Cristo veio, em Sua encarnação, Ele, do
mesmo modo, observou o sétimo dia como dia de repouso (Mc 6:1, 2; Lc
Questões sobre Doutrina 191
4:16, 31), e era "Senhor também do sábado" (Mc 2:28), o Criador que
estabelecera o sétimo dia original de repouso da obra da criação.
Na realidade antitípica, Ele cumpriu também os tipos da redenção
do Antigo Testamento - morrendo como "Cordeiro de Deus", em morte
vicária, completamente eficaz e expiatória em favor do homem, no
determinado 14° dia (ou Páscoa) do primeiro mês. O Salvador morreu,
cremos, no sexto dia da semana. A seguir, depois de permanecer no
túmulo todo o sábado do sétimo dia, Cristo ressurgiu triunfante da morte
no primeiro dia da semana. O sistema cerimonial típico cessou ao
completar Cristo Seu grande ato redentor. O Decálogo e o evangelho em
realidade, porém, permaneceram como guias contínuos do cristão, um
apresentando a norma e o outro proporcionando o poder que capacita a
sua observância.
Os textos do Novo Testamento que mencionam especificamente o
primeiro dia da semana (Mt 28:1; Mc 16:1, 2, 9; Lc 24:l; Jo 20:1, 19; At
20:7,8; 1Co 16:1, 2) não podem ser corretamente empregados de forma a
impor a observância do domingo, ou como sugerindo a transferência do
sábado do sétimo para o primeiro dia.
O sábado do sétimo dia continuou a ser guardado pelos seguidores
de Cristo durante vários séculos. Contudo, ao lado do sábado, houve uma
gradativa observância do que se tornou conhecido como o festival da
ressurreição, celebrado no primeiro dia. Essa observância data, pelo
menos, da metade do 2º século (ver Sócrates, Ecdesiastical History, v.
22). E a primeira observância registrada ocorreu em Roma (Justino
Mártir, First Apology, capítulo 67).
Dessa forma, ambas as observâncias - o sábado e o "festival da
ressurreição" - estiveram, em certo tempo, paralelas uma à outra. No 4º
século, no Concílio de Laodicéia (no cânone 29),2 a igreja apostatada,
pela primeira vez, anatematizou os que continuassem "judaizando", ou
repousando no sétimo dia da semana, e decretou a observância do
primeiro dia em lugar daquele (Hefele, History of the Councils of the
Questões sobre Doutrina 192
Church, v. 2, p. 316). E, assim, o costume eclesiástico foi imposto
primeiramente por um voto de concílio.3
Os adventistas do sétimo dia crêem que essa mudança do dia de
adoração fora predita pela profecia bíblica, em Daniel 7:25. A igreja de
Roma dirigiu a efetivação dessa mudança para o domingo. A partir de
então, o domingo passou a ser observado pela maioria dos cristãos,
antes, durante e depois da Reforma Protestante do século 16. O sábado,
contudo, ainda continuou a ser observado por alguns em várias regiões
da Europa e em outros lugares.
O reavivamento da observância do repouso do sétimo dia, em
grande parte, foi empreendido no século 17 pelo movimento batista do
sétimo dia na Bretanha e no continente. Os adventistas do sétimo dia
iniciaram a promulgação da verdade sabática por volta de 1845-1946 na
América.
Cremos que a restauração do sábado é indicada na profecia bíblica
de Apocalipse 14:9-12. Crendo sinceramente nisso, consideramos a
observância do sábado prova de nossa lealdade a Cristo como Criador e
Redentor.
Os adventistas do sétimo dia não confiam na guarda do sábado
como meio de salvação ou de conseguirem méritos diante de Deus.
Somos salvos exclusivamente pela graça. Eis a razão de nossa
observância do sábado, como também a lealdade a qualquer outro
mandamento de Deus, constituir-se numa expressão de amor pelo nosso
Criador e Redentor.
Referências
l. Ver notas relacionadas à lei cerimonial nas páginas 124 e 125 do
livro, ou final do Capítulo 13 neste e-book.
2. Os cânones do concílio provincial de Laodicéia foram
encorporados à lei da igreja por um ato do concílio geral de Calcedônia,
em 451, e dessa forma tornaram-se obrigatórios para todas as igrejas.
Questões sobre Doutrina 193
3. Para um tratamento mais completo da história do sábado em
relação ao domingo no tempo do cristianismo primitivo, ver The Sabbath
in Scripture and History, editado por Kenneth A. Strand (Washington,
DC: Review and Herald, 1982), especialmente p. 131-189, 323-332.
