A maior rede de estudos do Brasil

Grátis
173 pág.
DIREITO DAS OBRIGACOES E RESPONSABILIDADE CIVIL 2013-1

Pré-visualização | Página 48 de 50

coisa. A primeira, prevista no art. 937, determina que o dono do 
edifício ou construção responde pelos danos oriundos de sua ruína.
Art. 937. O dono de edifício ou construção responde pelos danos que 
resultarem de sua ruína, se esta provier de falta de reparos, cuja necessidade 
fosse manifesta.
Alguns autores alegam que a responsabilidade do proprietário é objetiva, 
entretanto, o texto da lei faz alusão expressa à falta de reparos. No entanto, 
conforme conclui José de Aguiar Dias, não se exige a prova da conduta cul-
posa porque a negligência na conservação do imóvel é constatação que deriva 
ipso facto de sua própria ruína.
A segunda situação, prevista no art. 938, estabelece que aquele que habitar 
prédio responde pelo dano proveniente das coisas que dele caírem.
Art. 938. Aquele que habitar prédio, ou parte dele, responde pelo dano 
proveniente das coisas que dele caírem ou forem lançadas em lugar indevido.
A responsabilidade pelo eff usum et deiectum é de caráter objetivo de acordo 
com o Código Civil. Dessa forma, o habitante responde independentemente 
de culpa pelo dano causado por queda ou arremesso de coisa em local indevido.
Questão complexa acerca do dispositivo legal diz respeito a objeto lançado 
de condomínio edilício quando não for possível identifi car o apartamento de 
onde a coisa caiu. Para Caio Mário Pereira da Silva é imprescindível deter-
minar qual a unidade autônoma. A crítica a essa posição é que em inúmeros 
casos (ou quase todos) será impossível para a vítima produzir essa prova.
Por outro lado, para José de Aguiar Dias, a solução é a responsabilidade 
solidária de todos os moradores. Admite, porém, a exclusão dos moradores 
da ala oposta àquela em que o fato ocorreu. Essa é a posição que a jurispru-
dência vem adotando, fundada na idéia de causalidade alternativa.
Responsabilidade por fato de animais
A responsabilidade por fato de animais vem regulada no art. 936 do Códi-
go Civil, que estabelece que o dono ou detentor do animal ressarcirá o dano 
por este causado.
DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E RESPONSABILIDADE CIVIL
FGV DIREITO RIO 158
Art. 936. O dono, ou detentor, do animal ressarcirá o dano por este cau-
sado, se não provar culpa da vítima ou força maior.
Com esse dispositivo, mostra-se que essa responsabilidade se fi lia à que é 
inspirada na obrigação de guarda89, ou seja, a responsabilidade surge em ra-
zão do risco assumido pela coisa que o indivíduo tem a seu serviço ou para 
recreação.90 Em outras palavras, aquele que detém o poder de comando sobre 
certo animal tem, também, o dever de evitar que ele cause danos a terceiros.
Interessante notar que o Código adotou a responsabilidade objetiva pelo 
fato de animais. Atualmente, só é possível a exclusão da responsabilidade em 
razão da culpa exclusiva da vítima ou força maior, não sendo possível alegar 
isenção de culpa.
2. CASO GERADOR:
Robson, motorista particular de Marcelo, iria passar o fi m de semana em 
Teresópolis. Marcelo, então, sabendo do fi m de semana de folga de seu em-
pregado, permitiu que ele fosse com seu veículo. Chegando em Teresópolis, 
Robson abalroa, com o automóvel de propriedade de Marcelo, o veículo de 
Nadja, moradora local.
Proposta ação indenizatória em face de Marcelo, este o procura para dar 
um parecer sobre o tema.
89 Dias, José de Aguiar, Da responsabi-
lidade civil, 11a revista e atualizada de 
acordo com o Código Civil de 2002, e 
aumentada por rui berford dias, rio de 
Janeiro: renovar, 2006, p. 661.
90 Idem, p. 580.
DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E RESPONSABILIDADE CIVIL
FGV DIREITO RIO 159
AULA 10. ABUSO DO DIREITO
LEITURA OBRIGATÓRIA:
CASTRO NEVES, José Roberto. Uma Introdução ao Direito Civil. Rio de 
Janeiro: Letra Legal, 2005; pp. 113/129.
LEITURAS COMPLEMENTARES:
TEPEDINO, Gustavo, Bodin de Moraes, Maria Celina e Barboza,Helena. 
