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diz que u
m
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mbora não
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possa
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upor
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consciente
do músculo m
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E
m
sociologia, quando se fala
e
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da divisão do trabalho
social, esquecendo-se o
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De todos os m
odos, o
s
estudiosos s
upõem que a
história da palavra trabalho se refere à passagem
pré-histórica da cultura da caça e
da pesca para
a
cultura
agrária baseada
na criação de animais
e
n
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plantio. E
m
alemão, por exemplo, a
pala
vra Arbeit deriva do latim a
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v
u
m
,
que quer dizer
terreno arável. Já
a
significação que hoje é dada
a
o
trabalho se refere à passagem m
oderna da cul
tura
agrária
para
a
industrial. Entre
u
m
e
o
utro
desses
m
o
m
e
ntos surgiram
as distinções clássicas
descritas
c
o
m
palavras diversas, c
o
m
o
ocupar-se,
produzir, fazer,
agir, praticar. Talvez possamos
formar
u
m
a
idéia
m
ais clara do que é trabalho se
antes passarmos pela história da experiência que
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sponde.
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viagem e
m
alta
velo
cidade ao longo das diversas épocas da história
das civilizações; ou faça comigo u
m
vôo e
m
grande
altura pelas diversas formas de produção ainda hoje
existentes. Aterrisso n
o
meio da selva amazônica,
n
o
centro de u
m
a
taba de índios ainda s
e
m
contato
c
o
m
a
maneira de
vida
e
cultura dos brancos
ocidentais. Que encontrarei? U
m
grupo de pessoas
ligadas por laços de sangue e sentimentos, moti
vadas por lendas, mitos, crenças e
conhecimentos
c
o
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n
s
,
e
que provêm à sua subsistência por u
m
esforço
coletivo
que
obedece
a
determinada
ordem. De que m
odo sobrevivem? Colhem os fru
tos das árvores; pescam os peixes dos rios; caçam
animais da floresta. Pescam e
caçam o
que der
e vier, segundo sua tradição. Observam os rituais
.
.
.
.
16 SUZANA ALBORNOZ
dos antepassados e fazem a festa onde consomem a
caça e a pesca conseguidas. O que sobrar será
jogado de volta no rio ou será consumido pelo
fogo, que deixa de quando em quando uma clareira
aberta no meio da mata.
O trabalho neste príjneiro estágio da economia
isolada e extratíva é um esforço apenas comple
mentar ao trabalho da natureza: o homem colhe o
fruto produzido pela árvore da mata virgem;
extrai do rio o peixe que sobreviveu ao assalto
das piranhas; mata para comer o animal que se
reproduziu e cresceu dentro de seu grupo sem ne
nhum auxílio além de seus instintos. Não só o
' trabalho em si mesmo apresenta esta forma primi
tiva de complementaridade quase secundária ante|a ação da natureza. Também a economia que o
cerca aparenta uma simplicidade da qual nos esque
cemos em nossas redes de produção modernas. Pois
na tribo não há excedente — nem, portanto, o
problema da acumulação de riquezas nas mãos de
alguns.
Ao que tudo indica, no entanto, nas comuni
dades isoladas o trabalho serve apenas indíreta-
mente à subsistência, é regido por um sistema de
deveres religiosos e familiares. Assim, é precária
1 e relativa a afirmação da simplicidade do trabalho
tribal.
Como ^tágio consecutivo ao das economias
isoladas, temos o tempo em que os homens inven
taram ou descobriram a agricultura. A primeira
O QUÊ 6 TRABALHO
forma de agricultura pode ter sido descoberta ao
acaso. Quando um incêndio de floresta destrõi a
vegetação e expulsa a caça, as pessoas talvez te
nham observado que as sementes cresciam nas
cinzas. Assim tornou-se sistema regular limpar uma
certa área de florestas através da queimada.
Há também a suposição de que tenham sido
as mulheres quem tenha forçado o desenvolvi
mento inicial da agricultura, colaborando para a
superação do nomadismo dos povos caçadores.