Questões sobre Doutrina 194
16
O Sábado e a Lei Moral
PERGUNTA 16
O mundo cristão em geral sustenta (1) que a lei moral é eterna e não
foi abolida; (2) que o princípio do sábado, baseado na semana da
criação, especialmente na distinção de seis dias mais um, separando-
os por autoridade divina para propósitos diferentes é, da mesma
forma, permanente e eterno; (3) que o elemento tempo específico do
sétimo dia é apenas cerimonial e típico e, consequentemente,
temporário, sendo cumprido e revogado por Cristo na cruz; e (4) que
há uma clara continuidade entre o sábado dos tempos do Antigo
Testamento, fundamentado na Criação, e o dia do Senhor do Novo
Testamento, com base na redenção, sendo o repouso da redenção
superior ao repouso da criação. Qual é a posição dos adventistas do
sétimo dia a respeito desses quatro pontos?
Os adventistas do sétimo dia estão de pleno acordo com o ponto 1 -
de que a lei moral é eterna pela sua própria natureza e não foi revogada.
Cremos que esses princípios eternamente morais não foram mudados e
são imutáveis. Cremos ainda que esses princípios básicos se encontram
no Decálogo - os Dez Mandamentos, ou a lei moral.
Cremos que a lei moral em sua forma original, embora as palavras
não tenham sido registradas, encontra expressão inteligente nos princí-
pios apresentados por Jesus - amar a Deus supremamente e o próximo
como a nós mesmos. Esses princípios originais são o fundamento do
trono de Deus e a lei eterna de Seu generoso governo moral.
Cremos também que é a lei moral, o Decálogo, que revela o pecado:
"Pela lei vem o conhecimento do pecado" (Rm 3:20); "onde não há lei,
também não há transgressão" (Rm 4:15); "eu não teria conhecido o
Questões sobre Doutrina195
pecado, se não por intermédio da lei" (Rm 7:7); e "todo aquele que
pratica o pecado também transgride a lei, porque o pecado é a transgres-
são da lei" (1Jo 3:4).
Foi a entrada do pecado no Éden, a transgressão da lei divina, que
tornou necessário o plano da redenção. Por causa do pecado do homem,
o Salvador precisou morrer morte expiatória e vicária no Calvário para
salvar o homem perdido. Portanto, a lei moral e o evangelho acham-se
inseparavelmente relacionados. A lei revela o pecado; o evangelho, o
Redentor, que salva do pecado.
Estamos também de acordo com a maior parte do ponto 2 - de que o
sábado vem da semana da criação e é também permanente e eterno. A
expressão "seis dias mais um", da qual discordamos, será estudada
posteriormente. Contudo, na base do princípio fundamental do
Protestantismo de que a Bíblia é a única regra de fé e prática do cristão,
cremos que a controvérsia do ponto 3 - de que, conquanto a natureza
moral do sábado, como instituição, é permanente, seu elemento de tempo
específico era apenas cerimonial e temporário, e dessa forma caducou na
cruz - é inconsistente como argumento. Rejeitamos semelhantemente a
implicação de que, embora o aspecto moral do sábado esteja firmemente
baseado na criação, não o está seu elemento tempo.1
Em parte nenhuma dos ensinos de Jesus encontramos qualquer
declaração que afirme que o elemento tempo, ou "seis dias mais um" (se
podemos nos expressar assim), do mandamento do sábado haja sido
mudado. Não encontramos qualquer controvérsia quanto à validade do
sétimo dia por parte de Jesus ou qualquer afrouxamento da obrigação do
sétimo dia; ao contrário, encontramos implícito reconhecimento de sua
continuidade.
1. Pontos de Acordo e Diferença. Os adventistas crêem que o
sábado do sétimo dia - "estabelecido por causa do homem" (Mc 2:27) -
foi dado ao "homem" (isto é, à humanidade) no Éden, muito tempo antes
que o povo judeu viesse a existir. E foi observado através de toda a era
Questões sobre Doutrina 196
patriarcal, muito tempo antes que fosse entregue ao antigo Israel, em
custódia especial, após seu êxodo do Egito.2
Cremos que os princípios da lei moral foram conhecidos do homem
antes da queda,3 e posteriormente postos em forma escrita no Decálogo,
em meio àquelas terríveis cenas do Sinai. Foram proferidos e escritos por
Deus (Êx 19, 20; 32:15, 16). E cremos que, quando Israel se tornou o
povo do concerto especial de Deus, prometendo honrá-Lo guardando
Seus mandamentos, o Decálogo foi dado como base daquele concerto.
Discordamos, no entanto, do ponto 4, no que se refere à
"continuidade" - transferência da observância do sábado do sétimo dia
para o festival da ressurreição, no primeiro dia da semana. Cremos que a
base de ambas as observâncias é totalmente diferente: a primeira era para
comemorar o repouso do Criador; a segunda para comemorar a
ressurreição de nosso Senhor.
Discordamos da sugestão de que o sábado do sétimo dia do Antigo
Testamento tenha apenas significado cerimonial, ou tenha sido de
alguma forma "cumprido e revogado por Cristo", ou que a sabaticidade
constitua aspecto "revogado" ou "temporário" do permanente sábado do
quarto mandamento.
