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DIREITO DAS OBRIGACOES E RESPONSABILIDADE CIVIL 2013-1

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de situações onde estão presentes ações ou omissões 
marcadas pela culpa, seja culpa em sentido estrito, seja uma conduta dolo-
sa. Deve-se observar a previsão no art. 186 do Código Civil ao dispor que: 
“Aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, 
violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, co-
mete ato ilícito.
Por fi m, destaque-se o grande dissenso acerca da consideração da lei como 
fonte das obrigações. Em breve análise, pode-se dizer que todas as obrigações 
se balizam pela lei, não podendo confrontá-la, mas não necessariamente as 
obrigações surgiriam diretamente dela.
A necessidade da prática de certos atos que surge por força da lei não é 
sufi ciente para classifi cá-la como fonte, mesmo porque, em regra, esses atos 
são deveres jurídicos e não propriamente obrigações.
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FGV DIREITO RIO 22
AULA 5: AS OBRIGAÇÕES NATURAIS E AS OBRIGAÇÕES PROPTER REM
EMENTÁRIO DE TEMAS:
Obrigações civis — Obrigações naturais — Obrigações propter rem — 
ônus reais e obrigações propter rem.
LEITURA OBRIGATÓRIA:
Lôbo, Paulo Luiz Netto. Teoria Geral das Obrigações. São Paulo: Saraiva, 
2005; pp. 105/111.
LEITURAS COMPLEMENTARES:
Araújo, Bárbara Almeida de. “As obrigações propter rem”, in Gustavo 
Tepedino (org) Obrigações: Estudos na perspectiva civil-constitucional. Rio 
de Janeiro: Renovar, 2005; pp. 99/120. Pereira, Caio Mário da Silva. Ins-
tituições de Direito Civil, v. II. Rio de Janeiro: Forense, 2004; p. 285/304..
1. ROTEIRO DE AULA:
Obrigações Civis
Como visto nas seções anteriores, a obrigação desdobra-se numa perspectiva 
dupla: por um lado o débito, caracterizado pela necessidade de realizar uma de-
terminada prestação. Por outro, existe a garantia, que corresponde à prerrogativa 
do credor de se valer dos meios legais no intuito de compelir o devedor a pagar. 
As obrigações dotadas desses elementos constitutivos, são chamadas de perfeitas 
ou obrigações civis. Contrapõem-se às obrigações naturais — que, grosso modo, 
podem-se denominar de incompletas. Diferem ainda das obrigações propter 
rem, que congregam elementos ora de direitos reais ora de obrigações civis.
Obrigações Naturais
O estudo das obrigações naturais é dotado de certos particularismos. Se-
gundo a visão de alguns autores, elas se colocam num caminho intermediário 
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entre o domínio moral e o campo jurídico. Não são de modo algum exclusi-
vamente morais, pois fato inconteste é que o direito as confere não só efeitos, 
como também certa proteção jurídica — ainda que incompleta.
De premente importância é verifi car que a juridicidade da obrigação na-
tural somente se manifesta no momento de seu cumprimento. Antes que esse 
ocorra, a obrigação natural, não sendo dotada de coercibilidade, encontra-se 
em estado de latência. A exemplo dos deveres morais, não pode ninguém 
demandar o seu cumprimento. Paradoxalmente, é no adimplemento da obri-
gação — que corresponde concomitantemente ao momento de extinção que 
surge a sua face jurídica.
Como já mencionado, as obrigações naturais são obrigações incompletas 
na medida em que apresentam como particularidade, o fato dos devedores 
não poderem ser judicialmente compelidos a pagar. Não obstante, se forem 
cumpridas espontaneamente, será tido por válido o pagamento, que não po-
derá ser repetido (há retenção do pagamento, soluti retentio).
Não há que se equiparar obrigação natural com obrigação moral, que sen-
do mero dever de consciência, não obtém tutela jurídica.
A distinção da obrigação natural em relação à obrigação civil está na não 
existência de coercibilidade por parte da primeira. Contudo, se o devedor, 
de forma livre e consciente, cumpre uma obrigação natural, o pagamento 
considera-se legal. O pagamento era devido, mas de cumprimento não coer-
cível. Não há aqui que se falar em mover o Poder Judiciário para reaver o que 
houver sido pago porque esse pagamento era de fato devido.