Suponha que em determinado momento, esgotadas
a caça e a pesca do lugar, desejando a tribo seguir
adiante em busca de melhores recurws naturais
para sobreviver, algumas mulheres, grávidas ou com
bebê ao colo, tenham-se deixado ficar, negando-se
a partir. Assim teriam sentido a necessidade de
fazer uso do segredo da natureza que se mostrava
nos brotos surgidos das cinzas na clareira depois
da queima. Por isso seria comum encontrar-se em
povos primitivos uma tal divisão do trabalho: as
mulheres plantando, os homens caçando, embora
pesquisas antropológicas mostrem que tal divisão
não ocorre em todas as culturas.
Desenvolvendo a agricultura, a engenhosidade
humana já perturba o equilíbrio da natureza.
Descobrindo no plantio uma nova fonte de ali
mento para si e seus filhos, os homens se multi
plicam. A expansão numérica leva a conquistar
novas áreas de floresta para o cultivo. Como é
necessário muito tempo para restaurar a plena
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terra de pastagens.
Junto
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seja, o
produto
não
imediatamente
consumido.
Criam-se
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m
a
classe social ociosa.
Se eu trabalho esta terra c
o
m
as minhas mãos,
minha aplicação e a força de m
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s
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a sensação de que m
e
pertence o
grão dela colhido,
resultado daquele m
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mpenho e dispêndio de
força. Reivindicarei a posse o
u
o
direito de domí
nio e determinação sobre o
produto deste pedaço
de terra que
cultivei. Do que planto, c
o
m
o
e
alimento meus filhos. E se m
e
sobra alguma coisa,
levo-a para trocar c
o
m
o
vizinho; minha sobra de
milho por sua sobra de trigo o
u
leite de cabra.
Mas se o
vizinho domina u
m
território mais vasto,
e as suas sobras superam as de toda a vizinhança,'
as
nossas trocas se tornam desiguais e
geram
u
m
n
o
v
o
excedente, de o
nde nossas relações se insta
lam n
a
desigualdade.
A
noção de propriedade se presta à polêmica
e
a distinções de
natureza ética. De qualquer
m
odo pode-se compreendê-la se a pensamos ligada
ao trabalho, surgindo da experiência do esforço
no cultivo da terra. Porém, passou-se muito tempo
depois do início da prática do plantio e já se per
deu na memória dos povos o
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estágios posteriores da
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nômica, justamente
se destaca, se separa do
trabalho,
a
ponto de
estabelecer-se
a
desapro
priação
total
de
quem
trabalha
pelo
suposto
direito de propriedade do o
cioso.
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elacionado c
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esta e
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olução da pro
priedade
ede
sua
separação do trabalho foi a
prática da guerra. O
povo conquistado na guerra
freqüentemente permaneceu para trabalhar e
entre
gar seus excedentes aos novos senhores. Ou pela
guerra foram capturados escravos que vieram cons
tituir a
base da força de trabalho, ficando s
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ob
a
categoria
mais baixa da hierarquia
social do povo c
o
nquistador.
Estudando
o
desenvolvimento
e
c
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nômico
da
Antigüidade
e
Idade Média européia, é possível
fazer observações que parecem adequadas ainda a
períodos bem mais recentes da história da América
L
a
tina.
Conforme tempo e
lugar, o
país e
a
época, as
terras podem ser trabalhadas por escravos, servos
o
u
camponeses; e
o
excedente pode ser recebido
por fidalgos independentes ou por funcionários
de
u
m
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monarquia o
u
de u
m
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potência imperia-
lista. Mas as linhas principais das relações e
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militar e
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m
parte para sustentar o
padrão de vida da classe
ociosa. D
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trabalho s
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terra s
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origina a
rique-
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22 SUZANA ALBORNOZ
O desenvolvimento do saber e sua aplicação
tecnológica, e a busca de novas tecnologias levando
a novo conhecimento, é um processo fecundo que
só em parte é desinteressado e lúdico, pois também
é movido por objetivos materiais evidentes. Os
alquimistas buscaram a fórmula do ouro e o
elixir da imortalidade, não só a pedra filosofal.
Os pedreiros medievais desenvolviam alto saber
de estática e dinâmica dos materiais com o fim de
construírem as igrejas góticas, mas não só para
louvor de Deus como também para a sua afirmação
como grupo.
