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O meu Púchkin de Marina Ts - Paula 60

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significa

























































126 Referência a P. P. Skoropádski. Em russo, skoro significa “rápido” e pádski provém do 
verbo padat’, que quer dizer “cair”. 
127 No original, palavra alemã transliterada para o russo que significa “cavalo de balanço”. 

 

para
 a
 felicidade
 de
 Pedro.
 E
 que
 Pedro
 é
 esse?”
 –
 “Eh...”
 “Quem
 é
 ele?
Então?”
–
“Mas
é
o
hóspede
maravilhoso.
Olha
demoradamente
para
aquela
direção.
 Onde
 o
 hóspede
 maravilhoso
 acabou
 de
 sumir...”
 –
 “E
 como
 se
chama
este
hóspede
maravilhoso?”.
Eu,
timidamente:
“Seria
Pedro?”
–
“Mas,
claro,
 graças
 a
 Deus!..
 (Com
 uma
 desconfiança
 repentina.)
 Mas
 Pedros
existem
muitos.
E
 esse
que
Pedro
é?
 (E
 sem
esperanças
numa
 resposta:)
É
aquele
mesmo
Pedro
que...

 Denúncia
contra
Hetman‐malfazejo

Daquele
Kotchubéi
ao
Tsar‐Pedro.

 Entendeu?”

Claro
que
sim!
Mas
é
uma
pena!
Tão
logo
Pedro
começou
a
se
revelar,
novamente
foi
lançado
àquela
noite
de
brilho‐profundo,
de
estrelas
e
de
lua,
de
 cossacos
 a
 galope,
 desse
 gorro,
 daquela
 denúncia
 e,
 o
 que
 é
 ainda
pior,
era
 como
 se
 este
 Pedro
 que
 consertou
 o
 barco
 do
 velho
 tivesse
 feito
 uma
boa
ação,
e
não
passava
daqueles
mesmos
malfazejos,
Kotchubéi
e
Hetman.
E
 de
 novo
 –
 na
 lua‐nova!
 –
 ficou
 um
 gigantesco
 ponto
 de
 interrogação:
“Quem?”
Quando
se
trata
de
Pedro,
é
sempre:
quem?
Pedro
é
quando
não
se
sabe
a
resposta.

Mas
 também
 o
 contrário:
 mal
 uma
 pergunta
 ressoava
 nos
 versos,
logo
a
desconfiança
caia
sobre
Pedro.

 

 

Por
que
há
salvas
de
tiros
e
gritos

Nesta
cidadela
de
Petersburgo?128

 A
 resposta:
 “Claro,
 é
 por
 causa
 do
 Pedro!”.
 Mas
 o
 que
 ele
 fez
 exatamente,
pois
 todas
as
 respostas
 sopradas
não
 são
 respostas.
E
principalmente
uma
assim,
que
até
chega
a
ser
ridícula:

 Tinha
parido
Ekaterina?


Era
o
dia
do
seu
santo


Do
gigante‐taumaturgo


A
esposa
de
negras
sobrancelhas129


 Parido,
 eu
 não
 entendia,
 só
 entendia
 nascido130,
 e
 nem
 de
 nenhuma
Ekaterina,
 esposa
 de
 Pedro,
 tinha
 ouvido
 falar,
 e
 o
 taumaturgo
 era
 São
Nicolau,
o
Taumaturgo,
ou
seja,
velho
e
santo,
que
não
tinha
mulher.
Mas
na
poesia
ele
–
tem.
Portanto,
é
um
taumaturgo
casado.


























































128 Citação de “O Banquete de Pedro I” (“Пир Петра Первого”), de Púchkin, escrito em 1935. 
Marina Tsvetáieva inverte a ordem entre o segundo e o terceiro versos da segunda estrofe do 
poema: “O que festejam pelo grande tsar/Na cidadela de Petersburgo?/Por que há salvas de 
tiros e gritos/E a esquadra a postos no rio? 
129 Versos de “O Banquete de Pedro I” (IV, vv. 5-8). 
130 Em russo, rodílá (“parido”) e rodilás (“nascido”). 

