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DIREITO DAS OBRIGACOES E RESPONSABILIDADE CIVIL 2013-1

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ridas à Trama, mais 5% de sua participação original, de modo a que ambas se 
tornassem co-controladoras em absoluta igualdade de condições. Tudo con-
forme havia sido estabelecido na Carta de Intenções, então tornada pública.
A operação motivou uma expressiva alta das ações de emissão das socieda-
des envolvidas. Em particular, o representante dos acionistas preferenciais da 
Newcell fez questão de divulgar ao mercado a sua satisfação diante das novas 
perspectivas que se abriam para a companhia.
A Celular do Brasil, contudo, sentindo-se prejudicada, acaba de ingressar 
em juízo com uma ação civil de reparação de danos em face da Macroservi-
ce, pleiteando o ressarcimento de lucros cessantes, no montante de US$ 50 
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milhões, alegando, em resumo, que a execução da Carta de Intenções entre a 
Trama e a Macroservice, com o imediato repasse das Ações, violou o acordo 
de acionistas que até então vigorara entre ela e a Macroservice.
Como se resolve o caso acima? Quantos e quais princípios da nova teoria 
contratual você consegue identifi car para o deslinde da questão?
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AULA 4: A RELAÇÃO OBRIGACIONAL
EMENTÁRIO DE TEMAS:
Noção geral de obrigação — Distinções entre direito das obrigações e 
direitos reais — Estrutura da relação obrigacional — Fontes das obrigações
LEITURA OBRIGATÓRIA:
Calixto, Marcelo Junqueira. “Refl exões em torno do conceito de obrigação, 
seus elementos e suas fontes”, in Gustavo Tepedino (org) Obrigações: 
Estudos na perspectiva civil-constitucional. Rio de Janeiro: Renovar, 
2005; pp. 1/15; 25/28.
LEITURAS COMPLEMENTARES:
Lôbo, Paulo Luiz Netto. Teoria Geral das Obrigações. São Paulo: Saraiva, 
2005; pp. 16/37. Tepedino, Gustavo, Moraes, Maria Celina Bodin de, e 
Barboza, Heloisa Helena. Código Civil interpretado conforme a Constitui-
ção da República, vol. I. Rio de Janeiro: Renovar, 2004; pp. 492/495.
1. ROTEIRO DE AULA:
Noção Geral de Obrigação
Numa lição clássica contida nas Institutas de Justiniano, pode-se encon-
trar a noção de que obrigação é um vínculo jurídico que nos obriga a pagar 
alguma coisa. Apesar de aparentemente simplória, essa antiga lição remete 
com bastante propriedade à idéia essencial que circunda o direito das obri-
gações — a idéia de relação jurídica entre duas ou mais pessoas, sejam elas 
naturais ou jurídicas.
Tendo em vista a natureza intuitiva do conceito, o legislador preferiu não 
defi ni-lo no atual Código Civil. Na doutrina, Caio Mário defi ne obrigação 
como o vínculo jurídico em virtude do qual uma pessoa pode exigir de outra 
prestação economicamente apreciável.10
10 Caio Mario da Silva Pereira. Institui-
ções de Direito Civil, v. II. Rio de Janeiro, 
Editora Forense, 2003; p. 7. 
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Já Washington de Barros Monteiro, de forma menos sucinta, enuncia 
que obrigação é a relação jurídica, de caráter transitório, estabelecida entre 
devedor e credor, cujo objeto consiste numa prestação pessoal econômica, 
positiva ou negativa, devida pelo primeiro ao segundo, garantindo-lhe o 
adimplemento através do seu patrimônio”. Nessa segunda defi nição é inte-
ressante observar a presença do elemento responsabilidade, uma vez que a 
sua presença será fundamental quando dos efeitos decorrentes do descum-
primento da obrigação.
Outro elemento que merece destaque é o caráter de transitoriedade, ine-
rente às obrigações. A obrigação é, em verdade, uma relação jurídica que 
nasce tendo por fi m a sua própria extinção, ou ainda melhor, a sua realização. 