Depois de alguns séculos em que a colonização
dos novos mundos descobertos carreara para a
Europa riquezas consideráveis, e com a aplicação
da ciência à produção, a expansão capitalista gerou
o que se chamou de Revolução Industrial. Desde
o início da era moderna podem-se reconhecer
três estágios de desenvolvimento da tecnologia:
O primeiro, da invenção da máquina a vapor, é
a revolução tecnológica do século XVIII. O segun
do estágio do desenvolvimento da tecnologia mo
derna, no século XIX, se caracteriza pelo uso da
eletricidade, que ainda continua a determinai a
fase atüalUo reino do artifício humano. A automa
ção representa o estágio mais recente da evolu
çâo tecnológica; a invenção do computador, a
revolução industrial do século XX, ou a terceira
onda da Revolução Industrial.
Paradoxal é que no mesmo século em que cons-
- -'^^7
■■■.íí-v:':''. - ■V. .. i:-. -.-. ■ ■■ ■•
. ; V. . Y- •
o QUE É TRABALHO 23
truímos esse instrumento fantástico que é o cére
bro eletrônico, as imensas possibilidades de um
magnífico progresso de conhecimento, fruto de
muito trabalho humano, se vão frustrar em uma
tecnologia destrutiva da natureza e distanciada
da felicidade dos homens. E o que Ernst Bloch —
filósofo marxista judeu-alemão falecido em 1977,
conhecido por sua nova interpretação das utopias
e da esperança dos homens — chama de moratória
da técnica no capitalismo: quando a técnica, da
qual a humanidade esperava a abundância e a feli
cidade, portanto, a paz, se aplica especialmente
à indústria da guerra.
Os primeiros instrumentos da tecnologia nuclear
têm a possibilidade de destruir toda a vida orgânica
da Terra. Mas há quem sonhe também que no
futuro, se até o momento a tecnologia consistiu
em canalizar forças naturais para o mundo do
artifício humano, ela se torne capaz de canalizar
forças universais do cosmo para a natureza da
Terra. A própria condição humana estaria assim se
transformando pelos processos desencadeados
pelo trabalho.
A tecnologia se expande; se nem sempre para
melhor, acumula experiência e possibilidades. Por
outro lado, é velho o sonho dos homens com uma
terra abençoada onde não seja mais preciso traba
lhar. O advento da automação coloca a possibi
lidade de uma humanidade liberta do fardo do tra-
balho, e talvez dentro de algumas décadas as fábri-
24 SUZANA ALBORNOZ
cas pudessem estar vazias. A ociosidade, que tem
sido tomada por privilégio de uma minoria, em
futuro próximo poderia estender-se às grandes
massas. Esta possibilidade não só coloca uma
novidade muito estranha para a meditação e a
ocupação de políticos e economistas, que teriam
de providenciar o modo de sustento de multidões
semi ou inativas, como também traz uma pro
funda questão de ordem existencial para os homens
modernos em geral. Pois a realização do sonho da
humanidade com o direito à preguiça chegaria
quando a era moderna acabou de fazer a glori-
ficação teórica do trabalho. O indivíduo moderno
encontra dificuldade em dar sentido à sua vida se
não for pelo trabalho. Segundo Hannah Arendt —
pensadora alemã que trabalhou e escreveu nos
EUA, e cujo pensamento criativo marca hoje
fortemente a filosofia política — cada vez mais
temos uma alma operária. A sociedade que está
por libertar-se dos grilhões do trabalho é uma socie
dade de trabalhadores, que desconhece outras
atividades em benefício das quais valeria a pena
conquistar aquela liberdade. A possibilidade de
uma sociedade de trabalhadores sem trabalho não
aparece como uma libertação do mundo da neces
sidade, mas como uma ameaça inquietante. As
massas contemporâneas seriam destituídas da
única atividade que lhes resta. Talvez o Brasil possa
aí dar lições ao mundo; carnaval, futebol, roda de
samba; chimarrão, praia, rede e pescaria...
O QUE O TRABALHO ESTA SENDO
O trabalho hoje é um esforço planejado e cole
tivo, no contexto do mundo industrial, na era da
automação
Se nos países do Terceiro Mundo sobram regiões
onde estes fatos parecem ainda realidades distantes,
isto se deve antes à dificuldade que as pessoas têm
para ver os fenômenos por seus sinais precursores,
ou entender as possibilidades que se escondem
por vezes sob a máscara de aparências não trans
parentes.
