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Curso de Pós-Graduação em
Docência Superior
Dharana Ventura Cavalheiro
NOVA ESTRUTURA CURRICULAR PARA O ENSINO
SUPERIOR DE TECNOLOGIA
Monografia apresentada à
AVM Faculdade Integrada
como exigência parcial à obtenção
do título de Especialista em Docência Superior
Sob a orientação
da Professora Ms. Aline Sampaio de Oliveira
Rio de Janeiro–RJ
2015
Dedico esse trabalho ao meu Avô, Valentim Ventura Filho (In Memoriam). Mestre,
Poliglota, Autodidata com três formações superiores, crescido na extinta FEBEM,
filho mulato de escrava alforriada. Ser humano íntegro e genial, que lecionou para
detentos de um presídio no Rio de Janeiro, para a juventude “Tijucana”, e em seu
próprio Curso Preparatório. Homem de bem que me inspirou na busca incessante
pelo conhecimento, que me ensinou que através do saber a aprender nós
podemos evoluir e, principalmente, ajudar a todos.
AGRADECIMENTOS
Agradeço ao meu marido Márcio e minha mãe Nena, aos meus três amados filhos, Pedro,
Lucas e Mariana, por compreenderem minha ausência e me apoiarem.
Aos Mestres que me auxiliaram no processo de aprendizagem deste curso e
especialmente a Mestre Anna Maria Napoli pela sua dedicação, compreensão e auxílio
em todos os momentos, tornando o curso EAD com a sensação de presencial.
Ao meu eterno Mestre de graduação, Antônio Junior, por ser uma inspiração em
docência, conhecimento e humanidade.
Aos colegas professores e alunos que participaram das minhas pesquisas e
questionários, colaborando com boa vontade mesmo com a vida atribulada de tarefas.
Ao Universo que conspirou ao meu favor e ao Nosso Criador Deus e seu filho, Mestre
Jesus.
EPÍGRAFE
“A tarefa não é tanto ver aquilo que ninguém viu, mas pensar o que ninguém ainda
pensou sobre aquilo que todo mundo vê”. (Arthur Schopenhauer)
RESUMO
Este trabalho tem o objetivo de promover a reflexão sobre uma nova estrutura curricular
organizada por meio de situações reais no ensino superior tecnológico, como uma forma
de contribuir para o aumento do interesse do aluno adulto, e gerar valor para nossa
sociedade que anseia por melhores condições de vida e credita na educação a
responsabilidade de resolver essas questões. Levou-se em consideração a evolução
histórica, conceitos básicos sobre currículo, teorias curriculares, transdisciplinaridade,
andragogia, bem como a atuação docente no processo de ensino-aprendizagem e fatores
mercadológicos da profissão, que foram apresentados através de aprofundamento
teórico desta pesquisa. Utilizou-se a metodologia de pesquisa qualitativa através de
coleta de dados, observação e questionário estruturados com o portal de internet
SurveyMonkey.
Palavras-chave: Ensino Superior Tecnológico, Organização Curricular,
Transdisciplinaridade, Andragogia.
ABSTRACT
This work aims to promote reflection on a new curricular structure organized through real
situations in higher technological education, as a way of contributing to the increased
interest of the learner, and create value for our society that longs for better conditions life
and credits in education a responsibility to address these issues. It took into account the
historical development, basic concepts about curriculum, curriculum theories,
transdisciplinary, andragogy and the teaching practice in the teaching-learning process
and market factors of the profession, which were presented through theoretical
development of this research. We used the qualitative research methodology through data
collection, observation and questionnaire structured with SurveyMonkey.
Keywords: Technological Higher Education, Curriculum Organization,
Transdisciplinarity, Andragogy
Lista de Ilustrações
Figura 1 Escola .............................................................................................................. 25
Figura 2 Aluno ................................................................................................................ 25
Figura 3 Professor .......................................................................................................... 26
Figura 4 Ensino Aprendizagem ...................................................................................... 26
Figura 5 Percentual de Docentes por Rede de Ensino .................................................. 45
Figura 6 Percentual de Docentes favoráveis ao Tema ................................................... 46
Figura 7 Área de Conhecimento ..................................................................................... 46
Figura 8 Fatores que podem motivar o Aluno ................................................................ 50
Figura 9 Cursos dos Entrevistados ................................................................................ 51
Lista de Tabelas e Quadros
Quadro 1 Características das Teorias Curriculares ........................................................ 20
Quadro 2 Princípios Básicos da Andragogia (Wikipedia, 2015) ..................................... 28
Quadro 3 Pedagogia x Andragogia ................................................................................ 28
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................................................... 9
CAPÍTULO 1 CURRÍCULO ........................................................................................ 13
1.1 Evolução Histórica ............................................................................................. 14
1.2 Teorias Curriculares .......................................................................................... 15
1.3 Componente Curricular e Disciplinaridades ...................................................... 20
CAPÍTULO 2 ANDRAGOGIA E HEUTAGOGIA ......................................................... 24
2.1 Processo de Ensino Aprendizagem .................................................................. 24
2.2 Andragogia e Heutagogia .................................................................................. 27
2.3 Relação com uma nova estrutura Curricular ..................................................... 30
CAPÍTULO 3 ATUAÇÃO DOCENTE ......................................................................... 32
3.1 A Ação Docente ................................................................................................ 32
3.2 Tecnologia atual ................................................................................................ 34
3.3 Motivação e Aprendizagem ............................................................................... 35
3.4 Mercado de Trabalho ........................................................................................ 36
CAPÍTULO 4 ORGANIZAÇÃO CURRICULAR POR MEIO DE SITUAÇÕES ............ 38
4.1 Fatores para nova estrutura .............................................................................. 38
4.2 Legislação ......................................................................................................... 40
4.3 Tendências Atuais ............................................................................................. 42
4.4 Apresentação da Coleta e Análise de Dados da Pesquisa ............................... 44
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 52
REFERÊNCIAS .............................................................................................................55
ANEXO A ............................................................................................................. 66
ANEXO B ............................................................................................................. 67
ANEXO C ............................................................................................................. 69
9
INTRODUÇÃO
Tema
Nova Estrutura Curricular para o Ensino Superior de Tecnologia permeada de ação
humana e princípios éticos promovendo o interesse do educando em aprender e inovar
tendo como mediador o docente que o respeite como indivíduo único e em formação.
Problema
É possível despertar o interesse do educando do curso superior de tecnologia em
aprender e inovar, através de uma nova estrutura curricular organizada por meio de
situações reais, a fim de gerar valores para a sociedade em que vive?
Objetivos
Objetivo geral
Propor uma nova estrutura curricular para o Ensino Superior Tecnológico,
trazendo à reflexão o confronto entre a estrutura curricular tradicional, organizada
por disciplinas e uma nova estrutura curricular, organizada por meio de situações.
10
Objetivos específicos
Apresentar evolução histórica, conceito e teorias acerca de Currículo e identificar
fatores que justifiquem a necessidade de reorganização curricular.
Entender o processo de ensino-aprendizagem em adultos através do conceito de
Andragogia e Heutagogia relacionando-os à aplicação de uma nova estrutura
curricular para promover o sucesso do discente.
Verificar como o professor universitário pode aplicar positivamente um novo
modelo de currículo, formando egressos capazes de agregar inovação e
transformação para sociedade atual.
Demonstrar um modelo de estrutura curricular baseado em educação por meio de
situações de acordo com estudos realizados e aplicados em outros países e no
Brasil, considerando a legislação vigente e os Planos Nacionais de Educação.
Justificativa
Este estudo foi originado através de experiências pessoais, durante minha trajetória
acadêmica e profissional e o desejo latente de ser um indivíduo transformador capaz de
fazer a sua parte para mudar o mundo através da paz, compreensão e amor. Diante das
observações realizadas, concluí que no decorrer do período acadêmico as dissociações
entre o ensino e a realidade e fragmentação das disciplinas, dificultam o processo de
aprendizagem do educando e não conseguem promover o interesse em aprender. E,
quando egressos, chegam a seus primeiros empregos, com conteúdo teórico e ações
humanas deficientes, com um grande abismo em relação à realidade profissional que
11
acabam, por vezes, conduzindo suas carreiras de forma insatisfatória e sem inovações
para a sociedade. Compreender a problemática, contextualizá-la e propor uma nova
estrutura curricular considerando conceitos de “inter” e “transdisciplinaridade” para
produzir conhecimento e formação aos discentes de forma que possam transformar,
positivamente, nossa sociedade é objeto deste estudo. Também pretendo promover a
reflexão sobre o conceito de educação como mercadoria como fator impeditivo para uma
nova proposta para estrutura curricular do ensino superior tecnológico, que possibilite aos
alunos aprenderem a pensar de forma crítica sobre a sociedade atual através de valores
humanos, éticos e pacíficos.
Entende-se que este estudo tem legítima importância para a comunidade acadêmica do
ensino superior tecnológico e para a sociedade. Trazendo à reflexão o confronto entre a
estrutura curricular convencional e uma nova estrutura curricular, por meio de situações.
Espera-se que uma reorganização curricular pautada em conceito interdisciplinar e
transdisciplinar possam agregar inovação e habilidades cognitivas e emocionais, à
formação dos educandos. Portanto, percebe-se uma oportunidade sintonizada às
demandas sociais, econômicas e culturais.
Metodologia
Com base na afirmação de Flick (2004), a abordagem teórica qualitativa pode ser
sintetizada em três posturas referentes à forma de compreensão do objeto de estudo e
foco metodológico: o estudo dos significados atribuídos às atividades e ambientes pelos
indivíduos; a elaboração das realidades sociais; e as posturas estruturalistas ou
psicanalíticas, que partem de processos do inconsciente psicológico ou social.
O estudo desta pesquisa qualitativa deve estar centrado no problema e contextualizado
não só nos resultados extraídos dos acontecimentos cotidianos, mas principalmente na
literatura produzida sobre o tema Currículo na Educação.
Utiliza-se, nesta pesquisa, a observação do comportamento que ocorre naturalmente no
âmbito real e perguntando às pessoas sobre o seu comportamento e seus estados
12
subjetivos diante do problema da pesquisa, através de questionários voltados aos
docentes e discentes de cursos de Ensino Superior Tecnológico.
A pesquisa terá como base os estudos realizados por Alice Lopes, Willian Pinar. Tyler,
Antônio Flávio Moreira, W. H. Schubert sobre Currículo e suas Teorias, Ivani Fazenda
sobre Interdisciplinaridade, José Carlos Libâneo e Ubiratan D'Ambrosio sobre
Transdisciplinaridade, Malcolm Knowles sobre Andragogia, Paulo Freire sobre
Pedagogia e Claudio Romualdo a respeito de aprendizagem e educação, entre diversos
outros autores estudiosos do tema.
13
CAPÍTULO 1 CURRÍCULO
Propor uma nova estrutura curricular para o Ensino Superior de Tecnologia que sugira
um modelo organizado por meio de situações reais, aproximando a construção do
conhecimento da vida real de forma a despertar no aluno interesse legítimo pela
aprendizagem, é um grande desafio, porém, é factível de acordo com a expressão: “A
reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação Teoria/Prática”
(FREIRE, 2007, p. 22), logo a prática deve ocorrer no estado real dos acontecimentos.