Discordamos da mudança das palavras originais - os "seis dias" e o
"sétimo dia" do quarto mandamento de Êxodo 20 - para a expressão não-
bíblica "seis dias mais um", ou mera proporção de tempo, pois para nós
essa mudança de fraseologia envolve uma mudança completa de intento,
e com isso não podemos concordar.
Discordamos da proposição de que o Senhor Jesus transferiu a
observância do último dia da semana para o primeiro, a fim de, além do
original "repouso da criação", apontar para um maior "repouso da
redenção". Não encontramos nenhuma prova escriturística para sustentar
essa pretensão.
Seguem-se as razões bíblicas e históricas que justificam nosso
parecer.
Questões sobre Doutrina 197
2. Caráter Memorial e não Cerimonial. Todos os adventistas do
sétimo dia, como criacionistas, crêem no relato do Gênesis sobre a
criação (Gn 1:1-2:2), compreendendo o sétimo dia como dia de repouso
registrado e atestado por Deus, sendo o sábado dado como memorial
perpétuo daquela criação, abençoado e santificado (colocado à parte)
para o homem. O sábado teve o seu início antes que o pecado entrasse
no mundo (Gn 2,3), e foi dado para comemorar o término da criação. Se
o pecado não tivesse vindo à existência, todos teriam guardado o dia de
sábado original.
Deus não fez o homem a fim de que ele guardasse o sábado (Mc
2:27). Mas, havendo feito o homem, deu-lhe o sábado como lembrete e
memorial contínuo do maravilhoso poder do Criador. E, embora o
princípio do sábado inclua tanto o repouso físico como o espiritual, um
memorial não pode ter interpretação espiritualizada e não pode
desaparecer com o transcorrer do tempo.
Pelo fato de ter sido o sábado instituído na criação, antes da entrada
do pecado, tornou-se parte inseparável do plano original de Deus e Sua
provisão para o homem. Não tinha, pois, nenhum significado cerimonial,
prefigurando alguma coisa por vir. Ao contrário, sempre teve significa-
ção comemorativa, pois remonta a algo efetuado no passado - a criação
do mundo e da humanidade.
Nossa observância do sábado do sétimo dia é uma expressão de
nossa crença de que Cristo criou o mundo. É também um sinal de nosso
amor e lealdade para com Ele como nosso Criador e Rei. O fato posterior
de que o Senhor do sábado de tal maneira nos amou que Se tornou
homem e sacrificou Sua vida para nos salvar da ruína do pecado torna o
Seu sábado absolutamente precioso e glorioso como dia do Senhor.
Cremos que, ao encarnar-Se, Jesus Cristo veio para revelar o
caráter, a vontade e o amor perfeitos de Deus, e vindicar e cumprir a
justiça de Sua lei e governo morais. Dessa maneira, a obediência e a
Questões sobre Doutrina 198
justiça perfeitas de Cristo são primeiramente imputadas (pela justifica-
ção) e a seguir comunicadas (pela santificação) a todos quantos aceitam
Sua morte expiatória em lugar deles. Assim, foi feita provisão para que
Sua perfeita observância do sábado cubra todas as nossas transgressões
do sábado, bem como a infração dos outros nove preceitos dos Dez
Mandamentos.4
3. O Sábado Moral e o Cerimonial São Basicamente Diferentes.
Cremos que foi feita uma distinção nítida e fundamental entre o sábado
semanal do Senhor e os sete sábados anuais cerimoniais ou típicos do
ritual do tabernáculo (Páscoa, Pentecostes, Dia da Expiação e outros).
Cada um desses sábados anuais caía num dia determinado do mês, não
num dia específico da semana, e apenas ocasionalmente coincidia com o
sábado do sétimo dia.
Cremos que esses sábados anuais e típicos, com suas especiais
ofertas sacrificais, apontavam para o futuro, para a oferta todo-
abrangente e todo-suficiente de Jesus Cristo como "o Cordeiro de Deus,
que tira o pecado do mundo" (Jo 1:29). As Escrituras declaram que Ele é
nossa Páscoa (1Co 5:7). Sua morte ocorreu no designado dia da Páscoa
(14 de Nisã), que naquele ano caiu numa sexta-teira. Sua ressurreição
teve lugar no dia do molho movido, ou primícias (16 de Nisã), quando,
como as "primícias" dos que dormem (1Co 15:20, 23), Ele ressurgiu
triunfante da morte. Esses grandiosos acontecimentos nos garantem
sermos aceitos nEle, bem como nossa ressurreição no último dia. Esses
sábados anuais típicos terminaram para sempre na cruz, onde todos os
tipos encontraram seu completo antítípo. Isso, porém, de modo algum
afetou o sábado do sétimo dia, o qual jamais foi um tipo, e consequente-
mente não foi revogado.