A legislação não aborda em profundidade o tema das obrigações naturais, 
competindo à doutrina o estudo das suas características.
No estudo do tema, surge de partida uma indagação: é repetível, isto é, 
pode o devedor pedir de volta a quantia que tiver entregue, quando tal pa-
gamento houver se operado com erro no que tange a coercibilidade dessa 
obrigação?
Em outras palavras: o devedor, se soubesse da não coercibilidade caracte-
rística das obrigações naturais não teria pago; o fez por pensar que tratava-se 
de obrigação civil, que além de ser juridicamente exigível, encontra no pa-
trimônio do devedor a garantia do seu cumprimento. Tendo cometido esse 
equívoco, pode repetir?
A espontaneidade ou não do pagamento nesse caso é irrelevante. A obri-
gação natural é exigível, embora não dotada de coatividade. Dessa forma, se 
o devedor a adimplir, esse pagamento é válido, não havendo o que se falar 
em repetição.
A lei não minudencia os casos em que nos deparamos com obrigações 
naturais, estando os mesmos esparsos na legislação. Grosso modo, podemos 
citar três casos onde se pode encontrar obrigações naturais: dívida prescrita, 
dívida de jogo e juros não estipulados.
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Dívida Prescrita. Talvez seja a mais eloqüente das hipóteses de obrigação 
natural, sendo circunstância que se desenvolve desde os trabalhos do Direi-
to Romano. Evitando dúvidas, o legislador manifesta expressamente o seu 
entendimento no art. 882 do CC, no qual opera equiparação entre dívida 
prescrita e obrigação natural:
Art. 882. Não se pode repetir o que se pagou para solver dívida prescrita, 
ou cumprir obrigação judicialmente inexigível.
Dívida de Jogo. Segundo dispõe o art. 883 do Código Civil, não terá 
direito a repetir aquele que deu alguma coisa para obter fi m ilícito ou não 
permitido pela legislação.
Percebe-se aqui a expressa aplicação do princípio de que a ninguém é dado 
benefi ciar-se da própria torpeza. Nesse sentido, a hipótese mais elucidativa é 
sem dúvida a de dívida de jogo. Não pode o devedor, nesse caso, ser obrigado 
ao pagamento, mas, uma vez o tendo efetuado, não pode o solvens recobrar o 
que voluntariamente foi pago, excepcionando-se no caso de dolo, ou se o pre-
judicado for menor ou interdito. Nesse sentido, o art. 814 do Código Civil:
Art. 814. As dívidas de jogo ou de aposta não obrigam a pagamento; 
mas não se pode recobrar a quantia, que voluntariamente se pagou, 
salvo se foi ganha por dolo, ou se o perdente é menor ou interdito.
§ 1o Estende-se esta disposição a qualquer contrato que encubra ou 
envolva reconhecimento, novação ou fi ança de dívida de jogo; mas a 
nulidade resultante não pode ser oposta ao terceiro de boa-fé.
§ 2o O preceito contido neste artigo tem aplicação, ainda que se tra-
te de jogo não proibido, só se excetuando os jogos e apostas legalmente 
permitidos.
§ 3o Excetuam-se, igualmente, os prêmios oferecidos ou prometidos 
para o vencedor em competição de natureza esportiva, intelectual ou 
artística, desde que os interessados se submetam às prescrições legais e 
regulamentares.
De acordo com a redação do caput do art. 814, pouco importa que o 
jogo seja lícito ou ilícito, pois em qualquer uma das hipóteses se estará diante 
de uma obrigação natural. Contudo, há que se ressalvar que a existência de 
jogos que são regulamentados ou autorizados pelo próprio Estado. É o caso 
das loterias ofi ciais, o jogo semanal da loto e da loteria esportiva, as apostas 
de turfe, entre outros. Assim, pode-se verifi car a existência tanto de jogos 
proibidos, tolerados e autorizados.
Os jogos autorizados são aqueles caracterizados pela regulamentação ofi -
cial, e não são abarcados pelo disposto no art. 814 caput. Se o próprio Estado 
regula a atividade, cria