A importância que embasa o objeto desta pesquisa está no fato de que é necessidade
universal o estudo do problema em motivar e aumentar o interesse do aluno do Ensino
Superior de Tecnologia, visto que a atual estrutura curricular ainda promove a distância
entre teoria e a prática ao apartar a aprendizagem da realidade em que vive o indivíduo.
Na educação de adultos, o currículo deve ser constituído em função da
necessidade do estudante. A fonte de maior valor na educação de adultos é a
experiência do aprendiz. Se a educação é vida, vida é educação; portanto, a
aprendizagem consiste na substituição da experiência e nos conhecimentos da
pessoa... (ROMUALDO, 2002, p.110).
Partindo desta citação, podemos entender que a educação do adulto deveria se dar por
meio de situações e não por disciplinas. E por ser sujeito deste estudo o aluno adulto,
observa-se que na educação superior podemos fazer uso do conceito de andragogia,
pois
.... Fornecem ao adulto a possibilidade de escolher o que quer aprender e de que
forma, e isso é essencial no panorama de hoje. Afinal, o foco nas reais
necessidades de aprendizado se tornou menos óbvio diante de milhares de
possibilidades de acesso a qualquer tipo de conteúdo... (KNOWLES, 2011, p.13).
É importante demonstrar o conceito de que ensinar exige apreensão da realidade
(FREIRE, 1996, p.41), e que, através de uma estrutura curricular moldada pela realidade
e necessidade do egresso, tem-se a oportunidade de construir conhecimento e cidadãos
inovadores e transformadores para nossa sociedade.
Partindo do conceito de “Currículo” através da sua evoluçãohistórica, é possível perceber
que seu conceito se modifica de acordo com o momento histórico e as dimensões sociais,
14
políticas, econômicas e culturais da sociedade em cada período, formulando teorias que
serão descritas neste capítulo.
1.1 Evolução Histórica
Etimologicamente, o termo Curriculum, do Latim, significa caminho, percurso, trajeto, que
segundo Goodson (1995, p.7), deriva da palavra latina currere, que significa correr,
porém o currículo é tratado, neste estudo, no âmbito educacional e por isso considera-se
pertinente o que diz Sacristan (1999, p.36) sobre a definição de currículo como sendo
Um projeto seletivo de cultura, cultural, social, política e administrativamente
condicionado, que preenche a atividade escolar e que se torna realidade dentro
das condições da escola tal como se acha configurada” e ainda como “ligação
entre a cultura e a sociedade exterior à escola e à educação; entre o
conhecimento e cultura herdados e a aprendizagem dos alunos; entre a teoria
(idéias, suposições e aspirações) e a prática possível, dadas determinadas
condições (SACRISTAN, 1999, p.61).
Imergindo na história, no século XIII não existia organização curricular, o ensino possuía
base religiosa e “teriam que ser a eles impostos por um processo de rígida disciplina”
(SCHUBERT, 1986, p. 61). A partir do século XIV até o século XVII, passa-se a
considerar, também, as experiências de vida e a observação dos acontecimentos para
compor o currículo de ensino. No final do século XVIII, a Fé é substituída pela Razão,
pelo estudo científico e pela experiência, que perdura até o final do século XIX, quando
inicia uma nova mudança que culmina no século XX, com movimentos Tecnicistas e
Progressistas, provocando a ruptura com o conceito de currículo humanista do início do
século XIX. Segundo Silva (1999, p.24), na concepção de Bobbitt, O precursor do
Movimento Tecnicista,
A questão do currículo se transforma numa questão de organização. O currículo
é simplesmente uma mecânica. A atividade supostamente científica do
especialista em currículo não passa de uma atividade burocrática. (...) o currículo
se resume a uma questão de desenvolvimento, a uma questão técnica. O
estabelecimento de padrões é tão importante na educação quanto, digamos,
numa usina de fabricação de aços, pois, de acordo com Bobbitt, a educação, tal
15
como a usina de fabricação de aço é um processo de moldagem (SILVA, 1999,
p. 24).
Nesse cenário, Ralph Tyler, seguindo os pressupostos de Bobbitt, tem caráter
determinante na definição do que conhecemos sobre currículos hoje, pois possuía como
princípio, os objetivos comportamentais para atender as necessidades de
desenvolvimento econômico de base industrial. Observa-se na obra de Tyler (1977), uma
preocupação com o desenvolvimento social e melhor qualidade de vida, porém “não
reflete a necessidade de criação de uma sociedade que não seja capitalista”, de acordo
com Moreira (1990, p.54). É possível perceber através de Tyler (1977) que o objetivo
inicial da organização por disciplinas, com o aprendizado hierarquizado em series,
desconsiderando a individualidade do ser, era atender a necessidade de preparar em
menor tempo visando fatores econômicos e esse movimento perdura até meados dos
anos 80, inclusive no Brasil.
Após esse período, surgem vários grupos baseados nos movimentos relacionados à
igualdade das mulheres, dos negros, dos homossexuais entre outros, considerados como
“minoria” que trazem o tema Currículo a uma nova discussão que visava a necessidade
de que este fosse “voltado aos problemas sociais, econômicos e políticos da realidade
que refletisse uma sociedade menos capitalista” (GESSER, 2002, p.75).
Observa-se que muitas mudanças curriculares ocorreram ao longo da história e mais uma
vez vive-se um momento de transformação social, cultural e econômica e essa síntese
de revisão histórica do currículo, sugere que é possível uma nova estrutura curricular
para o Ensino Superior Tecnológico, visto que está em constante busca de adequação à
melhores condições de ensino, de qualidade, de política e de vida.
1.2 Teorias Curriculares
16
Durante a evolução histórica do tema currículo, pode-se identificar a definição de três
teorias: a Teoria Tradicional, apresentada por Bobbitt e Tyler, a Teoria Crítica que é vista
através de Freire e Bernstein com a definição de currículo oculto, Pinar enfatizando “os
significados subjetivos que as pessoas dão às suas experiências pedagógicas e
curriculares” (SILVA, 1999, p. 38), Saviani que inicia a crítica da crítica, realizando
aprofundamento dos estudos de Freire entre outros e a Teoria Pós Crítica, estudada e
apresentada por Moreira, Tomas Tadeu da Silva, Focault e Michael Young.
1.2.1 Teoria Tradicional
A Teoria Tradicional é tendência durante o início do período histórico do currículo até o
início do século XX e têm como principais referências Bobbitt e Tyler com seu modelo
tecnocrático e John Dewey com seu modelo progressista.
Para Tyler (1977) a finalidade da educação era definida pelas exigências profissionais da
vida adulta, a organização do currículo era feita por especialistas, consolidando as ideias
de Bobbitt. Tyler (1977) centrava o currículo de ensino em quatro questões básicas no
processo de construção curricular, sendo elas:
Objetivos: Que objetivos educacionais a escola deve procurar alcançar?
Experiências: Como selecionar experiências de aprendizagem que possam ser
úteis na consecução desses objetivos?
Eficiência: Como podem ser organizadas as experiências de aprendizagem para
um ensino eficaz?
Avaliação: Como se pode avaliar eficácia de experiências de aprendizagem?
17
De acordo Tyler, o papel do professor na elaboração do currículo, se restringe a atuar no
que foi definido pelas comissões revisoras especiais, sendo a elaboração do currículo
empreendida para uma só disciplina, por um determinado professor (1977, p.119). É com
base nessa teoria que a seleção do conteúdo do currículo é determinada por quem detém
o poder e é tratada como verdade absoluta, onde o professor transmite conhecimento e
o aluno apenas o absorve.
No modelo progressista de John Dewey, a educação, a filosofia e a ordem social
constituem um todo indissociável (DEWEY, 1938). Dewey assume que através da
experiência se adquire o conhecimento, porém nem toda experiência adquirida resulta
em um aprendizado positivo, logo é possível perceber que uma experiência
eventualmente poderá resultar em desmotivação. Ainda segundo Dewey a organização
curricular deve ter dois princípios básicos: primeiro a experiência como aspecto do
aprendizado, e segundo que as experiências são progressivas, pois a partir de uma se
adquire um entendimento elevado que permite que uma posterior mais complexa seja
possível de ser entendida e analisada, portanto as matérias anteriores devem se conectar
com as posteriores através da conexão das experiências (DEWEY, 1938).
Observa-se neste modelo que por ser centralizado, não abrange em sua totalidade a
diversidade sócio cultural.
1.2.2 Teoria Crítica
A Teoria Crítica surge como fator de desconfiança, questionamento e transformação, é
antagônica a Teoria Tradicional e é comumente associada à Escola de Frankfurt,
abordando a educação como caminho para eliminação da desigualdade social de acordo
com Saviani (2007). Horkheimer determina que a teoria crítica
18
Tem como objeto os homens como produtores de todas as suas formas históricas
de vida. As situações efetivas, nas quais a ciência se baseia, não sãopara ela
uma coisa dada, cujo único problema estaria na mera constatação e previsão
segundo as leis da probabilidade. O que é dado não depende apenas da
natureza, mas também do poder do homem sobre ele. Os objetos e a espécie de
percepção, a formulação de questões e o sentido da resposta dão provas da
atividade humana e do grau de seu poder. (HORKHEIMER, 1968, p.163)
A teoria crítica, utiliza-se de pressupostos do Marxismo para justificar o funcionamento
da sociedade e nesse aspecto a preocupação de seus defensores está centrada em
entender a cultura como elemento de transformação da sociedade. Outro fator é a
utilização da psicanálise para explicar a formação do indivíduo, pois de acordo com
Gesser (2002, p.78), “Apple em seu livro Ideologia e Currículo (1979) define o currículo
oculto em termos do conceito de hegemonia e o vincula como o resultado da transmissão
social e política do status quo”, ou seja, as disciplinas setoriais desviam a compreensão
da sociedade como um todo sendo então submetidos à razão instrumental. Nesse
contexto, Freire defende a dialética que se dá no sentido de entender os fenômenos
estruturais da sociedade.
Logo, tem-se Pedagogia Crítica ou Radical conectada com movimentos de justiça social,
uma filosofia educacional descrita por Henry Giroux (1986) como um "movimento
educacional, guiado por paixão e princípio, para ajudar estudantes a desenvolverem
consciência de liberdade”. Na Teoria Crítica, Freire representa um dos mais influentes
educadores críticos e em seus textos defende a habilidade dos estudantes de pensar
criticamente, o que os permite “reconhecer conexões entre seus problemas individuais,
experiências e o contexto social em que eles estão imersos” (FREIRE, 1985, p.35). Para
Freire, “a práxis envolve o engajamento em um ciclo de teoria, aplicação, avaliação,
reflexão e de volta à teoria” (FREIRE, 1984, p.125).