4. O Sábado não Foi Revogado por Cristo. O sábadodo quarto
mandamento não tinha nenhuma significação cerimonial ou típica que
Questões sobre Doutrina 199
pudesse ser "cumprida" ou "revogada" em Cristo. Não foi instituído
como parte do ritual do tabernáculo no Sinai, e não apontava no futuro
para o sacrifício expiatório de Cristo no Calvário. Ao contrário, o sábado
permaneceu como memorial estabelecido na criação original e, portanto,
apontava ao passado para a obra do Criador. E isso, pela própria
natureza, não pode ser cumprido nem revogado enquanto durar a obra
divina da criação.
As tradições que os judeus acrescentaram à observância do sábado
foram desfeitas por Cristo, não porque Ele as cumprisse pela Sua morte
antitípica e sacrificial, mas porque não passavam de meras "tradições de
homens" sem nenhuma autorização e que jamais tiveram qualquer
validade. Assim eram as inúmeras regras rabínicas acrescentadas à
observância do sábado - verdadeiros embaraços que foram eliminados
pelos ensinos de Cristo. Isso, porém, envolvia unicamente os acréscimos,
não o sábado em si mesmo.
Isaías profetizou que Cristo engrandeceria a lei e a faria "gloriosa"
(Is 42:21). E isso Ele o fez. Engrandeceu o sábado da lei, mostrando não
ser ele um dia de cargas e restrições, mas um dia de repouso e de
libertação das cargas do pecado e suas consequências. Ele observou o
sábado através de toda Sua vida e ministério, e exemplificou o verdadei-
ro sentido da guarda do sábado, mostrando que nesse dia era lícito fazer
o bem e ocasião em que se devia curar os doentes.
Havia, além disso, leis civis de Israel, dadas quando a nação se
achava sob a teocracia. Algumas delas se relacionavam com o sábado, e
prescreviam severas penas pela profanação do sétimo dia, e mesmo a
pena de morte caso alguém deliberadamente fosse apanhar lenha no dia
de sábado (Ex 31:14; 35:2, 3; Nm 15:32-36). Essas leis civis terminaram
para sempre com a cessação da teocracia em Israel, e jamais foram trans-
feridas ou tiveram continuidade além daquele período.
Questões sobre Doutrina 200
Os adventistas do sétimo dia sustentam que o sábado destina-se a
todo o mundo e a todos os tempos. Cremos firmemente que nada há de
cerimonial ou de natureza típica no sábado do quarto mandamento.
5. O "Sabatismo do Sétimo Dia" e a "Sabaticidade" do Sábado.
Duas características se sobressaem nitidamente em relação à instituição
do sábado original, as quais, pela argumentação conveniente, passamos a
denominar de sabatismo do sétimo dia e sabaticidade, ou seja, o tempo
específico posto à parte, e a natureza da observância, o descanso do
trabalho.
Como observamos anteriormente, todo o sistema cerimonial foi
instituído depois que o pecado entrou no mundo, com o propósito
determinado de indicar aos pecadores a futura vinda do Salvador. Foi
designado para incutir fé no Seu poder de salvá-los de seus pecados.
Nenhuma parte das Escrituras declara ou mesmo sugere que o elemento
tempo do mandamento original do sábado seja cerimonial. Ao contrário,
as Escrituras dão plena evidência de que o sabatismo do sétimo dia não
pode ser cerimonial, pois, para que o fosse, o elemento tempo teria que
ser instituído depois da entrada do pecado e da consequente necessidade
do Salvador.
O mandamento do sábado dá a própria razão de sua existência: "em
seis dias, fez o Senhor o céu e a Terra, o mar e tudo o que neles há e, ao
sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o
santificou" (Ex 20:11). Tanto o sabatismo do sétimo dia quanto a
qualidade moral do sétimo dia estão de tal modo firmemente ancorados
na criação que podem ser denominados sua sabaticidade. Reconhecemos
que um aspecto é tão grandioso como o outro. Em favor desse fato
inegável dá testemunho a semana de sete dias, a qual chega até nós desde
o tempo da criação (ver Gn 2:1-3).
Deus instituiu o sábado no sétimo dia da primeira semana. Dessa
forma, ambos os aspectos desse dia - seu sabatismo e sua sabaticidade -
Questões sobre Doutrina 201
acham-se inseparavelmente ligados à criação. A não ser por alguma
declaração explícita das Escrituras evidenciando o contrário, afirmar
uma coisa e negar a outra é claramente inconsistente com as principais
premissas que temos analisado, especialmente diante da posição protes-
tante sobre a suprema autoridade das Escrituras.
Nada havia de cerimonial ou típico nos vários atos da criação, ou
repouso divino da obra da criação, ou no fato de ter Ele deliberado assim
proceder no sétimo dia da semana da criação. Assim, em parte alguma as
Escrituras sugerem que o sabatismo do sábado aponta ao futuro para a
cruz. E somente aquelas coisas que apontavam para a cruz foram
abolidas na cruz. E o sabatismo do sábado não era uma dessas coisas.
