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DIREITO DAS OBRIGACOES E RESPONSABILIDADE CIVIL 2013-1

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uma cria sobreviveu ao parto da égua reprodutora e 
justamente essa cria vem também a falecer por culpa de um empre-
gado de Bernardo, que alimentou o animal com ração fortifi cado-
ra cuja validade havia expirado? Pode Luis ingressar judicialmente 
contra Ricardo para cobrar o equivalente ao valor do cavalo, pago 
no momento da contratação? E as eventuais perdas e danos?
DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E RESPONSABILIDADE CIVIL
FGV DIREITO RIO 50
AULA 8: PAGAMENTO: LUGAR, TEMPO E PROVA
EMENTÁRIO DE TEMAS:
Pagamento. Extinção Normal das Obrigações — Natureza Jurídica do Pa-
gamento O solvens O Accipiens Credor putativo Pagamento feito ao inibido 
de receber Objeto do pagamento e sua prova.
LEITURA OBRIGATÓRIA:
Aleixo, Celso Quintella. “Pagamento”, in Gustavo Tepedino (org) Obriga-
ções: Estudos na perspectiva civil-constitucional. Rio de Janeiro: Reno-
var, 2005; pp. 275/302.
LEITURAS COMPLEMENTARES:
Lôbo, Paulo Luiz Netto. Teoria Geral das Obrigações. São Paulo: Saraiva, 
2005; pp. 187/222. Tepedino, Gustavo, Moraes, Maria Celina Bodin de, 
e Barboza, Heloisa Helena. Código Civil interpretado conforme a Consti-
tuição da República, vol. I. Rio de Janeiro: Renovar, 2004; pp. 589/626.
1. ROTEIRO DE AULA:
Pagamento. Extinção Normal das Obrigações
As obrigações, como visto, têm caráter de efemeridade, pois são fadadas 
ao seu exaurimento, ou melhor, à sua realização. Nesse sentido, o pagamento 
é o meio normal de sua extinção. O desfecho natural da obrigação é o seu 
cumprimento.
A noção de pagamento pode se traduzir em mais de um conceito: em sen-
tido estrito e mais comum, a prestação de dinheiro; em senso preciso, a en-
trega da res debita, qualquer que seja esta; e numa acepção mais geral, qual-
quer forma de liberação do devedor, com ou sem prestação.17
Observa-se que o termo pagamento, em sentido geral, representa toda a 
forma de cumprimento da obrigação. Isso remete à velha noção de solutio 
que era prevista no Direito Romano. No Código Civil, essa é a noção enun-
ciada nos arts. 304 e seguintes.
17 Caio Mário da Silva Pereira. Institui-
ções de Direito Civil, v. II. Rio de Janeiro: 
Forense: 2004; p. 167.
DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E RESPONSABILIDADE CIVIL
FGV DIREITO RIO 51
Essa noção de pagamento deve ser transposta às obrigações de dar, fazer 
e não fazer. Paga-se na compra e venda, quando se entrega a coisa vendida. 
Paga-se na obrigação de fazer, quando se termina a obra ou atividade enco-
mendada. Paga-se na obrigação de não fazer, quando o devedor se abstém de 
praticar o fato, por um tempo mais ou menos longo.
O pagamento pode assumir a forma de um negócio bilateral, e nesse senti-
do, verifi ca-se a existência de obrigações recíprocas, havendo o dever de pagar 
para ambas as partes. É o examinado na compra e venda, onde simultanea-
mente cabe ao devedor pagar pelo bem a quantia estipulada e ao vendedor 
entregar a coisa.
Conforme se observará mais adiante, há formas especiais de cumprimento 
das obrigações, muitas delas enveredando pela tutela jurisdicional.
Casos há, em que dada a impossibilidade de cumprir a obrigação, não 
existe por conseguinte a possibilidade de cumprir o pagamento. Isso pode ou 
não resultar de culpa do devedor. Se ocorrer sem culpa do mesmo, a obriga-
ção segue o caminho da extinção; por outro lado, se o devedor concorre com 
culpa para a impossibilidade de pagar, deverá responder por perdas e danos. 
Aqui vale destacar que essa indenização pela inexecução da prestação não tem 
natureza de pagamento, embora o substitua.
Natureza Jurídica do Pagamento
Percebe-se que o pagamento pode assumir diversas feições sendo justa-
mente por conta desse fato que surge a difi culdade na caracterização de sua 
natureza jurídica.