Assim diante deste estudo, na Teoria Crítica do currículo sugere que este deve estar
comprometido com a formação de consciência crítica na busca por sentidos para a
aprendizagem na experiência histórica e no compromisso político com a transformação
social.
19
1.2.3 Teoria Pós Crítica
A Teoria Pós Crítica, também chamada de crítica da crítica, tem em sua discussão fatores
que vão além da desigualdade social, pois “passa a dispor das dimensões de gênero,
raça, etnia, sexualidade” (SILVA, 1999, p.16).
Segundo Michel Foucault (1979), um dos estudiosos da Teoria Pós Crítica, "todo sistema
de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos
discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo”. Foucault é
extensamente estudado por Moreira e por Silva, que no campo curricular destaca “o
abandono das grandes narrativas; a descrença em uma consciência unitária,
homogênea, centrada; a rejeição da ideia de utopia; a preocupação com a linguagem e
com a subjetividade; a visão de que todo o discurso está saturado de poder; a celebração
da diferença” (MOREIRA, 2001, p. 10). Questionando estes pressupostos, Young (2010,
p. 73) argumenta que, “ao reduzir o conhecimento a pontos de vista particulares, o pós-
modernismo segue uma lógica redutora que polariza o conhecimento dominante contra
as vozes ausentes ou silenciosas que este exclui”. Percebe-se então, que o cerne da
questão está no poder, que não tem mais um único centro, está espalhado por toda a
rede social.
É possível verificar na literatura que existem fundamentos que são contrários, de acordo
com Alice Lopes quando afirma que “não apenas existem diferenças entre os focos dos
vários estudos pós-críticos, mas também há registros teóricos nessas vertentes que se
opõem entre si” (LOPES, 2013, p.11). Lopes representa a concepção de transformação
social através da política de currículo quando afirma que a “transformação social como
um projeto do currículo é pensada considerando que a política de currículo é um processo
de invenção do próprio currículo e, com isso, uma invenção de nós mesmos” (LOPES,
2013, p.21).
20
Para visualizar os conceitos das teorias citadas, tem-se um quadro adaptado e elaborado
a partir da lista de conceitos identificados por Silva (1999, p.12). Para Silva é a
característica “poder” que separa as teorias tradicionais das teorias críticas e pós-críticas
do currículo.
Quadro 1 Características das Teorias Curriculares
TEORIAS TRADICIONAIS TEORIAS CRÍTICAS TEORIAS PóS.CRíTICAS
ensino ideologia identidade, alteridade, diferença
aprendizagem reprodução cultural e social subjetividade
avaliação poder significação e discurso
rnetodologia classe social saber-poder
didática capitalismo representação
organização relações sociais de produção cultura
planejamento conscientização gênero, raça, etnia, sexualidade
eficiência emancipação e libertação multiculturalismo
objetivos currículo oculto
resistência
Fonte: Adaptado de Silva 1999, p.16/17.
1.3 Componente Curricular e Disciplinaridades
Disciplinaridade é apresentada neste estudo, como componente curricular, cujo
significado etimológico é a soma de disciplinas. O objetivo é compreender sua
importância e contribuir para reflexão sobre uma nova estrutura curricular. Entende-se
que é necessário conhecer o conceito das dimensões multi, pluri, inter e trans, que
determinam a interação entre as áreas de conhecimento ou campos de saber. A respeito
de disciplinaridades, tem-se a afirmativa de Olga Pombo, quando diz que
21
A palavra é, pois, ampla demais, que está a ser banalizada, aplicada a um
conjunto muito heterogéneo de situações e experiências. E esta utilização
excessiva gasta a palavra, esvazia-a, tira-lhe sentido (POMBO, 2004, p.5).
Por tanto, de acordo com Pombo, não é possível apresentar uma definição precisa,
porém apresenta de forma etimológica o seguinte pressuposto em relação aos termos
Multidisciplinaridade, Pluridisciplinaridade, Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade:
Disciplinas que se pretendem juntar: multi, pluri, a ideia é a mesma: juntar muitas
pô-las ao lado uma das outras. Ou então articular, pô-las inter, em inter-relação,
estabelecer entre elas uma acção recíproca. O sufixo trans supõe um ir além,
uma ultrapassagem daquilo que é próprio da disciplina (POMBO, 2004, p.5).
Na tentativa de facilitar a compreensão, Pombo ainda categoriza esses termos em três
níveis,
O primeiro é o nível da justaposição, do paralelismo, em que as várias disciplinas
estão lá, simplesmente ao lado umas das outras, que se tocam, mas que não
interagem. Num segundo nível, as disciplinas comunicam umas com as outras,
confrontam e discutem as suas perspectivas, estabelecem entre si uma
interacção mais ou menos forte; num terceiro nível, elas ultrapassam as barreiras
que as afastavam, fundem-se numa outra coisa que as transcende a todas
(POMBO, 2004, p.6).
Diante do exposto por Pombo, consegue-se verificar que apenas a Transdisciplinaridade,
por seu caráter de “ir além” e de “fundir-se numa outra coisa” atende a perspectiva de
uma nova estrutura curricular por meio de situações, sem disciplinas. A afirmativa ocorre
porque, de acordo com os textos de Pombo (2004, p.10), “A ciência começa a aparecer
como um processo que exige também um olhar transversal... assim sendo, a
interdisciplinaridade... É qualquer coisa que se está a fazer quer nós queiramos ou não”,
por isso torna-se cabível conhecer um pouco mais sobre esses dois termos.
1.3.1 Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade
De acordo com Mariana José, Lenoir (1998) categoriza a interdisciplinaridade a partir de
“quatro finalidades:científica, escolar, profissional e prática, que são organizadas a partir
22
dos objetivos que se deseja atingir”. Desta forma, por tratar-se do tema relacionado à
educação, entende-se que o objetivo interdisciplinar escolar é o foco principal. Este
objetivo está compreendido em três níveis, sendo eles curriculares, didáticos e
pedagógicos. A percepção dos níveis da interdisciplinaridade escolar poderia ser
repensada em três planos de aprendizagem: “a disciplina no nível curricular, a
interdisciplinaridade no nível didático e a transdisciplinaridade no nível pedagógico”
(FAZENDA, 2008, p.87). Transpondo para o ensino superior, infere-se a competência no
nível curricular e a transdisciplinaridade no nível andragógico. A transdisciplinaridade, de
acordo com Theophilo Roque, propõe,
Transcender o universo fechado da ciência e trazer à tona a multiplicidade
fantástica dos modos de conhecimento, assim como o reconhecimento da
multiplicidade de indivíduos produtores de todos estes novos e velhos modos de
conhecimento (ROQUE, 2003)
Nesse sentido, pode-se afirmar que a transdisciplinaridade é composta por múltiplos
sistemas de níveis e objetivos. D’Ambrósio, em seu artigo sobre a Transdisciplinaridade
na Universidade, esclarece que,
O conhecimento é então encarado como modos, estilos, técnicas de explicar, de
conhecer, de lidar com a realidade como ela se manifesta em distintos ambientes
naturais e culturais. Obviamente, esses modos, estilos e técnicas não se realizam
no modelo disciplinar, nem mesmo nos seus variantes da multidisciplinaridade e
da interdisciplinaridade. Exigem uma visão transdisciplinar do conhecimento.
(D´AMBROSIO, 2014, p.2)
Consegue-se, através dos estudos, conjugar a transdisciplinaridade com a teoria pós-
crítica, quando D´Ambrósio (2014, p.3) afirma que em sua essência a
transdisciplinaridade é uma atitude de respeito “e mesmo humildade, com relação a
mitos, religiões e sistemas de explicações e conhecimentos, rejeitando qualquer tipo de
arrogância e prepotência.”. Logo se nossa sociedade almeja transformações que
interrompam o processo de incompreensão entre os indivíduos e os conflitos de todas as
ordens, causados principalmente pelas disputas de poder, é fundamental um olhar atento
para uma atitude transdisciplinar.
Compreender que a essência da transdisciplinaridade objetiva o resgate dos valores de
respeito e humildade é reconhecer que a fragmentação do conhecimento é grande
23
gerador de poder daqueles que detém o conhecimento em determinada disciplina
estimulando a competição em todas as esferas sociais, conforme esclarece D´Ambrosio
quando afirma que,
A essência da proposta transdisciplinar parte de um reconhecimento que a atual
proliferação das disciplinas e especialidades acadêmicas e não-acadêmicas
conduz a um crescimento incontestável do poder associado a detentores desses
conhecimentos fragmentados, podendo assim agravar a crescente iniquidade
entre indivíduos, comunidades, nações e países. Além disso, o conhecimento
fragmentado dificilmente poderá dar a seus detentores a capacidade de
reconhecer e enfrentar os problemas e situações novas que emergem de um
mundo a cuja complexidade natural acrescenta-se a complexidade resultante
desse próprio conhecimento transformado em ação que incorpora novos fatos à
realidade, através da tecnologia. (D´AMBROSIO, 2014, p.3).
Pode-se então, concluir que um docente através de uma atitude transdisciplinar, com
posturas diferentes da lógica binária, deve fazer uso da andragogia para o processo de
ensino aprendizagem, superando a visão fragmentada com compreensão da
complexidade que se dá os processos da vida.
24
CAPÍTULO 2 ANDRAGOGIA E HEUTAGOGIA
Para entender o conceito de Andragogia e Heutagogia é preciso um entendimento prévio
do processo de ensino aprendizagem e do conceito de Pedagogia, no entanto não é
objeto deste estudo um aprofundamento acerca de Pedagogia, visto que o
direcionamento é específico para o processo de ensino-aprendizagem do adulto que tem
suas especificidades. Revisita-se, neste estudo, os trabalhos de importantes estudiosos
como Freire, Malcom e Hase, para conceituação e compreensão destes termos.
2.1 Processo de Ensino Aprendizagem
Como o próprio termo explicita, processo de ensino aprendizagem é a forma como se
ensina e como se aprende. Partindo deste pressuposto, podemos considerar os estudos
de Saviani, Libaneo e Mizukami, que embora apresentem diferenças, é sintetizado pelo
trabalho de Santos (2005, p.11/12.), onde apresenta um resumo das abordagens que
reproduzo neste trabalho as que mais se aproximam do conceito de Andragogia.
25
Figura 1 Escola
Figura 2 Aluno
26
Figura 3 Professor
Figura 4 Ensino Aprendizagem
27
Revendo o conceito do processo de ensino aprendizagem e relacionando-o com o
indivíduo adulto podemos observar que:
...considera a aprendizagem um processo completamente interno controlado pelo
aprendiz e envolvendo todo o seu ser em interações com o ambiente à medida
que o percebe. Mas ele também acredita que a aprendizagem é um processo de
vida tão natural - e tão necessário - quanto à respiração. (ROGERS in
KNOWLES, 2011, p.53).
Com a compreensão do processo de ensino aprendizagem e suas abordagens, faz-se
necessário conceituar os termos Pedagogia, Andragogia e Heutagogia para promover a
reflexão crítica entre processo, métodos, sujeitos e objetos.