6. A Lógica do Caso. O sabatismo do sábado é mencionado por
alguns como "temporário", unicamente para os judeus e para os tempos
do Antigo Testamento. Porém, em vista das provas anteriores, caberia
indagar: se o repousar Deus no sétimo dia é um aspecto "temporário",
não deveria, então, o mesmo argumento ser aplicado ao fato de ter Ele
repousado? Que há de menos "temporário": ter Deus escolhido repousar
no sétimo dia da semana da Criação ou simplesmente o fato de ter
repousado?
Outra controvérsia comum relativa ao sabatismo do sábado é que a
sua observância no sétimo dia da semana envolve o crente no legalismo.
Perguntamos, porém: de que maneira exatamente e com que autoridade
escriturística se pode acusar de legalismo a observância sabática? Era
Deus acaso legalista ao escolher repousar no sétimo dia da semana da
criação? Seria menos legalista se o fizesse no primeiro dia da semana, no
princípio da criação? Ou, interrompendo a obra criadora, repousasse em
qualquer outro dia que separasse da semana? E se não foi legalista para
Deus o repousar dessa forma, por que o seria para nós assim fazermos
em obediência à Sua ordem? Se é legalismo repousar no sétimo dia da
Questões sobre Doutrina 202
semana, por que não o é o repousar no primeiro dia ou em qualquer outro
da semana?
E onde a Bíblia afirma explicitamente ou mesmo sugere que a
sabaticidade (ou puro repouso) do sábado não seja legalística enquanto o
sabatismo (ou o descanso no sétimo dia em particular) seja legalístico?
Além disso, instituiu Deus um lado cerimonial ou típico do sábado ao
escolher repousar no específico sétimo dia? Então, por que processo de
lógica se pode afirmar que é cerimonial para nós observar o sábado no
sétimo dia da semana, mas não o é para Deus que também o observou?
Mais ainda, afirma-se repetidas vezes que o propósito essencial do
sábado (a sabaticidade) estava em harmonia com a preservação e
manutenção da vida. Implica isso que há um conflito inevitável entre o
sabatismo do sábado e a preservação e manutenção da vida? Mas de que
maneira achava-se o sabatismo do sábado mais em conflito com a
preservação e manutenção da vida do que em sua sabaticidade? A
sabaticidade do sábado restringe as atividades num determinado dia, ao
passo que o sabatismo simplesmente especifica em que dia isso deve
ocorrer.
Alega-se também que a sabaticidade do sábado existia para o bem
do homem, implicando que o sabatismo age contra o bem-estar do
homem. De que maneira, porém, o sabatismo do sábado milita contra o
bem do homem mais do que o domingo, o primeiro dia da semana? A
ênfase que Deus pôs no sabatismo do primeiro sábado dado ao mundo
acaso milita contra o bem do Criador?
Resumindo: protestamos contra o falso raciocínio que afirma ser
legalístico observar o sétimo dia e não legalístico observar o primeiro dia
da semana.Essas linhas de argumentação são incoerentes dentro da
lógica correta. A coerência manda que, para ser exato, é preciso prosse-
guir para chegar às conclusões lógicas, às premissas maiores dos pontos
1 e 2 do debate anterior, reconhecendo o sabatismo divinamente instituí-
do e a sabaticidade do sábado. Ou, então, desistir das premissas maiores
Questões sobre Doutrina 203
indicadas e achar base para manter a qualidade moral do sábado. Por
outro lado, esse procedimento pareceria levar ou à posição de que os Dez
Mandamentos foram abolidos, ou à posição católico-romana de que a
igreja tem autoridade e poder para alterar o Decálogo.
7. É Indefensável a Teoria de "Um Dia em Sete". Discordamos
da posição implícita no ponto 2 da pergunta introdutória destas
considerações, de que um significado moral está ligado à distinção feita
segundo o princípio proporcional de "um dia em sete", isto é, um dia
indeterminado entre os sete como sábado, mas não a guarda de um dia
designado nas Escrituras. Cremos que essa alegação é um arrazoado
subjetivo que não responde ao enunciado do quarto mandamento nem é
sustentado por qualquer ordenação ou sanção das Escrituras. Apegamo-
nos ao princípio protestante de "A Bíblia e a Bíblia Só", e reclamamos
prova escriturística para semelhante mudança do enunciado expresso nas
Santas Escrituras e de seu intento óbvio.