É complexo tentar instituir uma natureza única para o pagamento. Diver-
gem os autores, havendo quem o qualifi que como fato jurídico, como outros 
que asseveram o seu teor negocial (negócio jurídico). Para essa última corren-
te, o fundamento principal reside no fato de que o pagamento não é um 
simples acontecimento, mas é também marcado por um forte elemento psí-
quico — o animus solvendi —, sem o qual, seria confundido com uma sim-
ples liberalidade.18
Caio Mário da Silva Pereira se fi lia a corrente de que o pagamento seria 
negócio jurídico quando o direito de crédito versasse sobre uma prestação 
que tenha caráter negocial. Quando esse elemento fosse inexistente, estar-se-
ia diante de mero fato jurídico.
A importância da defi nição da natureza jurídica do pagamento não é em 
verdade mera elucubração teórica. Considerar o pagamento como sendo ne-
gócio jurídico, sob a perspectiva prática, signifi ca considerá-lo sob o enfoque 
de seus elementos constitutivos e requisitos de validade e efi cácia, isto é, o 
exame será mais rigoroso, podendo o mesmo ser qualifi cado como inexistente, 
nulo ou anulável. Corporifi ca-se no negócio jurídico um rigor muito maior do 
que o observado caso o pagamento seja reputado como simples fato jurídico.
18 Caio Mário da Silva Pereira. Institui-
ções de Direito Civil, v. II. Rio de Janeiro: 
Forense: 2004; p. 168.
DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E RESPONSABILIDADE CIVIL
FGV DIREITO RIO 52
O solvens
Em regra, quem é obrigado a pagar é o devedor, mas isso não exclui a pos-
sibilidade de que terceiros o façam.
No estudo do pagamento, este não deve ser visualizado somente sob a óti-
ca de uma atuação por parte do devedor. Deve-se ter em mente que efetuar 
o pagamento em conformidade com as condições acordadas pelas partes é 
também um direito do devedor, na medida em que se não o faz, torna sua 
obrigação em regra ainda mais onerosa. E nesse sentido a lei inclusive dota 
o devedor de instrumentos legais que garantam o seu direito de adimplir a 
obrigação.
A previsão para que terceiros saldem a obrigação encontra-se no art. 304 
do Código Civil. Excetuam-se, por força da lógica, as obrigações personalís-
simas, isto é, aquelas obrigações onde a fi gurado devedor é primordial para o 
próprio cumprimento da obrigação:
Art. 304. Qualquer interessado na extinção da dívida pode pagá-la, 
usando, se o credor se opuser, dos meios conducentes à exoneração do 
devedor.
Parágrafo único. Igual direito cabe ao terceiro não interessado, se o 
fi zer em nome e à conta do devedor, salvo oposição deste.
Um exemplo de interessado é o fi ador. Interessado poderia ser concebido 
aqui como um termo genérico que abarca aqueles que seriam de alguma for-
ma atingidos pelos efeitos jurídicos que se desdobram dessa relação jurídica 
em curso. Se o devedor não paga, competirá ao fi ador, por força de contrato, 
fazê-lo. Do inadimplemento perpetrado pelo devedor podem sobrevir novos 
encargos, como juros, multas contratuais diversas, entre outros que torna-
riam mais gravosa a obrigação. No intuito de preservar o seu patrimônio, o 
fi ador se antecipa e efetua o pagamento, minorando efeitos que se estende-
riam sobre a sua própria órbita.
Nessa hipótese de terceiro interessado, não pode o credor recusar o recebi-
mento da prestação. O parágrafo único do art. 304 acrescenta que o terceiro 
não interessado tem o mesmo direito de pagar, “se o fi zer em nome e por cota 
do devedor”.
O caso clássico levantado em obras doutrinárias é o do pai que paga dívida 
do fi lho. O interesse aqui extrapola o campo jurídico e enveredada pelo cam-
po moral, altruístico. Não há necessidade de anuência nem do credor, nem 
do devedor.19
Diferentemente dessa primeira hipótese, pode o terceiro não interessado 
pagar a obrigação fazendo-o não em nome do devedor, mas em seu próprio 
19 Conforme será examinado mais 
adiante na fi gura da Consignação em 
Pagamento, modalidade especial de 
pagamento, onde o devedor, diante da 
recusa do credor em receber o paga-
mento, deposita o mesmo em juízo, é 
possível ao terceiro não interessado se 
valer dessa forma de pagamento.