O capitalismo monopolista da segunda metade
do século vinte invadiu as regiões aparentemente
marginais do Terceiro Mundo. O colonialismo
cedeu lugar a um imperialismcLecpjiôniico indis-
farçavel. Vivemos a épòcá das organizações multi
nacionais. Cada vez mais grandes massas de con-
26 SUZANA AL0ORNO2
temporlneos passam a depender de organizações
e grandes empresas para o seu trabalho. Cada vez
mais deixamos o trabalho autônomo por um em-,
prego na organização, ou mesmo pelo desemprego
ante a organização.
Ao processo moderno de industrialização das
economias nacionais — realidade internacional —
correspondem alguns fenômenos que lhe estão
associados, seja como causa ou conseqüência, ou
apenas como correspondente e fato simultâneo.
^ O crescimento demográfico e a urbanização
são dois acontecimentos registrados pelai esta
tísticas e confirmados pela observação e vivência
mais imediata. Do século XIX para cá, as popu
lações se multiplicaram de forma assombrosa, ao
mesmo tempo que se transferiam em massa do
campo para a^cidades.
Na Europa do ano 1800, eram raras as cidades
de mais dé 20 milj habitantes. Capitais como Paris
contavam então apenas com centenas de milhares
de habitantes. As metrópoles milionárias com as
quais nos acostumamos são um fenômeno intei
ramente _novo. E o Terceiro Mündo é campeão
na multiplicação dos convivas à mesa citadina.
Uma São Paulo de quinze milhões de habitantes
em pouco tempo pode bater um recorde, tornan
do-se um dos formigueiros humanos mais densos,
isto num país como o Brasil, onde grandes exten
sões de terra são completamente inabitadas.
A corrida para as cidades se explica em parte
o QUE E TRABALHO 27
pela natureza do trabalho industrial. Produzir em
série e com o auxílio de máquinas significa produ
zir em centros onde estas máquinas sejam concen
tradas. O artesanato não exige a aglutinação dos
trabalhadores do mesmo modo que o~s1stema
industrial de produção. O homem do campo se
dirige à cidade em busca de emprego nesta produ
ção moderna, que lhe acena com promessas de um
serviço menos arriscado e dependente da natureza
do que o labor no campo, e com possibilidades de
usufruir do bem-estar que as cidades se vanglo
riam de possuir, embora não o ofereçam a todos.
O crescimento notável das cidades em nosso
tempo não se deve apenas ao aumento numérico
da população em geral. O crescimento demográ
fico acontece, sim, a partir das novas conquistas
da área da saúde, que trazem o controle de certas
epidemias e possibilitam a redução da mortalidade infantil, das gestantes, das mães, etc. Ainda
assim, em regiões pobres como em alguns estados
do Nordeste brasileiro, ainda se ostentam números
tristes como o de 200 em cada mil crianças que
morrem antes de atingir os cinco anos de idade.
Mas o crescimento das cidades também se deve
às migrações, à necessidade de emigrar do campo
por falta de uma boa distribuição de terra, ou
à migração movida pela esperança que representa
a integração no mercado de trabalho moderno e
no modo de vida urbano.
A automação da lavoura, sem chances de sobre-
WM
28 SUZANA ALBORNOZ
vivência da pequena propriedade rural muito sub
dividida, continua alimentando o êxodo rural,
irmão gêmeo contemporâneo da chamada explo
são demográfica. Ambos vão de mãos dadas com o
desenvolvimento da indústria capitalista.
O termo expíoãoj^mográfica precisa ser revis
to, pelo menos usado com cuidado. O que real
mente ocorre é o aumento demográfico, uma ele
vação do crescimento populacional, em determi
nado momento do desenvolvimento urbaiio e
industrial moderno. Esta curva ascensjonal da
proporção entre nascimentos e mortes, contudo,
nos países mais industrializados já apresenta a
tendência oposta. Com o desenvolvimento pleno
das condições urbanas de vida nas sociedades
industriais, o número de nascimentos por famí
lia tende a diminuir, e supera-se o excesso demográ
fico sem necessidade de drástico controle da
natalidade pelo poder público. Em países como
Alemanha e França, por exemplo, já desde os
anos quarenta pensam-se políticas de estímulo à
natalidade. Na Alemanha de hoje a cada ano nas
cem menos habitantes do que morrem.