E a implicação de que o princípio do "um dia depois de seis" - isto
é, um dia de descanso em cada sete - é admitidamente inseparável da
essência moral do sábado, ao passo que a especificação do sétimo dia o
reduz a uma simples relação cerimonial, acreditamos ser incompatível
tanto com a harmonia bíblica quanto com a lógica da verdade. Nada há,
absolutamente, na especificação do sétimo dia como sábado que tenha
algum significado cerimonial na vida e obra de Cristo e que permita con-
sequentemente servir de base para ser considerado cerimonial. Tomamos
o quarto mandamento sem emendas.
8. Introdução da Observância do Domingo.5 Voltando agora ao
aspecto histórico, discordamos, antes de mais nada, da tese de que o
sábado foi de fato transferido do sétimo para o primeiro dia da semana,
chamado por muitos de "dia do Senhor". Nos escritos da igreja nos
primeiros tempos, o mais antigo e autêntico exemplo de ser o primeiro
Questões sobre Doutrina 204
dia chamado "dia do Senhor" encontra-se em Clemente de Alexandria,
perto do fim do 2° século (ver Miscellanies, v. 14). E o primeiro escritor
eclesiástico reconhecido como sendo o primeiro a ensinar que a
observância do sábado foi transferida para o domingo por Cristo foi
Eusébio de Cesaréia (falecido em 349). A alegação por ele feita foi
escrita em seu Commentary on the Psalm 92, escrito no segundo quartel
do 4º século (ver Frank H. Yost, The Early Christian Sabbath, 1947, cap.
5).
A observância do domingo como um festival da igreja
comemorativo da ressurreição de Cristo - como suplementar apenas, e
não como substituição do sábado - foi introduzida em Roma por volta da
metade do 2º século. O costume espalhou-se gradualmente daí por
diante. Embora os cristãos em Roma geralmente jejuassem em vez de
celebrar a comunhão no dia de sábado, Ambrósio, bispo de Milão (375-
397), recusou-se a seguir esse costume em sua diocese (Ambrosio De
Elia et Jejunio 10; Paulinus, Life of St. Ambrose 38; Agostinho, Epístola
36.14 a Casulano; Epístola 54.2 a Januário).
Agostinho, bispo de Hipona (falecido em 430), afirmou que,
conquanto a igreja de Roma jejuasse no sétimo dia de cada semana em
seu tempo, a prática não foi seguida de modo generalizado na Itália,
fazendo especial menção de Ambrósio, em Milão. Ele acrescentou que a
grande maioria das igrejas cristãs em todo o mundo, particularmente no
Oriente, tinha demasiado respeito pelo sábado para assim proceder.
Agostinho afirmou ainda que, embora algumas igrejas do norte da África
seguissem o exemplo de Roma em jejuar no sábado, outras sob seu
cuidado não o faziam (Agostinho, Epístola 36.14 a Casulano; Epístola
54.2 a Januário; Epístola 82 a Jerônimo).
Sócrates, historiador eclesiástico (Eclesiastical History, v. 22),
escrevendo por volta do ano 430, deixou o seguinte registro:
Questões sobre Doutrina 205
"Quase todas as igrejas em todo o mundo celebram os sagrados
mistérios do sábado (sétimo dia) de cada semana, embora os cristãos de
Alexandria e Roma, em nome de alguma antiga tradição, se recusem a
fazê-lo."
O mesmo Sócrates escreveu que também os arianos tinham suas
reuniões no sábado e no domingo (ibid., v. 8). E Sozomen, historiador
eclesiástico do 5º século (Eclesiastical History), confirmou a declaração
de Sócrates, dizendo:
"O povo de Constantinopla e de várias outras cidades se reúne no
sábado e também no dia seguinte a este, mas esse costume nunca se
observa em Roma ou Alexandria."
Após o decreto da primeira lei civil do domingo por Constantino,
em 321, a festividade dominical tornou-se cada vez mais popular e se
espalhou com o passar dos séculos. O decreto impunha o repouso no
"venerável dia do Sol", visando reforçar a legislação eclesiástica já
existente sobre a observância do domingo. Daí por diante, essa
festividade foi reforçada pela crescente legislação eclesiástica e civil.
Entretanto, ao tempo do grande cisma entre as igrejas do Oriente e do
Ocidente, em 1054, um dos principais motivos da controvérsia foi a
prática romana da ainda observância do sábado pelo jejum. As igrejas do
leste, até essa data, ainda tinham demasiada consideração pelo sábado
para assim proceder, embora a observância do domingo fosse, então,
quase universal (cardeal Humbert, legado do Papa Leão IX aos gregos,
Adversas Graecorum Calumnias [Contra as Calúnias dos Gregos], em
Patrologiae Latina de Migne, v. 143, cols. 936, 937; ver também
Gibbon, Decline and Fall of the Roman Empire, capítulo 60).