 

Mas,
meu
Deus,
que
alívio,
quando
depois
de
tantos
porquês
e
tantas

respostas
 evidentemente
 falsas,
 –
 finalmente,
 o
 bem‐aventurado
 porque!
“Eis
porque
tanto
barulho
e
gritos
–
na
cidadela
de
Petersburgo”131.

Só
agora,
repassando
passo
a
passo
o
Púchkin
da
minha
infância,
vejo
o
quanto
Púchkin
gostava
de
recorrer
a
perguntas:
“Por
que
salva
de
tiros
e
gritos?
 –
 Quem
 é
 ele?
 –
 Quem
 com
 estrelas
 e
 a
 lua
 no
 céu?
 –
 E
 os
montenegrinos,
o
que
são?”
–
etc.
Se,
naquela
época,
eu
acreditasse
mesmo
que
 ele
 de
 fato
 não
 sabia,
 era
 possível
 pensar
 que
 o
 poeta
 de
 todas
 as
pessoas
é
 aquele
que
nada
 sabia,
 tanto
que
perguntava
até
para
mim,
uma
criança.
Mas
a
 criança
 irritada
desconfiava
que
era
–
de
propósito,
que
ele
não
 pergunta,
 ele
 sabe,
 e
 desconfiando
 que
 ele
 queria
 me
 pegar,
 e
 sem
acreditar
 em
 nada
 do
 que
 me
 sugeriam,
 eu
 via
 cada
 poesia
 livremente
 –
linha
por
linha,
como
sabia,
do
meu
jeito,
eu
via.
Devo
ao
Púchkin
histórico
da
minha
infância
minhas
mais
inesquecíveis
visões.


Mas
não
posso,
da
minha
pessoa
de
então
e
de
agora,
não
dizer
que
a
pergunta
 nos
 versos
 é
 um
 recurso
 irritante,
 pelo
 menos
 porque
 cada
 por

que
exige
e
promete
um
porque
e
isso
enfraquece
o
próprio
valor
de
todo
o
processo,
 toda
 a
 poesia
 se
 converte
 em
 um
 período,
 concentrando
 nossa
atenção
 para
 o
 objetivo
 final
 exterior,
 que
 o
 poema
 não
 deve
 fazer.
 A
pergunta
insistente
converte
o
poema
em
enigma
com
resposta,
e
se
todo
o
poema
é
em
si
mesmo
um
enigma
e
uma
resposta,
a
resposta
a
este
enigma
não
é
dada,
para
aquilo
que
este
enigma
propõe
não
há
resposta
alguma.



























































131 Citação de “O Banquete de Pedro Primeiro” (VI, vv. 1 e 2). 

 

Mas,
 em
 “O
 afogado”132
 –
 não
 há
 sombra
 de
 perguntas.
 Em
compensação,
 há
 surpresas.
 Em
 primeiro
 lugar,
 aquelas
 crianças,
 ou
 seja,

nós
 que
 brincamos
 sozinhos
 no
 rio,
 em
 segundo,
 nós
 que
 vulgarmente
chamamos
 o
 nosso
 pai:
 papá!
 e
 em
 terceiro,
 nós
 que
 não
 temos
 medo
 de
morto.
 Porque
 elas
 não
 gritam
 amedrontadas,
 mas
 alegres
 e
 até
cantarolando,
assim:
“Papá!
Papá!
Veja
as
nossas
redes!
Elas
trouxeram
até
nós!
Um
morto!”
–
“É
mentira
de
vocês,
capetinhas,
uma
mentira
–
rabujou
o
pai.
–
Ah,
e
ainda
dizer
qu’eu
os
 fiz!
Ora
essa,
vejam
qu’obra:
um
morto!”
Este
 morto‐qu’obra
 era,
 claro,
 um
 pouquinho
 cobra,
 a
 cobra
 que,
 por
 ser
uma
poesia,
era
chamada
de
qu’obra.
Eu
falo:
um
tanto
cobra,
a
cobra
sobre
a
qual
nunca
parei
para
pensar
 e,
 por
 causa
dessa
 imprecisão
 absoluta,
 eu
gritava
 bem
 alto,
 entoando
 assim:
 “Ora
 essa,
 vejam
 qu’obra‐um‐morto!”133
Se
 naquela
 época
 tivessem
 me
 perguntado,
 o
 quadro
 concebido
 seria
aproximadamente
 este:
 na
 terra
 vivem
 cobras
 e
 mortos,
 e
 o
 nome
 deste
morto
é
Qu’obra,
porque
ele
tem
alguma
coisa
de
cobra,
já
que
foi
enterrado
perto
das
cobras.