Na América Latina, a concentração de grandes
massas humanas em redor das cidades veio a dar-se
antes mesmo da criação de suficientes lugares
de trabalho na indústria. Também por isso o pro-{
blema do trabalho e da sobrevivência aqui se apre
senta com características muito mais complexas
e dramáticas do que nos países centrais do mundo
/ o QUE É TRABALHO 29
/
ocidental. /
Por muito tempo nossas terras foram reservadas
para alirrientar com matérias-primas, fornecendo
as riquezas do nosso solo, o desenvolvimento
das manufaturas e indústrias nos países da Europa.
Nossos países eram mantidos enquanto colônias
no papel autodestrutivo de monoculturas, grandes
produtores de um único produto, fosse açúcar
ou café.
Nos países centrais do capitalismo, os pólos
fortes do sistema colonial e do imperialismo que
lhe segue, a industrialização pôde ocorrer ao mes
mo tempo, às vezes se antecipando à urbanização.
Foi terrível a situação de exploração da classe
operária na Inglaterra ou na França do século
XIX; mas ela já teve tempo e condições para supe
rar em grande parte aquela situação, e isto muito
com o auxílio do esforço superexplorado da mão-
de-obra dos países subdesenvolvidos, ricos de ouro
— dourado, branco ou preto — e pobres de pão
e escolas.
Nos países europeus menos industrializados no
século XIX — como a Alemanha e a Itália — as
elites dominantes usaram o expediente de expor
tar seus camponeses e artesãos (que sobravam) para
a América, contornando assim o crescimento
gigantesco das cidades.
Nesta altura do século XX, quando se dá a indus
trialização da América Latina, ela se faz tarde: as
cidades já explodiram em milhões de habitantes.
-. •
30 SUZANA ALBORNOZ
Isto sem o recurso à emigração, e sem a acumu
lação de riquezas vindas de colônias, que as colô
nias eram aqui mesmo. As contrário, as riquezas
de nossos países foram continuamente exportadas
para manter o desenvolvimento econômico e social
dos países ricos — de solo mais pobre, mas que
dominam as regras dos mercados mundiais.
É nesse momento da história do trabalho que
nos encontramos. Se há pouco no chamado Ter
ceiro Mundo não havia muitas indústrias, quei
maram-se etapas, e hoje ele entra em plena era da
computação e da informática. O que a moderni
zação, a indústria e a cidade ainda não trouxeram
para os nossos países da América Latina foi a extin
ção da miséria, a saúde do povo, a felicidade das
crianças, a justiça social — coisas que material
mente ela possibilita.
Para manter este estado de coisas em que cada
vez mais pessoas precisam ser acomodadas, ou pelo
menos controladas dentro de uma situação de des
conforto, insatisfação, falta de espaço e de bem-
estar, nada mais evidente que a carência não só
de serviços urbanos cada vez mais numerosos e
amplos, como também da organização e sofisti
cação do controle e da comunicação.
Por tudo isto, além dos aspectos positivos que
possam ter e de fato apresentam os meios de comu
nicação de massas urbanos (de polêmico efeito
cultural), vemos crescer como um polvo a buro
cracia, os órgãos controladores de cada vez mais
o OUE É TRABALHO 31
aspectos da vida humana. Se nos habituamos com
a produção em série de nosso vestuário, de uten
sílios e móveis domésticos, hoje também temos
cada vez mais em série a educação e a saúde. Não
mais só o trabalho se coletiviza: o lazer se torna
um setor de produção industrial.^
Nesta cidade moderna onde se dá o nosso traba
lho, salta aos olhos um dado novo, cujas conse
qüências antropológicas, psicológicas e sociais
ainda não acabaram de ser avaliadas pelos pesqui
sadores. Trata-se da separação entre lugar de traba
lho e lugar de moradia. Enquanto o artesão fazia
o seu sapato, a sua cerâmica, no mesmo recinto em
que convivia com a família, o operário dos grandes
centros da atualidade pode precisar de algumas
horas de locomoção para perfazer a distância entre
o seu bairro operário da periferia urbana e a
fábrica confinada no circuito industrial. Os metrôs
ultra-rápidos podem diminuir o tempo gasto para
vencer grandes distâncias, mas não tornam o lugar
de trabalho mais próximo da casa, da família, do
lugar onde ficam ou ficariam as crianças. Este fato
toca de forma muito especial as mulheres, tradicio
nalmente encarregadas do cuidado e da alimen
tação dos filhos.