Dessa maneira, a substituição do sábado pelo domingo, na prática e
em geral, ocorreu lentamente, mas com muito conflito e mesmo
derramamento de sangue, como confirma a história da igreja celta, de
acordo com Lange.6 Levou séculos para que o domingo viesse a ser
considerado como o sábado.7 E, até hoje, em espanhol, português,
Questões sobre Doutrina 206
italiano, polonês e grande número de outras línguas, o sétimo dia da
semana é ainda chamado por algumas transliterações pelo antigo nome
"sábado".8 Ao longo mesmo do século 15, a observância do sábado
judaico continuou na igreja cristã, mas com um rigor e solenidade
gradualmente diminuídos.
9. Profetizada a Mudança do Sábado. Nós, adventistas, cremos
ter havido uma mudança do sábado, inteiramente desautorizada,
injustificada e presunçosa, por parte da grande apostasia católica ou a
grande apostasia romana, conforme foi profetizado por Daniel, no
capítulo 7, especialmente os versos 24 e 25. A audaciosa franqueza de
reivindicação de autoridade e poder de Roma para mudar mesmo os
preceitos dos "Dez Mandamentos de Deus" é vista no Credo Católico de
Joseph Faa di Bruno (1884), que recebeu várias traduções e muitas
impressões. Na página 311, estão arrolados os "Dez Mandamentos de
Deus", de Êxodo 20, dados em sua forma abreviada, em que o terceiro
(quarto) é assim redigido: "Lembra-te de guardar o santo dia de sábado."
Na página seguinte (312) aparecem "Os Mandamentos da Igreja", o
primeiro dos quais é este: "É-nos autorizadamente ordenado pela igreja.
— 1. Observar os domingos e dias de festas."
Que isso envolve especialmente a substituição do sábado pelo
domingo, é visto no significado da expressão "Tradição Apostólica e
Eclesiástica" que apareceno autorizado "Credo de Pio IV", o qual foi
editado no fim do Concílio de Trento:
"Admito como pontos de verdade revelada aquilo que a igreja
declara que os apóstolos ensinaram como tal, quer claramente ou não
claramente expresso, ou nem mesmo mencionado na escrita Palavra de
Deus como, por exemplo, [...] que o domingo em lugar do sétimo dia
(chamado sábado) deve ser guardado como santo." (ibid.,p. 251).
Nada poderia ser mais claro ou mais ousado.
Questões sobre Doutrina 207
Enquanto, como notamos, o sábado do sétimo dia continuou sendo
observado em certas regiões por séculos, após a crucifixão, a comemora-
ção da ressurreição veio gradualmente igualá-lo, e então, mais tarde, a
obscurecê-lo. E, no Sínodo de Laodicéia, a influência predominante no
concílio anatematizou aqueles que continuassem a observar o sábado do
sétimo dia, e impôs a observância do domingo.9 Os cânones dominicais
desse concílio oriental foram incorporados aos do Concilio Geral de
Calcedônia em 451, e assim receberam força de lei pela igreja toda.
Então, no século seguinte, Justiniano incorporou os cânones dos
quatro primeiros concílios gerais (inclusive o cânon 29 de Calcedônia e
Laodicéia) ao seu famoso código (Corpus Juris Civilis), cuja infração
seria punível por penalidades civis. E isso permaneceu como lei
dominante de toda a Europa durante a Idade Média, até ser modificado
pelos países que adotaram o protestantismo, cujos decretos de tolerância
foram baixados por seus respectivos parlamentos.10 Mais tarde, esse
código foi substituído pelo Código de Napoleão, depois da Revolução
Francesa, no fim do século 18.
Nós, adventistas do sétimo dia (e, sem dúvida, muitos em outras
comunidades protestantes), negamos a validade de tal mudança do
sábado como os católicos romanos se arrogam o direito de fazer, e é
repetidamente admitida por influentes protestantes. Cremos que o sétimo
dia continua sendo o imutável memorial da criação original de Deus e,
mais ainda, que o regenerado crente em Cristo que, cessando de pecar,
entra no repouso espiritual pode guardar o sábado como sinal de sua
recriação. Por esse motivo, nos recusamos a reconhecer, honrar e
obedecer ao que cremos ser uma substituição papal do imutável sábado
de Deus. Tomando a Bíblia como nossa única regra de fé e prática, e
incapazes de encontrar autorização na Escritura para tal mudança,
rejeitamos seguir ao que cremos ser tradições e "mandamentos de
homens".
Questões sobre Doutrina 208
Enquanto os católicos assumem a responsabilidade da mudança do
sábado, influentes protestantes - desde os tempos da Reforma - admitem
que a mudança não foi feita por autoridade escriturística ou por ato
apostólico, mas por humana ação eclesiástica,11 como segue:
A Confissão de Augsburgo de 1530, Art. XXVII, declara:
"Eles [os católicos] alegam que a substituição do sábado para o dia
do Senhor é contrária, como parece, ao Decálogo; e não encontram
melhor exemplo para citar do que a mudança do sábado. Necessitam ter
o poder da igreja para serem muito notáveis, porque ela abriu mão de um
preceito do Decálogo." (Philip Schaff, The Creeds of Christendom, v. 3,
p. 64).