2.2 Andragogia e Heutagogia
O Termo Pedagogia tem origem na Grécia antiga e vem das palavras: "paidos" ("da
criança") e "agein" ("conduzir") (WIKIPEDIA, 2015). Freire, que escreveu diversos livros
sobre Pedagogia, a define “como uma ação cultural, diferenciando duas ações culturais
centrais: educação bancária e educação problematizadora.” (FREIRE, 2013, p.8) e não
especifica a quem se destina a aplicação, logo é cabível pensar que com o passar do
tempo o termo pedagogia adquire um sentido que vai além do “ensinar crianças”, amplia
sua ação ser aplicada ao ensinar as “crianças que cresceram”, porém com considerações
específicas para os jovens e adultos. Enquanto a criança necessita da “condução” do
professor para o conhecimento, o adulto não tem essa necessidade, então entre
pedagogia para crianças e “pedagogia” para adultos, temos uma diferença de atuação
de quem e como e para quem será aplicada.
Nesse cenário surge a Andragogia, termo não muito utilizado ainda nos dias de hoje, que
também tem sua origem derivada do Grego, nas palavras: “Andros” (“adulto”) e “gogos”
(“educar”). O Termo Andragogia foi proposto por Malcolm Knowles, na década de 70. De
28
acordo com Knowles, o professor passa a ser um facilitador e a responsabilidade passa
a ser do aprendente. No quadro abaixo, temos os princípios básicos da Andragogia.
Quadro 2 Princípios Básicos da Andragogia (Wikipedia, 2015)
1. Necessidade de saber: adultos precisam saber por que precisam aprender algo e qual o
ganho que terão no processo.
2. Autoconceito do aprendiz: adultos são responsáveis por suas decisões e por sua vida,
portanto querem ser vistos e tratados pelos outros como capazes de se autodirigir.
3. Papel das experiências: para o adulto suas experiências são a base de seu aprendizado. As
técnicas que aproveitam essa amplitude de diferenças individuais serão mais eficazes.
4. Prontidão para aprender: o adulto fica disposto a aprender quando a ocasião exige algum
tipo de aprendizagem relacionado a situações reais de seu dia-a-dia.
5. Orientação para aprendizagem:o adulto aprende melhor quando os conceitos apresentados
estão contextualizados para alguma aplicação e utilidade.
6. Motivação: adultos são mais motivados a aprender por valores intrínsecos: autoestima,
qualidade de vida, desenvolvimento.
Fonte: adaptado do site Wikipedia
Desta forma pressupõe-se que, “ninguém educa ninguém, ninguém aprende sozinho, nós
homens e (mulheres) aprendemos através do mundo” (FREIRE, 2013, p.103), ou seja, a
própria concepção de pedagogia de Freire vai de encontro ao conceito de andragogia,
“pois o indivíduo busca seu conhecimento através de suas vivências” (LEMOS, 2014,
p.2). Para comparar melhor os princípios de Pedagogia e Andragogia, observa-se a
tabela abaixo reproduzida do artigo de Matai (2006, p.7).
Quadro 3 Pedagogia x Andragogia
MODELO
PREMISSAS PEDAGÓGICO ANDRAGÓGICO
Necessidade
de Conhecer
As crianças aprendem, sem
questionar e saber para que serve o
que o professor ensina.
O adulto conhece a suas necessidades
e de forma pragmática, busca
conhecimento naquilo que tem
necessidade.
Autoconceito
do Aprendiz
O aprendiz é dependente do mestre.
O sistema afeta a auto-estima e
O adulto atua de forma independente,
com autonomia e se sente capaz de
aprender e de adquirir conhecimento
29
deprime ao colocar a capacitação do
aprendiz em dúvida.
de que necessita, inclusive sem a ajuda
do professor.
O papel do
Aprendiz
Não se valoriza a experiência do
aprendiz e sim a do professor e de
outros letrados. O aprendiz somente
tem que ler, ouvir, fazer exercícios
escolares.
A experiência do adulto aprendiz é de
importância central. A experiência do
professor e de outros letrados serve
somente como fonte de consulta, que
poderá ser ou não valorizada pelo
aluno.
Prontidão
para Aprender
O aprendiz sempre está disposto a
aprender o que o professor
determinar para ser aprovado.
O aprendiz adulto está pronto para
aprender aquilo que decide aprender, o
que considera significativo para as
suas necessidades.
Orientação da
Aprendizagem
Aprendizes são orientados a
aprender por disciplina, com
conteúdos específicos que lhe serão
futuramente necessários, na visão do
professor. A aprendizagem é
organizada pela lógica dos conteúdos
programáticos.
O aprendiz adulto orienta a sua
aprendizagem para o que tem
significado em sua vida – com
aplicação imediata, não para
aplicações futuras. O conteúdo não
precisa necessariamente ser
organizado pela lógica programática.
Motivação Aprendizes são motivados a aprender
por incentivos externos, como notas,
aprovação, reprovação, cobrança dos
pais e outros.
A motivação dos adultos está na sua
tendência à atualização, uma
motivação interna, sua própria vontade
de crescimento, sua auto-estima e sua
realização
Fonte: MATAI apud CAVALCANTI, 2005.
A partir da Andragogia, na forma de uma extensão que incorpora a auto-aprendizagem,
identifica-se o surgimento, através de Stewart e Hase e Chris Kenyon, do termo
Heutagogia, de origem grega, nas palavras: "heuta" ("auto") e "agogus" ("guiar")
(WIKIPEDIA, 2015).
Hase sugere que “há benefício na passagem da andragogia para a aprendizagem
verdadeiramente auto-determinada” (HASE, 2000, p.1) conceituando-a como
heutagogia. Para Hase heutagogia
30
Baseia-se na teoria humanista e abordagens à aprendizagem descrita na década
de 1950. Sugere-se que heutagogia é adequada às necessidades dos alunos do
século XXI, em particular no desenvolvimento da capacidade individual. Uma
série de implicações de heutagogia para o ensino superior e do ensino
profissional são discutidos (HASE, 2000, p.1).
De acordo com Hase (2000, p.2) a heutagogia pode ser vista como uma progressão
natural das metodologias educacionais anteriores e pode fornecer a melhor abordagem
para a aprendizagem no século XXI. Hase também reconhece que:
A informação é rápida e facilmente acessível; que onde a mudança é tão rápida
os métodos tradicionais de formação e educação são totalmente
inadequados; que o conhecimento baseado em disciplina é inadequado para se
preparar para viver em comunidades modernas e locais de trabalho; que a
aprendizagem é cada vez mais alinhada com o que fazemos; que estruturas
organizacionais modernas exigem práticas de aprendizagem flexíveis; e que
existe uma necessidade de rapidez de aprendizagem (HASE, 2000, p.3).
De uma forma geral, pedagogia pode ser caracterizada com um processo de ensino-
aprendizagem para a criança, onde o professor determina o que deve e como deve ser
aprendido, enquanto que na andragogia, o adulto é o centro do processo, surge a figura
do “facilitador” que determina o que será aprendido e o aluno como irá aprender e, por
fim, na Heutagogia, o próprio aluno determina como e o que irá aprender, representando
a aprendizagem autodeterminada.
2.3 Relação com uma nova estrutura Curricular
Pode-se sugerir que seja possível relacionar a Heutagogia com uma nova estrutura
curricular, de acordo com Hase, é possível relacionar sim, pois
Uma abordagem heutagogical reconhece a necessidade de ser flexível na
aprendizagem onde o professor fornece recursos, mas o aluno desenha o curso
real que ele ou ela pode levar ao negociar a aprendizagem. Assim, os alunos
podem ler em torno de questões críticas ou perguntas e determinar o que é de
interesse e relevância para eles e, em seguida, negociar novas tarefas de
leitura. Como professores, devemos nos preocupar com o desenvolvimento da
capacidade do aluno e não apenas a incorporação de habilidades com base de
31
disciplina e conhecimento. Devemos renunciar a qualquer poder que julgarmos a
nós mesmos para ter. (HASE, 2000, p.5)
Logo, a incorporação de habilidades com base de disciplina e conhecimento não são
mais importantes que o desenvolvimento da capacidade do aluno, é coerente afirmar que
uma organização curricular, sem disciplinas pré-fixadas, onde o processo de ensino-
aprendizagem se dá por meio de situações reais, que podem ser determinadas pelo
próprio aluno, a Heutagogia e uma nova estrutura curricular seriam complementares e
dependentes para o sucesso do processo num todo. Hase cita como exemplo
Modelos de aprendizagem baseada no trabalho que existem atualmente
demonstram como integrar o desenvolvimento de recursos humanos e gestão de
recursos humanos (HASE, 1998), que soam heutagogicamente. Estes modelos
desafiam as nossas formas de pensar sobre a aprendizagem e o aluno por: os
professores pensam mais sobre o processo do que sobre conteúdo, permitindo
aos alunos dar sentido ao seu mundo, em vez de fazer o sentido do mundo do
professor; forçando-nos a passar para o mundo do aluno e permitindo aos
professores olhar além de sua própria disciplina e teorias favoritas. (HASE, 2000,
p.6)
Como relacionar então? É possível verificar, através dos estudos que a relação se dá
exatamente pelo pressuposto da Heutagogia de que, quem determina o que quer
aprender é o aluno, logo não existe um currículo tradicional que atenda a necessidade
de desenvolvimento do adulto considerando seu próprio conceito.
32
CAPÍTULO 3 ATUAÇÃO DOCENTE
Após a exposição da história do currículo e suas teorias, dos conceitos de pedagogia,
andragogia e heutagogia e o processo de ensino aprendizagem, entende-se que se faz
necessário refletir como a atuação docente será articulada em um contexto curricular
novo. Para tanto é importante verificar como o docente deve se preparar e atuar de
acordo com todo esse cenário de transformação, quais as tecnologias atuais podem serusadas para atuação deste “mediador” do conhecimento e serem apropriados neste
contexto.
Entende-se a importância de verificar situações reais onde novas estruturas estão sendo
aplicadas no ensino superior demonstrando a atuação docente e como o mercado de
trabalho docente pode ser afetado com uma nova organização curricular.
3.1 A Ação Docente
Sabe-se que muitos docentes, atuam apenas baseados nos referenciais que carregam
dos antigos professores que pressupõe ser adequado para aplicação em sala de aula,
logo, para reflexão sobre a ação docente, o texto de Freire, determina bem seu significado
quando diz que, “na verdade, não nasci marcado para ser um professor a esta maneira,
mas me tornei assim na experiência de minha infância, de minha adolescência, de minha
juventude” (FREIRE, 2001, p.42).
Então qual deve ser a prática docente em uma nova estrutura curricular, organizada por
situações reais, transdisciplinar, visando alcançar a excelência na tarefa de ensinar o
aluno a aprender? Se a práxis docente se desenvolve no decorrer da experiência do
indivíduo que vem a tornar-se professor, a primeira ação a ser observada é a atitude do
33
docente diante da vida, seus valores éticos em relação à ética universal. Sem uma
conduta ética é impossível que o docente possa ser um mediador que transmita valores
humanistas, justos e morais para o aluno.