A
 cobra
 eu
 conheci
 em
 Tarussa,
 em
 Tarussa
 também
 conheci
 os
afogados.
 No
 outono,
 nós
 por
 muito,
 muito
 tempo,
 até
 as
 precoces
 noites
escuras
 e
 até
 as
 tardias
manhãs
 sombrias
 ficávamos
 em
Tarussa,
 na
 nossa
datcha
solitária
–
a
duas
verstas
de
qualquer
habitação
–
tendo
como
único
vizinho
(para
nós
–
bastava
um
minuto
para
descer,
para
eles
–
um
minuto
para
subir)
o
rio
–
Ocá
(“Está
dando
poucos
peixes
no
rio!”),
–
mas,
não
só
os
 peixes,
 porque
 no
 verão
 alguém
 sempre
 se
 afogava,
 quase
 sempre,
 os

























































132 “O afogado” (“Утопленник”, 1928), de Púchkin. 
133 “O afogado” (I, vv. 7 e 8). 

 

meninos
 –
 de
 novo
 engolidos
 pela
 balsa
 –
 e,
 quase
 sempre,
 também
 os
bêbados,
 e,
 quase
 sempre,
 também
 os
 sóbrios,
 –
 e
 uma
 vez
 até
 o
 balseiro
afundou,
e
ali
 também
o
vovô
Aleksandr
Danílovitch134
morreu,
e
mamãe
e
papai
 foram
 para
 a
 missa
 de
 quarenta
 dias135
 e
 lá
 ficaram
 por
 causa
 do
testamento,
e
apesar
de
eu
saber
que
isso
é
pecado
–
porque
o
vovô
gostava
mais
de
mim
do
que
da
Ássia,
e
 tolice
–
porque
o
vovô
nem
sequer
morreu
afogado,
mas
morreu
de
câncer
–
de
câncer?
Só
que:



E
foi
então
que
no
corpo
inchado

Os
cânceres
negros
aferroaram!136




...resumindo,
 através
 da
 porta
 de
 vidro
 da
 sala
 de
 jantar
 –
 nas
 colunas
fantasmagóricas
do
balcão
e
embaixo
delas,
trazendo
todo
o
rio
atrás
de
si:


 Desde
manhã
o
mau‐tempo
braveja

Vem
a
noite
e
a
tempestade
gela,

Chega
então
o
afogado
que
golpeia

Lá
no
portão
e
também
na
janela.137


























































134 Referência a A. D. Mein. 
135 Referência ao ritual da igreja ortodoxa russa de celebrar uma missa após quarenta dias da 
morte de alguém. Em russo, a celebração recebe o nome de sorokovói (сороковой). 
136 Citação dos dois últimos versos da oitava estrofe de “O afogado”. 
137 “O afogado” (VIII, vv. 7 e 8). 

 

O
morto‐qu’obra
com
o
duplo
rosto
do
vovô
Aleksandr
Danílovitch
e
do
balseiro
que
afundou.


Em
compensação,
um
outro
poema
de
terror,
“Vurdalak”138,
não
tinha
nada
 de
 assustador,
 a
 não
 ser
 pelo
 fato
 de
 Vânia
 logo
 se
 revelar
 um
 tanto
covarde
 e
 desde
 a
 primeira
 linha