Código Civil Interpretado conforme a Constituição da República, v. I. Rio 
de Janeiro: Renovar, 2004; pp. 241/266. Caio Mário da Silva. Instituições de 
Direito Civil, v. I. Rio de Janeiro: Forense, 2005; pp. 553/583.
1. ROTEIRO DE AULA
O abuso do direito é uma fi gura moderna, construída a partir de decisões 
judiciais francesas proferidas a partir da metade do século XIX, mas apenas 
que ganharam corpo nas primeiras décadas do século passado. O abuso está 
inserido no movimento de queda do voluntarismo, ou seja, do predomínio 
da vontade do titular de um direito como motor absoluto de seu exercício e, 
por isso, tem servido para evidenciar a funcionalização de uma série de direi-
tos, como a propriedade e os contratos.
A disputa doutrinária sobre a conceituação do abuso do direito é vasta, 
mas pode-se reduzir os seus termos ao debate atual sobre o abuso como exer-
cício do direito fora da sua função, ou ainda como exercício do direito de 
forma a contradizer o valor que o mesmo busca tutelar. Dessa forma, o abuso 
do direito representaria uma infração a limites que não estão colocados na 
existência de direitos de terceiros, mas sim em elementos típicos do próprio 
direito, como a sua função ou o seu valor.
No campo da responsabilidade civil o abuso do direito ganha destaque 
pois essa fi gura evidenciará que, em numerosas hipóteses, seria incorreto 
afi rmar-se estar na existência de um ato ilícito, embora a ocorrência de dano 
possa ser constatada.
DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E RESPONSABILIDADE CIVIL
FGV DIREITO RIO 160
origens e teorias do abuso do direito
Na coletânea de decisões proferidas pelos tribunais franceses a partir de 
meados do século XIX até o início do século XX não se encontra a menção a 
uma “teoria do abuso do direito”. Essa denominação foi cunhada por Laurent 
que, ao se debruçar sobre as referidas decisões enfocando os limites ao exer-
cício do direito subjetivo, nelas identifi cou um padrão que poderia servir de 
base para a criação desse novo instituto.
Uma das decisões mais notórias nesse período histórico é aquela proferida 
em 1853, na qual um tribunal francês obrigava o proprietário de um terreno 
a destruir uma chaminé que o mesmo havia edifi cado anteriormente. Segun-
do constou do processo, a construção da chaminé havia sido realizada apenas 
para fazer sombra sobre um terreno adjacente.
Em outra oportunidade, decidiu-se que também agia com abuso de 
direito o proprietário de um terreno que bombeava água para um rio 
com o exclusivo intuito de diminuir o reservatório de água de um prédio 
vizinho.
Vale destacar ainda a importância para a construção inicial da teoria do 
abuso do direito do caso Clement Bayard, decidido pela Corte de Amiens em 
1912. A referida decisão analisou a conduta do proprietário de um terreno 
vizinho a um campo de pouso de dirigíveis que construiu, sem maiores justi-
fi cativas, uma estrutura de torres com pontiagudas extremidades de ferro, o 
que colocava em risco a circulação dos dirigíveis. A Corte de Cassação reco-
nheceu que o titular do terreno estaria agindo de forma abusiva ao destinar 
tal uso à sua propriedade e responsabilizou o réu por sua conduta.91
Em todos os casos mencionados da jurisprudência francesa pode-se per-
ceber a existência de dois elementos típicos da teoria dos atos emulativos, 
isto é, atos que apenas visam prejudicar terceiros sem vantagem para o titu-
lar do direito.
De toda forma, a jurisprudência francesa original deve ser louvada por 
ter afi rmado a existência de limites no exercício do direito subjetivo e, o que 
talvez seja mais sintomático, em casos envolvendo o direito de propriedade, 
direito subjetivo modelo das codifi cações oitocentistas.
Todavia, grande parte desses casos apreciados no início do século passado 
tratava de limitações ao exercício de um direito subjetivo para que ele não 
prejudicasse a atuação de outro direito subjetivo. Isto é, o fator que motivava 
a imposição de limites não era a percepção de que aquele exercício do direito