A segunda ação é ter humildade para aceitar que nos dias de hoje a internet provém todo
o conteúdo de que o aluno necessita, logo, o professor não é mais o detentor do saber
embora este fato não deva ser considerado fator desmerecedor da sua atuação enquanto
mediador que detém domínio sobre o conteúdo que o aluno deseja conhecer.
A terceira ação é conhecer e aprender a lidar com o ser humano, entender suas
características e através dessa prática, seja pela andragogia e/ou heutagogia promover
a capacidade do aluno em autodesenvolvimento, reflexão e pensamento crítico, político,
social de forma universal. Assim, é importante que o professor reflita e seja persistente
para enfrentar e transformar as rotinas. Em relação à reflexividade, Libâneo (2002) diz
que há duas formas básicas: a liberal e a crítica. Em relação à crítica, aborda a
reflexividade crítico-reflexiva como tarefa intencional e ativa dos professores, e identifica
modos de agir do professor a partir das seguintes características:
Fazer e pensar, a relação teoria e prática; Agente numa realidade social
construída; Preocupação com a apreensão das contradições; Atitude e ação
críticas frente ao mundo capitalista e sua atuação; Apreensão teórico-prática do
real; Reflexividade de cunho sociocrítico e emancipatório. (LIBÂNEO, 2002, p.
63).
A quarta ação, é ter a capacidade de se relacionar e dirigir entre todas as áreas do saber
para encontrar o ponto de convergência entre o todo e o seu conhecimento, facilitando o
ensinar através de situações reais e não de uma disciplina especifica, essa inter-relação
deve promover ações entre diversos docentes com seus saberes diferentes, agregando
valor ao aprendizado do aluno. Nesse aspecto é importante compreender que a noção
de deter o poder sobre determinado assunto necessita deixar de existir para que todos
compartilhem seus saberes para o bem comum, porém negar o poder não é abrir de
dominar o conteúdo, esse domínio é necessário para que o docente inspire a confiança
do aluno.
34
O docente também necessita evoluir, pesquisar, praticar o saber que domina e o saber
mediar o saber, visto que o mundo e a sociedade estão em constante evolução, não se
pode estagnar e acreditar que desta forma o sucesso no processo de ensino
aprendizagem será sempre o mesmo. É fato conhecido que existem docentes que
buscam seu desenvolvimento e não esperam acontecer, por amor ao ato de ensinar a
aprender, ultrapassando as adversidades que se impõem em sua trajetória de vida e
profissional e obtém verdadeiro sucesso por sua dedicação e, em alguns casos,
sacrifícios. De certa forma este direto está garantido pela Lei, porém é necessário que o
doente tenha seu desejo de evoluir e é importante destacar que no texto da LDB de 1996
(Art. 67) está previsto que deve ser assegurado pelos sistemas de ensino aos
professores, dentre outros: aperfeiçoamento profissional continuado, inclusive com
licenciamento periódico remunerado para esse fim e período reservado a estudos,
planejamento e avaliação, incluído na carga de trabalho (BRASIL, 1996).
Portanto, a formação continuada é uma necessidade e um direito, cabendo ao docente
fazer valer o seu direito e aos sistemas de ensino repensar os programas oferecidos,
favorecendo a uma formação crítico-reflexiva.
3.2 Tecnologia atual
Ao falar em tecnologia atual, a Internet surge como principal ferramenta de
disponibilização de conteúdo de forma dinâmica nesse cenário. Desta forma é possível
verificar que a velocidade com que o conhecimento muda e é disponibilizado fica quase
impossível que o professor que mantem a práxis tecnicista possa acompanhá-la e motivar
ou prender o interesse do aluno.
A própria rotina diária tem motivado o acesso a formas de aprendizagem diferenciadas,
como, por exemplo, a formação EAD, Certificações Tecnológicas a Distância, e até
35
mesmo Mestrado EAD, embora ainda de forma muito restrita e algumas de elevado custo
financeiro.
Desta forma conclui-se que o docente precisará preparar-se para um novo cenário
profissional, talvez um cenário em que as pessoas entrem no processo de ensino
aprendizagem virtualizado. Novas profissões certamente estão a surgir, assim como a
profissão de Design Instrucional e o docente deverá estar aberto para este novo cenário
visto sua responsabilidade em formação dos indivíduos para uma sociedade mais
humanizada e pacífica.
3.3 Motivação e Aprendizagem
Uma das tarefas mais difíceis do docente nos tempos atuais, considerando a tecnologia
oferecida e os métodos tradicionais de ensino que ainda existem nas instituições é a
motivar a autonomia em aprender, é aumentar o interesse do aluno em conteúdo que ele
pode acessar virtualmente quando bem lhe convier. De acordo com Freire entende-se o
professor como alguém que está ali para facilitar a autonomia e a aprendizagem do aluno,
porém de modo desafiador, fazendo com que o educando venha a perceber que cada
vez mais ele necessita aprender, de forma crítica.
Então como motivar o aluno adulto, que trabalha quarenta horas semanais no mínimo,
que vai para uma sala de aula, que talvez esteja ainda com formas de ensino tradicionais,
apenas pela necessidade de aquisição de um diploma que talvez possa garantir uma
remuneração um pouco melhor que a atual? A resposta talvez esteja em identificar o que
esse aluno, enquanto sujeito autônomo deseja aprender, liberá-lo da obrigatoriedade de
horário, tornando-o flexível a disponibilização do discente, deixando que ele decida em
que momento está mais disposto a aprender, a conhecer e a refletir. O papel do docente
nesse cenário é articulado com uma nova estrutura curricular, escolhida e determinada
pelo aluno, organizada por meio de situações reais e problematizada de acordo com a
36
sociedade em que vive. O docente atua formando este indivíduo integralmente. Luckesi
(2003, p. 11) aborda que a “formação integral do ser humano necessita abrir-se para uma
lógica transdisciplinar”, o que implica na inclusão de todas as linhas de desenvolvimento
do ser humano: cognitiva, afetiva, emocional, espiritual, ética, social, criativa.
3.4 Mercado de Trabalho
Pensar em mercado de trabalho é pensarno futuro, pois estamos constantemente
atravessando diversas mudanças no mercado de trabalho devido ao avanço da
tecnologia da informação e o próprio movimento de reordenação da Educação e o anseio
de transformação da sociedade com aumento progressivo de IES privadas e do método
de ensino a distância. Logo é cabível imaginar um futuro em que salas de aulas
presenciais sejam substituídas por laboratórios e estes estejam disponíveis para
docentes e discentes, de acordo com suas disponibilidades, sem obrigatoriedades, pois
o conteúdo pode ser disponibilizado virtualmente e os professores podem motivar seus
alunos em qualquer lugar e hora em que estejam conectados.
Assim é possível propiciar tanto ao docente quanto ao discente o tempo necessário para
pesquisa científica, para aprimoramento dos seus saberes e a ajuda mutua.
Observa-se que o mercado de trabalho está em adequação para um novo professor,
aquele transformado em designer de currículo, viabilizando a integração entre os
saberes, como já vem ocorrendo nos Estados Unidos. De acordo com Ronaldo Mota que
afirma que:
O professor designer de currículo é a expressão maior e mais completa do mestre
contemporâneo. Vai além de ministrar o conteúdo estrito senso, mas é também
responsável por preparar o educando para o hábito de aprender a aprender,
desenvolvendo habilidades de aprendizagem que são consideradas
imprescindíveis aos profissionais e cidadãos em um mundo centrado na
inovação. (MOTA, 2013, p1)
37
De acordo com Machado (2008, p.14) percebe-se que o docente de ser capaz de “além
da experiência profissional articulada à área de formação específica, (...), dialogar com
diferentes campos de conhecimentos e inserir sua prática educativa no contexto social,
em todos os seus níveis de abrangência”. E conforme Machado sintetiza,
o perfil do docente da educação profissional precisa dar conta de três níveis de
complexidade: a) desenvolver capacidades de usar, nível mais elementar 16
relacionado à aplicação dos conhecimentos e ao emprego de habilidades
instrumentais; b) desenvolver capacidades de produzir, que requer o uso de
conhecimentos e habilidades necessários à concepção e execução de objetivos
para os quais as soluções tecnológicas existem e devem ser adaptadas; e c)
desenvolver capacidades de inovar, nível mais elevado de complexidade
relacionado às exigências do processo de geração de novos conhecimentos e
novas soluções tecnológicas. (MACHADO, 2008, p.15)
Desta forma pode observar que surge gradativamente um novo movimento de
transformação profissional e do mercado de trabalho do docente.
38
CAPÍTULO 4 ORGANIZAÇÃO CURRICULAR POR MEIO DE
SITUAÇÕES
Neste capítulo discute-se o tema central deste trabalho, que é a proposta de uma nova
estrutura curricular organizada por meio de situações, sem ser fragmentada em
disciplina, considerando o ensino superior tecnológico como foco principal e seus
docentes e discentes. Apresentam-se fatores que pressupõe a necessidade de uma nova
organização curricular, o que existe em termos de Lei que favorece essa mudança e as
tendências atuais que consideram aplicável o tema deste trabalho, inclusive o modelo de
educação utilizado na Finlândia.
Apresenta-se neste trabalho um conjunto de pesquisas realizadas através de
questionários, com o objetivo de coletar a opinião e a vivência de docentes e discentes
do ensino superior tecnológico, a cerca de uma nova estrutura curricular,
transdisciplinaridade e os valores implícitos nesse contexto.
4.1 Fatores para nova estrutura
Considera-se um fator importante que um currículo organizado por situações culturais,
sociais e realistas com objetivo de resolver os problemas da sociedade em que está
inserido, por meio da educação. Desta forma poderá possibilitar uma transformação na
sociedade, visto que a resolução de problemas sociais por meio da educação, já é uma
tendência que reforça a necessidade de uma reforma curricular, considerando que as
reformas curriculares foram norteadas pela sociedade e para a sociedade, no decorrer
da história do currículo (FREIRE, 1993).
39
Atualmente, com o advento da Tecnologia, encontra-se qualquer conteúdo disponível de
forma virtual, logo qual o sentido de trazer 50 alunos para uma sala de aula e apresentar
um conteúdo que ele já tem acesso de qualquer lugar e em qualquer momento, onde
praticamente não existe novidade? Pressupõe-se que através de um conteúdo
transdisciplinar, com docentes atuando na prática da andragogia, favorecendo ao aluno
a capacidade de reflexão crítica sobre o saber e o motivando a pensar e a pesquisar.
Entretanto, não se pode considerar que sejam desnecessários os encontros presenciais,
pois são práticos para elaboração de projetos relacionados ao conteúdo e ao próprio
convívio do ser humano com outros, o que contribui para a sua formação.