O historiador alemão Johann August Neander, em The History of
the Christian Religion and Chnrch, tradução de Roses (1831), v. l, p.
186, afirma:
"A comemoração do domingo, semelhante a outras comemorações,
foi sempre e unicamente uma ordem humana; e longe estava da intenção
dos apóstolos estabelecer uma ordenança divina a este respeito; longe
estava deles, e da primitiva igreja apostólica, transferir as obrigações do
sábado para o domingo."
O congregacionalista inglês Robert W. Dale, em The Ten
Commandments (1891), p. 100 diz:
"O sábado foi estabelecido sobre uma específica ordem divina. Não
podemos reclamar tal ordem como obrigação para observar o domingo."
O anglicano Dr. Isaac Williams, em Plain Sermons on the
Catechism (1882), v. 1, p. 336, admite:
"As razões pelas quais guardamos como santo o primeiro dia da
semana, em lugar do sétimo, são as mesmas pelas quais observamos
muitas outras coisas: não é porque a Bíblia ordenou, mas porque a igreja
o fez."
Questões sobre Doutrina 209
O congregacionalista americano Lyman Abbott, em Christian
Union, de 26 de junho de 1890, declara:
"A ideia corrente de que Cristo e Seus apóstolos substituíram
oficialmente o sétimo dia da semana pelo primeiro é absolutamente sem
nenhuma autoridade no Novo Testamento."
O anglicano inglês F.W. Farrar, em The Voice From Sinai (1892),
p. 167, diz:
"A igreja cristã não fez uma transferência formal, mas gradual e
quase inconsciente, de um dia para o outro."
O cânon anglicano Eyton, de Westminster, em The Ten
Commandments (1894), p. 62, acrescenta:
"No Novo Testamento não há palavra, nem alusão, acerca de
abstenção de trabalho no domingo.
N. Summerbell, em History of the Christians, p. 418, assegura:
"Ela [a Igreja Católica Romana] inverteu o quarto mandamento,
pondo de lado o sábado da Palavra de Deus e instituindo o domingo
como dia santo."
E o estadista William E. Gladstone, primeiro-ministro da Inglaterra
por quatro vezes, em Later Gleanings, p. 342, observa:
"O sétimo dia da semana foi despojado de seu título de obrigatória
observância religiosa, e sua prerrogativa foi transferida para o primeiro,
sob nenhum preceito direto da Escritura."
10.O Sábado Foi Mudado por "Autoridade" da Igreja Romana.
A resposta formal do papismo ao Protestantismo foi dada no Concílio de
Trento (1545-1563). Foi aqui que tiveram lugar sua deliberada e final
rejeição e anátema dos ensinos da Reforma referentes à supremacia da
Bíblia e outras claras doutrinas da Palavra de Deus. O objetivo real foi a
igualdade ou efetiva superioridade da tradição sobre as Escrituras como
regra de fé.
Questões sobre Doutrina 210
Durante a 17ª sessão, o cardeal Casper del Fosso, arcebispo de
Reggio, em 18 de janeiro de 1562, declarou que a tradição é o resultado
da contínua inspiração eclesiástica existente na Igreja Católica. Ele
apelou para a longamente estabelecida mudança do sábado para o
domingo como firme prova da inspirada autoridade da Igreja Romana.
Declarou que a mudança não tinha sido feita por ordem de Cristo, mas
pela autoridade da Igreja Católica, mudança essa que os protestantes
aceitam. Seu discurso foi o fator determinante da decisão do concílio. E
sempre, desde Trento, a mudança do sábado para o domingo tem sido
apontada pelos católicos romanos como a evidência do poder da igreja
para alterar até mesmo o Decálogo (ver o Credo resumido de Pio IV em
Joseph Faa di Bruno, Catholic Belief, p. 250-254; Henry Schroeder
[tradutor], Canons and Decrees of the Council of Trent, 1937).
11. Por que Observamos o Sábado. Cremos que os protestantes
estão em terreno perigoso quando inadvertidamente seguem o mesmo
engenhoso argumento sabático exposto no Concílio de Trento, como está
registrado no Cathecism of the Council of Trent (Catechismus Romanus).
Nele é sustentado que, enquanto o princípio sabático é moral, eterno e
específico, o elemento tempo é apenas cerimonial e temporário. E, mais,
que assim como o sétimo dia constituiu o tempo transitório em vigor
para os judeus dos tempos do Antigo Testamento, assim a igreja-mãe,
católica, na plenitude de seu delegado poder, autoridade e intuição, e
como a designada guardiã e única intérprete infalível da tradição e
verdade, transferiu a solenidade do sétimo para o primeiro dia da semana
(Donovan, Catechism of the Council of Trent, 1867, p. 340, 342; ver
também Labbe and Cossart,