E uma ilusão imaginar que o trabalho das mulhe
res seja uma novidade histórica. As mulheres sem
pre trabalharam, e não só em serviços leves. A pre
sença da força de trabalho feminina na agricultura,
no artesanato, não havia levado ao mesmo questio-
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sanato era ligada à pretensão de m
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a idéia era fazer apenas sapatos para fazer sapatos
bons.
Na
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a especialização chega a um
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da atividade em
que o seu esforço se insere.
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Por outro lado, produtor e produto estão sepa-
! rados. Se eu pinto o pára-choque m
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trinco ou o pára-choque vão exercer suas funções.
Certamente serei
incapaz de reconhecer aquele
trinco, aquele pára-choque, no salão de exposições
em que dezenas de fuscas azuis ou vermelhos
esperam
com
prador.
Quando eu era uma costureira que fazia roupas
artesanais para a comunidade da vizinhança, talvez
tivesse já uma influência na escolha do modelo
do vestido; recomendaria a fazenda, o estampado;
levaria em conta o tipo físico da pessoa que vestiria
a minha pequena obra. Esta é uma terceira ali^
nação a que está submetido o trabalho na má
quina industrial: há um corte entre produtor e
consumidor. Não sei mais para quem se dirige o
fruto do meu esforço e habilidade. Produzo para
um mercado anônimo. A costureira que coloca os
zfperes nas calças de brim apenas sabe que este
tipo de calças é usado tanto por homens como
por mulheres, na cidade com
o no campo, nos
centros ricos do planeta como nas regiões mais
pobres, nas classes médias, na burguesia, no prole
tariado, ou por pessoas velhas e jovens. Talvez
algum detalhe lhe permita prever aproximadamente
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biente social que consum
irá aquela roupa.
Mas está longe do conhecimento de sua colega
artesã, que conhecia pelo nome a cliente que
servia, e podia depois observar como ela desfilava
com
o seu vestido novo na festa da paróquia.
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A alienação objetiva do homem do produto e
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do processo de seu trabalho é uma conseqüência da
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38 SUZANA ALBORNOZ O QUE É TRABALHO 39
independente da pessoa, que é bem aleatório quem
o faz, e se quem trabalha faz bem o que faz ou nâo.
Basta que saiba submeter-se ao todo, mantenha os
laços, as passagens, o fluxo do processo mesmo,
com o mfnimo de interferência criativa. Ou apenas
com aquela criatividade que permite inovar para
melhorar o fluxo do processo, e enfrentar momen
tos em que o processo esteja dificultado, resol
vendo estas crises.
Comparando o trabalho na organização com o
modelo artesanal de trabalho, é fácil perceber
também a perda do aspecto lúdico.
No modelo artesanal, peto menos no plano
ideal, se o artesão trabalha de modo autônomo,
pode interromper sua aplicação ao ofício no
momento em que sente carência de descanso.
Terá algum prazer em fazer com arte um trabalho
que domina em todo o processo e que sabe fazer
bem. Fará alguns minutos de lazer para uma cami
nhada até o fundo do quintal ou para uma conversa
com o vizinho por cima do muro, sempre que o
corpo ou a mente o exigirem. No trabalho em
equipe, na fábrica como na burocracia, mas princi
palmente na linha de montagem, que não pode
parar, sob a pressão do controle da produtividade
e qualidade, e o afã do lucro, não pode ser inter
calado nenhum lazer com a aplicação atenta e des-
gastante a um mesmo gesto, uma mesma operação
especializada. Não há, assim, condições para
introduzir-se nenhum prazer no tempo de trabalho.
mesmo que a ideologia atual e os departamentos
de psicologia encarregados do pessoal das fábricas
muitas vezes se esforcem por dourar a pílula com
música ambiental nos salões e escritórios.
No artesanato, o trabalho não obedece a ne
nhum motivo ulterior além da fabricação do pro
duto e dos processos de sua criação: a esperança
de fazer um bom trabalho, realizar um produto, e
a arte de fazê-lo. Os detalhes do trabalho coti
diano são significativos, não estão separados do
produto do trabalho. O trabalhador é livre para
organizar seu trabalho, quanto ao plano, começo, '
forma, técnica e tempo. Ao trabalhar, o artesao
pode aprender e desenvolver seus conhecimentos e
habilidades; o seu trabalho é um meio de desen
volver habilidades. Não há separação entre trabalho
e divertimento, trabalho e cultura. Mesmo que
divertimento seja definido como atividade gratuita,
feita pela satisfação, válida em si mesma, e o tra
balho vise a criação de um valor econômico, uma
utilidade e a remuneração.