Entende-se que o conteúdo deve estar de acordo com a necessidade da sociedade em
que docente e discente vivem. Portanto, modelos tradicionais de currículo, que não são
aplicáveis na prática podem inviabilizar movimentos criativos e inovadores, pois
considera-se que a realidade é complexa e diversificada e não pode ser compreendida
apenas olhando partes separadas e esquecendo de que tudo acontece de forma global
e unificada. Nesse contexto é necessário que se resgate os valores e os conhecimentos
produzidos de forma coletiva através da cooperação dos vários campos do saber. A
organização dos saberes de acordo com o artigo 5º da Carta da Transdisciplinaridade
(FREITAS, 2010) diz que a docência transdisciplinar deve ser aberta ultrapassando o
campo das ciências exatas devido ao seu diálogo e sua reconciliação não somente com
as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia. E, complementando
essa ideia, a construção de conhecimento também ganha consistência na experiência
espiritual como abordada no artigo 8º (FREITAS, 2010, p. 98):
A dignidade do ser humano também é de ordem cósmica e planetária. O
aparecimento do ser humano na Terra é uma das etapas da história do universo.
O reconhecimento da Terra como pátria, é um dos imperativos da
transdisciplinaridade. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas,
com o título de habitante da Terra, ele é ao mesmo tempo um ser transnacional.
O reconhecimento pelo direto internacional dessa dupla condição - pertencer a
uma nação e a Terra - constitui um dos objetivos da pesquisa transdisciplinar.
Também é possível verificar na Legislação um movimento que reforça o ensino superior
como alicerce para atender as demandas sociais, pois com a proposta do MEC -
Ministério da Educação e Cultura, os cursos superiores de tecnologia devem ser como
40
“uma das principais respostas do setor educacional às necessidades e demandas da
sociedade brasileira”, uma vez que o progresso tecnológico vem causando profundas
“alterações nos modos de produção, na distribuição da força de trabalho e na sua
qualificação” (BRASIL, 2002, p.2).
Assim, entende-se que estes são fatores para que possa refletir sobre uma nova
organização curricular.
4.2 Legislação
Sempre que ocorre a discussão sobre uma nova estrutura curricular é necessário recorrer
à legislação, sobre o que ela determina e permite que se aplique no âmbito curricular do
Ensino superior. Também podemos verificar, através de Delors (2001) que considera em
seus textos, quatro pilares que afirmar serem cabíveis na construção de uma nova
organização curricular, que são: “aprender a conhecer..., aprender a fazer..., aprender a
viver junto...; e aprender a ser." (DELORS, 2001, p.90).
Atravésdo CNE - Conselho Nacional de Educação, que instituiu as Diretrizes Curriculares
Nacionais Gerais para a organização e o funcionamento dos cursos superiores de
tecnologia, encontramos no Artigo 2º, que o curso deve “adotar a flexibilidade, a
interdisciplinaridade, a contextualização e a atualização permanente dos cursos e seus
currículos; ” (BRASIL, 2002, p.1), fator que corrobora para a proposta de uma nova
estrutura curricular.
Ainda nas Diretrizes Curriculares Nacionais, pode-se perceber que é cabível uma
organização curricular com aspectos, humanísticos, através do Artigo 6º,
41
§ 1º A organização curricular compreenderá as competências profissionais tecnológicas,
gerais e específicas, incluindo os fundamentos científicos e humanísticos necessários ao
desempenho profissional do graduado em tecnologia. (BRASIL, 2002, p.2)
Observa-se também que existe um apoio nas Diretrizes Curriculares em estabelecer
currículos experimentais, que pode ser considerado como uma nova organização
curricular, conforme apresentado no Artigo 14º,
Poderão ser implementados cursos e currículos experimentais, nos termos do Artigo 81
da LDBEN, desde que ajustados ao disposto nestas diretrizes e previamente aprovados
pelos respectivos órgãos competentes. (BRASIL, 2002, p.3)
Embora possa observar nas Diretrizes e na LDB nº 9.394/96, a liberdade em inovar no
âmbito da organização curricular, ainda é possível identificar que a burocratização infere
na limitação da inovação propriamente dita. Para completar ainda no decorrer da
elaboração deste trabalho, foi sancionada a Lei 13.168/2015, que altera o artigo 47º da
LDB 9394 e determina que “a lista das disciplinas que compõem a grade curricular de
cada curso e as respectivas cargas horárias; ” (BRASIL, 2015) deverá ser publicado
antecipadamente, o que pode acarretar a impossibilidade de oferecer um currículo
flexível no decorrer do curso com a ajuda do aluno em sua formação.
No PNE – Plano Nacional de Educação, também é possível que existe a
necessidade de mudar o foco para a aprendizagem do aluno conforme disposto
na estratégia 15.6, onde afirmar que deve-se “promover a reforma curricular dos
cursos de licenciatura e estimular a renovação pedagógica, de forma a assegurar
o foco no aprendizado do (a) aluno (a). (WEIGERT, 2014, p.82).
Ainda no PNE, também é possível identificar um fator importante na estratégia 10.6, que
determina
Estimular a diversificação curricular da educação de jovens e adultos, articulando
a formação básica e a preparação para o mundo do trabalho e estabelecendo
inter-relações entre teoria e prática, nos eixos da ciência, do trabalho, da
tecnologia e da cultura e cidadania, de forma a organizar o tempo e o espaço
pedagógicos adequados às características desses alunos e alunas. (WEIGERT,
2014, p.78)
42
Diante do exposto é factível afirmar que a Legislação apoia uma reforma na organização
curricular, considerando os pressupostos já apresentados neste trabalho, porém o
movimento para mudança deve ocorrer em todas as esferas envolvidas nesse processo
inerente à sociedade, não depende apenas de um único indivíduo, mas um indivíduo
pode iniciar essa mudança.
4.3 Tendências Atuais
Como tendência atual na organização curricular no Brasil, tem-se o currículo flexível na
Escola de ensino integral no Estado do Rio de Janeiro, o projeto do Estado de São Paulo
e o Método de Ensino do Instituto Ayrton Senna, que embora não seja para o Ensino
superior, demonstram que existe legítimo interesse em reformar a educação. O Estado
de São Paulo projeta para 2016, uma organização curricular onde o aluno poderá
escolher o que deseja aprender, objetivando atrair o interesse e o retorno do aluno para
o “aprender” (ESTADÃO, 2015).
No ensino superior brasileiro é apresentada uma nova organização curricular através do
Projeto PORVIR, onde a Universidade UniAmérica, de Foz do Iguaçu (PR), iniciou em
2014 um projeto onde não existe a divisão por séries e sem currículo organizado por
disciplinas (KALENA, 2014). O objetivo, segundo Kalena é
Oferecer ao aluno um aprendizado ativo e, com isso, aproveitar melhor cada
oportunidade de desenvolvimento que tem na universidade. Com a retirada da
divisão por disciplinar as competências são orientadas por projetos temáticos
semestrais, onde o aluno escolhe um problema real da sua comunidade para
trabalhar os temas daquele semestre. Neste projeto não existem aulas
expositivas, os conteúdos são estudos em qualquer lugar, o tempo de sala de
aula é destinado a debates, reflexões e problematizações com todos os alunos,
visto que não existem mais divisões por séries (KALENA, 2014).
A Universidade Minerva também apresentou uma revolução no ensino superior, com sua
proposta de substituição das suas aulas tradicionais por Seminários e dividiu as áreas do
43
saber em cinco: artes e humanidades, ciências sociais, ciências naturais e ciência da
computação e negócios (RODRIGUES, 2015, p.1).
No âmbito internacional temos o método de Ensino da Finlândia, considerado e atestado
pelo PISA (Programme for International Student Assessment, ou Programa para
Avaliação Internacional de Estudantes) como um dos melhores no mundo, equiparado
ao Ensino de Cingapura e da China, diferindo na questão da gratuidade, pois na Finlândia
apenas 3% das instituições de ensino são privadas. Observa-se em comum a valorização
do professor desde a pré-escola, o foco no aluno, o investimento e o planejamento na
utilização do mesmo, a descentralização, a valorização no aprendizado, em suma
conforme Marten (2003, p.1) reproduz em seu artigo: “Uma boa educação era vista como
um direito humano essencial relata Erkki Aho”. Os professores são altamente
capacitados, pois todos são graduados e por isso lhes é concedida a autonomia
necessária para determina o processo de ensino aprendizagem. Atualmente a Finlândia
está a aplicar uma nova reforma no ensino, onde a transdisciplinaridade é o foco central
da mudança, substituindo parcialmente o currículo por disciplina por um currículo por
fenômenos, onde não se estuda mais as disciplinas, porém tópicos onde se podem
aprender todos os saberes concomitantemente, com os alunos participando ativamente
do planejamento do currículo. O ensino superior da Finlândia se divide em Acadêmico e
Politécnico, este segundo prioriza formar profissionais que tragam soluções para os
problemas da sociedade, a organização dos seus cursos é realizada de acordo com
seguintes áreas: Recursos Naturais Tecnologia e Transportes Gestão e Administração,
Hotelaria e Economia Doméstica Cultura Humanidades e Educação (LOPES, 2000).
Já no Catálogo Nacional Brasileiro de Cursos Superiores de Tecnologia de 2010, têm-se
as seguintes áreas de acordo com o Ministério da Educação: Ambiente e Saúde, Apoio
Escolar, Controle e processos industriais, Gestão e Negócios, Hospitalidade e Lazer,
Informação e Comunicação, Infraestrutura, Militar, Produção Alimentícia, Produção
Cultural e Design, Produção Industrial, Recursos Naturais e Segurança.
Diante do resultado encontrado nessa busca por identificar as Tendências Atuais
referenciando ao Tema deste trabalho, pode-se perceber que existe um futuro promissor
44
no caminho de construir uma educação onde a organização curricular deixa de ser por
disciplina, contudo, essa mudança deve ocorrer desde sua base inicial, para que possa
se perpetuar no indivíduo durante toda sua trajetória.
4.4 Apresentação da Coleta e Análise de Dados da Pesquisa
Com base nos estudos apresentados, dispõe-se a análise dos dados coletados e os
resultados obtidos. Dessa forma, tentamos responder o problemamencionado na
introdução:
1. É possível despertar o interesse do educando do curso superior de tecnologia em
aprender e inovar, através de uma nova estrutura curricular organizada por meio
de situações reais, a fim de gerar valores para a sociedade em que vive?
A aplicação dos 3 questionários ocorreu através de meio eletrônico, ou seja, acesso à
internet. Foi divulgado em grupos de professores e de alunos da internet, mídias sociais,
e-mail e celulares. Suas respostas foram coletadas de forma anônima, para preservar a
identidade dos respondentes.
O primeiro questionário aplicado foi destinado a professores do ensino superior
tecnológico, com o objetivo de saber como os docentes compreendem o currículo. A partir
das respostas do questionário, obtivemos algumas informações sobre conhecimento em
relação ao tema organização curricular. Tal questionário está constituído de 5 questões
fechadas com múltipla escolha e espaço para comentário, conforme ANEXO A.
O segundo questionário aplicado foi destinado a alunos do ensino superior tecnológico,
com o objetivo de compreender a visão do aluno e a importância que o mesmo dispõe
sobre uma nova organização curricular. A partir das respostas podemos observar o
posicionamento dos alunos a respeito do tema. Tal questionário está constituído de 9
questões de fechadas com múltipla escolha e espaço para comentário conforme ANEXO
B.