É justamente a satisfação do credor, que ocorre com o regular adimplemento 
da obrigação, que enseja o fi m desta e, por conseguinte, o fi m do vínculo 
jurídico que une credor e devedor.
Na dinâmica obrigacional, os atores encontram-se subsumidos nas fi guras 
do credor e do devedor. A idéia de vinculação, que traduz o ponto principal 
do instituto, une duas ou mais pessoas que se encontrem envoltas numa re-
lação de crédito e débito. O credor e o devedor correspondem aos dois lados 
da obrigação, aos pólos ativo e passivo respectivamente.
O vínculo aqui descrito é marcado pela pessoalidade. Essa característica 
remete ao fato de que numa relação obrigacional há um número determinado 
(ou ao menos determinável) de pessoas envolvidas. Os credores e devedores 
são conhecidos, ou ao menos conhecíveis. Ao credor não é dado cobrar sua 
dívida de um estranho à relação obrigacional, e o devedor, por sua vez, não se 
verá desembaraçado de sua obrigação se pagar a outro que não àquele a quem 
deve (ou que pelo menos tenha poder de receber representando o credor).
Outro ponto crucial para entender as obrigações é a delimitação do seu 
objeto. Este nada mais é do que uma atividade do devedor, em prol do credor 
e essa atividade recebe a designação de prestação. As formas que essa presta-
ção pode assumir são bem diversas11 e ensejarão diferentes classifi cações das 
obrigações.
A própria experiência cotidiana mostra que as obrigações estão sujeitas ao 
inadimplemento, sendo que este, em certos ramos da atividade econômica, 
é demasiadamente grande. Nesses casos, o direito resguarda o credor de ver 
a sua expectativa de satisfação inteiramente frustrada defi nindo que deverá 
o patrimônio do devedor responder, em última análise, pelo adimplemento.
É justamente a possibilidade de procurar no patrimônio do devedor a 
satisfação do crédito que faz com que essas vinculações jurídicas não sejam 
desacreditas. Contudo, nem sempre foi assim.
Na Antiguidade Clássica, por exemplo, o devedor respondia com o pró-
prio corpo em face das obrigações assumidas, podendo ser submetido inclu-
sive à situação de escravidão. Contudo, o direito tal qual hoje é concebido, 
11 Como será visto posteriormente, es-
sas prestações podem ser uma simples 
entrega de um bem, uma conduta que 
represente um agir (fazer), ou ainda 
uma simples abstenção (não fazer). 
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embasado dentre outros princípios pelo da dignidade da pessoa humana, 
repele o uso da força física no intuito de compelir alguém a satisfazer uma 
obrigação assumida.
Embasando a idéia acima descrita, veja-se o exemplo acadêmico do pintor 
que assume a obrigação de pintar um quadro, mas depois se arrepende. Qual 
seria a solução para satisfazer quem o contratou? Não há como forçar o artista 
a pintar, pois é forte o embasamento constitucional no sentido de vedar o 
uso da força para consecução de tais intentos. No estudo da responsabilidade 
civil será observado que, nesse caso, a legislação reserva à parte prejudicada 
a possibilidade de recorrer ao judiciário demandando reparação por perdas e 
danos.
Outro elemento que deve ser destacado é o cunho pecuniário das obri-
gações, visto que o seu objeto sempre será um valor de natureza econômica. 
É certo que o direito pode até mesmo reservar, em certos momentos, uma 
especial consideração às obrigações de natureza exclusivamente moral, mas 
não sendo as mesmas dotadas de juridicidade, não podem ser inseridas no 
estudo das obrigações.
Igualmente não há que se pensar que as obrigações do direito de família 
muitas vezes não propriamente pecuniárias — constituem forma de excep-
cionar a idéia de caráter econômico acima expressa. Cumpre apenas destacar 
que natureza jurídica dessa espécie de obrigações não convém ao tema ora 
abordado, devendo ser pormenorizadas no estudo do direito de família.
Contextualizando o direito das obrigações com a realidade das relações 
econômicas vivenciadas hoje, percebe-se que a sua pertinência se ressalta 
quando são analisadas as relações de consumo. Pode-se destacar como os 
principais fatores para essa situação os seguintes fatos: (i) a dinâmica