O modo de subsistência do artesão determina e
impregna todo o seu modo de viver. Seus amigos
são os seus colegas. Suas conversas são sobre a sua
profissão. Não há necessidade de lazer como eva
são. O trabalho hoje é uma espécie de negativo
daquele artesanal, ou o seu oposto. No mundo
industrial falta o vínculo entre o trabalho e o resto
da vida. Para agir livremente deixa-se o tempo que
sobra do trabalho. Assim se separa totalmente
m:ã
40SUZANA ALBOR.VOZ
n V-
trabalho de lazer, de prazer, de cultura, de reno
vação das forças anímicas, que deverão ser bus
cadas no tempo que sobrar do trabalho.
A separação de trabalho e prazer parece coerente
com o desenvolvimento de um tipo de lazer pas
sivo, do tipo da entrega do telespectador que não
analisa, não critica, não discute sobre as novelas
da TV. Como o outro lado da moeda, nos modos
de vida mais americanizados, inventou-se o hobby,
aquela atividade que se faz porque se gosta, nas
horas vagas daquele trabalho sem satisfação e
! extenuante. Esta é uma espécie de compensação
^que o sistema permite, de modo que não se queira
transformar o mundo do trabalho que eficien
temente continua adar lucros a seus donos,
j Chegamos assim a uma das características mais
decisivas do mundo do trabalho em que vivemos,
' e que é a sua submissão ao capital, aos interesses dos
I capitalistas e dos proprietários. Este é um ponto
chave das determinações do trabalho neste sistema.
A força de trabalho é dada como uma mercadoria.
Do esforço do operário é extraído um valor que
deixa uma sobra aos interesses do capital, pois o
salário do operário fica muito aquém do valor que
ele cria para o mercado. Com base nesta sobra de
valor alienada do produtor se criam novos setores
de atividade não propriamente produtiva, e se
reproduz o capital. Também a classe média tem
como fonte última de seu sustento este valor
produzido pelo trabalhador industrial e que não
O QUE É TRABALHO4 1
lhe é devolvido; a mais-valia.
Em seus conflitos nas democracias burguesas,
o equilíbrio entre capital e trabalho tem-se feito
por meio de um tripé de poder em que a pressão
dos sindicatos obreiristas se opõe à força constran
gedora do capital, tendo como terceiro termo um
Estado não inteiramente autônomo, mas não intei
ramente confundido com a classe dona da terra e
das fábricas. Em países como o Brasil, esse Estado
— a lei, o governo e sua burocracia — não se distin
gue suficientemente dos interesses capitalistas; o
Estado se apresenta como instrumento quase
perfeito dos interesses do capital, e os operários
se encontram como única força ante o poder
oposto coeso.
Em muitas situações e momentos da sociedade
contemporânea o trabalho e sua ideologia se tor
nam instrumentos de submissão política. O mundo
é domesticado pela submissIoLâp trabalho. Reduz-
se à esfera pública, o âmbito^ã~~discussão dos
problemas comuns. As pessoas se percebem como
alegres robôs que não têm efetivo poder de decisão
sobre o mundo em que trabalham. Todas as ativi
dades são feitas como labores pela sobrevivência.
Tem-se como utopia, no sentido de impossível,
que o trabalho seja expressão, ou que se possa
ter um trabalho criativo e que dê prazer. Abando
na-se a pretensão do artífice, do artista. O labor
invade o mundo do trabalho, que os meios de
comunicação de massas mantêm, enquanto mani-
pulam o
desejo e criam necessidades de consumo,
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que
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podem
estar
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obre o
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apresentação,
porém, por
mais
breve que
seja, da história dos preconceitos, o
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idéias,
s
obre
determinada
área
da
experiência
humana
e
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n
o
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cultura, deve
procurar
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a
Grécia, e
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mbém
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ção judaico-cristã.
Os gregos distinguiam entre o
esforço do traba
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terra, a
fabricação do artesão que serve a
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