45
O terceiro e último questionário aplicado também foi destinado a professores com o
objetivo de conhecer a opinião e entendimento sobre um currículo organizado por meio
de situações reais e transdisciplinaridade, conforme ANEXO C.
Questionário 1 – Quem são os Docentes que estamos pesquisando e como os
compreendem o Currículo Acadêmico.
Temos neste questionário 100% de professores atuando na rede privada de ensino
superior, embora não fosse o grupo específico.
Figura 5 Percentual de Docentes por Rede de Ensino
Desse total 75% acredita ser possível a aplicação de uma organização curricular
determinada por meio de situações reais. Um docente que respondeu negativamente
sobre uma nova organização curricular, argumentou que “conhecimentos básicos são
determinantes para a formação do indivíduo. Ademais, nosso sistema de ensino
fundamental e médio não ajudam o ensino superior”.
100%
0%0%
Percentual de Docentes por Rede de
Ensino
Privada
Pública
Ambos
46
Figura 6 Percentual de Docentes favoráveis ao Tema
Em relação a área de conhecimento, apesar de ter sido destinado ao Ensino Superior
Tecnológico, devido a pesquisa estar disponível na internet, obteve-se 75% de respostas
de Docentes de outras áreas de acordo com o gráfico da figura 7 e pode-se perceber que
mesmo em outras áreas também acredita-se que uma nova estrutura curricular é
possível, mostrando a compreensão do docente em relação ao tema.
Figura 7 Área de Conhecimento
75%
25%
Acreditam ser viável uma nova
estrutura curricular
Sim
Não
50%
25%
25%
Área de Conhecimento
Saúde
Tecnologico
Ciências Humanas
47
Questionário 2 – Pesquisa destinada a Professores do Ensino Superior
Tecnológico Sobre Organização Curricular
Neste segundo questionário, aplicamos questões que busca obter opiniões e
conhecimentos mais reflexivos sobre o tema. Cerca de 70% dos entrevistados já tinham
ouvido falar em organização curricular por meio de situações. Quando questionados
sobre a possibilidade de o docente interagir com outros professores na elaboração de
aulas em uma nova organização curricular, bem como destinar tempo para pesquisa
científica e encontros com colegas de outras especialidades, objetivando o planejamento
em conjunto e o foco no aprendizado do aluno, 90% dos entrevistados respondeu que
acredita ser positiva essa forma de atuação e que o profissional não será desvalorizado.
Alguns comentários foram significantes sobre a questão em si, que reproduzo neste
trabalho para conhecimento de todos.
“Seria muitíssimo interessante isto. Os professores vivem em correria e mal tem
tempo de preparar as suas aulas sozinhos. Especialmente aqueles que
trabalham durante o dia e dão aulas à noite. Seria muito interessante conseguir
juntar todos os professores de um determinado curso para desenhar as
integrações entre os assuntos e exemplos utilizados por todos. Mantendo uma
conexão entre a parte conceitual e prática de cada curso.” Entrevistado 1 (2015).
“Oportuniza uma produção coletiva que não necessariamente precisa ser
realizada com encontros presenciais. Assim, uma proposta de rede para trocas
de experiências, projetos tornariam relatórios enriquecedores e deles muitas
idéias e planos incríveis. Uma pesquisa formação em prática. Índico Edmea
Santos sobre esse assunto.” Entrevistado 2 (2015)
“Entendo que desta forma amplia a proposta da aula agregando visões e posturas
dos outros professores.” Entrevistado 3 (2015)
Os 10% dos entrevistados que não concordaram com a forma de atuação citada, optaram
por não deixar comentários.
Quando questionados sobre o conhecimento dos Termos de Andragogia e Heutagogia,
60% dos entrevistados responderam positivamente. Obteve-se um comentário
interessante relativo a um entrevistado que não conhecia os termos que deixou claro que
48
embora não conhecesse o termo, aplicava-o diariamente, conforme mensagem deixada
no questionário:
Na verdade, intuitivamente. Mas depois que fui ler os 6 princípios da
ANDRAGOGIA e o significada da HEUTAGOIA pude perceber que seguia estes
princípios no dia a dia das minhas aulas, onde muitos exercícios práticos são
desenvolvidos através do exemplos reais que cada aluno vive nos seus
trabalhos.” Entrevistado (2015).
Ao questionar aos entrevistados se concordam que atualmente com conteúdo disponível
para acesso online livre, a forma de transmitir o conhecimento é substituída pela forma
de ensinar a aprender e a pesquisar, teve-se a concordância de 60%, porém entre os
40% que discordaram, deixaram em seus comentários que acreditam ser uma agregação
e não substituição.
Quando o entrevistado foi questionado sobre acreditar ser possível motivar o aluno
adulto, trabalhador, no modelo curricular tradicional, obtivemos 62,5% de respostas
positivas, porém vale reproduzir os comentários obtidos nesta questão.
“Dizer que não é radicalismo. A motivação é mais difícil no modelo tradicional,
mas não é impossível.”
“É preciso que ele enxergue onde poderá aplicar aquele conteúdo na sua vida
real. Senão ele vai automaticamente se desmotivar e perder o interesse. Para
isto o professor tem um trabalho forte de tentar entender o dia a dia de seus
alunos para propor exercicios que sejam úteis para os mesmos no seu dia a dia.”
“O modelo tradicional fará com que cumpra o necessário para obtenção do
diploma, mas motivação fora de decorebas e respostas mais assíduas e
participativas creio que apenas se nesse modelo.curricular houver muita
criatividade e comprometimento, além de participação assídua dos educadores,
aí acredito que ele se motive e se envolva com o processo de ensino e
aprendizagem num modelo curricular tradicional.” Entrevistados (2015)
Considerando a proposta de uma nova estrutura curricular, questionou-se se era possível
neste contexto, criar o pensamento crítico no aluno de forma que o conteúdo mediado
fosse utilizado em prol de melhorias para a sociedade e 100% dos entrevistados
concordaram que é possível.
49
Quando questionados sobre promover a diversidade sobre raça, gênero, sexo, cultura,
numa sala de aula atuando sob o modelo curriculartradicional, 40% discordaram, o que
leva a crer que é através da vontade e atuação do docente que a transformação ocorre,
independente do modelo de estrutura curricular, visto que 100% destes entrevistados são
a favor da construção do pensamento crítico em uma nova estrutura curricular.
Ao questionar sobre o conceito de transdisciplinaridade para verificar se neste contexto
é possível favorecer o processo de ensino aprendizagem do aluno adulto do Ensino
Superior, 55% concordaram, porém não houveram comentários sobre esta questão.
Por fim, 90% dos professores acreditam que uma nova estrutura curricular aplicada desde
a base da educação, pode promover uma transformação na sociedade.
Questionário 3 – Pesquisa destinada a Alunos do Ensino Superior Tecnológico
Sobre Nova Organização Curricular
Este último questionário foi aplicado a alunos do ensino superior, porém tivemos como
respondentes, ex-alunos que desejaram participar.
Obteve-se mais de 90% de alunos que acreditam ser viável uma nova estrutura curricular
por meio de situações reais e sem disciplinas, promovendo o aumento do interesse do
aluno nas aulas.
Explicitou-se ao aluno o conceito de andragogia e questionou se concordava que este
deveria ser o método utilizado com alunos adultos, ou seja, o aluno aprenderia através
de experiências e não precisaria ser conduzido como ocorre com a criança. Obteve-se
60% de concordância, porém os 40% que não concordaram, afirmam que é necessário
que o aprendizado seja transmitido pelo professor.
Foi exposto ao aluno a experiência curricular sem disciplina na universidade UniAmérica,
e questionado se este modelo pode motivar e aumentar o interesse do aluno. Obteve-se
50
80% de concordância, porém ponderou-se que “depende do curso” e que não funcionaria
na área de Saúde.
Neste questionário, foi realizado o questionamento para resposta livre sobre como o
docente poderia motivar o aluno adulto do ensino superior e obteve-se aulas práticas e
situações reais com 50% de respostas em relação aos outros fatores conforme pode-se
observar na Figura abaixo.
Figura 8 Fatores que podem motivar o Aluno
Cerca de 90% dos alunos entrevistados em questões mais específica, acreditam que são
Flexibilidade de horários e de local de estudo motivam os alunos, que a conduta ética do
professor influencia na conduta do aluno e que no futuro o ensino superior ficará livre da
obrigatoriedade de disciplinas, horários rígidos em função da crescente evolução
tecnológica. O que demonstra que uma nova organização curricular, pautada nestes
aspectos pode se tornar uma realidade no futuro.
Quando questionados sobre o método atual ser capaz de fomentar nos alunos a vontade
de transformar a sociedade através do conhecimento adquirido em contrapartida da
51
vontade de obter diploma e um salário melhor, 60% concordaram que sim, ainda é
possível, o que demonstra que também nesta situação a vontade do indivíduo prevalece
sobre qualquer método que seja utilizado.
Por fim identificamos os cursos dos entrevistados de acordo com a figura abaixo.
Figura 9 Cursos dos Entrevistados
52
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao iniciar esse trabalho tinha-se como tema principal a proposta de uma nova estrutura
curricular para o ensino superior de tecnologia, que fosse permeada de ação humana e
princípios éticos e, desta forma, buscar a solução para o problema do desinteresse e falta
do aluno desta modalidade de ensino, propondo como possível solução, a organização
do currículo por meio de situações reais, e neste contexto de realidade proporcionar a
geração de valores para a sociedade, tendo este processo conduzido por um mediador
não só de conteúdo, mas de experiências reais, embasado numa forma mais humana e
participativo do processo de ensino-aprendizagem, descentralizando o poder que lhe
cabe ainda nos dias de hoje.
Ao realizar a pesquisa de aprofundamento teórico em busca de proporcionar aos
docentes e alunos insumos para reflexão e de uma solução que fosse capaz de responder
a problematização do tema, foi necessário, primeiramente, buscar a compreensão dos
conceitos básicos do termo Currículo e sua história pregressa. Durante o estudo pode-se
observar que as constantes mudanças ocorridas na organização curricular estiveram
diretamente vinculadas ao momento político e social em que ocorriam, inclusive se
verifica essa afirmativa através das Teorias curriculares, que vieram se formando sempre
associadas ao momento político vivenciado pela sociedade. Verifica-se que estamos no
momento de teorias pós-críticas e que seu conceito colabora diretamente com o Tema
proposto neste trabalho quando se define como uma teoria que apresenta a
descentralização do poder. Pesquisou-se, também, sobre o componente básico do
currículo, a disciplina e encontram-se as dimensões Interdisciplinares e
Transdisciplinares, que promovem uma mudança em sua organização, confirmando o
tema proposto no trabalho como uma necessidade atual.
Entende-se que não é apenas necessário a compreensão do currículo e suas
características e histórias, mas também é necessário compreender como lidar com o
aluno adulto e suas peculiaridades. Segue-se, então, com o aprofundamento sobre as
teorias do processo de ensino-aprendizagem para o adulto, que sem dúvida difere do
53
processo de ensino-aprendizagem da criança e ao compreender as teorias sobre
Andragogia e Heutagogia, identifica-se que são processos capazes de motivar o aluno
adulto e que se adequam a uma nova estrutura curricular, visto que esse processo é
controlado pelo aluno adulto e envolve suas interações com o meio em que vive
aprendendo melhor os conceitos quando são apresentadas alguma aplicação ou
utilidade, logo, por meio de situações reais. A flexibilidade existente nesses conceitos
reforça que não é necessário a existência de disciplina e conhecimento, e sim o
desenvolvimento da capacidade do aluno tornando a organização curricular sem
disciplina o meio mais adequado para esse desenvolvimento.
Após a contribuição da compreensão dos conceitos básicos de currículo e suas teorias,
da compressão do processo de ensino-aprendizagem do aluno adulto e sua relação com
uma nova organização curricular, entende-se que também era necessário compreender
a ação docente e verificar como o docente poderia contribuir em um novo modelo de
organização curricular. Nesse aspecto tem-se refletida a necessidade de atualização do
professor na prática docente andragógica e em seu desenvolvimento, seja pela forma da
Lei ou por vontade própria. Esta pesquisa contribui para verificar que mais depende do
docente a vontade de inovar e participar do processo de organização de uma nova
estrutura curricular do que o próprio problema em si, o problema continuará existindo
enquanto não houver vontade, incentivo e pré-disposição para quebra de paradigmas.
Dentro da atuação docente na atualidade, verificamos que sem dúvida é necessário a
adequação à nova realidade tecnológica, e seu posicionamento diante de um aluno, que
decide o que aprender e sabe onde buscar o conteúdo através dos meios virtuais. Nesta
atuação docente, que objetiva aumentar o interesse do aluno, encontramos novamente
a necessidade deste docente atuar de forma transdisciplinar para promover a formação
integral e motivadora do aluno. Todos esses aspectos estudos implicam em uma
transformação do profissional docente o que pode gerar uma gradativa mudança no
mercado de trabalho, buscando por um profissional adequado a novas estruturas
curriculares.54
Para finalizar o estudo, buscou-se fatores na literatura de Paulo Freire e na Legislação
Brasileira, realizando pesquisa sobre tendências atuais, legislação atual e pode-se
verificar que já se encontram muitas orientações sobre transdisciplinaridade e o ensino
voltado para situações reais, tornando o trabalho um verdadeiro instrumento de reflexão.
Saiu-se em campo, através do ambiente virtual, para conhecer a opinião de alunos e
docentes sobre o tema e a problematização proposta neste trabalho. Realizou-se 3
questionários onde foi possível identificar que a maioria concorda com mudanças na
organização curricular e acha positiva a proposta desse estudo, contudo, cerca de 40%
acreditam que a estrutura tradicional também pode resolver o problema, que depende da
vontade tanto do aluno quanto do docente. Percebeu-se que é unanime que atualmente
existe desmotivação e desinteresse em aprender e que o ensino é apartado da realidade,
colaborando ainda mais para a desmotivação. Já os docentes acreditam ser possível a
nova estrutura, porém apenas para cursos de ensino superior tecnológico, e a maioria
afirma que o mercado valorizaria ainda mais professores que desenvolvessem todas as
capacitações considerando conceitos de transdisciplinaridade, andragogia e estrutura
curricular. O resultado destas pesquisas, contribuíram para confirmar a necessidade que
ambas as partes têm de mudanças no ensino e que a proposta é viável e positiva.
Diante do estudo exposto acreditamos que conseguiu-se apresentar a evolução histórica,
conceitos e teorias sobre o tema currículo, entender o processo de ensino-aprendizagem
para adultos através da andragogia e relacioná-la a organização curricular, verificar
fatores para que o docente atue de forma positiva neste novo contexto formando alunos
inovadores e motivados e demonstrar os modelos atuais aplicados em outros países bem
como a aderência da legislação vigente à proposta. Por fim conseguiu-se alcançar o
objetivo de embasar e propor uma nova estrutura curricular e trazer a reflexão o confronto
com o modelo tradicional.
55
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Filmes
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Produção de Marina Fontolan. Realização de Rtv Unicamp. Coordenação de Dialogo
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Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=Zs0NnjovFQ4>. Acesso em: 02 nov.
2012.
66
ANEXO A
Como o docente compreende o Currículo
O Docente e sua visão do Currículo Acadêmico
Este questionário faz parte da Monografia de Ensino Superior e visa identificar o que o docente
de cursos superior de tecnologia (graduação) entende sobre currículo acadêmico ou organização
curricular do curso.
1. Sua atuação como professor é em uma IES (Instituição de Ensino Superior):
Pública
Privada
Ambas
2. Atua em que área de saber?
CIÊNCIAS EXATAS E DA TERRA
CIÊNCIAS BIOLÓGICAS
ENGENHARIAS
CIÊNCIAS DA SAÚDE
CIÊNCIAS AGRÁRIAS
CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS
CIÊNCIAS HUMANAS
LINGUÍSTICA, LETRAS E ARTES
3. Qual sua especialidade?
4. Acredita ser possível a prática docente num contexto curricular sem disciplinas, onde a
organização se dá por situações reais, e o próprio aluno determina o que quer aprender e
como quer aprender, partindo do princípio da heutagogia e andragogia?
Sim
Não
5. Se é possível a prática docente em um currículo sem disciplinas, como seria essa prática?
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ANEXO B
Um currículo transdisciplinarorganizado por situações reais
Pesquisa destinada a Professores do Ensino Superior Tecnológico - Sobre Organização Curricular
Esta pesquisa destina-se a obtenção da opinião dos professores sobre uma nova organização
curricular, onde as disciplinas são substituídas por situações reais. Parte-se do pressuposto que a
organização atual não motiva nem prende o interesse do aluno adulto e busca-se além de motivá-
lo, permitir que ele esteja livre para inovar e criar. Este estudo será utilizado em Trabalho de Pós-
Graduação de Docência Superior, onde se propõem a reflexão sobre uma nova estrutura curricular
visando motivar os alunos e gerar fatores de transformação para nossa sociedade que anseia por
qualidade de vida e acima de tudo, por PAZ.
1. Professor, já ouviu falar na organização curricular por meio de situações no ensino superior?
Sim
Não
Por favor, diga qual o seu curso.
2. Nesta proposta o professor necessita interagir com outros professores para elaboração da aula
bem como destinar parte do seu tempo para pesquisa científica e encontros com outros colegas
de diversas especialidades, está seria uma atuação docente diferenciada onde todos teriam que
planejar juntos e o foco seria o aprendizado do aluno e não somente o conteúdo. Professor,
acredita ser positiva esta forma de atuação?
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário.
3. Professor, partindo da questão anterior, acredita que esta forma poderá desvalorizar o
docente no aspecto mercadológico da profissão?
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário
4. Professor, você utiliza o conceito de ANDRAGOGIA/HEUTAGOGIA na sua prática docente?
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário
5. Professor, considerando o conceito de HEUTAGOGIA (aprendizagem auto direcionada em que
o aluno é o gestor e programador de seu próprio processo de aprendizagem através do
autodidatismo, autodisciplina e auto-organização), concorda que atualmente com conteúdo
disponível para acesso online livre a forma de transmitir o conhecimento é substituída pela forma
de ensinar a aprender e a pesquisar?
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário
68
6. Professor, é possível motivar um aluno que trabalhou o dia inteiro e fazer com que ele se
interesse pela aula e que pode estar cursando o ensino superior apenas para obtenção de um
diploma com o modelo curricular tradicional?
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário
7. Professor, acredita que é possível criar no aluno o pensamento crítico para que o conteúdo
mediado seja usado em favor de melhorias para a sociedade em que vivemos? Se desejar coloque
como no campo comentários.
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário
8. Professor, é possível, através do currículo tradicional e métodos tradicionais, atuar com a
diversidade de culturas e comportamento dos alunos numa sala de aula de forma a produzir
reflexões positivas sobre as diferenças existentes, de raça, gênero, sexualidade, religião e
cultura?
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário
9. Professor, um currículo transdisciplinar no Ensino superior pode favorecer o processo de
ensino aprendizagem?
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário
10. Professor, vivemos numa sociedade em que ir para faculdade estudar é apenas uma forma
de ganhar status, remuneração melhor, obrigação, etc... É possível transformar essa concepção
através de uma reforma na educação desde a base até o ensino superior, priorizando uma nova
estrutura curricular?
Sim
Não
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ANEXO C
Uma Nova Estrutura Curricular no Ensino Superior Tecnológico
Esta pesquisa é destinada a alunos do ensino superior tecnológico
O objetivo desta pesquisa é a coleta de dados sobre a opinião dos alunos a respeito do ensino superior
tecnológico como parte complementar do TCC de Docência Superior. Os dados coletados servirão para
comprovar ou não a necessidade de reforma do ensino superior tecnológico para a sociedade neste
momento atual em que vivemos. Pretende-se com a reforma, gerar cidadãos conscientes da sua
interação com o ambiente e a necessidade de inovar, mudar, melhorar e construir uma sociedade
PACIFICA.
1. Aluno, é possível que uma organização curricular sem disciplinas, mas por situações reais, possa
proporcionar um aumento no interesse dos alunos nas aulas?
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário.
2. Aluno, de acordo com novos estudos a pedagogia deveria ser aplicada apenas a crianças e a
andragogia a alunos adultos, pois estes não precisam ser conduzidos e buscam seu conhecimento
através de experiências, concorda que a relação do professor com o aluno deve ser orientada ao
conceito de andragogia?
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário.
3. Aluno, Atualmente temos a universidade UniAmérica que aplica uma nova organização curricular
que não utiliza disciplinas, nesta universidade os alunos escolhem quando e como querem aprender
e adquirir conhecimentos, os professores são mediadores e as salas possuem alunos de diversos
cursos e todos interagem de forma transdisciplinar, acredita que essa forma de organização pode
motivar e aumentar o interesse do aluno adulto?
Sim
Não
Se desejar deixe um comentário.
4. Aluno, por favor, escreva como acha que um docente do ensino superior tecnológico pode atuar e
motivar o aluno
5. Aluno, acha possível que um ensino onde há flexibilidade de horário e de local de estudo, motivar
e aumentar o interesse do aluno? horários livres
Sim
Não
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6. Aluno, acredita que um professor com conduta ética pode influenciar a conduta do aluno?
Sim
Não
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7. Aluno, acredita que no futuro o ensino superior não terá mais a obrigatoriedade de rigidez
disciplinar, horários e presença, em função da evolução tecnológica crescente?
Sim
Não
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8. Aluno, acha que no atual método de ensino superior é possível promover no aluno adulto o desejo
de transformar a sociedade através do conhecimento adquirido e não de exclusivamente o desejo de
ser o melhor, conquistar o melhor emprego e finalmente ganhar dinheiro para si?
Sim
Não
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9. Qual o seu curso?